Segunda-feira nunca é um bom dia. É daqueles axiomas que é bom que ninguém ouse questionar. Segunda-feira é o início do que pode vir a ser uma sucessão de dias carregados de chatices. Numa segunda-feira as tréguas do fim de semana ainda estão longínquas.
[Os Leitores reformados, ao lerem isto, esfregam as mãos de contentes: para eles todos os dias são fim de semana. Bem sei. São uns sortudos. Mas lá chegaremos, nós os pobres coitados que por aqui ainda andamos a trabucar.]
Enquanto não, tenta levar-se o melhor possível embora haja quem não se aguente sem moer a paciência aos outros. Para mim o pior é quando olho para a agenda e penso que tenho ali um buraquinho que virá mesmo a calhar para repousar a minha beleza e, acto contínuo, logo recebo uma chamada a pedir que arranje um bocadinho para uma reunião urgente. E uma pessoa tenta que não mas, às tantas, não tem como não e lá se vai o buraquinho à vida.
[A língua portuguesa é traiçoeira, também sei]
Agora tenho aqui uma coisa a chamar por mim. Ainda antes de ir para a cama terei que ver e despachar esse assunto. Não me apetece nem um pouco pois estive a trabalhar até há pouco, estou mais do que saturada. Mas, quando o dever me chama, parece que não consigo entregar-me ao desfrute da escrita mesmo se de uma colecção de frioleiras postas em palavras se tratar. Podia saltar por cima disto, do blog. Pois podia. Mas, enfim, ficar sem escrever também não consigo. Addicted to writing.
E, então, pensei escrever sobre uma coisa que li na Vogue francesa: as cenas mais eróticas do cinema. Fui conferir, curiosa. Como é costume nestas coisas, parece que quem escolhe os melhores livros, os melhores filmes, as melhores cenas faz de propósito para deixar os outros a sentirem-se ignorantes. Dos oito filmes, apenas conheço três. E das cenas que consegui ver, talvez por descontextualizadas, não achei grandes espingardas. Além disso, agora acontece uma coisa que me encanita solenemente: ao seleccionar um vídeo que contenha alguma ceninha mais encaloradita, o Youcoiso pede que comprove que sou adulta. Não estou para isso, era o que me faltava. Portanto, como não estou para fornecer comprovativos, marimbo-me para as ditas cenas.
A beatice vai alastrando. Claro que há que acautelar que as coisas não sejam vistas por crianças. Mas, caneco, parece que preferia as salas de cinema em que a barragem era feita à porta. Agora aqui...? Não basta a publicidade em cima de tudo senão ainda isto...? Que seca, caraças.
Por isso, com tanto entrave e chachada, desisto das listas alheias. Acontece que, para listas próprias, tenho um problema do escambau: não as tenho anotadas, não as tenho de cabeça e, pior ainda, a cabeça não está formatada para fazê-las.
Posso aqui enunciar algumas cenas ou alguns filmes que tenho a certeza que amanhã me ocorrerão outros, provavelmente mil vezes melhores. E não estou certa de que o algoritmo que é mais lápis azul e beato que fedorentozinho de antanho me deixe abrir o vídeo para conferir. Vou tentar mas, acreditem, não garanto que seja muito para levar a sério. E são oito apenas porque não posso ficar aqui a noite toda a puxar pela cabeça ou a tentar encontrar vídeos que expliquem o critério.
. 1 .
Lady Chatterly, na versão de Pascale Ferran, com Marina Hands e Jean-Louis Coulloc'h um filme belo demais. Mas, mais do que caliente, é belo, belo demais. As cenas mais eróticas apenas são disponibilizadas a quem provar que é adulto. Portanto, vai o trailer.
. 2 .
Dangerous Liaisons de Stephen Frears com Glenn Close, John Malkoviche Michelle Pfeiffer, um filme sensual da cabeça aos pés, passando pela insolente língua de Malkovich (e isto já para não falar do olhar, da voz, das mãos, do andar dele, o descaradão e perverso do Visconde de Valmont)
. 3 .
The Horse Whisperer de Robert Redford com ele e com Meryl Streep, envolvente demais
. 4 .
Damage de Louis Malle com Juliete Binoche e Jeremy Irons. Tem a chatice de não acabar bem mas, antes de acabar, é bom até dizer chea, a começar e a acabar na voz do Jeremy Irons
. 5 .
The Unbearable Lightness of Being de Philip Kaufman com Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche, Lena Olin, um filme para sempre, com cenas inesquecíveis (a Lena Olin ficará para sempre na minha memória com aquele seu chapéu)
. 6 .
Closer de Mike Nichols com Julia Roberts, Jude Law, Clive Owen
[Larry : You like him coming in your face?; Anna : Yes! Larry : What does it taste like?; Anna : It tastes like you but sweeter!]
. 7 .
La vie d'Adèle de Abdellatif Kechiche com Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos
O azul definitivamente a cor mais quente
. 8 .
The French Lieutenant's Woman de Karel Reisz com Meryl Streep e Jeremy Irons.
Aqui chegadas, a este antro de perdição, as almas sensíveis devem fazer uma de quatro:
1 - Fechar os olhos
2 - Saltar para o post seguinte
3 - Fechar o computador
4 - Não fazer nenhuma das anteriores mas, a seguir, ir a correr rezar cem avé-marias
Agora que o aviso está feito, acrescento apenas que, não encontrando eu o livro que procurava, me dirigi à livreira: 'Por favor: tem o livro do João Habitualmente?' ao que ela, disfarçando que tinha ficado intrigada, indagou: 'Mas como é que se chama o autor?'. E eu 'João Habitualmente' e ela, achando que não estava a ouvir bem: 'Habitualmente?! É o nome dele?'. Não consegui ser assertiva: 'Acho que sim'. É que não faço ideia se é nome mesmo, se é nom de plume.
Já cá o tenho. E é o que eu antevi quando o ouvi e vi na RTP. Um ganda maluco. Portanto: gosto.
E que não se pense que é tudo assim, como o hímen. Não é. Mas este caíu-me no goto. Salvo seja, claro. Melhor: caíu-me tudo no goto -- os poemas, o livro em si, o desgrenhado e desavergonhado autor.
Mas, então, vamos lá. Com vossa licença.
A acompanhar o hímen (in 'Um dia tudo isto será meu'), uma fotografia de Robert Mapplethorp, a primeira, e outra de Man Ray, a segunda. E, para rematar, porque nada como umas notas de música para abrilhantar uma festa, Michelle Pfeiffer, a fabulosa.
Cedo começámos a fazer festas que incluiam sessões dançantes. Formou-se um grupo que durante anos se manteve unido e, por uns motivos ou por outros, o que interessava era que houvesse pretexto para dançar. Vários rapazes vieram a dar engenheiros e, talvez por vocação, desde miúdos, havia iluminação especial e instalação sonora a acompanhar a selecção musical. Coisa a preceito. Alguns de nós morávamos em moradias que tinham garagens, outros em grandes andares nos quais parte da casa era transformada em discoteca.
Havia um, franzino, apagado, que era muito atilado, filho de figura institucional da cidade, homem distante e austero, e de uma mãe também muito senhora, pais mais velhos do que a maioria dos pais, que viviam numa moradia antiga, solarenga. Contudo, na mais pura contradição dos termos, não apenas arranjou uma namorada mais alta, mais forte e muito mais desempoeirada que ele como organizava as mais desopilantes festas. Em casa da namorada dele, minha grande e divertida amiga, filha muito mais nova de três irmãos, as festas também era à solta. Se a mãe dele ainda aparecia para nos receber e cuidava de arranjar belos lanchinhos para os amigos do filho, aos pais dela nunca conheci. Conhecia os irmãos mas os pais não estavam nem aí. Foi através dela que vieram os primeiros ensinamentos sexuais, os quais ela colhia junto de irmãos e primos.
Outra era a minha melhor amiga. Eram também três irmãos e vários primos. O pai era um bon vivant e a mãe, triste pelo comportamento do marido e cansada pela agitação da miudeza, também se refugiava na sua marquise ensolarada ou numa estufa que havia no jardim e deixava-nos na maior largueza.
Portanto, quase todos os fins de semana havia festa. A partir do que hoje é o décimo ano passámos também a ter os convívios no liceu, supostamente para angariarmos dinheiro para a excursão de finalistas.
Entre nós, havia vários casais. Eu estava apaixonada por um enfant terrible e ele por mim mas, já o disse várias vezes, éramos tão temperamentais que grande parte do tempo estávamos arreliados, eu a fazer-lhe ciúmes como vingança por achar que ele não me cortejava o suficiente, ele zangado comigo por eu supostamente andar a dar atenção ou a achar graça a outros. Mas, seja como for, éramos empolgados namorados, e de tal forma que nos chamavam o Romeu e a Julieta. A seguir chegou outro que cantava e fazia poemas para mim, deixando o legítimo desvairado. E, entre um e outro, eu não tinha mãos a medir -- emocionalmente falando, claro. Mas isto para dizer que, durante as festas, eu tinha sempre par para dançar. Claro que dançávamos em grupo e sozinhos mas o grande apelo era dançarmos a par, slowzinhos bons, abraçadinhos, a sentirmos como o nosso corpo tinha vontade própria. E mal a música começava, logo um ou outro me vinha buscar para dançar.
Eram outros tempos. Hoje já nada disto faz sentido. Mas, na altura, apesar da nossa liberdade e de estarmos ali por nossa conta, havia o costume de serem os rapazes a irem 'buscar' as raparigas. E havia geralmente duas ou três raparigas que ficavam para o fim. A mim custava-me muito isso. Muitas vezes, estávamos todos a dançar e elas ali sentadas ou encostadas e uns dois ou três rapazes, feitos mongas, de roda da música ou das luzes ou a arranjarem desculpa para não as irem buscar. Doía-me ver como elas ficavam a disfarçar, tentando fingir que não se importavam. Muitas vezes eu pegava naqueles panhonhas e ia eu levá-los até elas. Tirava-me a alegria olhar para elas e pensar que deveriam sentir-se peças sobrantes. Naqueles dias de zanga entre mim e o meu grande e tumultuoso amor, acontecia ele estar amuado e não me vir buscar; e os outros, sem saberem se o campo estava livre, hesitavam e eu, por breves momentos, sentia o que seria a sensação de ficar a sobrar. Nunca sobrava pois, na perspectiva de algum outro se antecipar, ele chegava-se à frente e, se esperava demais, era eu que tomava a dianteira e desafiava algum outro.
No entanto, apesar de ter sido grande namoradeira e de ter sempre um belo grupo de amigos, nunca prescindi do meu tempo. Mesmo nesses tempos de grande euforia adolescente, à noite, depois de estar com os meus pais na sala a vermos televisão, eu ia para o meu quarto e lia até tarde. Precisava de estar sozinha. Sempre precisei de silêncio, sossego, tempo meu, alguma solidão. Mas era solidão voluntária e isso faz toda a diferença.
Uma outra recordação: não gosto de tomar refeições fora sozinha. Lembro-me de quando andava na faculdade. O primeiro ano foi uma seca. Gente marrona, pouco dada a festas, a distrações. Uma tremenda desilusão, aqueles primeiros meses na faculdade. Andando o meu namorado noutra faculdade, quando não conseguia almoçar comigo -- e não tendo eu ainda arranjado amigos novos -- quando ia almoçar na cantina, acontecia-me estar sozinha. Detestava. Felizmente havia sempre alguém que se juntava e eu acabava sempre por ter companhia. Aliás, foi assim que arranjei um grande amigo, alguém que vinha de um outro mundo, que me trazia vivências para mim totalmente desconhecidas. Passava horas à conversa com ele. Horas. Ouvia-o fascinada. Vivia numa residência, tinha muito pouco dinheiro, pouca roupa e nitidamente roupa pobre, os pais tinham uma pequena mercearia no interior do país, tinha uma irmãzinha pequena de quem gostava imenso e a quem comprava presentinhos para levar quando ia a casa de visita. Emocionava-se quando falava da menina. Tinha uma fotografia dela na carteira, uma menina loura como ele e, como ele, com aquele ar saudável da província. E depois havia aqueles estudantes africanos, negros retintos, com corpos extraordinários, e que tinham uma simpatia desconcertante por mim. E eu achava-lhes graça, achava graça ao que eles gostavam do meu cabelo, achava graça à sua inocência ao virem oferecer-me iogurtes como se fossem presentes valiosos. Por isso, por um ou outro motivo, eu acabava sempre rodeada de gente divertida ou curiosa, a ouvir histórias que me pareciam exóticas.
Mas via pessoas solitárias, sozinhas, a olharem para o vazio. Se por vezes tentava aproximar-me, notava que eram pessoas que tinham alguma dificuldade em interagir. Não me parecia que gostassem simplesmente de estar sozinhas mas, pelo menos parecia-me, não sabiam bem como interagir, faltava-lhes naturalidade. Ficava com a sensação que sentiam alguma timidez, algum embaraço por não terem companhia, mas conviver não era natural para elas.
E assim, por um ou outro motivo, sempre havia pessoas desirmanadas, sozinhas, ar vagamente perdido.
Hoje tudo isto seria impossível: ou porque já não é assim que funciona ou porque todos os instantes são preenchidos com o telemóvel ou com o tablet ou computador. Em qualquer circunstância em que alguém está sozinho, salvo raras excepções, está a ver ou a interagir com um destes dispositivos. Será o horror ao vazio, à solidão, será a necessidade absoluta e permanente de parecer acompanhado, a interagir com 'amigos'. Estar simplesmente a olhar para ontem é coisa que já não existe.
Mesmo em reuniões, tenho colegas que estão com o computador ligado e sempre a verem qualquer coisa, a escreverem. Dir-se-ia que têm assuntos urgentes a tratar, dir-se-ia que gostam de passar a imagem de alguém a quem os outros ou as circunstâncias não dão tréguas. Mas, sempre que vejo o que fazem, constato que estão simplesmente a manter-se ocupados com tretas que poderiam esperar: ou mails banais ou notícias.
Mesmo em sociedade ou em família o que não faltam são pessoas que, a meio do convívio, estão a ver o que outros postam no facebook ou no instagram, colocando comentários ou smiles. Parece que há a obsessão pela conexão, pelo preenchimento total de cada instante. Na paragem de autocarro, na mesa do restaurante, na sala de espera, na fila de supermercado, mesmo enquanto andam, são raras as pessoas que não estão a ver o telemóvel. No outro dia, alguém estava com ar muito compenetrado, muito atarefado. Quando vi que estava a fazer um jogo de cartas, fiquei estupefacta. Dá ideia que ninguém quer ser apanhado em flagrante delito de solidão.
E se hoje estou a recordar cenas minhas ou a referir estes temas é porque li um artigo que achei interessante e cuja leitura recomendo a quem consiga entender-se com a língua francesa.
(...) ce serait «pour ne pas entendre. Ne pas entendre le vertige qui nous saisit lorsque l’on pense ! Ne pas être seul, c’est ne pas avoir à négocier avec nos peurs, notre culpabilité et notre responsabilité. La solitude impose une posture de lucidité, la lumière crue. Ne dit-on pas "Ne reste pas seul" dans une période délicate ? Être seul est une épreuve métaphysique. Or, nous vivons une période si angoissante que beaucoup ne peuvent plus supporter cette épreuve. Et puis, la solitude n’est pas très instagrammable ! Sauf si on ajoute un plaid, un livre, un chat et un thé chaud !» (...)
São os tempos que vivemos. Vivermos sem internet disponível em todo o lado já nos pareceria coisa insuportável, própria de desertos e inóspitas lonjuras, ou, então, hábito dos ctónicos, esses seres misteriosos dos quais descendo e que só hoje fiquei a saber que têm este intrigante nome.
Cá para mim as fotografias que aqui hoje coloquei não têm muito que ver com isto mas também não sei porque haveriam de ter. São da autoria de Terry O'Neill e grande parte delas obtive-as no The Guardian. E vêm ao som do violoncelo de Yo-Yo Ma e da voz de Alison Krauss que tentam aqui introduzir o tema do Natal que, parecendo que não, já por aí anda nas iluminações, nas montras e por todos esses novos lugares de culto.
Era para ter optado pela Janis Joplin que, para sempre, associarei a essas dias iniciáticos da minha adolescência mas depois reconsiderei: afinal o tema deste post não é sobre essas eternas tardes dançantes mas, sim, sobre um dos grandes males dos tempos presentes, o pavor da solidão -- e, vá lá saber porquê, apeteceu-me condimentar as minhas palavras com um cheirinho a natal.
E digo outra coisa em comum porque uma tenho à partida e é óbvia: tal como elas, sou mulher. De qualquer maneira, embora os exemplos conhecidos sejam de mulheres, penso que isso se deve a que as mulheres têm a coragem de confessar as suas inseguranças enquanto os homens padecem do síndroma do macho man e sentem que têm que se mostrar sempre seguros e fortalhaços. Tirando, claro, alguns mais ousados e corajosos.
Mas, e reportando-me agora ao tema que aqui me traz, há uma coisa que sempre tive e sempre achei que era uma coisa cá minha, sem nome, uma coisinha ruim a roer-me a alma.
Já o disse muitas vezes: sempre fui aluna razoável, notas assim-assim no que fosse de 'empinar' e notas muito altas no que fosse de raciocinar. Contudo, sempre tive tantas solicitações na minha vida que estudar não era propriamente a minha primeira prioridade.
Ainda agora, de vez em quando, felizmente cada vez mais raramente, sonho com isto: chego à escola e há exame, todos preparados e eu apanhada desprevenida, sem ter estudado nada, sem saber sequer qual a matéria que entrava. Por vezes, falta-me mesmo o material -- compasso, régua, esquadro -- e aí a aflição é ainda maior. Ninguém mais se tinha esquecido, só eu. E, sem material, nem sequer poderei fazer o exame. Uma angústia pela minha irresponsabilidade.
Penso que estes sonhos resultam dos sustos que frequentemente apanhava. Nas ante-vésperas de testes ou exames, ouvia os colegas falarem de directas, de andarem a fazer cábulas para um just in case, de terem lido várias vezes a matéria e ainda estarem a milhas -- e eu, na levezinha, praticamente sem me ter preparado, a achar que sabia o que havia para saber e confiante que uma lambuzadela seria mais do que suficiente para refrescar ideias, mas, de súbito, a assustar-me: e se a matéria era mesmo difícil? Ou tanta que não teria tempo para lhe passar os olhos por cima, nem mesmo em diagonal?
Furiosa leitora de tudo o que apanhava, devorava livros lá de casa, da biblioteca, emprestados em especial de uma amiga da minha mãe, o que calhava. Aliado a isso, os namoros fogosos que sempre alimentei e que me ocupavam grande parte das horas livres. O período de concentração para o estudo era reduzido. Os meus pais chegavam a casa lá para as seis e só a essa hora é que eu me dedicava à minha condição de estudante, depois lá para as oito jantávamos e supostamente não poderia deitar-me muito tarde porque no dia seguinte as aulas começavam às oito e meia da manhã. Na faculdade ainda pior. Durante algum tempo, andei com dois ao mesmo tempo o que me ocupava a agenda por completo já que embora eu estivesse no mesmo dia com os dois, eles não podiam encontrar-se. No dia em que se cruzaram, o namorado a sério quis bater no outro. Portanto, sendo maluca, eu não era parva a ponto de me meter no meio de fogo cruzado. Ora, para estar com um das tantas às tantas, com o outro tinha que ser depois disso e até às tantas.
Acontece que tinha alguma facilidade para a aprendizagem e boa memória e, o mais importante, sorte e, portanto, aparecia com notas altas.
Claro que isto fazia com que parte dos meus colegas achasse que eu me armava, dizendo que não estudava, quando, na volta era mas era uma marrona encapotada. Mas não me armava, era mesmo como vos contei.
O que eu não lhes confessava era que achava que as boas notas eram sobretudo, obra do acaso, da sorte. Não mérito meu.
Já o contei aqui. Uma vez tive um primeiro vinte (depois voltei a ter mas o fuzuê armou-se apenas na primeira vez). Foi um escândalo. Por causa disso, desencadeou-se uma celeuma entre os professores, tendo havido até uma reunião de professores das várias escolas da cidade para discutirem em que circunstâncias se poderia dar um vinte a um aluno. Houve também alguns pais que pediram reuniões com o reitor para manifestarem preocupação pela saúde mental daquele professor ou para saberem se a escola tinha entrado numa perigosa deriva facilitista.
Assisti a isso com incredulidade, como se aquilo não tivesse nada a ver comigo, esperando que passasse depressa a confusão, não fosse ainda lembrarem-se de me sujeitar a um exame e eu estampar-me ao comprido.
Na faculdade aconteceu-me várias vezes essa desconfortável sensação. Acima de uma certa nota nos exames (creio que 16), tinha que haver defesa de nota, isto é, uma espécie de prova oral, por vezes com júri. Com excepção da primeira vez em que fui sem saber ao que ia, das outras vezes ia uma pilha de nervos. Achava sempre que podia muito bem acontecer que fosse desmascarada, que se provasse que aquilo das notas altas nos exames era coisa do acaso, roleta, sorte ao jogo, coisa nessa base.
Uma vez participei num programa de televisão, coisa entre escolas. Fui escolhida, em votação de alunos com validação de professores, para ir representar o liceu em determinada matéria. Essa foi uma outra altura conturbada da minha vida. Tinha-me zangado com um namorado e, para lhe provar que ele era parvo, comecei a namorar com aquele de quem ele tinha ciúmes e por causa de quem nos tínhamos zangado. Portanto, a minha cabeça andava ocupada com o começo de um namoro com alguém que me amava de paixão e a quem eu tinha vergonha de confessar que tinha começado a namorar para atazanar a cabeça do outro e, ao mesmo tempo, ainda perdida de amor pelo primeiro mas incapaz de dar o braço a torcer apesar do que me custava vê-lo a descarrilar a toda a brida.
Portanto, praticamente sem tempo para estudar para as aulas, muito menos tempo eu tinha para me preparar para o programa de televisão.
De resto, aquilo era, sobretudo, uma festa, conhecer gente de outros liceus, uma animação, o ambiente das gravações, a malta da assistência a gritar o meu nome, uma coisa quase feérica.
E, então, no meio de tudo aquilo (e já o contei, desculpem, mas vou voltar a contar), acontecia qualquer coisa de inexplicável: quando chegava a minha vez de responder, tirando uma ou duas vezes em que chegava ao fim da formulação da questão e não tinha registado uma única palavra, tendo que pedir que repetissem, das outras vezes respondia ao fim de segundos, não sei como, ao calhas, e por mais elaborada que fosse a questão, respondia certo. A plateia quase vinha abaixo, com gritos e palmas.
Por vezes, na segunda feira, os professores, admirados com a minha rapidez nas respostas, perguntavam que linha de raciocínio tinha eu seguido e, para minha aflição, quase era incapaz de explicar, sobretudo porque a explicação correcta demorava algum tempo, não os segundos em que eu tinha chegado à resposta.
Para quem assistia lá em directo e, depois, na televisão, eu passava por ser a modos que um pequeno génio. Para mim, era sorte, acaso, um tiro no escuro que, por mera ventura, acertava no alvo. Quando na rua as pessoas me felicitavam, eu sentia-me atrapalhada e só pensava que tomara que nunca descobrissem que aquilo nada tinha a ver com inteligência ou trabalho, era tudo fruto de uma sorte do caraças pois, muito sinceramente, a sensação que tinha era que respondia sem pensar, completamente ao acaso.
Esta sensação tem-me acompanhado a vida inteira. Também já o contei: vou para as reuniões sem pastas, dossiers, tablets, blocos de notas. Nada. Se vou eu fazer uma apresentação, enquanto os meus colegas que também vão faze,r frequentemente a levam em papel para, antes, darem uma leitura preparativa, eu nunca me lembro de tal coisa. Só à chegada, quando vejo toda a gente a sacar do seu arsenal e eu nada, muitas vezes nem a caneta encontro na carteira, é que me dá aquele tal velho medo: será que deveria ter-me preparado? será que melhor teria sido se tivesse trazido documentação de suporte? E daí ao medo de que, quando chegue a minha vez, não me lembre do que devia, não saiba responder a questões que me ponham, é um ar que lhe dá.
Pois bem.
Li que Michelle Pfeiffer, que agora está de volta ao cinema -- como há dias aqui referi (no caso Madoff) -- confessou que toda a vida o síndroma do impostor a acompanhou: o receio de que descobrissem que é uma fraude e lhe peçam de volta todos os prémios que recebeu.
Ao procurar algo mais sobre este síndroma vi que várias super estrelas dele padecem e que, pasme-se, também um número significativo de gestoras de topo, o sentem. No outro dia, ao ver uma entrevista com a Jane Fonda, ela contou que a Marilyn Monroe lhe tinha contado que andava a estudar (no Actors Studio) porque tinha pânico que descobrissem que ela não tinha qualquer talento. Imagine-se.
E eu, lendo os seus testemunhos, fico (a modos que) mais tranquila: afinal não é pancada só minha. E não é que eu, nem de perto nem de longe, me queira comparar com as virtuosas figuras citadas, mas se com elas acontece isto, fará comigo, poor, poor me. Posso achar que estão completamente enganadas algumas almas mais caridosas que ainda pensam que tenho alguma little quelque chose, posso achar que na minha vida, mais do que mérito, tenho tido é sorte, mas, enfim, há afinal gente verdadeiramente talentosa que padece do mesmo mal que eu.
___________
E não se esqueçam de descer para verem uma coisa que se não é do além por lá anda perto: uma serpente crucificada.
Há coisas de que não quero aqui falar. Se tenho isto de não me identificar não é para, depois, vir para cá relatar situações incómodas, com detalhes que podem levar a identificá-las.
De resto, calma, não tenho conhecimento directo de nada que tenha provocado danos alheios ou que configurem ilicitudes.
Bernie, Ruth e os filhos quando eram uma família feliz
Mas já tenho testemunhado situações em que alguém por fútil fanfarronice, por mesquinha ambição ou, apenas, por pura burrice, embarca numa situação cujos contornos não são tão lineares quanto é suposto.
Muitas vezes, a coisa é detectada e morre logo ali. Mas acontece, por vezes, que, porque naquelas circunstâncias convinha que aquela ficção fosse uma ideia viável ou porque se não quer apear as expectativas de quem lançou as sementes do embuste, quem teria o dever de cortar, cerce, a ficção, a deixe caminhar.
E, por essas circunstâncias, por vezes difíceis de explicar, a ficção começa a caminhar como se tivesse pernas de verdade.
Quem lhe é externo e não conhece da história o suficiente para a desmascarar, nada diz. Não tem o que dizer. E, quem teria a capacidade para a desmistificar, por vezes, ao fazê-lo, é apodado de desalinhado, de avesso à mudança. E, por vezes, é afastado.
Acontece também que cada vez mais pessoas comecem a trabalhar para dar corpo à ficção. A essas não convém desmascará-la pois a sua vida passa a depender disso. E, quem a conduz, cada vez tem mais dificuldades em assumir que está a alimentar uma fraude pois já envolveu muita gente, e já muita gente depende de se fazer crer que está tudo bem.
Pode ainda acontecer que a comunicação social comece a louvar a 'empresa', que muita gente comece a apostar nela, que as forças vivas da região divulguem o sucesso do empreendimento.
E acontece que o tempo vá passando, o embuste seja cada vez mais difícil de esconder mas, na directa proporção, cada vez é mais impossível assumir, fazer o mea culpa, deixar que tudo se extinga, aceitar o vexame de passar publicamente por mentiroso, por desonesto.
Então, quem está metido nela, embarca em optimismos que parecem louváveis, mostra resiliência, produz discursos articulados nos quais assume, com o que parece ser uma desarmante sinceridade, dores de parto, dores de crescimento, mas, garante, o futuro é promissor e vamos todos dar as mãos e seguir em frente que o caminho se faz caminhando e em equipa somos todos mais fortes. Um líder.
E, quem conservou algum distanciamento e, por isso, se encontra distanciado do inner circle do poder, assiste perplexo ao que se passa. Cegueira colectiva? Protecção mútua entre culpados? Instinto de sobrevivência?
Talvez tudo junto.
Já quando aconteceu a queda do BES eu falei nisto. Do que conheço de meios relativamente parecidos (embora, como referi, sem o mesmo impacto e sem os mesmos contornos), penso que, ao mais alto nível, não há a ideia de querer prejudicar alguém. Pelo contrário, tudo farão para que ninguém saia lesado. O móbil diário passa a ser manter a máquina em movimento, não deixar que pare porque, se parar, morrerá. E não deixar que se descubra: E empurrar os problemas com a barriga, evitar o opróbrio generalizado, fazer de conta. Fazer de conta. A vida passa a ser, acima de tudo, isso: fazer de conta.
Do pouco que, na altura, li sobre Madoff, penso que foi mais ou menos isto que terá acontecido.
Bernie Madoff geria uma empresa próspera. A mulher e os filhos não conheciam o âmago da questão. Para eles, Madoff era um bem sucedido homem de negócios. Viviam uma vida luxuosa e a sociedade não regateava o reconhecimento perante tão simpática e generosa família.
Até que veio a crise e o dinheiro deixou de entrar. Pelo contrário, os clientes começaram a querer resgatar os seus investimentos.
Como qualquer esquema Ponzi, isso é o que faz cair a pirâmide pois o que mantém a ilusão de bom funcionamento é o dinheiro entrante com o qual se vão pagando bons rendimentos aos que antes o lá meteram.
Daí ao fim foi um ápice. Madoff confessou à mulher e aos filhos o que se passava antes de o confessar às autoridades. Sempre assumiu integralmente toda a culpa.
Perderam toda a sua fortuna. A mulher passou pela vergonha de ver as casas e os bens vendidos. Os filhos ficaram arrasados. Um suicidou-se. Outro morreu tempos depois. Ruth, a mulher que era feliz e milionaríssima perdeu os filhos, tem o marido preso e anda agora sozinha às compras deslocando-se num pequeno carro.
Depois de um sábado completamente em família com ascendes e descendentes, uma animação e uma alegria, neste domingo o dia foi de descanso, passeios, leituras.
E, de tarde, cinema - e sempre aqueles requisitos que sempre nos impomos: a coisa não deve ser nem uma xaropada, nem violenta, nem estúpida, nem maçadora. Tudo sopesado a escolha recaíu em Mavalita ou 'A Família'.
A coisa prometia: produção de Martin Scorcese para interpretação a cargo de (entre outros) Robert De Niro, Michelle Pfeiffer, Tommy Lee Jones.
A sinopse do filme era aliciante para uma tarde de domingo. Transcrevo:
Os Blake, ou melhor, os Manzoni, são uma família de mafiosos que, após decidirem colaborar com as autoridades, ficam ao abrigo do Programa de Protecção de Testemunhas. Apesar do enorme esforço do agente Stansfield para os manter vivos e afastados de sarilhos, parece que eles se esquecem com demasiada frequência que, no mundo normal, as regras são algo diferentes das que sempre se habituaram a seguir. É então que, numa derradeira tentativa de os inserir na sociedade, são enviados para uma pequena cidade na Normandia, França, onde terão de se adaptar não apenas a uma nova vida, mas também a uma cultura diferente da sua. Mas parece que Fred, Maggie e os filhos Belle e Warren teimam em recorrer a velhas estratégias de sobrevivência que chocam a todo o momento com a pacatez da sua nova cidade. Tudo se agrava quando os ex-companheiros de crime os encontram e decidem fazer justiça pelas próprias mãos.
Uma comédia negra, escrita e realizada pelo francês Luc Besson, que se inspira no romance de Tonino Benacquista.
Uma Michelle Pfeiffer já com sinais da idade, sem disfarces mas sempre com muita graciosidade e piada. Um Robert de Niro cada vez com mais charme, cada vez com mais pinta, excelente, um Tommy Lee Jones também com um rosto marcado pelo tempo mas também com muita pinta, uma ternura (a cumplicidade entre aqueles dois é mesmo uma graça).
Há cenas de uma violência brutal, coisas da Máfia, aliás o filme arranca logo mostrando ao que vai, várias vezes me encolhi toda na cadeira, mas há cenas divertidas, o Robert de Niro, um mafioso encartado, dá-lhe para ser escritor e são momentos fantásticos os que mostram essa sua faceta, e há uns jovens malandrecos e com uma violência genética mas a quem olhamos com uma certa compreensão bem humorada. As peripécias da família a tentar enquadrar-se numa aldeia da Normandia são fantásticas.
Conclusão: saímos de lá muito bem dispostos, uma bela tarde de cinema. Que o filme esteja classificado para 12 anos e imensos miúdos a assistir é coisa que não consigo entender mas, enfim, esse é assunto que desde há muito me transcende.
Depois fomos comer uma queijada da Madeira e uma tartelette de maçã (e que, desabituados de lanchar e muito mais de comer doces, não conseguimos comer na íntegra pelo que trouxemos o resto para casa e nos serviu de sobremesa ao jantar). Belos bolinhos aqueles.
Mostro-vos o trailer legendado do filme mas as legendas aqui do youtube são do mais manhoso que existe. Se calhar mais valia colocar a versão não legendada não vá vocês ficarem mal impressionados mas, como tenho receio que alguns leitores não acompanhem bem o inglês falado, arrisco. No entanto, no cinema, a tradução é decente, podem crer.
despi-la dos reflexos nervosos da seda moirée lilás.
desapertar-lhe as rendas devagar. deixar-lhe
as pérolas apenas sobre o peito. ver-lhe a pele
luminescente e branca na semiobscuridade.
descalçá-la e afagar-lhe os pés.
beber riesling de olhos nos olhos, incandescentes.
aspirar o seu perfume de água de rosas.
desatar-lhe as cascatas negras do cabelo.
tocar a macieza do seu colo, sentir pétalas.
e ousar percorrer-lhe as sombras.
estremecer sem poder ainda acreditar.
ver a luz das velas a reflectir-se nos espelhos
como estrelas a transformarem-se em música e gemidos.
falo às vezes do amor, dos seus dilemas,
e das noites de insónia em que me viro
para um e outro lado, mas prefiro
que o próprio amor escreva os meus poemas.
se o faz, à própria vida é que retiro
casos por mim passados e outros temas,
para depois usar estratagemas
de mentira e verdade e lhes adiro.
e então digo e desdigo e contradigo
o dito e o não dito, e deixo o gosto
das entrelinhas do que não consigo
dizer de outra maneira e é suposto
andar a vida toda em mim, comigo:
e assim falo do amor e do teu rosto.
ela guardava os sentimentos
como um animal ferido que se agarra
à vida por de dentro
e a vai perdendo devagar
enquanto sangra e sofre
emudecendo.
então beijavas-lhe
os seus próprios gemidos, a sua
desolada liberdade, o que no seu
olhar se enevoava,
não lhe peças mais nada,
não lhe digas
mais nada, mas não deixes
que a noite toma conta dela e
dite as suas leis.
como sentir a tua cara rente
à minha e as tuas mãos nas minhas, ou
como se a dança amarguradamente
nos desse nesta noite ainda um slow
levado a medo, apenas a ternura
a conduzir de leve os nossos passos
e o corpo estremecendo-te à procura
do seu lugar na grade dos meus braços,
e a luz, fina película de vidros
por entre a frialdade de janeiro,
a trespassar os corações partidos
estranhamente, e o meu sendo o primeiro,
como se não doesse o que doía
na própria dor tingida de alegria.
devagar, devagar. é mais doce no outono a tua pele.
My mistress' eyes are nothing like the sun; Coral is far more red than her lips' red; If snow be white, why then her breasts are dun; If hairs be wires, black wires grow on her head. I have seen roses damask'd, red and white, But no such roses see I in her cheeks; And in some perfumes is there more delight Than in the breath that from my mistress reeks. I love to hear her speak, yet well I know That music hath a far more pleasing sound; I grant I never saw a goddess go; My mistress, when she walks, treads on the ground: And yet, by heaven, I think my love as rare As any she belied with false compare.
*
Este último poema, em inglês, dito encantatoriamente por Alan Rickman, é o Soneto 130 de Shakespeare.
Todos os outros são de Vasco Graça Moura, podem ser lidos no seu novo livro, 'Poesia Reunida', e chamam-se respectivamente:
o rei e lola montez: infinitos
soneto de companhia
o fim da noite
como a sentir a tua cara rente
setembro - o último verso
A primeira canção é Me and Mrs Jones e prefiro esta versão de Billy Paul à do Michel Bublé. Este tem voz de veludo mas, para esta canção, pede-se mais que isso, pede-se um tom imperfeito, com um certo sabor a a pecado, e a voz de Billy Paul, em minha opinião, sugere isso. As imagens que acompanham são consideravelmente kitch mas, enfim, foi o que se arranjou.
A canção seguinte é Love me like a river does e é de Melody Gardot que, como é sabido, tem uma voz que apela à sedução, à intimidade. Neste caso as imagens são mais do meu agrado.
O filme é a Idade da Inocência, baseado na obra de Edith Warthon e é interpretado por Michelle Pfeiffer, Daniel Day-Lewis e Winona Ryder.
Finalmente o Grupo Corpo, que tem assento cativo no Um Jeito Manso e que, somo é sabido, eu adoro, interpreta (maravilhosamente) mais uma composição de Lecuona.
*
Desejo-vos um sábado (chuvoso e ventoso) bem aconchegado e feliz.
E, se possível, cheio de amor ou de vontade de o encontrar.
*
PS: Volto às entradas no Um Jeito Manso através de palavras que se escrevem nos motores de busca. Gosto sempre de ver estas estatísticas. É o meu momento Monty Python. Farto-me de rir e, frequentemente, acho que não faz sentido pois não percebo como, escrevendo aquilo no google, se vem parar aqui.
Hoje para além de algumas mais 'normais' como 'Kandinsky', 'Chirico', 'alfarrabistas na guarda', 'antiquários', 'grandes cavalos azuis', 'Ana Drago', etc, lá voltou a aparecer, e mais do que uma vez, 'mulher de vítor gaspar' (pessoa de que nunca falei nem imagino quem seja), e, reparem bem, estas duas que me deram que pensar: 'Preferência dos portugueses nas relações sexuais' e, imagine-se, 'susana desdentada'.
Alguém escreveu 'susana desdentada' (quem será ela?) e veio cá parar. Tentei reproduzir o facto para ver a que mensagem ia ter mas não descobri. Só espero que não fosse parar à mesma mensagem a que se vai ter quando se quer saber qual a preferência dos portugueses nas relações sexuais.
No seguimento do texto de ontem sobre o casamento (ou sobre os relacionamentos a dois, em geral), hoje temos uma aula prática ou, melhor, um workshop em seis actos ou, melhor ainda, um conjunto de case studies. Escolham. Ficarão em boa companhia, seja com quem for.
Alguns dos filmes já aqui apareceram mas repito-os inseridos neste contexto. Pela qualidade, espero que me desculpem o déjà-vu.
Faço o aviso como se faz em relação a alguns números arriscados: não devem ser repetidos em casa (pelo menos sem o apoio de especialistas). Estão aqui mais para ilustrar situações - e, sobretudo, estão aqui porque são belos filmes, belos actores, belas realizações, belos argumentos (uns mais que outros, claro, mas tem que haver oferta para todos os gostos).
A amante do tenente francês com Meryl Streep e Jeremy Irons
Ligações Perigosas com John Malkovich, Glenn Close, Michelle Pfeiffer
Annie Hall com (e de) Woody Allen e Diane Keaton
Alguém tem que ceder com Diane Keaton e Jack Nicholson
Closer com Julia Roberts, Clive Owen, Jude Law e Natalie Portman
As Pontes de Madison County com Meryl Streep e Clint Eastwood
Tenham um belo dia. Esqueçam a crise. Nada podemos fazer senão viver o melhor que conseguirmos.
A idade da inocência, da autoria de Edith Wharton, foi publicado em 1920 e Prémio Pulitzer. Em 1993 Martin Scorcese dirigiu com mestria o filme em que Daniel Day-Lewis e Michelle Pfeiffer vivem uma improvável e ardente paixão. Desempenhos brilhantes. Mas, sobretudo, um ambiente que me encanta, palavras que soam muito bem ditas por quem as diz de forma sentida.
Hoje não me apetece falar de António José Seguro, baço, velho desde que nasceu, ou mesmo de Francisco Assis (de quem gosto, apesar de ter preferido António Costa), das reuniões entre o PPC e o PP (que deve andar com as orelhas a arder), nem me apetece falar de todos estes comentadores que enxameiam as televisões, estão por todo o lado, cada um dá palpites e todos se repetem, sabem todos muitas coisas mas não dizem nada de relevante. Que falta de paciência para tanto papagaio.
Hoje só me apetece ouvir música como a que coloquei no post abaixo, ir ler um livro que comprei hoje (Camera Work, Alfred Stieglitz) e ver filmes assim, perfeitos.
Falo de Chéri, com Michelle Pfeiffer e Rupert Friend num filme de Stephen Frears (o realizador de Dangerous Liaisons), numa adaptação de dois romances da autoria de Colette.
Imagino que seja um filme agradável, soft, bom para uma tarde descansada. Parece que a emoção se concentra nos últimos minutos, e digo que parece porque ainda não vi o filme - espero vê-lo este fim-de-semana.
Chéri é o jovem amante de Lea, uma sedutora com mais de 50 anos. Ou seja, a bela Michelle no papel de uma cougar.
(...e isto sou eu, subconscientemente, já a antecipar o fim-de-semana...)
Nestes dias pesados, quase angustiantes, em que as notícias de chumbo se sucedem, em que nos deparamos com uma situação económica e financeira aflitiva, em que nos vemos entregues a amadores, a gente sem substância, sem visão, sem dimensão, a malabaristas de quinta categoria... acho que uns momentos de boa disposição (e até de alienação) não fazem mal nenhum. Aliás, acho que é com pensamentos positivos que enfrentaremos melhor a agonia em que começámos a entrar.
Num dia em que no Reino Unido se soube que Cameron vai imitar os manos Castro em Cuba, indo pôr fim a 500.000 empregos na função pública (uma redução de 24% ), em que a França se encontra a ferro e fogo com cerca dos 25% dos postos de abastecimento de combustível esgotados, num dia em que, no Brasil, José Serra foi agredido por apoiantes da D. Dilma Rousseff, por cá as coisas estão, como de costume, de uma mediocridade cinzenta, rasteira.
Os 'heróis do mar, nobre povo, nação valente' parece que se esgotaram nos idos da história.
Já me custa ver o Sócrates e a sua trupe que tenta sobreviver a todo o custo, o Pedro Passos Coelho e a sua trupe já desafinada e ainda a procissão vai no adro, as franjas repetitivas e antiquadas (BE, PP e PC) apenas a quererem tempo de antena, os comentadores babando com tanta notícia, tanta trica, tanta antecipação de sangue, até farejando já o fim da soberania....
Com este clima deprimido e tudo tão igual, sem uma palavra fresca, sem uma ideia nova, até achei graça à desbocada Manuela Ferreira Leite a dizer que deviam mandar prender os trapalhões que fizeram aquela porcaria de orçamento...
Tristeza.
Alienemo-nos, portanto, um bocadinho... Vejamo, então, a experiente e irresistível cougar e a sua jovem presa.