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terça-feira, dezembro 31, 2013

Os pequenos acasos. Por vezes mudam o rumo de uma vida (e recordo um episódio da minha adolescência), outras acabam por dar origem a desastres de incalculáveis proporções (e lamento que o mea culpa de Filipe La Féria infelizmente chegue tarde demais)


Toda a nossa vida é uma sucessão aleatória de acasos.

A cada momento poderíamos optar por uma miríade de opções mas seleccionamos apenas uma delas.

Mesmo que não optemos e deixemos que a vida aconteça por si, isso, em si, já é uma opção.

Durante esse nosso percurso, cruzamo-nos com outras pessoas que identicamente elegeram um conjunto de opções e, no cruzamento de todas elas - que, vistas em perspectiva, são uma vasta manta de aleatoriedades - acontecem desencontros fatais, encontros extraordinários, ou nada.

Quando eu era uma fogosa adolescente e namorava um ainda mais fogoso jovem rebelde, soltavam-se faíscas de toda a espécie a todo  momento. Por vezes, acontecia mergulharmos num mar de paixão e doce harmonia mas, outras, desencadeava-se um estrilho hecatombico.

Mas estes últimos eram sempre sol de pouca dura. Geralmente, quando os nossos olhares se voltavam a cruzar, desaparecia instantaneamente o problema e, acto contínuo, a guerra que parecia insuperável tinha desaparecido sem deixar rasto.

Excepto quando um dia nos zangámos no último dia de aulas.

Separando-nos sem combinarmos nada para o dia seguinte - e orgulhosos como ambos éramos - nenhum quis dar o braço a torcer. E, longe um do outro, aquela cena do olhar que pacificava qualquer desmando deixou de poder acontecer.

Sofri horrores e ele também. Amigos comuns relatavam o sofrimento lancinante um do outro mas nenhum amigo nos demoveu de nos mantermos casmurramente na nossa. Ele achava que eu tinha 'dado bola' a outro que estava apaixonado por mim e o demonstrava publicamente e eu achava que não era por o outro se declarar apaixonado por mim que eu me ia afastar dele (tanto mais que esse tal me fazia belas canções e tinha uma bela voz e eu gostava de o ouvir. O facto de as canções serem sobre mim e me serem dedicadas era coisa que não me incomodava e se o incomodava a ele, era problema dele, não meu).

Mas o pior foi um acaso que decidiu todo o desfecho do grande romance de amor que nos unia. Sou míope e vaidosa. Ou seja, nunca usei óculos (excepto por um breve período em que usei lentes de contacto ou quando conduzo ou vou ao cinema). Tirando isso, tiro umas pelas outras. Se conheço uma pessoa e estou à espera de a ver num dado sítio, pelos contornos consigo reconhecê-la. Mas se não vou atenta a isso, não vejo. Acontece que, por ser míope e saber que não vejo com nitidez, desabituei-me de prestar atenção a pormenores, nomeadamente a prestar atenção ao que os outros vestem ou deixam de vestir ou, sequer, a olhar para eles com olhos de ver.
Com a idade, estou a ver cada vez melhor. A miopia tem a ver com a forma do globo ocular e que é o oposto do que acontece quando se tem a vista cansada. Ou seja, a idade vai achatando o globo ocular e, portanto, a miopia vai sendo reduzida (acho que é isto, que não estou baralhada). Ou seja, agora até quase que já nem preciso de usar óculos. 
Mas, na altura, via pior do que vejo hoje e, portanto, o que aconteceu é que num desses dias de férias em que estávamos zangados, nos cruzámos numa rua. Ele contou aos amigos que eu o vi e que não liguei patavina, que segui como se ele fosse um nada. Ora eu não o vi. Posso ter olhado mas não o vi. O facto de não lhe ter ligado patavina foi para ele uma ofensa e uma declaração de indiferença. Ou seja, mais razão isso lhe deu para não se reaproximar. Eu, como ele não se reaproximou, fiquei furiosa e, temperamental como sou, já que era assim, então, se tinha a fama, ia ter também o proveito e,  vai daí, comecei a namorar  o outro. Tinha na minha que o meu amor rebelde ia ficar despedaçado, pedir-me para largar o outro e voltar para ele. Mas ele não fez o que eu esperava: vendo-me a namorar o outro, achou mesmo que eu já não gostava dele. Parvo.

Resumo da história: eu prossegui com um namoro que não tinha futuro e aquele que eu amava, um aluno excelentíssimo, para não me ver de namoro com outro, deixou de ir às aulas, perdeu o ano por faltas, meteu-se em sarilhos, uma chatice. 

Enfim, não vou aqui enumerar tudo o que nos aconteceu a seguir mas volto atrás para dizer que tudo aconteceu porque me cruzei com ele e não o vi. Se o tivesse visto e tivesse esboçado um gesto que fosse, a coisa tinha-se resolvido logo ali como antes tudo de resolvia com um simples olhar.

Uns dois anos depois, namorava eu o tal poeta cantor, numa sala cheia com centenas ou milhares de pessoas, eu sentada no parapeito de uma janela, cruza-se o meu olhar com o de um cristo atlético que eu nunca antes tinha visto e novamente, devido ao acaso desse outro cruzar de olhares, a minha vida deu nova reviravolta.

Mas vem isto a propósito de quê?

Música, por favor




Pois é: vem a propósito da nega que La Féria deu a Passos Coelho quando, em 2002, este queria apenas ser artista de vaudeville e entrar num musical do Politeama. Explica Filipe La Féria numa engraçada crónica no DN que andava à procura de um tenor para o My Fair Lady e que lhe apareceu um sujeitinho, Passos Coelho, com voz de barítono.




Entre muitos concorrentes à audição, apareceu Pedro Passos Coelho de jeans, voz colocada, educadíssimo e bem-falante. 

Era aluno de Cristina de Castro, uma excelente cantora dos tempos de glória do São Carlos que tinha sido escolhida por Maria Callas para contracenar com a diva na Traviata quando da sua passagem histórica por Lisboa. 

As recomendações portanto não podiam ser melhores e a prova foi convincente. Porém, Passos Coelho era barítono e a partitura exigia um tenor. 


Foi por essa pequena idiossincrasia vocal que Passos Coelho não foi aceite, o que veio a ditar o futuro do jovem aspirante a cantor que, em breve, ascenderia a actor protagonista do perverso musical da política. 



Se não fosse a sua tessitura de voz de barítono, hoje estaria no palco do Politeama na Grande Revista à Portuguesa a dar à perna com o João Baião, a Marina Mota, a Maria Vieira, e talvez fosse muitíssimo mais feliz.

(...)


Acrescento: ele e todos nós.

Fosse o tom de voz do ex-doce o de tenor e do que nós nos tínhamos livrado... Ou se o La Feria não fosse tão picuinhas, sei lá.

E isto, repare-se, passou-se em 2002. Pouco tempo depois, este artista, rejeitado pelo La Feria e por segunda escolha, optou por deixar-se usar pelo Relvas e bloggers amigos para correr com a Manuela Ferreira Leite e a seguir inventar um conjunto de aldrabices que serviram para dar cabo da reputação de Sócrates. 

Deu nisto: sem competência para pisar o palco do Politeama, como se esperaria que soubesse gerir um país? Desde meados de 2011 que a criatura anda a espatifar o país. 

2013 a chegar ao fim e ainda anda por aí. O Cavaco nem a competência do La Feria teve, que esse correu com ele.




A esta hora, como diz La Feria com montes de piada, podia ele andar a bater perna nos palcos do Politeama, na galdeirice com o Baião e com a Marina Mota e, em vez disso, andamos nós a 'comer com ele', com este verdadeiro atraso de vida.

Pouca sorte a nossa. 

***

[Acabo de ler o comentário do Leitor jrd dois posts abaixo em que ele revela ser mais optimista que eu pois preconiza que o ex-doce ainda vai acabar num qualquer Cabaret da Coxa ou num Reality Show. Tomara que acerte, jrd. Até que eu gostaria de o ver com a Bibi ou a Joaninha em cima, quiçá com as mamocas da Érica nas mãos quando a esta lhe dá para fazer striptease]

Mas que fosse no Politeama. 
Ora vejam, imaginem: está certo que ia estragar a festa, mas não seria preferível lá do que onde está agora?




**

As fotografias foram obtidas na internet. Algumas publicitam os espectáculos, de outras não consegui descobrir a sua proveniência original
E, por agora, por aqui me fico. 
Durante o dia ou, pelo menos, antes da meia noite, virei aqui para vos desejar um bom 2014.

Até lá, até à meia noite, vamos mas é curtir. 
Se 2013 foi uma porcaria, que, ao menos, o último dia seja uma festa. 
Be happy!