Mostrar mensagens com a etiqueta Michel Houellebecq. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Michel Houellebecq. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, julho 12, 2022

Stranger things, estranhas pessoas.
Post com auto-retratos (via Art Selfie)

 



Se uma coisa cai no goto de meio mundo e toda a gente fala disso, eu, vá lá saber-se de quê, mantenho-me ao largo. Livros que toda a gente leu, eu não li. O alquimista, As 50 sombras de grey, o Equador, esses. Já para não falar do Não há coincidências sobre o qual assisti a confissões de identificação surpreendentes. E muitos outros. Com filmes ou músicas a mesma coisa. Ou com pessoas. Sou mais atraída pelo que é marginal. Se uma pessoa é estrela em ascensão e é convidada para todo o sítio ou elogiada por toda a gente eu fico logo de pé atrás. No meu íntimo penso que deve ser algum tangas. 

Por exemplo, numa empresa em que trabalhei, houve, em tempos, uma grande contratação. Tínhamo-la visto antes como partner de uma empresa de consultoria. Toda prosa, toda vapor, toda auto-confiança, logo íntima dos que identificou como decisores. Ao almoço já era a estrela sentada à direita de deus-pai-todo-poderoso. Algum tempo depois, por uma soma calada estava lá, tinha sido contratada. Era a maior. Elogiada dentro e fora. Sempre íntima de quem importava. Algum tempo depois já estava a ser convidada para coisa ainda maior. E eu sempre a pensar: uma tangas. Pouco tempo depois, saiu. Tinha sido convidada para cargo ainda mais importante numa grande e mediática empresa. Pensei: não vai aquecer o lugar. O que a move é ser a maior, é ser elogiada e requisitada por alguma empresa ou alguma pessoa que ela ache que é ainda mais importante. Bem dito, bem feito. Está agora, num grande cargo, numa das maiores e mais ricas empresas do país. Imagino que esteja a fazer o mesmo que sempre a vi fazer: a espalhar charme e pouco mais. Mas isto se calhar sou eu que acho que gente assim, muito consensual, muito sorridente, muito famosa, é do tipo em que se espreme e não deita nada. Posso estar errada. E os que têm a fama e o proveito é que, na volta, estão certos.

Autores: dos que se vendem mais, não devo conhecer um único. Não sei se é coisa de que me gabe mas é o que é. Por exemplo, o Valter Hugo Mãe. Comigo não dá. Tanta gente importante a gostar das fofuras melosas que brotam daquela boquinha santa e daqueles dedinhos inspirados e eu a achar que o homem é uma treta. Fico sempre admirada quando alguém que julgo ser gente informada e exigente se confessa rendida aos encantos dele. No meu íntimo, admito a possibilidade de andar desfasada do que é bom. Quem garante que não sou eu que ando com o passo trocado? Quem garante que um dia o bom do Marcelo não inventa um Nobel à moda de Belém e o entrega ao Valtinho? Depois de chamar o João Miguel Tavares para presidir a um 10 de Junho que ficará para a história como o supra-sumo do absurdo, já não digo nada. 

Por exemplo, sei que agora na Netflix Stranger things é o que está a dar. Meio mundo vê, meio mundo comenta, a música que lá passa fica a bombar, há certamente merchandising para todos os gostos, há todo um mundo a gravitar em torno disto. Pois não vi, não tenciono ver e não sinto qualquer falta. Posso estar a perder grandes momentos da minha vida mas, fazer o quê?, passo.

Em contrapartida, vídeos como os que abaixo partilho são para mim um pitéu. Por alguns, os seus intervenientes serão considerados loucos, génios marados, ou, na melhor das hipóteses, irreverentes ou 'metidos a besta'. Mas eu gosto. Gosto de ouvi-los, gosto de conhecer as suas ideias, acho-lhes graça. Partilho-os e que cada um ajuíze por si.

Louis-Ferdinand Céline (1894 - 1961) por ele mesmo numa entrevista com Louis Pauwels



Aqui é Jack Kerouac (1922 – 1969) sobre "the greatest writer in the world"



E aqui é Michel Houllebecq ((1956 -- ) que também fala de Céline


______________________________________________

Agora, enquanto aqui escrevo, cara obviamente completamente lavada, cabelo obviamente despenteado, pronta para marchar daqui para a cama, fiz três selfies (e, como nunca as faço, não sei como melhor me posicionar) e inseri-as no Art Selfie. As figuras com que a inteligência artificial da app me identificaram estão aqui acima. De Emanuel Phillips Fox - Nasturtiums, 1912, Profile Portrait of a Young Lady, 1465, atribuido a Antonio del Pollaiuolo e Portret van Wilhelmina van Pruisen, 1904, de Fr. Bruckmann 1904. A ver se amanhã me penteio e arranjo a preceito e se estudo melhor a pose para ver no que dá.

Melody Gardot interpreta Morning sun

______________________________________

Desejo-vos um dia feliz
Saúde. Vida longa e feliz. Paz

quinta-feira, junho 18, 2020

Contra os chatos e os convencidos
marchar, marchar





Porcaria da internet. Isto hoje está naqueles dias impossíveis. Carrego numa qualquer opção e o ecrã põe-se branco, atordoado dos pensamentos, em total estado de estupor catatónico. Há bocado, estava eu a tentar descortinar uma complicação no meu computador, ouço o bebé: 'Pocaria da internet!'. Perguntei: 'Então, que se passa?'. E diz ele, apontando para o computador que estava a usar: 'Isto não anda!'. De facto. Todo o dia tem sido este desespero. Não mexe. Impossível escrever aqui com isto neste estado, em aberto e acintoso contravapor. Apetece-me desistir.


Enquanto não desisto, conto uma coisa. Quando estavam a sair, digo ao bebé: 'Olha, meu amor, gostei muito que cá tivessem estado' e responde-me ele: 'Nós ainda cá estamos...'. O meu filho disse: 'O tempo verbal que usaste não lhe pareceu correcto'. E fiquei a pensar que a nossa pressa em viver leva-nos a cometer estes erros, a transformar em passado o que ainda é presente. menino mais fofésimo.

Os manos estiveram com aulas e avaliações, tiveram boas notas, brincaram, zaragatearam um com o outro, brincaram com o maninho mais novo e, como sempre, encheram-me o coração. Os pais trabalharam, nós trabalhámos. E o tempo avança.

Entretanto, para além dos números assustadores de países em que a pobreza intelectual ou económica impera, vamos sabendo de novos surtos do corona na China e que, por cá, os números não descem tanto quanto deviam. Na volta, ainda nos arriscamos a ter mesmo a tal segunda onda que nos impedirá de voltarmos tão cedo a uma vida descontraída. Estou bem como estou mas, ao mesmo tempo, penso que qualquer dia vou mesmo ter que voltar a trabalhar em torres de vidro, sem janelas, e isso traz-me uma certa ansiedade. O bebé, quando se fala em escola, muda de conversa, levanta-se. Não lhe agrada. Está bem assim. Eu também estou.


Bem. Hoje vinha para falar de outra coisa. Aliás de duas coisas.

Uma é um mistério: estando aqui sossegada em casa, por que estranha razão não me dá para ler? Volta e meia pego num livro mas, confesso, ao fim de pouco tempo, pouso-o. Não sei porquê. Parece que não quero trazer para dentro desta insólita liberdade que agora vivo nenhum dos meus anteriores hábitos. É absurdo dizer isto a propósito dos livros e, na volta, nem tem nada a ver mas, se não é por isso, por alguma razão é.

A outra é esta: não tendo aqui senão a televisão corrente, quase não a vejo. Não suporto ver gente que se leva muito a sério, gente que se acha, gente que sabe tudo e não se ensaia nada de tecer juízos morais sobre os outros. Parece que toda a gente que ali vai se acha importante, sabedora, superior. Um tédio, uma seca, um saco. Desligo. Mudo-me para a netflix ou vou descobrir vídeos.



E penso: à distância, em reuniões remotas, consigo evitar muitos maçadores. A hipótese de voltar a frequentar a cidade, os corredores, os salões e demais antros de gente parva é daquelas que também me assusta.

Por exemplo, o vídeo abaixo. Uma graça.


Ou este:


_____________________________________________

Fotografias de  Fee-Gloria Groenemeyer

____________________________________________________

Saúde e alegria para todos

sexta-feira, dezembro 16, 2016

Habitamos a ausência





É uma da manhã. Não sei nada do que se passou no mundo. Liguei também agora a televisão. Até agora, grandes dramas que já caíram na banalidade ou vulgaridades da pequena política debitadas como se de determinantes verdades se tratassem. E prisões. Por suspeitas de corrupção, por posse de armas, posse de drogas. E, que tenha dado por isso, pouco mais nada. Ninguém se lembra de divulgar fulgurantes descobertas, grandes amores, loucuras nunca antes sonhadas. Os jornalistas deixaram de querer descobrir raridades, contentam-se com as trivialidades que todos papagueiam sem se saber já de onde parte a ideia original. Mas também não interessa porque parece que o culto da originalidade é coisa de uma ínfima e desprotegida minoria (na qual se calhar eu me incluo).

Podia descever o meu dia e, melhor ainda, o meu jantar. Podia escrever um senhor post. Mas não devo. Fica a fermentar e, daqui por uns tempos, misturado com outras coisas, logo conto alguns momentos.

Como já no outro dia contei, há situações subliminares, histórias ocultas, dramas familiares que coexistem com momentos de festa. Mas não posso contar. Pelo menos não em cima do acontecimento.


Conto só que o jantar foi num sítio onde nunca tinha ido. O que me valeu, e mal, foi o gps do carro. De noite, a chover, um trânsito do caneco, as ruas alagadas, eu sem conhecer puto, e a menina do gps a mandar-me encostar-me à direita e carros por todo o lado, incapaz de me encostar ao que quer que fosse. E depois, mais à frente, que virasse já e eu não na faixa de virar mas na de ir em frente e depois só um lago e eu sem saber se aquilo era água superficial ou com um metro de profundidade. E sem poder pensar ou equacionar alternativas, tamanha a fila de carros Finalmente, depois daquela confusão de trânsito, chuva e carros, cheguei ao meu destino. 

Second round. Estacionar.

Zero lugares. No meio do trânsito, sem conhecer nada do lugar, e a afastar-me do restaurante e nem um lugar. Nem um. Já só pensava: que se lixe, vou-me embora. Já passava uma hora da hora combinada.

Até que já afastadíssima, vi uma rua estranha que, no meio daquela confusãp, levava a um bocado de terra batida. E lá uns quantos carros. Pareceu-me uma clareira no meio da floresta. Um milagre. Enfiei para lá o carro sem perceber por que raio de carga de água havia um bocado de terra batida no meio de uma babel de prédios e ruas e carros. Marimbei-me. Larguei o carro e fui a pé. A choviscar, longe para burro, passeios de calçada e eu, de salto bem alto, a calcorrear ruas e ruas de um lugar completamente desconhecido.


Pensei que, às tantas, já iam a meio de jantar. Qual quê. Menos de metade. Tudo a relatar o calvário para lá chegar e, depois, para estacionar. Ao longo da próxima hora foram chegando os restantes, tudo com ar meio desesperado, tudo a dizer que tinha sido apenas por uma unha negra que não tinham desistido..

Mas pronto, isso ficou para trás das costas. Habituados e mais que habituados a estes pincéis estamos nós. Portanto, confraternizámos e conversámos e foi bom. 

Agora à vinda, outra vez. GPS. Mas aquele desconforto de conduzir de noite, a chover, em sítios totalmente desconhecidos. E viadutos novos, vias rápidas novas, os carros a abrirem e eu sem estar a ver a estrada e sem perceber o percurso, a ser guiada pela menina que, quando se cala, me deixa na insegurança. Encoste à esquerda, daqui a trezentos metros vire à esquerda - diz-me a menina. Mas como encostar à esquerda se os carros vêm  toda a brida e não se vê nada?

Enfim. Cheguei sã e salva. Aqui estou. Ouço música, escolho fotografias. Sabe-me bem estar a ver as fotografias de Etha Ngabito, um mundo tão cheio de luz, harmonia e silêncio. Agora vejo que na televisão repetem a Quadratura do Círculo mas estou tão bem a ouvir a Bonnie Raitt e a Norah Jones a interpretarem Tennessee Waltz que não me apetece ouvi-los a falarem de corrupção, de prisões que parecem arbitrárias. de impunidade que ainda bem que já não há, de legislação que já chega.

Não, antes a música arrastada que me embala os sentidos e me transporta para as profundezas da noite.


Com isto de andar a escolher fotografias e músicas, o tempo vai passando. Daqui a nada já são duas da manhã. Começa a dar-me o sono. De vez em quando, fecham-se-me os olhos.

Em vez de acabar de escrever e ir para a cama, ponho-me a protelar, a dar voltas inúteis. Depois interrompo e vou ver os mails.

A seguir, espreito as estatísticas. Esta quinta-feira dentro dos valores habituais: 1.384 visitas. Há dias de mais mas, em média, acho que anda por estes números. Se calhar são sempre as mesmas pessoas e já se cansam de eu não falar de neuras ou tristezas que apelem à solidariedade, de casos exorbitantes e, pelo contrário, passar a vida aqui com uma converseta da treta.

E agora, desde a meia noite, já 280 visitas. Eu aqui a escrever e vocês, meus queridos leitores, aí desse lado, se calhar à minha espera.

E estava eu a pensar nisto quando vejo nas estatísticas que uma das expressões que alguém escreveu num motor de busca e que o encaminhou para aqui foi  "nous habitons l’absence". Fiquei maravilhada. Juro. Como se não pudesse acabar melhor este meu tão preenchido dia.  Que palavras extraordinárias.

Fui eu ao google e escrevi aquilo. Fui conduzida até ao poema Configuration du dernier rivage de Michel Houellebecq. Não fui parar ao UJM mas, se calhar, alguma vez referi aquele verso. Não sei. Ou, então, o algoritmo da Google achou que poderia aventurar-se e ofereceu-me estas palavras que talvez descrevam um pouco o que eu, por vezes, sinto. Habitamos a ausência.


¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma sexta-feira muito feliz.


¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

segunda-feira, junho 15, 2015

Clara Ferreira Alves e José Sócrates -- ou quando uma comentadora mostra a sua inconsistência. Foi no Eixo do Mal e parece que lhe deu uma coisinha má. [E ainda, também a propósito do Caso Marquês e do Preso 44, João Garcia e Rosário Teixeira; e Miguel Sousa Tavares e o Estado de Direito]






Ser-se comentador não deve ser fácil, especialmente para quem leve a coisa a sério. É preciso a pessoa manter-se informada, preservar a sua identidade apesar de ouvir opiniões de um lado e de outro, conseguir discernimento para ver um pouco mais além e ter ideias minimamente originais. Caso contrário, é vê-los feitos papagaios, repetindo-se uns aos outros, ou reproduzindo as notas com que os spin doctors presenteiam os media e amigos.

Devo dizer que costumava ter Clara Ferreira Alves em boa conta. De forma geral, gosto de ler o que escreve e até, salvo alguns excessos despropositados em que manifestamente embala e fala como se estivesse a representar para seu próprio prazer como auto-expectadora, gostava de vê-la no Eixo do Mal.

Mas há um tempo para tudo. Tempo demais a escrever o mesmo tipo de crónicas ou a aparecer no mesmo programa deve causar uma erosão anímica (para não dizer mental -- que é mais que compreensível que aconteça).

São anos a mais a opinar, a opinar por obrigação, sobre assuntos que umas vezes lhe devem interessar mas também sobre outros para os quais não deve estar nem aí.

De vez em quando, parece que já escreve ou fala em piloto automático, já sabe o que produz efeito, e, então, parece que já nem se dá muito ao trabalho de se documentar sobre os assuntos. Dá ideia que já vai na desportiva, acreditando que os anos de tarimba e o inegável carisma devem ser suficientes para ultrapassar alguma impreparação.

No outro dia, a entrevista no Expresso ao Houellebecq -- que li em papel mas que está disponível online --  foi uma desilusão das grandes. Partilho completamente a análise que Mestre Plúvio publicou sobre o assunto. Clara Ferreira Alves parecia estar a exibir-se perante a criatura. Claro que está mais do que na cara que Houellebecq estava morto de tédio, a fazer um frete dos valentes, nada naquela Clara lhe deve ter suscitado qualquer interesse para que despertasse do spleen em que se habituou a afogar-se. 

Uma jornalista armada em expert, cheia de teorias, pronta para fazer a festa sozinha, quase a querer demonstrar que sabe mais da obra dele do que ele próprio, foi nitidamente mais do que ele foi capaz de suportar. Cansado de existir, cansado de gente petulante, cansado de divulgar o livro, cansado de falar sobre o que deveria valer por si, cansado da situação em que vive, via-se que estava era deserto por que ela lhe desamparasse a loja. A entrevista foi uma autêntica desgraça.
E ainda eu não me tinha refeito deste passo em falso de Clara Ferreira Alves, eis que, no Eixo do Mal deste sábado, a vejo em mais uma prestação para esquecer.


(Aqui ainda o Nuno Artur Silva não tinha ido para a administração da RTP; agora é Aurélio Gomes, um charme e uma simpatia, que conduz o programa)


Instada a pronunciar-se sobre a situação vivida por Sócrates -- a insistência na prisão preventiva depois dele ter recusado a pulseira electrónica e sobre os últimos episódios -- Clara foi fiel a ela própria: que o que se passa tem sido um espectáculo mediático, logo desde a prisão e, que, por medo dele, fazem de tudo para o lincharem na praça pública, e as fugas de informação, e tudo o resto que se sabe, e aí foi ela disparada a dizer mal da Justiça e de tudo o que veio por arrasto (e, até aí, a conversa estava consistente com as posições que se lhe conhecem).

E, como se já estivesse sem travões, aí continuou a bela da Clara. Falando das paixões que Sócrates desperta (mas como se isso não se aplicasse a si própria) e dizendo que ele é uma verdadeira rock star, mesmo na prisão, aí continuou ela, desabalada, e, às tantas, de carrinho, já se pronunciava sobre a relação de Sócrates com o dinheiro, já se interrogava sobre se Sócrates, sendo leviano com o dinheiro como era, devia ter sido primeiro ministro numa altura em que o país estava quase na bancarrota, e que mau que era pedir tanto dinheiro ao amigo, e já falava de adjudicações directas e mais não sei o quê.

Ou seja, tendo começado por dizer que todo o processo tem decorrido de uma forma inaceitável, levando a que Sócrates seja condenado na opinião pública mesmo que, de facto, não exista ainda sequer acusação formulada, acabou ela própria a condená-lo sem provas, fazendo fé no que lê no Correio da Manhã e no Sol, e mais do que isso, até já a fazer juízos políticos retroactivos.

Mas a inconsistência não se ficou por aqui.

A seguir falou Pedro Marques Lopes (que, por acaso, até não estava naqueles dias que levam Mestre Plúvio a dizer, com aquela língua afiada e a graça que se lhe conhece, que, por efeito feromónico da vizinhança prolongada vem menstruando cada vez mais sincronizado com Clara Ferreira Alves) que falou com lucidez, denunciando o perigo deste poder justicialista que pode mandar uma pessoa para a prisão sem a acusar de nada, que pode mantê-la presa durante o tempo que entender, que vai alimentando a opinião pública de forma a justificar a prisão e a destruir a vida da pessoa, etc.

E aí, a bela da Clara, entusiasmada, foi atrás do Pedro e já se indignava contra quem condenava Sócrates sem provas, contra isto de as pessoas já darem por provado tudo o que vai saindo para os jornais do costume, etc, etc, e por pouco já parecia ela a mais indignada das pessoas por haver alguém que acredite nisso tudo e condene Sócrates antes sequer dele ter sido acusado (como se não tivesse, ela mesmo, acabado de fazer isso).

Juro: ouvi tudo aquilo perplexa. Que inconsistência: uma coisa e o seu contrário ditas com igual veemência, convicção, como se as suas intervenções fossem consistentes.

Eu sou tolerante com muita coisa, esforço-me por compreender as circunstâncias, o contexto, a cultura, o que for que possa justificar as atitudes das pessoas, mas, juro, tenho muita dificuldade em ter paciência para a inconsistência. E parece que cada vez há mais gente inconsistente: num dia anunciam uma coisa, dois ou três dias já aí estão, lampeiras, fazendo o contrário, ou prometem fazer alhos e, com a maior cara de pau, fazem bugalhos, ou começam uma intervenção dizendo uma coisa e, se for preciso, acabam-na a dizer o contrário. Não tenho paciência. Perco a confiança: como é que se pode acreditar no que dizem se, de seguida, as poderemos ver a dizer ou fazer exactamente o contrário?

Não dá. Risco-as do meu interesse, o meu radar deixa de as assinalar. Desisto delas. Desligo-me. Por isso, Clara Ferreira Alves: bye bye.

___


Já agora, sobre o disparate que é este Processo Marquês (e de que as últimas saídas para os jornais, com aquelas indigentes perguntas, dando a ideia que a investigação anda aos apalpões, a atirar barro à parede, sem uma linha de rumo, sem se perceber como é que aquele labirinto ridículo pode acabar), transcrevo, do Expresso, um excerto da última crónica de João Garcia (que passou a Director da Visão) intitulada 'O Tudo ou o Nada':


A caricatura feita a Rosário Teixeira é a do magistrado que pergunta ao suspeito quem lhe fez o fato, como o pagou, de onde veio o dinheiro, onde comprou o tecido e depois pede o levantamento bancário das contas do alfaiate e da retrosaria num 'follow the money' que tem dificuldade em parar. De seguida abre um processo relativo aos sapatos e por aí segue alegremente.

É o que está a suceder na 'Operação Marquês', que passou por Paris, já anda na Venezuela, na Parque Escolar, em casas do Algarve, na urbanização de Vale do Lobo, em viagens a Veneza, na quinta que pôs Duarte Lima nas bocas do mundo, e tudo mais que lhe levantar suspeitas, numa viagem por contas bancárias que parece não ter fim. O caso que envolve José Sócrates não parece estar a ter outra estratégia.

(...) Num processo mediático e que tanta controvérsia suscita, cada dia que passa é um dia a menos para a credibilidade da Justiça.


---

E também, já que estou numa de Expresso, transcrevo um pequeno excerto do artigo de Miguel Sousa Tavares a que, muito justamente, chamou 'O Preso 44 e o Estado de Direito':


Uma coisa é a convicção, mesmo que esmagadoramente sustentada pela opinião pública, de que ele é culpado; outra coisa é a prova de tal. Mas, face ao que se tem visto, a questão primeira é saber se José Sócrates alguma vez terá direito a um julgamento isento. E, se for o caso, a uma condenação baseada, não em suposições ou manchetes do 'Correio da Manhã', mas nessa coisa comezinha, chata e difícil de produzir, porém essencial, que se chama provas. O Estado de Direito não é um chá das cinco.

____


Caso queiram assistir ao referido Eixo do Mal, deixo aqui o vídeo do programa. A intervenção de Clara Ferreira Alves sobre este assunto começa para aí aos 25 minutos. E daí para a frente é o que se verá.

O Eixo do Mal - vídeo  de 13 Junho 2015



___

Talvez porque Clara Ferreira Alves fala sempre com certezas absolutíssimas, como se não duvidasse da sua superior presciência e sagacidade, lembrei-me da gata-Einstein (assim chamada porque deita a língua de fora tal como Einstein aparece numa fotografia célebre), uma gata que se chama Melissa, e que a sua dona, a fotógrafa Alina Esther, gosta de registar na sua pose preferida. É ela que aparece em duas fotografias neste post.

A música, como um sopro de oxigénio, é o Mário Laginha Trio* interpretando o Prelúdio n.20 op.28 de Chopin

____


Sobre o funâmbulo francês Philippe Petit, que foi entrevistado para o Expresso por Pedro Mexia, e sobre o que é caminhar sobre o vazio e sobre o que isso tem a ver com religião e sobre as minhas vertigens falo no post abaixo.

____


Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já nesta segunda-feira. 
Saúde, sorte, amor e dinheiro para os gastos é o que desejo a todos.

...

sexta-feira, setembro 13, 2013

Bárbara. Ri-te. Só para mim. (La fin de journée est si belle)


Bem. Depois de ter esclarecido os Leitores que me enviaram amostras da sua escrita para eu fazer a sua análise grafológica e depois de me ter passado, mas passado mesmo, com este Governo macabro que parece que só sabe fazer sacanices, e com o facto de terem que ser as pessoas decentes do PSD (e do CDS) a fazer oposição, enquanto o Tozé anda por aí a fazer nem sei o quê, tenho que tentar distrair-me. Odeio ir para a cama irritada.

Por isso, se querem saber do que acima falei, é a seguir, no fim disto que agora estou a escrever.

Mas, isso é depois. Aqui, agora, a conversa é outra. Mudança de tercio.

»»»«««


A maioria das pessoas que conheço, quando tem hipótese de escolha, prefere sentir-se em terra firme, instalar-se na chamada zona de conforto.

Exemplifico: se estamos a passear, a maioria prefere deslocar-se por percursos que conhece e que sabe onde começam e acabam; se estamos num restaurante, a maior parte pede pratos que conhece ou que, pelo menos, antecipa o que é; se estamos numa livraria, a maior parte das pessoas que conheço prefere procurar livros de autores que conhece ou livros de que ouviu falar; se falamos de pintura, a grande maioria identifica-se mais com pinturas em que se percebe ou reconhece o tema.

Para o bem e para o mal, sou o contrário. Se estou a passear, o que me atrai é meter-me por sítios que desconheço, num restaurante, quanto mais imperceptível ou bizarra a combinação culinária, mais vontade tenho de experimentar, numa livraria percorro as estantes à procura daquilo de que nunca ouvi falar e, na pintura, já muitas vezes aqui o disse, quanto mais abstracto ou improvável mais me atrai.

E cada vez mais. Nunca fui conservadora, tradicional mas, à medida que avanço no tempo, mais radical estou: estou cada vez mais farta estou do banal, do déjà vu. Claro que é um radical à minha maneira mas, enfim, radical ainda assim.

Pego nos livros e quase tudo me parece historiazinhas de nada, conversa da treta, vacuidades, habilidadezinhas retóricas, transcrições de coloquialidades sem qualquer interesse, dissertações pseudo-filosóficas, mas uma filosofia a la Margarida Rebelo Pinto, coisa quase de cabeleireira ou de gente a armar em intelectual, chachadas, nem sei. Folheio, folheio e cada vez menos coisas me atraem. Até que, de vez em quando, dou com coisa inesperadas, umas quase malucas, ou, então, apontamentos, notas biográficas ou auto-biográficas mas escritas de forma natural, sem ser a armar, ou textos limpos ou observações escorreitas, ou poemas vindos de lado nenhum, ou entrevistas em que o entrevistado se deixa ir na conversa e fala, mas fala com inteligência ou saudável irreverência. Coisas assim. Podem achar-me estranha ou o que quiserem mas estou a ser sincera quando digo que o que agrada à maioria das pessoas a mim me cansa, me é quase insuportável.

Deve ser por isso que não consigo ver as novelazinhas que os canais generalistas dão, parece-me tudo igual, já não consigo ver aqueles papagaios armados em comentadores a dizerem disparates com ar de quem inventou a pólvora, tudo uma treta que enjoa. O meu marido está na mesma, agora, tirando um ou outro programa com gente mais inteligente (e no post a seguir a este referi dois), prefere ficar-se pelos programas de culinária, de viagens ou coisas assim (e isto se não houver futebol, senão é por lá que se deixa ficar). Eu também gosto de ver o Masterchef e os Portugueses no Mundo.

Mas, voltando aos livros: não sei se estão a ver aquilo por que passo quando, num jantar ou almoço, com cerca de vinte pessoas à volta de uma grande mesa, a conversa vai para o que andam a ler e todos leram coisas que os outros também já leram e que recomendam, todos no mesmo comprimento de onda, e que eu não li, não tenho em casa, nem nunca na vida vou ler? É cá uma situação… Não posso dizer que é literatura de cordel, que conhecer a vida do personagem é coisa que não me desperta qualquer interesse, que acho que aquilo é uma pepineira sem ponta por onde se lhe pegue (e sei disso porque, não apenas me basta ver a capa, conhecer o autor, como geralmente para não ficar com algum peso na consciência, dou uma vista de olhos pelos livros quando vou às livrarias) pois seria ofensivo para eles que estão a gabar a coisa. Mas, não podendo dizer isso, também não quero passar por brutamontes ou pela inculta da companhia. É que, por outro lado, se me arrisco a falar de alguma coisa que ande a ler, a regra é que seja coisa da qual nunca nenhum deles ouviu falar, passo por ter gostos marginais, olham para mim como se não soubesse o que é bom e andasse às apalpadelas à toa, sem acertar.

Ingrato isto de se ser assim.

Vem isto a propósito de quê…?

Nem sei. Comecei a escrever com alguma em mente e, com a conversa, a coisa varreu-se-me. Não faz mal. 

Vou mas é exemplificar com algumas coisas ao acaso, de que gosto, pouco conhecidas (acho eu) e ficamos por aqui.

««»»


Fotografia do fotógrafo checo Jan Saudek


E, nessa mesma tarde, descobri o maior encanto de Bárbara: o seu riso.

(...)

Olhou-me e riu-se. Ela bem sabia o que ia dentro de mim. Percebeu que o seu riso era uma fascinação e isso fazia-a rir cada vez mais e cada vez melhor. Era uma flor tonta, de pétalas ruivas, esplendorosa de mocidade, transbordante de seiva, toda coberta de gotinhas de orvalho, a flor envaidecida que sente próxima a respiração de quem a aspira. Como as flores, contorcia o caule e excitava o pobre insecto que eu então era.




Enchi-lhe a taça desastradamente mas por querer. Apetecia-me despejar garrafas sobre a minha pobre cabeça, sentir na cara o fervilhar da espuma e apetecia-me ter uma língua enorme que me lambesse a cara toda.

Bárbara, entre risos, debruçou-se e estendeu os lábios para a taça com o fim de aproveitar a espuma que sorveu num beijo. Depois ficou-se a olhar-me a rir-se, com a taça na boca, meia bebida e sem ânimo para beber o resto. Despegou-a dos lábios, poisou-a sobre a mesa e eu segui-lhe o movimento da mão. Na borda do vidro, vi um semicírculo húmido que marcava o contorno da boca de Bárbara no sítio onde a tivera colocada. Senti as narinas tremerem e as pálpebras negarem-se a estar levantadas. Peguei na taça dela, ergui-a, rodei-a voltando para mim a marca dos lábios de Bárbara e adaptei a minha boca ao sinal que ela deixara.

Bárbara vira e seguira todos os movimentos que fiz. Bebi golo a golo, freneticamente devagar, com os olhos postos nos dela. Bárbara, que sempre se rira, pusera-se mortalmente séria, com os lábios entreabertos, naquela seriedade aflitiva de quem se entrega. Devia ter sentido o mesmo que eu: um tremor febril e um esvaimento total. Possuímo-nos com os olhos.



(...)


Não há palavras que descrevam o riso de Bárbara. Maior tortura do que esta de não a ter junto de mim é a de ser impotente para reconstituir aquele riso perdido. Gasto horas, no silêncio, a chamar por Bárbara. A pedir-lhe que se ria. Vejo-lhe os cabelos a flutuarem como labaredas, vejo-lhe os olhos inocentes, a graça sem artifício, simples e atraente, vejo as quase imperceptíveis sardas que lhe descobri na pele, vejo-lhe os dentes brancos e certos, a linha infantil dos ombros, a gola do vestido verde, tudo, mas não lhe vejo o riso. Bárbara. Ri-te. Só para mim.



«  --   »

Excerto do maravilhoso 'Bárbara Ruiva' de Rómulo de Carvalho, com ilustrações de Helena Abreu e Prefácio de Manuel Gusmão da Editora Página a Página].


As fotografias que escolhi para polvilhar o texto, igualmente maravilhosas, são do fotógrafo Jan Saudek que nasceu em 1935 em Praga.


Claro está que a adjectivação revela o meu gosto pelas coisas inesperadas e belas]


«  --   »

E agora música: Alison Goldfrapp com Drew de Tales of us


(Aconselho que não apenas a ouçam mas que vejam o vídeo. 
Maravilhoso também, diria eu se não temesse repetir-me)




«   ...   »
                                           

E, de novo mas, agora, sem tradução, a poesia de Michel Houellebecq



                                                       Un matin de grand clair beau temps
                                                       Tous remplis de pensées charnelles
                                                       Et puis le grand reflux du sang,
                                                       La condamnation essentielle;

                                                       La vie qui s'en va en riant
                                                       Remplir des entités nouvelles,
                                                       La vie n'a pas duré longtemps,
                                                       La fin de journée est si belle.




Pavla Poses for The First and Last Time, 1978

Jan Saudek


»»»»»«««««


Permito-me recordar que, para temas desagradáveis sobre o infame Governo de Passos Coelho que até quase leva à loucura a ex-líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, é descerem um pouco mais. Mas não sei se será boa ideia. Só se depois voltarem outra vez aqui para tirarem o mau sabor da boca.

Para um esclarecimento sobre grafologia, é ainda mais abaixo.

E nada mais por hoje.

««««««»»»»»»


Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma sexta feira em grande estilo. 

Be happy que isso é que importa, o resto é conversa!

terça-feira, setembro 10, 2013

"Configuration du dernier rivage" de Michel Houellebecq. Ler poesia em francês (... e a ousadia de aqui a traduzir).



Configuration du dernier rivage, Michel Houellebecq

Andava a namorar o livro. 

Passava por ali, pegava nele, sentia-o, lia-o. 

Gosto de Michel Houellebecq, as suas Partículas Elementares não me deixaram indiferente. Mas não lhe conhecia a poesia. Aliás, nem sabia que também é poeta.



Então a curiosidade levava-me a folhear, tomar-lhe o pulso, ler um ou outro poema. Mas algumas palavras escapavam-me e, não sei, estar a ler um poema e interromper a respiração para perceber uma palavra não me parece boa ideia.

Mas, enfim, eu sou assim com as tentações: não consigo resistir-lhes.




Au temps des premiers acacias
Un soleil froid, presque livide
Éclairait faiblement Madrid
Lorsque ma vie se dissocia

Na altura das primeiras acácias
Um sol frio, quase lívido
Iluminava Madrid  ao de leve
Enquanto a minha vida se dissipava
E, assim, aqui estou eu com ele em mãos. Uma aflição. Quase não há um poema em que perceba bem o sentido de todas as palavras.

Mas ler poemas com um dicionário ao lado...? No tradutor do google não confio para tarefa tão refinada.

Ai...Vou escrever tal e qual e vou arriscar-me a traduzir por mim, de cor, pois sei que há muita gente que ainda sabe menos francês que eu. Falo e escrevo razoavelmente francês mas é o francês coloquial ou profissional - o que está a milhas de me habilitar a uma coisa destas. Mas, enfim, vamos lá.

As minhas dificuldades começam logo neste primeiro. Como traduzir 'dissocia'? Dissociava não fica bem, acho eu... Escrevi dissipava, talvez respeite o sentido.





Disparu la croyance                                                                    Desaparecida a crença
Qui permet d'édifier                                                                    Que permite edificar
D'être et de sanctifier,                                                                Ser e santificar,
Nous habitons l'absence.                                                          Nós habitamos a ausência.
                          
Puis la vue disparaît                                                                     Depois a vista desaparece
des êtres les plus proches                                                           Dos seres mais próximos

.. & ..

Je n'ai plus d'interior,                                                                 Já não tenho interior
De passion, de chaleur;                                                             Nem paixão, nem calor;
Bientôt je me résume                                                                 Em breve vou resumir-me
À mon propre volume.                                                               Ao meu próprio volume

Vient toujours un moment où l'on rationalise,                Vem sempre um momento em que se racionaliza,
Vient toujours un matin au futur aboli                               Vem sempre uma manhã de futuro abolido
Le chemin se résume à une étendue grise                          O caminho resume-se a um descampado cinzento
Sans saveur et sans joie, calmement démolie                  Sem sabor e sem alegria, calmamente demolido



[Está tudo um bocado desalinhado mas não consigo pôr isto direito. Quando estou a editar, aparece-me de uma maneira, quando publico, o texto desorienta-se e parece que fica inclinado. As minhas desculpas por não ter paciência para andar mais tempo aqui a dar espaços numa linha, a comer na outra... Já estou farta de tentar e fica sempre esta desarrumação]




Mas, apesar da minha dificuldade em perceber o sentido de uma ou outra palavra no contexto do poema, que bem me soa, que bem. Há em grande parte dos poemas qualquer coisa de insólito que me seduz.

Nota: Espero que os entendidos não se ofendam com a minha ousadia e se tiverem melhores propostas para as traduções, ficaremos todos agradecidos.

*

Descobri um vídeo em que ele diz um poema seu mas a gravação é má. Por isso, coloco antes aqui este, que tem a vantagem de ter tradução (péssima, por sinal, mas, enfim, para quem não sabe francês, é melhor que nada) em que Michel Houellebecq fala das suas biografias imaginárias.






Transcrevo do que foi colocado no YouTube: Michel Houellebecq esclarece que sua matéria-prima não é a realidade vivida, mas a vida projetada. Sobre o que imagina de si mesmo, sobre o que esperava ou desejava, o escritor cria suas narrativas. Conferencista do Fronteiras do Pensamento 2007.

*

Espero que gostem deste amuse bouche e muito gostaria que alguém traduzisse este livrinho inesperado.

*

Acho que ainda cá volto hoje.

quinta-feira, agosto 16, 2012

Do espiritual na arte - a palavra a Wassily Kandinsky (aqui sobre o vermelho e sobre o amarelo)


Um arabesco, por favor


O guitarrista Richard Durrant interpreta o seu arranjo do Arabesco nº1 de Debussy. 
O filme animado é da autoria de Miranda Vincent.


Enquanto me embrenho tentando descobrir quem assassinou selvaticamente o solitário escritor Michel Houllebecq, intercalo com a leitura de um pequeno e fascinante livrinho, Do espiritual na arte, de Wassily Kandinsky, pintor que admiro bastante.

Como já aqui referi inúmeras vezes, gosto muito de pintura abstracta. O que não existe senão quando é produzido por um artista interessa-me muito mais do que uma representação tal e qual da existência tal como a conhecemos.

Ouvir e ler sobre a arte tal como a sentem os artistas que admiro é coisa que me motiva sobremaneira. Por isso, a leitura deste livro quase me emociona. Se vos transcrever aqui algumas partes, muitos dos que me estão agora a ler são capazes de achar que não sou boa da cabeça para me emocionar com coisas assim. Mas é um facto.

Acho que a este livrinho irei voltar frequentemente. Agora deixo-vos aqui apenas um pouco, antes de me ir outra vez deliciar com a sua leitura.



Élan tempéré - última obra de Kandinsky (1944)


Numa composição triste, só a utilização do vermelho introduz o elemento dramático. Com efeito, o vermelho, quando isolado, não causa qualquer tristeza no tranquilo espelho da alma.

Quando aplicado a uma árvore, estamos em presença de um caso totalmente diferente. O tom fundamental do vermelho subsiste tal como nos exemplos precedentes; mas aqui junta-se o valor psíquico do Outono para a alma sensível (já que esta palavra, 'Outono', é, só por si, uma unidade psíquica, como o é qualquer conceito real, abstracto, imaterial ou físico). A cor associa-se intimamente ao objecto, e constitui um elemento que age sozinho, privado do som dramático (...).

Com um cavalo vermelho é outro caso bem distinto. Basta pronunciar estas duas palavras (cavalo vermelho) e somos transportados para outra atmosfera. Um cavalo vermelho não existe na realidade. A sua impossibilidade natural exige um envolvimento igualmente artificial. Sem isso, seria apenas uma curiosidade (cujo efeito superficial nada teria em comum com a arte), um conto de fadas mal interpretado (e, portanto, uma curiosidade que dificilmente passaria por obra de arte)


Pintura de Kandinsky

(...) 

Com efeito, o primeiro movimento do amarelo, a sua tendência para prender o olhar, tendência que, ao forçar a intensidade que lhe é própria, se pode tornar importuna; e o segundo movimento, ao saltar todos os limites, expande força à sua volta, assemelhando-se às qualidades de qualquer força material que se precipita inconscientemente sobre o objecto e se derrama de modo desordenado para todos os lados. Considerado directamente (em qualquer forma geométrica), o amarelo atormenta o homem, espicaça-o e excita-o, impõe-se-lhe como um constrangimento, importuna-o com uma insuportável insolência. Esta propriedade do amarelo, que tende sempre para os tons mais claros, pode atingir uma intensidade insustentável para o olha e para a alma. Assim potenciado, soa como uma trompeta vibrante, que tocasse cada vez mais alto, ou como uma fanfarra ruidosa.

*

Partilhemos agora um pouco a opinião de Helen Mirren sobre Kandinsky, junto de Kandinsky.


*

Tenham, meus Caros Leitores, um dia cheio de cor.

quarta-feira, agosto 15, 2012

O amola-tesouras, um fim de tarde chuvoso, o Passos Coelho no Pontal, o seu desgoverno e a consequente queda do PIB e aumento do número de desempregados. E, para aliviar o ambiente, um primeiro beijo e a tristeza meses depois de uma despedida demasiado fácil


As tardes em casa, numa casa de cidade, estando uma pessoa sozinha e não estando habituada a isso, são tardes aborrecidas. 

Quando estou a trabalhar, sem tempo para nada, penso, com uma certa nostalgia, como deve ser bom ter tempo para fazer as coisas com vagar. Penso, também, que, tendo tempo disponível, me poderia sentar à minha mesa de trabalho e, com calma, escrever - e, estando na cidade, sentar-me na mesa em que agora estou e da qual se vê o rio largo e belo e várias cidades à volta, e escrever, tranquila, o pensamento solto, o olhar lavado.

No entanto, não é de um mês para o outro que uma pessoa muda o seu biorritmo e, tendo tempo, desbarato-o numa indolência incompreensível. Leio, tenho lido muito mas, habituada que estou a ler aos bocados - no carro (quando não sou eu que conduzo...), à noite, nos interstícios de outras ocupações, ao fim de semana - agora que uso tardes e manhãs inteiras para ler, fico com a sensação que estou a mandriar. Coisa estúpida, isto.

Bom, mas estava eu hoje a ler o livro que comecei ontem, o Mapa e o Território do Houellebecq,  quando ouvi um som que me transportou aos tempos da infância. Fui a correr e comprovei, era um amolador de tesouras.



Hoje, de tarde, um representante de um ofício quase extinto: amolar tesouras, facas,
arranjar varetas de chapéus de chuva.
O pequeno segmento claro que se lhe vê na mão direita é a gaita de beiços
(acho que é este o nome daquele pequeno instrumento musical)


Ouçamos um amolador, por favor

Som agradável, nostálgico


Olhei o rio. Estava manchado de verde escuro, o céu estava a toldar-se. A minha avó, quando ouvia um amola-tesouras, dizia que ele anunciava chuva. 

Passado um bocado a chuva batia, de facto, nas minhas janelas, Lisboa estava envolta em neblina, o rio estava envolto numa névoa molhada e triste, todo ele cinzento esverdeado, escuro. Fechei a janela que estava aberta mas com pena pois senti aquele perfume maravilhoso da primeira chuva e eu gosto tanto desse perfume.

*


Passos Coelho e a Srª D. Laura a preparem-se para a rentrée do PSD no Pombal
 (uma perfeita inutilidade) e, mais do que certo, para mais uma demonstração
que fazia melhor se ficasse antes vender refrescos na Manta Rota


À noite, ainda vi na televisão que o Passos Coelho pregava no Pontal mas não consegui ouvir nada pois, quando viram quem era, de imediato várias mãos saltaram para o telecomando e vários gritos se ouviram Tirem-me esse gajo da frente!, Eh pá, esse gajo é que não!. Eu ainda tentei, quase a medo Mas se não me deixam ouvir o que o homem diz, como posso depois pronunciar-me...? mas fui liminarmente interceptada, Esse gajo? Mas já o ouviste alguma vez dizer alguma coisa que se aproveite?! Esquece!

Agora à noite ainda tentei ouvir alguns dos vários debates nos vários canais e, do que ouvi, parece que toda a gente o desanca mas, uma vez mais, não fui bem sucedida. Por estas bandas o homem está completamente descredibilizado e já não o conseguem nem ouvir, nem sequer falar dele. Uma espécie de brotoeja, acho.

O que sei e isso é bem claro e nem preciso de ouvir alguém opinar sobre isso é que o PIB mantém a acelerada trajectória descendente, que o desemprego mantém a acelerada trajectória ascendente e que o que, estupidamente, é referido como uma coisa boa, a queda das importações e a redução da dívida externa, revela, quando observado o contexto, que o investimento quebrou e que a economia está a colapsar. 

O estado económico e financeiro de um país afere-se através de um conjunto de indicadores e a observação deve ser conjunta, articulada e integrada em séries (longas, de preferência). 

Pegar em dois ou três indicadores isolados e cantar de galo quando os restantes são uma desgraça e quando os próprios indicadores referidos, lidos contextualizadamente, revelam o mesmo que os restantes, só revela falta de conhecimentos ou falta de seriedade.

O que está a ser feito é, em parte, o que a troika determina. Mas a responsabilidade não é (só) da troika. O que se está a passar é a mesma coisa que um palerma qualquer pegar numa canção de um compositor, adaptá-la, deturpá-la e fazer-lhe uma coreografia manhosa, e depois, quando criticado, dizer que a composição é de outro.

O programa da troika era um programa de reestruturação, não era um programa de governo. Tomá-lo como o único guião já revelou uma falha grave pois o programa de reestruturação deveria ser complementado com um programa de crescimento. Depois, não apenas esquecer a componente económica, e ainda por cima, querer ir mais longe do que a troika determinava, já revela uma preocupante cegueira.

Agora, em cima disto, e estando à vista, desde há tempos, o lindo serviço que andam a fazer, vendo o mal que está a ser causado ao país de forma quase irremediável, ainda não conseguiram perceber que estão a fazer tudo errado, revela uma total impreparação e incapacidade para estarem à frente dos destinos do País. É que, oh senhores, ainda não conseguiram perceber...! 

Pode haver quem pense que gerir um país é a mesma coisa, tal e qual, que gerir uma casa e que a boa gestão é a de só gastar, com os tostões contados, o que se tem. E que, se agora não se tem dinheiro para ter uma casa, não se pode comprar a casa.

Ora é sabido que se pode comprar a casa a crédito, desde que os rendimentos expectáveis mostrem que se são suficientes para ir amortizando uma dívida que se contraia agora, permitindo, desta forma, usufruir da casa ao longo da vida e não apenas quando já se for velho. 

A larga escala é assim que funcionam as empresas e os países. Ou seja, vive-se a crédito e, por isso, tinha razão o Sócrates quando disse que há sempre dívidas e que as dívidas vão sendo geridas ao longo do tempo. Isto é gestão. 

Que o país ao longo de anos e anos se endividou para além das suas possibilidades, é um facto.  E isso é mau e isso não devia ter acontecido. Mas fê-lo não porque fossemos todos uns esbanjadores mas porque as políticas europeias e os fracos líderes que temos tido (lá e cá) destruíram a economia portuguesa. Ora, como destruíram a economia mas não dizimaram os portugueses, tem havido necessidade de importar para que os portugueses tenham o que comer, o que vestir, o que calçar, o que equipar a casa, etc. E para que os portugueses pudessem consumir e importar, os países com excedentes não se cansaram de emprestar dinheiro, colhendo daí resultados através dos juros cobrados. E quem vende a quem não tem alternativa pode impor condições. Os portugueses têm sido, ao longo de muitos anos, vítimas passivas destas políticas. 

Uma economia fraca é a raiz de todos os males. E a passividade de um povo é outra raiz de todos os males.

Mas, em cima disso, existe uma outra raiz para todos os males: é uma demografia definhada. As tendências demográficas deste país associadas à exangue economia portuguesa e à abulia bovina do povo português, são facas que atravessam o peito, as costas e o coração de Portugal.

Por isso, culpar os hábitos dos portugueses ou centrar as culpas em José Sócrates ou andar a destruir ainda mais a economia ou andar a enxotar os jovens portugueses para o estrangeiro ou mil outras parvoíces são tudo faces da mesma política estúpida, ignorante, mal intencionada, fatal.

*

Bom... Começo a falar nisto e fico toda arreliada. Esta gente tira-me do sério. O país está a ser vendido a preço de saldo, uma humilhação, mais de 20% de desempregados, quem trabalha com cada vez menos direitos, uma ofensiva inqualificável a todos os níveis... revoltante.

Mas, para não me ir deitar toda aborrecida, vou tentar aligeirar o ambiente. Vou transcrever aqui um bocadinho do livro que ando a ler.

Aqui a primeira vez que Olga vai a casa de Jed.


- Sim, é um apartamento de rapaz... - disse Olga com leveza - e depois avançou pela sala e agachou-se para examinar uma prova; a minissaia subiu-lhe largamente pelas coxas, as pernas dela eram incrivelmente compridas e esguias, como é que se podia ter umas pernas tão compridas e tão esguias? Jed nunca tivera uma erecção como aquela, era francamente incómodo, tremia todo e tinha a impressão de que não tardaria a desmaiar.



Kate Moss por Mario Testino


- Eu... - pronunciou ele num grasnido irreconhecível. Olga virou-se e viu que aquilo era sério, reconheceu imediatamente aquele olhar cego, pânico, do homem que não pode mais de desejo, caminhou na sua direcção alguns passos, envolveu-o no seu corpo voluptuoso e beijou-o na boca.

*

Depois, muito tempo da separação, uma separação muito fácil, uma inesperada quebra:

Joe Dassin, salut les amoureux



Numa tarde do princípio de Novembro, pelas dezassete horas, deu consigo diante do apartamento onde Olga vivia na rue de Guynemer. Tinha de acontecer, pensou: caído no laço dos automatismos, tomara, mais ou menos à mesma hora, o caminho que seguira todos os dias durante meses. Sufocado, arrepiou caminho, direito ao Jardim do Luxemburgo, e deixou-se cair no primeiro banco que lhe apareceu. (...)

Ao longe, o sol poente iluminava os castanheiros com uma extraordinária tonalidade alaranjada, quente - quase um amarelo indiano, pensou Jed; e involuntariamente veio-lhe à memória a letra do Jardin du Luxembourg:

                                  Mais um dia
                                  sem amor
                                  mais um dia
                                  na minha vida

                                  O Luxemburgo
                                  envelheceu
                                  Será que é ele?
                                  Será que sou eu? Não sei, não sei.

Como muitos russos, Olga adorava Joe Dassin, e sobretudo as canções do seu último disco, a sua melancolia resignada, lúcida. Jed estremecia, sentia-se assaltado por uma crise irreprimível, e quando lhe vieram à memória as palavras de Salut les amoureux, desatou a chorar:

                                   Amámo-nos como quem se afasta
                                   tão simplesmente, sem pensar no amanhã
                                   no amanhã que chega sempre tão depressa,
                                   nas despedidas que às vezes correm bem demais.



'Proud to be a man',
mais uma das realistas pinturas de Fabian Perez, esta com este curioso nome


No café da esquina da rue Vavin pediu um bourbon e deu logo pelo seu erro. Passado o reconforto do ardor foi de novo submergido pela tristeza, e as lágrimas escorreram-lhe pela cara abaixo.

*

Olha, afinal este bocado também acaba mal... 

Mas, enfim, como se já não bastassem os desmandos do Passos Coelho e Companhia, para que não fiquem preocupados também com isto, levanto a ponta do véu: passados dez anos, Jed e Olga voltam a encontrar-se.

*

E, com isto, já é quarta feira, dia feriado, e o meu vai ser recheado como um ovo. Que o vosso seja um dia muito bom é o que muito sinceramente vos desejo.