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quinta-feira, junho 04, 2026

NotebookLM

 

Estava a falar com o meu filho sobre as minhas experimentações em volta das diferentes ferramentas de Inteligência Artificial e ele falou-me no Notebook LM, uma ferramenta google que cria bases de conhecimentos privadas, analisando a informação que lá metemos, permitindo associar-lhe notas ou o que quisermos.

Fiquei logo altamente curiosa. No outro dia tinha feito uma experiência com o Claude, enfiando-lhe uma série de exames médicos relacionados com um episódio cardíaco e fiquei espantada com os resultados.

Hoje, mal me apanhei aqui no sofá, fui experimentar este NotebookLM. 

O meu ponto fraco, a nível físico, são as articulações, em especial os joelhos. Penso que seja um misto de genética, de anos de vida sedentária, intercalados por grandes esforços físicos. In heaven acartei com toneladas de pedras. A minha mãe ficava aterrada quando me via, dizia que o meu corpo iria dar de si. E, uma vez, falaram-me que não havia nada melhor para o chão de madeira do que a vaselina líquida. Claro que fui experimentar. Estava a aplicá-la, quando desataram a tocar à campainha. Aquilo era para dar e depois secar, pois, quando se dava ficava manteiga, deslizava como sei lá o quê. Mas, para ir ver quem era, levantei-me à pressa e, esquecida de ter cuidado, levantei voo, e de que maneira, e aterrei aparatosamente de joelhos. Tive uma dor monumental e pensei que tinha esfanicado os joelhos, partido todas as pecinhas que os compõem. Mas não, ficaram só muito doridos. Durante bastante tempo, andei aflita. Mas nem me ocorreu ir ao médico, limitei-me a esperar que passasse. E passou. Mas, seja porque é de família (o lado paterno padeceu de dores), ou dos maus tratos, a verdade é que volta e meia tenho alguma inflamação articular ou alguma dor muscular. Como durante anos frequentei o mesmo local de saúde, tenho praticamente todo o meu historial médico lá guardado. Então, agora estive a dar-me ao trabalho de entrar no portal, ver exame a exame, e, se tivesse a ver com o tema ou com análises feitas numa dessas alturas, descarreguei. 

Com tudo descarregadinho, abri o dito NotebookLM e criei o meu primeiro notebook privado. Meti lá para dentro 20 relatórios médicos (incluindo algumas imagens). E pedi uma cronologia e uma análise.

E a vantagem é que agora fica ali tudo guardadinho naquele notebook, não apenas os exames, como as análises 'dele' e, ainda, toda a conversa subsequente -- porque, claro está, desatei a fazer perguntas. E aquilo vai mais longe: sugere perguntas, e algumas pertinentes e de que eu nem me lembraria. Tudo guardado.

E o que 'ele' concluiu, mais uma vez, deixa-me a modos que siderada. E deixa-me assim porque constato que só uma máquina, uma máquina super aditivada, consegue, num abrir e piscar de olhos, ler todos os relatórios, analisar evoluções ao longo de anos, cruzar informação. Claro que ninguém vai para o médico de família carregado de relatórios desde antes de cristo até agora. Não há tempo ou capacidade de análise imediata de tanta informação. Impossível. Só tirando apontamentos e mais apontamentos -- mas quem é que teria tempo para fazer isso?

Perante o que vi, não tenho dúvidas que, para cada utente do SNS, deveria haver uma base de dados que juntasse todo o seu historial clínico, proveniente de onde fosse, incluindo de hospitais privados. E, de cada vez que qualquer médico, estivesse onde estivesse, deveria aceder a esse historial, tendo-lhe a Inteligência Artificial preparado um relatório de síntese, alertando para os pontos críticos, sugerindo questões ou novos exames.

No meu caso concreto, não vou estar agora aqui a entrar em detalhes que só me interessam a mim mas, por exemplo, 'ele' (ele, o notebookLM), assinalou como causa provável para as minhas crises algo de que nunca nenhum médico me falou, provavelmente porque não repararam e porque isso ficou perdido num relatório que nunca mais ninguém viu:  Constatou, num rx de 2016, o seguinte ->  Desequilíbrio Mecânico da Bacia, concretamente um supradesnivelamento de 8 mm à direita. E sugere que este desnivelamento pode ser a causa de grande parte dos problemas. Se for, resolve-se com palmilha. Imagine-se. Se ele, ele com aspas, tiver razão, os problemas que eu poderia ter evitado... Mas é a primeira vez que estou a saber disto.

Depois detectou, ao longo dos anos, uma tendência relativa ao funcionamento da tiroide. Nas últimas análises em que isso aparecia, e já lá vão uns 4 anos, ainda não era crítico mas a tender para o sub-clínico. No entanto, nunca mais ninguém pediu essa análise. Se já estiver mais elevado, também explicaria muita coisa.

A Inteligência Artificial é uma coisa tão extraordinária que, nas mãos erradas, representa riscos existenciais. E disso eu não tenho dúvidas. Mas, bem usada, traz vantagens se calhar também existenciais. Quando se diz que dentro de pouco tempo terá sido descoberta a cura para todas as doenças, isso tem tanto de magnífico como se terrífico. 

Agora, pensando apenas em usos benéficos, há que considerar o tempo de aprendizagem, a adaptação de todos, da sociedade no seu conjunto. Em vez de se andar a querer impingir leis laborais ou a discutir tretas, não seria mais ajuizado se a sociedade se mobilizasse para ver como lidar com a Inteligência Artificial? Como assegurar o seu bom uso? Como potenciar os seus benefícios? E, ao mesmo tempo, como impor linhas vermelhas?

Por exemplo: tendo eu esta informação clínica a meu respeito, compilada, analisada, interpretada, posso eu fazer alguma coisa com isso? Duvido. Para começar tenho que pensar como é que, com muito jeitinho, posso transmitir alguma coisa ao meu médico de família sem que ele fique furioso, a achar que quero saber mais que ele.

É um tema, este. E coloca-se em todas as profissões, ou quase todas.

Neste caso da saúde, se eu estivesse no Ministério da Saúde, encomendava já o projecto de que acima falei: criar um modelo de IA para concentrar toda a informação clínica de todos os utentes num único sistema, criando 'notebooks' para cada um, e gerando os relatórios, alertas e sugestões para que cada médico, ao receber cada doente, tivesse essa informação. 

Enfim. Não tenhamos dúvidas: estamos a entrar num mundo novo que era bom que fosse admirável (no bom sentido).

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Desejo-vos um bom feriado

sábado, janeiro 02, 2021

Palavras escritas de noite

 




Começo a escrever quando o dia um já virou a página. Dormi mal até que me levantei para ir tomar um comprimido. De manhã a dor nas costas já não estava só nas costas mas também na nuca. Incapaz de mexer a cabeça. Resolvi ir de imediato para a banheira para dar com água quente na nuca durante algum tempo. Reconheci que, apesar disso, estava melhor. Senti que já não estava febril e isso, em mim, faz a diferença. Pouco dormi até ir tomar o comprimido mas, depois, dormi que me fartei. O meu corpo parece que está a querer dizer-me alguma coisa. 

A minha temperatura não está nos costumeiros 36 ou abaixo mas nos 36,3º, um pouco mais do que o normal, mas nada a assinalar. Tenho é umas olheiras como nunca. Quando as vi até me assustei, pensei que tinha tido algum derrame. Depois percebi que não, que era dos dois lados, meras olheiras. Olho-me ao espelho e pareço-me uma dama do século passado, descorada, olheiras fundas, como quando se morria de amor com doenças indefinidas.

Praticamente não comi o dia todo. Estou sem fome. Ainda assim, a meio do dia fui fazer uma pequena caminhada, devagar, e não me custou tanto como ontem. Fui super agasalhada e com uma echarpe muito quente em volta do pescoço. 

A minha mãe esteve a ler os seus livros e concluiu que foi um misto de três coisas: dias de muito stress, dias de muito frio e 'as porcarias que comes'. Espantada, pergunto-lhe a que porcarias se refere se tenho uma alimentação tão saudável. 'Queijos', são péssimos, favorecem estados inflamatórios, esclarece-me. Depois fala-me do cortisol que o stress provoca e que, segundo ela, é um veneno, que deveria ter uma vida mais tranquila, que, se fosse ela, ficava numa aflição com as situações em que me meto, não conseguiria ter a vida que tenho. Digo-lhe, 'pois, mas é a vida que tenho' e, quanto ao queijo, digo-lhe que cada vez gosto mais, há queijos fantásticos. Ela diz-me que deveria cortar nos queijos, ter uma vida mais calma, agasalhar-me mais, diz que não percebe como ando sempre tão à fresca. No entanto, sabendo-me sem febre e tendo encontrado explicação para este meu estado, descansa e já acredita que não é covid.

Passei parte da tarde no sofá, entre almofadas, nada à fresca. Pelo contrário, estou bem agasalhada. Há bocado fui pôr os pés em água quente, estavam outra vez gelados. Eu toda a boa temperatura, quente, e os pés gelados. Não sei porquê. No telefonema, ao falar nisto, a minha mãe disse que deveria fazer-me umas meias de lã, bem quentes. Disse-lhe que não, que geralmente nem suporto sentir calor nos pés, que esta novidade dos pés gelados deve ter a ver com estar adoentada.

De certa forma, ainda bem que isto me aconteceu nestes dias em que, por via do recolher obrigatório às 13 e da proibição de sair do concelho, também não poderia fazer grande coisa. O pior é que não faço pouco: não faço literalmente nada. O meu filho, depois de também me fazer as perguntas sacramentais, se tenho olfacto, se tenho paladar, se não tenho tosse, ainda assim aconselha que tire as dúvidas e faça um teste e, mal acabei o telefonema, já ele me tinha enviado o link para eu saber como fazer. Mas penso que isto deve ter mais a ver com o que a minha mãe diz do que com covid. E com um quarto factor, aquilo de que falei ontem: na outra semana andei a carregar baldes de terra, bem pesados; depois, no natal, transportei sacos bem pesados de laranjas e tangerinas, e o meu corpo que não é de camponesa como por vezes gosto de me iludir mas, sim, de princesa, ou seja, de burguesa lisboeta e elitista, desde há algum tempo não se dá bem com pesos. E também não se dá bem com dias inteiros sentada, de manhã à noite, sem tempo para desentorpecer as pernas ou o espírito, que foi o que me aconteceu a seguir ao natal e aos dias a seguir ao natal.

Portanto, o meu primeiro dia do ano foi assim, verdadeiramente atípico. Mas, afinal, tinha uma peça de roupa nova para estrear. Uma blusa confortável, homewear, que a minha filha encomendou para a minha mãe me oferecer. Verde. Se sou incandescente quanto às minhas paixões, sou verde quando me visto. Creio que já o contei. Quando para aí há um ano e picos tirei para fora toda a roupa dos roupeiros e as voltei a arrumar por cores, fiquei espantada com a larga, larga, maioria de diferentes tons de verde. E acontece-me frequentemente que, quando tenho alguma reunião verdadeiramente decisiva e quero vestir-me em consonância, quase invariavelmente a escolha recai nos verdes.

De tarde e à noite, estivemos a ver filmes na televisão. O meu marido disse: 'nem sabíamos que dava para ver filmes na televisão'. Ironizava, claro. Mas nunca os víamos. Não tínhamos tempo, não tínhamos paciência, tínhamos sempre qualquer outra coisa melhor para fazer. Pois hoje, comigo neste estado, rendemo-nos à televisão. Contudo, adormeci. Depois de ter dormido tanto, pela manhã adentro, voltei a adormecer à tarde. Quando estou assim, o meu corpo vinga-se, põe-se a dormir. 

E mal vi as notícias, pouco depois de acordar, constatei que tinha morrido o Carlos do Carmo. Tem sido uma ceifa inclemente. Dá medo. A ver se o 2021 não vai pelo mesmo caminho que o malvado 2020. Tem sido uma razia. Mas, se tenho pena pelo Carlos do Carmo, e claro que tenho e não é pequena, não menorizo o sofrimento dos indefesos que estão a morrer nos lares. Esta situação leva-nos também a conhecer a quantidade imensa de lares ilegais. E, no entanto, quem ali está, está porque não tem onde mais estar, talvez porque as famílias não podem tê-los noutro lugar. Os filhos a trabalharem, com casas pequenas, sem poderem assegurar os cuidados necessários, alguma solução têm que arranjar. E os lares legais são escassos e caros face às necessidades. Deveria ser uma área de forte investimento público. O orçamento e os fundos da segurança social não dão para tudo mas terá que se arranjar uma fonte de financiamento para resolver este drama. Não podemos ter milhares de portugueses à mercê do que quer que seja -- maus tratos, cuidados deficientes --, uma triste antecâmara da morte.

Mas não é só nos lares clandestinos que as pessoas morrem às mãos cheias, é em todos os lares. E tem a ver, sobretudo, com o ar que respiram. Não podem estar de janela aberta senão ainda apanham alguma pneumonia, e, portanto, provavelmente com ares condicionados que recirculam o ar em vez de extrairem o ar viciado e injectarem ar novo, são vítimas adiadas, é só até aparecer o primeiro caso. Imagino o medo das pessoas que lá vivem, receando pela sua própria vida, esperando, solitários, que o tempo passe e não os leve. Espero bem que haja um qualquer fundo para ajudar a financiar, junto de quem não tem verbas para isso, a remodelação dos sistemas de ar condicionado dos lares. Não é justo nem digno que se faça de conta que é uma fatalidade que os nossos mais velhos, enclausurados em lares, estejam a morrer desta forma (e falo de Portugal mas, do que as notícias nos dão conta, o mal é geral).

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Quando ia começar este post, a minha ideia era falar do planeta, da maravilhosa perfeição que o habita, do respeito que nos deveria merecer, guiando todos os nossos actos. 

Facilmente poderia dizer que o amor e o respeito pela natureza são os valores primordiais da minha religião. Mas não sinto necessidade de caracterizar a minha espiritualidade pois certamente deixaria de fora aspectos também essenciais.

Contudo, as dores que sinto e o meu mal-estar tomaram conta do texto e, sem me dar conta disso, fui desfiando maleitas, coisa que, ao vivo, nunca faço. Acho uma maçada estar a ocupar tempo das outras pessoas com males que são só meus. Mas isso é ao vivo, espaço onde tenho algum controlo sobre os meus actos. Aqui são as minhas mãos que me conduzem. 

Deixo-vos, contudo, com um vídeo com a chancela BBC e a marca de Sir David Attenborough que, ao fim de tantos anos, continua a deslumbrar-se (e a deslumbrar-nos) com a espantosa beleza da natureza. Penso que no dia em que todos nós interiorizarmos que deveremos respeitar o planeta e ter como nossa missão na terra a de deixarmos um planeta melhor para os nossos descendentes, grande parte dos estúpidos problemas dos humanos desaparecerão.

David Attenborough's Jaw dropping 

A Perfect Planet 🌍


Em mais uma manifestação do perigo da Inteligência Artificial, neste caso um perigo ainda apenas antevisto e, neste caso, não concreto (pelo menos, para já), o Google Arts & Culture  tinha para me recomendar o vídeo abaixo que, de facto, não poderia agradar-me mais. Partilho-o também convosco.

Celebrating Art and Nature with Beethoven's Pastoral Symphony - First Part

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As pinturas são de Shakir Hassan Al Said

Escolhi, como música, lá em cima, Words | Gregory Alan Isakov e espero que as recebam, pelo menos alguns de vós, como uma espécie de explicação para eu deixar aqui, noite após noite, a minha pele, os meus ossos. 

Words mean more at night
Like a song
And did you ever notice
The way light means more than it did all day long?

And I'll send you my words
From the corners of my room
And though I write them by the light of day
Please read them by the light of the moon

E etc.

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Desejo-vos um bom dia -- e nem vale a pena dizer muito mais para não começarmos o ano a acumular decepções

sexta-feira, agosto 02, 2019

Ler a mente em dia do caneco e de noite povoada por quimeras




Talvez em todas as eras tenha havido isto de se achar que se está a caminhar para o fim dos tempos, tudo a degradar-se, tudo a entrar num processo de decadência acelerada. Pior: uma desintegração pouco digna. Mas talvez isto aconteça desde sempre. Talvez seja da natureza humana cavar o próprio túmulo. 

Ou, então, sou eu que, como acho de um pacovismo insuportável acharmos que somos melhores ou diferentes do que outros, prefiro pensar que somos iguais desde que nos pusémos de pé e começámos a perceber que pensamos: frágeis, incoerentes, mais irracionais do que os outros animais.

Mas enfim, isto era a introdução. Estou dada a intróitos e nem sei porquê já que, na verdade, estou até em dia pouco dado a frescura.

Estou a tentar pôr para trás das costas tudo o que hoje me caíu em cima. A começar, uma reunião em que algumas coisas ditas de forma ligeira por outros que não eu se prestaram a interpretações ao lado, conduzindo a conclusões erradas e perigosas. Depois, um conjunto de situações que me parecem pouco transparentes para o meu gosto e às quais não quero estar ligada levaram-me a desafiar quem prefere estar instalado, e a expor factos que toda a gente acha que deviam permanecer no limbo opaco onde é suposto habitarem. Acontece que eu, quando desencabresto, sou difícil de agarrar. Agora mesmo disparei dois mails que presumo que, a esta hora, estejam espetados na garganta de quem os recebeu.
Como sempre, não sei quais as consequências disto e podem ser radicais para mim mas, se nunca pactuei com coisas que não me agradam, agora, então, não me limito a afastar-me ou a dizer discretamente porque me afasto. Agora é à bruta, às claras e a bola chutada para o lado de lá e outro que não eu que se atravesse e assuma a responsabilidade por dar cobertura a situações que comigo não, violão.
E, portanto, foi neste desencabrestado estado de espírito que fui à procura de notícias boas que me trouxessem bons auspícios, boa energia, boa onda, coisa cheia de smiles e emojis saltitões. 

Mas está bem, está. Só notícias do caraças, sendo que aqui o caraças é mesmo sinónimo de caneco, de cacete (e, aqui, refiro-me ao cacete mal conotado) -- ou seja, porcaria e da grossa.

Tenho ideia que o nosso estado de espírito atrai. Se estamos numa boa, só nos chega coisa boa, radiosa. Se estamos com as candeias às avessas, só damos com meia rota, jararaca, lâmpada fundida, cocó de cão debaixo do sapato, peixe de olho baço e arremelgado, côdea dura e bolorenta. Coisas assim.

Para atestar, passo a enunciar as trastes de notícias que vieram até mim:

Cientistas cruzaram macaco com pessoa. Chamaram quimera ao ser e, quando viram que tinha vingado, supostamente não o deixaram ver a luz do dia. Supostamente, repito. A coisa deu-se na China onde estas coisas da ética não colhem lá muito. Entretanto, o Japão já deu o ok a que se avance com o mesmo, dizem que é promissor, que vai ser do melhor, que desses híbridos se vão poder sacar órgãos que é um mimo. Se a dita quimera, meio macaco, meio gente, tem ou não raciocínio ou sentimentos isso não interessa para nada. Mas eu, talvez por estar num estado a modos que meio irritadiço, acho que isto é daquelas ideias peregrinas que não pode acabar bem. Parece até pesadelo pronto a virar realidade cabeluda e malvada.

E outra que também é do mesmo calibre é aquela de haver implantes tecnológicos que lêem pensamentos e os traduzem em palavras. Mind reading they say. A Google e o Facebook na competição, anunciando para breve notícia de estalar o mundo. Que pode ser bom para dar voz a quem não a tem, pode, mas que também pode ser diabólico e descontrolado, pode. Diz que é para, num mundo dominado pela inteligência artificial, os humanos poderem alinhar. Diz. Mas pode também ser o caminho aberto para a manipulação absoluta, para a ficção megérica virar realidade, coisa mil vezes pior que filme de terror. Não quero nem pensar. Um precipício negro a desenhar-se à frente dos pés dos estúpidos humanos.

E já nem falo nos robots que falam de uma maneira que parece humana, respondendo a perguntas, na maior das calmas. Ou, como desde hoje em Espanha, drones que nos sobrevoam e multam se nos esticarmos, carregando demais no pedal. Ou câmaras de vigilância que nos filmam e fotografam mesmo em ruas sem luz, reconstruindo a nossa imagem a partir do know how que entretanto adquiriram, machine learning e coiso e tal.

E, portanto, eu que andava à procura de notícia boa -- campo de flores, borboleta multicor a rodopiar em volta, mavioso canto de passarinho, poeminha bom segredado ao ouvido, fotografia de coisa nenhuma, história brava de princesa guerreira, filme de bailarino alado, árvores majestosas cheias de esconderijo dentro, planta do bosque com propriedade mágica e efeito benfazejo -- dei com os burrinhos na água, ou melhor, com a tromba na porta. Dito de outra forma: dei foi com coisa perversa, prenúncio de monstro, nuvem carregada de tempos pesados, caminhos estreitos que vão dar a becos que não auguram nada de bom. Uma chatice, em suma.





E isto aqui abaixo não será novidade. Mas mostro porque não gosto.

Aliás, Alexa, Siri ou Google Home, tanto dá, tudo a dar no mesmo.


 Trouxe aqui pintores mexicanos porque me apeteceu ter cor. Ao menos cor.
Penso que é tudo ou quase tudo de Lourdes Villagómez excepto a do macaco que é do Jose Santos


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E uma happy friday a todos, tá?

quinta-feira, janeiro 03, 2019

Mulheres sem cuecas no jardim com as 50 sombras do greg em mente
(que até me fizeram desviar da reportagem fotográfica chez-moi que tão bem comportadamente queria fazer para ilustar o tão badalado Mudar de Vida)





Ele há coisas, sempre o disse. Ainda hoje. Depois do trânsito e das outras coisas que me maçam, cheguei a casa inspirada, bem comportada. Fui-me à máquina e fotografei a pilhinha de livros aqui ao meu lado. Era pequenina e, como costuma acontecer às pilhinhas, desatou a crescer e agora já está de um tamanho que começa a impor respeito.

Depois virei-me para o sofá ali da parede ao fundo onde ontem estive a ler as entrevistas a fotografei o livro e a soft mantinha. 


Resolvi, então, ir buscar mais dois presentinhos de papai noël, a eau de toilette que cheira a figueira e o passarinho que, quando a gente o aperta, pipila tal e qual. Não sei se é passarinho se é passarinha nem sei de que raça é porque me desfiz da documentação antes de perceber o que continha, mas é fofinho e faz um piu-piu de dar gosto. Quanto ao perfuminho, o meu marido diz que tem passado horas a podar figueiras e que nunca percebeu que dali viesse perfume. Disse-lhe que ele não dava para ser nez e ele disse que até é bastante sensível a cheiros. Disse-lhe que não, senão saberia bem qual o cheiro das flores da figueira ou do chá verde de figo que vai tudo dar ao mesmo. Ficámos assim. Como não foi ele que mo ofereceu, permite-se reagir desta forma e eu acho que há temas em que a discussão não leva a lado algum. Posso não ser tal e coisa, coisa e tal, mas sábia eu acho que sou.


Depois resolvi virar-me para a pilhinha dele, pequenina, modesta. De livros que recebeu do Santa Klaus, quero eu dizer. Fotografei-a também. É a de aí de cima.


E depois fui-me ali à estante e fotografei algumas particularidades, nomeadamente o Santo António que, em vez de ser pendurado, ficou ali a bater uma soneca e a menina, ao seu lado, que em vez de também ir apanhar ar, se deixou ficar deitada ao lado do Santo. Lá sabem.


Ou seja, estava numa de deixa cá ver, o ano está a começar e giro, giro, era eu mostrar como já estou a cumprir o ponto 1 da minha lista de to-do's que é mostrar que isto a partir de agora é sempre a abrir, lifestyle, auto-ajuda, pensamentos evoluídos e do mais positivos que há, reflexões bué elaboradas -- ou seja, nada que se lhe possa botar defeito, que a idade diz que dá juízo e eu não quero ser desmancha-prazeres que com a minha idade já devia ser capaz de rezar uma missa quanto mais dissertar num blog fajuto. 

Mas, então, chego eu aqui ao meu sofá, ponho-me a passar as fotografias para o computador, a imaginar fazer um post a explicar como é bom fugir da barafunda da grande cidade não para o campo mas para o sofá para dizer coisas pequenas que mostrem que penso grande e, na minha inocência, toda eu cheia de teorias imbatíveis.

Só que há aquele grande deus que acompanha os meus passos e que, mal se apercebe das minhas boas intenções, à sorrelfa me prega uma rasteira. E logo resolveu que nem pensasse eu em dar passo maior que a perna. Que é como quem diz não pensasse eu em meter-me a besta, ensaiando conversa filosófica ou beata. E então, vai daí, com aquela driving force que sempre me faz desviar dos bons caminhos, pôs-me a ver as estatísticas do blog, nomeadamente mostrando-me o que as pessoas, naquele preciso instante, tinham escrito nos motores de busca e as tinha trazido até aqui. E eu, instantaneamente, cagüei (por favor, ler o ü para não soar a inconveniência) para as boas intenções e resolvi aqui dar conta do fantástico sucedido.

A seguir peguei nas palavras e fui eu experimentar se conseguia chegar até mim -- e não consegui. Portanto, ainda mais extraordinário: alguém lembrou-se de fazer tais pesquisas e o maluco do algoritmo achou que aqui, neste santo blog, é que há disso. Mas, se for eu, está bem, está, vá mas é dar banho ao cão.

Pois eu, para mostrar ao algoritmo que sou mais esperta que ele, vou arranjar maneira de que não apenas os depravadões encontrem aqui com que se entreter como eu própria hei-de ser capaz de vir parar ao Um Jeito Manso: vou escrever essas palavras no título do post, ah vou, vou.

Portanto, a partir de agora, o sol nascerá para todos: para os malucos da net, para as malucas sem cuecas, para os que gostam de andar à sombra e para mim. E passa a ser oficial: quem queira ver mulheres sem cuecas no jardim ou as 50 sombras do greg, tem aqui o que procura, oh oh, se tem. Olha aí. 

Aqui é fazer de conta que a menina estava a jogar à malha no jardim, ok?
Este não sei se é o tal do Greg ou se estão à sombra; mas, pronto, é fazer de conta.

E, assim sendo, e nada mais tendo, por ora, a declarar, vou suspender o expediente e dedicar-me à tapetaria antes que a tal sinistra driving force que me desvia dos meus bons propósitos continue a fazer das suas e vos deixe a todos de olhos estarrecidos.


Com vossa licença, inté. 

sábado, dezembro 29, 2018

As principais questões de beleza colocadas ao Google em 2018:
espelho meu, espelho meu...




O que tenho a declarar em minha defesa é que quase tudo o que é preocupação de beleza me passa ao lado. E digo 'defesa' só para disfarçar porque, a bem dizer, nem sei que diga. É que fico até apreensiva. Um destes dias dou por mim a parecer saída de uma qualquer gruta perdida no tempo, com uma aparência idêntica à da nossa Irmã Lucy -- a famosa australopiteca -- completamente deslocada face à beleza sofisticada das minhas contemporâneas. 

Até tive que fazer pesquisas para perceber de que se trata pois não apenas não consumo como não sei do que se trata (obviamente também não inalo). 

Como o texto original está em francês e é longo e como estive a trabalhar até a esta hora -- e estou que nem posso, capaz de ceder à tentação de me enroscar numa mantinha, me chegar para trás e me pôr a ver televisão durante meio minuto e, a partir daí, dormir uma boa soneca antes de me põr a caminho da minha deliciosa caminha -- vou atalhar. Vou ao tradutor do google e ele que faça das suas.

Vou apenas mudar uma ou outra palavra porque o tradutor parece que só conhece o português abrasileirado. Por exemplo, vou pôr pestanas em vez de cílios. Mas sei que o que a seguir vos apresento não é obra asseada, até quase parece português digno de um jovem licenciado 
(que ainda hoje recebi um mail de um que é considerado pelos RH como um jovem talento com elevado potencial uma frase que rezava assim: "enviee lhe uma sugestão para fazer-mos uma circular")

E, já agora, vocês, minha gente, sabiam que pestanas é o que está a dar...? Eu não, não sabia de nada.  Há todo um mundo paralelo que desconheço. Vivia na ignorância que o meu olhar pode ser recauchutado, aprofundado: pestana extensa como penacho, alçada, sobrancelha bem desenhada e penteada.


Mas então lá vai disto: o artigo todo traduzido a la minute. As imagens não constam do texto original, estão aqui por iniciativa minha, para o caso de também precisarem de ajuda para perceberem qual a cena. E vou inserir os links que constam do artigo caso queiram adquirir cultura avançada.

Google just shared the top 10 beauty questions of 2018 — so we did you the favor of answering them


Les dix questions beauté les plus posées sur Google en 2018


O mecanismo de busca listou os problemas de beleza que foram mais apresentados em 2018. A lista, que surpreenderá mais de um, é indicativa das preocupações estéticas de nossa sociedade, onde a beleza primeiro passa pela visão.


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1. Como aplicar pestanas postiças magnéticas?
[What?!?!?!?!

Em 2018, as pestanas experimentaram um pico de popularidade, tornando-se aliados para estender o visual com uma pose cada vez mais simples e intuitiva. Nossas melhores dicas em colocar pestanas postiças em minutos.

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2. O que é um elevador de pestanas?
[What?!?!?!?!

Sempre na era do tempo, o conselho em torno dos olhos desperta um grande interesse. Como aplicar o seu rímel? Aqui estão os passos para um resultado perfeito.

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3. Como remover as pestanas postiças?
Para não danificar as pestanas, é importante usar uma boa técnica. Três ingredientes são essenciais: o solvente para cola de pestanas falsas, removedor de maquilhagem ou óleo de coco, amêndoa mineral ou doce também permite remover a cola e a maquilhagem. Você apenas tem que escolher um produto adequado para evitar atacar a área dos olhos.

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4. Que cor de cabelo é a melhor para mim?
Antes de adotar uma coloração rosa como algumas estrelas este ano, é melhor aprender sobre as contraindicações, incluindo aquelas reveladas por 60 milhões de consumidores que alertam sobre a toxicidade dos corantes capilares.

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5. Como fazer olhos de corça?
Estamos acompanhando o caso há muito tempo e o controle do delineador não terá segredo para você, graças ao conselho de Miky.

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6. Como remover a maquilhagem, a não ser com lenços de limpeza?
Há muitas maneiras de fazer isso com água micelar, óleos ou cremes. O importante é escolher o seu removedor de acordo com o seu tipo de pele.

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7. Como aplicar aloe vera?
Suas virtudes de hidratação e regeneração de células são comprovadas. E há as perguntar sobre receitas caseiras, cremes, cuidados com os cabelos ... E outros métodos diferentes de usar esta planta suculenta.

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8. Como colar as sobrancelhas?

Este método do Japão gerou grande interesse no Instagram com o lançamento de um gel preenchido com fibras sintéticas. Nós nos perguntamos se essas extensões realmente funcionam.

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9. Como organizar um gesso com efeito de maquilhagem? 
[NB: Estou em crer que esta foi mais uma das fails do tradutor do google. Cá para mim a pergunta não é nada deste disparate mas, sim, como evitar que a cara parece coberta de gesso] 
Esta é uma das questões existenciais em beleza. Um ingrediente para remediar isso: escolha sua base e evite erros ao aplicar.

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10. Que corretivo usar?
Ele se tornou uma necessidade em nossa vaidade. Para um contorno de olhos perfeito, a nossa receita de corretivo caseiro.


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E hoje, meus queridos Leitores e Leitoras, não levem a mal mas passa bem da uma e meia da manhã e hoje trabalhei tanto, tanto, comecei aqui no blog tardíssimo e estou mesmo perdida de sono. Mais: uma vez não consigo responder aos comentários. Aceitem as minhas desculpas.
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Um belo sábado

quinta-feira, outubro 18, 2018

Benfica, Google, bloggers, emails -- tudo histórias mal contadas.
Pior, mesmo, foi ter andado perdida, de noite, o carro debaixo de chuva, sem GPS, sem telefone emparelhado.
[Das raivinhas e dos chiliques do Super-Judge-Alex, o mal-afamado "Saloio de Mação", acho que não vale a pena falar. Tudo muito déjà-vu.]




Saí de noite de um sítio onde só tinha ido antes umas duas ou três vezes. Chovia, estava trânsito e não conseguia ver bem. Procurei uma tabuleta a dizer Lisboa ou com o símbolo de autoestrada. Nada. Um desespero. As estradas neste país têm isto. A gente só sabe como dar com um sítio depois de ter dado com o sítio. Um atraso de vida.

Fui andando. Chegava a uma rotunda e numa saída dizia 'Farmácia', noutra 'Centro Desportivo', noutra 'Trânsito local'. De Lisboa nem sinal. E outra volta à mesma rotunda a ver se me estava a escapar alguma coisa. Nada. Às cegas, escolhi uma no que me pareceu ser a direcção certa. Sítio desconhecido. Luzes dos carros, chuva. Tabuleta elucidativa zero. 

Fui andando até poder parar o carro. Como o meu está na oficina, ando agora com um de substituição. Tentei o GPS. Não tinha. Pus 'Lisboa' no telemóvel e accionei o GPS. Procurei um sítio para pôr o telemóvel. Não tinha. Nem uma prateleirinha. Só em baixo, dentro do recipiente das moedas. Ficou de lado e tapado pelo manípulo das mudanças. Não se via, só se ouvia. Um stress.


Melhor que nada. Pus-me a caminho. Mandou-me sair na 4ª saída da rotunda seguinte. Só tinha 3 saídas. Nova volta a ver se me tinha escapado alguma estrada. Não. Entretanto, a jovem do gps mandou-me voltar para trás.

Entretanto, ligou-me o meu marido a saber a que horas contava eu chegar. Apanhou-me num mau momento: não sabia onde estava, não sabia como sair dali.

Voltei a tentar. Fui num sentido, a 'gaja' mandou-me ir em frente, fui andando até que me mandou sair na 2ª saída e eu obedeci apesar de lá dizer o nome de uma terra de que nunca tinha ouvido falar. Segui até que fui parar a uma estrada estreita que parecia de um só sentido mas de onde vinham carros em sentido contrário. Temi estar em sentido proibido. Depois começou a aparecer um muro alto, como se fosse alguma quinta. O muro nunca mais acabava, a estrada sem luzes, sem casas. Temi estar completamente perdida, enganada pelo gps, esse farsante.


Até que ela me disse que, numa rotunda saída do nada, devia sair na 3ª saída e aí vi uma tabuleta a indicar a autoestrada. Quando cheguei à rotunda, a maior trapalhada que já vi, tinha vários sinais de proibido e, dessas vias, vinham carros a entrar, entre elas a que me pareceu ter a tabuleta para Lisboa. Pensei: ná, para ir para Lisboa tenho que entrar numa via em sentido proibido...? A mim não me apanham. Dei duas ou três voltas à filha da mãe da rotunda, isto sem se ver quase nada com a chuva e com as luzes dos carros. A 'gaja' do gps não se calava. Pensei: há-de haver um sacana dum carro que também queira ir para a autoestrada para eu ir atrás. Nada. Mais uma volta. Às tantas, resolvi avançar pela que me parecia provável e, se estivesse a ir em sentido contrário, acácia da silvinha, fechava os olhos e entregava para deus.

Mas, afinal, fiz bem. Lá dei com a entrada na autoestrada.

Queria ligar para avisar que estava salva mas o telemóvel não estava emparelhado com o carro pelo que não deu. Com isto tudo, só cheguei a casa tarde e más horas. Estava a entrar, ligou o meu filho. Estava a despir-me, recebi uma sms da minha mãe: 'Estás ainda a trabalhar ou esqueceste-te?'. Telefonei-lhe. Expliquei-lhe. Depois telefonei também à minha filha. Contei-lhe tudo, a odisseia e o que a tinha precedido.

Quando me sentei para jantar era tarde e eu estava com a cabeça em água. Odeio dias tão preenchidos: parecem-me curtos demais, esvaem-se no meio de parvoíces. Um desperdício.


E agora estou aqui e a pensar que ainda tenho que ir ver mails do trabalho porque, durante a tarde, como estive noutra, não lhes peguei. O meu marido, perante perspectivas destas, costuma dizer: 'Isso é pior que um clister de açorda'. E é. Já passa da meia-noite e, depois do dia que tive e da odisseia que foi para dar com o caminho para casa, ainda ter que ir ler e responder a mails de trabalho é sorte que não se deseja a ninguém. Cruzes canhoto.


De resto, não sei se o mundo já se pôs a andar de gatas, se de patas para o ar ou se por aí anda aos pinotes. Só sei que, quando me sentei aqui, ouvi na televisão uns cavalheiros de aspecto vagamente suspeito a dissertar sobre um acordo que o Benfica terá feito com a Google e que se terá traduzido em receber a identidade de bloggers que, ao que percebo, costumam dizer mal do Benfica. Não acredito em nada disto. Se a Google tivesse feito uma coisa destas, era caso para todos os clientes da Google saltarem a pés juntos sobre ela. E, que eu saiba, de burra a Google pouco tem. Portanto, não sei que história mal contada é esta mas não deve interessar para nada.

Também dei com o Super-Judge-Alex com olhos que me pareceram lacrimejantes. Pensei: Querem lá ver que isto é a Alta Definição? Terei chegado no ponto em que o Daniel Oliveira lhes pergunta "o que dizem os seus olhos?" e a malta fraqueja e desata a chorar? Depois percebi que afinal não. O so-called saloio estava sem óculos e, às tantas, a vista cansada dá-lhe lacrimejices. Bolsava veneno enquanto sorria, verdadeiro saloio safado, disfarçando a dor de corno ou de cotovelo ou lá o que fosse que lhe estava a doer. Qual cavaco, destilou ressabiamentos, lançou insinuações, suspeições. Não quererá a múmia fechá-lo também no sótão, ao lado do Lima*? Não se perdia nada.

Enfim.


O que isto é, meus Caros, é que estamos a tender à força toda para a cena dos porcos a governarem o mundo. Já aí estão com comportamentos sinistros, a fazerem coisas obnóxias num mundo onde, volta e meia, nada parece fazer sentido. A única coisa que me anima é que já não é a primeira vez que há disto, o mundo a desandar. Portanto, acredito que um dia destes a coisa vai voltar a entrar nos eixos. Ou seja, acho que ainda não é caso para nos deprimirmos.

Salvé.


Vou aqui ficar um bocadinho a sonhar enquanto olho a noite boa, ali fora. 
Isto, com vossa licença, antes do clister.

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[Fotografias da wildlife no The Guardian]

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PS: É verdade, que é feito do Lima*? Escreveu mais algum livro ou é só o chefe que continua a publicar? Será que não ficou esquecido no sótão de Belém? Na volta, uma noite destas ainda aparece a assombrar os corredores do palácio. O que vale é que o Marcelo não está para pernoitar no meio daqueles fantasmas senão apanhava um tal susto que ainda lhe saltava outra hérnia.

sábado, abril 07, 2018

Tem a certeza de que a câmara fotográfica e o microfone do seu telemóvel não estão a espiá-lo?



Dos milhões de milhões que usavam o Facebook, ainda há milhões de milhões a usá-lo. Muita gente está a abandonar as suas páginas (e as figuras públicas que o vêm anunciando são disso prova) mas a maioria não está nem aí.

Apesar de se falar em caos dentro da gestão executiva do portentado em que o Facebook se tornou, apesar de ser pública e notória a humilhação a que Zuckerberg se tem visto sujeito face aos escândalos sucessivos e graves, a verdade é que a incomensurável legião de incautos que o usam não quer saber disso para nada. Usam e tornam a usar e nem sabem já viver sem estar, a todo o momento, a ver e mostrar as suas (irre)levâncias do dia a dia. Ainda hoje ao jantar: várias pessoas, no restaurante, notoriamente a acompanhar o andamento do pequeno mundo através do Face.

Qurem lá saber da última... querem lá saber da ferramenta secreta para apagar as mensagens dos executivos do Facebook quando as dos comuns dos mortais nem à lei da bala se conseguem apagar?

Nem do resto. Se me lessem, aposto que perguntariam, a voz espantada: O resto...? Que resto...?

Respondo -- e nem tem a ver exclusivamente com o Facebook.

As câmaras fotográficas dos telemóveis, iPads e vulgares portáteis podem ser capturados por apps ou por outras cenas e as pessoas podem estar a ser filmadas e fotografadas e as suas imagens a ser enviadas sabe-se lá para onde, e as conversas que julgam privadas estão, certamente, a ser gravadas e guardadas algures e os microfones de qualquer dispositivo podem estar a gravar o que se passa no espaço onde estão -- e ninguém dará por isso.

Mas, se calhar também não faz mal já que ninguém está nem aí.

E nada disto é ficção. Leia-se: Are your phone camera and microphone spying on you?

Tal como não é ficção que existem dispositivos que sabem captar os nosso pensamentos e que os transmitem para robots ou computadores. 

É a tecnologia. E é bom que a tecnologia avance -- e que avance rapidamente. O problema não está aí. 

O problema existe quando a tecnologia é posta ao dispor de meio mundo, sem que esse meio mundo saiba sequer que deu autorização para que tudo isto lhe aconteça e quando tudo está tão disseminado, em tão larga escala e de forma tão desregulada que nada mais será possível de controlar.

Julgaria eu que os poderes políticos percebessem a bela alhada que está aqui a armar-se. Mas não. Salvo alguma imprensa mais atenta e responsável, ao resto isto é matéria que passa ao largo.

Por cá, então, como sempre, corre-se atrás de qualquer osso que seja atirado para a via pública. Agora são as alarvidades de Bruno de Carvalho. As televisões, os onlines e, imagino eu, as redes sociais não querem saber de outra coisa. Quanto muito, o Lula -- se vai dentro antes, durante ou depois da missa da mulher. A cada semana sua epifania mediática onde cada evento pode originar um excêntrico e exacerbado epifenómeno.

E, enquanto isso, os verdadeiros perigos passam despercebidos. Pelo contrário, a maioria das pessoas está tão viciada e tão alienada relativamente às grandes ameaças que pairam sobre o mundo que quem tente alertar para o que se aproxima (ou melhor: para o que já aí está) ainda é vista como alarmista.

Admito, nomeadamente, que, face a esta minha insistência, grande parte dos meus Leitores ache que esta minha preocupação é quase paranóia. Acreditem: não é.
Basta que se faça uma visitinha, por exemplo ao YouTube, e encontrar-se-ão inúmeros vídeos que ensinam a espiar quem quer que seja, a partir do que quer que seja. Canja de galinha. Truques, ferramentas e dicas para espiões, terroristas, gatunos, pilha-galinhas, tarados, curiosos ou o que for - tudo ao dispor de quem o queira usar.
Como diz Dylan Curran: It’s only paranoia until it’s too late.

Já agora, também recomendo a leitura de: Are you ready? Here is all the data Facebook and Google have on you


E, já agora também, um vídeo com o trailer que mostra como isto do Facebook começou.

E reconheça-se: os indícios estavam todos lá. Mas a raça humana, estúpida como nenhuma outra, não achou estranho que um puto ladino se tornasse uma das pessoas mais ricas e mais poderosas do mundo em menos de um foguete. Zuckerberg, lembremo-nos, tem -- à data a que escrevo -- apenas 33 anos.



Sean Parker, um dos fundadores do Facebook, conta como sabiam que estavam a criar uma coisa pouco recomendável


Penso que os próximos tempos serão férteis em novidades sobre o assunto

(E não sei de que mais os países estarão à espera para, concertadamente, estudarem uma maneira para tentarem pôr alguma ordem e regulação nisto. E, se o fizerem não estarão a atentar contra a liberdade de expressão mas, a prazo, a protegê-la)

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sexta-feira, abril 06, 2018

'O homem pendurado na ponte'
-- e o Waze, a Google, o Facebook, a Microsoft, a Amazon, etc.

Este é o mundo que, alegremente e às cegas, estamos a construir.
(Melhor dizendo: a destruir)





Afinal, não foi só lá longe. Leio que a Cambridge Analytica pode ter usado dados de 63 mil utilizadores portugueses. Claro. Porque haveriam os portugueses de ficar a salvo do regabofe? E o que se vai sabendo é apenas a ponta do iceberg -- já o disse e repito-o. Agora qual a dimensão do iceberg, isso não sei. Nem ninguém sabe.

Não há como ter certezas de nada porque não há como controlar. Apenas se pode saber que o que se sabe é apenas uma pequena parte do que há para saber. 

Da mesma forma que.

Estava, na quarta-feira, ao fim do dia, na fisioterapia. Desculpei-me: 'Peço desculpa por ter chegado a esta hora'. O fisioterapeuta já desistiu de protestar. Ou não chego a horas ou nem chego a ir. Saturada dos engarrafamentos, aborrecida por chegar tão tarde, acrescentei: 'Um trânsito... Tudo parado... Deve ter havido acidente na ponte porque parece que tudo o que vai lá dar está parado e, por isso, à volta, tudo parado está'. Ele esclareceu: 'Não foi um acidente. Foi um incidente'. Não percebi. Ele disse: 'Quando há coisas assim, dizem incidente'. Nunca tinha ouvido tal. Perguntei: 'Mas sabe o que se passou?'. Ele disse: 'Vi a fotografia'. Continuei sem perceber. Ele explicou: 'Um doente mostrou-me. Um tipo num cabo da ponte. Um suicida.'. Fiquei ainda mais tolhida pela incompreensão. 'Um doente mostrou-lhe?! Mas mostrou-lhe o quê??'. Ele disse: 'Quem está lá parado fotografou e pôs nas redes sociais'. Fiquei gelada.

A insensibilidade humana é assustadora.

Li agora 'O homem pendurado na ponte', escrito pelo Ferreira Fernandes. Arrepia.


Portanto, no Waze também. Claro. São os utilizadores que fazem o upload das imagens e podem pôr o que quiserem. Um homem em pleno e triste processo de desistência de viver, um homem pronto a cair no vazio -- e algumas pessoas, indiferentes à presença da dor alheia, fotografaram-no e, sem qualquer respeito por aquela pobre pessoa desesperada, exibiram-na perante o mundo. Apenas por estarem dentro dos carros, não foram fazer uma selfie com aquele homem que conduziu o carro até à ponte, parou, saíu e trepou para um cabo para acabar com o sofrimento. Assim fotografaram-no apenas.
Quem cometeu tão torpe acto são as mesmas pessoas que escrevem comentários malvados, que destilam veneno, que agem a coberto do anonimato para amedrontarem gente de bem, que mostram invejas, raivas, vontades de vinganças. As mesmas que falam de si próprias como sendo gente boa, amigas de gatinhos e do ambiente. As mesmas que se alimentam das redes sociais e que as alimentam.
Digo isto, usando eu o blogger. Mas escrevo aqui como poderia escrever um diário só para mim, um livro de contos, memórias, crónicas para um jornal inventado, cartas de amizade, cartas de amor. 

E, sabendo eu que, apesar da minha aversão a redes sociais ou a auto-exposições, a minha pegada é, certamente, imensa, tento manter-me consciente em relação aos riscos que corremos. E corremos muitos riscos. Muitos mesmo.

E não os corremos apenas pela profusão da informação pessoal que inunda as redes sociais -- e que pode ser usada contra a liberdade e contra a democracia -- mas também pela proliferação de ferramentas que usam inteligência artificial.

Leio:


Boicote foi assinado por mais de 50 académicos e surgiu uma semana antes de uma reunião das Nações Unidas sobre armas autónomas

Investigadores especialistas em inteligência artificial de quase 30 países estão planear um boicote a uma universidade na Coreia do Sul em reação a uma parceria de um laboratório da instituição com uma empresa ligada ao setor da defesa: há o medo de que o projeto possa criar "robôs assassinos", revela o Times Higher Education. (...)


Leio também:


In this open letter to Google’s CEO, over 3,000 employees urged the company not to work on a Pentagon ‘AI surveillance engine’ used for drone warfare (...)


Amid growing fears of biased and weaponized AI, Google is already struggling to keep the public’s trust. By entering into this contract, Google will join the ranks of companies like Palantir, Raytheon and General Dynamics. The argument that other firms, like Microsoft and Amazon, are also participating doesn’t make this any less risky for Google. Google’s unique history, its motto “don’t be evil”, and its direct reach into the lives of billions of users set it apart. (...)



A classe política e a sociedade em geral parecem continuar indiferentes ao que está a passar-se. Não vejo verdadeiras preocupações, vontade de regular, vontade de vigiar. As coisas vão acontecendo e ninguém parece perceber que é preciso actuar enquanto ainda é tempo.

O mundo está a caminhar para um precipício desconhecido e que intuo ser deveras perigoso e quase ninguém parece ter vontade de parar para pensar. Ninguém parece ter vontade de recuar até ao tempo da inocência.


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