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domingo, agosto 28, 2016

Filmes caseiros e a casa virada do avesso
- e, quem sabe, os da Próxima a observarem todas estas cenas




Pois é, a questão é que aqui estou outra vez já bem depois da meia-noite. É a história da minha vida. Tinha pensado que, durante o dia, algures no tempo e no espaço, conseguiria chegar até ao blog e escrever sobre o que ontem tinha em mente: o novo planeta, parecido com a terra, talvez com vida. Apetecia-me tanto divagar sobre isso.

Na minha santa ingenuidade até pensei que ia conseguir responder a mails. Gosto de escrever cartas e responder a mails é, na minha mente sonhadora, quase como voltar ao tempo em que havia tempo para escrever cartas que o carteiro haveria de ir entregar aos destinatários. Queria tanto e, no entanto, mais um dia sem o conseguir. Também precisava de escrever uns mails de trabalho. Na noite passada, acordei a meio com uma epifania que mudava tudo. De manhã pensei que tinha que mandar uns mails a fazer uma série de mudanças, talvez primeiro uns a saber a opinião ou a dar conhecimento antes de passar à acção. Mas... e o tempo para isso...? O dia já aqui vai e não é a esta hora que vou começar a tratar de coisas que requerem ponderação.

Impossível. O dia todo preenchido e cada vez mais preenchido à medida que o dia foi avançando.

Tive cá a tropa miúda toda e parte da graúda e, como sempre, gera-se aquela potenciação energética de sempre. Os mais pequenos chegam com as pilhas todas mas, à medida que brincam, correm, saltam, lutam, cantam, representam, gritam, riem e fazem a festa, mais as pilhas se recarregam. Energia gera energia.

O mais crescido, talentoso e ágil na execução de tudo o que lhe ocorre,  deu em realizador e faz uns filmes deliciosos com os outros mas os filmes metem lutas, perseguições e correrias e aquilo é o desassossego, a casa virada do avesso. Vinham raptar a princesa mas a coisa deu em batalha campal. Até eu apareço no filme a dizer 'Cuidado! Não se magoem!' e, às tantas, o realizador 'Oh Tá, vais passar o filme todo a dizer a mesma coisa?'

Quando o filme ficou pronto e o vimos, todos têm a voz mais grossa que a minha, dir-se-ia que sou eu a princesa.

Uma coisa constrangedora.

No fim das gravações havia almofadas pelo chão, as banquetas todas fora do sítio, e até bolas de natal saíram à cena, acho que eram o tesouro da princesa, a outra, a verdadeira.

O meu marido aborrece-se, que eu sou muito permissiva. Mas que posso eu fazer: andar feita avozinha aos gritos atrás das crianças, a obrigá-los a estarem sentados com as mãos nos joelhos e a falarem baixinho? Impossível.

Há bocado, chegou à sala, tinham eles tirado a parte do assento do sofá dele para darem saltos no chão em cima daquilo, um número tipo Jogos Olímpicos. Quando viu, ficou fulo. Deu-lhes um berro: 'Éh pá, que vem a ser isto? As almofadas já postas no sofá!'. Eles fizeram-no de imediato, obedecem sempre ao avô, mas continuaram a brincar como se nada se tivesse  passado. O ex-bebé, um artista, é que se virou para mim como que indignado: 'Oh Tá, e tu deixaste...?'. Nem quis acreditar. Como se a culpa fosse minha. Uma coisa mesmo de gajo.  E o meu marido: 'E tu aí, sentada, na conversa, podem os gajos destruir a casa que nem dás por nada, sempre na boa'. Também não lhe respondi, continuei na conversa, observando a minha filha a ser maquilhada pela sobrinha.

E o mais pequeno? Um comediante de primeira: faz palhaçadas, canta, dança, atira-se para cima dos outros, um brincalhão de primeira. Cresceu no meio do reboliço dos outros (e tem ainda outro primo rapaz, para além de uma prima bebé) pelo que não se torce nem se amolga no meio daquelas lutas livres que eles lá fazem, especialmente com o primo do meio, o dito ex-bebé, que é possante como um touro. E eu sempre com medo que ele se magoe. Neste momento, dos três rapazes, é o maior vendaval, nada teme, nada o inibe, e é um motivo permanente de atracção artística

Derreto-me a observá-los.

Contudo, a verdade é que chego ao fim do dia sem pilhas: os miúdos comem como uns lobos, falam muito alto, fazem-me andar num revirote, brincam e perseguem-se em contínuo, gera-se uma tal dinâmica entre eles que é quase impossível sossegá-los -- e uma pessoa fica com a cabeça feita em água.
No entanto, talvez o sono a começar a descer, os três rapazes acabaram a noite sentados no sofá com o avô, a verem desenhos animados e nós três, meninas, nos penteados e maquilhagens.

Às tantas, às escondidas, a bela menina pegou num gloss meu e pintou os lábios de cor de morango. A tia já lhe tinha posto um brilho branco nas pálpebras que ainda iluminou mais o seu incrível olhar azul. Estava linda. Mas zanguei-me: 'Não pode ser, vai limpar os lábios'. Respondeu-me com a sua irredutível calma olímpica: 'Nunca'. Fez agora seis anos e cada vez está mais coquette e, ao mesmo tempo, determinada. A minha filha desatou-se a rir e imitou-a em voz baixa para ela não se aperceber: 'Nunca.' Mas eu insisti: 'Vá, tira isso. Quando os pais chegarem vão zangar-se'. Fez de conta que não ouviu e foi buscar umas lãs de várias cores para a tia lhe fazer uma pulseira. Claro que, logo de seguida, chegaram os pais e não tive tempo de lhe tirar o gloss. O meu filho não achou graça nenhuma, claro que não podes permitir, mãe, não tem jeito nenhum ela andar assim, e com certeza um baton que não é de criança. Claro que não. Mas como, senhores? Depois das onze da noite, eles frescos que nem viçosas alfaces e eu e o meu marido quase inânimes, Como impedi-los de fazerem avarias?

E, dito isto, não conto como são inteligentes, divertidos, bem educados, autónomos, resolutos. São. Umas crianças encantadoras. E, quando ficam cá aos dois de cada vez, a coisa até é relativamente pacífica. Mas quando se juntam os quatro...! E é que uma coisa é estarem juntos mas ao ar livre e darem largas à sua extraordinária energia em espaço aberto e outra, bem diferente, é estarem confinados a divisões da casa onde, apesar de haver alguma largueza, há móveis, tralha, obstáculos, coisas que os impedem de exteriorizar a genica e a alegre vivacidade em todos os sentidos

Mas pronto, é o que é, e nós ficamos sempre com o coração cheio, felizes, com aquela sensação boa de que a nossa vida se tem movido no sentido bom. A esta hora eu e o meu marido já repusemos as coisas no lugar e, depois de mais umas quantas arrumações, ele foi dormir e eu aqui estou, mais adormecida do que acordada.

Tinha aquilo do planeta para falar. Está pertinho, apenas a quatro anos-luz, e sabido que é improvável que não haja mais formas de vida em todo o universo, haveria de ter graça que os nossos vizinhos estivessem, afinal, aqui tão perto de nós. Mas já não consigo escrever mais nada. Durmo e acordo e, de cada vez que acordo, já nem sei a quantas vou na prosa.

Portanto, deixo-nos apenas com o vídeo.  Caso para perguntar: 'Eles andem aí...?' Pois não sei. 

The exoplanet next door


Astronomers have discovered evidence of a small, rocky planet orbiting our nearest star – and it may even be a bit like Earth. Nobody knows whether the planet, called Proxima b, could ever sustain life. The little planet orbits our sun’s nearest neighbouring star, Proxima Centauri, making it the closest exoplanet ever found.

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Devia identificar os pintores cujas obras escolhi hoje por terem crianças muito bem comportadinhas - mas não dá.
[E imagino o lindo estado de imperfeição em que está o que escrevi. Relevem, please.]

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E desejo-vos, meus Caros Leitores, um feliz dia de domingo.

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sábado, novembro 01, 2014

A mulher do juiz, o caderno forrado de Alexandre Dumas, Camões e as repetições, o redondo vocábulo, Mário de Carvalho e as mulheres de Ziraldo.


No post a seguir a este trago-vos um ar de campo. In heaven eu sou outra, sou meio bicho do mato, meio árvore, meio canto de pássaro, meio gato safado, meio rocha que vem do início dos tempos. Soa estranho, eu sei, mas é o que é.

Mais abaixo ainda, mostrei um láparo abestalhado, de barriga obesa de tanto que tem engolido.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.



Era um redondo vocábulo, se fazem favor





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Uma mulher queixa-se a um juiz: "A minha vizinha roubou-me a cabra, o mel e o homem. Faz-me justiça" E o juiz diz-lhe: "Tens razão". Mal ela sai, rompe a vizinha pela casa do juiz aos gritos: "Foste enganado por aquela mulher. O homem, a cabra e o mel sempre foram meus. Ela é que mos roubou.". "Tens razão", confirma o juiz. A mulher do juiz, que tinha ouvido tudo, interpelou-o, agastada: "Como é que foste dar razão a duas criaturas que afirmam exactamente o contrário?" Responde o juiz:"Tens razão".

Ao fim de dois mil e tal anos de debates sobre a literatura e áreas afins, com opulência de saber e conhecimento, parece-me ser este o estado da arte e provavelmente não passará daqui.

Fervilham por aí uns livros ditos de auto-ajuda que pretendem ensinar os jovens autores a escrever. Instalou-se uma movimentada indústria conselheiral, popular e cansativa. De uma forma geral, estes livros são inofensivos. Mas não poucos abusam da benevolência e boa-fé dos principiantes. Assertivos, peremptórios, simplificadores, seguem os princípios da linguagem publicitária. É próprio de quem pretende ganhar dinheiro à custa dos outros.


(...)

Ainda a propósito das receitas criativas, lembro a resposta que teria dado Alexandre Dumas, filho (A Dama das Camélias), quando lhe perguntaram o melhor método para escrever uma peça de teatro: "Não tem dificuldade", respondeu o dramaturgo. "Compre um caderno, forre-o muito bem e na primeira linha escreva 1º Acto. Quando chegar ao fim do caderno, a peça está pronta."

...




(...) convém lembrar que o uso de expressões latinas, como outras de línguas alheias - inevitáveis -, não pretende ser exibição de sabença. Aliás, manda um velho preceito de origem aristocrática que, em se sabendo latim, é de bom tom não o exibir.

...  ...  ...


Hoje fizemos a nossa caminhada à hora de almoço e não tendo programa extra (nem cinema, nem jantar fora, nem passeio solto pelas ruas da bela Lisboa nocturna, nem sequer baby sitting), resolvemos desfrutar aquele tempo extra para estarmos, antes de jantar, sossegadamente na sala. Prazer tão raro e precioso. No meu sofá macio, entre almofadas, estive a ler. 




Comecei pelas Cartas a Um Jovem Poeta de Rainer Marie Rilke na tradução de Vasco Graça Moura e segui para Mário de Carvalho, Quem disser o contrário é porque tem razão - Letras sem Tretas, Guia Prático de Escrita de Ficção. Já o tinha começado a ler e a ele voltei e a ele voltarei, é um gosto de que ninguém se deverá privar. Já não tive tempo de me atirar ao O Grande Rebanho de Jean Giono mas não perde pela demora.


Mas a razão deste meu post é a seguinte. Leitor ou Leitora corrigiu-me a propósito da minha despedida de há um ou dois dias, escrevendo-me:

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa sexta-feira. Saúde e alegria é o que vos desejo a todos. Repetição da palavra - desejo. Exagero.

Já lá, nos comentários, respondi e agradeci o cuidado mas eis senão quando, há pouco, ao estar deliciada com a suculenta prosa de Mário de Carvalho (de quem acima transcrevi acima, em itálico, outros excertos), dou com o que passo a transcrever:


Nem sempre se consegue evitar uma repetição. Não raro corre-se o risco de sair pior a emenda que o soneto. Lembro-me de um caso em que para não repetir "muito" a autora escreveu "extraordinariamente", com excesso de artificialismo e emenda à vista. Neste mesmo trabalho, em certa página há uma alegre confraternização de tempos do verbo "ser" que o autor decidiu não incomodar.

Valha-nos que o grande Camões, num dos seus mais belos sonetos, diz:


Um mover d'olhos brando e piadoso
Sem ver de quê; um sorriso brando e honesto.


E, mais abaixo, no primeiro terceto, usa "brandura". Mas isto são luxos de quem se pode dar a eles, por ter com quê.



Ora bem. Se eu fosse branda de miolo e piadosa comigo mesma, comparar-me-ia a Camões e sentir-me-ia acompanhada na repetição. Mas não. Há luxos a que me não dou. E, por isso, se puder evitar repetições sem cair em artificialismos, evito.

Contudo há uma coisa que não posso garantir: que não repita as repetições. Como já repetidamente aqui o tenho dito, ponho-me a escrever, esqueço as horas, escrevo, às tantas, já estou meio a dormir e, no fim, já não tenho ânimo para ler o que escrevi. Já o disse muitas vezes, repito-me, eu sei.

Por isso, encarecidamente, vos peço indulgência. Relevem, por favor, gralhas, vírgulas desorientadas, palavras mal acompanhadas, repetições e outras desatenções. E fico-vos agradecida se me chamarem a atenção, não se acanhem, gosto demasiado da língua portuguesa para a maltratar e, por isso, será sempre agradecida que receberei as vossas chamadas de atenção.

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A propósito de escrita e de inspiração, ocorreu-me escolher, para animar o texto, algumas imagens da colecção As Musas de Ziraldo, "pintor, escritor, chargista e cartoonista de 82 anos".

Porque achei graça, transcrevo parte da apresentação:

Dono de um vigor absoluto e de uma criatividade sem limites, Ziraldo vem desenvolvendo, nesses últimos anos, mais uma expressão do seu múltiplo talento: a pintura em tela grande. Depois da série Os Zeróis é a vez das Mulheres do Ziraldo. Mulheres, tema recorrente em sua obra, alcança, nos quinze quadros dessa exposição, seu momento de máximo requinte. Da visão privilegiada do mar de Ipanema, em dia de sol, às ensimesmadas Demoiselles de Sauneleblon, Ziraldo percorre uma geografia amorosa e pessoal do corpo feminino no auge de sua beleza e esplendor. Da natureza tropical, o artista capta a luz, os tons, as formas sinuosas, opulentas, provocantes dos corpos em festa, apoteose dos sentidos em ritmo e ritual pagão. 


A canção O Redondo Vocábulo de José Afonso é aqui interpretada pelos Couple Coffee.


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Relembro: Já a seguir há uma caminhada in heaven e, mais abaixo, estrago o climinha, mostrando um láparo lambão do pior que há.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado. 

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segunda-feira, março 31, 2014

Alípio de Freitas, Luanda Cozetti, José Afonso. O generoso laço da fraternidade. A liberdade que nunca deveremos calar no nosso peito. Estamos quase em Abril.



O 25 de Abril por Vieira da Silva


Aproxima-se Abril e a generosidade que tantas vezes salta fronteiras e se aproxima dos que combatem pela liberdade ou, apenas, por um futuro digno, começa a ser mais assiduamente evocada. 

Pode haver gente ignorante ou miserável que despreza a história ou os outros e que vive fechada na sua pequena caixa de tweets, agarrada ao seu mural de facebook ou presa a coisa nenhuma que não a sua maldade mascarada de eficiência - mas a esses devemos ter a sabedoria de desprezar (tanto mais que, empoleirados na sua pesporrência, geralmente, não aceitam ensinamentos alheios ou gestos de comiseração).



Mural pintado pelos alunos da Escola de Arte de Lagoa



Pelo contrário, deveremos deixar que o nosso coração se encha de solidariedade, de vontade de lutar pelos outros, pelos que já não têm força para isso e pelos que parecem não encontrar espaço para se desenvolverem.

(Estou a escrever isto e sinto que as estas palavras quase soam a banalidade, a conversa fiada - mas é inabilidade literária minha pois sei bem que não é banalidade, sei bem que a solidariedade e a energia para lutar são bandeiras que bovinamente trazemos enroladas, esquecidas na passividade em que nos deixamos adormecer)

Abril é, por excelência, o mês da primavera, do renascimento, o mês limpo de que falava Sophia, falando do dia em que Portugal renasceu em festa.
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.

E, por falar em Abril...


... Eu era menina e estava numa casa de grande pé direito, de soalho de madeira, e, às vezes, abria-se a porta da divisão onde eu estava e via a cara de José Afonso a espreitar. Depois a porta fechava-se e eu não sabia para onde ia ele.

Quando era o 1º de Maio, sabia-se de prisões, e falava-se de José Afonso, mas não se sabia se era verdade ou não. Eu não sabia, era menina ainda. Mas nunca se sabia bem de nada, havia um clima de medo, falava-se das coisas à boca pequena. Talvez os mais crescidos soubessem melhor mas tenho ideia de que, se sabiam, falavam disso às escondidas.

Depois, já mais tarde, eu tinha um namorado cantor - e que bem ele cantava - e tocava e cantava de tudo e, entre esse tudo, Joan Baez e José Afonso. 

A seguir um outro namorado. Não tocava viola nem tinha o vozeirão do outro mas, embora fosse de poucas palavras, sabia de cor todas as canções de José Afonso (tal como sabia dizer de cor parte dos Lusíadas e outros poemas).

Aqui em minha casa tenho os discos todos de José Afonso (em vinyl, claro). Se toca ou se vem à conversa alguma canção do Zeca, o meu marido ainda a canta de fio a pavio.

Uma das canções de que nunca conheci a história para além do que José Afonso lá diz é Alípio de Freitas

Leio agora:

José Afonso tinha feito, depois do 25 de Abril, uma canção dedicada a um padre transmontano que no Brasil se tornara guerrilheiro e ali fora preso. Dizia assim: “Baía da Guanabara/ Santa Cruz na fortaleza/ Está preso Alípio de Freitas/ Homem de grande firmeza// Em Maio de mil setenta/ Numa casa clandestina/ Co’a companheira e a filha/ Caiu nas garras da CIA.” 





Muitos outros, desde então, têm recriado as canções de José Afonso. Uma das mulheres que o fazem com entrega é a improvável Luanda Cozetti, uma brasileira, que, com Norton Daiello, seu companheiro na vida e na música, formou o duo Couple Coffee, que várias vezes já divulguei no Ginjal & Lisboa. A última vez que o fiz foi justamente com a sua interpretação de Alípio de Freitas.


Pois qual não é o meu espanto quando hoje leio que Luana é nem mais nem menos que filha de ... Alípio de Freitas, justamente a filha de quem o Zeca falava na canção. Fiquei pasmada.



Leio também agora:

Passados sete anos, já com o Couple Coffee bem instalado no meio musical português, resolveram relançar o disco. E arriscar essas duas canções, com uma curiosa abordagem. Traz outro amigo também conta com a voz do próprio Alípio de Freitas que, nascido em Vinhais, em 1929, deixa ali impresso o seu sotaque transmontano e altivo. 


Luanda conta, agora, como correu a experiência:

“Pôr o meu pai a cantar não foi nada difícil. Há uns dois anos que estávamos com essa ideia, mas fomos enrolando. Estas duas músicas tinham ficado de fora do disco. Alípio de Freitas por aqueles motivos todos e Traz outro amigo também porque foi uma música em que eu não queria mexer. Porque, para mim, ‘aqueles que ficaram’ são os que ficaram pelo caminho. Estou cercada de defuntos, enfim. Mas achei que agora era a hora dessa canção, propus ao meu pai e ele foi profissionalíssimo, 40 minutos de estúdio e gravou tudo, cantando, falando deu uma alegria, uma dignidade à canção. Quisemos deixar a forma como ele fala, o timbre muito transmontano, ficou muito lindo assim.”



Traz outro amigo também pelos Couple Coffee (com Alípio de Freitas)






Enquanto estou a escrever, estou a ouvir a voz de Alípio de Freitas e estou emocionada. O mundo dá muitas voltas e às vezes há ciclos que se fecham mas fecham-se como um laço de espanto e afecto, um abraço. Alípio de Freitas, o próprio, interpreta agora José Afonso e fá-lo pela mão da sua filha, a menina que vivia numa casa clandestina quando ele, homem de grande firmeza, foi preso.


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