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terça-feira, fevereiro 15, 2022

São Valentim para todos os gostos

 


Não festejei o São Valentim. 

Este dia faz algum sentido? Diria que não. No entanto, como cada vez tenho menos certezas, não respondo, mantenho a questão em aberto.

Por um lado não tenho grandes dúvidas de que é uma treta, um mero motivo para o comércio espevitar. Além disso, quem gosta de outra pessoa não precisa de um dia para o manifestar. E, depois, manifestações importadas ou copiadas, cheias de um simbolismo já estafado, fazem algum sentido? Qual o real efeito para uma relação se um dos parceiros, geralmente o homem, chegar a casa com flores e bombons? Só posso falar por mim mas, para mim, se o meu marido fizesse isso, ficaria de pé atrás. Pensaria: se ele não era assim, o que se passa para, de repente, me aparecer assim, feito parvo...? estará a ficar choné?). Se há coisa que nunca apreciei foi um parceiro normalizado, alinhado com o mainstream

Claro que seria diferente se ele chegasse ao pé de mim e dissesse: vai arranjar-te que hoje é dia de festa, depois podes ir andando para a sala, ouvir música -- e fosse ele a escolher a música e fosse uma coisa tão boa, tão boa, que eu nem conseguisse acreditar. E me servisse uma bebida surpreendentemente boa, tão boa, tão boa que eu nem conseguisse identificar os ingredientes. 

E fosse ele para a cozinha e me surpreendesse com os seus dotes culinários. E, ao chegar à mesa, quisesse ser ele a servir-me e me dissesse um poema tão extraordinário que eu me sentisse emocionada, passada da cabeça tamanho o espanto. Mas, enfim, fosse como fosse, uma coisa a sós, sem fotografias, sem público. Coisa privada. Tão privada que nem aqui poderei explicar como acabaríamos a celebração do São Valentim.

Mas isto sou eu a falar. E, de resto, alguém acredita que se ele fosse assim (um charme) no Dia de São Valentim mas, nos outros dias, fosse um Bruno de Carvalho eu relevaria os outros dias e acharia bem a encenação com poesia à mistura? Nem pensar. É que nem pó. 

Aliás, se ele fosse um Bruno de Carvalho ou um Zé-Cueca qualquer, um choninhas ou um palerma encartado, alguma vez poderia pôr um pé na minha casa... abeirar-se da minha cama...?? Está bem, está. Bem se poderia pintar de cor-de-rosa, cobrir de chocolate, sussurrar-me poemas de amor ao ouvido ou pegar em mim para dançar um tango que não levava nada daqui. Nem uma tampa eu me daria ao trabalho de dar.

No entanto, disponível como cada vez mais estou para abrir uma excepção no meu ascetismo*, admito que se pode ter uma atitude simpática em data marcada, talvez de amigos para amigos -- ou seja, um momento como outro qualquer em que se possa celebrar o afecto em geral. Um gesto. Uma graça. Uma coisa assim: olhem, no sábado não querem ir lanchar à beira rio? Dress Code: quelque chose avec un je ne sais quoi. 

Ou seja: convidar uns amigos para festejar a amizade. 

E, quando eles lá chegassem, ter um bolo em forma de coração e uma caixinha em forma de coração para oferecer a cada um. E eles espantados: mas o que é isto??? está a escapar-nos alguma coisa? E, para surpresa geral, eu explicar: É que na segunda-feira foi Dia de São Valentim e lembrei-me de vos convidar para vos dizer que gosto muito de estar convosco e gostava que se lembrassem deste dia e, por isso, a caixinha de lembrança. E eles aparvalhados, sem perceberem se era partida, se eu estava perturbada, se quê... E depois todos a rirem um bocado a medo: Então vamos lá ver se o bolo é bom. E seria bom, bom de verdade. 

Uma coisa assim poderia fazer sentido. Sem fotografias, sem publicações, sem nada. Só a recordação. Bem... uma fotografia poderia haver mas apenas para os próprios, sem tretas de instagram ou facebook.

Mas, enfim, não vale a pena estar para aqui a inventar cenas. Comigo nem São Valentim nem São Querubim nem nada que se lhes pareça. 

(Já agora, num registo autobiográfico: o jantar deste dia de São Valentim foram restos e não houve música ambiente nem poemas. E o chocolate foi do usual, bem preto. Por acaso até comi um morango mas foi cortado aos bocadinhos e misturado com a salada. E, no entanto, o dia foi bom.)

* Lá em cima, falei em ascetismo. Mas não sei se usei a palavra certa. Poderia ser estoicismo. Mas talvez não seja isso. Acho que o ascetismo ou o estoicismo estão em patamares bem acima daquele em que me situo. Despojamento? Talvez. Ou talvez não. Gostava de já lá estar mas acho que também ainda lá não cheguei. Talvez simplicidade. Ou nada disso. Sei lá.


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Fotografias das Vogue russa, espanhola, italiana na companhia de Chet Baker com My Funny Valentine

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Quanto a algumas cenas amorosas do Dia de São Valentim dos outros aqui está uma selecção:

Fails With Benefits | Valentine's Day Couples Fails


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Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, novembro 22, 2021

Saudosista eu...? Ná...

 





Não tenho propriamente saudades. Tenho recordações. Saudades no sentido de querer voltar a viver, isso não tenho. Nem há nada que gostasse de voltar a viver para fazer o que na altura não fiz ou para repetir o momento. 

Se, agora que escrevo, tentar pensar em momentos bons que gostasse de reviver apenas me ocorrem instantes. Mas não seria bem reviver o que eu gostaria, seria mais estar de novo dentro daquele momento, agora que sei que aquele momento ficou retido no passado.

Por exemplo, eu teria uns catorze anos e houve uma gincana num fim de semana. Éramos pares e a prova incluía percurso de carro, depois eu saía e tinha que fazer tiro ao alvo, depois no carro aos esses, depois andar com um ovo numa colher, depois no carro a fazer peões. E o meu par, no carro, era um jovem bem mais velho que eu (na altura eu achava que ele era bem mais velho mas se calhar tinha uns vinte ou vinte e poucos) e eu achava-o um ás do volante e aquilo era muito renhido e nós estávamos empenhados em vencer e estava a correr-nos bem, eu entrava e saía do carro quase em andamento e era muito emocionante, ouvia gritar por nós e, no fim, ganhámos. E lembro-me de ter os cabelos compridos, soltos, e lembro-me que tinhas uns calções curtinhos e uma blusinha em azul turquesa com o desenho de malmequeres. E estava sol e eu lembro-me que, naquele instante, estava tão feliz e que pensei que ia sempre lembrar-me daquele momento.

Também me lembro do dia em que já era de noite, no inverno, os dias eram curtos, e estava um nevoeiro cerrado. Teria uns quinze ou dezasseis anos, estava sozinha, devia ter vindo daquela casa onde supostamente ir ter explicações mas em que, na realidade, ia pela tertúlia, pelo ambiente de liberdade e alguma clandestinidade que ali se vivia, e ia para a paragem de autocarro, apenas se viam vultos, eu estava um pouco assustada. E, então, um vulto cruzou-se comigo e disse o meu nome mas no diminutivo. E eu olhei e já não vi ninguém. E fiquei arrepiada, trémula, no frio e nevoeiro. E não me importava de voltar a estar ali para tentar perceber quem era aquele homem. Só por isso. E também pelo ambiente cinéfilo, um suspense materializado.

Lembro-me daqueles dias em Angola, tanto calor, tanta humidade, os meus cabelos fartos e compridos ao fim do dia sempre ainda mais pesados e húmidos. Ansiava pelo banho para poder limpar aquela humidade que se colava à pele e aos cabelos. Usava blusinhas cai-cai, quanto muito com uma fita que se atava atrás do pescoço. E ele -- que tinha um perfume que, na sua pele, se tornava afrodisíaco em contacto com aquele calor africano -- a olhar-me fixamente e a dizer que os meus ombros o deixavam maluco. E eu ria e dizia que ele tivesse juízo mas, lembro-me bem, o que eu queria mesmo é que ele não tivesse juízo nenhum. Ele tinha namorada em Portugal e eu também.  Talvez fosse bom voltar a esses dias. Mas seria só para observar melhor aqueles momentos em que, de verdade, senti o que era ser mulher e como era bom estar com um homem. Não quereria voltar a revivê-los nem daria largas à vontade forte que sentia de deixar correr sem qualquer preocupação pois sei que se isso tivesse acontecido talvez a minha vida tivesse seguido outro rumo e eu gosto muito do rumo que ela seguiu. Mas não me importava nada de nos ver naqueles longos e maravilhosos dias.

E lembro-me da manhã de um dia 10 de Dezembro, dia também húmido, Lisboa branca, envolta em neblina. O primeiro dia do resto da minha vida. Não queria reviver mas fotografá-lo, fotografar-nos, aos dois, envoltos num tule branco e molhado, naquele dia em que não conseguíamos parar a torrente de beijos nem separar-nos. Gostava de saber como nos viam aqueles que se cruzavam connosco porque nós não víamos nada, apenas tínhamos olhos e mãos e bocas um para o outro.

E, claro, lembro-me de mil instantes de mil ternuras, eu e os meus filhos, bebés, depois mais crescidos, depois adolescentes, depois adultos, depois a viverem as suas vidas, a terem os seus filhos, mil momentos de amor. Mas revivê-los não, apenas revê-los. Sonho é com os momentos que estão por vir.

Não sinto, pois, vontade de regressar ao passado para o reviver. Não. Só o futuro me interessa. Tenho é muita vontade de ser surpreendida pelos momentos que o acaso e a sorte têm para me oferecer. Que nunca me faltem os bons momentos para relembrar. Gostava de ter pela frente mais muitos mil instantes luminosos cintilando na minha memória.


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E que entrem as Avós da Razão para dizerem de sua justiça sobre o Saudosismo


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Fotografias feitas este domingo aqui em casa ao som de Autumn Leaves com o Chet Baker

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Desejo-vos uma semana feliz a começar já por esta segunda-feira

quarta-feira, junho 03, 2020

O que não se diz





Somos complicados, difíceis de descodificar. Eu, pelo menos, sou. Especialmente para mim. Por vezes faço coisas para as quais não tenho explicação. Algumas não tenho feito ultimamente. Outras, sim.

Aceitei. Do outro lado ouvi um suspiro. Senti que era de alívio. Depois a voz bem disposta. Quando acrescentei: 'Mas há condições...'. Um ui... e um pré-susto: 'Não...'. Sosseguei-o: 'Nada de transcendente'. Quando lhe disse quais eram as condições, tentou dissuadir-me. Dei luta. Mas a fase que se segue vai ser complicada, a fase de sair de um lado para mergulhar noutro. Isto se não houver obstáculos. O tipo de coisa para a qual não tenho grande apetência. Negociações em que sou o objecto da negociação. Mas, enfim, decidi o que queria: um salto no escuro. Um turbilhão. Podia recuar e ficar mais sossegada. Mas os turbilhões, o desconhecido e as grandes lutas atraem-me. Dizem que tenho punch. Dizem que tenho killer instinct. Talvez. Mas nada como o que já fui. Mas, volta e meia, ainda acorda em mim a vontade de. No outro dia, numa reunião, cilindrei um. Cilindrar é a palavra. Estrebuchou durante uns segundos, depois não teve hipótese. Mas não me arrependo. Se numa organização está meio mundo a querer ir em frente e a ver que o timoneiro os está a arrastar para o fundo do mar, vamos continuar a assistir passivamente? Vamos continuar a estar com paninhos quentes, a deixar que um navio inteiro vá ao fundo para não ferir a susceptibilidade de uma pessoa que, nitidamente, está ali por um absurdo erro de casting que ninguém ousa assumir? Eu acho que não. E acho que não é caso para grandes conversas, basta um sumário chega para lá. 

Mas isto para dizer que sei que, daqui em diante, mil vezes me irei perguntar porque é que me fui meter em tal empreitada. 


Tantas vezes isso aconteceu. É como a montanha russa. Morro de pavor. Grito feita doida. Quando estou lá em cima e parece que vou despenhar-me -- dizer adeus à vida, ser projectada a milhas -- pergunto-me porque me foi meter naquilo. E, no entanto, sabendo disso tudo, vou. Não fui muitas vezes. Mas fui. De cada vez, lá estando, arrependi-me e culpei-me e incompreendi-me. Mas, mesmo antecipadamente sabendo disso, fui.

E agora, de novo, é assim. Não é a primeira vez. Antes fosse. Mas não é. E, no entanto, a vontade, a secreta vontade que tenho, é que acelere. Que comece a subir, que suba até não se saber como será a descida.

Mas isto a nível profissional. A nível pessoal não sou assim. Sou mais de me afastar. Se alguém não me interessa, não perco tempo, não arranjo briga, não faço fofoca, não tento tirar razões. Não, dou um byezinho e fecho a porta. Ou se me apercebo que a pessoa é das tóxicas, das que se fazem amiguinhas, muito lovezinho, muito chamego, muita conversinha, mas que, na primeira curva, nos vão apunhalar pelas costas, que é gente sempre com o saquinho de veneno à espreita de ser derramado, então quero é distância, não gosto de bicho ruim, gente com costela de capeta. Ná. Fecho a porta e aqui não entra mais. E uma vez a porta fechada, para sempre permanecerá fechada, não há force majeure ou act of god que me faça abri-la.

Mas, no passado. Jovem. Coisas de que não me arrependo mas que não compreendo. Incomodam-me especialmente porque não encontro explicação.


Por exemplo, gostava muito do meu namorado. De um muito especial. Gostava muito. E ele de mim. Mas, para mim, aquilo ali era amor desproporcionado, era incondicional de mais. Não gosto que gostem de mim dessa maneira, é responsabilidade a mais. Às escondidas dele andava com vontade de um bocado de mau caminho. Queria contestação, queria luta, mano a mano, corpo a corpo. Não gosto de altar, muito menos de estar nele. Então, um dia, acabei. Acabei. Indiferente ao seu sofrimento, saturada de tanto amor, danada por me perder, acabei com ele. Não quis saber de 'dar tempo', não quis saber de dar explicações. Queria apenas acabar. E acabei.

Ninguém percebeu: namoro tão bonito. Quem é que vira costas a um tamanho amor? Censurada. Incapaz de explicar. Parecia futilidade, leviandade. Paciência: que parecesse. E senti-me livre, feliz da vida. Dias depois, caí em mim: 'O que é que fui fazer?'. E parecia-me uma estupidez. Pensava: 'Onde é que alguma vez na vida vou arranjar quem goste tanto de mim assim?. E pensava nele, certamente triste. Então, fiz uma coisa completamente absurda, inexplicável. Nessa altura não havia telemóveis. Sou do século passado, já devem ter percebido. E havia, nesses idos, uma coisa que, certamente, já acabou há vários séculos: o telegrama. Ou seja, deu-me um ataque de arrependimento e romantismo -- e enviei-lhe um telegrama, dizendo que o amava e a marcar encontro com ele num certo jardim. Mal o telegrama seguiu, arrependi-me logo: 'Caraças, que é que fui fazer...?'. Mas no dia aprazado lá estava. Quando ele me viu, avançou a rir, feliz, e eu para ele, atormentada com a minha incoerência, mas ele abraçou-me feliz, beijou-me, e eu deixei-me abraçar, deixei-me beijar. E, certamente, retribuí. E, no entanto, desde sempre eu soube que ele não era o que iria tirar-me o chão, impedir-me de estar em qualquer pedestal, desorientar-me, desarmar-me. Lembro-me bem da felicidade dele nesse dia. E eu não é que não estivesse feliz. Se calhar até estava. Mas sabia que, no fundo, no fundo, tudo aquilo era um equívoco e que chegaria o dia em que o faria sofrer a sério, de forma irremediável.


Se recordo isto é porque, na minha cabeça, ficou registado como uma coisa que eu preferia que não tivesse acontecido. E, no entanto, vivi dias bem passados e sei que ele, nesse tempo, foi muito feliz. E depois como saberemos nós o que vai acontecer-nos no futuro? Como saberemos se viremos a lamentar fazê-lo? Quem nos diz que não lamentaríamos mais se não o tivéssemos feito? Como saberemos que o que, para nós, no nosso íntimo, é uma situação dúbia, não é um momento de inesquecível felicidade para outra pessoa? E não será isso mais importante do que a dúvida para sempre a ferroar-nos a consciência? Não sei.

E agora acho que isto são coisas que não interessam para nada. A sinceridade extrema é boa para nós próprios, para a guardarmos para nós. Por vezes podemos partilhá-la. Outras vezes é melhor para toda a gente que guardemos as verdades profundas -- e isso apenas para um dia mais tarde, se quisermos, podermos avaliar, em consciência, se fizemos ou não a melhor escolha.

Amar pode ser, por vezes, à falta de melhor opção, o prazer de nos sentirmos amados, a vontade de que dê certo. E depois pode acontecer que, um dia, surja a oportunidade de darmos um pontapé nisso tudo e irmos à aventura, correr todos os riscos, experimentar o sabor único da sensação de nos estarmos a apaixonar. Mais uma vez. Como se fosse a primeira.
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Deliberadamente evito falar do que me sufoca. Alieno-me deixando que os dedos me afastem da asfixia que sinto, que a maioria de nós sente, ao ver os riscos que a democracia corre, ao ver o pouco que os humanos evoluíram, ao ver o que se passa à nossa volta. Deixei que a música e as imagens que a acompanham me levassem pelos caminhos da memória. É um lugar mais seguro que as ruas da realidade.

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As fotografias são de Doan Ly e acho que vão bem com Till Brönner -- que me foi dado a conhecer por uma pessoa a quem muito agradeço -- que aqui interpreta When I Fall in Love do album Chattin With Chet

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A todos desejo uma boa quarta-feira. 

segunda-feira, junho 01, 2020

A decoração da casa dos pobrezinhos que é capaz de ser o menor dos males nisto do corona.
E a bela casa de Nina Campbell (que nada tem a ver com o assunto).





Isto dos signos é coisa estúpida, sem qualquer explicação científica que lhe valha. Vai contra tudo aquilo em que acredito: não assenta em nada que consiga explicar-se, não faz sentido sob qualquer perspectiva. E, no entanto, ao que parece, estatisticamente as pessoas revêem-se nas descrições e nas previsões. Pelo menos foi o que li num livro escrito por matemáticos que se dedicaram ao estudo do fenómeno. 

No meu signo diz que sou dada a tudo o que na realidade sou. E uma dessas coisas é a casa. Sou muito dada à minha casa. Sou muito sensível a casas.

Se há coisa que me faz muita impressão é estar numa casa que me parece escura, triste, sem alma, imprópria para acolher pessoas. Se entro numa casa assim, não consigo abstrair-me do que eu faria se pudesse. As pessoas falam comigo e eu com elas e, em background, estou a pensar: este conjunto de móveis escuros, sofás escuros e quadros pendurados junto ao tecto é mais do que suficiente para quem aqui vive sofra de depressão profunda. Ou olho para uma casa toda neutra, incolor, desprovida de graça e penso: eu punha aqui umas almofadas em turquesa e, naquela mesa de apoio, uma jarra em azul profundo com uma flor única, alta, em bordeaux indecente. E um espelho naquela parede a reflectir a luz da rua. Mas não digo nada, não quero perturbar a inércia e a propriedade de quem lá vive.

Mas porque sou assim, dada a decorações e a intuições, ainda mais me custa saber as condições dos que vivem quase sem dinheiro para comer quanto mais para frescuras. Casas pobres, precárias, quartos tristes e alugados, camaratas em que apenas interessa que o corpo possa descansar, ou a pobreza humilde que disfarça as dificuldades ou a pobreza remediada que vê o facebook e o instagram e gostava de ser e ter igual mas o que sobra mal dá para um verniz, uma blusinha. 

Dizer isto é mera conversa e mesmo que, por dentro eu sinta que não é mera conversa a verdade é que, de facto, é mera conversa. Conversa que não produz efeito é conversa deitada fora, ociosa, fútil.

Falo de barriga cheia.

E não vale a pena armar-me em irmãzinha da caridade que, em vez de orações, distribui bibelots e conselhos de decoração. Mas o facto de nada disto, na verdade, não fazer sentido não anula o facto de que  a verdade é que, quando ouço nos novos focos de contágio, penso nas condições em que vivem aquelas pobres pessoas. Muitos são imigrantes, muitos são simplesmente pobres. E ser pobre deve ser tudo menos simples. Portanto, dizer que alguém é simplesmente pobre é uma coisa que é simplesmente estúpida.

E eu só espero -- e nada mais posso fazer do que esperar -- é que os muitos milhões que virão dos apoios para recuperar a economia sirvam para trazer um pouco mais de dignidade às pessoas mais pobres, às que vivem amontosadas, às invisíveis que mantêm o mundo a funcionar quando os outros se recolhem para se proteger de contágios, às que não conseguem constituir família ou, se o conseguem, mal conseguem acompanhar o seu desenvolvimento, quanto mais pensar na decoração da sua casa.

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O meu domingo foi descansado, tirando a parte de ir ao supermercado e à loja das ferramentas. O dia esteve cinzento mas bom. Há bocado, estava a ver umas coisas do trabalho, depois a ler blogs, e, por fim, fui ver o Youtube. Apareceu-me um vídeo e gostei muito de vê-lo. Gosto muito da casa que aqui se mostra. Podia ser a minha casa. Gosto da Nina Campbell. Se a conhecesse o mais certo era dar-me bem com ela.


E, no entanto, é nas pessoas dos bairros da periferia que agora merecem a preocupação de quem se ocupa das coisas da saúde pública que eu penso enquanto vejo o vídeo. No sábado, quando estava a vir de casa da minha mãe, passámos por uma carrinha, daquelas de muitos lugares (oito? nove? mais?). Era branca e ia cheia de homens jovens, quase todos negros. Iam apertados nos seus lugares. Todos sem máscara. Era sábado à tarde, deviam vir do trabalho. O mundo é um lugar perigoso para o ser humano, em especial para alguns seres humanos.



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As cores e as fleurs que aqui apareceram não são du mal, são do bem. Pretendem trazer alguma luz a um tema que me ensombra o coração. Pintou-as Monet.

Chet Baker canta Almost Blue.

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Uma boa semana para todos

domingo, maio 10, 2020

No dia em que um bárbaro anão a cavalo no seu pequeno pónei e duas anãs órfãs apareceram na minha sala





Choveu. Esteve ventoso e frio. Mas à tardinha abrandou, veio um pouco de sol, deu para passear um pouco. Aliás, a meio da tarde, durante um pouco, o sol chegou-se à sala e a minha filha foi sentar-se lá fora, numa pedra, a ler e eu abri as portas de vidro para que os meninos brincassem como se estivessem na rua. Coloquei uns tapetes para que não estivessem sentados ou de joelhos na tijoleira e ali estiveram, entretidos, a montar exércitos com bonecos do playmobil. Eu, que estava perdida de sono, deitei-me no sofá grande na esperança de um retemperador cochilo. Mas não deu, estava sempre a rir-me com as coisas que os ouvia a dizer. 


Como geralmente acontece, acabaram a disputar os bonecos um do outro. Às tantas um queria um cavaleiro e o outro, para desvalorizar o objecto da cobiça e dissuadir o irmão, perguntou 'mas para que o queres? não passa de um bárbaro anão montado num pequeno pónei...' ao que o irmão mais novo, eterno sacrificado, respondeu: 'não é nada, é um cavaleiro de verdade'. Passado um bocado, a mesma coisa, o mais novo a querer uns que o irmão tinha. Que não, nem pensar, não podia dar. Em contrapartida podia dar-lhe umas 'anãs orfãs'. Olhei. Eram umas figuras femininas de facto mais pequenas do que as outras e que aparentemente não faziam parte daquele grupo. Com estas coisas, a dar-me vontade de rir a toda a hora, passou-me o sono. 


Andam todos contentes. O mais crescido, de vez em quando, do nada, vem abraçar-se a mim. Meu menino lindo.
Não falta muito para estar da minha altura. Numa das fotografias da cómoda aqui do quarto está ele, sentado, ainda mal se aguentando sozinho, casaquinho de malha, bebé fofinho e, desde sempre, sorridente e bem disposto. 
Devia estar com saudades, deve estar contente de aqui estar. A minha filha disse que o mais novo lhe disse que estavam a ser as melhores férias de sempre. Ela explicou-lhe que não são bem férias já que estão com escola e ela e nós a trabalhar. Mas não interessa, se a ele lhe parecem férias, e das boas, ainda bem, é porque são.


Da casa do meu filho chegam fotografias do belo pão que por lá se faz, vê-se e até parece que cheira a pãozinho quente e bom, desta vez feito também com farinha de aveia, escreveu a minha nora. E também fotografias dos belos acepipes que por lá se confeccionam. O mais pequeno, três anos feitos quase em vésperas do mundo virar outro, volta e meia, durante o dia, liga-nos. Quer saber onde estamos, o que estamos a fazer, o que vamos comer. De tarde, a mana estava a jogar e  mano estava furibundo à espera que a mana acabasse para jogar ele a seguir. Perguntei-lhe: 'E os pais?'. Disse que estavam lá em baixo. Nem sei se sabem as chamadas que ele nos faz. Liga para o grupo 'família' e, portanto, recebemos a chamada ao mesmo tempo. Hoje, quando a ligação ficou instável e, por um instante, deixámos de ouvi-lo, diz ele, a seguir, à tia: 'Ficaste sem rede'. Parece que nada neste novo mundo representa qualquer mistério para ele. Tem três anos e já sabe o impacto da deficiente cobertura de rede.

À noite, quando falávamos de novo, eu estava encostada à minha filha para aparecermos ao mesmo tempo na imagem e os meninos estavam atrás de mim, abraçados a mim, um com a cabeça no meu ombro e outro com a cabeça colada à minha do outro lado. O meu marido, na ponta da mesa, disse apenas: 'Distanciamento social'. Rimo-nos. A minha filha disse: 'Pois...'. Eu já sabia que não seria capaz. Nem um minuto durou. Só tenho pena de, no domingo, não ter abraçado os outros tr~es. Mas naquele dia, pelos contactos todos que tínhamos tido e, apesar de termos ido a casa tomar banho e mudar de roupa, foi prudente. Nas tenho umas saudades danadas de também os abraçar.


Voltei a não conseguir pegar num livro. Tenho sempre qualquer coisa para fazer e, quando paro, dá-me sono. E, uma vez mais, não vi quaisquer notícias. Fomos dar uma voltinha lá abaixo por volta das seis e o meu marido quis regressar a casa para ver as notícias na rtp3 pois disse que, senão, voltaria a não conseguir vê-las. Mas nem lhe perguntei o que há de novo. Provavelmente tudo na mesma.

Temos estado a ver coisas da Netflix no computador da minha filha. Estive também com ela a escolher coisas para vermos nos próximos dias. O meu marido também viu algumas e há bocado disse-me que, se calhar, era coisa boa para também termos, em especial quando aqui estamos. Na volta... Dizia-se aquela coisa de 'qualquer dia ainda fuma...' e eu, por este andar, 'qualquer dia ainda me ponho no facebook...'. Modernices. Ah, que vontade de rir me dá isto tudo.

O bebé disse que de tarde tinham ido dar um passeio a uma floresta. O meu filho depois contou onde foi. Não seria exactamente uma big floresta mas foi uma mudança de ares. É bom passear. Sinto vontade de passear. O nosso país é tão lindo, tem terras tão lindas. Penso que conheço muito mas a toda a hora descubro lugares onde nunca estive. Só que agora não sei quando poderemos voltar a ir por aí, em turismo. Só se tivesse uma caravana. Muitas vezes isso esteve em cima da mesa mas nunca nos deixámos convencer. Mas agora seria uma solução para podermos fazer turismo. 

Enfim. Sonhar não custa.


Quanto ao resto, a vida continua

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As fotografias foram feitas esta tarde e 
I get along without you very well foi o Chet Baker quem disse, não eu

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Um bom dia de domingo

segunda-feira, abril 16, 2018

Lisboa, a bela, com espelhos, árvores, gentes e pássaros





À noite afasto-me de guerras encenadas sobre cidades destruídas. A minha capacidade de ouvir comentadores falando sobre meias-verdades ou sobre suposições mal fundamentadas está no limite. Expliquei no post abaixo porque não falo nestes ataques dos 'aliados' sobre a Síria. Mas não falo só porque não sei mas porque há nisto muito ruído e eu não gosto de juntar a minha voz desinformada ao ruído de tanta gente que opina sobre tudo e sobre nada. Muito menos consigo ouvir falar de futebol. Um horror, isto, tantos homens maçadores a falarem de futebol, um enjoo, uma saturação. Ou sobre disputas verbais com pés de barro desenvolvidas apenas para eleitor ver, também não consigo. Catarina Martins, Mariana Mortágua, Daniel Oliveira ou outros que tais parecem-me, agora, quase infantis na defesa acrítica de argumentos atirados para a praça pública pela imprensa desqualificada ou por uma oposição anémica. Nisto, o PCP tem mais noção do rigor mas, deus meu, continua preso a uma agenda sindicalista enraizada num tempo que já era. Passo. E, no meio da encenação que por aí vai com os que estão à esquerda do PS a tentarem arranjar casos para fazerem ouvir a sua voz a fim de conseguirem mobilizar a malta para o 25 de Abril que aí está, aparece-me o Marcelo -- que vai tentando alisar o tom das pseudo-discussões -- e, de cada vez, de seu sítio. Ora fala a partir de França, ora do Egipto, ora a partir de Madrid. Uma loucura.


Como falei no post ainda mais abaixo, de tarde estive em casa dos meus pais com parte da descendência, entre lanchinhos bons, flores e limões. Tarde boa. 

Mas, antes, a manhã foi de passeio. Passear sem propósito, deambular, flâner

Lisboa, a bela, belíssima. 

E eu sempre fotografando, sempre olhando a perspectiva florida (e colorida) das coisas. Engraçado como, perante um qualquer espaço, o meu olhar é sempre primeiramente atraído para o que se sobrepõe, para as camadas de vida e de realidade, contrastes, perspectivas pouco óbvias -- e, nesse permanente espírito de rêverie, passo, por vezes, ao lado da realidade mais banal.
Acontece-me andar nisto e ficar, depois, surpreendida quando me chamam a atenção para 'coisas' incontornáveis que toda a gente viu (menos eu).
É que o que eu vejo é aquilo para que os meus olhos são atraídos. Beleza, leveza, intemporalidade. 


Podem ser árvores que parecem filigrana branca, outras floridas, graciosas, em frente de um edifício moderno, espelhado. A elegância da natureza em harmonia com a elegância da arquitectura moderna.


Pode ser a leveza da água saltitando sobre os degraus forrados a azulejo de um fontanário moderno conjugada com a leveza dos ramos de uma árvore grande e muito bela.


Podem ser os verdes e os cinzas de árvores quase etéreas flutuando no espaço em frente do alto edifício feito de transparências azuis. 

Tudo isso me atrai, me encanta, me emociona. Quero gravar na memória o que os meus olhos vêem. Ando devagar, olhando em volta, descobrindo o que já vi mil vezes. Tudo novo, lindo como nunca antes vira. Tenho talvez cinco anos, talvez dez, e estou a descobrir um mundo maravilhoso. Vou de mão dada, olhando para cima, para o vasto e belo mundo que me rodeia. 

Depois vou para a beira do rio. Olhar as águas sereníssimas, olhar com vagar, com deleite. Olhar e pensar em coisas boas, olhar, apenas olhar e sentir.

Um olhar de bicho. 

Olhar como o pássaro que medita e respira a plenos pulmões no meio das águas, penas ao vento, coração ao alto.


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