domingo, setembro 26, 2021

Foto-reportagem: um cachorrinho em família

 

A noite do bebé foi boa. Ficou tranquilamente na sua casota. O colchão é ligeiramente almofadado e de um tecido macio e quentinho que parece de flanela. Mesmo assim receei que tivesse frio e pus uma toalha turca. Acho que ficou aconchegadinho. E o lugar em que ficou é abrigado. Mas as noites estão frias. A minha mãe diz que vai fazer-lhe uma mantinha de lã.

De manhã ainda dormia. Depois andou atrás do meu marido pelo jardim, como se o conhecesse desde sempre. Tal como acontecia com a nossa cadelinha boxer, também este parece que vai estabelecer uma relação com o meu marido diferente da que estabelece comigo. Com ele, segue-o e já obedece à chamada. Comigo, dá freneticamente ao rabinho, salta e dá latidos de desafio, quer brincadeira.

Não temos daquelas caixas em que acho que se transportam os animais no carro.

Com a nossa boxer não havia cá coisas. Geralmente ia no banco de trás, entre os 'manos', na mariquice ou na brincadeira com eles. Quando vínhamos do campo, como comia de tudo o que apanhava, incluindo erva, dava puns horríveis. Tínhamos que vir de janela aberta. Toda a gente se zangava, lhe dizia que pusesse uma rolha, e acabava por ser uma risota. Quando ia só connosco, abríamos a cobertura do porta bagagens e ia lá atrás. Era carrinha e, portanto, ia ali à larga. 

Tenho ideia que isso agora já não é permitido. Como este ainda é bebé, não dá para lhe pôr aquela coisa que vi na loja para prender ao cinto de segurança. Por isso, para ir ao veterinário, voltámos a pô-lo no caixote de cartão, no banco de trás. Mas não gosta.

Quando fomos buscar a minha mãe, punha-se de pé virado para mim. Vou também no banco de trás para verificar que vai bem. Com as curvas, lombas ou abrandamentos, caía. Um desassossego. O meu marido disse que era melhor levá-lo ao colo. Foi o que ele e eu quisémos ouvir. Aconchegou-se e adormeceu. Um tufinho de pelo quentinho ao meu colo.

Claro que, ao fim do dia, tenho forçosamente que tomar banho e pôr toda a roupa para lavar. Com um raposinho mal cheiroso ao meu colo, não posso correr o risco de ir para a cama a cheirar a cão.

De manhã, quando saímos do veterinário, vinha o meu filho e família a chegarem a casa. O veterinário é na rua dele. Entrámos para o jardim, por breves minutos pois estávamos com pressa para ir ao supermercado, almoçar e ir buscar a minha mãe. E, às tantas, a minha nora lembrou-se de rebolá-lo num arbusto de alecrim. Uma bolinha peluda, a ser rebolada e perfumada .A verdade é que ficou bem menos mal cheiroso.

E, escuso de dizer, esta tarde estivemos todos juntos a 'curtir' a coisa mais fofa. 

Tendo vir a dormir profundamente para cá e para lá, quando se viu no jardim rodeado por pernas e mãos, brincadeiras, colinhos, festinhas e carinhos espertou e parecia ele que já conhecia toda a gente desde que tinha nascido. Há menos de vinte e quatro horas estava no monte, no meio de outros cães e de ovelhas. E agora aqui está, entre crianças e adultos, ao colo, a receber presentes e mimo. E sociável, saltitão, brincalhão, feliz da vida.

Não está toda a gente nas fotografias que aqui partilho mas, já agora, informo que numa das fotografias sou eu que ali estou. Noutra está a minha mãe. Estão os meus filhos, a minha nora, estão as pernas ou braços de alguns dos meninos. Tirei umas muito engraçadas com ele enleado nas pernas do meu marido. Mas mexia-se tanto que ficaram todas muito desfocadas. Aliás, parte das fotos padeceu desse mal pois ele mexe-se muito rapidamente e, como é escuro, torna-se mais difícil de focar quando está em grande movimento.

Mas, mais ou menos focado, aqui está o nosso novo familiar no primeiro dia passado integralmente connosco.

Lots of love.



























E agora vou já, já, dormir. Estou que não me aguento. 
E este domingo tenho que votar e a ver se vou cedo.

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E tenham, meus caros, um belo domingo
E votem bem. Ficar em casa é que não, ok?

sábado, setembro 25, 2021

Serra de Aires, 2 meses, lindo e fofo que só visto

 

Já o conhecem, pois. Não resisti a mostrá-lo mal liguei o computador.

Tínhamos resolvido que queríamos adoptar. Mas, já numa tentativa anterior, tínhamos tido uma má experiência. Pensámos que uma vez não são vezes e reincidimos.

Agora, num dos casos, a minha filha viu uma ninhada de fofuras. Informou-se e já estávamos para lá ir quando, no meio da conversa, a gerente lá daquilo perguntou se não era para ela. Quando disse que era para os pais, veio de lá a resposta que, nesse caso, não podia ser. Cachorros só para gente sem o fim à vista. Quando ela, indignada, me contou fiz contas de cabeça: a criatura estava a decretar-me um remanescente de esperança de vida inferior à do cão....? Pensei que a dita criatura não deve conhecer as estatísticas relativas à esperança de vida. Mas mesmo que não estivesse a decretar-me uma morte prematura, estava, no mínimo, a decretar a minha incapacidade para tomar conta de um cão daqui por meia dúzia de anos. Fiz às contas à idade da minha mãe. Vai a caminho dos oitenta e nove, anda na ginástica, na universidade sénior, faz caminhada, trata da casa e está fresca e pronta para tratar de meia dúzia de cães.

Mandámos bugiar a matrafona do canil (que é daqueles canis com página de facebook e muito apoio e muita divulgação) e virámo-nos para um muito conhecido, muito amplo, com muito boas condições e largas centenas de cães para adoção.

Consultei numa noite e vi um Serra de Aires que me encantou. Quando, no dia seguinte, fui confirmar e marcar uma visita, já lá não o vi no site. Tentei perceber o que se tinha passado mas não me explicaram. Vi um outro, rafeiro, com meia dúzia de meses, que me pareceu vivo e bonito. Quando lá chegámos, disseram que estava reservado e que iam umas pessoas vê-lo nesse dia. Vimos, então, uma outra, já com mais de um ano, mas doce e linda. Veio ter connosco, dócil. Gostámos muito dela. De notar que nem a gerente nem a funcionária que começou por nos acompanhar mostrou qualquer interesse em que adoptássemos um cão. Ou não nos ligavam nenhuma e nós que andássemos por ali, sozinhos, no meio de dezenas de cães à solta, ou respindiam laconica e algo displicentemente. De cada vez que pedíamos informação, respondiam de forma desinteressada. O meu marido, numa de ir conversando enquanto andávamos, perguntou se havia muita gente a querer adoptar. A gerente respondeu secamente que ela é que não dava os cães a qualquer pessoa. Uma resposta algo intrigante. O meu marido explicou que queríamos um cão minimamente de guarda, que desse alerta caso algum intruso entrasse no terreno mas que, ao mesmo tempo, fosse meigo e cuidadoso com as crianças. A gerente disse que aquela de que tínhamos gostado não era nem um pouco de guarda, que se entrasse um ladrão, ela iria acompanhá-lo só para receber festas.

Face a isso, dissemos que íamos pensar, que a reservassem e que, no dia seguinte, também veríamos se o outro cachorro sempre tinha sido adoptado; e resolveríamos.

No dia seguinte, enviei mail a saber do cachorro.

Não responderam e, em contrapartida, disseram que déssemos o contacto para que viessem cá inspeccionar a casa. Outra vez. Essa tinha sido a razão pela qual há uns meses tínhamos desistido. Achei aquilo um abuso. Falei com o meu marido que disse para eu dizer que em casa não entravam. Como estava mesmo resolvida a adoptar um cão, fui cuidadosa na resposta. Disse que, por causa da pandemia, não recebíamos estranhos à família dentro de casa mas que poderiam ver por fora e ver o jardim já que o cão iria ficar numa casota no jardim. E voltei a perguntar se o outro cachorro sempre tinha sido adoptado.

De volta recebi um mail espantoso: diziam que não dariam o cachorro se era para ficar numa casota na rua, exigiriam que ficasse dentro de casa, e se um cão poderia ficar dentro, não achavam bem que a cadela ficasse na rua. E que, por isso, para evitar perder tempo, cancelavam o processo de adopção.

Fiquei vesga a olhar para aquilo. Vesga e de olhos em bico, sem conseguir alcançar a lógica do que estava a passar-se. Encaminhei o mail para o meu marido. Respondeu: 'manda-as à m...', com todas as letras.

E os meus filhos e a minha mãe disseram o mesmo (por outras palavras). Gente doida. Com centenas de cães supostamente por adoptar e depois impedem a adopção.

A minha filha falou com uma cunhada que é veterinária que lhe disse que a malta destas associações é gente passada, que é para esquecer. E que o melhor seria os canis municipais. 

Virámo-nos para aí. Mas a maior parte dos cães já têm alguma idade e, com crianças pequenas que, na brincadeira, volta e meia andam engalfinhadas, receamos que os cães interpretem mal e se assanhem e os magoem.

Então, virámo-nos para o olx. O meu filho viu um pointer muito bonito mas puxou para o lado dos boxers. Já os conhecemos, sabemos que é gente boa. O meu marido na dúvida. Mas eu não queria pensar em ter um cão igual à minha cãzinha linda. Iria fazer-me impressão. Parecer-me-ia uma reencarnação. E o pointer parece ser meigo, inteligente, leal, territorial. Focámo-nos, pois, no pointer e marcámos uma ida até ao criador.

Mas, então, o meu marido foi ler melhor as características: enérgico, precisa de muito exercício, de desafios, que não lhe bastaria brincar no jardim, quereria ter missões, correr muito, corresponder aos reptos. E que, se não tivesse isso, poderia provocar desmandos e ser algo destruidor. E seria um cão muito grande. Então ele pensou que, na volta, estaríamos a meter-nos em trabalhos. Desistimos do pointer.

Então, fui eu para o olx. E eis senão quando dou com um cachorrinho Serra de Aires. Voltei a sentir aquela coisa. Há também coup de foudre com animais. Pelo menos comigo há. Enviei mensagem. Passado um bocado, do Alentejo alto e profundo, recebi uma chamada. Por entre o som de badalos, o senhor elucidou-me. Quando o meu marido chegou, falou com ele. Fez perguntas. E combinou que esta sexta-feira, ao fim da tarde, lá estaríamos. Ele avisou que, quando anda com os rebanhos, em muitos sítios não tem rede mas que a gente esperasse ou fosse tentando.

De notar que eu, como premissa, tinha só uma. Ou melhor: duas. Não queria boxer e não queria cães com pêlo.

Acontece-me isto às vezes: parto de um pressuposto, tudo menos isto. No entanto, não sei como, dou voltas e voltas e vou acabar rompendo o que era o único pressuposto. Cão mais cabeludo que o Serra de Aires não pode haver. 

E, então, lá fomos. Quando vimos o cachorrinho imediatamente, por instinto, peguei nele ao colo. O meu marido é que é entendido em cães mas nem teve hipótese pois nem pensei nem por um segundo, agarrei-me logo a ele. O meu marido viu aquele amor súbito e converteu-se. Além do mais, também achou que o cão é lindo. Entretanto, tinha lido as características e tinha concluído que assentava como uma luva nas características pretendidas.

Para o trazermos, o meu marido arranjou uma caixa de cartão que tínhamos na garagem e, pelo caminho, comprámos um colchãozinho. Foi assim que veio.

Entretanto, pedimos ao meu filho que fizesse o favor de lhe ir comprar uma casota. Temos a casa do cão, de cimento, mas fica mais longe e é muito grande. Além do mais não é espaço vedado e ele ainda é muito pequeno. E, de noite, algum bicho poderia fazer-lhe mal. Esta casota é mais pequena e fica no terraço, debaixo do toldo da cozinha, num pequeno recinto fechado.

Quando viemos do Alentejo, fomos buscar a casota e o meu marido já a montou.

Cão de campo e de rebanho não é cão amaricado, que chora se está sozinho. Este, coisa mais fofa, quando apagámos a luz, ficou a dormir sossegadinho. Antes comeu um bocadinho de ração, bebeu água, brincou, deu ao rabinho, esteve ao meu colo.

Este sábado a ver se vamos ao veterinário: não tem vacinas nem está desparasitado nem nada. É bebé, bebé. Supostamente é um puro mas não interessa. Interessa é que é uma doçura e que os miúdos vão adorar.

Pelo caminho íamos falando em nomes. O meu marido dizia Beat (de beatle, pelo cabelo e pela franja). Gostei mas achei que deveria ser o nome do cão da princesa Margaret das histórias que invento pois seria a materialização de um velho conhecido. O meu marido achou bem. Os meninos também. E acho que ele, o bebé mais fofo, também. Chamo-o e ele olha e dá ao rabinho. Coisa mais, mais fofa.

Amanhã já vou ter, com certeza, mais fotografias. Hoje ainda não tenho.

E agora vou dormir. São duas da manhã e o dia foi para lá de puxado. E este sábado o programa vai ser animado. Tenho que descansar. 

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Tenham, por favor, um belo sábado

E eis que ele saiu das minhas histórias e veio para o meio de nós

 

A coisa mais fofa, mais linda, mais brincalhona e mais doce. Dois meses cheios de graça. 

E já conto como aconteceu. Mas, para já, aqui está para que conheçam o mais recente membro da minha família.


sexta-feira, setembro 24, 2021

Brocado

 


Dia muito complicado. Reuniões, situações complexas, dúvidas sobre a melhor forma de atacar os problemas. Por vezes, não as meço e ouço-me a cortar a direito. E depois, quando acabo, o silêncio. A seguir, alguns segundos depois, o apoio. Mas conheço-o bem. Aprecia o meu estilo mas, quando assiste em directo, fica sem saber como me acompanhar. Se a coisa dá para o torto, atiro para não falhar. Ele não. Se a coisa dá para o torto ele mostra desconforto e espera que isso seja suficiente. Não é. Não é o desconforto que move montanhas. Penso, por vezes, que teria sido prudente da minha parte, em vez de saltar em cima a pés juntos, mostrar enfado, ar incomodado. Mas depois penso: o que tenho a perder? E sei a resposta: nada. Portanto, para quê dar-me ao trabalho de ser quem não sou?

Às tantas, no meio da conversa, alguém disse a propósito de uma empresa accionista de uma outra empresa: quando a empresa ainda era nossa... (e continuou a frase justificando uma série de disparates). Ouvi, perplexa, o que parecia ser um raciocínio escorreito mas em que, na verdade, não se aproveitava uma. Não disse nada pois estava em público e porque a única coisa a dizer seria: Seu grande burro. Primeiro a empresa não era nossa, muito menos sua, a empresa era dos accionistas e que eu saiba você não o é. Segundo, mesmo que fosse 'nossa' lato sensu, jamais o que você diz que se fazia era justificável. E mais vale não me dizer mais nada para eu continuar na inorância. É mais seguro para si que eu não saiba de nada. Seu grande burro.

Mas, estando em público, nada disse. Fiquei, isso sim, siderada. E a pensar que aquele sujeito é um perigo. A ignorância, quando é arrojada e destemida, é um verdadeiro perigo. 

Não sei como se sai cem por cento funcional depois de lidar com gente assim. 

A meio da manhã, um mail. Alguém pedia que eu desse uma ordem pois um não queria dar os elementos que lhe estavam a ser solicitados. Enviei o mail. Seco. Ordem dada. Passado dois minutos, um telefonema. Um outro, melindrado com a minha ordem, justificando-se de coisas de que ninguém o acusou. Nestas coisas, fico calada. Ouço. Do outro lado, desdobram-se em argumentos. Como não digo nem ai nem ui, tentam ser mais explícitos. Falam, falam. Ou seja, enterram-se, enterram-se. Quando, no fim, falo é para rematar à baliza e dar a brincadeira por acabada. Mas, às tantas, estou saturada.

Volto a pensar no que a minha menininha perguntou: 'exactamente o que é que tu fazes?'. Isto. O dia todo nisto. Reuniões, telefonemas, chatices, relatórios, reuniões, telefonemas, chatices, reuniões... Todo o santo dia nisto. Não há pachorra.

Foi só já muito ao fim do dia, quase de noite, quando finalmente tínhamos feito a rápida caminhada, que consegui regar as flores da parte de trás. Liguei à minha mãe já perto das nove da noite.

O dia passa assim, veloz, sem eu dar por ele. Não há tempo para pegar num livro ou para me sentar a apanhar os últimos raios de sol.

A nível mais pessoal, dia também de muitas dúvidas, de retrocessos. Depois, dia de fuga para a frente. Intuição com ela. Mas até ao lavar dos cestos é vindima. Portanto, nada garante que amanhã não haja nova reviravolta. 

Processo mais complicado este...

Tirando isso: a colcha que trouxe no outro dia fica lindamente na minha cama. Lembrei-me do nome do tecido. Brocado. 

Brocado é um tipo de tecido ricamente decorado, feito em seda colorida e com relevos bordados geralmente a ouro ou prata.

Não posso ir agora fotografar a colcha pois o meu marido já dorme. Mas vou retirar da internet fotografias de diferentes padrões de brocado. Não sei se ainda há brocado à venda. Esta colcha que eu trouxe do campo e que, antes, estava na arca, é muito bonita e fica muito bem na minha cama. Acho que é uma preciosidade. Olho-a ou toco-a e fico encantada.

Também trouxe uma coberta de um algodão espesso, dir-se-ia que prensado. Pensei colocar em cima de um destes sofás. Mas os sofás são grandes e a colcha deve ser de camas de corpo e meio. Como são duas cobertas iguais (uma ficou no campo), penso que talvez fosse das duas irmãs quando eram jovens. Gosto de pensar que as suas peças tão estimadas e tão bem guardadas estão a ser respeitadas, usadas com dignidade. 

E a colcha de brocado, então, está nova. Não sei como mas está. O que os humanos almejam -- vida longa e eterna juventude -- tem-no o brocado. Brocade, brocart. A sempre jovem beleza.


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Uma vez mais é Sheku Kanneh-Mason que nos acompanha com Song Of The Birds

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Desejo-vos uma happy friday.
Juízo. Calma. Ponderação. Coragem.

quinta-feira, setembro 23, 2021

Na maior impunidade

 


Hoje é que é mesmo zero. De manhã até ao fim do dia em reunião. Sobra pouco mais do que uma empty head -- e digo em inglês para ver se soa um pouco melhor. 

Tínhamos combinado que eu não deveria estar despachada antes das seis mas que, logo que ele chegasse, poderíamos sair. Mas qual quê. A ver o tempo a passar e a coisa a dar para mais. Uma impaciência. Avisei que teria um limite. Mas como ele também não chegava, pensei que, na volta, o tema se extinguiria a tempo.

Mas ele chegou perto das sete e ainda eu estava no meio. 

Então comecei a acelerar, já deserta de que tudo se resolvesse a tempo para não ter que sair à papo-seco. Foi à tangente. Melhor: mais do que à tangente. Quiçá uma secante. 

Saímos às sete e picos. Voltámos a uma secção a que não íamos faz tempo.

Sorry por isto estar encriptado. Não é que seja supersticiosa mas não vou contar para não atrair.

Ultimamente, tudo o que damos como certo sai ao lado. Mesmo o que estava dado como garantido, furou. Por isso, agora bato a bola baixo.

Já sabem que, quando estou dentro delas, quando elas são de monta, eu fico de bico calado. Não gosto de falar da história quando não sei como é que ela acaba. Mas, logo que eu saiba como vai ser, eu conto. Conto e tenho muito que contar. Que contar e que dar pontapé e virar a mesa. Ai não que não.

Mas, então, lá fomos à secção a que há muito não íamos. 

Pelo caminho, para cá e para lá, fui fazendo os meus telefonemas. Pelo meio, algumas dúvidas. Receio de má decisão. Consultamos site e cada um diz a sua. Conhecimento feito na base do google é conhecimento da treta. Mas é o que há e vamos tentando fazer a bissectriz. E fiar-nos no que parece mais reliable. Hoje está a dar-me para os anglicanismos. 

E, sem jantar feito, encomendámos piza. Metade de presunto, metade de salmão. Passámos por lá a apanhar. No cu de judas. Fomos pela mão do gps: na rotunda sai na segunda saída, a quatrocentos metros vira à direita, na rotunda sai pela primeira, logo à esquerda, a duzentos metros vira novamente à esquerda. Não faço ideia de por onde andámos. Era de noite, íamos na conversa e, em piloto automático, obedecendo. Lá demos com a pizaria. Na volta, cheirava bem no carro que só visto. E nós cheios de fome.

Depois do jantar havia um mail. A Lurdes escreveu. Era ela mesmo que, no outro dia, aqui comentou. Mail bom, daquelas cartas longas que gosto de receber. Quando as recebia na caixa de correio avaliava pela grossura do envelope se tinha muitas folhas. E, quando abria, mais contente ficava se viessem escritas na frente e no verso. A Lurdes é parecida comigo, acho eu. Talvez leve as coisas mais a sério que eu. Mas parecida não significa igual. Tive vontade de responder de seguida. Respondi.

Depois era para ter vindo logo para o blog mas, sem aviso prévio, adormeci. Agora acordei. Doeu-me um pouco o alto da cabeça. Ao passar a mão por ela, senti um alto, dorido. Presumo que esteja até um pouco ferido. Lembrei-me que, de manhã, ao ir apanhar uma coisa debaixo da romãzeira, bati com toda a força com a cabeça num ramo tombado pelo peso das romãs. Ainda não estão outonais, graúdas e rubras. Ainda estão em crescimento e verdes. A ver se desta vez não são comidas, não sei se pelos pássaros se pelos ratos. No outro dia, disse à minha mãe que se calhar tinham sido os ratos que trepavam aos ramos e comiam os bagos das romãs. A minha mãe olhou para mim como se eu não fosse boa da cabeça, como se fosse impossível que os ratos andassem sobre aqueles ramos finos e vergados. Não sei quem foi. O que sei é que elas apareciam forjadamente boas mas ocas, devoradas.

Sei também que fomos à horta para apanharmos ameixas e já não conseguimos trazer uma única. As duas que sobravam caíram ao chão, desfeitas, mal o ramo estremeceu. É uma dificuldade. Primeiro estão pouco doces, depois, mal começam a adoçar-se, os pássaros começam a comê-las e, mal estão doces de verdade, caem, amolecidas e tocadas, impróprias. O chão está pejado delas, desfeitas em sumo espesso. Há um cheiro doce no ar. É como, in heaven, o chão pejado de figos, um odor quente e húmido no ar. 

Penso muitas vezes que um dia que tenha tempo hei-de fazer compotas. Mas as compotas são feitas com açúcar e o açúcar não faz bem nenhum. Por isso, vou fazer coisas que depois ninguém quer comer porque engordam e porque fazem mal? Acho que não. Haverá compotas sem açúcar (e sem adoçantes)? Tenho que investigar.

Ah, é verdade. Mais uma novidade. Finalmente estou a ver se me adapto aos óculos. Não sei se já contei. Desisti dos progressivos. Perguntei à técnica porque é que não me adaptava. Disse-me que o feitio da lente não era recomendado para os progressivos. No exame fiquei também a saber que tenho um pouco de astigmatismo. Não sei como foi que isto apareceu. Deve ser mesmo da pdi. Sempre tive foi um bocado de miopia. Não era muita mas habituei-me a usar óculos para conduzir. No cinema também me sentia mais confortável com eles. Ultimamente juntou-se a vista cansada. Pensava que era só isso, coisa de velha. Afinal, diz-me a jovem oftalmologista: tem aqui um pouco de astigmatismo. Tão espantada fiquei que não perguntei se uma coisa tinha substituída a outra ou se agora se juntaram as três à esquina a tocar a concertina: miopia, vista cansada e astigmatismo. Whatever.

Optei por óculos por ver ao perto, simples. Mas, com eles, só vejo alguma coisa se for mesmo ao perto. Basta que a coisa esteja um pouco afastada para já ser uma baralhada. Mas como são de lente baixa, posso ensaiar ver por cima, coisa mesmo à anciã. Mas a isso ainda não cheguei até porque não os coloco na ponta do nariz. O que faço é, se tenho que ver mais ao longe, tiro-os. Resumindo: quase nunca os uso. Mas hoje a reunião foi daquelas em que estava a ser partilhada uma apresentação cheia de número miúdo Falava-se de milhões mas, para disfarçar, os numerozinhos eram bons para coca-bichinhos. Tive que os usar. E, caramba, fiquei surpreendida com a cara de toda a gente. Caras nítidas que só visto.

A vista é cheia de surpresas. A gente pensa que sabe e que vê e, afinal, basta uma pequena lâmina de vidro para a gente perceber que andou a ver tudo diferente do que é. E, se calhar, se um dia experimentar outra coisa qualquer, vou ver tudo virado do avesso. Nunca se sabe ao que se anda, essa é que é essa.

E, tirando isso, nada. Aliás, confirma-se o que avisei no início: hoje isto é mesmo zero. Escrevo por escrever, na maior impunidade.

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As imagens são recriações de pinturas em cenas protagonizadas por celebridades e a autoria da proeza é do instagramer Kyès. 

Sheku Kanneh-Mason, Isata Kanneh-Mason interpretam In the Bleak Midwinter de Holst

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Quando fui à procura de música para estar aqui a ouvir, o meu amigo algoritmo apareceu-me com coisa alusiva a Clarice Lispector. Por enquanto não fala, ele, o algoritmo, só vem de mansinho oferecer-me vídeos. Lá chegará o dia em que uma caixa de bombons belgas se materializa aqui nas minhas mãos enquanto a sugestão me é sussurrada aos ouvidos. Acho que já faltou mais.

Enquanto não, vai agindo assim, também na maior impunidade. Desta vez, todo prosa, trouxe-me este aqui abaixo. Partilho convosco. Quando receber bombons belgas também vos farei chegar alguns.

"Não se lê Clarice IMPUNEMENTE"


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Desejo-vos uma boa quinta.
Bora lá curti-la a valer, ok?

quarta-feira, setembro 22, 2021

Autárquicas 2021 -- é impressão minha ou é tudo mais do mesmo?

 



Há vários dias que praticamente não vejo televisão. Cansa-me a televisão. Quando não estou nas minhas lides profissionais ou nas minhas coisas de casa ou de família, e antes de vir aqui cumprir o vício do dia, vejo Homeland (a extraordinária série que em português dá pelo nome de Segurança Nacional). De cada vez que abro a netflix aparece-me anúncio de outras séries e várias delas me parecem tentadoras. Como o tempo escasseia, cinjo-me à Carrie e ao Quinn e ao Saul e ao Brodie e a todos aqueles fantásticos personagens que me trazem presa à intriga internacional e ao jogo mais do que duplo e tantas vezes sujo da espionagem e da contra-espionagem. 

E, se aqui à noite espreito as notícias nos onlines, nada me convoca. Cá pelo burgo tudo gira em torno das autárquicas. Em termos de notícia, é tudo coisa de interesse nulo. Identicamente, de cada vez que vejo um cartaz ou um folheto, tendo a achar que é quase tudo de uma tremenda falta de imaginação. 

No outro dia, quando andávamos a caminhar, vimos dois homens a andar junto às vedações das moradias. Achei aquilo intrigante. Tinham bom ar, é um facto. Não era gente de que se suspeitasse que andasse a ver se dava para assaltar alguma casa. Nada disso. Reparei que tinham qualquer coisa na mão. Pensei que, quando nos cruzássemos, nos dissessem qualquer coisa ou dessem um papel. Isto se andassem a distribuir papéis. Poderiam ser Testemunhas de Jeová, que andam sempre aos pares. Mas os das Testemunhas têm um ar menos urbano e andam todos mais arranjadinhos. Estes tinham um ar desempoeirado. Bom ar, já o disse. O meu marido disse que deviam ser de alguma imobiliária. Cruzámo-nos com eles sem lhes darmos atenção e eles também não nos deram. Nem atenção nem qualquer papel.

Mais à frente, noutra rua, junto a uma outra moradia, vimos uma mulher muito vistosa, ampla melena platinada. Foi deixar um papel na caixa de correio. O meu marido disse: ''Vês? Não te disse? Acho que esta é da remax'. Não fiquei convencida que os outros também andassem ao mesmo.

Hoje fui ver a caixa de correio e, para além das cartas, tinha vários papéis. Remexi os papéis para ver o que ali havia. De agências imobiliárias, de empresas de obras e reparações e, vários, de partidos. E, de repente, ao ver as fotografias de um dos papéis, juraria que eram os dois que tínhamos visto. Pelos vistos andam por aí, pelas casas, a distribuir folhetos. 

Dei-me ao trabalho de ler alguns: uma ou outra ideia vagamente interessante mas, em geral, mais do mesmo. 

(As ideias que eu teria para o meu município... Caraças, as ideias que eu teria.)

Esta gente é muito virada para o passado: 'o que nós fizemos', a 'obra feita'. Ou, se é para a frente, nada mais é do que replicar a dita 'obra feita'. Mais do mesmo. Não há um golpe de asa, não há uma disrupção para partir para outra. Não há uma verdadeira visão de cidadania, de conhecimento, de partilha, de modernidade. Ora, sem modernidade não há futuro que valha a pena.

Não vejo escolas abertas para gente de todas as idades, espaços de arte e de investigação, bibliotecas e museus abertos e livres, creches e residências seniores abertas, voluntariado a sério, mobilização dos cidadãos para o arranjo e limpeza das casas e das ruas e dos jardins, a natureza dentro dos espaços urbanos -- mas com uma visão moderna, a começar na arquitectura de todos os espaços (que é determinante para abrir mentalidades). Não vejo propostas arrojadas, daquelas que nos deixam de boca aberta, daquelas que nos fazem ficar a pensar. Não vejo.

A cidadania constrói-se caminhando nos caminhos da democracia. Mas constrói-se sem peias, sem ditames, sem preconceitos, sem amarras a feudos ou preceitos partidários, sem a disciplina das casas burocráticas em que nas concelhias ou nas distritais se cozinham os tachos, os favores, os amiguismos.

Estive a pesquisar na net alguns programas partidários de autarquias que não a capital: tretas. Só de olhar para as caras de parte das listas, logo se vê que é gente arregimentada nos partidos não por terem uma visão de futuro para as autarquias mas por serem disciplinados e acéfalos. Não vamos longe assim.

Não vou referir nem autarquias nem listas (até porque numa delas concorre um meu sobrinho) mas direi que, salvo uma ou outra honrosa excepção, é tudo o nosso portugalzinho a marcar passo. 

Não nego que o país está mil vezes melhor agora do que estava há vinte anos. Mas o que digo é que, salvo algumas modificações verdadeiramente diferenciadoras (do que conheço, grande parte delas em Lisboa e grande parte relacionadas com urbanismo -- honra seja feita a Manuel Salgado), o resto é um mero melhorzinho na continuidade.

O país pode e deve dar um salto qualitativo: temos uma geografia e um clima extraordinários, uma beleza natural ímpar, temos mão de obra bastante qualificada. Temos tudo para atrair imigrantes que nos façam abrir os olhos à diferença e à inclusão, temos tudo para lançar programas de apoio à natalidade, temos tudo para atrair e fixar jovens, temos tudo para nos tornarmos um lugar de futuro -- em vez de continuarmos a ser um país envelhecido, em que quase não nascem crianças, em que grande parte do país ainda parece que vive no século passado, em que ainda há demasiados guetos de pobreza e marginalidade. 

Hoje soube de um jovem que acho muito promissor e cuja selecção passou por mim há cerca de um ano: tenciona ir-se embora daqui por uns meses. Terá dito que já pouca coisa o prende cá. Senti uma enorme tristeza. Disse para o desafiarem a ficar connosco, em teletrabalho a partir do outro país para onde quer ir para se juntar à namorada. Não me interessa onde é que ele viva nem a partir de onde trabalha. Gostava era que continuássemos a contar com ele. Olharam-me com estupefacção mas depois deram-me razão. O mundo mudou. E as nossas mentes também têm que mudar. O mundo pode e deve organizar-se de outra maneira. E as cidades, as vilas e as aldeias têm que saber acolher estas novas formas de viver.

Acho eu de que.


Inté. Vou pregar para outra freguesia.

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As fotografias aqui usadas são do 2021 WildArt Photographer Of The Year

Sheku Kanneh-Mason acompanha-nos em Nimrod de Elgar

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Mas, antes de me ir, que entre Sergei Polunin com The Road To Eternity

Voa, Sergei, voa


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Desejo-vos uma feliz quarta-feira
Saúde. Alegria. Motivação.

terça-feira, setembro 21, 2021

Rir

 

A beleza é fundamental, já Vinicius o dizia. A inteligência é fundamental. O bom carácter é fundamental. A cultura é fundamental. O bom feitio é fundamental. Muitas outras coisas são fundamentais. Mas, de entre elas, uma se destaca: o sentido de humor.

Posso relacionar-me com muita gente mas apenas com a que revela sentido de humor eu sentirei vontade de manter a proximidade. 

O sentido de humor é a manifestação mais evidente da inteligência mas é a inteligência condimentada com a graça de existir e a generosidade de fazer rir os outros.

O sentido de humor é o alfa e o ómega para se levar isto na boa. E só não acrescento a delta para não haver lugar a confusões que eu do merdinhas com totós quero é distância..

Pode alguém ser o máximo, pode saber Os Lusíadas de cabo a raso, a Odisseia de cor e salteado, simplificar os polinómios até os deixar em carne e osso, pode saber declinar todas as leis da termodinâmica e inventar ainda uma nova como quem não quer a coisa, ou cantar toda a tabela periódica, desde os clássicos até aos mais recentes elementos, pode não falhar um rio, um afluente, uma serra, saber todas as cordilheiras, picos, vulcões, reconhecer os eixos e a respectiva orientação dentro de cada cristal, pode saber reconhecer cada astro por mais longínquo que seja, saber de leis como quem sabe de fazer bolos, as receitas todas de cor, as manhas e os preceitos, um a um. Pode tudo. Mas, se não souber fazer-me rir aí, santa paciência, nada a fazer. Não tenho paciência para chatos. Tem que saber desarmar-me com uma piada, tem que ter a inteligência de juntar as pontas soltas e dar-lhes o mais inesperado e insólito laço, descobrir a brejeirice elegante que fará desatar-me a rir. 

Não ter sentido de humor é pior que doença, é falta de gene, é deficiência irreparável, devia ser caso para enxerto ou para criar associação.

Em contrapartida, pode ter falta de muita coisa mas, se tiver sentido de humor e tiver o condão de me fazer rir, tenderei a desculpar todas as faltas. É o meu ponto fraco: gosto de quem seja capaz de me fazer rir.

Aliás, sentido de humor é mais do que fundamental. É o sal da vida. É anti-oxidante, anti-aging, é poção mágica, elixir da vida eterna.

De entre os vários tipos de humor prefiro o pouco óbvio, o insolente, o que contém alguma sofisticação, o que junta ao tempero um pouco de pimenta, o que é inesperado e até inapropriado, o que continua a fazer-me rir vinte ou trinta anos depois. Mas se for uma cambalhota trapalhona, um trejeito descarado ou um trambolhão bem merecido também não me farei rogada. Sou de riso fácil.

Em dia um pouco apático e em que as mãos se movem sobre uma massa algo informe em que se pressente a semente da desmotivação, em dia em que o dia que era para ser afinal não foi (o que me desiludiu, não o escondo) e em que, para ajudar à festa, o ferro de engomar não aqueceu causando um óbvio transtorno, chego aqui ao computador e apetece-me rir. Quem ri, seus males espanta.

E basta-me escolher um ou outro vídeo que o meu grande amigo do peito, o algoritmo mais fofo, logo percebe o que é que eu quero e desata a sugerir-me maluqueira atrás de maluqueira. Já estive a ver alguns a que não resisto.

E, para polvilhar o post, nada como as macacadas que aqui vêem. Há milhares. 

Quem esteja por aí ensimesmado, sem encontrar motivo para sequer esboçar um leve sorriso, que veja aqui ou procure o que por aí há de risota. Não falta.

Permitam, pois, que partilhe convosco alguns vídeos já mais do que conhecidos mas que sempre me farão rir ou sorrir.

vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv

João César Monteiro e as más-línguas


Vasco Santana e o palheto


Os irmãos Marx e a password


John Cleese, impagável.


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E tenham, por favor, uma risonha terça-feira

segunda-feira, setembro 20, 2021

O dia antes de.
[Penso eu de que]

 


Vou ver se consigo, a seguir, ir responder aos comentários. Passou o fim de semana e, até ao momento, não consegui pôr nem os comentários nem o sono em dia. Entre caminhada, supermercado, ida a um sítio de que hoje não quero falar, vinda para casa, estar com parte da família depois de ter estado com outra parte um bocado antes, jantar, tratar de coisas e outras ainda por tratar, pouco tempo me sobra. Não sei como consigo esta proeza. Há cursos de gestão de tempo e eu, se calhar, deveria frequentá-los. Iriam ensinar-me a gerir prioridades. Se calhar deveria não ir a todas como agora tento ir. Mas vou porque quero e não porque seja obrigada. Portanto, abóbora.

Tenho estado aqui a fazer umas pesquisas para ver se mudo de opinião em relação a um certo tema ou para ver se reoriento os meus interesses noutro sentido. Mas como sou de amores à primeira vista não há racionalizações que me salvem. O meu marido chegou aqui e disse-me para eu validar algumas alternativas. Não me agradaram. 

Entretanto, cá em casa, constatei que o meu menino mais velho já está declaradamente mais alto do que eu. E já está com voz grossa. E senta-se já à homem. Tem vontade de viajar. Falei-lhe no interrail e ficou interessado. Mal possa, far-se-á à vida. Tem um espírito independente e o apelo por ir conhecer mundo. Disse-lhe que tem que merecer confiança e mostrar que é responsável para poder ir sozinho ou com amigos para o estrangeiro. Diz que claro que sim. Acredito que sim e acredito que proramará tudo com minúcia.

O irmão candidatou-se a delegado de turma. Perguntei-lhe qual a sua proposta e porque haveriam os colegas de votar nele. A mãe perguntou-lhe se não ia haver debate e, se houver, se já pensou no que vai dizer. Virou-se para nós e, com ar de quem se vê forçado a dizer coisas óbvias, disse: 'É domingo, ao domingo não se pensa nisso...!'. E acrescentou que logo verá o que dirá. É intuitivo, emotivo e muito boa onda. Toda a gente gosta dele. A escola é nova mas já está como se toda a vida lá tivesse andado.

De manhã, tínhamos recebido fotografia da menina num jogo de equipa. Mal a reconhecia. Estava de costas o que dificultava, mas também está crescida. Cresceram todos nas férias. Agora à noite foi o mano do meio com o pai, que ele tinha batido novo record, 5,5 km em 45 minutos sem parar. Estava todo contente na fotografia. Meu menino querido. De tarde, enviaram uma outra fotografia. Estavam com a bisa a lanchar, a bisa toda contente com o programa de festas. Contou-me que, depois, ainda foram lá para casa pois tinha feito crepes e bolo mármore. Estava toda contente com a alegria e inteligência dos meninos. Diz que o mais novo disse aos pais: 'fiz bem em programar este passeio'. De facto, já há algum tempo que andava a querer lá ir.

Tirando isso, também li a entrevista da Ana Cássia Rebelo que, em boa hora, aqui me sugeriram. Há qualquer coisa de surpreendente nela por, tão aberta e quase candidamente, se expor em toda a sua intimidade, não hesitando em revelar aspectos sensíveis da sua vida, incluindo a nível sexual ou das suas mais privadas vulnerabilidades. Mas ela fala disso como se falasse de banalidades. Deve ser desconcertante lidar de perto com ela. Lembro-me de quando revelava as mais incríveis intimidades, revelando até o nome da pessoa com quem partilhava esses momentos. Imagino que deve ter causado alguns dissabores a alguns dos envolvidos. Mas, na sua franqueza, ela parece ser como aqueles inocentes ou aqueles seres inimputáveis a quem tudo se deverá perdoar.

Diz ela na entrevista que gosta muito de ler e que, para ela, ler é mais relevante do que escrever. Senti alguma nostalgia pois também eu gosto tanto de ler e, no entanto, não ando a conseguir tempo para ler. E essa ausência cava um fosso dentro de mim. Mas, na minha deficiente gestão de prioridades, tenho cortado a leitura para conseguir acorrer ao demais. Ando a ler pouco, pouco, pouco. Tenho que ver se consigo corrigir isso pois sinto muita falta. 

E agora vou ver se consigo ir aos comentários. E, a seguir, a ver se ainda vou passar alguma roupa a ferro. 

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Mas, antes, partilho convosco a actuação de Léa Kyle que sempre me deixa parva a tentar perceber como é aquilo possível. Não sei se é magia, se é ilusão de óptica, se é coisa do outro mundo. Mas é do caraças.

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As fotografias são de Izumi Miyazaki que aqui vem na companhia da Garota Não com o seu Monstro. 

Nada como um bom surrealismo.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira


domingo, setembro 19, 2021

Tenho uma capoeira. É de vidro. Mas há galos que tiveram que ficar de fora.

 


Gosto de fazer arrumações, das grandes. E, quando as faço, é de a a z. 

Neste caso, com o movimento de translação que imprimi aos roupeiros in heaven, deu-se origem a uma das derivadas destas mudanças: a crivagem para ver o que deve ficar e o que deve ser dado ou ir para o lixo.

Há uma informação essencial para compreender a minha casa mas eu, como gosto de manter alguma reserva, não a transmito aqui. Por isso, não deve ser fácil perceber porque é que numa casa grande há tanta falta de espaços para arrumação. Mas acreditem que há. Por isso, aproveito todos os lugarzinhos possíveis para enxertar um armário onde guardar a tralha.

O meu marido massacra-me com um mantra que me recuso a interiorizar: diz que não há falta de espaço, há é tralha a mais. Aos anos que o diz. Em parte terá razão, não digo que não.

Quando se compra uma casa usada ou se fazem obras e grandes mudanças ou se aceita a casa como ela é e apenas se melhora uma ou outra coisa. Nós optámos pela segunda hipótese. 

Uma das particularidades um bocado absurdas da casa é que, tendo a casa principal duas casas de banho, uma delas é tão grande, senão maior, do que o meu quarto. Um tamanho inusitado e sem jeito. Eu olhava aquele salão com irritação: um desperdício sem solução. Até que resolvi marimbar-me para a ordem natural das coisas e mandar fazer um roupeiro praticamente de parede a parede. Não é normal as casas de banho terem móveis destes mas azarinho.

Só que, como isto se deu numa outra encarnação, o roupeiro é de madeira maciça, cor de madeira, mais ou menos cor de mel. Se fosse hoje seria branquinho. Mas não, senhor, uma coisa imponente e despropositada na big casa de banho. Agora olho para ele e só me apetece pintar. Um dia ainda pego numas latas de tinta, talvez branco, talvez branco azulado, e graffito aquilo tudo, talvez um graffiti a dois tons.

Bom: aquele roupeiro tinha tudo -- roupas do meu marido que estavam boas e que eram boas mas, na altura, ou um pouco apertadas ou um pouco largas, lençóis, almofadas, pijamas, produtos de higiene. Ou seja, cheio como um ovo.

Depois havia o guarda-fatos ultra-vintage que era da mobília de quarto dos anteriores proprietários, daqueles móveis em mogno num castanho quase preto com o qual consegui conviver até há algum tempo mas que, progressivamente, se me tornou quase sepulcral. Já antes tinha colocado pedra mármore nos tampos da cómoda e mesas-de-cabeceira como forma de aclarar o ambiente. Agora o quarto está outro, como já antes o referi. Esse guarda-fatos foi para o quarto do estúdio, depois de esvaziado.

Na cozinha desse estúdio, para uma das paredes mandámos fazer um móvel, igualmente em madeira-madeira, também em cor-se-mel, creio que é cerejeira, igual aos demais móveis da cozinha. Por fora, são portas de alto a baixo. Mas, por dentro, esse móvel é um mundo. Tem roupeiro, tem arrumação, tem gavetas, tem uma parte despenseira. Também estava cheio.

E o que estava no quarto do estúdio, um de pinho-mel que, quando a minha filha era pequena, estava no seu quarto, foi para a casinha das ferramentas.

Ora, tudo o que estava dentro de cada um teve que saltar cá para fora para que a arrumação agora se fizesse racional, organizada, lógica, optimizada. 

Muita coisa foi à vida. Temos levados sacos de roupa para aqueles contentores da doação de vestuário. Outras coisas vão simplesmente para o lixo. E tenho descoberto coisas surpreendentes. Hoje vi uma colcha de que não tinha qualquer ideia. É linda. Deve ter sido das tias do meu marido, quiçá até da avó. Não me lembro do nome do tecido, se é que é aquele de que hoje à tarde me lembrei. Tem um relevo, parece de seda, é espesso. É em tons de marfim. Pensei logo trazer para o meu quarto da casa nova. Mas, claro, lavei-a. 

Quando foram as partilhas foi um processo tão atribulado, tão louco, que acabei por nem saber o que tínhamos trazido. Depois o meu marido também não queria usar nada daquilo. Por ele não tinha ficado com nada. Como elas tinham dito que gostavam que as coisas fossem repartidas pelos sobrinhos, cumpriu-se o desejo. Mas muita coisa foi para o lixo, logo no momento em que se separavam as coisas. Como eram coisas boas e bonitas e tão estimadas por elas, não consegui deitar fora o que trouxemos apesar do meu marido não querer ver aquilo nem pintado. Portanto, ficou tudo em sacos, na arca, ou encafuado nos roupeiros. 

Agora, nestas arrumações, ao sair tudo à cena, descobri coisas muito interessantes. E nem ele sabe de quem é que as coisas são. A bem dizer nem eu sei. Às tantas também pode ser das minhas avós. O que sei é que são autênticas revelações. 

E, claro, lavei tudo. Hoje foram mais três máquinas de roupa. O que me valeu é que, com o vento que esteve, estendido tudo ao sol nas cordas que prendemos entre as árvores, seca tudo num instante. Fica a roupa bem seca, rija, perfumada. Só depois arrumo nos seus novos poisos. 

E tenho a dizer que sigo o método kondo. Sigo quer na seleção do que conservo e do que vai fora, quer na dobragem e acondicionamento. Gosto imenso de o fazer. E gosto de, depois, olhar para as gavetas, tudo tão bem organizado. 


Tenho ainda a dizer uma outra coisa. Penso que já é sabido por quem por aqui me acompanha: acho piada às galinhas e aos galos enquanto objectos. Prestam-se a representações divertidas. Por isso, havia galináceos all over. Com o touch minimalista da minha filha, todos esses meus excessos foram recolhidos. Então não se sabia o que fazer a tanta bicheza, sendo que é bicheza esteticamente do meu agrado. Então, tive uma ideia. O meu marido, se estivesse aqui diria que isso é o pior, eu ter ideias.

Mas tive e estranhamente ele achou a modos que um disparate... mas não se opôs ferreamente. Portanto, a coisa concretizou-se. Uma vitrina é agora a capoeira em que se juntam quase todos os cacarejantes. Está na cozinha, ao pé do frigorífico. Está cheia. Mesmo assim não couberam todos pelo que há uns quantos tresmalhados.

Fiz o mesmo com os carrinhos antigos, uma colecção de quando o meu marido era pequeno. Estavam num rebordo da parede do antigo quarto do meu filho. Impossível limpá-los. Pensei no mesmo das galinhas mas numa versão diferente. Acho que ficou com piada e, da próxima, a ver se não me esqueço de fotografar. 

E é isto. São duas da manhã, trabalhei que me desunhei durante todo o santo dia, e, como é bom de ver, daqui hoje não sai mais do que isto.

Ah, creio que não vale a pena dizer que o meu marido, com isto tudo, só não me rifa porque se calhar tem receio que ninguém queira habilitar-se. O que ele tem protestado só eu sei. 

(Mas, no fim, quando vê tudo arrumado, clean e bem cheiroso, fica caladinho e eu percebo que gosta do produto final. Mas, porque acha que já merecia um dia de descanso, não diz nada para marcar a sua posição)


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Uma vez mais chego a esta hora e sinto-me incapaz de responder e agradecer os comentários. 
A ver se este domingo ou na segunda consigo. 
As minhas desculpas.
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Desejo-vos um belo dia de domingo

sábado, setembro 18, 2021

Passear nas avenidas, caminhar à beira de água, ouvir música, fotografar a praia

 



Poder-se-ia pensar -- se alguém pensasse sobre isso o que não é o caso -- que a parte mais substancial do meu dia teve a ver com o que fiz para justificar o que me paguem de ordenado. Pudesse eu aqui descrever e talvez até pudesse ter alguma graça. Personagens de filme não faltam, mulheres bonitas muito menos, homens para vários gostos também não. Até um que estava quase sem cabelo anda agora com frondosa melena. E sempre muita intriga. Romance, se houver, é clandestino. Comédia e tragédia também há -- e sempre em dose dupla.

Mas, se tiver que eleger os melhores momentos incluirei aqueles em que conduzi pela cidade branca, luminosa. Acompanhada pela Antena 2, rolando ao longo do rio, por entre árvores e flores, ou nas largas avenidas (em que felizmente se conduz devagar), de janela aberta, sentindo o calor suave, a brisa, os odores, vendo o movimento. Uma sensação boa de liberdade.

Decidi uma coisa: não deixei o carro no parque da empresa. Deixei-o antes, num parque público. Apeteceu-me muito andar a pé, por entre gente desconhecida, vozes de outras nacionalidades. Já estranho um pouco quando tenho que andar mais, na rua, de saltos altos. Mas rapidamente me habituo. O prazer de me misturar com pessoas, em especial com estranhos, com ente de todas as cores, idades e nacionalidades é muito grande. 

Uma vez mais aconteceu-me o que ultimamente acontece sempre: esqueço-me de pôr o relógio, aliança ou anéis. Nem pulseiras. Braços e mãos nuas. Desabituei-me de os usar e agora parece-me que faz mais sentido ver-me assim.

Também muito boa a praia ao fim da tarde. Estava um pouco de vento, talvez uma aragem fresca. Ainda assim, estive de fato de banho. Caminhámos e depois sentámo-nos na areia. Levei a máquina, estive a fotografar. Outro prazer dos bons.

Gaivotinhos pequenos brincando à beira da água, casais passeando em contra luz, crianças correndo e mergulhando, jovens autofotografando-se, o espaço aberto e limpo, o som do mar e do vento - momentos bons.

À vinda da praia, porque sexta-feira é sexta-feira, passámos por um dos restaurantes que nunca desilude e fomos buscar comida. Ao aproximarmo-nos, um pequeno ajuntamento em movimento no passeio. Olhei. Reconheci uma candidata. Rodeada de uma dúzia de pessoas, uns já um bocado entrados, uns três ou quatro jovens que, creio, estavam a filmar, oferecia uma imagem de desolação. Estacionámos. Quando estava a ir para o restaurante, estava o grupinho a fazer o mesmo. Não sei se foram cumprimentar ou deixar folhetos. Uma coisa meio triste, fora do tempo. Ali ia aquele pequeno e desgarrado bando, sem vida, não se sabe bem a fazer o quê. O olhar da candidata cruzou-se com o meu. Ambas de máscara. Inexpressivos os olhares como se, quer eu, quer ela nos estivéssemos nas tintas uma para a outra. E era mesmo isso. Reparei que ao longo do passeio, se algumas pessoas se cruzavam com a fajuta comitiva, não se detinham nem prestavam atenção. A candidata mudou de passeio e vi algumas pessoas com instrumentos musicais. Não sei se iam improvisar alguma sinfonia ali mesmo. Mas nem eu quis saber nem os próprios também o queriam. Tinham os braços caídos ao longo do corpo e o instrumento pendurado na ponta da mão. 

Não sei para que servem estas arruadas. Do que vi apenas servem para demonstrar à saciedade que não fazem qualquer sentido nem têm qualquer utilidade.

À noite voltei ao Homeland. Viciante, viciante. Uma qualidade inexcedível. O argumento, a dimensão psicológica dos personagens, o enquadramento político dos acontecimentos. E, claro, o mundo dos serviços secretos que é um mundo dentro do mundo e que é demasiado fascinante.

Agora estou aqui. É a minha última tarefa do dia: escrever no blog. 

Lembro-me da Ana de Amsterdam que eu gostava tanto de ler. Contava coisas mirabolantes, sexo sem tino, bebida sem limite, desolações, tristezas, actos extremos. Não percebia se seria tudo verdade, se tudo mentira, se um misto. Parecia tudo verdade até as coisas que inventava. Havia sempre um elemento de surpresa e de insólito na sua escrita. E isso prendia-nos.

Tenho pena que tenha deixado de escrever o seu blog.

Mas isto para dizer que eu não tenho nada assim para reportar e que, quando abro o computador às tantas da noite, já cansada e perdida de sono, penso inúmeras vezes: para quê? o que tenho eu a dizer que valha a pena? E concluo, sem falsas modéstias, que nada. Mas gosto de escrever e, no fundo, no fundo, também tenho esperança que gostem (mesmo que só um bocadinho) das banalidades e insignificâncias que para aqui vou desfiando.

Quando me reformar e me dedicar à escrita das minhas memórias é que vão começar a aparecer histórias cabeludas. Me aguardem...

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As fotografias foram feitas esta sexta-feira e acompanham Mandy Patinkin, o fantástico Saul Berenson de Homeland, em I Have Found My Happiness

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Um dia feliz

sexta-feira, setembro 17, 2021

Ainda tantas saudades da minha cãzinha querida....

 

Há decisões muito difíceis. No dia em que nos despedimos (e mandámos abater) a nossa cadelinha mais linda jurei para nunca mais. Disse e pensei e disse e pensei e durante anos disse e pensei: 'não volto a passar por isto'.

Os seus últimos anos foram muito difíceis: teve um tumor maligno, foi operada, teve anemias severas, teve que levar transfusões. Teve que ficar internada e era tão doloroso para ela quanto para mim. Ela não devia perceber que estivesse tão fraca e tão doente e que eu a deixasse ali. Olhava-me com aqueles olhos meigos e tristes que se cravavam no meu coração. E eu pensava que sofria tanto por ela quanto sofria pelas pessoas da minha família que estavam doentes. Ou mais porque as pessoas percebiam e ela se calhar não percebia.

Quando estava em casa e estava doente por vezes estava muito bem e, sem aviso prévio, olhava-me e caia, inerte. Eu gritava, aflita, temia que ela tivesse morrido. Depois vinha a ela mas ficava trémula, cansada. Eram simples desmaios mas eu ficava aterrorizada com medo que nos morresse.

Nos últimos dias estava muito mal, não tinha força. Ela, que nunca fizera as suas necessidades em casa, não aguentava e fazia-as na porta do prédio ficando depois muito nervosa e envergonhada pelo que tinha acontecido. 

Lembro-me de num desses dias, nos últimos, eu ir à janela e ver, lá em baixo, o meu marido com ela. Ela quase não conseguia andar, o meu marido quase tinha que transportá-la. Era tão triste. Os dois tão tristes. Eu tão triste vendo-os pela janela.

A médica já nos tinha dito que a qualidade de vida dela estava a degradar-se acentuadamente, que já não havia muito mais que pudéssemos fazer. Estava quase com treze anos o que para uma boxer já era idade avançada.

Naquele dia ela estava mesmo muito mal. Olhava-me com muita tristeza, quase sem conseguir mexer-se. Queria levantar-se e não conseguia. Olhava-me, pedia-me ajuda, e eu tentava ajudá-la mas ela não conseguia. A tristeza dela era imensa. E a minha também. Tinha vontade de chorar só de ver a tristeza dela certamente por não perceber o que estava a acontecer-lhe. Ou, então, por perceber o que estava a acontecer-lhe.

Nesse dia levámo-la, uma vez mais, à clínica veterinária. Eu temia e intuía o que ia acontecer. Nas outras vezes ela levava uma transfusão, ficava a soro, algum tratamento. E ficava melhor por uns dias. Mas eu sabia que já estávamos a prolongar a vida dela para além do aceitável. Sabia que já não havia salvação possível. 

E então cometi o acto mais cobarde e imperdoável da minha vida. Quando lá chegámos, não consegui sair do carro. O meu marido levou-a e ela, milagrosamente, ainda conseguiu ir pelo seu próprio pé. Foi como se o seu corpo, num último acto de resistência, quisesse dizer-nos que ainda não estava no fim. Ficou no passeio parada a olhar para trás. Uma vez mais não percebia. Eu a vê-la a olhar para mim, admirada por eu não ir com ela, eu a saber que devia estar a vê-la pela última vez. Eu a pensar que deveria ir, deveria ficar a abraçá-la. Eu sem ser capaz. Não posso esquecer-me. Por mil anos que viva não me esquecerei dela, virada para trás, a olhar para mim e eu, coração destroçado, fechada no carro, a chorar.

Foi o meu marido sozinho com ela. Ia carregado de tristeza. Não falava. Nenhum de nós conseguia falar. Ele entrou na clínica e eu fiquei no carro a vê-los entrar.

Quando me ligou, já eu estava no meu gabinete. Não conseguia falar. Mas também não precisava de falar. Desatei a chorar. Quando um colega meu entrou no meu gabinete, encontrou-me lavada em lágrimas, destruída pela tristeza.

Ainda agora, enquanto escrevo, não consigo evitar: estou a chorar. Tantos anos depois, ainda não me recompus da perda daquela cãzinha doce e meiga que fez de nós a sua família.

E durante todos os anos tenho pensado: não aguentarei passar por outro desgosto assim.

Mas não posso pensar apenas nos seus últimos tempos pois antes houve todos os anos de imensas alegrias. As vezes que corria na praia, as vezes em que ia no carro e muito anos de chegarmos à praia já estava numa alegria, a animação em que ficava quando íamos para o campo, as vezes que saltava de alegria quando chegávamos a casa, as vezes em que, mal adivinhava que íamos sair, se punha à porta à nossa espera, as vezes em que se abraçava aos meus filhos, aconchegada, recebendo e retribuindo a mais pura ternura, as vezes em que nos desafiava para a brincadeira, as vezes em que mostrava que nos compreendia e nos amava incondicionalmente. Não posso esquecer o afecto que nos ofereceu nem a nossa alegria por percebermos que adorava o nosso afecto.

Ao fim de tanto tempo consigo escrever sobre esse ser tão especial que habitou as nossas vidas.

Se calhar isso quer dizer que, finalmente, estou preparada para ter outro cão.

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O título do post é o título de um livro muito comovente de Manuel Alegre

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Uma boa sexta-feira