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sábado, abril 05, 2014

Jorge Fallorca foi para longe do mundo. Talvez uma sombra o aguardasse. Talvez um trilho se tivesse escoado sob os seus pés. Talvez tenha ido para onde ainda se ouvem as correrias e os gritos da infância.








Hoje, enquanto estava a almoçar, fiquei durante um bocado sozinha e aproveitei para publicar os comentários deste blogue e, nessa altura, vi, na galeria de blogues que tenho aqui ao lado, que a Ana Cristina Leonardo tinha uma notícia muito triste no seu Meditação na Pastelaria. Jorge Fallorca tinha morrido. 


Ocorreu-me que ela deveria estar muito triste com essa notícia. Já lá vi algumas trocas de comentários e havia ternura e companheirismo entre eles. Para ele, ela era a Leoparda. Agora quis deixar-lhe uma bola de berlim mas não consigo entrar na caixa dos comentários. Gostava de lhe dizer que sinto muito que ela tenha perdido este seu amigo. Custa muito perder um amigo. De cada vez que se perde um amigo, perdem-se alguns esteios que nos seguram em tempos conturbados. Neste post ela não escreveu nada, limitou-se a publicar a fotografia dele e o ano do nascimento e o da morte. Não deve ter conseguido escrever nada ou sentiu que qualquer palavra ficaria aquém do que sentia. Percebo muito bem isso.

Fiquei eu também muito triste. Aliás, fiquei mesmo muito impressionada.



Às vezes acontecem coisas comigo que me deixam muito surpreendida e, de certa forma, algo inquieta. Coincidências, certamente. Nem gosto de falar nisto porque estas coincidências não têm explicação e eu gosto de perceber o que me acontece.

Na quinta-feira, por várias vezes, me veio à cabeça o que seria feito dele. Estava a trabalhar e isto não me saía da ideia. Ocorreu-me que há já algum tempo não via actualizações no seu O Cheiro dos Livros
Depois, quando cheguei a casa, fui ali, à lista dos blogues que tenho aqui no UJM e que está organizada descendentemente em relação às actualizações e confirmei que há já algum tempo ele não o actualizava.
Veio-me aquela inquietação de quando não sei nada de alguém por quem ganhei estima e aquela estranheza por, a despropósito, passar esta sombra no meu horizonte. 
Por isso, hoje a notícia deixou-me ainda mais transida. 

É que uma pessoa, apesar de estar fisicamente longe das pessoas e de não as conhecer pessoalmente, parece que lhes ganha afecto. 

Novata na blogosfera e pouco conhecedora dos seus habitantes, foi com surpresa que um dia reparei que no Um Jeito Manso tinha muitas visitas a partir de um certo blogue de que nunca tinha ouvido falar e cujo endereço era a junção de nem sempre a lápis. Fui ver e reparei que era o blogue do Jorge Fallorca e que as visitas resultavam de ele lá ter colocado um link para o meu. Deitei-me à descoberta, li e fui lendo por ali abaixo e tanto gostei que logo o coloquei na minha galeria dos Amigos e Ilustres Desconhecidos


De vez em quando, esporadicamente, recebia um comentário seu e outras vezes era eu que lá deixava um comentário. Enternecia-me especialmente quando ele, orgulhoso, mostrava os bebés, fofos, lindos.

A última vez que lá deixei um comentário, ainda não há dois meses, mostrava-se ele entre a matriarca, a 'bisa', e os dois bebés que dormiam, uma ternura tocante.

Em Outubro passado descobri um livro seu, Longe do Mundo, numa pequena livraria e foi como se tivesse descoberto uma parte de alguém de quem me estava a habituar a estimar. Escrevi, então, um post sobre isso, um post que escrevi com muito apreço e carinho. Tinha lido o livro e estava muito agradada com a sua escrita e tocada pela vida que ele ali tinha deixado impressa.

Dei a esse post o seguinte título:

"Logo vais ter as mãos suspensas no luar: a memória da tarde", "O vento suspende os pássaros no ar", e outras palavras longe do mundo.

Estou a escrever isto e estou mesmo triste. Há pouco, não querendo ainda acreditar, fui ao google e li por aí que talvez a sua morte não fosse inesperada, estava doente. 

Mas fico com muita pena. Era novo, escrevia tão bem, era uma pessoa tão delicada, tão simpática, tão próximo da simplicidade da vida. Custa-me muito saber que Jorge Fallorca morreu. 


Evito falar de mortes por aqui. Quando morre alguém conhecido, a internet enche-se de RIP, de parêntesis com a data do nascimento e a da morte, e eu não digo nada, não gosto de me aproximar da morte nem que apenas em palavras. Mas há partidas que me tocam especialmente e de que não consigo deixar de falar.

Aqui há tempos morreu o Manuel Medeiros a quem eu me tinha afeiçoado e que me tinha incluído na sua roda alargada de amizades e eu, quando soube, fiquei também tristíssima. Tempos antes tinha escrito um texto em que fingia que estava mal e eu assustei-me e transmiti-lhe a minha preocupação (eu e o Onésimo). Dois dias depois, rindo-se e desculpando-se, escreveu um texto delicioso, explicando o que se passava. Um fino sentido de humor e uma delicadeza atenta. Mas pouco tempo depois foi-se mesmo embora o Livreiro Velho e eu fiquei sem esse amigo recente.

Mas os seus blogues continuaram aqui na minha galeria e ainda bem porque continuam bem vivos.

Assim acontecerá com o blogue de Jorge Fallorca a que eu, aqui na minha galeria, dei o nome de Andando por aí com música e palavras. Vou fazer de conta que foi só ali - talvez sentar-se debaixo da figueira, esperando que se encha de perfumada folhagem e cantarolante passarada - e que já vem.


Recordo hoje algumas das suas belas palavras que transcrevi no post acima referido e que hoje me parecem tão tristemente apropriadas.


A casa extingue-se na tarde. 

Por momentos tenho a ilusão do silêncio,
e apenas o estalido dos salgueiros me lembra que estou vivo.

Que uma sombra me aguarda.

Quando tudo retoma o seu lugar, um trilho escoou-se sob os meus pés.

...

Tacteio o ar para esquecer a aridez do tempo.

Nos corredores ainda se ouvem as correrias e os gritos da infância,

mas tudo não passa de uma ilusão para adiar a noite.





Tomara que a família saiba a maneira de atenuar a tristeza pela sua partida.


**   **

A música acima é Vita Brevis de Rodrigo Leão. As imagens são de Kim Keever


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom fim de semana.

segunda-feira, outubro 14, 2013

"Logo vais ter as mãos suspensas no luar: a memória da tarde", "O vento suspende os pássaros no ar", e outras palavras longe do mundo


No post abaixo já falei do que achei do que ouvi a Paulo Portas na conferência de imprensa na qual nos apareceu a servir para o jantar um corte nas pensões de sobrevivência aos ricaços que ganham fortunas impensáveis, pipas de massa, coisa como 2.000 euros - que isto agora o objectivo é trazer toda a gente para o limiar da indigência.

Mas sobre isso falo a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. É uma conversa boa, uma conversa feita de belas palavras.


Música por favor



...   &   ...




Dei por mim a transferir também para a net o prazer da deambulação, entregando-me ao acaso.

Um dia cliquei em chat room, e entrei.

A sala era mais ou menos enfumarada e velada como um prostíbulo.

Nela era suposto estarem casais disponíveis para a troca, ou adopção de homens e mulheres.

Fui casal, mulher, homem também, de acordo com o solicitado.



Era tudo uma questão de nick, e a ambiguidade do escolhido permitiu-me usufruir todos os sexos.

Mimetizei-me com o equívoco, e descobri as pessoas que poderia ser, se quisesse.

O pior que me podia acontecer, era o outro lado não assumir o jogo. 

Mesmo quando ambos já nos tínhamos apercebido da evidência do logro.


Sem dar por ela, apercebi-me que podia apaixonar-me, odiar e criar dependência.

Como da droga, da bebida ou do emprego. A que não concedi essa oportunidade.


...   &   ...



A mata era um dos espaços interditos da infância.

Hoje nada resta desse lençol ondulante das mimosas, acácias e austrálias, que separavam o jardim-escola, e nos aguardava como um passo irreversível na idade da razão.

No limiar da transgressão, habitada por uma moura no recato húmido de uma gruta, a mata incitava-nos ao crescimento, e era um dos melhores covis da minha imaginação.

A adolescência revelou-me outras matas, onde as estações do ano me ensinaram a decantar a folhagem e a luz da sombra, nas margens de um rio devorado por uma barragem.

Delas apenas conservo alguns ocasos, como uma memória esticada pelo arco de uma ponte romana, entretanto submersa pela secura do futuro.

De quase todas elas, porque a única mata que me resta resume-se a uma árvore, em Silves, ensinada pela moura que me dispensa a imaginação.

Ou a saudade.

...   &   ...





A casa extingue-se na tarde. 

Por momentos tenho a ilusão do silêncio,
e apenas o estalido dos salgueiros me lembra que estou vivo.

Que uma sombra me aguarda.

Quando tudo retoma o seu lugar, um trilho escoou-se sob os meus pés.



Tacteio o ar para esquecer a aridez do tempo.

Nos corredores ainda se ouvem as correrias e os gritos da infância,
mas tudo não passa de uma ilusão para adiar a noite.

Os telhados vibram como escamas ao sol, e a casa treme sob as pálpebras.


...   &   ...




No sábado de manhã fui de novo espreitar a pequena livraria que no outro dia descobri e que me encantou. Por ali andei como que numa urgência, estava mesmo com pressa, mas tenho sempre a esperança de descobrir uma peça única, um tesouro, uma raridade deixada, por engano, para trás.

E não é que descobri mesmo?

longe do mundo, Jorge Fallorca


(Eu não sabia...eu não sabia que o meu nome se pautava pela música de Falla, e um grito de Llorca.)


Peguei logo nele não fosse não ser verdade e desaparecer no instante seguinte.





Depois, quando cheguei a casa, para vos fazer dele prova de vida, fotografei-o em cima da minha mesa, ao pé das minhas cadeiras, tal como a capa do livro que mostra uma mesa e umas cadeiras longe do mundo, talvez aquelas onde Jorge Fallorca escreve palavras tão bonitas como aquelas que aqui vos mostrei.

É um livrinho (livrinho porque é de pequena dimensão) que nos prende.

Passei a tarde a lê-lo, encantada.

E agora aqui estou também com ele, uma bela companhia, palavras simples, verdadeiras como as árvores, as sombras e as memórias, o sabor das folhas de oliveira, uma curva na estrada, o mar, o sul, a noite, o cheiro das maçãs.


***

A música é Nocturno para Piano de Manuel de Falla. As duas primeiras fotografias são de obras expostas no Museu Berardo no CCB (estive lá este sábado com os pimentinhas para quem aquele espaço é um fantástico e imenso recinto, cheio de coisas imprevistas e engraçadas, onde gostam de correr de sala em sala, à descoberta - para aflição dos vigilantes, é claro). As duas fotografias seguintes mostram as minhas árvores e os meus recantos in heaven. As duas últimas mostram a preciosidade que em boa hora adquiri, da autoria de alguém que está bem ca puta da vida. O livro também tem desenhos de Ângelo de Sousa.


Os textos em itálico são excertos de textos contidos no livro. O primeiro excerto faz parte de um texto intitulado net e o segundo mata. Os outros foram extraídos um pouco ao acaso.

***

Muito gostaria ainda de vos convidar a darem uma espreitadela ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa. Hoje por lá tenho José Alberto Oliveira e, atrás das suas palavras, vão as minhas tentando recuperar o rasto daquele que o meu coração ama. Segue-se-lhes uma voz fantástica, Cecile McLorin Salvant. É o jazz de volta ao Ginjal.


Relembro que sobre a verdade sobre a TSU das Viúvas segundo o irrevogável Paulo Portas, é descerem, por favor, até ao post seguinte. Não é nada de muito esclarecedor mas também dali nunca veio nada que se possa escrever na pedra.

***

E já chega por hoje, não é? 
Desejo-vos, meus Caros leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda feira.