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segunda-feira, setembro 13, 2021

Um dia normal da minha vidinha, um dia triste para o País

 


Saímos muito tarde do campo. Só vi as imagens da cerimónia de adeus a Jorge Sampaio à meia noite ou quase, nem sei. Momentos muito dignos e muito emotivos. Do que vi, em especial nas palavras dos filhos, pareceu-me que houve uma autenticidade e uma clareza que honraram a memória de Jorge Sampaio não apenas enquanto figura pública mas também enquanto pai, certamente um pai muito querido.

Vi ali uma dimensão superior que não é muito habitual. Parece que, de repente, se sentiu uma convergência no sentido de uma escala de altos valores morais, éticos, cívicos, bem acima das pequenas irrelevâncias que parecem corroer o quotidiano da vida social e política em Portugal.

A organização do espaço, um certo distanciamento a que a covid obriga, a contenção e, ao mesmo tempo, a emoção que perpassava por todos parecem ter contribuído para que a despedida a Jorge Sampaio tivesse sido um momento ímpar.

Perante estes momentos e perante a saudade que ele nos deixa, pouca vontade tenho de falar das minhas coisinhas. 

Mas a vida da gente é também a vida de todos os dias, a vidinha, a nossa vidinha. E este blog é apenas o despretensioso canto para onde venho ao fim do dia para descansar a cabeça. 

Por isso, apesar de sentir o peso emocional da partida de um homem bom que era uma referência da defesa da democracia, da liberdade, da inclusão, do respeito pela dignidade e do direito ao futuro, vou escrever algumas palavras sobre o meu pequeno dia.

Arranjámos duas pequenas plataformas com rodinhas e porque devo ser casada com um hércules de verdade, ele conseguiu levantar o bisonte em peso enquanto colocávamos as ditas plataformas por baixo. E assim, com o bisonte montado num carrinho, levámo-lo caminho afora até à casinha das ferramentas. 

Só que cometi um tremendo erro. Estava incumbida de medir o animal e a porta da casinha por onde deveria entrar. Concluí que passaria à justa. Contudo, lá chegados, percebemos que qualquer coisa não estava bem. Medi o corpo do animal e porque à vista desarmada se via que a base e o tejadilho eram mais largos, medi o que estava mais à mão: a base. Só que, hélas, o tejadilho tem mais dois centímetros que a base. Portanto, missão abortada.

Uma vez mais o meu marido tinha uma solução: desfazermo-nos do pouco-amado guarda-fatos. Mas eu não desisto assim tão facilmente. 

Pensei, então, em colocá-lo no quarto do estúdio. Para isso, ter-se-ia que retirar o pequeno roupeiro que lá estava, o que era do quarto da minha filha quando era miúda, que iria, esse sim, para a casa das ferramentas. 

E foi o que fizemos. Foi uma empreitada pesada, a la Ilha de Páscoa. O meu marido, sempre com medo que me dê algum fanico, está o tempo todo a mandar-me não empurrar, não levantar, não puxar, não fazer força. Por isso, para além de empurrar, levantar, puxar, carregar, estou sempre a ser impedida de fazer o que me apetece ou, pior, a ser admoestada.

Mas fez-se.

A arca, a famosa arca, está a esta hora na mala do carro. Tivemos que rebater os bancos. Agora era tarde e estávamos exaustos e cheios de fome, já não deu para tirá-la do carro.

De lá, da arca dos mil tesouros, saiu um grande e quentinho cobertor, vários naperons de renda e lá continuam lençóis e toalhas e renda e bordados, parte dos quais, provavelmente, do enxoval de tias há muito falecidas.

Entretanto o 'tasker' que ia montar o roupeiro no nosso quarto e outas insignificâncias e que estava escalado para as dez da manhã, apareceu às cinco da tarde. E, em vez de trazer um ajudante, apareceu sozinho. Portanto, em desespero de causa, o meu marido acabou a montar sozinho duas das peças cuja montagem pagámos ao tasker e, ainda assim, acabámos por sair de lá à hora a que deveríamos estar aqui, banhos tomados, jantares despachados. Um desespero.


Antes de sairmos ainda lavei o chão das divisões por onde o artista andou e arrumámos parte das roupas no novo e alvo roupeiro. Mas a casa ficou longe de ficar bem arrumada. Não gosto nada de sair e deixar a casa sem ser como gosto de vê-la ao regressar: tudo limpinho e arrumadinho. Mas estávamos cansados, com fome, com a viagem pela frente. Coração ao largo.

Mas o quarto está outro. Parece que cresceu. E é agora um lugar de serenidade e leveza. A diferença que faz ter as divisões com móveis escuros ou com móveis claros. A nossa disposição, queira-se ou não, ilumina-se. Acho que o guarda-fatos, que agora navega noutras paragens, não vai escapar a, um dia destes, ser pintado de verde claro ou de cor-de-rosa suave, pó de giz (quiçá até às cores).

Sobre duas das pequenas outras peças que vieram para além do roupeiro falarei noutro dia: cada uma tem um uso atípico e, diria, algo arriscado. Mas não digo nada. Talvez mostre fotografias daqui por uns dias.

Esta segunda-feira retomo a rotina pré-férias e talvez consiga ter uns dias mais descansados. Não sei se posso dizer que tive férias mas, nestas coisas, é mesmo assim: cada um tem aquilo que merece.

E, por ora, é isto. 

Ah, só mais uma coisa: ao telefone com a minha mãe, disse-me ela com voz embargada, certamente com os olhos cheios de lágrimas: 'Se o teu pai ainda fosse vivo, fazíamos hoje...' Interrompi-a para ver se não rompia mesmo em pranto: 'Eu sei, faziam anos de casados'. Sinto muita pena por ela, por saber que fica triste por não tê-lo cá para festejar com ela.


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Pinturas de Lucien Freud e uma fotografia dele, em plena acção. Jack Johnson interpreta Gone com Ben Harper

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Uma semana feliz a começar já por esta segunda-feira

segunda-feira, agosto 23, 2021

Quando a casa é o lar

 


Fomos para o campo. De caminho, satisfiz uma vontade com que andava há algum tempo e que me era contrariada desde sempre: comer um menu do McDonald's. Não sei se dá para imaginarem a birra que o meu marido fez. Contudo, não tinha comida feita para levar e não estava a ver ir com comida congelada para lá chegar e estar a cozinhar, isto com tanto que fazer. Nem estava a ver onde ir comprar comida feita àquela hora. E, para mais, as saudades com que eu andava de um daqueles hambúrgueres. 

[E se ainda dúvidas houvesse em relação a mim ou em relação à questão filosófica de que ninguém é perfeito, aqui têm a prova.]

O diabo é a falta de cultura da coisa. Lá chegados, aquilo tudo modificado. Segurança à porta, mesas apenas na esplanada. E cartazes a dizer o que há  ou aquele placard que havia dantes atrás dos empregados, népias. Uma falta de referências e coordenadas que não se deseja. Só, em imagens deslizantes, as novidades. Mas os clássicos, os extras, nada. Pensei: na volta isto também já só lá vai com app. Mas, claro, não tenho cá app do McDonald's coisa nenhuma. Portanto.

O meu marido ficou cá fora, que para ele podia ser de frango. Cá para mim, ele acha que, sendo de frango, é mais saudável do que se for de vaca. Eu, nestas coisas, não acho nada, sou agnóstica pura. Portanto, meio às cegas, sentindo-me quase labrega, encomendei os que estavam a passar: o Rustic Chicken com mostrada e mel para ele e o Smoky Alabama para mim. Quase a medo, perguntei se, em vez de batatas fritas, poderia ser uma salada. Dantes podia. A menina disse-me que sim. Vá lá. De bebida, trouxe água. Tudo num saquinho. O meu marido reage mal a estas coisas. Para ele isto é sinónimo de que estamos a bater no fundo, vir com um saco com dois menus do McDonald's em take away. E eu desejando era de chegar a casa para papar o meu Smoky Alabama.

Com tanta fome deveria estar que não protestou enquanto o comeu. Cá para mim, comia era mais um. No mínimo. Mas, já se sabe, não quis dar parte de fraco. Eu também gostei do meu. E da saladinha também. E fiquei bem.

E ainda não contei tudo.

Desde que para cá viemos, tinha vontade de ter uma mesinha branca, metálica, com duas cadeirinhas idênticas. Ora não encontrava nada assim, como imaginava. Acontece que, no outro dia, num daqueles armazéns chineses que têm tudo e mais um par de botas, vi um que não teria um design tão romântico como eu desejaria mas que, enfim, andava por lá perto. Claro que a perspectiva de ir comprar mobiliário para o jardim a um armazém chinês deixa o meu marido fora de si. Não quer, diz que não precisamos, diz que não gosta, diz que não está para carregar com aquilo, diz que eu esqueça, que não vai, que só eu para me ir enfiar num chinês (salvo seja -- digo eu) para comprar coisas para o jardim. Mas tanto insisti que lá fomos. Furioso, quase sem me falar. 

Não alimento quezília. Não quer falar, não fale, é um direito que lhe assiste.

Um preço muito razoável, especialmente quando comparado com afins (mas não tão bonitos) das lojas mais clássicas. Trouxemos. Aquilo desmontado, uma caixa que pesava para burro. Quando vi a caixa, pensei que ele reagisse pessimamente, que dissesse que a levasse eu para o carro e a montasse eu. Mas não, furioso mas zangado demais para falar. Fomos o caminho quase todo sem falarmos. Eu cheia de sono e sabendo que, se abrisse a boca, era só para ouvir acusações e queixas. Portanto, caladinha.

O que valeu foi que, depois de comer o rustic chicken parece que ficou mais bem disposto. E depois deitámo-nos ao trabalho e a zanga passou.

Para se pintar a cómoda e as mesas de cabeceira teve que se esvaziar tudo. A roupa em sacos, no estúdio. E lãs de tapetes de arraiolos que estavam num cesto, tudo no estúdio. Bibelots, livros, almofadas, mantas, mantinhas, tudo no estúdio. Uma barafunda.

Agora tem sido escolher, deitar fora o que não serve ou que já não está bom. A minha roupa da cómoda ou da minha mesa de cabeceira, depois de expurgada, foi toda arrumada como deve ser. 

A meio da tarde, ele disse que andava ele no trabalho pesado e eu a brincar, armada em Maria do Ku. Ao princípio nem percebi mas depois atingi: Marie Kondo. Sim, arrumei a roupa toda dessa forma. Muito melhor. 

Convenci-o também a voltar a pôr uma prateleira de parede que, no outro dia, por engano, tinha dito que não queria, tendo ele tirado parafusos e buchas. Para este pedido, fui um bocado a medo, confesso. Mas, afinal, já estava melhor humorado: já lá está posta e os livros arrumados. 

Não sei se contei que, no outro dia, aconteceu um desastre: a mesa da sala de jantar, a tal que é de origem, proveniente ainda dos anteriores proprietários, era daquelas extensíveis. Só que, uma das extensões estava meio solta. E a mesa estava meio desengonçada. Tínhamos que ter algum cuidado, especialmente quando a queríamos estender toda. Pois bem. Estava a lavar o chão, toquei com a esfregona numa perna, ela vacilou, a perna cedeu e, lentamente, a mesa praticamente desconjuntou-se. E só não se separou em mil peças pois ajoujou em cima das cadeiras que estavam em volta. Presumo que, durante as pinturas, os homens não a tenham tratado com os cuidados que o seu periclitante estado de saúde requeria.

Eu, que tinha a ideia de a levar para debaixo do telheiro, temo bem que já não a possamos aproveitar. O meu marido já decretou: não olhes para mim, não sou marceneiro. Mas às vezes, depois destes decretanços acaba por tentar. Por isso, vamos ver. O que sei é que agora nem se pode lá pousar o que quer que seja. Tomara que chegue a nova. 

Ainda há muita coisa para arrumar e outra que ainda está naquele limbo de que falei no outro dia: a meio caminho entre ir fora ou ser guardada. 

E, agora que a casa está mais clara e luminosa, olho para o que ainda subsiste em cor escura e só me apetece pintar tudo. O meu marido hoje reparou naquela mesa alta e estreita (coluna?) que pintei de verde e disse que gostava. Fiquei contente. Para ele reparar e dizer é porque gostou mesmo. 

Também acho que não contei que agora, de vez em quando, aparecem coisas que não sabemos onde estavam antes. Dois espelhos, por sinal, bonitos. Nós intrigados como se os espelhos tivessem aparecido ali por geração espontânea. Por fim, lembrei-me que deviam estar na pequena saleta da parte antiga da casa. Mas não me lembro de lá os ver, apenas me lembro de em tempos, tempos para além de remotos, ter tido a ideia de lá pôr espelhos. Muito estranho. O que sei é que, em cima do sofá que está em frente da televisão, estavam dois quadros e sempre nos pareceu que não ficavam particularmente bem ali. Pois bem, foram os espelhos para lá. E parece que foram feitos para ali. Dão uma luz à sala que só vista. Moral da história: o que tem que ser tem muita força. 

Agora sobra uma mesinha de tipo coluna mas baixinha. Não tinha a mínima ideia de onde estava antes. Até que me lembrei. Mas ao lembrar-me, à luz de hoje, parece-me que não faz qualquer sentido que ali estivesse. Agora tenho que pensar num sítio. E tenho que pintá-la.

Bem... não vou continuar nisto, que já devem estar pelos cabelos com tanta conversa desta.

Com isto, viemos de lá tarde. Enquanto andava naqueles trabalhos esforçados, ia pensando que, com sorte, na vinda, o convenceria a desviar-se do trajecto e ir à casa dos gelados. Umas saudades... Afinal nem isso. Já viemos depois da hora do fecho.

Tarde, tarde sobretudo para ainda ir cozinhar, com fome e quase sem comida feita em casa, apenas um resto de arroz branco e um resto, pouco, de entrecosto, disse: na ausência de gelado, só me ocorre ervilhas com ovos. Ele disse: sim, de facto tem tudo a ver, uma coisa substitui bem a outra. Continuei para corrigir: mas não pode ser pois não tenho bacon. Ele lembrou: ainda lá deve haver um bocado de chourição. Fiquei contente.

Então, mal cheguei fiz assim: 

Numa panelinha coloquei azeite, uma cebola gigante aos bocados, salsa, uma folha de louro e o bocado de chourição cortado aos bocados. Alourou. Juntei dois tomates grandes, maduros. Cozinhou um pouco. Juntei ervilhas congeladas e um pouco de água. Umas pedrinhas de sal. Tinha uma maçã reineta que, de manhã, tinha apanhado na horta. Tirei-lhe a parte do meio e cortei-a aos bocados. Abri quatro ovos e coloquei-os por cima, para escalfarem no caldo. Quando ferveu, baixei o lume. 

Estavam boas... (modéstia à parte). Ou, então, era a fome. O que posso dizer é que as comemos de gosto.

E, pronto, agora é que é: calo-me já.

Deixo-vos apenas dois vídeos com casas bonitas. O último refere-se à casa de uma filha da proprietária da casa do primeiro vídeo. Opções curiosas. Pode não se gostar de tudo mas há ideias interessantes. Acho que ver a decoração -- e a arquitectura! -- de outras casas nos faz ver a nossa de outra maneira, dá-nos ideias, calibra-nos a perspectiva.

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At Home in Montecito with Suzanne Rheinstein



At Home in the Hamptons with Kate Rheinstein Brodsky



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Ilustrações de Alphonse Mucha na companhia de Ben e de sua mãe Ellen Harper que interpretam A House Is a Home

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Desejo-vos uma semana muito boa a começar já por esta segunda-feira
Vida longa e feliz.
Saúde. Motivação. Energia. Motivação. Esperança.

quarta-feira, agosto 04, 2021

Dia de ida ao médico

 



Há dias em que tudo converge: todas as reuniões parece que têm que ser naquele dia, todas as urgências parecem inadiáveis. E calha no dia em que há consulta, também ela inadiável. E a campainha a tocar quando se está em reunião, telefonemas a chegarem quando se está ao telefone. Podem dizer que isto dos astros é treta mas, se isto não é um alinhamento astral destrambelhado, não sei o que seja.

Foi esta terça-feira. Hoje era dia de ir mostrar análises e um dos exames mas parece que não havia mais coisas para tentar encaixar. Um stress que tentei gerir sem me stressar.

No médico, nada de muito especial mas, ainda assim, necessidade de continuar e complementar a medicação e prescrição de novo e algo sofisticado exame, daqui por uns seis meses, para validar como estão as coisas e observar mais em pormenor o fluxo sanguíneo, em especial em determinadas condições. Ainda se tenta perceber o que me aconteceu e causou as sequelas que subsistem. Melhor: não propriamente a causa, que essa pode ter sido qualquer uma, mas, mais, tentar perceber os riscos de que volte a acontecer algum acidente ou se as sequelas são apenas as já identificadas ou se há outras.

Gosto do médico. É sóbrio, atento. 

Lê o relatório, vê as imagens, volta a ver e pergunta-me: 'Como se sente?'. Respondo: 'Bem'. Ele olha para mim com atenção. Faz-me impressão que me olhem assim quando tenho a cara quase toda coberta. Tenho vontade de tirar a máscara para que veja que não estou a mentir. Insiste: 'Não sente cansaço? Falta de ar?'. E olha-me. Confirmo: 'Não, não sinto nada.' Depois rectifico: 'Sinto-me normal'. Ele continua a olhar-me. Por momentos duvido de mim. Serei tão optimista que nem percebo que não estou bem...?. Mas não corrijo a resposta. Ele diz: 'Ainda bem'. Mas depois, volta ao mesmo: 'Não tem sentido dores no peito, tonturas, falta de fôlego?. Confirmo de novo: 'Nada. Normal'.

Explica-me e comenta os resultados do exame. Ouço com atenção. Por sua iniciativa, responde à pergunta que eu poderia ter feito: 'No limite o que poderá acontecer-lhe é...' e diz o que é. Não digo nada mas penso e ele, de novo adivinhando-me o pensamento, acrescenta: 'Mas, face ao seu estado actual, diria que é pouco provável que isso aconteça'. Não comento mas penso que também acredito que é pouco provável. 

Depois levanta-se, coloca-me a pinça no dedo e lê o valor no monitor. Então comunica-me, como se a tranquilizar-me: 'O oxigénio está bom'. Já no outro dia aconteceu o mesmo. Fico intrigada. Será que pensa que isso me preocupava? Melhor: será que isso é coisa com que deva preocupar-me? Não percebo. Mas, como ando numa de não querer saber tudo, não pergunto. Mas porque haveria de estar com o oxigénio baixo? Depois passa para a tensão. 'Está boa', diz-me. Ausculta-me. Como não diz nada, agora pergunto. Ele diz: 'Está bem'. Depois vê-me a pulsações nas pernas, um pouco acima do tornozelo. Diz: 'Também está bem'. Nunca tal me tinha acontecido, verem-me a pulsação na perna. Estive para perguntar mas logo me desinteressei. Se calhar acha os meus pulsos pouco credíveis.

Por fim, pergunto se há cuidados que deva ter. Detesto 'cuidados a ter' mas, apesar disso, acho que devo saber. 

No domingo estivemos in heaven e, na sequência das pinturas, a casa estava virada do avesso, tudo cheio de pó. Com a porta aberta e gente a entrar e sair durante uns dois meses (dois meses intermitentes pois acho que foram mais os dias em que não iam do que os que iam), deixaram a casa num lindo estado. Ainda por cima, levaram o balde e a esfregona. Por momentos pensámos que o melhor era contratar uma empresa de limpezas. Mas as coisas não estavam no sítio, tudo desarrumado e, sem lá estarmos, gente desconhecida, era outra chatice e mais demora. Fomos comprar o balde, a esfregona e produtos e deitámos mãos à obra. 

Gosto de fazer limpezas profundas. Limpo móveis ao pormenor, por trás, por baixo, escovo-lhes os meandros, lavo casas de banho, azulejos, esfrego. 

Há tempos uma conhecida cujo marido é um médico experiente, conceituado, disse-me dele, à sua frente: 'acho que a vocação dele é tratar da casa'. Ele sorriu e encolheu os ombros, com compreensão perante os desmandos da mulher. Eu entendo-me bem com ela, o meu marido entende-se bem com ele. Ela disse isso na sequência de estar a contar-me que o marido, uma ou duas vezes por ano, aluga uma máquina profissional de encerar, se bem percebi uma máquina que antes retira a cera anterior e, depois, aplica a nova e dá brilho. Dizia ela que ele andava pela casa com a máquina, parecia, dizia ela, um daqueles trabalhadores que, nos hospitais, andam com grandes máquinas a lavar e encerar os corredores dos hospitais. E eu às vezes penso que, na volta, a minha vocação também é fazer limpezas profundas, grandes arrumações. Não a banalidade e a pouca coisa. O dia a dia, na lida doméstica, não me despertam interesse. Mas andar descalça, meio despida, cabelo apanhado, de vassoura, balde, esfregona, panos e embalagens de produtos de limpeza, isso, sim, motiva-me à brava. 

Saímos de lá já tarde mas com parte da casa já habitável, limpinha, cheirosinha.

Felizmente, foi no domingo passado. É que o médico disse-me hoje: 'o cuidado a ter é, sobretudo, quando estiver cansada, descansar.' Fiquei a olhar e a processar. Parecia um conselho la-paliciano demais. Ele explicou: 'Evite cansar-se. Se sentir cansaço, descanse'. Quando cheguei ao pé do meu marido pensei se não deveria sonegar-lhe essa informação. É que, agora, receio que tente condicionar-me por tudo e por nada. Mas a verdade é que, no domingo, andei naquela trabalheira toda e não me cansei. Contudo, se fosse agora, não só andaria ele a querer que eu não andasse naquilo como, com tanto cuidado, até eu ficaria de pé atrás, se calhar a tentar descobrir algum vestígio de cansaço.

Não tenho vocação para ser uma 'mulher doente'. 

Enquanto estou na sala de espera, esqueço-me da minha própria condição. Durante um bocado, mantive-me sentada, sossegada. Quando dei por mim estava quase a dormir. Então, para ver se me mantinha acordada, pus-me a observar as pessoas. A mulher, talvez com uns quarenta e tal anos que devia ter tido um avc ou qualquer outro acidente que a deixou combalida, quase incapacitada. O marido e os filhos tentavam ajudá-la, orientá-la. Ela apática, arrastando-se, perdida. 

Às tantas, para espertar, levantei-me pus-me fazer piscinas no corredor. Eu num sentido, um outro, talvez da minha idade ou um pouco mais novo, a fazê-las em sentido contrário. De cada vez que ele passava ao lado da funcionária, protestava. Estava quase colérico, que no sns os atrasos compreendiam-se, ali não. Eu, tranquila, observando. Já não tinha compromissos, estava zen. Depois uma mulher jovem, despachada, bonita. Queria saber se podiam tirar-lhe um pontos que tinham ficado esquecidos. Sentei-me por perto para ouvir e tentar perceber que mistério era aquele. Como tantas vezes me acontece, pensei que gostava de abordar as pessoas, pedir para fotografá-las, fazer-lhes perguntas. Depois chegar aqui e fazer reportagens autorizadas. Assim, não posso dizer tudo o que ouvi: sem autorização das pessoas, seria coisa de paparazzi pôr-me aqui a relatar o que ouvi à sorrelfa.

Depois do médico, fomos ao Leroy comprar primário e um rolo com cabo e à Fnac buscar uma coisa. Ao estar ali, deu-me uma vontade súbita de mergulhar no mundo antigo. Fui à Zara. Estranhamente, nada me seduziu. Para onde olhava, não apenas não via nada de extraordinário como pensava que não tinha falta. Ao passar pela Natura e pelos seus saldos, também me deu vontade de espreitar. A mesma coisa. Ao fim de cerca de ano e meio sem entrar em lojas de roupas de mulher... entro e nada me seduz. Nada. Concluí que estou curada: já não sou consumista. Como é óbvio, fiquei contente.

Ao chegarmos a casa, estreámo-nos nos testes covid. O meu marido tem andado constipado, com tosse, com dores de garganta, adoentado. Então, resolveu testar-se. Eu ia lendo as instruções e ele ia zaragatoando as narinas, espremendo a zaragatoa no frasco não sei quantos, etc. Comprou dois testes. Se ele estivesse positivo, a seguir testava-me eu. Felizmente está negativo. Portanto, tout est bien qui finit bien.

Para o jantar, resto do frango assado que trouxe, no domingo ao fim do dia, de um take away não muito longe da casa da minha mãe. Tinha feito ontem uma salada russa, cujo resto acompanhou o frango. Fácil e agradável. 

Depois de jantar, ligou-me o meu filho. Tinha estado a jantar com um outro médico com quem falou do que o meu me tinha prescrito. Eu tinha-lhe contado quando ele me ligou antes de ir jantar. Tinha-me logo dito que achava que o medicamento novo batia na trave. Confirmou: a opinião do outro médico era também que os colaterais eram grandes e que, na opinião dele, eu não deveria tomar. O meu filho disse que nisto o melhor seria eu ler o folheto, avaliar e tomar a decisão por mim, levando também em conta a confiança que o cardiologista me inspira. Concluí que a medicina é tudo menos ciência exacta. Concluí também que vou perguntar à minha mãe que chá me recomenda. Ou seja: não tenho paciência nenhuma para isto.

Tenho aqui ao meu lado o livro que ando a ler, de que estou a gostar bastante e do qual queria transcrever um bocado. Mas não deu. A ver se amanhã, consigo. 

E, assim de repente, nada mais. Apenas mais um dia nesta minha vida que tem pouco que se lhe diga.

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Fotografias provenientes do artigo do Guardian: Top seeds: artists capture global efforts to future-proof nature

Ben Harper & Vanessa Paradis interpretam Waiting on an Angel

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Desejo-vos um dia muito bom

Saúde. Alegria. Ânimo