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segunda-feira, janeiro 14, 2019

Lisboa é romântica, é namoradeira, conversadeira e boa para se ficar zen.
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 4 de 8]




Por onde se passe, em especial junto ao rio, há gente a contemplar o rio, lindíssimo, tranquilo, muito azul. Gosto de fotografar as pessoas que olham as águas, seja de um rio, sejam do mar.

Seria bom poder ir falar com elas, saber como se sentem, o que pensam. Mas claro que se pudesse me inibia pois haveria de ter o bom senso que olhar para a água é um momento sagrado, jamais se deve interromper alguém que contempla um horizonte ou o azul impossível de um rio que corre mansamente.


Acho romântico ver alguém assim. Seja uma pessoa solitária, seja um casal, seja um grupo de amigos. Imagina se eu era maluca que fosse cometer um tal dislate: Olhe desculpem, podem dizer-me o que sentem quando aspiram a maresia ou olham o azul cambiante ou o ondular das aguas. coitadas das pessoas, haveriam de ficar desconcertadas, sem perceberem se haveriam de me empurrar a ver se um banho me refrescaria as ideias ou se, cortesmente, me diriam: sorry, can't understand such surreal questions

Também gosto de fotografar pessoas que conversam, mulheres geralmente. Duas mulheres que tirem a tarde para passear, conversarão ininterruptamente desde que se cumprimentem até que se despeçam. Tão certo como dois e dois serem quatro.


Acho o máximo ver duas mulheres a conversarem. Nem dão pelo que se passa à sua volta. A conversa absorve todos os seus sentidos.  Há sempre assunto. 


Diferente de dois amigos, de dois namorados. Aí há silêncios, hesitações, suposições não assumidas, meias palavras -- a cumplicidade assume outras formas. Com duas mulheres amigas é uma torrente contínua.

Mas, enquanto ia caminhando e observando, uma dupla chamou a minha atenção. Um homem magro, debruçava-se sobe uma mulher que, assim de repente, me parecia que estava numa cadeira daquelas para pessoas que não se aguentam bem sentadas. Desviei o olhar. Não gosto de ser indiscreta. Mas a curiosidade foi mais forte. Ao passar perto, espreitei pelo canto do olho e vi que não era o que tinha pensado. Mas continuei a não perceber, parecia que se deitava sobre uma mulher também ela toda inclinada.


Então olhei melhor e vi que era uma cadeira de massagem e que ele lhe dava uma intensa massagem. Ela ali estava, abandonada às mãos e aos antebraços dele. Fiquei com uma certa invejinha. Que bom deve ser levar uma massagem nas costas ali, à beira mar, ao sol suave da tarde. Aliás, pelo Natal, recebi um voucher para uma massagem da felicidade e não vejo a hora de o resgatar. Adoro massagens. A ver se para a semana dá. 

Ao lado do massagista uma rapariga fazia colares, igualmente em estado zen. Vejo agora na fotografia que estava um homem atrás dela. Lá não reparei. A gente não repara em grande parte do que está perante os nossos olhos. É tão estranha essa sensação. Quem sabe se as nossas ideias não seriam diferentes se, no momento em que fazemos opções, tivéssemos em atenção tudo aquilo a que não prestámos atenção?

(É uma pergunta retórica: nunca conseguiremos absorver tudo o que a vida nos oferece)

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Ainda tenho mais uns três ou quatro postais mas já é tão tarde que acho que vou deixá-los para amanhã.

Entretanto, se estiverem in the mood para um passeio comigo por esta Lisboa que amo de coração, desçam até à Lisboa linda e amorosa, à Lisboa musical, à Lisboa com homens com pinta e aos pontos cardeais de Lisboa. Espero que gostem.

sexta-feira, junho 15, 2018

Se isto se prolongar muito mais, de onde virá o dinheiro necessário para fazer face às despesas fixas do Sporting?
Pergunto.


Há pouco, à revelia do meu marido, quando o apanhei pelas costas, espreitei a conferência de imprensa de Bruno de Carvalho, talvez a sua última. Um louco a desafiar o destino. Não percebeu que o seu tempo acabou e que ele próprio se encarregou de esvaziar o reservatórios de últimas oportunidades. Ao seu lado, um zombie com ar de pobre coitado que não tem onde cair morto e, do outro, o comentador que antes pensei que fosse um homem com bom senso e que agora deu em porta-voz do maluco. Ambos mudos e quedos enquanto o doido ia perorando naquela sua voz alucinada que não prenuncia nada de bom. Tenho ideia que apenas a SIC estava a transmitir aquela demonstração de loucura.

E eu, tal como no início disto, o que me ocorre é que, a arrastar-se este carnaval, não faltará muito para que os funcionários daquela empresa deixem de receber ordenados (incluindo os desportistas que vivem do que recebem do clube) ou para que os compromissos junto dos fornecedores deixem de ser honrados.

Os nossos jornalistas, que são capazes de estar, durante horas, a transmitir estes longos monólogos do doido varrido, parecem incapazes de ver dois palmos à frente do nariz e dá ideia que não percebem o descalabro que pode estar prestes a acontecer.

Com um rombo nos activos, com a credibilidade nula, imagino que os bancos não vão poder acudir. A emissão de obrigações foi abortada e, do que se sabe, a tesouraria estará no vermelho. Portanto, imagino o desequilíbrio que já aí estará à espreita e sem se perceber que a mão que o poderá travar. 

Por curiosidade cá minha, gostava de saber qual o volume fixo de despesa que o Sporting tem todos os meses (entre pagamentos de salários, encargos sociais, impostos, contratos de manutençao ou outras prestações de serviços indispensáveis) e de ver uma demonstração da origem dos fundos para fazer face a esses compromissos. Gostava. 

Em vez da coboiada que a comunicação social gosta de explorar e das tricas e retricas que são exploradas até à náusea, não seria interessante perceber quantos postos de trabalho podem estar em causa, quantas instalações podem ter que ser fechadas, etc?

E nem estou a entrar em linha de conta com a outra bomba cujo rastilho pode estar a arder devagarinho: aquilo da corrupção, aquilo dos milhares em dinheiro no gabinete do adjunto do ex-Presidente do Sporting, essas coisas nefastas que, a provarem-se, podem ter implicações que ainda mais rapidamente poderão empurrar o Sporting ribanceira abaixo. Porque, se isso entrar na equação, o buraco pode muito bem ser ainda mais tenebroso.

Digo eu. Ou melhor: temo eu. Mas, admito, posso estar a ser, simplesmente, pessimista.

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Para este post não ser um mero enunciado de uma preocupação que talvez seja infundada, juntei-lhe uns pós de Rothko (por acaso, da fase sombria) e nem sei porquê o Portugal do O'Neill, aquele tal que
se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!


terça-feira, outubro 10, 2017

Até que a morte os separe


Vivendo com o mesmo homem há cinquenta mil anos, continuo sem conhecer a receita para uma coisa assim. Acho que é como aqueles bolos que saem bons sem a gente perceber bem porquê. Acasos. E, uma vez tendo acontecido o acaso e se parece ser coisa para resultar, pois então dar-se a gente por agradecida e fazer tudo para que o momento inicial de descoberta e paixão se mantenha.

O que eu posso dizer de certeza absoluta é que deve haver atracção física. Sem isso é para esquecer. Mas também companheirismo, tolerância, respeito, convicção de que qualquer outra alternativa seria pior. E deve ser uma coisa na base da boa onda, vontade de estar junto porque estar junto é estar-se bem. 

Mais ou menos isto. Poderia, é claro, juntar mais mil razões mas não vale a pena pois é variável. O que eu gosto, espero eu que não haja muitas mais a gostar. 

Olho quem passa à minha frente e tento perceber os casos em que, sem sombra de dúvida, os laços são mesmo para valer. E é tão claro....

Juntos, abraçados contra a morte.
Ao silêncio dos amantes 
Abraçados contra a morte



É a forma como andam, a afinidade até na forma como se vestem, é a forma como conversam. É, certamente, as palavras que usam para se beijarem.

Dois corpos que caminham para a fusão.


Mesmo quando cada um olha para seu lado, logo, logo os olhares vão convergir, logo os corpos se vão encostar, e logo, logo vão estar a rir, companheiros, cúmplices.


É o amor de longa duração, talvez o mais perene de todos os afectos, o que vence barreiras, ultrapassa all ages, supera diferenças e contradições, aproxima mesmo quando estão longe, guarda memória de paixões para com elas polvilhar a doçura do amor sereno.



Claro que, nisto, é preciso haver predisposição para amar. A cada momento, tem que haver essa vontade. É que a gente até pode gostar e ter tudo para dar certo mas, se existe em nós a compulsão para a destruição e/ou a impaciência para aturar o outro, nunca nada vai funcionar. Tem mesmo que se estar in the mood for love.



E depois é viver como se fosse o primeiro dia. Ou o último. E apreciar o sol a brilhar na água, os veleiros lá longe, o calorzinho bom na pele, os risos partilhados, os segredos guardados.


E amar a vida, a gloriosa e ingrata e maravilhosa e ilusória e alegre e triste e esperançosa vida.
E fazê-lo a dois.

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sexta-feira, maio 27, 2016

As escolhas da UJM
(Selecção muito limitada que isto de estar com internet a pedal é um verdadeiro desespero)


Depois do 'artista de mamilos' do post abaixo, estava com vontade de fazer aqui uma gracinha mas há gracinhas que apenas a civilização permite. Ora aqui, in the middle of nowhere, com uma internet a pedal, em que cada página demora eternidades a abrir, com o próprio computador a rebentar pelas costuras, não consigo fazer nada do que queria.

Desespero a ver esta coisa a pensar -- e se me maçam as coisas lentas (as coisas e as pessoas) que dão voltas e voltas aos neurónios sem que dali saia coisa que se aproveite, credo, que falta de paciência. Estou aqui e é o chamado dançar, dançar e não sair da pista. Cada página atravanca a outra, fica tudo pasmado, nem ata nem desata, mastiga e não engole. E por aí fora que, se continuo com metáforas, daqui a nada estou naquela que se impõe. Caraças.

Por isso, e tendo já intervalado para ler - senão, enfurecia-me para nada que não é a minha impaciência que torna a internet mais rápida ou me limpa o disco do computador - volto aqui com um novo plano que, a bem dizer, pode ser plano nenhum que, se isto continua assim, vou ler um pouco mais e...oh oh, ó-ó.

É verdade: a televisão já funciona e afinal não era humidade (thanks de qualquer maneira, Rosa!), era mesmo nabice, uma ficha estranha enfiada na tomada errada aqui na geringonça da tdt, coisa que um olhar jovem e entendido logo detectou. Mas a oferta televisiva é miserável.

Neste momento, estou a ver uma coisa que não sei como se chama mas que tem a gente do Big Brother ou Casa dos Segredos e há outras pessoas, que admito que sejam concorrentes, que são do pior que se possa imaginar. Inenarrável. Vou desligar.

Portanto, meus Caros, hora de procurar o que me agrade noutras paragens. Vamos lá. A pedal, devagar, devagarinho, mas vamos lá.

Uma imagem

Uma fotografia que é quase uma pintura, uma mulher que é quase imaginação

La Chambre Bleue ©Thomas Devaux

Um anúncio

Publicidade a livros, a livros belos, bem encadernados, que dão gosto só pelo facto de existirem

Beautiful books worth treasuring - The Folio Society



Um cavalo

Chama-se Frederik The Great

Dizem que é o mais belo cavalo do mundo. Não sei, acho-o estranho, gótico, sobrenatural. 
E é notícia, claro.


Um poema

Há palavras que nos beijam

(Não descobrindo o poema do Alexandre O'Neill dito, opto pela versão musicada na interpretação da Mariza)


Um beijo

Difícil de alcançar, merecido quando se alcança

Hubbard Street Dance Chicago em "Kiss" numa coreografia de Susan Marshall sobre música de Arvo Pärt


Um momento de intimidade

Uma cena improvável mas memorável: um homem lava a cabeça de uma mulher, só isso. 

Meryl Streep e Robert Redford em Out of Africa


Uma escultura, uma loucura

Os animais da praia de Theo Jansen que ele, um dia, quer dotar de inteligência artificial

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Apetecia-me, ainda, escolher um blogue. 
Um. 
Aquele por cujas actualizações eu espero mais impacientemente, aquele com que sempre me deleito.

Mas não ouso. Acho que poderia parecer que menosprezo todos os outros de que gosto.
Mas um dia fá-lo-ei.

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Relembro que, descendo, encontrarão um artista de mamilos. Vejam antes de fazerem juízos precipitados. Pode ser útil a alguma das pessoas que me lêem.

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sábado, agosto 29, 2015

Palavras nuas que beijas quando a noite perde o rosto


Depois de, nos dois posts abaixo, ter partilhado convosco dois anúncios espectaculares, aqui, agora, mudo-me para um outro registo: o do prazer maior, o que nos chega através das palavras.

Há palavras que nos beijam 
como se tivessem boca. 
Palavras de amor, de esperança, 
de imenso amor, de esperança louca. 




Palavras nuas que beijas 
quando a noite perde o rosto; 
palavras que se recusam 
aos muros do teu desgosto. 




(O nome de quem se ama 
letra a letra revelado 
no mármore distraído 
no papel abandonado) 



Palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte, 

ao silêncio dos amantes 

abraçados contra a morte
.....

O poema é de Alexandre O'Neill. Quem o canta no vídeo é a Mariza. 
As fotografias foram feitas in heaven

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E desçam até aos posts seguintes, por favor, que não darão o tempo por perdido
(digo eu - que não sou a autora das habilidades).

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domingo, janeiro 11, 2015

O medo. Os ratos. E Raef Badawi que foi chicoteado em público e por quem Doudi, a filha, tantas saudades sente. E Salman Rushdie e tantos mais que afirmam corajosamente a demência de tudo isto. E os Anonymous por todo o lado que juram não dar tréguas a quem atentar contra a liberdade de expressão. Talvez haja, pois, uma esperança de liberdade. Para que se possa dançar nos céus de Paris. E que essa esperança se espalhe aos céus, às estradas, às escolas, aos campos de todo o mundo.


A Leitora Rosa Pinto lembrou muito bem O Poema Pouco Original do Medo de Alexandre O'Neill - é que, não nos esqueçamos, se nos deixarmos levar pelo medo cedo alcançaremos a condição de ratos.

Arvo Pärt: The Deer's Cry


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O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis  
Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos  
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
       (assim assim)
escriturários
       (muitos)
intelectuais
       (o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles  
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados  
Ah o medo vai ter tudo
tudo 
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer) 
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos 
Sim
a ratos 

Alexandre O'Neill, in 'Abandono Viciado'; pinturas de Francis bacon

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Centenas de espectadores numa praça pública em Jidá viram, sexta-feira, Raef Badawi a ser chicoteado 50 vezes. Durante 15 minutos, em silêncio e sem chorar, Raef Badawi foi sujeito ao castigo decidido pelas autoridades da Arábia Saudita que incluem, além de dez anos de prisão, mil chicotadas repartidas por 20 semanas por ter insultado o Islão.


Uma testemunha anónima contou à Associated Press que o co-fundador do site Rede Liberal Saudita, e laureado em 2014 com o prémio Repórteres sem Fronteiras, estava algemado mas com a cara descoberta. Foi transportado da prisão para o local, pouco depois de terem terminado as orações do meio-dia numa mesquita próxima. Cumpriu, assim, as primeiras 50 chicotadas por ter criticado o poder dos líderes religiosos na Arábia Saudita, no blogue que fundou com a activista dos direitos das mulheres Suad al-Shammari e onde defendeu o fim da influência da religião na vida pública daquele país.

Outra testemunha disse à Amnistia Internacional que a multidão se juntou em círculo. "Quem passava juntou-se e a multidão cresceu. Mas ninguém sabia porque é que Raif estava a ser castigado. Era um assassino? Um criminoso? Não reza?", perguntavam. Depois, "um polícia aproximou-se por trás e começou a bater-lhe. Raif levantou a cabeça em direcção ao céu, fechou os olhos. Estava em silêncio mas era visível pela expressão do rosto e movimento do corpo que estava a sofrer". O polícia bateu nas pernas e nas costas, contando até 50.


no Público de 10.Jan.2015


No vídeo abaixo, em Novembro do ano passado, Doudi, a sua filha de 10 anos, escrevia uma carta a Raif Badawi que está preso na Arábia Saudita, condenado a 10 anos de prisão e a 1.000 chibatadas por ter um blogue no qual defendia um debate social e político no seu país. 






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Salman Rushdie fala com Bill Maher a propósito do que aconteceu no Charlie Hebdo, fala do Islão e de toda esta cegada. Maçãs podres. O pomar estragado. Diz Bill Maher.





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Os Anonymous, um pouco por todo o lado, juram vingar os que, por defenderem a liberdade de expressão, caíram mortos às mãos dos terroristas. Os Anonymous afirmam a sua defesa da liberdade de expressão como um pilar da democracia e juram não dar tréguas aos terroristas.


Aqui em espanhol.



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O Irão condenou o atentado de Paris. A moderação a fazer o seu caminho. Talvez. Mas até há pouco tempo atrás a realidade era outra.


Rosewater - Uma esperança de liberdade



Irão, 2009. Decorre a campanha para as eleições presidenciais. Maziar Bahari (Gael García Bernal), jornalista iraniano-canadiano, regressa à sua Teerão natal para entrevistar Mir-Hossein Mousavi, líder da oposição a Mahmoud Ahmadinejad, o polémico e autoritário presidente em exercício. Quando a vitória deste é anunciada, as ruas enchem-se de protestos dos partidários de Mousavi. Bahari divulga imagens dos tumultos, mesmo sabendo o risco pessoal que esse acto acarreta. É detido pelas autoridades iranianas, que o retiram da sua casa. É acusado de espionagem. Uma das "provas" é um "sketch" com uma entrevista satírica emitida pelo programa "Daily Show", de Jon Stewart. Ao longo de 118 dias, vendado e sem saber quando (se?) voltará a ver a mulher, grávida, Bahari será submetido a violentos interrogatórios levados a cabo por um homem (Kim Bodnia) cujo nome e rosto desconhece, mas cujo perfume lhe fica marcado na memória: o senhor "Rosewater" ("água de rosas").

"Rosewater - Uma Esperança de Liberdade" marca a estreia na realização de Jon Stewart, o popular anfitrião do programa televisivo "Daily Show", e foi rodado numa prisão jordana. Baseia-se nos factos relatados no "best-seller" "Then They Came for Me", do próprio Maziar Bahari, que foi detido quando fazia a cobertura das eleições presidenciais iranianas para a revista "Newsweek". Apesar da relação entre o vídeo do "Daily Show" e a sua detenção, Bahari não guardou qualquer rancor a Stewart ("Podia estar na 'Rua Sésamo' e eles acusariam o Elmo de insubordinação", esclareceu o jornalista quando regressou ao programa). Mais: colaborou com Stewart na escrita do argumento e como consultor nas filmagens.




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E a beleza de Paris e a liberdade. E o voo junto ao céu de Paris.

Viver sem medo.

HAUT VOL




Bailarinos: Léonore Baulac e Allister Madin do Ballet da Opera de Paris 

Realizado por Louis de Caunes

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom domingo em liberdade, sem medo.

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sexta-feira, abril 11, 2014

Barreto Xavier, um sujeitinho pequenino e infantilmente primariozinho, na entrega do Prémio à Escritora e Jornalista Alexandra Lucas Coelho


Depois de abaixo vos ter revelado uma conversa pessoal minha sobre um tema sensível e de, mais abaixo ainda, ter falado de uma das características do comportamento do género humano, a de se portar como se do género ovino se tratasse, aqui, agora, viro-me para uma mulher de armas, perigosa.

Falo, claro, da mulher de quem se fala: Alexandra Lucas Coelho. Eis o relato que ela faz do que se passou na cerimónia que as televisões não mostraram. As televisões só mostram outro tipo de coisas. As televisões fedem.


Adiante. A palavra a Alexandra Lucas Coelho, a mulher sem papas na língua. Aliás, agora que falo nisto, acho que está mas é na hora de eu formar um partido, o partido das pessoas sem papas na língua. PPSPM. A Alexandra seria das primeiras pessoas que eu convidaria. Ah mulher valente que não as poupa!

(Os destaques no texto são de minha responsabilidade)

Alexandra, a Grande

Não há gravações do que se passou durante a entrega do Grande Prémio de Romance e Novela da APE, na sala 2 da Fundação Gulbenkian, a 7 de Abril. Havia jornalistas presentes mas não em trabalho, a tomar notas. Por isso não há forma de citar “ipsis verbis” o que disse o Secretário de Estado da Cultura (SEC), Jorge Barreto Xavier. Mas há algumas dezenas de testemunhas que podem acrescentar ou corrigir o que vou tentar resumir agora aqui, por tudo se ter passado numa cerimónia pública.


Sendo este prémio tradicionalmente entregue pelo Presidente da República, decidiu o actual presidente, Cavaco Silva, à semelhança de anos anteriores, fazer-se representar. Neste caso, pelo seu Consultor para Assuntos Culturais, Diogo Pires Aurélio. Isto era o que eu sabia quando escrevi o discurso para a ocasião.

Já no átrio da Gulbenkian, perto da hora marcada, 18h, a APE comunicou-me que a cerimónia estava um pouco atrasada porque esperavam o Secretário de Estado da Cultura.

Xavier Barreto, o coisinho
Quando Barreto Xavier chegou e entrámos todos para a sala, o protocolo sentou-o ao centro da mesa, junto a Diogo Pires Aurélio. Nas pontas, Gulbenkian (representada por Rui Vieira Nery), APE (José Manuel Mendes, José Correia Tavares), júri (representado por Isabel Cristina Rodrigues) e eu. Vieira Nery abriu, sucintamente; seguiram-se discursos da APE; Isabel Cristina Rodrigues leu o texto em que o júri justifica a atribuição do prémio a "E a Noite Roda". Diogo Pires Aurélio e eu levantámo-nos para que ele me entregasse o sobrescrito do prémio, um minuto de formalidade, sem palavras, para a fotografia. Chegou a minha vez de discursar, li as páginas que trazia. No fim, houve uma ovação de pé. Digo isto para dar conta da atmosfera que os representantes do poder político tinham diante de si.

A APE convidou então o SEC a intervir. Ele escolheu falar sentado, sem se deslocar ao púlpito. Uma das coisas que disse, na parte, digamos, cultural da intervenção, foi que eu bem podia declarar que não fazia ficção porque claro que fazia ficção porque é isso que um escritor faz, ficção. Foi o primeiro arroubo dirigista, que nos devia ter preparado para o que aí vinha.

Na parte, digamos, política, destaco quatro coisas: o SEC disse que eu devia estar grata por estarmos em democracia e eu poder dizer o que dissera; que durante anos os portugueses se tinham endividado acima das suas possibilidades; que, ao contrário do que eu dissera, ninguém saíra de Portugal por incentivo deste governo; e, sobretudo, que eu tinha dito que não devia nada a este governo mas que isso não era verdade porque este governo também subsidiava o prémio.

Referia-se ele, assim, a um prémio com décadas de existência; atribuído a alguns dos mais extraordinários escritores de língua portuguesa; cujo montante em dinheiro resulta de vários patrocínios, sendo que os públicos resultam do dinheiro dos contribuintes; e que tem atravessado os mais variados governos, sem que nunca, que me recorde, algum governante o tenha tentado instrumentalizar. Foi a mais escancarada confusão de Estado com Governo que já presenciei, para além do tom chantagista ao nível de jardim de infância das ditaduras. E, apesar dos apupos, de quem lhe gritava da plateia "Mentira!" e "O Estado somos nós!", o SEC insistia.

Como cabe ao Presidente da República, ou seu representante, encerrar a cerimónia, a APE instou Diogo Pires Aurélio a falar. O representante do Presidente da República declinou e encerrou a sessão. No fim, cumprimentou cordatamente todos os presentes na mesa e retirou-se.

Já Barreto Xavier, aproximou-se de mim na confusão da retirada. Julguei que se vinha despedir, depois de dizer o que tinha a dizer. Nada disso. Queria dizer-me, visivelmente irritado, que o que eu fizera tinha sido de um grande "primarismo". Respondi-lhe que então devia ter dito isso mesmo ao microfone, que eu já dissera o que tinha a dizer e não lhe ia dizer mais nada. Fui andando, para contornar a mesa e acabar com a cena, mas o SEC insistia: que eu tinha sido “primária”.


O "Público" pediu-me o discurso para publicar online na tarde do dia 8. Quatro horas depois, 89 mil pessoas tinham lido o texto. Ontem, o post no FB do "Público" tinha sido visto por 170 mil. Obrigada a todos pela partilha.


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Sigam, por favor, pelo blog abaixo pois, da colheita de hoje, este é já o terceiro post.


sexta-feira, fevereiro 24, 2012

Um chá com a minha amiga e ... uma surpresa...! (e La Dispute e Alexandre O'Neill e Mariza, tudo para vos dar uma ideia do ambiente)


Música, por favor
La dispute de Yann Tiersen (do filme Amélie)


Coisas do além, é o que é.

Hoje de manhã nem telefonemas, nem mails, nada, silêncio. 

Mas, à hora de almoço, liga-me a minha amiga e, para minha surpresa, muito calma e bem disposta.

Quando eu já me preparava para lhe dizer que isto é uma ficção sem qualquer aderência à realidade, eis que me conta com toda a naturalidade que o marido lhe ligou todo enervado, pedindo-lhe para ler o que eu tenho vindo a escrever. E continuou relatando que assim tinha feito, que até tinha achado muita graça, que estava fiel à realidade, que tinha gostado de ler a forma como eu os descrevia. Apenas tinha ficado um bocado incomodada com a cena da empregada mas que, até nisso, estava um retrato correcto, que a dita cuja já se tinha, efectivamente, despedido e que estava um bocado farta de aturar empregadas, que se armam em donas da casa, que agora ia antes contratar uma empresa que lá iria apenas umas horitas por dia, que chegava e sobrava. 

Quanto ao resto gostava de conversar com mais calma e que, se eu pudesse, podíamos encontrar-nos ao fim da tarde numa casa de chá ali para os lados dela, perto mar. Muito bem, disse, 'desde que não dê para tarde' e ela que também não queria ir muito tarde para casa, que tinha ficado de falar via skype com os miúdos que estão fora. 

Portanto, avisei que ia chegar mais tarde a casa e lá fui e, tenho que confessar, ia não tanto admirada como um bocado inquieta pois ela poderia aborrecer-se a sério com a história, embora nada no que eu tenho escrito aponte para ninguém em concreto. CEOs, caviar gauches e donas de casa doces e conservadoras é o que mais há por aí.

Não conhecia o sítio mas, com a morada posta no gps do carro, lá fui dar. Era uma espécie de cabana de madeira, engraçada e, lá dentro, um ambiente caseiro, lareira acesa, bom gosto, cortinas, flores, um ambiente quase rústico, um toque de decoração britânica. Acolhedor, mesmo.


Ao abrir a porta e olhar em volta a ver, fiquei encantada com o ambiente. Algumas pessoas, casais maioritariamente mas também, perto de uma espécie de varanda, uma mesa animada com um grupo de amigas que conversavam como se estivessem em casa. 

Eu procurava-a a ela mas, naquele relance, não tinha visto nenhuma mulher sozinha; de repente, quase me caíu o coração aos pés. Num recanto, numa mesa com um bule, chávenas, bolachinhas e uma vela ao meio, quem é que eu vejo? Ela e o dito amigo gauche. Ambos sorrindo na minha direcção e eu quase sem conseguir dar passo. Ele, cortês, pôs-se logo de pé, ela apresentou-mo, sorrindo, como se fosse a coisa mais natural do mundo, ele simpatiquíssimo, um charme, uma voz que não vos digo nada, um olhar e um sorriso como não se imagina, e ela toda encantada ao ver o efeito produzido.


Uma coisa é certa: tal como eu, ela gosta de homens bonitos.

A mim não me ocorria nada, estava – como se costuma dizer – apardalada. Mas ela nasceu para fazer conversa social e sorrindo como se fossemos os três amigos de longa data, desatou a palrar que ‘já sabia... mas que ao ler o teu blogue vi mesmo que tens o coração à esquerda' e eu que sim e ela acrescentando, com naturalidade, 'achei que ias gostar de conhecê-lo’ e olhava, orgulhosa, para ele. 

E então contou que o tinha conhecido numa sessão de poesia, que tinham falado, se tinham ‘amigado’ no facebook, que desde então às vezes vão juntos a essas sessões ou concertos de fim de tarde, que ele adora poesia ‘é como tu’, e sorria, o rosto de lado, feminina e inocente, parecia bem mais nova, luminosa, cara lavada, simples.


E ele sorria que sim, que gostava de poesia e que ‘ela contou-me que também gosta e eu já vi que sim, podíamos combinar e vinha também connosco, numa próxima vez’ e eu, banzada, pensava ‘mas o que é isto, senhores…?’

Com um jeito naturalmente sedutor, cabeça inclinada levemente, contou-me que, um bocado à pressa, tinha espreitado o Um Jeito Manso e também o Ginjal e Lisboa e que tinha que lá voltar com calma, que tinha achado graça ao verso que eu tinha colocado como subtítulo e eu, sinceramente, estava tão aparvalhada que nem percebi a que é que ele se estava a referir.

E então, enquanto eu pensava, raciocínio embotado, ouço-o numa voz grave e quente, baixo, começar a dizer o poema do O’Neill,


Luís Gaspar lê o poema 'Há palavras que nos beijam'

e ela pegava numas partes e dizia ela e ele continuava, e olhavam um para o outro em absoluta sintonia e eu passada, nem queria acreditar, sabiam os dois o poema de cor, disseram-no de uma forma tocante.

No fim, só me ocorreu: ‘mas sabem o poema de cor…’ e eles riram. 'Sabemos este e muitos outros, às vezes dá-nos para isto', responderam-me a rir.

E, enquanto tentava refazer-me, pensei cá para mim:  'de facto, um homem que sabe dizer poesia é outra coisa...'.

Bebi chá, beberam chá, comi bolachas para disfarçar a falta de assunto.

Virei-me, então, quase a medo para ela: ‘não te sabia tão amante de poesia…’. Ela riu ‘há tantas coisas que não sabes’, irónica, marota.

Eu puxava pela cabeça para ver se me ocorria alguma coisa esperta para dizer mas apenas me ocorreu isto: 'Conhecem a versão da Marisa?'. Desataram-se a rir. 'Uma private joke, é isso?', e eu já atrapalhada, provavelmente tinha dito algum disparate. Mas não, eles já esclareciam e um começava a frase e o outra acabava-a: 'Não, é que a fomos ver juntos e não era suposto...' e riam-se e eu olhava para um e para outro e nem sabia o que dizer. 'Ah...', foi o único som que consegui produzir.

Ainda me ocorreu perguntar-lhe se o marido também tinha ido mas achei melhor não, ia estragar o climinha.

Depois, a sentir-me estupidamente insegura, ainda pensei puxar o assunto da política, falar do Álvaro, fazer alguma piada com os pastéis de nata, referir o trágico valor da recessão hoje anunciado, enfim, qualquer coisa de inteligente mas nada, nada me parecia oportuno, tudo me parecia deslocado. Sentia-me a mais no meio daqueles dois. Felizmente, passado um bocado, tocou-me o telemóvel, não atendi mas, olhando para o mostrador como se fosse uma chamada premente, disse-lhes que tinha que me ir embora.

Sorriram, educados, 'Já? ainda mal conversámos...' mas eu levantei-me, ele levantou-se imediatamente, beijinho, beijinho e que bem que ele cheirava, senhores.

E ainda não estou em mim. Mas o que foi aquilo que presenciei? Alguém me diz?

????????

Bom, para não acabarmos assim, neste intangível e imenso ponto de interrogação, deixo-vos com a Marisa.



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(Relembro que, se quiserem ler esta história do início, podem ir aos separador que diz Folhetim aí do lado direito, lá mais para baixo.

E se quiserem ler o poema Sem que soubesses |de A musa irregular| do Assis Pacheco e umas palavritas minhas a propos, podem dar uma saltada ali ao meu Ginjal e Lisboa)

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E tenham, meus Caros, uma bela sexta feira! Divirtam-se, aproveitem as coisas boas desta vida.

quinta-feira, novembro 24, 2011

As televisões e a Greve Geral; Portugal e Coreia - a investida e a posterior intervenção dos mercados; Durão Barroso e Cavaco Silva e, do outro lado, Angela Merkel e Passos Coelho; Um adeus Português e Sebastião Salgado

 
Enquanto na SIC Notícias José Gomes Ferreira entrevista Carlos Melo Ribeiro da Siemens (que acha que Portugal deveria adoptar a política da Alemanha que apenas aprova greves no âmbito de negociações de empresa e que não aprova greves políticas), enquanto, na TVI 24, Jorge Braga de Macedo (da Trilateral), Estela Barbot (consultora do FMI e que contou que participou na última reunião da Trilateral) e um sujeito convencido e embirrante que dá pelo nome de Alberto da Ponte (das cervejas Sagres e que, certamente, também muito gostaria de também de ter assento nos Bilderbergs, Trilaterais e que outros que tais e que acha muito bem que os países estejam a ser governados como empresas e que afirma que o país não tem lugar para quem não quer trabalhar) - eu sento-me aqui, sem perceber porque é que, para analisar a situação actual de susto e desgoverno, num dia de greve geral, as televisões convidam para debater isto, pessoas como estas. Não estão em causa as pessoas em si - são, sem dúvida, honorabilíssimas pessoas - mas todos tão alinhados com os mercados que não percebo qual o critério jornalístico seguido. Onde o contraditório?

Entretanto ouço, no telejornal da meia-noite, os banqueiros falando no sufoco por que estão a passar e que os pode levar a suprimir a componente variável dos salários e que irão tentar não reduzir a componente fixa. Sabemos o que está na forja.



Esta fotografia é de Sebastião Salgado e estava no Lehmans Brothers (!). Foi leiloada aquando da falência do banco.


A garantia do FMI tinha destruído a soberania económica do País, estabelecendo, com um presidente democraticamente eleito, uma administração colonial de facto.

De um dia para o outro lançara o País numa profunda recessão. O impacto social foi devastador. O nível de vida desceu em flecha; as reformas do FMI provocaram a queda dos salários reais e desencadearam um desemprego em massa.

O congelamento do crédito contribuira igualmente para paralisar a indústria da construção civil e a economia de serviços: "os bancos têm cada vez mais relutância em conceder empréstimos a negócios". Segundo um relatório, "mais de 90% das companhias de construção civil estão à beira da falência".

A contração do poder de compra (devida à baixa de salários e à subida do desemprego) faz também "estremecer as pequenas empresas do País, com a sua perene falta de liquidez".

O governo admitiu que "um número significativo de pequenas empresas irá à falência...".


O texto acima, em itálico, foi transcrito de um livro que o meu filho me emprestou, A Globalização da Pobreza e a Nova Ordem Mundial, publicado em Portugal em 2003 e que relata o que se passou em finais de 1997 quando a Coreia do Sul foi intervencionada pelo FMI.

A forma como chegou lá, o que aconteceu, a forma como aconteceu, tem tristes coincidências com o que se tem estado a passar na Grécia, em Portugal.

Podemos ver como a Moody's desceu as notações dos bancos e das empresas, de como grupos antes gigantes foram desfeitos - como a KIA que veio a decretar a insolvência; como a Hyundai, o maior império de negócios da Cooreia, que foi desmantelado e os 'cacos' vendidos ao desbarato a investidores estrangeiros; como o Grupo Hanwha que vendeu as refinarias de petróleo à Shell e uma parte à empresa alemão BASF; como o maior produtor mundial de chips de memórias para computadores, a Samsung, viu o seu valor de mercado passar de 6.500 milhões de dólares para 2.400 milhões. Os investidores diziam, então, "Agora é mais barato comprar uma destas companhias do que comprar uma fábrica - e a pechincha inclui de graça toda a rede de distribuição, o reconhecimento da marca e a força de trabalho qualificada".

Podemos ainda ler que os maiores bancos comerciais foram nacionalizados para, de seguida, serem reprivatizados. As principais empresas de investimentos de Wall Street ocuparam-se da venda. Rapidamente grandes bancos passaram para mãos estrangeiras. Por exemplo, uma empresa de investimentos sedeada na California sem experiência prévia no sector da banca comercail, adquiriu, desta forma, o controlo de uma das mais antigas instituições bancárias da Coreia, com 5.000 funcionários e uma moderna rede de dependências por todo o País.



Vejo agora o noticiário da meia-noite. Durão Barroso defende as Eurobonds e, logo a seguir, Angela Merkel, vestida de negro, responde com voz grossa que isso está fora de questão.

E agora vejo Passos Coelho, que fala como se percebesse alguma coisa do assunto, colocando-se no hemisfério oposto ao de Cavaco Silva e Durão Barroso e ao lado de Angela Merkel. Bonito.

A França já a patinar, a própria Alemanha a não conseguir colocar a totalidade da dívida, toda a Europa a soçobrar às mãos dos 'mercados' - e sem líderes. A ir ao fundo a toda a velocidade e sem líderes. Um drama, isto.

Os países a empobrecerem, as populações a verem o seu futuro ameaçado e sem líderes. Como foi possível termos chegado a este ponto de quase não retorno?




Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti


('Um adeus português' de Alexandre O'Neill)




(Todas as fotografias são de Sebastião Salgado)


- Posso, no fim de tudo isto, desejar-vos ainda que tentem ter um bom dia...? -

  

quinta-feira, setembro 09, 2010

A meu favor, esta noite ou uma noite qualquer



A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.


[A meu favor, Alexandre O'Neill]
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