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terça-feira, agosto 15, 2023

Por favor, não traga roupa

 

Passo a vida a falar de casas e a referir como, em minha opinião, o respectivo ambiente pode transmitir boa ou má disposição, ou como acho que pode inspirar ou atrofiar quem lá vive.

A casa de que aqui hoje falo é uma casa que acolheu gente das artes, das palavras, gente que amava as tertúlias e o amor livre.

Não é a uma casa qualquer. 

Há um artigo delicioso no Guardian sobre esta casa especial e sobre como o mundo da moda e do design se apaixonaram por esta casa.

Vou transpor parte do artigo, traduzido via translator.

Kate Moss fotografada em Charleston House para a Vogue britânica
 por: Mert Alas & Marcus Piggott  

‘A casa canta com cor e com vida’: como o mundo da moda se apaixonou por Charleston, a casa de campo do cenário de Bloomsbury

De Virginia Woolf e seu círculo às fotos da Vogue de Kate Moss, a casa de campo não convencional de Sussex conquistou a imaginação ao longo das décadas

A casa mais elegante da Inglaterra não fica numa rua elegante de Londres ou num vilarejo de Cotswolds com caixas de chocolate, mas no final de uma estrada rural longa, estreita e muitas vezes enlameada numa dobra de Sussex Downs. No interior, não há um único armário de cocktails de meados do século, chuveiro de efeito chuva ou sofá de design italiano. Em vez disso, Charleston é uma casa de fazenda de pedra robusta do século 17, misturada com rosas, janelas de águas-furtadas saindo de uma encosta de azulejos desgastados.

O layout é semelhante a uma 'coelheira' labiríntica em vez de um plano aberto, os pisos com tábuas desiguais. Como acontece com as casas de campo que foram construídas para proteger do frio, as janelas são pequenas, a luz um pouco sombria. Mas cada quarto é decorado à mão, com detalhes vertiginosos - diamantes pintados com esponja em painéis de madeira, uma natureza morta de malvas-rosa e papoilas numa porta de madeira, figuras nuas de cada lado de uma lareira incrustada de azulejos coloridos - para que a casa cante com cor e com vida.

O mundo da moda está tão apaixonado por Charleston agora quanto o cenário de Bloomsbury estava desde o momento em 1916, quando Virginia Woolf tropeçou na casa e escreveu à sua irmã, Vanessa Bell, que “tem um jardim encantador, com um lago e frutas árvores e vegetais, tudo agora bastante selvagem, mas tu podes torná-lo adorável”.

Bell, o pintor Duncan Grant e um emaranhado de família, amantes e amigos fizeram da casa o seu lar e estúdio por seis décadas; após a morte de Grant em 1978, ela foi aberta ao público em 1986. 

Em Paris, em junho passado, uma maquete da casa foi construída como cenário para um desfile de moda masculina da Dior, que incluía estampas tiradas de pinturas de Duncan Grant. 

Um ano antes, Kate Moss foi fotografada para a Vogue britânica num dos sofás desbotados da casa, usando apenas um par de botas de salto alto Fendi couture, toda bordada com pérolas e lantejoulas, e o próprio chapéu de palha de Bell. 

No próximo mês, o novo espaço da galeria de Charleston na vizinha Lewes apresentará Bring No Clothes: Bloomsbury and Fashion, com curadoria de Charlie Porter, a primeira grande exposição a explorar a influência de Bloomsbury no estilo.

O visual Charleston espalhou-se da passarela para as nossas casas. A vibração ingênua que é a característica mais distintiva dos interiores de Charleston está, agora, empilhada nas lojas de utensílios domésticos de rua. Pratos e tigelas pintados com cores vivas emprestam a alegre boemia da cerâmica de Duncan Grant. Tapetes têm bordas recortadas, copos de água são pintados com redemoinhos, candelabros feitos de torres de bobinas. Os aventais com padrão limão da La DoubleJ e as joaninhas em bandejas de folhas da Bordallo Pinheiro dão vida ao espírito informal e comunitário de uma casa onde a mesa de jantar, as cadeiras e as lareiras foram todas pintadas com carinho. Ella Joel, compradora de utensílios domésticos da Matches, está vendo clientes ligados à moda atraídos por jogos americanos de vime rústicos coloridos da Cabana, pratos com coração da Summerill & Bishop e pratos pintados da Ginori 1735.

A ironia de Charleston estar na moda é que a família Bloomsbury – que “vivia em quadrados, pintava em círculos e amava em triângulos”, como disse Dorothy Parker – tinha pouco tempo para a moda. Bring No Clothes, o título da próxima exposição e o livro de Porter que a acompanha, leva o nome de uma instrução que Virginia Woolf deu aos hóspedes da casa. (“Por favor, não traga roupas: vivemos em um estado de extrema simplicidade”, ela escreveu a TS Eliot, convidando-o a ficar em 1920.) 

The Bloomsbury group’s Frances Partridge, Quentin and Julian Bell, Duncan Grant, Clive Bell, Beatrice Mayor, Roger Fry and Raymond Mortimer in the garden. Photograph: /The Charleston Trust

Mas a instrução nada mais é do que uma declaração de moda. O desdém pelos códigos de dress code, a auto-expressão irreverente de pintar diretamente em lareiras e batentes de portas e o famoso berço de gato não convencional de relacionamentos entre Vanessa Bell, Duncan Grant e o amante de Grant, David Garnett, tudo floresce da mesma raiz de pensamento livre. Estar num dos quartos exuberantemente pintados de Charleston é sentir o quanto os habitantes amavam e celebravam o mundo das ideias; para ser revigorado por sua robusta interrogação da tradição. E há algo de muito moderno na maneira como os Charlestonians refizeram sua casa à sua própria imagem, pintando diretamente em guarda-roupas e cabeceiras sem limites entre arte e vida. A casa é, de certa forma, uma gigante – e gloriosamente não filtrada – selfie do grupo Bloomsbury.

.... (artigo completo aqui) 

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Muito interessante o vídeo abaixo

(Tem legendagem em português)

Exploring Charleston House: An Expression of Early 20th-Century Art 

| Houses with History

House & Garden presents Houses with History from Charleston House. Join Lucy Hammond Giles, Associate Director at Sibyl Colefax & John Fowler, as we tour Charleston House, once home to artists Vanessa Bell and Duncan Grant.

Vanessa and Duncan saw no particular distinction between art and interior design, and  treated the house as a canvas, painting practically every wall and piece of furniture in their own distinctive styles. As a result, the house is not only a significant piece of art history, but a landmark in the history of interior decoration. Watch the full video, as Lucy provides her unique perspective as a decorator whilst we explore this historic house.


Desejo-vos um dia feliz

Saúde. Ideias desempoeiradas. Paz.

sexta-feira, setembro 02, 2022

O que comprei no supermercado e o que não comprei mas me deixou um bocado a pensar.
E os segredos de beleza de Kate Moss - em vídeo


Fui numa corrida ao supermercado à hora de almoço. Nesta vida de retiro que agora é praticamente a minha, uma ida ao supermercado pode ser um momento especial. Se calha ir sozinha, sem ter alguém à minha espera, então ainda é melhor.

Já não tinha kefir nem salada nem abacates e, por isso, tinha mesmo que ir mas, conhecendo-me como me conheço, já sei que, nestas circunstâncias, há sempre mais qualquer coisa que chama por mim. Por isso, por via das dúvidas, levei dois sacos.

  • Comprei quatro cebolas novas, daquelas branquinhas, sumarentas e doces. 
  • Trouxe tomates maduros, coisa que consumo bastante. 
  • Para além dos abacates, trouxe maçãs e laranjas. Os abacates tiveram que ser dos maturados pois os frescos estavam rijos que nem pedras.
  • Comprei ainda uma saqueta de sementes daquelas que, ao pequeno-almoço, ficam lindamente com os flocos de aveia que gosto de juntar ao kefir, com canela por cima. 
  • Trouxe também uns chinelos mais decentes dos que tenho já gastos e que me vão ser de boa serventia quando o ar frio tornar desaconselháveis as havaianas que tenho trazido nos pés. Não chegou a oito euros, um bom preço.
  • Trouxe café do que uso e que estava em promoção. 
  • Trouxe também dois queijinhos frescos de cabra com os quais faço uma bela salada de tomate, alface, maçã e coentros. 
  • E, para além do kefir, trouxe uma espécie de pudins que não são bem pudins mas não têm muito açúcar, quase nenhuma gorduras e têm proteínas. Sabem bem e, quando não tenho tempo para almoçar, iludem bem a tentação da fome. Foi a minha nora que me contou deles e estou fã.  
  • Trouxe dois chocolates pretos, daqueles que têm um mínimo de 70% de cacau, um com sabor de framboesa e outro com estalidiçozinhos de caramelo. Gosto sempre de um quadrado depois das refeições. Às vezes, especialmente quando, antes de almoço, tive uma daquelas reuniões que me deixam esvaziada, como dois e penso 'que se lixe'. 
  • Trouxe uma embalagem de toalhitas anti-transferência de cor para colocar no tambor da máquina quando lavo roupa de cor. Tudo coisas úteis, portanto.

Vi também um gel de banho que contém creme e que anuncia que deixa a pele como seda e que tem um perfume suave e fresco, deixando o corpo macio como as pétalas de uma flor misteriosa. Tirei a tampa, cheirei, quase me deixei tentar. Que cheirinho cremoso e bom. Mas, depois, pensei que às tantas o meu marido ia achar o perfume amaricado demais e que, além disso, não precisava. Portanto, ajuizada como agora ando a tentar ser, tirei daí o sentido. 

Contudo, quando estava a ir para a caixa, num daqueles corredores centrais que têm as oportunidades, vi uma caixa que me pareceu ser um Kit para Bloggers. Alto e pára o baile. É para mim, pensei. Como sou míope, aproximei-me para perceber de que constava. Afinal não era para Bloggers mas sim para Vloggers. Ora, ainda aí não estou. Pode ser que um dia ganhe balanço para tal mas, por enquanto, ainda não me sinto habilitada. Era, então, um suporte para telemóveis, um projector, e outra coisa que não identifiquei ou de que agora não me lembro. No entanto, ainda fiquei naquela: e se...? Já me imaginava a falar para as câmaras, a maquilhar-me, a mostrar como lavo a cara, como me arranjo. Mas, uma vez mais, contive-me. Não tenho o jeito e a piada da Gina nem a graça da Kate Moss (vídeo abaixo). 

Kate Moss's Guide to Cool-Girl Beauty | Beauty Secrets | Vogue

"My daughter tells me off all the time, 'Mommy you have to wear sunscreen!'" British supermodel Kate Moss takes Vogue inside her daily routine and discusses not only her new wellness line, but her new approach to beauty and self-care. Kate also goes on about how her routine has evolved since the 90s, from the early days of grunge to her latest, more adventurous, looks.

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E, por hoje, é isto. 

Aventuras de uma blogger que ainda não aprendeu a ser vlogger nem, tão pouco, a tratar da pele como deve ser. Mas vou começar a estudar para, um dia destes, começar a surpreender-vos com vídeos com os meus segredos de beleza. Ui... Para começar tenho que ver se arranjo uma gua sha. 

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Alegria, Paz.

E abaixo a letra Z

sábado, agosto 27, 2022

O que guardamos na carteira (e outras coisas de mulheres)

-- E Kate Moss e o seu Cosmoss --

 


Uma vez um amigo perguntou-me se eu tinha uma coisa qualquer, provavelmente chicletes. Sei que lhe disse que sim e, como não estava perto da minha carteira mas ele sim, disse-lhe que procurasse ele lá dentro. Ele, bem mandado, ia fazê-lo. Mas eis senão quando um outro, o Chico, exclamou: 'Não vás, pá. Nunca se mexe na carteira de uma mulher. É um perigo. Quando a gente lá mete a mão nunca se sabe o que lá vai encontrar'. Fartei-me de rir e pensei que, de facto, ainda bem que ele não tinha metido a mão. Poderia ter encontrado uma saqueta com um penso higiénico, por exemplo. Ou sabe-se lá que mais.

Agora já não uso carteiras tão pejadas. Carregava pesos excessivos e o pior é que, quando queria encontrar alguma coisa, era um castigo. Tinha que vir muita coisa cá para fora até que aparecesse o que queria. Agora uso geralmente uma carteirita pequena, quase redonda, em pele cor de pérola. Tenho atravessado o ano corrente sempre com ela. Ainda hoje a minha fila me disse que a bolsita já viu melhores dias e que já se arranjava outra melhor. Mas não. Agora estou assim. As coisas, se servem e me agradam, vão até ao limite. Já lá vai o tempo em que tinha uma carteira de cada cor para fazer pendant com a restante toilette. Frugalizei-me e sinto-me bem assim.

Esta que agora uso tem uma alça comprida que dá para usar à tiracolo e tem um tamanho que dá para lá meter a bolsa dos documentos que tem um sub-bolso para o dinheiro, dá para as chaves, para o telemóvel, para o pente, para um baton, para papéis variados e de origem e função desconhecidas e outros pequenos objectos não identificados. Dimensão perfeita. 

Dantes tinha um baton em framboesa, outro em rosa-praia, outro em carmim, outro só gloss para um brilhozinho rápido quando os lábios o pediam e eu tinha como satisfazer o pedido. Agora tenho só um na cor rosa framboesa light. Uso nos lábios ou como um blush, quando me apetece dar um subtil toque de rouge ao semblante.

É como a bolsa dos documentos. Passei anos a tentar a carteira ideal para documentos e dinheiros. Usava-as grandes. Ficavam gordas, obesas, mal fechavam, tantos os cartões, o dinheiro, as fotografias e sabe-se lá mais o quê. Depois passei para umas mais pequenas. Também com compartimentos para tudo e mais alguma coisa. Acabavam feitas ovo a deitar por fora. Até que numa lojinha chinesa descobri a bolsinha ideal: pequenina, de um material que parece pele mas é coisa sintética, sem trolorós. Uma bolsinha simples, sem divisórias ou pretensões, apenas um fechinho de zipar em cima. Os cartões todos juntos. De lado, um bolsinho também com fechinho onde guardo uma nota e umas moedas. Simples e eficaz. Perfeita. Dantes eram de pele, de boa qualidade, caras. Esta, que é a melhor que já tive, se custou 10€ foi muito. 

Hoje eu e a minha filha e os meninos fomos almoçar fora com a minha mãe. Às tantas, a minha filha viu que a avó tem fotografias na carteira dos documentos e do dinheiro: várias fotografias minhas, formato passe, de quando andava no liceu e uma na faculdade, fotografias dos meus primos, fotografias dos netos, fotografias do meu pai. Fiquei como sempre fico quando constato que há pessoas que conseguem conservar as coisas durante toda a vida sem nunca lhes perderem o rasto. Em tempos também tive fotografias mas tantas vezes mudei de carteira que faço lá ideia do paradeiro do que lá estava dentro. Perco o rasto às coisas e já me convenci que isso é genético, ingerível e incorrigível.

A minha mãe também conserva uma agenda com números de telefone. Está numa mesinha ao pé do telefone fixo. Se alguma vez tentei ter uma agenda assim já não sei dela. Não tenho. Nada se conserva nos sítios destinados. Se algum dos miúdos vê uma agenda onde quer que seja, logo pega nela para fazer desenhos, para brincar às empresas, para o que calhar. Depois muda-a de sítio. E depois eu esqueço-me dela. Se ficar sem o telemóvel ,perco a minha ligação com o mundo. Os únicos números que sei de cor são o do meu próprio telemóvel e o número do fixo da casa minha mãe, porque é o mesmo desde sempre, desde que eu lá morava.

Enfim, é o que é. Não vale a pena querer ser quem não sou. Creio que a minha mãe ainda alimenta alguma secreta esperança de me conseguir educar mas é uma ilusão. 

Engraçado é ver a Kate Moss a mostrar o conteúdo da sua carteira. Também sai de lá tudo e mais alguma coisa. Uma graça.

What does Kate Moss, our September 2022 cover star, keep in her bag? | Vogue France

Kate Moss is our cover girl for our September 2022 issue! In this edition, her out-of-this-world beauty is captured by Carlijn Jacobs in an exclusive fashion shoot. If, like us, you have always wondered what Kate Moss keeps in her bag, you are in luck as the supermodel, who will soon launch her own beauty brand, took part in our, "In the Bag" series, to share the secrets hidden inside her handbag!


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As fotografias que usei são obviamente de Kate Moss 
(que está prestes a lançar a sua própria linha de produtos de beleza, Cosmoss)

Kate Moss x Cosmoss | Follow Me To Cosmoss


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Desejo-vos um bom sábado
Saúde. Bom humor. Paz.

quinta-feira, maio 05, 2022

Topless, lingerie, espectacularidade, maluqueiras... sobrancelhas descoloradas... e muitos milhõ€$.

 

Volto ao tema do extraordinário desfile de vestimentas que, uma vez mais, teve lugar na mediática e global passadeira vermelha que é a Met Gala. Todos os grandes costureiros lá estão representados através de indumentárias que actrizes e modelos usam. O evento é temático e este ano o tema foi The Gilded Age. Contudo, as interpretações nem sempre são literais. Algumas são subversivas, outras são irónicas, outras mesmo cómicas.

Poderemos ter tendência a desvalorizar liminarmente eventos desta natureza. E, de facto, o mundo do glamour e dos holofotes é um mundo de aparências, de superficialidade, de vaidades. 

Mas é, ao mesmo tempo, uma poderosa indústria, uma actividade que obriga a um permanente exercício de criatividade a nível artístico e a imensos avanços de inovação a nível de materiais e de técnicas de confecção. Como uma das derivadas da alta-costura temos depois a poderosa indústria do pronto a vestir com toda a indústria têxtil e todo o comércio associados.

Como outra derivada, não negligenciável, há a comunicação social ligada à moda em si, aos eventos de moda, aos agentes e actores deste imenso e eterno carrossel.

Se ontem já aqui mostrei o vestido que a socialite Kim Kardashian usou, hoje mostro alguns dos outros modelos mais espectaculares. Destaco dois deles. Melhor: três.

Primeiro o vestido que Blake Lively usou, chegando com ele numa cor e, depois, ao desdobrar-se o laço, ficando com ele, sumptuoso, numa outra cor. 


Estava maravilhosa, com um vestido épico, um Versace de antologia, inspirado em Nova Iorque. 

Destaco também Cara Levingne, em Dior, que, ao despir o blaser, ficou em tronco nu, com o corpo pintado de dourado. Acho uma ideia fantástica. 

Acho que também estava uma graça, com os seus sapatos descarados e a sua insólita bengala (ver-se-á melhor no vídeo).

A terceira foi Gigi Hadid em Prada e Versace. Toda ela estava um espanto. É mais uma daquelas toilettes que ficará para a história. Imperial na cor, no design, no porte (é a primeira fotografia)

Como costuma acontecer nestas coisas, tão ou mais importantes do que a festa oficial são as after-parties às quais as celebridades comparecem com outras toilettes. Aqui imperou a moda que se dá ares de lingerie, sexy e louca, boa para a farra que se estende pela madrugada. Vários foram os modelos aparentemente mais adequados a um ambiente de boudoir do que de copos e fotos noite dentro. De entre eles destaco o que Bella Hadid (irmã de Gigi) usou.

Uma das mais badaladas foi a festa organizada por Naomi Campbell e Kate Moss que agora gosta de aparecer com ar bem comportado, comedida, e que parece ter cedido o passo à sua filha Lila Grace que não tem, nem pensar, o ar malandro que tão bem caracterizava a sua espantosa mãe. 

Curiosamente, Lila Grace, que precisa de usar uma bomba de insulina, desfila com ela bem à vista (na anca), mostrando que na moda não deve haver limitações.

Uma das outras derivadas da indústria da moda tem a ver com a maquilhagem. Também aqui há uma poderosa indústria que tem que estar permanentemente a inovar. 

Desta vez a grande novidade a este nível teve a ver com as sobrancelhas. Tempos houve em que a moda era ter as sobrancelhas bem depiladas. As mulheres tinham que as ter fininhas, sem pelos a mais. Havia e há técnicas infalíveis desde arrancar os pelos com uma linha ou com um nylon, não sei, ou, mais definitivamente, a laser. Depois passámos a ter que ter sobrancelhas marcadas. Pensava eu que era aqui que ainda estávamos. Não há tutorial de maquilhagem que não reforce a cor, a espessura, não simule um desenho mais marcado. Há até quem faça implantes para não ter que andar a desenhá-las todos os dias. 

Como não sou muito disso, nunca fiz nada às minhas. Mas ultimamente, ao ver como devem maquilhar-se as mulheres da minha idade, já começava a interiorizar que deveria compensar as minhas sobrancelhas claras com algum tom que as tornasse mais visíveis. No outro dia, encontrei numa gaveta um lápis de eye liner em tom castanho e experimentei passá-lo nas sobrancelhas. Não gostei. Esbati com o dedo e fiquei a olhar-me ao espelho a ver se parecia mais actualizada. Fiquei na dúvida. Sobretudo achei que, apesar da subtileza, me mudava um bocado o semblante. Ora como tenho a impressão que o semblante tem um bocado a ver com a personalidade, limpei. Mas fiquei a pensar que havia de experimentar numa outra ocasião, a ver se já me encarava com outra abertura de espírito.

Pois bem, nem mais: este ano várias participantes na Met Gala apareceram várias com sobrancelhas descoloradas, despercebidas.

Dizem que abre a expressão, que alisa a sobriedade e abre espaço à sensualidade de um olhar que se mostra nu. Fiquei mais consolada e a pensar que escuso de insistir no reforço das minhas.

[.... Tudo coisas à toa, sem grande profundidade... bem sei... mas é o que há]

The 10 best dressed from the Met Gala 2022 | Bazaar UK


Desejo-vos um dia tão bom quanto possível
Bons sonhos. Boa sorte. Paz.

sexta-feira, julho 09, 2021

Memórias de uma anjinha que um dia ficou com o corpo de Deus colado ao céu da boca

 


Estou a ver um belo documentário na 2, Fevereiros, em que Bethânia, Caetano e Mabel, manos tranquilos e felizes, falam do seu contacto com a religião. Mas, sobretudo, fala-se aqui da íntima ligação de Bethânia com a religião, uma relação telúrica, íntegra, visceral, mágica. É uma festa a religião contada por eles e tão sentida por ela. 

Bethânia fala de como subiu degrau a degrau até chegar ao contacto com a Senhora, coroando-a. Fala da primeira comunhão, da alegria de festejar o contacto com o divino. E fala do candomblé, de desfile, da dança, do canto, da reza, da partilha, do afecto, fala de curtir a presença dos santos e dos espíritos.

Já aqui contei e vou repetir-me -- para mim a religião nunca foi festa e alegria.

Bem, talvez tenha sido no principiozinho, quando não era senão gracinha de criança.

Havia uma capela bonita num lugar um pouco mais isolado que ficava entre o bairro onde morava uma das minhas avós e o bairro dos meus outros avós. Ficava também perto da escola. Era na escola que tínhamos a catequese.

Em Maio, a capela era toda decorada com flores e. num certo domingo, era dia de festa, o dia em que havia a primeira comunhão para os mais pequenos e a comunhão solene para os crescidos.

Isto era precedido de um desfile, na rua, dos meninos abrangidos e não me lembro se também, talvez atrás, dos respectivos irmãos ou pais. Disso não me lembro bem, tenho apena uma vaga ideia da minha mãe não estar longe..

Lembro-me que, antes da minha comunhão, eu ia à frente, de anjinho. Disso eu gostava. 

Gostava muito do cheiro fresco das flores, gostava de estarmos todos vestidos de branco, gostava dos cânticos religiosos que ecoavam pelas ruas e depois na capela. As vozes das crianças e as vozes serenas dos adultos, tudo era muito límpido e claro.

Como anjinho, eu, que tinha cabelos compridos, louros, ondulados, usava, em volta da cabeça, uma grinalda de florzinhas brancas e umas asas enormes saindo das costas do vestido, que era comprido, até aos pés. Já contei que tenho uma fotografia da qual gosto muito: eu e outras duas meninas, luzindo ao sol de Maio, eu, com os cabelos esvoaçando, eu, rindo. Uma festa. As asas eram pesadas e a grinalda não prendia bem os meus cabelos mas eu não queria saber disso. Gostava era de andar naqueles festejos brancos.

Até ao momento em que chegou a altura da minha primeira comunhão. A cena dos pecados e de confessar pecados que eu achava um disparate já me arreliava um bocado. Puxava pela cabeça para ter alguma coisa para confessar e todo aquele exercício me parecia forçado, absurdo. Ia confessar palermices só para não ficar ali calada por não ter nada que dizer. 

Mas pior, pior, pior foi quando, nos ensaios, resolveram dar uma hóstia para experimentarmos. Avisaram que não era para mastigar, que era corpo de deus. Acontece que aquilo se me colou ao céu da boca. Fiquei naquela aflição, sem saber como dar a volta ao corpo de deus. Pôr o dedo na boca para deslocar Deus do céu, isso, ainda menos. Portanto, fiquei num sufoco. Não falava, mal me mexia. Claro que, perante tal, logo a catequista e as professoras perceberam que algum problema havia comigo. Às tantas rompi num pranto. Lá me explicaram que... bem... aquilo não era exactamente o corpo de deus. Não devem ter dito que era mito ou metáfora mas descansaram-me, que tentasse dar a volta com a língua, que bebesse água para deus amolecer, que não estivesse tão apoquentada, E a coisa lá se resolveu. Ensinaram-me truques para vezes futuras e perdi o medo. Mas percebi que os tempos de anjinho, os tempos da inocência em que não tinha que me confessar e comungar, tinham acabado.

Não estou certa mas acho que, para a primeira comunhão, aos seis anos. devo ter levado o vestido que usei no casamento dos meus tios, um vestido de renda branca, sainha rodada, talvez o cabelo apanhado em cima com florzinhas brancas em volta, sapatinhos brancos. É assim que me lembro de mim mas, na minha cabeça confunde-se ir levar as alianças ao altar ou ir receber a hóstia na primeira comunhão.

A partir daí toda a mística se perdeu. A catequese era um castigo, um desfiar de histórias sem graça, carregadas de pecado. Detestava. Como ficção pareciam-me aborrecidas, como supostamente verdadeiras, eu não acreditava. Até que chegou a comunhão solene, aos nove. Não sei porquê, aí fui de monja. Não há explicação. Não era eu. Nada naquela indumentária batia certo em mim. Um hábito com um cordão a servir de cinto, um véu. As fotografias mostram-me sem o ar alegre e até malicioso de quando era anjinho mas como alguém que estava a ser obrigado a parecer outra. 

Não faço ideia qual o simbolismo da comunhão solene mas desse dia nada guardei.

Creio que a seguir era o crisma mas nessa altura já tinha adquirido voz e não quis. O meu pai deve ter dito à minha mãe que se deixasse dito e ela provavelmente deve ter percebido que nada daquilo era a minha onda.

A partir daí acabou-se-me o contacto com os rituais da igreja. 

Durante os dois ou três anos seguintes, se ia à missa, ia sozinha com as minhas amigas, já não à capela da infância mas à igreja perto de casa -- a igreja onde velámos, na capela mortuária, os meus avós e tios -- e era apenas o pretexto para ter autorização para isso mesmo, para irmos até umas ruas mais abaixo. Íamos de casa à igreja e regressávamos mas a ideia de irmos sozinhas era uma feliz sensação de desenfianço, de liberdade. Ficávamos cá atrás, na conversa, na galhofa, descobrindo quem estava e quem não estava. 

Quando nasceu a minha prima mais nova, eu tinha treze anos e disse que gostava de ser madrinha dela. Deixaram. Da minha parte, não teve nada de instinto religioso nem os meus tios também eram disso. Mas senti-me crescida, eu madrinha de uma bebé, a ocupar o lugar de uma pessoa crescida. E, com esso acto simbólico, desliguei-me de vez dos cerimoniais da igreja.

E, no entanto, há em mim um forte sentido de religiosidade e agradecimento: venero a natureza, a bondade humana, a inocência dos animais, a liberdade, a beleza em estado puro, a magia dos momentos efémeros e perfeitos, a sabedoria dos acasos.


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As flores e Kate Moss foram fotografadas por Nick Knight. 
Estão aqui ao som da Ave Maria pelos Libera

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Desejo-vos uma bela sexta-feira

quinta-feira, abril 29, 2021

Abaixo os soutiens, abaixo os saltos altos! E que vivam os rabos-de-cavalo

 



Já aqui aflorei: o confinamento alterou alguns dos meus hábitos. Hoje de manhã, quando estava a tomar o pequeno almoço, já vestida e pronta para sair a seguir, dei-me conta de que me tinha esquecido do soutien. Foi coisa que me caiu em desuso durante o confinamento. E, no entanto, os que uso são confortáveis.

Agora são confortáveis.

Contudo, durante anos usei soutiens que não me eram confortáveis. Usava o número que achava que era o meu, recusando-me à racionalidade. Como sempre, privilegiava a estética e nem me ocorria que deveria dar atenção ao conforto. Já o contei: ia a Madrid uma meia dúzia de vezes por ano e, sempre que ia, não passava sem ir à Calle Serrano, nomeadamente a um belíssima loja de lingerie. Perdia-me com belos balconies, soutien.gorges e por aí vai. Rendas elegantíssimas, cores suavíssimas ou estonteantíssimas. Escolhia tendo por único critério a beleza.

Quando chegava ao fim do dia, ao despir-me, frequentemente tinha um vinco à volta. O meu marido dizia que não sabia como é que eu aguentava e eu dizia que nem sentia. E era verdade. Mas um dia, estando a passear à noite no Algarve, uma vez mais deixei-me tentar pela lingerie. O meu marido disse: porque não experimentas um número maior? Achei que não ia ficar bem mas resolvi pedir à simpática empregada se me podia ajudar a encontrar o tamanho ideal. Ela mediu-me em várias dimensões e em várias frentes de batalha. No fim, disse qual o tamanho em número e letra para se ajustar à largura de costas e à dimensão do seio, ou seja, à copa ideal. Tudo diferente do que eu costumava usar. Aliás, nem nunca me teria ocorrido aquela combinação. Foi buscar-me um modelo com aquelas características e, ao provar, foi uma epifania. Vi-me ao espelho e estava ajustado na perfeição. E um conforto total. Foi como se mil anjos me rodeassem, tal o bem estar. Saí do provador como se me tivessem libertado de cilícios que, de tão habituada, já nem me dava conta de que poderia viver sem eles.

Desde aí, são desse tamanho de costas e copa que uso. Olho para os anteriores modelos, belíssimos, como peças de museu. Os que agora uso são também bonitos mas, como não voltei à loja da Serrano, daquelas obras de arte nunca mais voltei a encontrar. Mas isto para dizer que os que agora uso já não me causam incómodo.

Mas, durante o confinamento, desabituei-me. Parece que são peças inúteis. A vantagem dos soutiens parece-me hoje, sobretudo, a de poderem ser uma protecção contra episódios não controlados como a gente ter frio e estar a usar uma blusa fina. Tirando isso, só se for também a questão da blusa ter alguma transparência.

Mas, portanto, lá tive que ir ao quarto despir-me para colocar o soutien,

Outra são os ténis. Cada vez me apetece mais andar de ténis. Ao ver que, mesmo em cerimónias de tapete encarnado já há quem os use, ainda mais vontade tenho de um dia destes aparecer a preceito e com ténis. Ponho-me a pensar nos inconvenientes e, para dizer a verdade, parecem-me suportáveis. Qual o pior que me pode acontecer? Olharem com espanto? Cortarem nas costas? Bah, quero lá saber. Não sei é se os que tenho fazem toilette. Tenho uns em verde-seco-azeitona que farão pendant com os verde-seco que tantas vezes uso. Mas os azuis são práticos demais. Os azuis escuros estão velhos demais. Os turquesas, demasiado informais. A minha mãe diz que gosta de ver os vídeos de uma brasileira que faz aconselhamento de looks e que ela diz que ténis em sociedade só se forem brancos. Por acaso, gosto de ténis brancos mas tenho ideia que só num look mais casual. Tenho que experimentar. Agora nem tenho nenhuns brancos. Tinha uns com um vivo cor-de-rosa mas eram mesmo de verão e já estavam tão gastos que os deitei fora.

E, nesta de mudança de hábitos por via do confinamento, há outra coisa em que já comecei a ousar mas, por enquanto apenas em videoconferências: estar de rabo-de-cavalo. Gosto imenso de estar com o cabelo apanhado mas, para o trabalho ou em situações menos informais, sempre usei o cabelo caído. Quanto muito, parcialmente apanhado. Agora mesmo rabo de cavalo, não. Pois bem. Agora, volta e meia, quero lá saber. Usei e senti-me bem.

Resta saber é se, levantando-se isto do teletrabalho obrigatório e voltando-se à rotina diária de casa-trabalho-casa, vou voltar não apenas a conseguir estar o dia inteiro num gabinete numa torre de vidro como a estar de soutien, saltos altos e cabelo caído.

Com tanto abaixo-assinado completamente estúpido e fútil, porque será que ainda ninguém se lembrou de lançar uma petição a proibir a existência de qualquer femme fatale ou outras personagens da era pré-covid?

Eu assinava já por baixo.

#Free the lusitano nipple. 

#Free the feet. 

#Free the ponytail

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A Kate Moss está aqui apenas porque há imagens dela para ilustrar qualquer situação e a Femme Fatale da Carla Bruni está porque a sua voz de veludo condiz com algum pensamento subjacente por parte de quem, aí desse lado, está a ler esta conversa.

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E um dia feliz

Saúde. Alegria. Liberdade aos mamilos.


sexta-feira, abril 16, 2021

Dia após dia.
Nem parece que estou dentro de Abril

 


Tive uma reunião cedo, à primeiríssima da manhã. Além disso, hoje era dia de lavar o cabelo o que me faria levantar ainda mais cedo. Como se não bastasse, uma hora e tal antes ouvi batucar como se alguém estivesse a bater com um martelo no jardim. Estando com os vidros abertos, ainda mais ouvia. O meu marido estava a pé, na realidade preparando-se para a sua caminhada pré-matinal. Disse-me depois que era alguém arranjando qualquer coisa já não me lembro se era no passeio se no jardim da vizinha. Resultado: não dormi mais. Estou, pois, aqui perdida de sono. 

E tinha a reunião ao dealbar da manhã mas depois, até à seguinte, tinha meia hora de intervalo. Estando com o cabelo molhado, tinha pensado: ajeito o cabelo, passo um brilhozinho nos lábios. 

Essa primeira foi do mais maçador: tudo noutra língua, eu estava por favor, nada ali me interessava, gente que não se calava nem por mais uma. Estava na reunião, um telefonema urgente. Mal acabou a reunião, já com um quarto de hora de atraso, respondi ao telefonema e entrei na seguinte já com dois minutos de atraso. Sem tempo de ajeitar o cabelo ou passar um brilhozinho de framboesa nos lábios.

E estava na reunião e uma pessoa só a ligar. Eu desligava e mandava mensagem a dizer que ligava de volta e, logo a seguir, nova insistência. Por isso, mal acabou a reunião, liguei. Telefonema longo. Mal tivemos tempo para a breve caminhada da hora de almoço. Almoçámos a correr. Ele saiu para ir para junto da equipa e eu entrei noutra reunião.

E não continuo pois foi neste registo até às sete. Contudo, uma das reuniões não correu bem. Um dos intervenientes é má pessoa, é provocador, é descarado e, ainda por cima, pouco elegante. O alvo dele não fui eu. A outra pessoa enervou-se, levantou a voz, mostrou forte desagrado. Depois da reunião, telefonámo-nos: eu comentei a rudeza e a estupidez do outro. Ele disse que não tinha paciência nem vontade de aturar aquilo. Creio que, mais dia, menos dia, a coisa vai acabar mal. Há pessoas tóxicas, que minam qualquer ambiente à sua volta. Ainda debaixo daquela má onda, fui finalmente para a rua, para respirar.

Liguei, então, à minha filha -- cinquenta e cinco minutos --, depois à minha mãe -- onze minutos. Só depois fiz o jantar. Tarde, tarde. Hora imprópria para começar a cozinhar. Arroz de frango com bocadinhos de bacon e alguns legumes de permeio. Enquanto o frango cozinhava, ligou o meu filho. Mais rápido: quatro minutos e quarenta segundos. Quando acabou o telefonema, pus a máquina da roupa a trabalhar. Jantámos às dez e tal. Depois arrumei a cozinha. Vim para aqui e respondi a mails. Depois adormeci. Entretanto acordei e vi o House, desta vez com ele a acabar em lágrimas, coisa mais fofa. Um homem apaixonado e a disfarçar as emoções é do mais touching que existe. E agora, quase às duas da manhã, ainda estou nisto. Não tive tempo para ver flores, para olhar pela janela, para espreitar as gordinhas. Ou para ver as notícias. Estou aqui em total estado de inocência.

Assim passa o tempo: sem que se dê por ele. Estamos já na segunda metade de Abril, um mês misericordioso. Casei-me em Abril, mês de todas as primaveras, de todos os ensejos, de todas as madrugadas.

Sempre gostei de passear nas ruas de Lisboa e ainda mais em Abril. Um dia destes vou passear para o Chiado. Mas não poderá ser para já. Temos mato para cortar, imagino como estará toda aquela natureza à solta lá in heaven. O Chiado vai ter que esperar. 

Ah, é verdade: ontem verifiquei uma coisa do além. As duas rosas amarelas, lindas e luminosas, que no outro dia fotografei tinham ficado cor de salmão. Vim a casa a correr buscar a máquina para registar. Se não fosse tão tarde agora ia buscar essas fotografias. A ver se amanhã me lembro. Uma coisa de loucos. A minha mãe, no domingo, esteve a averiguar se era o mesmo pé de roseira. Pensou que poderia haver dois pés. Mas não: um único pé. Rosas múltiplas e mutantes. Um milagre.

E, perante a evidência de tais milagres, como poderia eu não ser crente e devota? Como...? 

Creio e venero a infinita superioridade e o infinito mistério da natureza. Ámen.


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Eu sei que pode parecer que, encaixar aqui o vídeo seguinte, é de loucos. Talvez. Mas não é apenas o jovem que é belo, andrógino, elegante, fascinante. É a casa. Que casa... deus meu, que casa... que casa habitada por um tão belo exemplar. Céus, que casa... céus, que rapaz... 

[Não vem aqui a propósito...? Ai não que não... Há coisas que vêm sempre a propósito. Vão por mim].

Inside Troye Sivan's Victorian-Era Melbourne Home 

| Open Door | Architectural Digest



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Kate Moss é fotografada por © Nigel Shafran enquanto Marlene Dietrich interpreta Falling In Love Again

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Desejo-vos uma sexta-feira completamente sexta-feira: boa demais

sábado, março 13, 2021

Retrato de uma sedutora

 

O que faz de uma mulher uma mulher sensual? O que é preciso a uma mulher para ser uma sedutora? 

Não sei dizer. Posso apenas dizer que é genético. Tenho assistido a quem se esforce por sê-lo. Fica patético. Para quem tem o prazer da sedução nos genes não é preciso esforço. É um sorriso, é um olhar, é um trejeito, é uma meia palavra, é a subtileza de um gesto que se esquiva, é a graça de uma inocência que esconde uma malícia que não se sabe se é atingível. Coisas assim que, para surtirem efeito, têm que ser espontâneas, irrepetíveis. 

Uma mulher que pode ilustrar tudo isto é Kate Moss. Ela diverte-se, ela tem dentro dela a graça que a felicidade de existir impregna o corpo de quem a sente. Ela seduz mesmo sem querer.

Vive agora no campo e adora a natureza. A que foi uma bad girl, toda ela excessos condimentando a beleza inocente, é agora uma mulher que aprecia a vida em paz. Tem quarente e sete anos, namora um conde que é cerca de treze anos mais novo que ela e que é fotógrafo, passeia os cães, desfruta a sua bela casa. Não sei se ela tem paciência para, em casa, andar a ser fotografada mas, se tiver, talvez venham a ser do namorado as mais belas fotos de uma das mulheres mais fotografadas do mundo.

Estou a falar disto porque, num dia cheio de reuniões de pds e de kick offs, com telefonemas ao fim do dia quando já me apetecia encerrar o estabelecimento e com coisas a tratar depois disso, não ia agora pôr-me para aqui a dissertar sobre desconfinamentos ou outros temas áridos e chatos. Se já fosse dia, se calhar ia ouvir os passarinhos, talvez esconder-me por entre os arbustos à espera que cheguem as andorinhas cujo ninho as espera. Se fosse noite entrando pela madrugada, talvez fosse procurar os lobos que deslizam pela penumbra azul. Assim, limito-me a mostrar duas fotografia de Kate Moss feitas pelo namorado, o Conde Nikolai Leopold Archibald von Bismarck-Schönhausen mais conhecido por Nikolai von Bismarck, bem como o vídeo onde Kate responde a perguntas que amigos e conhecidos de longa data lhe colocam.

Eu, se pudesse, perguntar-lhe-ia: De quanto tempo precisa para seduzir um homem inteligente*?

[* Os burros demoram mais tempo (provavelmente porque uma mulher inteligente também não coloca muito empenho em conquistá-lo)]

e surpreender-me-ia se ela respondesse mais do que meia hora. 

Passo, então, ao vídeo.

Kate Moss Answers 28 Questions From Her Famous Friends & Family | 

Ask A Legend | British Vogue  

If you could ask Kate Moss anything, what would it be? The supermodel and January cover star fields questions from Dua Lipa, David Walliams, Elton John, Marc Jacobs and more in episode two of British Vogue’s Ask a Legend series, revealing her all-time favourite party dress, what never fails to piss her off, and why Christy Turlington Burns calls her “little wagon” along the way. 


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Um bom sábado.
Luz. Esperança. Amor.

sexta-feira, dezembro 04, 2020

Conto de Natal: o lobo e a gatinha

 


A gatinha anda por aí. Branquinha e cor de mel. Silenciosa. Apanha sol, desliza por entre as flores, disfarça-se por entre as sombras, oculta-se em plena luz. Existe e isso chega-lhe. Quando se espreguiça sabe que é feliz e essa é a felicidade maior, a que não precisa de ser procurada. Por vezes brinca. Brinca às escondidas, a gatinha. Foge, espreita, vigia, tem vontade de se aproximar mas também tem vontade de fugir, e hesita. Hesita, hesita. Esconde-se. Brinca. Não diz nada. À gatinha nunca ninguém ouve uma queixa, não é disso. É mais de virar as costas e dar um bye. Mas fica de longe, a espreitar. A esperar. A querer aproximar-se. 

Escuta, confunde-se com o silêncio. E espreita. Observa. Talvez pense. Ou talvez não. Não é de pensar, é mais de sentir.

Mas, na sua inocência de gatinha feliz, ela sabe que o mundo não é bem assim, não é só o muro em que se deita ao sol, os carreiros por onde se esgueira entre as árvores, os pássaros que por ali andam. Não, não. Ela sabe que há perigos.


Muitas vezes pensa que, se fosse de pensar, pensaria no que faria se o perigo acontecesse. Ocorre-lhe que não sabe. Não sabe pensar nem sabe o que pensaria se pensasse. Por isso não se defende. Nem se atormenta. Se fosse outra a sua natureza talvez se amedrontasse com pensamentos envoltos em medo: Ai... Se surgir um lobo... o que farei? Assustar-me-ei? Morrerei de aflição? Esconder-me-ei? Desafiarei o lobo? Ou esperarei que ele se decida e só então verei? 

E o lobo? O que faria o lobo? Assustar-se-ia com a doçura da gatinha? Teria coragem de atacar quem parece nada temer?

Talvez o lobo tivesse vontade de chamar a gatinha. Mas não sabe o seu nome. Se quiser chamá-la, talvez se limite a fazer bschhh, bschhhh, bschhh. De que outra forme a chamaria? Apenas com o bater do seu coração? Talvez o lobo pense que, se tivesse dois corações, assim a gatinha o ouvisse. Assim, não ouve. Então, entre respirações, talvez ensaie o tal chamamento: bschhhh, bschhh. 

A gatinha fará de conta que não ouve. Gosta de fazer que não percebe, gosta de se fingir desinteressada. 

Talvez o lobo se deite, silencioso, disfarçando o tremor que lhe nasce da ansiedade, talvez em surdina balbucie bchhh, bschhh, bschhh. Os olhos luzindo na noite, a respiração ofegante, o lobo quer mas não quer, quer mas não quer. 

Que faria ele se estivesse perto da gatinha? Não sabe. Não sabe lidar com gatinhas despreocupadas, felizes. Receia que a gatinha quebre o seu coração em dois. Ficaria, então, com dois corações mas incompletos, despedaçados.

Recuará, certamente, o lobo. Hesitará. Os lobos são seres literários, uivam em silêncio na calada da noite, são seres solitários, preferem viver nos sonhos, nas páginas dos livros, preferem a companhia das palavras. São seres dúplices. Atravessam os caminhos frios e sombrios em que não há vivalma, escondem-se onde ninguém os pode ver, vivem em grutas, são vultos, confundem-se com vultos, desdobram-se em vultos. São obscuras emanações da noite. Desconhecem a voluptuosidade do sol sobre a pele, desconhecem a alegria de pouco mais saber do que viver sem pensar.

Mas o lobo é também um ser atento e cultivado, sabe que é natal. E, então, armado em bonzinho, anda um pouco mais, rasteja por entre as ervas húmidas da noite, o bafo morno transformado em fumo, quase deslizando por entre as silenciosas sombras da madrugada, põe o peito a descoberto para que melhor ela lhe arranque o coração, mostra as patas cheias de cicatrizes, quer que a gatinha saiba que já foi ao fim da noite. Depois aproxima-se ainda mais e sussurra: rom-rom... rom-rom... rom-rom...

Quanto à gatinha não vou nem dizer qual a reacção. O conto é de natal mas convém que tenha algum suspense, pelo menos para poder ter continuação.


Miaaaauuuuuuuuuuuuuu.....................................

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E um dia feliz para todos, sejam vocês gatas, gatos, lobos ou lobas.

quarta-feira, janeiro 15, 2020

Amor e coragem. E os acidentes que, por vezes, acontecem.





Cada casamento terá as suas características, uns mais românticos, outros mais apimentados, outros mais tumultuados. E, quando falo em casamento, falo em sentido lato. Refiro-me a uma relação íntima, estreita, uma união para a vida (mesmo que não dure uma vida). Não precisa de papel passado. 

Conheço vários tipos de casais. Num dos mais extraordinários apenas conheço um dos elementos, o homem. O que sei daquele casamento é através do que ele conta, das fotografias que, volta e meia, mostra e dos telefonemas que recebe, frequentes, e porque, pelo exaspero em que fica, fala em voz tão alta que eu não posso deixar de ouvir. E o que ouço deixa-me perplexa. Se o meu marido falasse assim comigo, quando chegasse a casa tinha a fechadura trocada e um saco de plástico à porta com um par de cuecas, um par de meias, uma camisa que já não lhe servisse e umas calças de verão se fosse inverno ou vice-versa. Contudo, a este meu conhecido a mulher já nada deve levar a mal pois, mal ele lhe desliga o telemóvel, passado segundos já ela está a ligar de novo e ele volta a gritar e a desligar e ela volta a ligar. E, no entanto, são inseparáveis. E, aparentemente, não apenas as discussões constantes não os abalam enquanto casal como, pelo que constato, não o abalam a ele pois acaba estes turbulentos telefonemas e, acto contínuo, continua a conversa comigo ou com quem for como se nada se tivesse passado.


Conheço outro que dizia que gostava em absoluto da mulher e que, desde novo, queria acabar os seus dias com ela ao lado. E era sincero. Gostava dela em todas as vertentes: achava-a bonita (e é), prendada (e é), inteligente (e é), boa pessoa (e é), educada e simpática (e é), boa companhia (e é), elegante (e é). E, no entanto, tinha uma qualquer pulsão que o levava a traí-la dia sim, dia sim, deixando-a num permanente estado de ciúmes e de nervos. Até que a rotura foi inevitável. E aí ele andou de namorada em namorada até que se fixou numa que é a antítese da primeira: feia, mal jeitosa, mal arranjada, antipática, bardajona. E, no entanto, quando se pensaria que aquilo não poderia durar, a verdade é que já lá vai quase tanto tempo com esta segunda como com a primeira. E isto mantendo-se em contacto com a primeira e quase parecendo que, tivesse ele coragem, seria para ela que voltaria. E, no entanto, não volta -- para desgosto dela e não sei se também dele. Uma coisa que jamais perceberei. 

E conheço um outro casal, uma vez mais pelo que sei do lado dele. É o segundo casamento. Para mim é um casamento de fachada pois, do que lhe conheço, não fosse ele dependente da opinião alheia e já há muito teria assumido a sua orientação noutro sentido. Faz-se de muito macho mas a mim não me engana ele. Há uns anos contou-me que a mulher andava aborrecida, queria separar-se, dizia-me que a mulher andava com ideias esquisitas. Enquanto ele falava eu só pensava: 'Qual o espanto...?'. Depois foram superando as crises e a verdade é que continuam casados. De vez em quando ouço-o ao telefone com ela. Parecem grandes amigos, diria que cúmplices. Da maneira como fala dela, diria que não passam um sem o outro.


O meu casamento não é como nenhum destes. Presumo que não haja dois casamentos iguais. Nem sei qual a receita para um casamento duradouro. Mas também não acho que o objectivo seja ter um casamento duradouro. O objectivo deve ser a felicidade, sendo que cada um se sente feliz à sua maneira. Se a relação é uma fonte de angústias ou uma permanente frustração, então, mais vale pôr um ponto final. E vida nova. 

Os membros de um casal devem sentir-se mesmo unidos, um deve apoiar o outro e esse apoio deve ser equivalente, não pode ser um apoiar totalmente e o outro fazer de conta que sim. E devem acompanhar-se, mas acompanhar-se mesmo, e devem achar que a companhia do outro é a melhor companhia do mundo. E devem estar juntos nos bons e nos maus momentos. E devem ser uma fonte de boa disposição, devem fazer-se rir um ao outro. E devem compreender os receios e as incertezas um do outro e devem ajudar o outro a encontrar forças quando elas faltam. E devem ser uma fonte de amparo e de carinho. E devem gostar mais ou menos das mesmas coisas.

Se uma relação não for um espaço de paz, harmonia e construção do futuro, então, bye-bye. 

E não pode haver desconfiança de um em relação ao outro. Não pode. A desconfiança mina, mata. Deve haver confiança plena, inquestionável. E não me refiro a minudências. Pelo contrário, acho que devemos passar ao largo das pequenas coisecas que apenas servem para chatear. Confiar não é sinónimo de possuir. Ninguém possui ninguém. Ninguém deve querer possuir ou ser dono dos actos do outro. Um casamento deve ser um espaço de liberdade. Liberdade. Referia-me à confiança de verdade. Saber que, se estivermos doentes, se necessário for, o outro se sacrificará para atenuar o nosso sofrimento, saber que, se precisarmos de suporte no auxílio a terceiros, poderemos contar com ele, sabermos que, em qualquer momento difícil que atravessemos, o outro estará lá para nos dar a mão. Esse tipo de confiança que é o chão, o ar e o céu de que precisamos.


E estou com isto porque hoje o santo algoritmo do YouTube me apareceu com uma invulgar: uma queda num número acrobático que nos faz parar a respiração. Aliás, antes da queda já a respiração quase me faltava. É preciso uma pessoa confiar muito na outra para fazer o que estes dois aqui fazem. É certo que 'love is courage'. Pelo menos assim o vi escrito numa parede. E concordo. Mas coragem como a destes dois é coisa invulgar.

Mas os acidentes acontecem.


E a seguir, sugeriu que visse o que aconteceu num destes dias, numa exibição já este ano.

Uma confiança ilimitada. Uma coisa que supera o imaginável.



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O algoritmo ousou, apresentando-me uma coisa que foge aos meus gostos habituais mas, uma vez mais, acertou. Gostei de ver.

Lembrei-me de ir buscar pinturas de Chagall e de trazer Grace com You Don't Own Me com Kate Moss a dar corpo à liberdade.

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Um dia feliz para si aí desse lado. E coragem, ok?