As tardes em casa, numa casa de cidade, estando uma pessoa sozinha e não estando habituada a isso, são tardes aborrecidas.
Quando estou a trabalhar, sem tempo para nada, penso, com uma certa nostalgia, como deve ser bom ter tempo para fazer as coisas com vagar. Penso, também, que, tendo tempo disponível, me poderia sentar à minha mesa de trabalho e, com calma, escrever - e, estando na cidade, sentar-me na mesa em que agora estou e da qual se vê o rio largo e belo e várias cidades à volta, e escrever, tranquila, o pensamento solto, o olhar lavado.
No entanto, não é de um mês para o outro que uma pessoa muda o seu biorritmo e, tendo tempo, desbarato-o numa indolência incompreensível. Leio, tenho lido muito mas, habituada que estou a ler aos bocados - no carro (quando não sou eu que conduzo...), à noite, nos interstícios de outras ocupações, ao fim de semana - agora que uso tardes e manhãs inteiras para ler, fico com a sensação que estou a mandriar. Coisa estúpida, isto.
Bom, mas estava eu hoje a ler o livro que comecei ontem, o Mapa e o Território do Houellebecq, quando ouvi um som que me transportou aos tempos da infância. Fui a correr e comprovei, era um amolador de tesouras.
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Hoje, de tarde, um representante de um ofício quase extinto: amolar tesouras, facas,
arranjar varetas de chapéus de chuva.
O pequeno segmento claro que se lhe vê na mão direita é a gaita de beiços
(acho que é este o nome daquele pequeno instrumento musical) |
Ouçamos um amolador, por favor
Som agradável, nostálgico
Olhei o rio. Estava manchado de verde escuro, o céu estava a toldar-se. A minha avó, quando ouvia um amola-tesouras, dizia que ele anunciava chuva.
Passado um bocado a chuva batia, de facto, nas minhas janelas, Lisboa estava envolta em neblina, o rio estava envolto numa névoa molhada e triste, todo ele cinzento esverdeado, escuro. Fechei a janela que estava aberta mas com pena pois senti aquele perfume maravilhoso da primeira chuva e eu gosto tanto desse perfume.
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Passos Coelho e a Srª D. Laura a preparem-se para a rentrée do PSD no Pombal
(uma perfeita inutilidade) e, mais do que certo, para mais uma demonstração
que fazia melhor se ficasse antes vender refrescos na Manta Rota |
À noite, ainda vi na televisão que o Passos Coelho pregava no Pontal mas não consegui ouvir nada pois, quando viram quem era, de imediato várias mãos saltaram para o telecomando e vários gritos se ouviram Tirem-me esse gajo da frente!, Eh pá, esse gajo é que não!. Eu ainda tentei, quase a medo Mas se não me deixam ouvir o que o homem diz, como posso depois pronunciar-me...? mas fui liminarmente interceptada, Esse gajo? Mas já o ouviste alguma vez dizer alguma coisa que se aproveite?! Esquece!
Agora à noite ainda tentei ouvir alguns dos vários debates nos vários canais e, do que ouvi, parece que toda a gente o desanca mas, uma vez mais, não fui bem sucedida. Por estas bandas o homem está completamente descredibilizado e já não o conseguem nem ouvir, nem sequer falar dele. Uma espécie de brotoeja, acho.
O que sei e isso é bem claro e nem preciso de ouvir alguém opinar sobre isso é que o PIB mantém a acelerada trajectória descendente, que o desemprego mantém a acelerada trajectória ascendente e que o que, estupidamente, é referido como uma coisa boa, a queda das importações e a redução da dívida externa, revela, quando observado o contexto, que o investimento quebrou e que a economia está a colapsar.
O estado económico e financeiro de um país afere-se através de um conjunto de indicadores e a observação deve ser conjunta, articulada e integrada em séries (longas, de preferência).
Pegar em dois ou três indicadores isolados e cantar de galo quando os restantes são uma desgraça e quando os próprios indicadores referidos, lidos contextualizadamente, revelam o mesmo que os restantes, só revela falta de conhecimentos ou falta de seriedade.
O que está a ser feito é, em parte, o que a troika determina. Mas a responsabilidade não é (só) da troika. O que se está a passar é a mesma coisa que um palerma qualquer pegar numa canção de um compositor, adaptá-la, deturpá-la e fazer-lhe uma coreografia manhosa, e depois, quando criticado, dizer que a composição é de outro.
O programa da troika era um programa de reestruturação, não era um programa de governo. Tomá-lo como o único guião já revelou uma falha grave pois o programa de reestruturação deveria ser complementado com um programa de crescimento. Depois, não apenas esquecer a componente económica, e ainda por cima, querer ir mais longe do que a troika determinava, já revela uma preocupante cegueira.
Agora, em cima disto, e estando à vista, desde há tempos, o lindo serviço que andam a fazer, vendo o mal que está a ser causado ao país de forma quase irremediável, ainda não conseguiram perceber que estão a fazer tudo errado, revela uma total impreparação e incapacidade para estarem à frente dos destinos do País. É que, oh senhores, ainda não conseguiram perceber...!
Pode haver quem pense que gerir um país é a mesma coisa, tal e qual, que gerir uma casa e que a boa gestão é a de só gastar, com os tostões contados, o que se tem. E que, se agora não se tem dinheiro para ter uma casa, não se pode comprar a casa.
Ora é sabido que se pode comprar a casa a crédito, desde que os rendimentos expectáveis mostrem que se são suficientes para ir amortizando uma dívida que se contraia agora, permitindo, desta forma, usufruir da casa ao longo da vida e não apenas quando já se for velho.
A larga escala é assim que funcionam as empresas e os países. Ou seja, vive-se a crédito e, por isso, tinha razão o Sócrates quando disse que há sempre dívidas e que as dívidas vão sendo geridas ao longo do tempo. Isto é gestão.
Que o país ao longo de anos e anos se endividou para além das suas possibilidades, é um facto. E isso é mau e isso não devia ter acontecido. Mas fê-lo não porque fossemos todos uns esbanjadores mas porque as políticas europeias e os fracos líderes que temos tido (lá e cá) destruíram a economia portuguesa. Ora, como destruíram a economia mas não dizimaram os portugueses, tem havido necessidade de importar para que os portugueses tenham o que comer, o que vestir, o que calçar, o que equipar a casa, etc. E para que os portugueses pudessem consumir e importar, os países com excedentes não se cansaram de emprestar dinheiro, colhendo daí resultados através dos juros cobrados. E quem vende a quem não tem alternativa pode impor condições. Os portugueses têm sido, ao longo de muitos anos, vítimas passivas destas políticas.
Uma economia fraca é a raiz de todos os males. E a passividade de um povo é outra raiz de todos os males.
Mas, em cima disso, existe uma outra raiz para todos os males: é uma demografia definhada. As tendências demográficas deste país associadas à exangue economia portuguesa e à abulia bovina do povo português, são facas que atravessam o peito, as costas e o coração de Portugal.
Por isso, culpar os hábitos dos portugueses ou centrar as culpas em José Sócrates ou andar a destruir ainda mais a economia ou andar a enxotar os jovens portugueses para o estrangeiro ou mil outras parvoíces são tudo faces da mesma política estúpida, ignorante, mal intencionada, fatal.
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Bom... Começo a falar nisto e fico toda arreliada. Esta gente tira-me do sério. O país está a ser vendido a preço de saldo, uma humilhação, mais de 20% de desempregados, quem trabalha com cada vez menos direitos, uma ofensiva inqualificável a todos os níveis... revoltante.
Mas, para não me ir deitar toda aborrecida, vou tentar aligeirar o ambiente. Vou transcrever aqui um bocadinho do livro que ando a ler.
Aqui a primeira vez que Olga vai a casa de Jed.
- Sim, é um apartamento de rapaz... - disse Olga com leveza - e depois avançou pela sala e agachou-se para examinar uma prova; a minissaia subiu-lhe largamente pelas coxas, as pernas dela eram incrivelmente compridas e esguias, como é que se podia ter umas pernas tão compridas e tão esguias? Jed nunca tivera uma erecção como aquela, era francamente incómodo, tremia todo e tinha a impressão de que não tardaria a desmaiar.
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Kate Moss por Mario Testino |
- Eu... - pronunciou ele num grasnido irreconhecível. Olga virou-se e viu que aquilo era sério, reconheceu imediatamente aquele olhar cego, pânico, do homem que não pode mais de desejo, caminhou na sua direcção alguns passos, envolveu-o no seu corpo voluptuoso e beijou-o na boca.
Depois, muito tempo da separação, uma separação muito fácil, uma inesperada quebra:
Joe Dassin, salut les amoureux
Numa tarde do princípio de Novembro, pelas dezassete horas, deu consigo diante do apartamento onde Olga vivia na rue de Guynemer. Tinha de acontecer, pensou: caído no laço dos automatismos, tomara, mais ou menos à mesma hora, o caminho que seguira todos os dias durante meses. Sufocado, arrepiou caminho, direito ao Jardim do Luxemburgo, e deixou-se cair no primeiro banco que lhe apareceu. (...)
Ao longe, o sol poente iluminava os castanheiros com uma extraordinária tonalidade alaranjada, quente - quase um amarelo indiano, pensou Jed; e involuntariamente veio-lhe à memória a letra do Jardin du Luxembourg:
Mais um dia
sem amor
mais um dia
na minha vida
O Luxemburgo
envelheceu
Será que é ele?
Será que sou eu? Não sei, não sei.
Como muitos russos, Olga adorava Joe Dassin, e sobretudo as canções do seu último disco, a sua melancolia resignada, lúcida. Jed estremecia, sentia-se assaltado por uma crise irreprimível, e quando lhe vieram à memória as palavras de Salut les amoureux, desatou a chorar:
Amámo-nos como quem se afasta
tão simplesmente, sem pensar no amanhã
no amanhã que chega sempre tão depressa,
nas despedidas que às vezes correm bem demais.
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'Proud to be a man',
mais uma das realistas pinturas de Fabian Perez, esta com este curioso nome |
No café da esquina da rue Vavin pediu um bourbon e deu logo pelo seu erro. Passado o reconforto do ardor foi de novo submergido pela tristeza, e as lágrimas escorreram-lhe pela cara abaixo.
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Olha, afinal este bocado também acaba mal...
Mas, enfim, como se já não bastassem os desmandos do Passos Coelho e Companhia, para que não fiquem preocupados também com isto, levanto a ponta do véu: passados dez anos, Jed e Olga voltam a encontrar-se.
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E, com isto, já é quarta feira, dia feriado, e o meu vai ser recheado como um ovo. Que o vosso seja um dia muito bom é o que muito sinceramente vos desejo.