Mostrar mensagens com a etiqueta Sérgio Godinho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sérgio Godinho. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, março 22, 2024

Sérgio


Com um brilhozinho nos olhos, hoje é o primeiro dia do resto da tua e da minha vida. Essa é que é essa. E o resto vem por acréscimo.

Claro que antes foi um stress. Não há um lugar para estacionar, um único, nem ali nem nas redondezas. O parque dos Restauradores também cheio. E um trânsito do caraças. Taxis e Ubers a largarem clientes junto aos hotéis. Ou seja, demorado, a tirar bagagem, a agradecer, tudo nas calminhas, e a gente atrás a ver o tempo a escoar-se. Depois os sentidos das ruas... Tendo ambos trabalhado por ali durante anos e dir-se-ia que conhecendo a zona da Av. da Liberdade de olhos fechados, agora foi assim: 'vira aí que ou se arranja aí ou viras para baixo e entras outra vez na avenida.'. Está bem, está, não dá para virar ou, se dá, depois, não dá para virar para baixo. Voltas e voltas e o tempo a desaparecer... Uns nervos.

Há um ano longe do bulício das zonas e dos períodos de trânsito, coisas assim já nos enervam. 

Resultado, fomos para a direita, por cima, pela Mártires da Pátria, para tentar o parque do Martim Moniz. E foi o que nos valeu. 

Dali ao Coliseu é um pulinho a pé. 

Com isto já estávamos em cima, já à hora de começar. Lançados que íamos, dirigimo-nos à pressa para a entrada. Até que começámos a ver que estávamos com uma fila de gente ao lado. Incrédula, perguntei se era para o Sérgio. Era. Uma fila gigante. Que remédio, voltámos para trás para nos pormos no fim. Mas atrás de nós continuou a juntar-se gente. Certamente gente que passou pelo mesmo que nós. Conclusão: não dá para ir de carro lá para o pé.

Foi sentarmo-nos e o concerto a começar.

E foi bom, bom.

Claro que o Sérgio tem para aí uma dúzia de canções que são fantásticas, icónicas, cantantes, colectivas. As outras -- e que me desculpem a heresia -- são, sobretudo, mais do mesmo, meio chatas. Mas a dúzia fantástica, mais as do Zeca que cantou, mais aquelas em que teve a companha do Canto Nono e da Garota Não valeram muito, muito a pena, foi uma festa, uma alegria, momentos de partilha com toda a gente a cantar e a bater palmas para acompanhar.

E depois aquela surpreendente memória do meu marido que sabe a letra de todas as mais antigas, incluindo uma de que não tinha qualquer ideia com letra do O'Neill. Incrível.

Viemos de lá todos felizes da vida.

Claro que, depois, ao entrar no parque do Martim Moniz, todas as portas fechadas... Valeu que outras pessoas ali tinham também o carro e algumas já sabiam que, a esta hora, só pela rampa. Acho que isto para evitar que transformem as escadas mais em casa de banho do que já são de dia.

Só tenho pena de não ter jeito para fazer vídeos de jeito. Por isso, aqui vão os Vampiros no meu mal-amanhado registo e que, lá, foi arrepiante, um momento maravilhoso.


_________________________________________

E uma bela sexta-feira

Saúde. Alegria. Paz.

domingo, julho 04, 2021

Passou um mês

 



Dia muito agradável, em especial pela tarde. Parte da família esteve cá de visita e também um casal que, não sendo biologicamente da família, é, na verdade, como se fosse. Já deviam ter vindo cá há muito tempo mas, pandemia oblige, ainda não se tinha proporcionado. 

Hoje calhou e foi um misto de visita de amigos e de visita de médico. Vou descobrindo coisas sobre mim e o mais aborrecido é que não têm sido boas notícias. Até ver, nada de cair para o lado mas, também, nada que alegre. Mas, enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar -- e aprendendo a viver com as circunstâncias que nos calharam na rifa. Não é bom? Paciência. É o que é.

Há um lado perverso nisto: enquanto a gente vive na ignorância, não pensa, não se preocupa. Quando se conhece e as coisas têm um nome, aí, as coisas ganham outros contornos.

Por exemplo, tenho para aqui estado a ler artigos e a ver vídeos sobre o que antes desconhecia e que, afinal, tem tanto a ver comigo. 

Tirando isso, fiquei contente por terem gostado da casa. A minha menininha linda andou a fazer as honras, toda contente por andar a mostrar a casa. Desde o primeiro dia em que qualquer deles cá veio sentiram esta casa como um ponto de reunião. Não hei-de esquecer-me do menino que corria de divisão em divisão, rindo, e, mostrando a incredibilidade, exclamava: Não admito! Não admito isto! até que a mãe descodificou: queres dizer 'não acredito'? E ele, nem aí, acho que quer dizer 'não acredito'

Fico muito feliz por perceber que os meus meninos gostam muito de cá estar. Aliás, acho que toda a gente (os poucos que ainda cá vieram) gostam desta casa tão luminosa e acolhedora.

Hoje não reguei os vasinhos mas acho que também não devem precisar pois de tarde choveu uma chuvinha miúda. Felizmente depois levantou e pudemos estar cá fora. Os passarinhos, habituados à nossa pacificidade, não se afastam e cantam de dar gosto.

À noite pus a máquina a lavar. Agora, enquanto escrevia, senti qualquer coisa a resvalar na cabeça. Era uma das florzinhas que a minha menina me ofereceu e que prendi no alto da cabeça. 

Escrevo sobre estas minhas coisas, coisas de nada, porque não encontro na actualidade temas que me pareçam especiais. Entre variantes deltas, números crescentes e a especulação sobre o acidente que vitimou um trabalhador que atravessava a autoestrada, pouco mais há.

Faz exactamente um mês que fui transportada de ambulância de uma clínica para um hospital, ficando lá em observação até à hora de almoço do dia seguinte. Foi uma experiência que não quero esquecer. Estive lá menos de vinte quatro horas mas todas as vinte e quatro horas de todos os dias muitas outras pessoas ali estão, sofrendo, algumas na ignorância do seu estado, outras muito conscientes e ainda mais sofredoras. Poderia falar da falta de espaço, da falta de privacidade, e tudo isso seria verdadeiro e crítico. Poderia falar dos cheiros, poderia falar dos gritos e dos choros, e tudo isso seria verdadeiro.

Mas prefiro centrar-me num outro aspecto: doentes com patologias do foro mental deveriam estar em salas diferentes. Estarem, maca a maca, com doentes 'normais', desestabiliza-os e os seus comportamentos desestabilizam os 'normais'. E claro que ponham aspas com fartura em torno dos normais porque, a bem verdade, ninguém ali está muito 'normal'. De tudo o que ali passei e de tudo o que assisti, o que mais me perturbou foi a jovem suicida. Deixou-me mesmo muito perturbada. Tive muita vontade de sair da minha maca e ir falar com ela. Mas ela estava rodeada de enfermeiros, não faria sentido ir eu para ali armada em expert. Que será feito dela? E que impressão me fez o ar 'normal' dela quando saíu, com alta. Como poderia parecer tão 'normal', tendo atentado contra a sua vida poucas horas antes, tendo hábitos suicidas há tanto tempo, segundo ela própria disse? Como disfarçava bem o que lhe ia na alma... 

O jovem que falava compulsivamente, ameaçando médicos e enfermeiros, também me deixou incomodada. E a jovem mulher, aspecto bem comportado, muito compenetradinha, que apareceu pela mão do jovem marido que não a largava, ali onde não eram permitidas visitas ou acompanhantes, também me fez muita impressão. O rapaz não tirava os olhos dela, ar preocupado. E ela sorrindo, tentando parecer 'normal'. Ou a senhora que sofria maus tratos do filho, ar tão envergonhado, cabeça baixa enfiada entre os ombros subidos, mas, não tendo mais para onde ir, estava era preocupada por ele não atender o telefone, não aparecer a saber dela ou a buscá-la. 

Tantas tragédias ali, lado a lado, partilhando choros e gritos, num espaço tão confinado, numa intimidade forçada com desconhecidos.

Passou um mês. Talvez daqui por algum tempo eu já esteja noutra e tudo isto me pareça coisa remota. Mas não quero esquecer-me. A área da Saúde tem que ser amparada. Não é apenas desgastante para quem lá trabalha: é também muito mau para quem se vê atirado para uma situação destas. Poderá dizer-se que conhecer esta realidade nos faz bem, nos dá a conhecer o lado mais frágil da nossa existência. Mas, independentemente de nos fazer bem ou mal, há a situação vulnerável de quando ali estamos -- e, por uma questão de dignidade e de direito ao respeito, deveríamos estar noutras circunstâncias, não naquelas.

O tempo passa assim, quase sem a gente dar por ele. Passou um mês. Estou aqui na minha sala e a esta hora, outros homens e mulheres estão lá, macas coladas umas às outras, ouvindo os choros e os gritos, partilhando sofrimento e medo.

Só desejo que não me veja de novo em tal situação. Tal como muito sinceramente desejo que nenhum dos que me são queridos nem nenhum de vocês aí desse lado se vejam um dia numa situação daquelas. É sempre melhor sentirmo-nos acompanhados, tranquilos, protegidos, seguros, a nossa privacidade respeitada e, não menos importante, podermos ter algum dos nossos por perto. 

Mas, enfim, bola para a frente. Há estrada para andar...? Há ventos e mar? Então, bora lá, malta, vamos continuar.


___________________________________________________________

Pinturas de Henri Rousseau ao som de 'A gente vai continuar' numa interpretação de Jorge Palma com Sérgio Godinho

___________________________________________________________

Bom. Para isto não ser pesado para além da conta, termino com um vídeo que mostra uma casa  com muita vida e muitas histórias lá dentro

Apê de Elisa Lucinda reúne artesanato, poesia, teatro e histórias encantadoras 

| Pode Entrar


________________________________

Desejo-vos um feliz dia de domingo

sexta-feira, agosto 14, 2020

Quando não tem que ser





Pois é. No primeiro dia que fomos ver a casa, fomos com o senhor da agência. Quando entrámos, o meu marido apontou para as espreguiçadeiras e disse: 'está gente em casa'. Havia roupa nas costas das cadeiras. O da agência fez um ar admirado e disse: 'Disseram-me que não'. Quando abriu a porta, ficámos parados à porta. Da porta via-se toda a sala, tudo amplo, o chão em madeira, as paredes brancas, as paredes em vidro -- e via-se uns sofás amplos, em cinza claro, com um portátil aberto na mesa, uns óculos de aros de tartaruga, uma camisa de linho ao lado. O da agência estacou: 'Mau... Não me sinto nada confortável com isto... Informei que vinha cá. Não percebo.'. O meu marido, que não é dado a grandes estados de alma, limitou-se a perguntar: 'Que é que fazemos? Entramos ou não entramos?'. O da agência, atrapalhado, sem saber mesmo o que fazer: 'Pois... não sei... dá ideia que está cá gente...'. O meu marido procurou a campainha. Não encontrou. Perguntou, alto: 'Está alguém?'. Eu bati palmas. O da agência pôs-se ao telefone, ar aborrecido. Ouvi-o a dizer: 'Pá, computador aberto, óculos, lá fora roupa nas espreguiçadeiras, pá, eu avisei, disseram que sim'. Perguntei: 'Mas a casa ainda está habitada? Tinha percebido que não...?'. O da agência, desconcertado, que não, desabitada. Entretanto, eu, cusca, fui avançando. O meu marido também. Todos de máscara, bem entendido. O meu marido, avisou-me: 'Não mexas em nada'. Isto do covid mexe com ele. Espreitei para uma divisão mais do que ampla, com recortes de vidro na parede. Uma cama muito larga. Se calhar, uns dois metros de largura. A roupa de cama, tudo em branco, toda revolta, uma peça de roupa, branca, caída ao lago da cama. O da agência, incomodado, ao ver a cama toda mexida, voltou a dizer: 'Mau'. 


Mas a verdade é que fizemos a visita. Pé ante pé, a medo. Em especial quando espreitámos a casa de banho desse grande quarto, íamos um pouco atrapalhados. Convenci-me que podia estar a caminho de dar com alguém nu, no banho. Melhor: de pregar o susto da vida a alguém. Mas não, ninguém. Aliás ontem fiz confusão. A primeira vez que lá fomos foi assim. Na segunda vez é que fomos com o meu filho e família. Na primeira passou-se esta cena misteriosa. 

Dias depois de lá termos ido, de novo, o meu filho, que estava maravilhado pela casa, voltou a passar por lá. Carros à porta, vozes e animação vindas do jardim. Perguntei ao da agência: 'Afinal o que se passa? Parece que está mesmo gente por lá...'. Ele confirmou: 'Já lá passei várias vezes e vejo sempre carros e ouço vozes, risos.'. Perguntei: 'Mas terão a casa alugada?'. Ele disse: 'Dizem-me que não, que apenas, às vezes, emprestam a casa a amigos.'. Mas a verdade é que deixaram de responder à proposta que voltámos a fazer para nos aproximarmos do que eles queriam. Insistimos. O da agência, constrangido: 'Pois, não sei o que vos diga. Dá ideia que perderam o interesse em vender, não respondem. E, é verdade, está sempre gente por lá.' Perguntei: 'Mas não serão eles? Os donos? Se calhar estão na sua própria casa'. Explicou que não. 'Não, não. Os donos vivem fora. Nós falamos é com o procurador deles.'.


Durante algum tempo ainda alimentámos a expectativa de que o mistério se resolvesse e que os donos dessem o ok que faltava para se avançar para a formalização. Mas, ao mesmo tempo, eu não estava a ver como aproveitar alguma coisa dos meus tarecos numa casa daquele género. O meu filho, então, desenhou, de cabeça, as plantas e alçados e etc da casa, estimou medidas e tentou demonstrar como a casa ficaria em harmonia com o seu projecto inicial mesmo que aproveitando alguns dos meu móveis.

Mas o meu sexto sentido dizia-me que se calhar não, que o meu caminho não se faria por ali. 

Nas casas, como nos amores, a coisa tem que ser fuida, sem escolhos, sem mas-mas, sem pulguinha atrás da orelha, sem reserva, sem desconfiança. Não se ama verdadeiramente uma pessoa e, ao mesmo tempo que se quer que seja amor total, em segredo se pensa que o diabo é aquela voz de gaitinha, aquele perfume incomodativo, aquele hábito de fazer aquilo que, no fundo, não tem nada a ver connosco. Isso não é amor, isso é uma ficção. Amor que é amor vai com tudo, de cabeça: gosta-se de tudo, é tudo bom, a voz, o cheiro, a forma de beijar, a maneira de ser, a forma de dizer, a forma de andar, a forma de estar em grupo ou em privado connosco. Numa casa é a mesma coisa: casa que nos vai fazer felizes tem que ser assim, amor total, gostar-se de tudo. Mais: tem que se sentir que a retribuição é total. Tal como no amor, o investimento deve ser equivalente, sobretudo o investimento emocional. A entrega deve ser na mesma medida. A casa também. Temos que nos sentir virtuosamente acolhidos por ela. Não pode haver funfuns e gaitinhas, ai tanta janela, ai que quase nem tem paredes, ai onde é que vou pendurar os meus quadros?


Pensei: não tem que ser. E falei com o meu marido: vamos esquecer. Ele disse: 'Também acho.' Aliás, quando eu dizia que os outros não respondiam, que parecia que afinal já não queriam vender, ele dizia que devíamos era mandá-los a um certo sítio. 

Portanto, embora percebendo o desgosto dos três manos e respectivos progenitores, fiz write off da casa de sonho. Já era. Bye bye. Quando se percebe que não tem que ser, que não tem a ver connosco, o melhor é dar as costas, mandar à fava, esquecer, não pensar mais nisso. E sou assim mesmo: quando desisto, vejo defeito que antes parece que não via, vejo mil razões para tirar daí o sentido. Fecho a porta. Não existiu.

E, portanto, no que à casa diz respeito, depois dessa expectativa gorada voltei à estaca zero.

____________________________________________________

Pinturas de Rudi Patterson 
a acompanhar Jorge Palma (aqui com Sérgio Godinho): 'Quem és tu, de novo?'

________________________________________________________

E sejam felizes, está bem?

domingo, fevereiro 21, 2016

Espalhem a notícia


O mar atrai os apaixonados. A cor que é variável, o movimento que é dança, a dobra espumada que é renda de lençol, e o perfume, a braveza, o inexplicável.

E depois a vastidão: a lonjura, os largos horizontes que prometem espaceza para muito amor, e os céus que trazem a paz por que os corações anseiam. 

E depois também o ocidente, o muito ocidente, o mais ocidente que há, depois dele só o oceano, o oceano infinito, o misterioso oceano que leva a novos mundos. 

E em cada escarpa, em cada miradouro, em cada recanto, como se estivessem sozinhos no mundo, é vê-los, aos casais abraçados, olhando o mais para lá, esperando que o tempo e o espaço seja a sua acolhedora casa. Forever.

Por isso, há uma outra dimensão a acrescentar ao que se vê quando por aqui se anda: o amor.

Espalhem, pois, a notícia.




Espalhem a notícia
Do mistério da delícia
Desse ventre
Espalhem a notícia do que é quente
E se parece
Com o que é firme e com o que é vago
Esse ventre que eu afago
Que eu bebia de um só trago
Se pudesse


Divulguem o encanto
Do ventre de que canto
Que hoje toco
A pele onde à tardinha desemboco
Tão cansado
Esse ventre vagabundo
Que foi rente e foi fecundo
Que eu bebia até ao fundo
Saciado


Eu fui ao fim do mundo
Eu vou ao fundo de mim
Vou ao fundo do mar
Vou ao fundo do mar
No corpo de uma mulher
Vou ao fundo do mar
No corpo de uma mulher bonita


A terra tremeu ontem
Não mais do que anteontem
Pressenti-o
O ventre de que falo como um rio
Transbordou
E o tremor que anunciava
Era fogo e era lava
Era a terra que abalava
No que sou


Depois de entre os escombros
Ergueram-se dois ombros
Num murmúrio
E o sol, como é costume, foi um augúrio
De bonança
Sãos e salvos, felizmente
E como o riso vem ao ventre
Assim veio de repente
Uma criança


Falei-vos desse ventre
Quem quiser que acrescente
Da sua lavra
Que a bom entendedor meia palavra
Basta, é só
Adivinhar o que há mais
Os segredos dos locais
Que no fundo são iguais
Em todos nós

___

Fotografias dedicadas ao Leitor P. Rufino que gosta ver casais enamorados quando anda a cavalgar as rochas à beira deste mar.
___

E queiram continuar para o post abaixo onde se mostra como são belos e inspiradores estes lugares a ocidente.

...

quarta-feira, dezembro 09, 2015

Há um ponto sem chão nem ponte em que só é preciso abrir os braços e voar


O rio corre a teus pés, chama-te, parece uma cama macia e azul. Mas não queres ouvi-lo, viras-lhe as costas. Pareces querer esquecer aqueles outros dias.


Eu não. Recordo esses dias de dança e núpcias. Recordo tão bem. O rio como um quarto azul. Dizias, então, ao meu ouvido:
Agradeço ao amor os poemas que há
no céu e o fazem parecer azul

próprio para olhar recordar
demorada e esquecidamente

E eu pedia-te que parasses, a tua voz sussurrante junto à minha pele fazia-me arrepiar, toda eu me encolhia no aconchego da curva do teu ombro. Mas tu não paravas. Segredavas-me indecências, levavas-me para as lonjuras em que eu tudo esquecia, tudo perdoava:
Aqui
o murmúrio da cama
a falar por nós

Bem ao longe
o mar
os gritos das gaivotas

A cama, o mar, os gritos das gaivotas. Nós. Recordo tão bem. Recordo tudo, os sonhos que me trazias escondidos nas dobras das palavras, recordo os abraços que inventavas para me poderes ter junto a ti, recordo os sorrisos alados com que perfumavas a tua voz doce, recordo-me tão bem. 

Deixava-me enlevar, sabes bem, presa ao azul que se desprendia do teu olhar que me domava, deixava que os meus olhos se deixassem beijar, longamente, longamente. Tão largo o teu amor, tão largo. Abarcava o horizonte todo, abarcava o meu querer. Rendia-me. Não sou de me render, sabes bem, mas pela tua voz que me segredava poemas e promessas proibidas, pelos teus tentadores murmúrios, pela tua pele, pela força dos teus braços eu rendia-me.

Quando me vias assim, em paz, quase adormecida, fascinada pelo sossego que se desprendia do teu amor, brincavas: dizias que voavas; então porque não voas? Desafiavas-me. Tentavas-me. Sempre o fizeste. Malicioso, rodando os olhos pelo meu corpo, as mãos deslizando pela minha pele, testavas-me: Não és gaivota? Então porque não voas?

E eu, que gosto de ser tentada, mostrava-te a marca dos teus beijos no meu ombro e dizia-te: Sou sereia, vim do fundo do mar, trago ainda comigo as algas com que me adornaste. Lembras-te de como me enfeitiçaste, de como me cobriste com o teu corpo de deus das águas, lembras-te? E tu rias: Então, sereia, porque não mergulhas? Vai, vai. Gaivota, sereia, mulher.

E, então, eu olhava-te nos olhos, desafiava-te, era a minha vez: Então porque não voo? Vou, vou, voo. Ciciava-te ao ouvido, uma e outra vez, Vou, vou, voo. E, quando te sentia acariciado, vencido, voava, voava para a outra margem, para longe de ti. E dançava, dançava sobre o mar, dançava de costas para ti, nua, rente às águas, os cabelos molhados como algas, a luz do luar iluminando o meu olhar, dançava, fingia que te esquecia, fingia que te abandonava. 


Vendo-me, então, assim, mulher-gaivota dançando sobre as águas, assustavas-te. Pensavas e se eu me afogasse?, e se eu me perdesse?, e se eu fosse com as nuvens?, se eu procurasse outras paragens? Viravas as costas, como agora fazes, não querias ver, não querias que eu te visse sofrer. Mas, de longe, eu ouvia-te suplicar: Vem, vem.

E, então, eu voava para junto de ti, para os teus braços, para o teu corpo que me aquecia, para as tuas palavras que me beijavam. E tu sorrias, todo tu sorrias, lembro-me tão bem, sorrias e envolvias-me e dizias-me: Ainda bem que voltaste. 


Por isso, não me voltes as costas agora. Olha para mim, olha. Recorda comigo esses tempos. Diz comigo, diz baixinho, diz ao meu ouvido, como antes:

Era como uma praia
uma praia difícil de alcançar

e eis-nos lá, sem nunca lá ter ido
Demos-lhe um nome - quarto azul

Volta-te, pois, para mim. Sempre voltaremos um para o outro, sabes isso. Sempre nos amaremos no quarto azul, no nosso quarto azul. 
No corpo que é de um
e que é do outro
E aqui viveremos muitos anos.
....


.....

Os poemas ou excertos de poemas bem como o título do post fazem parte de 'O quarto azul e outros poemas' de Rui Caeiro.

Jorge Palma e Sérgio Godinho interpretam, juntos, 'A noite passada'.

As fotografias foram feitas esta terça-feira no Ginjal.

...

Convido-vos, ainda, a descer até ao post já aqui abaixo onde continuo pelo Ginjal, desta vez por entre a decadência suave e bela das suas casas abandonadas.

...

quarta-feira, novembro 25, 2015

António Costa: Primeiro Ministro de um Governo PS com o apoio do BE e do PCP. Chegou a hora da esquerda.
Enfim duma escolha faz-se um desafio, enfrenta-se a vida de fio a pavio, navega-se sem mar, sem vela ou navio, bebe-se a coragem até dum copo vazio.
E vem-nos à memória uma frase batida: hoje é o primeiro dia do resto da tua vida






A principio é simples, anda-se sózinho
Passa-se nas ruas bem devagarinho
Está-se bem no silêncio e no borborinho
Bebe-se as certezas num copo de vinho
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
Dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
Diz-se do passado, que está moribundo
Bebe-se o alento num copo sem fundo
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida


E é então que amigos nos oferecem leito
Entra-se cansado e sai-se refeito
Luta-se por tudo o que se leva a peito
Bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
Olha-se para dentro e já pouco sobeja
Pede-se o descanso, por curto que seja
Apagam-se dúvidas num mar de cerveja
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida


Enfim duma escolha faz-se um desafio
Enfrenta-se a vida de fio a pavio
Navega-se sem mar, sem vela ou navio
Bebe-se a coragem até dum copo vazio
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E entretanto o tempo fez cinza da brasa
E outra maré cheia virá da maré vaza
Nasce um novo dia e no braço outra asa
Brinda-se aos amores com o vinho da casa
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

......

Até agora, António Costa mostrou ser um jogador implacável. Muitas vezes aqui o censurei por, ao longo do período que mediou a sua eleição para liderar o PS e as eleições para as Legislativas parecer adormecido. Não se via o PS. Os PàFs punham e dispunham e o PS nada. Os PàFs, com arrogância, saltavam em cima de um PS que parecia apático -- e os eleitores iam-se desvinculando e aderindo a um BE que nos aparecia lutador e determinado. Os socialistas pareciam desaparecidos. Apenas António Costa aparecia e, ainda assim, pouco. Depois, a própria campanha eleitoral foi um desastre, a começar pela pirosice e amadorismo dos cartazes, pelas gaffes, pela falta de ânimo e de organização.

As sondagens iam mostrando o impensável: quando haveria condições para mostrar ao PSD e ao CDS que o descontentamento era total, o PS fraquejava, incapaz de capitalizar esse descontentamento, incapaz de descolar.


Na noite das eleições fiquei francamente desanimada. O PS não conseguiu ser o partido mais votado já que essa maioria foi para os PàFs, embora uma maioria relativa. A maioria dos eleitores tinha mostrado que preferia uma alternativa à política de destruição levada a cabo por um governo incompetente e composto por gente impreparada e servil face aos 'mercados' mas os votos tinham-se dispersado pelo PS, PCP e BE. E, para mim, face ao historial de anos e anos, jamais as esquerdas teriam a elevação necessária para se unirem com vista a vencer aqueles que combatiam e que tão mal tinham feito ao País.

Contudo, nessa noite, estranhei o tom sereno e bem disposto de Costa e percebi que estava longe de se preparar para atirar a toalha ao chão e entregar os pontos. Vi-o animado como nunca o tinha visto na campanha. O seu sentido de humor, a sua inteligência, a sua capacidade de pôr uma máquina em movimento estavam ali, inteiras. Parecia pronto para se pôr em marcha. 

De seguida, nessa noite, Leitor que muito prezo enviou-me a imagem aqui ao lado e disse que o cavaleiro não estava derrotado -- pelo contrário, já estava pelejando já que não era qualquer um que metia medo a cavaleiros endurecidos por batalhas anteriores. Gostei de ler. Animou-me.

Pouco depois, para minha absoluta surpresa, Jerónimo de Sousa deu o tom: o PS teria condições para formar governo. Já antes, na campanha, no debate com Costa, Catarina Martins tinha mostrado idêntica abertura.

E isto mudou tudo. Tudo. Inesperadamente o jogo virou.

A partir dessa altura, António Costa foi de uma eficácia tremenda. Admito como provável que, já antes das eleições, tivesse havido conversas entre eles mas, seja como for, o que sucedeu em Portugal daí para cá foi inacreditável. Contra uma direita em histeria e para quem valia tudo, contra um presidente pequenino, muito pequenino (e não o digo no sentido mignon do termo: digo-o referindo a sua mesquinhez, mediocridade, bairrismo bacoco), contra uma comunicação social minada, contra os cépticos e medrosos do seu próprio partido, António Costa seguiu em frente com uma firmeza e serenidade a todos os títulos notáveis.


Em todo este processo, é de salientar a inesperada e corajosa posição do PCP. Uma reviravolta destas poderia macular a sua identidade e a sua idoneidade. Contudo, Jerónimo de Sousa tem credibilidade, tem uma inteligência prática e a elegância de um príncipe.  Conseguiu uma inflexão no rumo do PCP que mostram que tem uma personalidade superior. Percebeu que o interesse do país e a própria sobrevivência do partido se jogavam nesse momento e, com uma capacidade de liderança formidável, imprimiu honorabilidade a este processo e é essa honra que transparece na atitude destes comunistas que garante o empenho que vão ter no apoio a este governo.

Quanto ao Bloco de Esquerda, Catarina Martins conseguiu a proeza de atrair, como um pára-raios, a esquerda criativa, lutadora, sem lastro do passado. Arguta, empática e decidida, os debates em que participou mostraram uma mulher bem preparada, aguerrida. E depois há Mariana Mortágua: uma fera na argumentação, voz baixa, temível. Prepara-se para os debates como poucos. Tem qualquer coisa de animal feroz. Aquele killing instinct que transparece em Sócrates, tem-no ela também. Li que Francisco Louçã e João Semedo assessoraram Catarina Martins e, portanto, estão igualmente de parabéns.


Uma esquerda assim é uma mais valia num país débil como Portugal. Assim consigam sempre manter-se unidos contra o capitalismo de casino, selvagem e desregulado, unidos a favor da industrialização e do relançamento sustentado da economia, do emprego, do desenvolvimento, do conhecimento, unidos na defesa da igualdade de oportunidades, na defesa dos mais desprotegidos, unidos na luta contra o envelhecimento, o desemprego, a emigração, o abandono escolar, unidos na defesa da cultura, do património e dos recursos naturais do país, unidos a favor de uma justiça célere, digna e justa, unidos na defesa pelo respeito e pela dignidade das pessoas. Assim saibam colocar sempre os interesses de Portugal acima dos interesses dos seus próprios aparelhos partidários.

Aqui estarei para os criticar quando achar que estão a pisar o risco, aqui estarei para os louvar quando achar que merecem.

Até ver, acredito que o Governo tem condições para ser um bom Governo. Há dois ou três nomes que me surpreenderam e não pelos melhores motivos mas talvez esteja enganada, não os conheço bem. Há dois ou três que me surpreenderam e pelos melhores motivos. E os restantes são sólidos, à prova de bala.

Gostaria de lá ver mais mulheres mas não é por se ser homem ou mulher que se é melhor ou pior (e nem sei se não terão sido algumas das sondadas que não se mostraram disponíveis -- que isto de estar ao serviço sete dias por semana, de manhã à noite, não conseguindo prestar apoio doméstico e familiar, não é para qualquer uma e, neste ponto, também ainda há grandes diferenças entre sexos)
Uma nota de rodapé para o diminuído presidente Cavaco. Nem no momento de indigitar António Costa conseguiu estar à altura. Todo o texto revela um mau perder indigno de uma pessoa que ocupa um lugar destes. Em vez de indigitar diz que indica e fá-lo desculpando-se com as opiniões dos outros. Mas sobre tão triste figura nem me apetece já falar. Não tarda vai-se embora e passará pela vergonha de sair rasteiramente pela porta baixa.
Mas como dos fracos não reza a história, esqueço o pequeno cavaco. 

Agora quero é desejar a António Costa e a toda a equipa governativa boa sorte e que preservem sempre a capacidade de perceber o que mais importa para o futuro do País e que tenham juízo, firmeza, presciência, elevação, tolerância e capacidade de negociação e, a toda a hora, respeito e amor pelos portugueses e por Portugal.


É tempo de abrir as asas - chegou a hora de voar. Hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas.

...




.....

....
  • Obtive as fotografias no Bored Panda. 
  • A canção lá em cima é, como é bom de ver, O primeiro dia do Sérgio Godinho. 
  • Guilherme Gomes diz e realiza O Mostrengo de Fernando Pessoa 
  • Queria ter encontrado um vídeo mais longo do One Thousand Pieces, e sem os dizeres apologéticos, mas não descobri. Fica este mesmo porque, pela beleza, pela criatividade e pelo harmonioso trabalho de equipa queria tê-lo aqui. A companhia é Hubbard Street Dance Chicago, o coreógrafo é Alejandro Cerrudo e a música é de Philip Glass
...

Desejo-vos, meus Caros Leitores, saúde, sorte e muita alegria. E esperança.


segunda-feira, outubro 28, 2013

Um domingo de Outubro num Porto cheio de vida (Parque da Cidade, Castelo do Queijo, as belas casas da Av da Boavista e do Campo Alegre, Casa da Música, Serralves, Jardim Botânico, etc. - com a reportagem fotográfica possível)


Tinha deixado a máquina fotográfica a carregar durante a noite mas, para minha arrelia, hoje de manhã a bateria estava a meia haste. Uma pessoa passear sozinha é coisa que não deve ter ponta de graça mas eu, que tenho a sorte de ter companhia nas minhas andanças, quando não tenho forma de fotografar fico em estado de carência, quase como imagino que fique uma pessoa a ter belas coisas para ver e não ter com quem as partilhar.

Claro que tentei dosear mas se tirei umas 20 fotografias com a máquina foi muito. Cheguei a Serralves e ela tinha-se ido. Nada a fazer. Fui tirando fotografais com o telemóvel mas está muito longe de ser a mesma coisa. Além disso, naba como sou, ainda não aprendi a passar fotografias do telemóvel para o computador. Deve ser com um cabinho mas nem faço ideia onde esteja isso. E mesmo que ainda exista, deve estar em casa e não aqui comigo in Oporto City.

O dia amanheceu cedo e, depois de um belo pequeno-almoço, ala que se faz tarde.

Durante anos o Porto fazia parte das expedições familiares anuais. Contudo, ultimamente as expedições têm sido meramente profissionais o que, em termos turísticos, é zero. Tantas vezes que venho ao Porto mas é um toca e foge que mete nervos. 

Por exemplo, por incrível que possa parecer, eu que tanto gosto de jardins e parques, ainda nem conhecia o Parque da Cidade. Toda a gente me dizia que se trata de uma obra ímpar mas, sei lá como, nunca lá tinha conseguido ir. Fiquei encantada. Enorme, harmonioso, acolhedor. Fez-me lembrar o Parque da Paz em Almada e, fui agora confirmar, de facto é da autoria do mesmo arquitecto: Sidónio Pardal. os mesmos muros e muretes, arcadas e fontes em blocos de granito, as quedas e os planos de água. Mas onde o Parque da Paz  tem elevações, grandes desníveis, este é quase plano e estende-se até ao mar. E o de Almada ainda tem muitas árvores jovens enquanto este tem árvores feitas.

De certa forma, até me fez lembrar o Parque do Retiro em Madrid. Para minha admiração (tinha ideia que o pessoal do Porto não era tanto de vida ao ar livre), vê-se muita mas mesmo muita gente: imensa gente a fazer jogging, gente a caminhar, outros a andarem de bicicleta, imensas crianças, pessoas a passearem com os cães. Claro que no parque de Madrid há, por todo o lado, gente a cantar, gente a fazer malabarismos, gente a fazer teatro de marionetas e sei lá que mais - mas, enfim, os espanhóis são espanhóis, são aquela animação que se sabe, enquanto os portugueses preferem carpir ou pôr-se armados em virgens a censurar os outros (e a gente do Porto, embora talvez diferente dos demais, não deve fugir muito à regra).

Seja como for, este Parque da Cidade é notável. Belas árvores, belos percursos, recantos, bom ar, sossego e, apesar disso, um espaço habitado, cheio de vida. 

Fomos, portanto, até ao mar. O passeio junto ao mar cheio, cheio, gente a fazer desporto, gente a confraternizar, gente a desfrutar este belo espaço. E uma coisa que também dá gosto ver: também aqui, à semelhança do que vi na Ribeira, as esplanadas  todas 'à pinha'. Aliás isto tem sido uma constante e há nisto uma diferença substancial em relação a Lisboa. Aqui, por todo o lado vejo esplanadas, cafés, pastelarias, o que for, tudo cheio. Imensa gente sentada em mesas, a lanchar, e há lojas e lojas de bolos. E é cada bolo... Enormes! E bons. No sábado, numa esplanada cheia de sol, comi uma queijada sem queijo que era uma delícia (e, em tamanho, o dobro do que se comeria em Lisboa).

O passeio junto ao mar é uma maravilha. Trazer as cidades para junto do mar, tornar as cidades aprazíves, dar aos cidadãos a possibilidade de poderem estar na natureza em segurança e com qualidade é uma das virtudes de quem governa uma cidade a pensar na sua população. Aqui vi uma jovem que parecia uma gaivota, ensaiando um voo sobre as rochas, sobre as ondas. Não sei se conseguiu levantar voo mas, se o não conseguiu este domingo, consegui-lo-á um dia. Se tem alma de gaivota, voará.


E há um caminho que sai do passeio e vai mesmo rente ao mar. Que belas caminhadas, que belas lavagens cerebrais e emocionais aqui se podem fazer. Se os meus dias livres não fossem tão escassos, por aqui me quedaria, entre a sombra macias das árvores e a braveza destas águas.

Depois viemos andando pela Av. da Boavista que tem com cada casa que dá gosto, benza-as deus. Que casarões, uns tradicionais, outros modernos, outros condomínios, uma coisa...!

No Campo Alegre também há moradias, casas apalaçadas, que mostram bem o lado abastado do Porto.

No entanto, há contrastes assinaláveis. Há muitos pobres. Há locais em que se vê gente nos caixotes de lixo ou a dormir no chão ou gente com ar de quem não tem muito para viver.

E vi uma coisa que não é frequente: muitas pensões com mulheres à porta, uma prostituição às claras. Estranhei. O meu marido diz-me que, se calhar, se passar pelo Intendente, vejo a mesma coisa. Não sei, não costumo lá passar. Aqui, é o dia todo. E ali para os lados do Bolhão até ouvimos um sujeito mal encarado a discutir o preço, que 20 euros era demais para o serviço. A sério.

Bom, retomo o passeio.

A partir daqui não tenho fotografias pelo que terei que ser meramente descritiva.

Era hora de almoçar pelo que, ficando em caminho, ali na Boavista, fomos ao BB Gourmet. Muito bom. Entradinhas frias e quentinhas, depois um prato quente (bacalhau à bráz feito com todos os matadores), depois umas saborosas sobremesas. Tudo excelente.

Dali seguimos para uma espreitadela à Casa da Música, aquele fantástico edifício, Uma vez mais me surpreendi: dezenas de miúdos fazendo skate nas rampas e contra-rampas que circundam o edifício. Nada pode ser mais agradável do que perceber como um edifício assim foi adoptado pelos jovens da comunidade em que se insere.

Depois fomos, é claro, para Serralves. Serralves é para mim um must. As exposições são frequentemente uma coisa muito estranha mas é, sobretudo, pelos jardins que sou atraída.

Pois bem, uma vez mais, não apenas o museu estava cheio como o parque estava também agradavelmente habitado. Turistas, sim. Mas uma cidade vive mais, embeleza-se, quando há uma miscigenação, quando os seus habitantes se misturam com nórdicos, com japoneses, com o que calhar. Não é bom ouvir o sotaque cerrado do puorto, carág, e, logo a seguir, uma romântica voz italiana, uma sedutora voz francesa, ou ver a elegância de uma jovem japonesa como aquela que ontem fotografei? Eu acho que só faz bem às cidades, torna-as menos ensimesmadas, abre-as à diversidade.

A seguir fomos visitar o Jardim Botânico e ver (mas apenas na entrada e por fora) a Casa Andresen, a casa da família de Sophia e de Ruben A. Já estava escuro, esta porcaria da hora de inverno dá nisto. Antes das seis da tarde e já é quase de noite.

Compras? Não deu para nada. O tempo é curto.

Mas consumista que é consumista não deixa de consumir mesmo quando o tempo é escasso. 

Então foi assim: na loja de Serralves comprei três livros, um sobre os muitos retratos de Fernando Pessoa (retratos que os vários pintores têm feito de Pessoa), outro sobre Paula Rego (várias pessoas escrevem sobre a sua obra) e um sobre a amizade entre Fenosa e Picasso.

E no sábado, em Gaia, comprei um Santo António, artesanato, uma peça bonita. Se não fosse tão tarde ia fotografá-lo para o mostrar aqui. Mas estou mais para lá do que para cá, um sono... Logo faço isso.

Depois, à noite, porque ainda não estávamos com fome para uma jantarada, andámos à procura de uma coisa ligeira e demos com uma coisa muito simpática, o Lado B, mesmo em frente do Coliseu. Mandámos vir um prego no pão à Lado B, um hamburger com abacaxi grelhado, uma salada mista e, para sobremesa, o melhor bolo de chocolate do mundo e um crumble de maçã com uma bola de gelado. Supostamente deveria estar fechado ao domingo mas a verdade é que estava aberto e repleto. E o meu marido ainda viu um bocado do futebol embora talvez preferisse não ter visto. O Sporting só lhe dá desgostos.

Já agora: no sábado à noite matei as minhas saudades do Abadia. Tão bom. A qualidade de sempre. Já lá vou faz séculos mas há algum tempo que não ia. Das últimas vezes que tenho jantado no Porto tem sido em serviço e, nessas alturas, costumamos ir a lugares onde se bebe do fino. Mas, para mim, esses lugares não têm a mística da Abadia. Pois bem; se era para matar saudades, fizemos de forma a que ficassem bem mortas: Tripas à Abadia e Duo de Bacalhau e Polvo no forno com batatinhas e couve. De sobremesa, tarte escondida de maçã e abacaxi. Tinto para acompanhar, claro.

Amanhã de manhã ainda quero fazer parte do programa que estava destinado para hoje e que não pôde ser cumprido por causa do dia ter encolhido e, a seguir, rumamos um pouco mais a norte. 

Foi apenas um fim de semana mas tão recheado que parece que estou de férias há uma porção de tempo. E agora só são mais dois diazitos mas quero lá eu saber: é o que se pode ter e é mais que bom.

Como sempre vim carregada de livros. De cada vez que faço a mala para ir a qualquer lado, não consigo evitar um prenúncio de desaguisado conjugal, Preparo-me sempre para vir com uma carrada deles, para um just in case, e o meu marido força-me a abdicar de alguns, não está para ter a mala tão carregada. Como é bom de ver ainda apenas comecei com a introdução de um deles. Li o Expresso e, mesmo assim, não foi fácil. A ver se amanhã me consigo dedicar a isso, pelo menos enquanto estiver no carro.

E pronto, por aqui me fico. Escrever neste petit notebook e com internet móvel é um suplício, uma pasmaceira, nem sei como não adormeço à espera que isto se mexa.

Para o caso desta minha soneira ter transparecido e vocês estarem também quase a dormir, aqui vos deixo 'O Porto aqui tão perto' do Sérgio Godinho.




Resta-me desejar-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda feira. 
Be happy.

domingo, março 10, 2013

Passear em Lisboa - Chiado, Largo do Carmo, S. Pedro de Alcântara, Largo de Camões, Rua do Alecrim. A beleza de Lisboa, a Magnífica, e a beleza das pessoas que por ali andam nesta tarde do início de Março.


Hoje passei parte do meu dia em Lisboa, a Bela. Uma temperatura aprazível, uns pingos de quando em vez, nada de mais, um leve cheiro a castanhas assadas e ao perfume de quem passa. Em Lisboa, Chiado, Bairro Alto, S. Pedro de Alcântara, as igrejas, a elegância, o cosmopolitismo e a tradição, a beleza, o inesperado - e eu, tantos e tantos anos a andar por aqui e sempre a vê-la como se a visse de novo. 



No Largo do S. Carlos, junto à casa onde Fernando Pessoa nasceu.
A vaca cor de laranja da Marc Jacobs, ao fundo, mostra um dos tons-tendência da saison







A seguir ao almoço por ali, subindo a escada junto à muralha que separa o Largo de S. Carlos da Rua Paiva de Andrade, por onde passava naquele momento o conhecido eléctrico 28, chegámos ao Largo do Chiado.

Lá em cima, no Largo Camões, uma concentração para dali partirem para uma manifestação. gente dos transportes.



Camões e os manifestantes


Mas, não era só ali que havia muita gente. Também o Chiado estava cheio de gente. E música. Três homens tocavam, e um homem, sentado em frente, desenhava-os. E muita gente, muita mesmo. Muitos turistas mas também muitos portugueses. Felizmente os portugueses começam a sair à rua, a viver as suas cidades.



As esplanadas da Brasileira e da Bénard no Largo do Chiado. Uma alegria no coração de Lisboa.


E, claro, um homem estátua. Há sempre um homem estátua. E música. Este hoje, dourado, acrobático, era uma figura curiosa no meio da gente que ali pára ou que por ali passa a passeio.



Elevando-se, fazendo movimentos que mais pareciam de levitação, o Homem-Dourado
Atrás, uma das muitas belas mulheres que sempre há (que sempre houve) no Chiado



Há muita juventude, gente bem vestida, gente bonita. Claro que há também a gente normal, os feios, os pouco fotogénicos. Mas eu aqui, de máquina na mão, sou despertada para a elegância, para a beleza. Tenho sempre o cuidado de escolher para colocar aqui, no UJM, imagens que não diminuam, não desfavoreçam, não revelem mais do que devem as pessoas que fotografo. No entanto, como sempre, digo que, se alguém que aqui aparece, não permitir que a fotografia onde aparece aqui esteja, deverá contactar-me que eu, sem qualquer dúvida, a retirarei.



Há blogues, como o The Sartorialist ou O Alfaiate Lisboeta,
nos quais os respectivos autores mostram pessoas, na rua, que, segundo eles, vestem bem ou são elegantes ou diferentes ou bonitos.
Eu poderia fazer um blogue apenas com imagens de pessoas nesta zona da cidade



No Chiado há também as igrejas. Não posso deixar de entrar. Estou pouco tempo e fico no cá ao fundo, junto à entrada. Mas gosto destes breves momentos de silêncio e recolhimento. Penso sempre que podia ali ficar uma tarde inteira, sentada num canto, sem pensar em nada, apenas recolhida.



Igreja do Santíssimo Sacramento, uma das igrejas muito bonitas da zona do Chiado,
silenciosas, lugares de paz e tranquilidade


Daqui chega-se à zona dos alfarrabistas, das pequenas livrarias. Tantas horas eu passei dentro destes alfarrabistas, tantos livros já aqui comprei. Durante muitos anos este era um percurso que fazia quase diariamente. Agora já só aqui venho a passeio, ou almoçar ou jantar, ou seja, esporadicamente.



Uma mulher elegante junto a O Mundo dos Livros no Largo da Trindade
A Livraria Barateira, fundada em 1914, ao fundo


Depois fui até ao elevador de Santa Justa, de onde a vista sobre Lisboa é ímpar. Sinto-me uma turista. Como acima o disse, por muitas vezes que por aqui ande, vou sempre reagir como se estivesse a ver tudo pela primeira vez - e não são palavras de circunstância mas, sim, muito verdadeiras. Parece-me sempre tudo mais bonito que antes, reparo em ângulos em que antes não tinha reparado, encanto-me, encanto-me tanto.



A Rua do Carmo vista do corredor do Elevador de Santa Justa


Lá em baixo as pessoas são figurinhas coloridas, engraçadas, bichinhos pequenos e esguios que sobem e descem a rua, apenas elementos pitorescos na orografia citadina de Lisboa.

Depois, chego ao Convento do Carmo. Num canto, encostado a uma parede, um homem cantava e quase fazia eco, uma sonoridade incrível. Nesta altura caíam uns pingos de chuva, o céu acinzentava-se, a música elevava-se no ar e eu pensava que, tal como nas igrejas, este sítio também pedia que eu me recolhesse.



As ruínas do Convento do Carmo. A pedra, as árvores, o céu de Lisboa, e as árvores nuas


No passeio, numa esquina, numa mesa no passeio junto a um pequeno restaurante, uma escritora muito conhecida conversava com um amigo e eu tive que me conter muito para não a fotografar para vos mostrar. Este texto e estas imagens são, certamente, muito normais, nada de especial mas, se aqui vos mostrasse esta escritora ali sentada, este meu post talvez ganhasse logo outro valor (que não viria do que escrevo mas da bela imagem daquela escritora ali sentada, nesta tarde lisboeta junto ao Largo do Carmo).

E há as boutiques, as lojas de design ou artesanato popular, as livrarias, as galerias.



Nica Boutique, aqui com toilettes que poderiam muito bem servir para ir aos fados


E, dali, em direcção ao Miradouro, passando pelas ruas que levam ao Bairro Alto. Arranjado, pintado, bonito, este bairro. Um dia vou ter que reservar uma tarde inteira para mergulhar por inteiro por estas ruas, becos e vielas, fotografando cada pequeno pormenor.



Bairro Alto, um dos bairros mais típicos  e mais movimentados (especialmente à noite) de Lisboa


E, depois, S. Pedro de Alcântara. Lisboa belíssima ali em frente, em baixo, ao fundo. E sempre muita gente, casais improváveis, casais apaixonados, casais a passeio, animados grupos de jovens. E solitários, dignos na sua solidão envolvida em beleza.



Lisboa tal como tantos pintores a pintaram, o casario harmonioso, docemente colorido, forrando as colinas


Dá muita vontade de fotografar tudo, antes que o sonho se desvaneça e estas imagens se esfumem. E eu gosto de fotografar quem fotografa e gostava de poder oferecer estas fotografias àqueles a quem fotografei. Mas, não o podendo, aqui as deixo.



Como uma bela Princesa que tivesse saído do Castelo de S. Jorge,
tão belo que quase parece irreal no topo das casinhas e do suave arvoredo


Princesas e Rainhas, assim as mulheres bonitas que por aqui andam. Várias. Pudesse eu pedir-lhes que posassem para mim... Tanto que eu gostaria. Mulheres belas com Lisboa em fundo.



A suave elegância de uma mulher muito bonita que, solitária, olha Lisboa


Depois, dali desci a Rua da Misericórdia. Lojas bonitas, turistas. Mas Portugal tem falta de sentido de negócio: muitas lojas fechadas. Fecham ao sábado à tarde e ao domingo. Nestes dias em que há tanto movimento, têm as portas fechadas. O comércio tradicional tem este lado negativo: tem alguma dificuldade em adaptar-se a uma certo lado mais turístico.

Adiante. Passei, então, junto ao Tavares Rico. Parei para ver a ementa. Pois: não dá. Caríssimo, como sempre. Deve ser hoje frequentado mais por angolanos ou chineses endinheirados do que por portugueses.

Para que vejam, aqui vos deixo um excerto da ementa.



Parte da Ementa do Tavares Rico: sobremesas à volta dos 18 ou 20 euros e Momentos de Outros Tempos, preços variáveis entre os 47 e os 79 euros por pessoa. É para quem pode.


E, já no final do passeio, Rua do Alecrim, uma das minhas ruas preferidas em Lisboa. Dali Lisboa desce até ao Tejo. Ali ficam as Louças de Sant'Anna, a loja de flores que perfuma a rua, os antiquários, as lojas de design. E ali, no Largo do Barão de Quintela, fica a estátua de Eça de Queirós, que tanto e tão bem escreveu sobre esta zona de Lisboa.



Eça de Queirós em Lisboa
Muito se fala sobre a modéstia do lugar da estátua que lembra Eça.
Não concordo. Este é um lugar muito belo .
(Claro que é pena estar cheio de carros de bombeiros pois o quartel de bombeiros é ali, mas, enfim, isso é pormenor)


E depois o rio. 

E depois, então, regressei a casa (mas por pouco tempo pois, nem uma hora depois, o programa continuou com Efeitos Secundários logo a seguir). Um sábado feliz da vida. E este domingo, casa cheia que descanso é coisa para a qual parece que não nasci.




*

Dado que estive o dia todo neste laré e dado que passar as inúmeras fotografias para o computador, escolher as que ia pôr aqui (e depois convertê-las para um formato mais ligeiro, o que sempre faço, para que não sobrecarreguem o blogue) me tomou muito tempo e depois compor isto que acabam de ler ainda mais, estou a acabar já depois da uma da manhã, com muito sono - e, horror! - ainda sem ter conseguido pegar no Expresso. Por isso, embora tenha lido os comentários e os mails, que muito agradeço, uma vez mais peço muita desculpa porque hoje não vou poder responder. A ver se amanhã já consigo (embora, dado o programa de festas, talvez não seja fácil).

*

E, depois disto (já deve ser a terceira ou quarta vez que aqui vos falo e vos mostro as minhas reportgaens fotográficas relativas aos meus passeios pelo Chiado, pelo que espero bem, que já não estejam fartos), só me resta desejar-vos, meus Caros Leitores, um domingo muito feliz. 

E, se puderem e se me permitem o conselho, passeiem. Não custa dinheiro e é tão bom...!