Por aqui ainda não dou pela Aline. Mas parece que vem mesmo. A ver se não faz estragos, pelo menos, estragos de maior.
Passa da meia-noite e meia e agora é que estou a pegar nisto. Não sei como me arranjo mas parece que, sejam quais forem as minhas circunstâncias, arranjo sempre maneira de andar sempre ocupada.
Hoje foi na conversa com uma amiga de longa data. Impressiona-me muito como algumas amizades resistem ao tempo. É como se fossemos sempre as mesmas pessoas. A nossa história vai mudando, já vivemos muitas vidas, temos mais experiência, mas nós, nós mesmas, estamos aqui, capazes de falar horas a fio, compreendendo-nos, com vontade de conversar, de saber mais, de mostrar as nossas coisas.
Há algum tempo, quando estava na fase de me desligar do meu trabalho, eu a querer sair e a quererem que eu ficasse mais e mais, e eu, sobretudo por solidariedade e estima para com um colega que não estava bem de saúde, ia ficando e ficando, mas cheia, cheia, cheiinha de vontade de me pôr ao fresco, eu desejava dar uma volta completa na minha vida.
E isso está a acontecer. Tenho a gestão do meu tempo, tenho a minha vida, posso estar na minha casa, que era uma coisa que eu desejava tanto, posso ler e escrever. Tenho escrito muito. Sei que tenho que passar por algumas provações até chegar onde quero. Mas passarei. Sou resistente. E resistente. E confiante.
E o reencontro e reaproximação de amigos de quem a vida me tinha distanciado está a ser uma surpresa e uma alegria muito grandes.
...
Hoje pouca televisão vi. Entre uma e outra coisa, não me sobrou tempo. Está agora a televisão ligada mas estou a escrever ao mesmo tempo pelo que a atenção está um pouco desligada.
Sei que o mundo está muito perigoso, que o malvado e hipócrita Putin deve estar feliz por toda a atenção e esforços estarem concentrados na crise Israel/Hamas, sei que as ameaças terroristas saltaram de imediato para a Europa. E isso custa-me imenso. Uma vez, estávamos para ir a Paris mas havia atentados e ameaças de atentados e tivemos que adiar. Até há pouco tempo isso parecia-me longínquo. Paris sempre foi dada a greves a sério (uma vez fomos de comboio pois os aeroportos estavam em greve e o meu marido tinha reuniões de trabalho e eu tinha metido férias para aproveitar para ir laurear), dada a manifestações atribuladas. Mas os atentados ou as ameaças terroristas pareciam ter dado algumas tréguas. Agora, voltaram. E isso é um terror. A imprevisibilidade do local e da hora do ataque e a barbaridade que assumem é de estragar a tranquilidade a qualquer um. Dir-me-ão que é isso que sofrem os desgraçados da Palestina, de Israel, da Ucrânia e de todos os países assolados pela guerra, sempre na contingência de ser atacados, de perder a vida, de perder a casa e a família. É certo. Mas eu falo da minha realidade, a de viver numa realidade pacífica e temer, por mim e pelos meus, que aconteça alguma coisa que me parece impensável nos dias de hoje.
Enfim.
Não vos maço mais. Não vale a pena estar para aqui com ladainhas.
Vou mudar. Não vem a propósito, pelo contrário, mas, nestas situações, apetece-me sempre, distrair a cabeça. Por isso, com vossa licença, que entre quem possa fazer-nos sorrir.
Sou absolutamente avessa a ajuntamentos. Ver muitos milhares de pessoas em cima umas das outras é algo que me perturba. Se calhar sou bicho do mato. Não digo que não.
À hora de almoço vi milhares de pessoas a passo de caracol, ao sol, ao monte, numa estrada a caminho do local junto ao Tejo. A impressão que aquilo me faz. Parece-me um rebanho insano. Qual o sentido, a utilidade, o propósito daquilo? Juro que não percebo.
Que, numa de fazer bem aos mais desfavorecidos, se tivesse arranjado maneira de aproveitar toda a boa vontade dos jovens e os pusessem a construir parques, casas, a plantar árvores, a fazer qualquer coisa de útil para os pobres ou para o país ou para o planeta, eu ainda percebia. Agora desaproveitar tanta energia para andarem apenas de um lugar para o outro, com cantiguinhas infantilizadas, com conversinhas pueris... acho uma oportunidade perdida. E todos os voluntários a mesma coisa. Acham-se úteis a fazer coisas e mais coisas em volta de uma grande inutilidade. Não sei como dizer isto sem parecer uma desmancha-prazeres perante pessoas que andam cansadas e felizes por fazerem o bem mas, na verdade, tudo me parece uma coisa frustantemente absurda.
Agora, à noite, quando ligámos a televisão, vimos uma multidão de jovens preparados para dormir ao relento. Felizes da vida, claro. O Sudoeste ou o Meco (mas em versão pia pois provavelmente não há charros nem sexo; e, pelo menos por esse lado, os pais podem estar descansados). Woodstock new age. Peace and love.
Que não se pense que acho mal os jovens estarem em acampamentos. Não acho. Acho piada a ver jovens juntos, a curtirem o convívio e a night, é bom. Mas a verdade é que para eles é capaz de ser uma experiência fantástica, muito convívio, muita hormona junta, noitadas ao relento sob as estrelas é do mais romântico e fixe que há. Mas, muito racionalmente falando, tirando isso, é conversa fiada. Milhõe$ gastos (em vez de serem gastos em obra social ou em acções a bem da natureza), horas de televisão à desgarrada (só aflorei, não vi). quando, na verdade, nada de concreto e útil se fez nem nada de especial há a dizer.
Claro que o Papa diz muita coisa acertada e apela à inclusão e ao amor e, é certo, ainda bem que não é um fanático, radical, fundamentalista. Mas, em concreto, tudo espremido, o que é que aqueles milhares de jovens vão fazer com o que ouviram? Bola. Sorriem com ar beatificado, é certo. Mas, de concreto, isso vale bola.
E que não se pense que quem participa nisto ou quem vai à missa é melhor que os outros. Melhor que eu, por exemplo, Dos maiores sacanas que conheço -- gente sectária, cínica, indiferente perante as dificuldades -- são católicos praticantes, beatos, todos de missas, retiros, peregrinações. Se calhar é coincidência mas é verdade.
Não quero dizer que são todos assim. Conheço outros que não são assim, que são simplesmente alienados, entretêm-se com cursos para casais e coisas do género, coisas completamente fúteis, banalidades ditas como se fossem grandes ensinamentos.
Portanto, tomara que os jovens, os portugueses e os de todo o mundo, se dediquem à aprendizagem, que gostem de ciência e de arte, que sejam humanistas, que sejam bondosos, que sejam inclusivos, que tenham a mente aberta, que lutem que nem doidos pela liberdade e pela democracia e pela defesa do planeta e que não se dispersem com coisas que servem apenas para fazer de conta.
Por razões que não vêm ao caso tenho dormido muito pouco. Por umas razões ou por outras, tenho sido forçada a acordar cedo demais, não conseguindo dormir os mínimos dos mínimos. E se antes encaixava bem noites seguidas com poucas horas de sono agora já me custa.
Acresce que os dias têm sido longos demais. Longos, cansativos, stressantes. Esta sexta, por exemplo, começou cedo com um telefonema complicado. Acabou o telefonema e fiquei incomodada. Tentei digerir mas não descia. Liguei de volta para dizer de minha justiça. Não consigo processar incómodos sem soltar os cachorros. Está-me na massa do sangue. E foi uma hora de discussão acesa. Há momentos em que há que encontrar o devido equilíbrio entre ser-se contemporizadora e ter a mão pesada. Eu tendo para a mão pesada pois não creio que faça sentido ser de outra maneira para quem não é leal nem se esforça por ser competente. Ele acha que é preferível tê-los por perto do que afugentá-los e deixá-los à solta a fazer não se sabe o quê. Mas estou cansada e sem paciência para paninhos quentes, para jogos de espelhos.
Mas, enfim, é o que é.
Por vezes penso na dificuldade que tenho quando os miúdos me perguntam: 'Mas fazes exactamente o quê?'
O que faço é isto. Tomar decisões que nem sempre agradam a todos, questionar quem preferia não ser questionado, não satisfazer as vontades de todos, puxar por quem preferia estar quieto, mandar estar quieto a quem faz o que não deve, tentar que se entendam alguns que não podem nem ver-se. Coisas assim.
Por isso, chego a esta hora e estou off ou quase.
Hoje, depois de almoço, não tendo nenhuma reunião agendada para a próxima hora, reclinei-me. E adormeci instantaneamente. Infelizmente logo tocou o telefone. Há bocado, aqui no sofá, estava a ver as notícias quando senti que não aguentava. Encostei a cabeça para trás e pimba. Não estaria completamente anestesiada pois estava a ouvir vozes familiares. Mas não conseguia processar a quem pertenciam nem abrir os olhos para tentar esclarecer. Só passado um bocado consegui sentar-me melhor e ver o que se passava. O Masterchef Australia. Não sabia que estava a dar nem faço ideia em que episódio vai. Pena não ter acompanhado de início.
Agora, mais ou menos acordada, estou a ver o Pantanal. Não vi da primeira vez, não sei porquê. Fui ver quando foi e vi que foi em 1990. Eram os meus filhos pequenos. Desses tempos lembro-me é da minha labuta para acompanhá-los o melhor possível apesar do tanto trabalho que tinha, apesar das filas de trânsito, apesar da labuta que me trazia numa correria. Provavelmente à noite, depois de os pôr a dormir, depois de arrumar a casa e preparar as coisas para o dia seguinte, já não me sobrava tempo para telenovelas. Se calhar só para ler um bocado. Não sei.
Antes de jantar, fui dar uma volta no jardim. Agora nem isso tenho podido. Reparei que uns vasos estavam quase secos. Não sei como fui esquecer-me de os regar. Deu-me uma inquietação de verdade. Uns arbustos que escolhi e plantei e tratei com tanto cuidado e fui esquecer-me de os regar. Parece que estava fiada nas pingas de chuva que de vez em quando haveriam de cair. Mas tem estado tanto calor e chuva nenhuma. Fui logo a correr encher o regador, uma e outra vez. Mas não sei. Nem quero pensar. Olhava para os pequenos arbustos, antes tão viçosos e agora ressequidos, uns se calhar já sem recuperação. Como foi isto de me esquecer...?
O tempo não me chega para todas as obrigações. Mas regar os vasos é daquelas que não podia ter-me esquecido -- e esqueci.
Estive há pouco a ver o que o YouTube tinha para me sugerir e só posso tirar o chapéu às mentes brilhantes que concebem o algoritmo que o movimenta. Já é inteligência artificial (IA) e eu, que tanto me preocupo com os riscos da IA neste mundo ainda tão desregulado no que a isto diz respeito, afinal sou consumidora de produtos que me são dados a comer por um algoritmo. Ele mostra-me o que 'acha' que eu gosto e não me mostra o que 'acha' que eu não gosto. E acerta bastante no que eu gosto. Mas não sei se, mesmo que na melhor das boas intenções, a de me agradar, não me oculta muito do que se calhar eu gostaria de conhecer. Mas, enfim, é um produto que uso gratuitamente e, por isso, não posso esquecer-me de que quando consumo um produto que não pago é porque o produto sou eu. Portanto, adiante.
Estava eu dizendo que estava a ver o youtube e apareceu-me um excerto do fantástico O Grande Ditador. Como o que é bom é para ser partilhado, aqui o deixo convosco.
Charles Chaplin - O Grande Ditador - Discurso final
Por sugestão da mãe de uns dos meninos, enviei-lhes uma selecção de vídeos para ver se fazia rir em especial um deles. Enquanto os escolhia, fartei-me eu de rir. São vídeos que não me canso de ver e que sempre me fazem rir.
Imaginei o menino a rir a bom rir, a pôr o vídeo do início uma e outra vez.
Enviei vários e este aqui abaixo não foi um deles. Mas este, icónico, é tão fantástico que me apeteceu partilhá-lo agora convosco..
Depois, estava a jantar, recebi uma mensagem a ver se não queria juntar-me ao meet para ver se animava os meninos, sobretudo o que estava digamos que menos animadinho. Claro que, de imediato, interrompi o jantar. E juntei-me a eles.
Estavam a jantar, separadamente, enquanto confraternizavam por estas novas vias. Perguntei se tinham visto os vídeos. Só o mais novo tinha visto. Para meu espanto disse-me que achava que não tinham piada. Não quis acreditar, impossível não achar engraçado. Diz-me ele: Não me ri uma única vez...
O avô, ao ouvir a conversa, disse que eu achava graça porque o actor era moço do meu tempo, que devíamos ser da mesma idade.
A mãe disse que era uma cena geracional. E, para se perceber melhor qual o tipo de humor da mais nova geração da família, pediu então que o menino partilhasse connosco um vídeo a que achasse graça.
E ele assim fez. Pediu um tempo, escolheu um e partilhou-o.
Foi este que aqui abaixo vos mostro.
Desconcertante, vou já prevenindo...
Nem sei que diga.... (Vocês acharam graça...?)
A mãe dos meninos até se lembrou de quando estava no hospital a ter uma criança e nós fomos com o mais crescido almoçar à Gulbenkian e, de passagem para a casa de banho, espreitámos uma exposição temporária. Estava um vídeo em que se viam ovos a serem partidos. Um ovo, depois outro. A clara escorria, depois a gema. Só isso. Uma e outra vez. Pois bem. O menino, que tinha dois anos e tal, achou aquilo o máximo, estava divertidíssimo, não queria sair. Eu a querer que ele fosse conhecer o irmãozinho e ele nem aí, queria era ver os ovos a serem partidos. Eu a puxá-lo e ele só a puxar em sentido oposto, a pedir que ficássemos só mais um bocadinho. Ria-se e queria sentar-se no banco que lá tinham posto, queria ver sem parar. Eu sem perceber qual a piada daquilo (aliás, qual a lógica, qual a arte...) e ele encantado, sem querer desgrudar.
Pois agora é o irmãozinho nascido nesse dia que acha graça a uma torrada a tombar...
Portanto, vá lá a gente saber o que é que faz rir os outros...
E agora vou ver se passo as fotografias do passeio de hoje de manhã para o computador para ver se vos mostro, ou ainda hoje ou amanhã (ou um dia destes).
Diz o Víctor que sou dada a tendências ocultas e eu, como forma de recompensa por ele ter conseguido descobrir um segredo que trazia tão bem escondido há tanto tempo, acho que tenho que aqui atribuir-lhe um presente. Isto, claro, porque, devido ao confinamento, não posso organizar a cerimónia que estava planeada para festejar o grande momento. Não fora o corona e teríamos o Pavilhão de Portugal à pinha para a atribuição da medalha ao Leitor que primeiro descobrisse o tão bem guardado segredo.
Mas o corona ainda não deu as desejadas tréguas totais e, portanto, os festejos têm que ser aqui mesmo.
Assim, não é a gold medal que aqui tenho para lhe oferecer, fantástico e veloz Seco Gaspar, mas é um vídeo feito em sua homenagem por ser o mais rápido dos Leitores a descobrir o meu grande segredo: "a UJM tem tendências ocultas".
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Para o Paulo B por quem tenho grande apreço, que tem um sangue na guelra que dá gosto e que vibra com a vontade de fazer justiça (nem que seja às mãos da Agente Mortágua) e que, ao mesmo tempo, tem um gosto invulgar e exigente pelas artes do espectáculo e pelo reino do absurdo e extraordinário, iria a medalha de prata. Como não há como, aqui deixo um apontamento de circo que espero que receba com um sorriso equivalente ao que tenho ao dedicar-lho. E espero que a vida e as suas agruras não lhe retirem a energia tão boa que a sua juventude põe em destaque. Este presente, que vai em vez da medalha, seria entregue com um abraço ao bravíssimo Paulo B.
Mas o vídeo tem um outro propósito: o de lhe dar esperança. Se a Maggie volta e meia dava estes tristes e embaraçosos espectáculos, a verdade é que conseguiu recuperar-se. Vejo-a agora transformada em David Walliams e em grande forma. É agora um homem simpático, cortês, bem disposto. Ponha os olhos nele, P.Rufino. Acredito que também conseguirá regenerar-se.
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Para o grande João a quem nada escapa, que tudo conhece e que denuncia tudo o que se passa aqui e além mar, desde as cabeças de cavalo até aos betolas com cabelinho à f...-se e caquinha na cabeça, e que obviamente merece todas as medalhas -- ouro, prata, bronze ou cortiça -- não tenho presente à altura. Na sua arca já residem todos os tesouros do mundo, nomeadamente as melhores músicas, as melhores vozes, as melhores interpretações, as melhores histórias.
Por isso, o que aqui lhe ofereço mais não é do que uma tentativa de lhe dizer que muito sinceramente acho que, apesar de todas as divergências, importa a gente relativizar, divertir-se, improvisar, não levar muito a sério o que não passa de espuma. Somos efémeros. Apenas a arte é eterna.
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E para o VN que queria que eu contasse mais uma história envolvendo a Serva-Mor tenho a dizer que ainda não é desta. Este blog, como é sabido, é um blog de família e as histórias que envolvem a personagem seriam mais dadas à bolinha encarnada ao canto do ecrã do que a serem lidas pelos inocentes que frequentam esta casa. Portanto, só se um dia eu estiver tão a dormir que perca toda a censura interna... Só posso adiantar que acho que a Serva-Mor, para melhor compor a personagem, quando inquire os seus suspeitos deveria apresentar-se a preceito, quiçá com um hábito como o da pura Madre-Superiora que aqui almoça com o João de Deus.
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E ainda tenho aqui uma coisa para outra pessoa, alguém que é todos e nenhum, mil nomes, mil personalidades, alguém que paira por aí, que aparece e desaparece, que é assim e assado, poético e prosaico, quase normal umas vezes e muito malvado outras, erudito e ignorante, humano e desumano, absurdo e racional, consistente e inconsistente. Para ele, o chameleon man, aqui vai um vídeo com um dos seus alter-egos. Não é um presente, não é um bye, não é um smile, não é nada: é apenas uma forma de reconhecimento. Estamos cá. Há coisas que não se explicam e esta é uma delas.
Para a Serva-Mor, a intragável e temível Agente Mortágua, a inquisidora que passa a pente fino os freaks do regime, vai o prémio de honra, um que aqui chegou pela mão do Paulo B., sempre inteligente e oportuno, a quem agradeço a lembrança pois a verdade é que, no meio de tanta generosidade, estava a esquecer-me de presentear justamente a inspiradora de toda a esta série.
Ei-la aqui, em versão loura e glamour, a estragar a festa a um grupo de pândegos. Mas, como sempre, a estragar é como quem diz pois na sala ao lado ou no dia seguinte, a festa prosseguirá. Mas, ok, não estou para tretas, estou mesmo é para me divertir, para ser uma mãos largas e distribuir presentes à direita e à esquerda.
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E para todos e para todas os que aqui me acompanham, para os que riem e para os que choram, os que rangem os dentes e os que batem o pé, os que têm fair play e os que atiram pratos à parede, para os que acham tudo muito grave e para os que se estão a marimbar, para todos, aqui vai o meu convite: bora lá furar o esquema e dançar?
Tenho a certeza que é muita insensibilidade da minha parte não vir para aqui carpir sobre as agruras nacionais. É mesmo. Toda a gente lamenta coisas. Toda a gente e eu, que não sei se sou gente, se sou bicho, também. Como, estando eu imersa neste pequeno rectângulo sobrelotado de gente lamentando-se, não me deixo contagiar...? É muita insensibilidade. Muita.
Como, por exemplo, não estar aqui a lamentar que o Chicão, esse menino mais fofo, esteja agora a ser maltratado pelo Adolfo e demais amigos? Logo o Chicão, esse destemido gaiato com uns olhinhos azuis mais lindos. Devia lamentar, que o momento é de tristeza e chicana. Mas não me ocorre o que dizer.
Também me parece insensível da minha parte não fazer um reparo ao conselho amigo que Mário Machado, essa incontornável e cadastrada figura, líder de movimentos sobejamente tintilantes, veio fazer ao Ventura para que modere a agressividade e a conversa potencialmente apelativa à violência. Parece-me um gesto bonito, bonito demais, e auto censuro-me por não estar aqui a louvar estes actos de coração. Mas dizer o quê? O que se diz numa situação destas... Que é a lei da vida...? Que branco é galinha o pôs...? Não sei...
E mais. Soube há pouco que o governo não vai dar tolerância no carnaval. Não me parece nada bem e ainda pior me parece eu não fazer da condenação de tão insana medida a minha guerra pessoal. Se este não é motivo para a mais sentida lamentação não sei o que seja... A gente quer fazer desfiles e não pode, quer fazer rodar a baiana e não pode, quer despir-se de alto a baixo, só com uma estrelinha brilhante nos sweetnipples e na rosa clandestina, e não pode, quer ir fazer uma festa bem danadinha de boa, todos tapados e mascarados do pescoço para cima, e não pode... e, como se a afronta não bastasse, ainda nos cortam a tolerância. Mas como? Temos que ficar em casa...? Não pode...! Fechados? Não... Mas vou dizer o quê? Que mascarar-me de irmãzinha da caridade-pum e não poder ir para a rua fazer de conta que sou a Alcoforado não me parece bem...? Bahhh, não tenho saco. Esgotei. Já dei para esse peditório.
Claro que poderia falar da meia-irmã da costureira da prima da cunhada da amásia do padrasto do presidente da Junta de Freguesia de Caganita de Baixo que se abifou com uma vacina já meio morna. Mas quê? Pôr-me a fazer concorrência à impoluta e suportável Sandra Felgueiras...? Ainda se eu fosse como o colega dela e soubesse praticar aquela eloquente e histriónica língua gestual, se me faltasse a parte detrás da cabeça, se tivesse orelhas de abanico e conseguisse falar como se estivesse sempre a ponto de apanhar com um míssil no missing toutiço... Mas não. Eu sou só eu. Fazer o quê...? Nada, né? É que, para falar a verdade, ninguém merece.
Portanto, na presença de tão grande insensibilidade e na ausência de ter mais o que dizer, calo-me já.
E que entrem os convidados.
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O título foi retirado do discurso de Vasco Santana
Como em tudo na vida, há quem queira antecipar-se a problemas maiores e há os que querem ter a certeza que há desastre para, só então, agir. Há muitos anos que lido com pessoas de ambos os tipos. Como a minha natureza é a do primeiro grupo, fico sempre numa angústia quando vejo a calma com que os do segundo tipo aguardam que elas aconteçam para então reagirem.
Claro que, ao fazer-se tudo para prevenir as desgraças, se corre o risco de, a posteriori, face a elas terem sido evitadas, aparecerem uns quantos a dizer que são alarmistas os que se preocupam em prevenir acidentes para nada.
Seja. Acho que o esforço é melhor expendido a evitar desgraças do que a sará-las. Não se trata de exercer futurismo ou artes divinatórias. Tendo os modelos matemáticos como tema de afeição, não me parece difícil antever a trajectória de algo em movimento, veículo ou pandemia, quando se conhecem todos os dados para traçar as funções e as tendências e para efectuar previsões.
No caso da pandemia, com uma evolução conhecida e inequívoca, com os números a confirmarem todos os dias as piores previsões, não há que esperar muito mais. Esperar para saber o quê? Que o número de mortos vai continuar a aumentar? Que as vagas hospitalares vão continuar a escassear? Que o pessoal hospitalar está a rebentar de exaustão e a escassear porque também infectado ou em quarentena? Esperar mais o quê? Que tudo piore de uma forma ainda mais traumatizante?
O que se aguarda para proceder a inspecções à qualidade do ar nos locais onde as pessoas caem para o lado como tordos (lares, por exemplo) ou ficam infectadas aos molhos (empresas, por exemplo)? O que se aguarda para verificar se há as condições de distanciamento e/ou arejamento recomendadas em locais em que várias pessoas respiram o mesmo ar?
Por que raio de carga de água se focam nas pessoas que andam ao ar livre e nada dizem sobre as pessoas que adoecem às quarenta e cinquenta de cada vez no mesmo local?
E o que se aguarda para fechar escolas, resguardando um número muito maior de pessoas?
Devo dizer que as notícias da pandemia são péssimas mas não me deixam admirada. Quando a curva avança empinada -- leia-se: aos pinotes -- há que ter-lhe respeito. Facilmente a gaja fica desencabrestada, difícil de a pôr com dono. Isto é matemática mas a matemática é temperada pelas circunstâncias. Quando as circunstâncias fazem de mortas, uma pandemia é matemática pura e aí, santa paciência, qualquer previsão só traz más notícias.
Ora falou-se na 1ª onda, na 2ª e agora na 3ª como se o vírus tivesse comportamentos diferentes. Não. A menos que deixe de ser um vírus para passar a ser um vírus mais uns quantos clones não exactamente iguais, e aí a coisa piora, o pensar-se que há ondas só revela o mau entendimento que as pessoas têm disto. De cada vez que há maior exposição ao contágio, a curva sobe. Se se refrear, ela desce. Ou seja, o que muda é o comportamento das pessoas. Mas não se pode esperar grande coisa do comportamento das pessoas quando sabemos que parte da população não sabe informar-se, bebe das redes sociais e de uns e outros, e outra parte raciocina com as patas. Portanto, quem tem que conduzir o rebanho em que parte são asnos, parte são carneiros, parte são galinhas, parte são onças e apenas uma minoria é gente que sabe ler e escrever, é o governo. E, sendo o caso um caso grave, há que dirigir o rebanho com mão pesada.
Em Março e Abril conteve-se a coisa pois estava com valores baixos e pôs-se maioritariamente a malta em casa. Na prática, o Governo quebrou as cadeias de transmissão. Depois veio o pré-verão e o verão. Quando o tempo está bom, a malta junta-se mais ao ar livre, nas praias, em picnics, em caminhadas, em esplanadas, em espaços fechados as janelas estão abertas -- e aí o corona está diluído no infinito e, portanto, as probabilidades de contágios são diminutas. A partir do momento em que se manda regressar a malta às lojas e escritórios, às escolas, e à medida que se fecham as janelas porque está frio e chuva, branco é, galinha o pôs: a curva volta a subir. E à medida que escasseiam as campanhas de sensibilização, a malta convence-se que o bicho neles não pega, que só as meninas é que têm medo, que homem que é macho não quer cá saber da máscara para nada, ou malta que é amiga confia uma na outra, não quer cá a desconfiança das máscaras... e depois a malta farta-se da monotonia de sempre covid, covid, covid, e quer é voltar a curtir, e bora mas é beber um cafézinho ou um copo, e bora mas é beber uma meia de leite quentinha e pôr a conversa em dia, e bora lá almoçar uns com os outros... e, quando se dá por ela estamos como estamos: não há camas nos hospitais, não há ambulâncias, não há médicos nem enfermeiros... e doentes com mais de oitenta pois, coitados, azarinho... E os doentes não-covid que aguentem mais um bocadinho que agora a gente não tem tempo para frescuras mesmo que as frescuras sejam coisas bem graves.
Por isso, a coisa basicamente entregue à consciência e ao entendimento de cada um dá nisto. Ou seja, o aumento que se desenhou em Setembro e a ligeireza com que se encarou a coisa, só podia dar nisto. Lembro-me que, por esses dias, recebi um mail de um Leitor a dizer-me para não me preocupar tanto. Pois, pois.
Além disso, há isto de parecer não querer ver o óbvio: espaços fechados, sem ventilação regular e sem um caudal adequado de ar fresco, é uma ratoeira, é só até aparecer alguém infectado. Quem respirar esse ar, fica infectado (a menos que seja daqueles sortudos em quem a bala faz ricochete). Não haverá lar de idosos, escritório, sala de fábrica, clínica, loja sem porta aberta para a rua ou o que seja que não tenha as janelas sempre abertas ou um ar condicionado que retire ar respirado e injecte ar novo que, mais cedo ou mais tarde, não atire com a malta toda para casa (ou para o hospital; isto, claro, quando não para o lado de lá, o lado do já foste).
Solução? Travão às quatro rodas à força toda. Partir as pernas às cadeias de transmissão que estão por todo o lado, descontroladas. Fiscalização à séria. E comunicação com fartura. Formação, explicação, ilustração.
Vou dar um exemplo. A minha mãe preparava-se para ir hoje fazer dois exames de rotina. Não há qualquer suspeita de nada, é mera rotina. Quando lhe disse que me parecia opção arriscada, ficou toda incomodada. Iria e viria de táxi, estaria de máscara, disse-me ela. Respondi-lhe: uma clínica fechada com ar condicionado que sabe-se lá como funciona. Um táxi em que sabe-se lá quem lá andou antes. Disse-lhe que a opção teria que ser dela, conhecendo os riscos de cada situação mas que os dados de como isto é são públicos. Suspirou, aborrecida. Apetece-lhe cirandar, está farta de estar fechada em casa, sem programas. Ia à clínica, aproveitava para ir aqui e ali. Perguntei-lhe se não tem visto os noticiários. Ontem à noite lá me disse que ia desmarcar. Que, se calhar, ia marcar lá para o início de fevereiro. Disse-lhe que não está a ver bem. Até ao fim de janeiro vai ser uma desgraça pegada. Fevereiro é para ver se se achata a bandida da curva. Quanto muito, talvez lá para Março e é se tudo correr bem e se o tempo ajudar. Suspirou. Percebo-a. Fala-me de uma amiga que vai todos os dias passear à Baixa, buscar o almoço a um restaurante, diz que ela vai e vem de autocarro e que nada lhe acontece. Pois, não sei. Talvez seja daquelas pessoas que é geneticamente imune. Ou tem tido sorte e um dia destes terá uma má surpresa. Mas é isto. A minha mãe já quase nos noventa, a amiga com noventa e tais. A minha mãe tem medo, critica os abusos, mas depois, quando é para ela, acha que passará sempre ao lado do perigo. E acredito que o que se passa com ela e com a amiga passa-se com muito mais gente. Um misto de saturação, de vontade de aproveitar melhor o tempo, uma esperança de que com elas não aconteça nada, uma coisa já na base do 'que se lixe'.
Enfim.
Quanto ao meu dia, normal. Nada de culinárias a reportar, foi o básico: bacalhau com todos -- batata normal, batata doce, cenoura, cebola, feijão verde, ovo e grão.
Ao jantar, comi iogurte, laranja em calda, dióspiro, queijo. Uma espécie de dieta.
E durante a tarde estive um pouco ao sol. E a ler os poemas da Hélia Correia, do livro Acidentes. Alguns agradam-me bastante.
Por exemplo este excerto de Poiêtikê dedicado a Maria de Sousa e a Anabela:
E ela quer saber exactamente onde está o poema,
quer tocar
no nervo do poema, sem que exista
frieza ou impiedade,
sem que exista
golpe de bisturi.
Porque é um toque de delicadeza,
a materna leveza que há nos dedos
de quem levanta uma raiz, tremendo
com tudo o que há ali de irreparável,
de precioso, de finito, como o verso,
com tudo o que ali há de
desumano,
enquanto algo de fino,
de espantoso na sua vibração,
atinge o peito
e deixa as criaturas que nós somos
sob o encantamento do que ignoram
Está a começar mais uma semana. Passam uma a seguir à outra, sem história. É isto. Parece que vivo num compasso de espera. Tem que ser mas é uma mudança tão grande na minha vida. Nem sei se voltarei a ser capaz de viver como vivia antes.
Aliás é das grandes curiosidades: como vai ser a nossa vida quando esta treta estiver controlada?
E como vão suportar a angústia as pessoas que estão sem trabalho, sem rendimentos, sem perspectivas?
E cá estou eu, uma vez mais, em volta disto, nesta conversa chata, meio desalentada... Bem posso enfeitar o texto com flores dentro de bolas de vidro que, nem assim, a conversa vai soar animada. Ai...
O que me vale é que abro o youtube e o meu amigo algoritmo sabe o que há-de fazer para me animar. Só pode ser bicha. Já contei que alguns dos meus amigos mais dilectos são bichas ou abichanados...? São empáticos, simpáticos, cuidadosos, atentos, conversadores. Uns queridos.
Desta vez, um pequeno vídeo delicioso do Chaplin. Vejo-o e esqueço-me de agruras, sorrio.
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O título deste post não terá muito a ver com o conteúdo (mas porque haveria de ter...?): é a parte final do poema Otherwise que Hélia Correia dedica a Lucinda Canelas.
O poema termina assim:
(...)
Eva, Penélope,
mulheres com um tal excesso de beleza
que isso as tornava intransigentes e as punha
a salvo de ternuras comezinhas,
atacando o trabalho de tear
não por fidelidade, como a outra,
mas numa guerra à Belle Époque e ao século
que estava a começar.
Um pouco menos de dinheiro na família
e tê-los-iam internado a todos
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Uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira
Não sou de dress codes, de etiquetas protocolares, de minhoquices que atormentam o espírito a troco de pouca coisa. Melhor: para ser completamente honesta, ser até sou mas tudo numa levezinha, como quem não quer a coisa para não parecer que estou a impor regras aos outros ou a dar lições a quem não está nem aí.
Mas há coisas que a gente, por muito que saiba como se portar em público, deve evitar. Coisas traiçoeiras, cheias de complicação, propícias a deslize. O meu pai falava que uma vez, casado de fresco, foi convidado com a minha mãe para um jantar em casa de um outro casal, gente que, para o local e para a época, representava a society. Pois bem, às tantas, sem medir consequências, espetou uma azeitona com o garfo. E, pimbas, a azeitona voou. E ele, desportista completo, com ela em pleno voo e na total discrição, apanhou-a e, como quem não quer a coisa, guardou-a no bolso. E toda a vida ele contou, sorrindo, o vexame que ia sendo.
Por isso, eu digo: azeitona, pelo sim, pelo não, se não queremos falhar, a gente segura com a ponta dos dedos e come à mão mesmo.
Mas há outras coisas em que, por muita ensinação e treinamento, mais vale não arriscar. Ou o bicho vem tratado e destratado para a mesa, sem casca, sem espinha ou osso, sem pele ou caroço, ou o melhor é passar ao largo, fazer de conta que acha que é mais bonito se for decorativo.
Melancia, por exemplo. Ou é servidinha aos cubinhos ou bolinhas, sem sementinha preta, sem nada que atrapalhe, ou mais vale dizer que é linda, encarnadinha, molhadinha.
Mas há truques. Este, do vídeo, eu não sabia. Vivendo e aprendendo. Ora façam a gentileza de pôr aqui os olhos.
Mais: atenção ao sítio onde se escafundem os talheres. Que não se corra o risco de correr tudo bem e, no fim, quando foi tudo aprovado até à quinta derivada, passar-se pela vergonha de caírem os talheres ao chão. Quem vos avisa vossa amiga é.
Um dia mais tarde talvez eu fale aqui destes dias loucos em que, em simultâneo, tudo muda, tudo acontece, tudo se atropela na minha vida. Umas coisas acontecem porque a vida é assim mesmo, outras porque eu fiz acontecer e outras são as consequências directas e os efeitos colaterais de tudo o resto. Não me queixo. Ou é assim porque é a vida ou é assim porque, de vez em quando, um vento de mudança toma conta da minha vida e eu preciso de mudar de pele, de vida, de tudo.
Mas manter os pés na terra, dar conta de todo o recado, trabalhar, assegurar a logística do dia a dia, manter a disponibilidade intacta para quem não tem nada a ver com os trabalhos em que me meto, não é fácil e, muito sinceramente, de vez em quando olho para o reboliço todo em cujo centro me encontro e só me apetece ter super-poderes para poder fazer dez vezes mais do que faço para mais rapidamente cumprir as fases de maior assoberbamento em que agora me encontro.
Hoje, ao fim do dia, fui fazer uma pequena caminhada mas ia cansada e só me ocorria como será bom, daqui por algum tempo, a vida já reequilibrada, tudo serenado. E a visão desses dias de quietude e tranquilidade parece-me o el dorado pelo qual, neste momento, anseio.
A tarde, em especial, foi repleta de cenas. O cúmulo da graça foi uma reunião remota com pessoas do meu lado e pessoas de um outro lado. Às tantas percebi que, dos outros, um deles, o mais calado e a quem menos os outros davam a palavra, parecia ser, ali, a peça chave. Era homem já de alguma idade. Aos poucos arranjei maneira de lhe ir dando a palavra. Até que, se calhar até meio a despropósito, lhe perguntei onde é que ele tinha trabalhado antes de estar naquela empresa. Ele chegou-se à frente e foi como se estivesse à espera de dizer aquilo. Começou referindo a primeira empresa onde tinha trabalhado e o ano em que tinha entrado. Anos depois, outra empresa. Aí tocaram muitos sinos. Disse-lhe: 'Se calhar ainda nos encontrámos por lá...'. Julguei que ia surpreendê-lo. Mas foi ao contrário. Diz ele, referindo-se a mim, com ar contido, como se tivesse ensaiado: 'Não, nessa altura já não estava lá, já estava nos escritórios da Avenida tal'. Fiquei banzada. Perguntei: 'Em que ano?'. Ele repetiu. De facto, nesse ano eu estava onde ele disse. Afinal conhecia-me. Fiquei espantada e só não completamente espantada porque não é a primeira vez que isto acontece. Eu a pensar que estava a ter uma reunião com um grupo de desconhecidos e, afinal, um deles conhecia-me de longa data. Admito que, num mundo profissional em que a larga maioria são homens, qualquer mulher se tornava notada. Ainda por cima há uns belos anos atrás, uma mulher naquelas funções era uma raridade.
Agora, ao estar a escrever isto, lembrei-me de uma reunião, no local onde ele trabalhava, onde uma equipa da Sede foi apresentar o plano de reestruturação que os ia afectar a sério. Juntaram-se centenas num pavilhão para ouvir. Estava cheio, o ambiente estava carregado de electricidade e ansiedade. Creio que apenas homens. Alguém achou que a pessoa da equipa que deveria apresentar esse plano deveria ser eu. Não me tinha preparado para isso mas, naquele ambiente quente, compreendi que talvez fizesse sentido ser eu, talvez o facto de ser uma jovem mulher contivesse a agressividade que estava latente. Durou horas essa sessão. Correu bem. Foi duro mas acho que houve franqueza e partilha de receios e de riscos. Lembro-me de estar vestida de branco, era verão. Eu estava de pé e, no fim, eu tinha perguntado se havia questões e... houve questões sem fim. Por volta da hora do almoço, comecei a sentir vontade de ir fazer chichi mas era impossível sair dali a meio e ir à casa de banho. Às tantas já me doía a bexiga, já quase não tinha posição. Tinha ido à casa de banho antes de sair de casa, certamente antes da oito da manhã. E tinha sede, aquilo estava muito quente, e sentia que a tensão me estava a baixar. Mas pensava que, se bebia água, ainda mais aflita ficava. Intimamente já só implorava que se calassem, que acalmassem, que aquilo acabasse. Temia não conseguir chegar à casa de banho e ainda fazer chichi pelas pernas abaixo, um vexame. Mas esta aflição ninguém deve ter percebido, só devem ter percebido que estava ali uma mulher, no meio de muitos homens, a tentar ser clara, falar verdade, não escamoteando o período complicado que se iria atravessar. E, se calhar, um desses homens era este que esta tarde tive ali à minha frente.
A vida tem destas coisas. A vida tem tantas coisas.
No outro dia, um outro, do nada, começou a dizer-me que agora estava melhor. Fiquei em suspenso. Já sei perceber quando há, do lado de lá, vontade de falar. Depois acrescentou: 'Mas não foi fácil, passei um mau bocado'. Tive que perguntar: 'Mas o que foi?'. E, então, para minha surpresa, com uma franqueza desarmante, talvez até com inesperada candura, ele desatou a contar-me aquilo pelo que tinha passado. Daquelas coisas que uma pessoa tem que engolir em seco para não denunciar alguma reacção que faça o outro inibir-se. Falou e eu ouvi-o. É um homem a quem os outros que trabalham com ele, e são centenas, acham seco, duro. É uma pessoa pouco estimada, pouco empática. E, no entanto, sem que eu consiga explicar porquê, ali estava, falando-me de assuntos íntimos, de problemas que estava a superar mas que ainda o afligiam.
Não sei explicar isto. Mas também nem tudo precisa de ser explicado. Não é?
E também não sei porque estou a falar disto. Comecei o post com a ideia de falar de uma colcha de renda muito bonita que uso na minha cama e que não me lembro se foi a minha avó ou uma tia do meu marido que ma ofereceu. Ao falar disto com a minha mãe, tirei uma fotografia para ver se ela se lembrava. Respondeu-me que aquilo não é uma colcha, é uma toalha de mesa. Fiquei perplexa. Pensei que estivesse enganada. Que não, certeza absoluta, Alguma vez aquilo é uma colcha? Mas a verdade é que tem sido e, em minha opinião, uma bela colcha. Também, ao tirar uma outra de um gavetão, me surpreendi com as toneladas que aquilo pesa. E nunca a uso porque imagino que seja um calvário para lavar, para secar, para passar a ferro. E custa-me pois uma pessoa, cheia de amor, trabalhou naquela colcha durante muito tempo, certamente anos, gastou muito dinheiro em fio, aquilo é um peso bruto. Como poderemos retribuir gestos de amor junto de quem já não está entre nós?
Mas, enfim, não sei porquê, o post tomou outro rumo. E agora não vou apagar tudo e, a esta hora, recomeçar. Fico-me por aqui.
E, antes de escrever, gosto sempre de circular pelos blogs aqui do lado, pelas notícias, pelos vídeos que o YouTube me propõe. Sabendo que me pelo por me rir e por sorrir, agora anda a propor-me o abençoado, querido e divertido Charlie Chaplin. E aqui está ele, para que, possam também sorrir.
E um dia feliz para todos.
Saúde, sorte e dinheiro para os gastos. E alegria. E força.
Penso que sou optimista. Em regra, perante qualquer situação, não me dá para antever o pior. Conheço pessoas que, haja o que houver, mesmo sem nuvens negras no horizonte, começam logo a preocupar-se com o que pode vir a acontecer. Eu não. E, se há problemas, eu, em geral, em vez de me entregar ao afundanço, ao fatalismo, começo é logo a ver como é que a coisa se há-de resolver. Mas é mais do que isso: mesmo em situações que, para outras pessoas, podem ser contratempos, para mim é coisa de nada, na maior parte das vezes nem dou por isso. Sinceramente, acho que isto é uma coisa boa que tenho em mim. Passo pela vida mais descontraída, sem querer saber do que pensam ou dizem de mim, sem me pré-ocupar com o que pode vir a acontecer. Pelo contrário, aproveito bem o lado bom da vida, deixo que as pequenas coisas me encantem. Provavelmente sou é distraída. Na volta é isso: distraída + míope = optimista.
Por exemplo, perante a situação que estou a viver, tenho aqui em casa quem, ainda a coisa não tinha começado, já antevia trabalhos acrescidos, cansaços insuportáveis, quem protestasse por antecedência, quem me avisasse de que depois não viesse eu dizer que não estava avisada. E eu na boa, mãos à obra, sem dramas, para a frente é que é caminho. Claro que, depois de trabalhos esforçados, chego ao fim do dia cansada, mesmo cansada, até na pele das pernas sinto formigueiro. Hoje o dia foi outra vez daqueles. Tudo passado a pente fino, armários todos ao léu, tudo prontinho para ser limpinho por dentro, tratado, as madeiras hidratadas. Uma trabalheira das valentes. Mas e daí? Claro que parte do trabalho pesado não me cabe a mim, cabe-lhe a ele. Tirar tantos livros para fora é obra. Horas. Ter os armários vazios não é coisa para todos os dias mas quando os vejo limpinhos, um cheirinho bom a óleo reparador ou de cedro, rescendendo a casa lavada, eles todos novos, acho que todos os esforços são justificados. Claro que depois será preciso voltar a pôr tudo dentro deles e, aí, aproveitar para repensar algumas coisas, reorganizar tudo. Têm saído livros, copos, serviços de jantar. Claro que aqui chegada deveria abrir um capítulo para falar do que para aqui tenho e que nunca uso. O meu filho, nestas circunstâncias, aconselha a ver-me livre de tudo o que não preciso. A minha filha, há pouco, também me disse que era uma boa ocasião para pensar se não daria para me desfazer da tralha de que não preciso.
Mas há patamares a que ainda não cheguei. A sala de jantar basicamente está cheia de coisas que não uso mas das quais não consigo separar-me. O serviço da Vista Alegre, que os meus pais me ofereceram antes de me casar e que já está descontinuado, lindo, que não quero arriscar-me a que fique incompleto, o serviço de copos absurdamente elegante e frágil que uma das tias do meu marido nos ofereceu (e que quase não uso com medo de partir obra de arte tão sensível), garrafas de cristal que, ao longo do tempo, fomos recebendo de presente, peças também de arte, pesadas e lindas -- coisas assim. A minha mãe disse-me que também é assim, também tem coisas dessas que mal usa com medo que alguma coisa se parta. Por exemplo, tem dois serviços da Vista Alegre, um que é um modelo clássico, e outro, especial (e de que, por acaso, nem me lembro, tão encafuado deve estar sempre) que nunca 'põe a uso'. Recordou a minha tia, aquela de quem eu tanto gostava. Diz a minha mãe, referindo-se a ela, que nunca conheceu 'coisa' mais desapegada. Diz que dava ou deitava fora tudo aquilo de que achava que não precisava, Lembra-se do meu tio, um dia, lhe perguntar onde estavam umas calças mais velhas que costumava usar quando fazia alguns trabalhos em casa e de ela ter dito, na maior descontração, 'deitei-as fora, já não estavam capazes'. Diz a minha mãe que o meu tio se ia passando, que ela deitasse fora as coisas dela, era com ela, mas que estava farto de lhe dizer que não mexesse nas coisas dele. E que ela encolheu os ombros, nem aí, para a próxima faria o mesmo. A minha cunhada é igual. Não me esqueço da surpresa do meu cunhado quando, depois de desesperar à procura dos seus calções de banho preferido, foi dar com o jardineiro da quinta com eles vestidos. E a minha cunhado, com a maior naturalidade, 'Que é que queres? devo ter achado que estava na altura de teres uns novos, dei-os ao Leontino. Qual o problema?'
Eu não. Custa-me desfazer de coisas que acho que ainda estão boas, ou de coisas valiosas ou com valor estimativo.
Mas isto vem a propósito de quê, caraças...?
Ah, já sei. Meto-me nestas empreitadas de peito feito, sem me preocupar por antecipação, sem fatalismos, sem encarar com pessimismo o que parece missão impossível, sem sofrer por sentir que me meti numa never ending story. Penso é que o que for soará, que para a frente é que é caminho e bola para a frente. Chego, de facto, ao fim do dia, mais do que exausta e percebendo que nem tão cedo vou ter descanso pois o trabalho que ainda tenho pela frente é ciclópico. Mas não faz mal. Agora custa um bocado mas todos os males fossem estes e, no fim, vai ser tão bom, vou sentir-me tão bem, tudo terá valido a pena.
E isto, acho eu, é a conversa típica duma optimista. Claro que as más línguas dirão que optimista coisa nenhuma, que isto é coisa é de gente maluca. Pois que seja. Desde que a maluqueira seja inofensiva, há lá coisa melhor que uma pessoa ser maluca...?
Para fim de conversa, recapitulando: míope + distraída + maluca = optimista.
De vez em quando recebo comentários desnorteados, ajustes de contas, ofensas, baboseiras, dislates, infantilidades, bacoquices. Geralmente é gente que, aparecendo como Anónima ou com nomes mutantes, deixa um rasto atrás de si que é como se aparecesse de saia levantada e rabo de fora, coisa que é igual a aparecer com o nome escrito na testa. Geralmente vão direitinhos para o lixo (refiro-me aos comentários, não aos anónimos) pois não ia deixar material mal cheiroso à vista nem ia aqui pespegá-lo para ter que me dirigir ao Anónimo pelo nome, expondo os seus maus íntimos, deficiente carácter ou sintomas de cagança mal acarinhada.
Mas por vezes aparece um ou outro comentário que tem graça. E ainda com mais graça quando também deixam rasto, trazendo presos a si a etiqueta que os identificam. Alguém que gosta de pintura realista e clássica e que, vá lá saber-se porquê (embora eu saiba, saiba muito bem...), volta e meia resolve mostrar os seus maus fígados. Embora tenha descoberto que a pintura se chama 'Poplars', não conseguiu estabelecer a liaison entre poplar e choupo e, em estado que as más línguas apodariam de perturbação, resolve ver ali ciprestes. E não gostou. E, em vez de ficar na sua, resolve aparecer aqui a chatear. Melhor: a ver se chateia. Mas não, não chateia coisa nenhuma. Tem graça.
Esse quadro do M.Allan (Poplars?) é simplesmente horrendo. Uns "ciprestes" alaranjados. Onde está a beleza de semelhante coisa? Há gostos para tudo, até para abortices.
Claro que antevejo que se eu aqui puser os sunflowers do Van Gogh o terei à perna, dizendo-me que as rosas que escolhi são horrendas, uma autêntica abortice, ou, se puser as demoiselles d'avignon, me aparecerá a dizer que tenho um mau gosto de dar desgosto, que aquelas meninas-bailarinas cor de rosa estão muito mal pintadas, autênticos abortos. Na volta também me vai dizer que a pintura lá de cima (The dream) é um pesadelo, uma coisa mal parida, um aborto sem tirar nem pôr, que até lhe parece que aquela espécie de mulher tem um pirilau empoleirado na testa, cruzes canhoto, onde é que já se viu tal coisa?
Ora bem. Fazer o quê perante isto? Difícil...
Reflecti, reflecti e achei que, para me redimir, nada como virar-me para a história, para as lendas, para os clássicos. Enfim, para o que realmente importa.
Na terça-feira chegaram uns, na quarta chegaram outros. De tarde, todos juntos, ao jantar mesa cheia. À noite saíu o primeiro grupo, ficou o segundo. Mesa animada, casa buliçosa. Correm, brincam, gritam. Quando se viram, como sempre, os mais pequenos desataram a correr. A alegria fica à solta. Perseguiam-se, apanhavam-se, fugiam. Depois a brincadeira era a dos polícias a perseguirem os ladrões. Tudo descalço, o chão quente, cheio de caruma, folhas de azinheira, bolotas secas. Não sei como não se magoam. Até o bebé. De vez em quando ouvia-o a queixar-se 'uh... tá quente...' mas não abrandava. Às tantas vi os dois manos a levarem o primo do meio, cada um de seu lado. Levavam-no para a prisão. E ele ia de cabeça baixa, meio encolhido. Quando passaram por mim ia assim. Perguntei o que se passava, porque ia tão encolhido. Receei que se tivesse magoado, que o tivessem magoado. Responde-me ele: 'É para os da CMTV não me verem a cara' e lá foi.
E é assim. Todo o santo dia me fazem rir. As saídas, o sentido de humor, a boa disposição, tudo neles me deixa bem disposta. E a alegria de os ver comer de gosto, todos a conversarem, todos felizes da vida, todos a gostarem de estar uns com os outros.
De todos os adultos apenas um estava de férias. Todos os outros estavam com calls, com mails, com ficheiros. Os pequenos entretêm-se uns com os outros. Só quando correm como uns doidos atrás uns dos outros e, de caminho, sobem para a minha cama, é que o avô se passa. Dá-lhes uma valente desanda porque não quer bagunça em cima da cama. Eu já me deixei disso. Não consigo persegui-los nem tenho voz para lhes gritar. Só consigo ameaçá-los mas nem aí consigo ser muito convincente. Hoje dizia-lhes que só se fizessem uma certa coisa é que tinham direito a um after-eight. Passado um bocado vi-os a segredar e logo um, muito decidido, foi a correr buscar uma coisa. Vi logo o que era. Zanguei-me e fui esconder a caixinha.
No fim do jantar, os dois do meio, cúmplices e sempre barraqueiros, saíram da sala e apareceram a fazer uma dança de morrer a rir. Enquanto estávamos na risota, já vinha um ver se resgatava os after-eight. Lá escondi outra vez. Mas aquilo para eles já era nova brincadeira: sacar os after-eight à Tá. Com o bebé sempre a imitar os mais velhos. Uma risota.
Bem.
Depois estive, outra vez, a ver pessoas que já não vejo há imenso tempo. As pessoas põem-se todas no facebook e no instagram. Não sei porque o fazem mas a verdade é que fazem. Umas que conheci todas giraças, são agora mulheres avantajadas, umas de cabelo todo branco, uma outra toda repuxada, outras irreconhecíveis. Eles, antes rapazes jeitosos e aventureiros, são agora homens de meia idade, ar instalado na vida. Apenas um, antes um folgazão, o focal point na organização de festas, convívios e outras cenas é que virou uma figura curiosa: ar truculento, de bon vivant. De resto, é tudo gente que me deixa a pensar que, na volta, também por mim o tempo passou. Se calhar, se me vissem, também eles diriam: 'Não! Não pode ser! Deixa cá ver. Amplia para eu ver melhor. Não... Não é possível...'.
Com isto tudo, deixei-me ficar, uma vez mais, à margem do que se passa no mundo. E, na volta, o melhor é isto: fazer de conta que não há mais mundo para além do que, por aqui, na boazinha, me vai tocando.
Agora espreitei o que o meu alter ego, o algoritmo do youtube, tinha para me sugerir. E lá está: um tema que me diz muito. Mas, da maneira que ando, isto do 'me dizer muito' é relativo. É como se fosse coisa óbvia que só os tontos não querem perceber. Coisa que, apesar de tudo, ainda me traz alguns mixed feelings pois é coisa estruturante, coisa que deve ser pensada com a cabeça, com muitas cabeças em simultâneo, não com as emoções, muito menos com os pés.
Covid-19: is working from home really the new normal?
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Mas, se este é tema que me assiste -- e muito -- e sobre o qual toda a gente deveria reflectir em profundidade (pois o que isto pode trazer ao ordenamento territorial, à demografia, ao ambiente, à saúde pública e etc, é tanto que só vários grupos de pessoas inteligentes e de múltiplos saberes pensando sobre isto poderão encontrar um caminho inclusivo, consistente e humanista), a verdade é que me apetece dizer que tá bem, já chega, e que quero é acabar o dia com um smile dos bons.