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sábado, julho 11, 2026

A menina bonita foi ao fundo... e voltou à superfície

 

Era lourinha, lourinha, olhos tão claros que pareciam cor de um mar muito transparente. Muito bonita, muito elegante. Um rosto diferente, bom para ser fotografado.

Depois rapou o cabelo e mostrou-se rebelde e andrógina.

Depois assumiu a homossexualidade e mostrou-a de forma por vezes provocadora.

Depois o cabelo aclarou ainda mais enquanto as sobrancelhas se destacavam pela espessura e escuridão.

Modelo requisitadíssima, versátil, um perfume a modernidade, o pé fora da banalidade, a atitude a ilustrar bem l'air du temps. A moda, a publicidade, as câmaras não a largavam. Compreende-se: a sua presença magnetizante atraía.

Duas irmãs e um irmão, todos bonitos. Já algumas vezes falei dela aqui, creio que, uma das vezes, para mostrar a casa que partilha(va) com uma das irmãs.  A casa como ela: fora da caixa.

Até que confessou que as nuvens andavam a cercá-la. Começou a falar da sua depressão, das suas crises de ansiedade, de problemas que vinham desde os tempos da infância, da mãe tão perturbada. Falava disso sem rebuço, sem se vitimizar, e, ao mesmo tempo, sem meias palavras e com uma certa candura. 

E depois as drogas. De mal a pior. Foi fotografada no aeroporto descalça, despenteada, errática, perdida de todo. Tempos de descida aos infernos. A moda e as câmaras talvez tenham sugado a sua alma até às últimas gotas de resistência.

E, durante algum tempo, desapareceu de cena.

Reapareceu morena, mais tranquila, bem encarada, rosadinha e dedicada à música.

Cara Delevingne tem agora 33 anos e já mil vidas vividas. Na entrevista que aqui partilho conduzida pelo icónico Louis Theroux, ela não rodeia, não evita. E ele, com os seus silêncios e as suas subtis interjeições, leva-a pela mão. Uma entrevista que mostra bem como as coisas são quando se vive o pesadelo da dependência, como tudo foge ao controlo, como se causa dor naqueles que se amam e como, por fim, subsiste uma vergonha que parece não ter limite. 

Cara Delevingne: “Eu sabia que precisava de ficar sóbria” | The Louis Theroux Podcast

Para a nossa mais recente coleção de alta-costura sonora, apresentamos a atriz, cantora, música, musa e modelo Cara Delevingne — a desfilar na nossa passerelle virtual para falar sobre a vida sob os holofotes, amigos famosos, traumas familiares, o lado negro da moda, Karl Lagerfeld, vício, recuperação e como transformou a sua jornada de sobriedade em arte musical… Mesmo que não consiga diferenciar a alta-costura do farelo de aveia (desculpem, piada velha)… prêt-à-porter de prêt-à-manger… Coco Chanel de cereais de chocolate… Estou a ficar sem fôlego…


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E se o que escrevi vos aparecer aos soluços ou todo gralhetado, por favor relevem. Estou a escrever e a adormecer. Acordei cedo demais, os banhos de mar têm sido bons e demorados, finalmente um mar bom para se lhe nadar dentro, as caminhadas à beira de água também têm sido boas, e, enfim, tudo junto e, na volta, acrescido de uma pitada de PDI para dar condimento, a verdade é que estou totalmente perdida de sono. Nada de mais, bem sei, isto é vira o disco e toca o mesmo. Mas há dias piores -- e hoje é um deles.
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Desejo-vos um bom sábado

terça-feira, junho 23, 2026

Susie e Bella, duas amigas

 

Um dia atarefado com coisas cá minhas, mas incomodada com o calorão abafado que a mim me pesa e tira o fôlego. Em dias assim, as coisas custam-me. No domingo, ao fim do dia, reguei alguns vasos e tinha pensado deixar para esta segunda-feira os vasos dos terraços e as buganvílias; mas não consegui. Não sei se a pressão atmosférica faz baixar a minha tensão arterial ou se é outra coisa, o que sei é que a minha energia parece ficar tolhida.

Ainda assim, fui ao ginásio. Muita gente que nunca vi antes. Algumas pessoas vão com personal trainers e sujeitam-se a verdadeiras torturas. Outros sujeitam-se às torturas por si mesmos. Hoje um homem, com uns gémeos de uma grossura irreal, dobrava-se ao meio, as pernas presas, e elevava e baixava o tronco pegando numa grande bola que parecia pesar uma tonelada. Ao vê-lo naquele esforço insano, dei por mim a pensar: 'Só espero que nunca morra nenhum enquanto eu aqui estou'. Um outro, bem mais velho, com idade para ser pai do outro, estava deitado, um altere em cada mão, abria os braços e depois fechava-os sobre o peito. E eu pensei: 'Se lhe falha a força e uma daquelas coisas lhe cai em cima, esborracha-o'. E não sei se já falei de uma a quem eu e o meu marido nos referimos por cavalona: deve medir um metro e oitenta ou mais, é escultural, usa uns trajes que lhe salientam os glúeos, um top curto, soutien na realidade, e atira-se às máquinas com um afinco que me deixa de boca aberta. Usa um rabo de cavalo ao alto e desloca-se entre as máquinas com passada larga e uma pressa carregada de violência que parece ser apenas vontade de que ninguém lhe ocupe o lugar. Há também rapazes e raparigas, praticamente das mesmas idades, que, em vez de olharem uns para os outros, de flirtarem ou, pelo menos, tentarem perceber se há ali alguma potencial afinidade, não senhor, no intervalo de cada exercício enfiam os rostos nos telemóveis, por vezes sorriem com o que veem, escrevem mensagens mas, sobretudo, deslizam o dedo nos ecrãs. 

Se eu tivesse lata, pedia licença para fotografar ou filmar todos esses meus parceiros, e gostava de lhes fazer perguntas. Mas não tenho. Fico calada, a olhar de soslaio.

Faços os meus exercícios modestos e lembro-me de uma coisa que li no livro da Siri Hustvedt: não é possível escrever sobre o que vai passar-se a seguir. Por isso, eu sei o que fazia e como era quando tinha a idade deles. Eles não sabem como serão e o que farão quando tiverem a minha idade.

Bem. Filosofia à parte.

O que sei é que, com este calor e a preguiça que desce em mim, agora à noite apeteceu-me uma coisa soft, light, tranquila. E nada como as conversas simpáticas, afáveis, com tempo, de Bella Freud com os seus convidados. Desta vez, a conversa é com uma amiga de longa data, a serena Susie Cave que eu apenas conhecia de ser mulher de Nick Cave. 

Aqui, Susie, impecavelmente vestida, calçada e penteada, conversa sobre o amor que bateu forte logo que os olhares dela e de Nick se cruzaram, fala de como começou a sua carreira de modelo, fala sobre o desgosto que quase a devorou quando um dos filhos morreu, fala do seu trabalho como designer de moda e como isso foi a mão que a salvou do abismo. É uma conversa pausada que condiz com o belo rosto de Susie e com o olhar carinhoso de Bella. Sabe bem ouvi-las.

Susie Cave fala sobre Steven Meisel e o seu encontro com Nick Cave | Fashion Neurosis com Bella Freud

Susie Cave é uma modelo e estilista britânica. A sua carreira começou quando foi descoberta durante umas férias em Nova Iorque pela famosa agente de modelos Bethann Hardison, que a encaminhou imediatamente para Steven Meisel, aconselhando-a a regressar à escola, uma vez que tinha apenas 14 anos. A sua beleza marcante e presença etérea rapidamente lhe valeram um lugar em campanhas de alta costura e capas de revistas, incluindo, mais recentemente, uma campanha de perfumes da Gucci e a capa da revista Another Magazine em 2020. Em 2015, Susie lançou a sua marca de moda, The Vampire's Wife, que ficou conhecida pela sua mistura de estética gótica e romântica. A Vogue descreveu o seu inconfundível vestido como o "vestido do momento", e a The Vampire's Wife rapidamente conquistou um público fiel, atraindo celebridades como Florence Welch, Cate Blanchett e Kate, Princesa de Gales, entre as suas clientes. Os designs de Susie são um reflexo do seu estilo pessoal — romântico, misterioso e profundamente artístico — consolidando-a como uma voz singular na indústria da moda. É casada com Nick Cave, vocalista da banda The Bad Seeds. Neste episódio de Fashion Neurosis, Susie Cave e Bella Freud conversam sobre como foi descoberta pela lendária Bethann Hardison e o seu encontro com Steven Meisel aos 14 anos; a primeira vez que viu o seu futuro marido, Nick Cave, num dos desfiles de Bella; e como o luto pode ser canalizado através da criatividade.


Desejo-vos um belo dia

sexta-feira, janeiro 16, 2026

Um mundo de doidos...
Porque é que o fato de treino usado por Nicolás Maduro fez disparar as vendas da Nike?

 

De repente, parece que há cada vez mais coisas que não fazem sentido. 

Bem, se calhar não foi de repente, se calhar tudo isto era fácil de antever. Vamos fechando os olhos a isto, depois àquilo, depois fartamo-nos de ser tão cépticos e vamos dando o benefício da dúvida, vamos olhando para o lado, fazendo de conta que não vemos, temos mais que fazer... até que um dia damos por nós e estamos metidos num molho de brócolos, o mundo que conhecíamos de pantanas.

No outro dia ouvi uma pessoa dizer que Trump está a destruir em meia dúzia de meses o que a civilização levou para cima de um século a conseguir.

Li o artigo cujo título está lá em cima, a encabeçar este post. Revejo-me nele. Por isso, permito-me transcrever a maior parte dele. 

Nicolás Maduro com calças de fato de treino da Nike no porta-aviões USS Iwo Jima, após a sua captura. Fotografia publicada a 3 de janeiro pelo presidente Donald Trump nas redes sociais. @realDonaldTrump


A foto de Maduro em fato de treino, publicada por Donald Trump e relativa à sua detenção, tornou-se viral, e a peça em questão tornou-se muito desejada. Hilariante? Chocante? Apavorante?

Não sei quanto a vocês, mas nos últimos meses tenho-me sentido como se estivesse a viver num mundo irreal, numa série distópica da Netflix ou num programa de burlesco a solo. O mundo tornou-se confuso, insano; as redes sociais inundam-nos com imagens de um presidente americano a dançar ao som de YMCA, a fazer caretas e a dobrar sketches que provocam tanto risos como consternação. O líder do país mais poderoso do mundo aparece diariamente nos nossos ecrãs através de imagens que são reais ou geradas por inteligência artificial — é difícil de distinguir. Até onde vai este show do Trump?

Um fato de treino cinzento que se tornou viral

Esta surpreendente extravagância invadiu recentemente o mundo da moda. A última alucinação? Ou melhor, o maior espanto? A história de um simples fato de treino cinzento que, através de um "Trumpismo", esgotou após uma fotografia partilhada pelo próprio Donald Trump na sua rede social Truth Social para ilustrar a detenção do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Um breve resumo para aqueles que possam ter adormecido e ainda estejam meio adormecidos desde 3 de janeiro. Nesse dia, o presidente norte-americano publicou uma fotografia de Maduro, algemado, vendado e de auscultadores a bordo do navio de guerra USS Iwo Jima. O homem que seria julgado nos Estados Unidos por conspiração narcoterrorista vestia um fato de treino cinzento da Nike, composto por um casaco e calças da linha Nike Tech Fleece.

Alguns especialistas em canais de televisão protestaram de imediato, condenando a humilhação máxima: certamente que as autoridades americanas poderiam pelo menos ter deixado o ex-presidente venezuelano vestir-se e não se expor ao mundo com um velho fato de treino cinzento fechado. Claramente, não compreenderam o mundo moderno. Porque apenas algumas horas depois da exibição, este momento altamente geopolítico já tinha migrado para outra arena: o mundo da moda. A 4 de janeiro, a imagem espalhou-se como fogo em plataformas para adultos como o TikTok e o Instagram, gerando uma infinidade de memes, fotomontagens e paródias irónicas. Maduro de fato de treino, a nova estrela do TikTok?

Frenesi Comercial

A história podia ter terminado aí. Mas da histeria mediática ao digital e, depois, ao comercial, tudo aconteceu em termos de cliques. Após a explosão de pesquisas no Google por "Nike Tech" e "Nike Tech Fleece", como evidenciado pelos dados do Google Trends, o casaco e as calças desportivas Nike de Maduro esgotaram-se como água em poucos minutos. Vários tamanhos, especialmente os maiores, desapareceram quase instantaneamente do stock online. O preço das ações da Nike também acompanhou este frenesim. As suas ações na Bolsa de Nova Iorque saltaram de 63,33 dólares no fecho do dia 2 de janeiro para quase 65 dólares por volta das 17h00 do dia 5 de janeiro. Será que Trump se vai gabar em breve de ter provocado, graças à sua espetacular intervenção na Venezuela, uma escassez global de ações da Nike? É fácil imaginá-lo a dar alguns passos de dança em frente à câmara enquanto canta "Just Do It" (o famoso slogan da Nike).

(...)

Mas será que não conseguimos encontrar algo mais inspirador para o nosso guarda-roupa atual do que um fato de treino cinzento e sem graça usado por um ditador bigodudo e fotografado por um presidente caricato?

[Transcrição quase integral de Pourquoi le jogging porté par Nicolás Maduro a-t-il fait exploser les ventes de Nike ?, de Marion Dupuis, no Madame le Figaro]

segunda-feira, outubro 20, 2025

85...? Ou 58?

 

Comecei este blog há 15 anos. Talvez haja leitores actuais que me acompanhem desde então. Ou, se não do início, pelo menos há uns quantos anos. Talvez já me conheçam razoavelmente.

Quando penso nas diferenças entre o que sou hoje e o que era há 15 anos o que me ocorre são os saltos altos. Pode parecer a maior das futilidades -- e, não garanto que não seja -- mas é o que me ocorre. Todos os dias da semana de saltos bem altos. Atrás dos saltos vinha tudo o resto. Ainda este domingo a minha filha esteve a vestir algumas dessas peças de roupa e, em relação a algumas, espantava-se: 'Cabias aqui dentro?'. Cabia. E quando se cabe facilmente em peças de roupa de que se gosta, tudo o resto parece que fica mais fácil. E brincos. Não saía de casa sem brincos. E tudo condizia: dos sapatos, ao vestuário, da lingerie aos adereços, da maquilhagem ao perfume. Todos os dias me ocorria um conjunto total. Nunca repetia nada. Saía de casa a sentir-me uma mulher nova -- todos os dias. Tinha uma energia que a mim própria me custa a compreender. De manhã à noite eu estava sempre no máximo. Sem comprimidos (que nunca tomei) e com uns dois ou três cafés por dia, se tanto. Era uma coisa minha. E chegava a casa e depois da janta e da lida da casa, ia pela noite adentro a pintar, a escrever, a fazer o que me desse na veneta. Dormia pouco e era como se a falta de sono não me afectasse. 

Agora estou bem diferente. Geralmente uso ténis (aka sapatilhas) e farto-me de caminhar. E, afinal, os meus pés não me agradeceram. Como tenho pé de bailarina, com o arco pronunciadíssimo, de sapatos altos é que estava bem. Agora uso umas palmilhas personalizadas e parece que a coisa resulta. Mas uso também vestuário mais prático, pouco uso brincos, anéis, colares. Nunca mais usei relógio nem aliança. Uso frequentemente cabelo apanhado (e dantes usava-o quase sempre solto). E já não tenho a mesma energia que parecia inesgotável.

Atribuo ao covid pois foi depois de ter covid que passei a ter mais sono e a precisar de descansar por mais tempo- Mas também pode ser a idade. 

No entanto, não me sinto idosa. Hoje a minha neta, que está a estudar a demografia em geografia, que a partir dos 65 se é idoso. Sou, portanto, idosa. Mas não me sinto. Não consigo ter aquela mentalidade de velha nem tenho paciência para conversas de velhos. Pelo contrário gosto é de conversar ou com gente mais nova ou, se da minha idade, com os mais irreverentes, os que se conservam com aquela doideira saudável que sempre lhes conheci. Se encontro um grupo da minha idade, como quem não quer a coisa afasto-me dos chatos, dos saudosistas, dos que falam do 'tempo deles', dos que dizem mal de tudo, e vou para o pé de quem se ri, de quem se diverte com as pequenas coisas.

Claro que já estou naquela idade em que tenho que aceitar que o corpo pode começar a vacilar. Ainda há tempos apanhámos um susto com um que, como um outro amigo, médico, disse, 'esteve do outro lado'. Fico sempre abalada: pessoa activa, conhecedora dos quês e porquês do corpo quando envelhece, aliás especialista nessa área, supostamente saudável, e, de um momento para o outro, vai-se, ultrapassa a fronteira. Felizmente, foi ressuscitado, regressou. Mas não ficou o mesmo, teve que fazer recuperação. A vida pregou-lhe uma rasteira e oh que rasteira.

Claro que fico um pouco perturbada com isto. 

A semana passada uma pessoa que me é próxima contou-me que o pai, agora, ultimamente, de vez em quando, tem umas coisas, uns esquecimentos, umas baralhações. Também fiquei incomodada. É certo que o pai já tem noventa e que, nos últimos meses, passou por uma cirurgia e por uma perda mas estava tão bem há tão pouco tempo. Enquanto ouvia a descrição desses momentos pensei: 'Se calhar também não é mau que a pessoa, quando perde o familiar querido com quem viveu a vida inteira, quando deixa de ser capaz de ficar autonomamente na sua casa, quando perde a vitalidade, perca também a noção das coisas, se calhar sofre menos, se calhar avança mais despreocupadamente para o desenlace final'.

Apareceu-me aqui no youtibe este vídeo que aqui partilho em que uma bela mulher de 85 anos fala da sua vida. Muito bem arranjada, bonita, sempre com um sorriso. Está divorciada há dois anos e ainda está a procura de ter outro amor. Diz que não se sente com 85. Talvez 58 anos. Ouvindo-a a falar, dir-se-ia que sim, mentalidade de 58. 

Se o corpo aguenta, ou melhor, se vai aguentando, é bom que a curiosidade se mantenha, que a capacidade de encantamento se mantenha. Para mim esses são os verdadeiros segredos para uma vida feliz: gostar de aprender, ter vontade de descobrir o que não se sabe, gostar do que se tem, gostar de tudo, da família, das flores, dos passarinhos, de estar aqui a escrever, de cozinhar, de ver o pessoal todo a gostar do que levo para a mesa, gostar de ver como gostam uns dos outros, gostar de os ver, de os ouvir, gostar de ler, gostar de passear, gostar de ver o mar, de ver o céu, de varrer, de regar, de conversar, de namorar, de ver um homem bonito (ou uma mulher -- conforme os gostos) ou, se não for bonito, de observar um homem interessante (ou mulher, lá está), de brincar e fazer festinhas ao cão, de ir à janela ver a chuvinha boa. E por aí fora, infinitas coisas boas que me fazem feliz. Infinitas. Poderia estar aqui a noite inteira a enumerá-las.

Perguntar a uma mulher de 85 anos sobre os seus maiores arrependimentos na vida

Perguntei a uma senhora de 85 anos sobre os seus maiores arrependimentos na vida. Beatrix Ost é uma escritora e estilista de renome mundial. Imigrou da Alemanha para os EUA após a Segunda Guerra Mundial, e a sua viagem de mais de 60 anos levou-a a aprender algumas lições de vida incrivelmente instigantes. Acho que vai tirar muito proveito desta história.

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Post scriptum

Avançar com o nome de António José Seguro, assim como quem não quer a coisa, a titulo de exemplo, foi uma das várias argoladas de Pedro Nuno Santos. Falava e depois é que pensava. Provavelmente nem lhe ocorreu que ao Tozé aquilo ia soar a convite. Mas ocorreu. E, claro, criou um problemão a muita gente.

À data de hoje, não há nenhum candidato que me faça cair para o seu lado, sem dúvidas. A política está uma tal xaropada que parece que só atrai pessoal das segundas ou terceiras ou quartas linhas. No meio do que se oferece, talvez esteja mais ou menos inclinada para um deles, mas ainda com tantas dúvidas que nem me atrevo a pronunciar-me mais que isto.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já esta segunda-feira

quarta-feira, dezembro 11, 2024

O charme discreto da burguesia

 

Como hoje, por aqui, está bastante frio, vesti uma camisola fininha mas quente, relativamente comprida, quase túnica, com bolsos, e com uma gola que pode estar dobrada e fazer um simpático e pequeno decote em bico mas que, na rua, em especial quando o sol deixa de agasalhar e o frio aperta, pode subir e, se eu quiser, fica até um capuz baixo. É muito confortável e flexível. É num tom neutro, mais cinzento clarinho que beige, e sinto-me bem com ela. 

Agora que aqui me sentei, não me apetecendo mergulhar no déjà vu que é o dia a dia do mundo com as suas contradições, umas arrepiantes, outras assustadoras e outras que, de tão boas, quase parecem que a malta anda in the sky with diamonds, resolvi ir de visita à Madame le Figaro. 

E eis que dou de caras com um artigo cujo título refere: "usar uma gola alta em vez de écharpe: o charme discreto da burguesia". Interessante. 

Para além do aspecto histórico das indumentárias com golas bem altas associadas à aristocracia, há agora também a elegância associadas à discrição, permitindo encobrir um pouco o rosto (e que pode ser conjugado com uns óculos escuros que, no conjunto, quase garantem o anonimato).

Victoria Beckham porte un manteau ceinturé au col montant tiré de sa propre marque. (Paris, le 13 novembre 2024.) Marc Piasecki / GC Images

Gosto francamente. 

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Interessei-me também sobre as astúcias de maquilhagem para um olhar de festa. É tema que me motiva (qb, claro...).

Pour les fêtes, on ose le regard œuvre d’art. Plume Creative / Getty Images

Li com atenção o artigo e dali até saltei para outros artigos que contêm tutoriais que ensinam a disfarçar olheiras, papos debaixo dos olhos, rugas e pele baça. Há toda uma longa literatura e talvez milhares de vídeos que ensinam truques e recomendam produtos que tapam, que iluminam, que chamam a atenção para outros pontos, que alongam, que prolongam. Um longo filão. 

Ora, depois de ter visto tudo isto, eis que passo para outro artigo em que uma escritora recomenda um livro. Não a conhecia a ela nem conheço o livro (que deve ser interessante). O que chamou a minha atenção foi outra coisa: as olheiras dela.

Anne Berest, romancière et scénariste. ©Assouline/opale.photo

No mesmo local em que se ensinam truques para que as mulheres tenham um olhar fascinante, aparece esta mulher que parece mal dormida. 

E a verdade é que, apesar disso, acho que é um belo olhar, acho que, apesar de despida de disfarces, tem imenso carisma. Para dizer a verdade, quem é BCBG é mais deste género do que quem tem olhares tão maquilhados que não deixam antever a alma de quem os possui.

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Entretanto, está na altura de se falar das ementas das festas, de como arranjar as mesas, de como levar o ambiente acolhedor e luminoso da época festiva à decoração, etc. 

Dans les chambres et les salons, vases, pampilles et potiches de Bernardaud sont sublimés par les fleurs et les végétaux choisis par Jean-François Boucher, meilleur ouvrier de France, et responsable de l’atelier floral du château. Franck Juery

Também gosto de ver mesmo que, na prática, quando sou eu a tratar do assunto, havendo por cá um bando de jovens ruidosos, alegres e esfomeados, não se consiga seguir a etiqueta dos momentos bem comportados. E é que às tantas uma pessoa até quase esquece de como é a verdadeira etiqueta. 

Nada, claro está, que também não se consiga relembrar:

Découvrons les bonnes manières avec Marie de Tilly

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Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, dezembro 04, 2024

Quando o analógico volta a ser fashion

 

Como as minhas diversas máquinas fotográficas se encontram danificadas (crianças, cães, areia da praia, etc), agora não tenho nenhuma funcional. Por isso, quando quero fotografar uso o telemóvel. 

Nestas coisas de quererem saber o que eu gostava de ter pelo Natal e dizendo eu que não tenho qualquer ideia (a não ser que gostava que não me oferecessem coisas caras ou de que não precise), ocorreu-me que talvez o meu marido pudesse oferecer-me uma máquina fotográfica. 

Na minha ingenuidade, pensei que, com tanto avanço tecnológico, já houvesse alguma coisa razoável a baixo custo. Fomos a duas lojas e parece que as compactas básicas desapareceram. Ou há as mirrorless caríssimas ou há instantâneas ou analógicas. As instantâneas está bom de ver que são aquelas que imprimem logo a fotografia. Não dá para quem gosta de tirar muitas, quem quer guardá-las ou distribuí-las pelos outros. Ficam as analógicas que agora há todas fashion. Pensei: não podem ser as de rolo, de antigamente. O meu marido disse que devia ser. Não acreditei. O tempo não volta para trás. Fui perguntar. É mesmo. Máquinas de rolo, à antiga. Aparentemente são o último grito da moda. 

Desisti.

Perguntei pelas compactas, normais. Em todo o lado disseram-me que já praticamente não há. Falaram-me como se fosse coisa obsoleta.

Desisti.

Há coisas que não se percebem.

Portanto, vou continuar a tirar fotografias com o telemóvel. 

sábado, novembro 02, 2024

Há coisas que só vistas

 

Durante toda a minha vida, escolhi por mim o que vestia fosse para o que fosse. Todos os dias eu saía de casa como se fosse um dia especial pois todos os dias frequentava locais em que toda a gente se arranjava muito bem e sentir-me-ia deslocada se me apresentasse arranjada de forma desatenta ou informal.

Vestia-me com cuidado, tudo a condizer (ou a contrastar, consoante o objectivo) sapatos adequados, maquilhagem no tom. 

Claro que quando havia mega reuniões ou encontros do Grupo ou situações em que eu ia falar para as 'massas', tendo os 'holofotes' sobre mim, tinha especial cuidado. Nessas alturas, claro que, na véspera, à noite, experimentava vários outfits, fazia uma pré-selecção, e depois pedia a opinião ao meu marido. Era frustrante para mim pois eu gostaria que ele olhasse com atenção, pensasse um pouco. Mas não. Eu aparecia e ele dizia logo 'acho bem'. Depois, eu mudava e aparecia com outra roupa, e ele, instantaneamente, dizia: 'A primeira'. Eu mudava para a toilette seguinte e acto contínuo, ele dizia: 'Pode ser.'. Ou seja, não se concentrava, não tinha paciência. Eu tinha que insistir bastante, mas ficava sempre com a sensação de que ele queria era ir jantar pelo que não tinha paciência para as minhas experimentações. 

Agora que estou reformada, a minha vida felizmente simplificou-se de forma radical. Mesmo quando vamos passear, ou almoçar fora ou a algum encontro ou a alguma situação em que faz sentido arranjar-me um pouco melhor, só tenho que ir ao roupeiro e escolher um conjunto que me agrade.

Mas depois há aquelas situações especiais. Aí tenho mesmo que caprichar um bocadinho. Não dá para ir muito casual e o registo informal está fora de questão. 

Uma coisa tenho muito clara, nesta e noutras condições: não vou comprar nada. Portanto, só tenho que saber escolher. Hoje, antes de chegarem os meus netos, estive a experimentar toilettes. 

Acabei por me fixar em duas. Uma baseada em tons azuis escuros e outra em tons azeitona. Fotografei-me e mandei à minha filha. Rejeitou liminarmente as duas. Na sequência disso, devo ter estado à vontade uma hora a trocar de calças, de blusa, de casaco, de sapatos. Finalmente, quando me parecia que inequivocamente era aquela, a minha filha voltou a rejeitar. Agora parece que já nos fixámos numa delas, com outra como alternativa. 

No fim, a cama tinha calças, blusas, casacos, tudo fora dos cabides, uma maçada de todo o tamanho para voltar a arrumar tudo. Ocorreu-me a paciência que aquelas pessoas que trabalham nos provadores da Zara ou de outras lojas de grande movimento têm que ter para passar horas a arrumar roupa que os outros despem e para ali deixam de qualquer maneira. Enfim.

Mas, com a short list de duas toilettes, agora tenho que convencer o meu marido a ser cooperante e dizer a sua opinião. Gostava que fosse ele a desempatar (mas não estou com muita esperança).

E ainda tenho que ir cortar o cabelo e, desta vez, a ver se vou mesmo à cabeleireira. Em quatro anos acho que só fui uma vez. Mas para um corte mais radical e para a situação que é, não posso arriscar nos meus amadorismos. 

Claro que, no meio de tanta desgraça. eu estar nisto é coisa abaixo de parva. Mas a vida tem destas coisas, muitas facetas, e, excepto em situações limites, há espaço para tudo.

Tirando isso, tive ajuda na cozinha, dois dos meninos colaborando, e, talvez com a excitação de tê-los ali, cada um a fazer a sua coisa, a falarem alto, numa alegria, o cão, que nunca liga patavina, desta vez também quis ver o que se passava e pôs-se de pé, duas patas na bancada, para espreitar e para ver se apanhava alguma coisa. Foi uma aventura para o pôr dali para fora pois obviamente quer estar onde estão as suas 'ovelhinhas'. A cozinha tem duas portas e uns corriam por uma porta e ele atrás e eu e o meu marido a fecharmos a porta e todos a quererem entrar pela outra e nós a tentarmos barrar-lhe a passagem mas, claro, eu a precisar de entrar. Há coisas que deveriam ser filmadas pois só vistas.

E agora que estou aqui na sala a ver uma coisa assustadora, os vídeos falsos gerados por Inteligência Artificial, uma coisa que me preocupa para além da conta (um dos habilidosos dizia que com um gasto mensal de vinte e poucos dólares, conseguia fazer não sei quantos vídeos -- ou seja, toda a tecnologia à disposição de toda a espécie de crápulas, de mercenários, de malucos, de agarrados que precisam de dinheiro, de psicopatas, de fascistas, etc), só me apetece continuar no registo das frioleiras, das futilidadezinhas inofensivas, que não me desgastam os neurónios, que não cansam a minha beleza.

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As imagens foram photoshopadas com muita graça por Volker Hermes

E um bom fim de semana para todos

quinta-feira, outubro 03, 2024

Se empatia é calçar os sapatos dos outros, então, santa paciência, não sou nada empática

 

Para começar não sei se empatia é isso dos sapatos. Tenho dúvidas. Segundo o Priberam, empatia é a forma de identificação intelectual ou afectiva de um sujeito com uma pessoa, uma ideia ou uma coisa. E não vejo aqui qualquer referência a sapatos. 

Mas, ironias à parte, tenho que confessar que me faz impressão calçar sapatos usados por outra pessoa. Roupa, desde que limpa, não me importo. Mas mesmo assim prefiro conhecer a pessoa que a usou. Usar roupa sem saber se a pessoa que a usou era limpinha, lavadinha, isso faz-me alguma impressão. Ou seja, não sou o público ideal para as lojas de roupa usada. 

Quanto à empatia, tenho ideia que sou empática. Os assessments a que fui sujeita enquanto trabalhava (e com muito gosto o fui, pois ser analisada, escrutinada, avaliada e etc. sempre foi pratinho que me soube bem) diziam que sim, era empática, sim senhor. 

Mas, afinal, pelo menos na minha vida civil, não sei se sou assim tanto. Ou melhor: se ainda sou. 

Por exemplo:

  • A minha capacidade para me identificar com os tontos do Governo que se papagueiam uns aos outros, mesmo que seja para papaguearem disparates e nulidades, é limitada. 
  • A minha capacidade para achar graça à humilhação a que a Joana Marques gosta de infligir às suas vítimas, em particular quando o faz em público, expondo o humilhado à multidão enquanto goza com ele, é muito, muito limitada. 
  • A minha capacidade para perceber o ponto de vista da Ana Moura que, numa cerimónia (que pode ser questionada pelo seu valor, pelo seu préstimo, pela sua credibilidade mas que, para todos os efeitos, é uma cerimónia -- em que quem lá vai deve respeitar o dress code), se apresentou em trajes menores, zero de confecção, zero de côuture, zero de bom gosto, com os seios e os próprios mamilos à vista, é muito limitada. 
  • Identicamente a minha capacidade para tolerar o desbocamento torrencial da fonte de Belém também se esgotou. Desde há muito.
  • E a minha capacidade para aturar a histeria presidencial, da AD, das televisões e de tutti quanti que querem à viva força obrigar o PS a enfiar o Orçamento pela goela abaixo, seja o que for que ele contemple, é deveras limitada. Deveras.
  • E, agora, até o FMI vem dizer que o IRS Jovem é a ideia mais burra que alguma burra algum dia pariu. Face a isso, o Montenegro vai tirar o tapete ao Sarmento? Não, senhor. Em vez disso vai fazer de conta que está a fazer a vontade ao PS, através de uma proposta irrecusável. E eu, perante isto, aqui confirmo: a minha capacidade para aparar chico-espertices destas já foi ultrapassada há algum tempo.

Por isso, em dias como o de hoje, um dia cinzento, uma persistente chuvinha molha-tolos, interrogo-me: seria eu capaz de calçar os sapatos do Montenegro, da Senhorinha da Administração Interna, da baderneira-mor da Saúde, do Lentão que até dá dó, do inteligente Sarmento, do Dissolvente... e por aí vai...? Ou seria eu capaz de calçar sapatinhos como os que aqui mostro?










Resposta à pergunta lá de cima: Não, não creio.

(Mais sapatinhos aqui)

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E não vale a pena virem aqui dizer que este post é disparatado. Eu sei que é. Mas vou falar ajuizadamente a que propósito? Ah pois é, bebé. 

Portanto, passo já para a secção musical.

In Hell I´ll Be in Good Company 

(metal cover by Leo Moracchioli)


Dias felizes para todos

segunda-feira, julho 15, 2024

Dias felizes

 

Devo dizer que tenho vivido dias felizes. Com os que me são mais queridos juntos, todos bem dispostos, a conversa a fluir de gosto, todos em volta da mesa, com a casa cheia, com a maluqueira nocturna que me fez rir de gosto, com o madrugar bem mais cedo do que me é habitual, com a alegria de todos... sinceramente, a nível pessoal, não posso querer mais. 

De vez em quando lembro-me do que disseram e dou por mim a rir sozinha. 

Todos têm a sua vida pessoal e profissional (ou escolar), certamente todos terão, de quando em vez, os seus contratempos e preocupações. Mas, como por magia, quando nos encontramos todos, parece que os problemas perdem relevância e a ninguém lembra falar de maçadas.

Estou boa do meu pé. Quase boa. A nível visual está praticamente normal. Claro que, quando olham, ficam um bocado enjoados pois acham-no esquisito. O dedão (e arredores) está a perder a pele. Mas a mim isso não me incomoda nada. Também ainda tem umas manchinhas escuras mas nada de mais. Também já mexo razoavelmente o dedo. Dói-me ainda um pouco mas já não me tira o sono e, na maior parte do tempo, nem me lembro de tal coisa. E da tendinite do ombro que me causou rigidez também já estou quase a cem por cento. Vou eu fazendo uns exercícios e a coisa está a ir ao sítio. Só aqui é que me ponho a falar nisso. Quando estou com a minha turma nem me lembro das chatices que tive nem do que ainda sobra delas. 

Claro que, no meu íntimo, sinto saudades da minha mãe e faz-me muita impressão que tenha sido uma presença tão constante na minha vida e que, como que por artes mágicas, em pouco tempo, se tenha despido de matéria. Era alguém tão presente e agora é apenas memória. E já passaram quase seis meses. Por vezes, parece-me impossível. E no outro dia o meu pai faria anos e, no entanto, ao mesmo tempo, parece que já não existe há imenso tempo, quase como se já não pertencesse à minha vida actual. E não pertence. Mas a verdade é que pertenceu até 2020. 

O tempo tem o seu lado cruel, a vida tem o seu lado de traiçoeira. 

Mas forço-me a manter estes pensamentos no lado adormecido da minha mente. E consigo que isso coexista com a minha alegria em estar viva e rodeada por aqueles que tanto amo.

E depois há as pequenas coisas. Infra-mínimas. Mas que me dão prazer, me motivam, me animam.

Por exemplo: estava com o cabelo comprido que geralmente apanhava em rabo-de-cavalo, muitas vezes dando-lhe uma reviravolta ao alto, para cima. Mas andava com vontade de o transformar. Então hoje, há bocado, fiz assim: estando apanhado num rabo de cavalo alto, como é costume, meti-lhe a tesoura e lá vai disto. Ou seja, agora, depois de cortado, dá para o apanhar na mesma, à tangente mas dá, e, curiosamente, ficou com um escadeado bem curioso. Saiu um monte de cabelo, ficou muito mais leve, e acho que não ficou mau de todo. Ainda lhe dei mais umas duas ou três tesouradas à frente para fazer um degradé mais harmonioso. Já não vou à cabeleireira há anos e fico com pena pois gostava dela e espero que as restantes clientes sejam mais fiéis do que eu. Mas isto de ter a liberdade de fazer coisas assim, na base do 'lá vai disto', faz-me sentir muito bem.

A outra coisa pertence à mesma categoria, a das frioleiras: andava com vontade de usar vestidos compridos mas nada me agradava pois não sou bem o género de intelectual de esquerda daquelas que usam saias compridas, largas e desengraçadas, nem sou exactamente o estilo hippie. Não estava a ver-me como uma maria-pendona. Mas também não queria usar vestidos que parecessem de noite, muito menos de baile de finalistas. Portanto, mantinha-me no classicismo das calças, dos vestidos pelo joelho, e, numa versão mais estival, calções brancos com blusinhas coloridas. Mas finalmente dei o salto. Encontrei o género de que gosto. A minha filha ofereceu-me um, que me assenta de uma forma superconfortável e com o qual gosto mesmo de me ver. E eu comprei os outros. E sinto-me tão bem... Há um que ainda não estreei mas sobre o qual estou com uma boa expectativa: cai como seda, suave, muito leve, é justo em cima mas alarga um pouco para baixo, é super decotado à frente e atrás, de alcinhas finas, e é em cor de coral com pavões gigantes de alto a baixo naqueles tons verdes e azulões. E, para conjugar, tenho um brinco, um único, com uma pena nos mesmos tons. Penso que vai ser exótico e isso agrada-me.

E toda a vida usei brincos discretos. Poderiam ser coloridos e adaptados às toilettes mas nada de exuberâncias. Contudo, andava com vontade de ter brincos ousados, coloridos, incomuns. E descobri-os. Estou mesmo feliz com eles. A ver se amanhã os fotografo para vos mostrar pois acho-os especiais e, sobretudo, os pais da criadora comoveram-me e apetece-me transmitir-lhes o meu carinho.

E ainda mais uma: chapéus. Adoro chapéus. Mas sempre me fiquei por modelos que me parecessem elegantes mas discretos. Provavelmente as pessoas discretas já os achariam algo destacados mas, para mim, estavam aquém do meu gosto intrínseco. Pois vi um que imediatamente chamou a minha atenção. A minha filha, ao vê-lo na loja, disse que todo ele é, em si, um statement. De facto. E não fujo a isso. Mas, ainda assim, receei que fosse demasiado aparatoso. Contudo, acabei por não resistir. Acho-o um espectáculo e sinto-me mesmo feliz quando o ponho. (Não é este. Este aqui ao lado é um que encontrei via google)

Quando era adolescente gostava de modelos originais e de me maquilhar e os meus pais zangavam-se, não queriam que eu desse nas vistas, diziam que não tinha idade para isso. Depois, pela minha profissão, tinha a noção de que não deveria mostrar-me a tender para o radical ou para a desalinhada (até porque era acusada disso). Agora já não tenho que provar nada a ninguém nem tenho que recear as opiniões alheias. Não que me preocupasse com isso mas, enfim, vivia o meu dia a dia integrada numa realidade em que as fugas à regra tendiam a ser mais ou menos vistas como perigosas excentricidades.

Claro que para coroar o bolo só mesmo uma cerejinha a enfeitá-lo: durante a semana fomos, por duas vezes, almoçar a um restaurante veggie. Não me tornei e acho que não me tornarei veggie mas a verdade é que gostámos imenso. Comemos agora muito menos carne, preocupamo-nos cada vez mais com uma alimentação equilibrada e saudável. E o meu filho ofereceu-me um conjunto de alimentos biológicos, saudáveis, e isso agrada-me e atrai-me bastante.

Portanto, apesar de não estar a ir para nova, a verdade é que me sinto cada vez mais disponível para procurar e acolher novidades e para me libertar das poucas peias que já tinha.

E viva a vida.

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Mercedes Sosa, Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Gal Costa - Volver a los 17


Uma semana feliz

domingo, junho 23, 2024

Quem é que enfia o chapéu, quem é...?

 

Sei que há temas relevantes que deveriam ser abordados 

(por exemplo: 

a pose majestática de Madame Gago montada nos seus sumptuosos casacos que mostra à saciedade que se está a caguar para dar explicações à malta sobre o regabofe que por lá grassa, 

ou a trupe de investigadores que entram aos cinquenta de cada vez para vasculharem facturas em Oeiras, como se não houvesse auditoria às contas, e como se o custo deles não superasse em muito o custo dos almoços, 

ou as calhandreiras do Ministério Público que andam anos e anos e anos a bisbilhotar a vida das pessoas como se o dinheiro dos nossos impostos não tivesse destino mais decente, 

ou os justiceiros de trazer por casa, gente a fazer-se passar por inspectores da Pide, que gostam de humilhar e atormentar a cabeça aos pobres coitados que se veem atirados para as luzes da ribalta, inquiridos em frente às câmaras para saciar a insaciável fome de espectáculo dos populistas e dos cobardes que, sob pretexto de serem deputados, ali estão a gastar inutilmente o dinheiro dos nossos impostos, etc, etc). 

Assuntos não faltam.

Só que eu ando mais numa de apanhar orégãos, de os dispor à sombra a ver se secam, limpinhos, cheirosinhos, continuo numa de varrer e deixar os caminhos em volta da casa arranjadinhos, voltei a pôr água na banheira que era das crianças quando eram bebés para que os esquilinhos tenham o que beber, depois a ver futebol em família (com o sector masculino a não querer que eu fale ou puxe pela equipa ou bata palmas ou sofra em voz alta pois dizem que os desestabilizo), a conversar ou a rir com eles. 

Por isso, neste registo peace and love, não consigo posicionar-me para falar de coisas que me desagradam. Toda eu estou longe de MPs, PGRs, Venturas e Comissões tóxicas ou outros deputados que, não sendo populistas ou sabujos não são capazes de bater o pé e não aceitar que a sua presença quase normalize as poucas vergonhas que ali se passam, populismos, ignorâncias, invejosices, ingerências indevidas, ou leviandades, conversas incongruentes e tontas (como as do Sarmento, por exemplo). Longe, longe. 

Por isso, agora ao fim do dia, ao passar os olhos pelas notícias, não me apeteceu falar sobre nada do que para ali vi. 

Apeteceu-me foi pôr-me a ver chapéus. Adoro chapéus. Tomara que um dia ainda possa ir a um sítio onde um chapéu lindão como estes do Royal Ascot 2024 não fique descabido. 










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Desejo-vos um belo dia de domingo

quarta-feira, junho 05, 2024

Tosquiadelas, caracoletas e etc.

 

Hoje não há cá notícias sobre televisões, cabos coaxiais ou outras aventuras que tais. A esse nível parece que está tudo estabilizado. Continuo a achar que ficou um pouco mais acima do que devia mas também já percebi que, no curto prazo, não vou ter sorte nenhuma. Mas percebo. Se tivesse que ser eu a desmontar tudo e a ter que repetir todo o processo provavelmente também me recusaria. Portanto, ou me habituo a ter o pescoço levemente inclinado ou dou um tempo para que haja maior receptividade à mudança.

Hoje a novidade é que foi dia de ir dar banho ao cão. 

Cães assim que gostam de se rebolar no chão, em que o spot preferido para dormir ao ar livre é um buraco que fez na terra, de preferência na terra húmida, que gosta de se enfiar no meio dos arbustos, que não é muito adepto de ser escovado e lavado por nós, de vez em quando precisa mesmo de um tratamento radical. Mas isto é como aquela coisa que se vai à lã ou lá o que é e se sai tosquiado. 

Não está tão rapado como na outra vez mas, coitado, depois de lá ter deixado um brutal volume de lã, até parece que fica outro. Uns olhões todos à vista (atenção que me refiro mesmo aos olhos, não foi nenhuma letra que me ficou esquecida), até parece um infeliz, coitado, um corpinho que afinal, estando à vista, se vê que é alto e esguio. Pobrezito do meu fofo.

Claro está que já lhe fiz mil mimos e já o iludi dizendo-lhe que está muito lindo, muito lindo. Coisa mais fofa da dona.

Enquanto ele estava a ser cuidado, fomos até a um centro comercial para irmos ao supermercado. Por via das dúvidas, antes fui dar uma espreitadela às lojas. Vi uns calções bem giros. E vi umas blusas maneiras. Quando estava a equacionar a situação, inclinada para sucumbir, o meu marido disse: 'Vá, despacha-te, não nos podemos demorar. Se precisas disso, despacha-te.'. Aquelas palavras assassinas calaram-me fundo. 'Se precisas disso'. Caraças. De facto, não preciso. Dei meia volta e fomos para o supermercado. Com a roupa é quase como com os livros: mesmo se não comprar mais nada, tenho até aos últimos dias da minha vida (mesmo que dure até aos 200). E é que nem se põe a questão da moda pois desde que a moda se tornou uma questão em aberto, deixando espaço a que o estilo se sobreponha, visto o que me apetece sem querer saber de tendências. Portanto, não me choca nada pensar que quando tiver 107 anos vou estar a vestir os calções brancos que vesti hoje (se resistirem até lá; mas, se não resistirem, no problem, tenho outros equivalentes) e a blusinha também branca com grandes flores em tons diversos de rosa que há de estar tão na moda como está hoje. 

Posso ainda acrescentar que, de caminho, comprámos caracóis e que, mais coisa menos coisa, foi o meu jantar. E a rapariga que me atendeu foi uma querida. Quando ia servir-me, perguntei-lhe se também havia caracoletas. Ela disse que sim, se eu dissesse que queria. Disse logo que sim, que queria. E tanta alegria devo ter mostrado que ela caprichou na dose: caracoletas em grande número. Gosto imenso de caracóis mas ainda gosto mais de caracoletas.

E ao escrever isto ocorre-me que a ver se, daqui por algum tempo, não penso neste petisco com o incómodo com que hoje penso no belo petisco de passarinhos fritos da minha infância. Comia-os com enorme prazer e tenho ideia de que, por vezes, até lhes comia os ossinhos. Hoje, que me deleito a ouvi-los cantar e me maravilho a vê-los a saltitar por aqui, só de pensar na desumanidade de se matar passarinhos para os comer me dá ânsias. Mesmo polvos, agora que os sei super inteligentes e comunicativos, já me faz impressão comer. Por isso, a ver se daqui por algum tempo não me sinto incomodada, quiçá uma bárbara criatura, por estar a devorar caracóis e caracoletas.

Mas, enquanto isso não acontece, desforrei-me. Tão bom...

sexta-feira, maio 24, 2024

Longos anos vão desde que o meu avô se entretinha a fazer empreita até ao apoio que a Hermès dá à arte do vime

 

Quando eu era pequena via muitas vezes o meu avô a escolher folhas ripadas, a estendê-las, a prepará-las para o trabalho. Creio que com canas fazia os moldes e depois ia entrançando em volta.

Leio que:

A empreita de palma consiste no entrançar de “tiras ripadas” da folha da palmeira-anã, em longas “fitas”, e é um dos elementos mais enraizados na cultura material algarvia. Era utilizada na realização de artefactos do quotidiano rural, no acondicionamento e transporte de bens e alimentos, em objetos para uso doméstico, nos trabalhos agrícolas, na pesca e em alguns objetos de uso pessoal.

(...) O modo de produção dominante pouco foi alterado ao longo dos anos. No início do processo, as folhas de palma são secas ao ar e depois ripadas pelas nervuras, resultando em “tiras” que variam de largura, em função do tipo de trabalho que se pretende. A “empreita” consiste na produção de longas “fitas” feitas a partir das tiras de folha entrançadas, de diversas larguras. Cada fita é arrumada em rolo à medida que é produzida, atingindo vários metros de comprimento. Tradicionalmente, as fitas são cosidas com “baracinha” ou “tamissa”, ou com tiras de palma, para dar a forma do objeto pretendido, criando um tecido contínuo com uma trama diagonal  (BRANCO; SIMÃO, 1997).

Não creio que o meu avô usasse ripas de palmeira-anã pois não tenho ideia de as haver por ali. Provavelmente usava algum sucedâneo. Mas quem sabe ele teria descoberto algumas dessas palmeiras. 

As cestinhas onde eram colocados os ovos das galinhas da sua capoeira ou as cestas das nêsperas ou das ameixas ou de outra fruta que apanhava nas suas árvores eram feitas por ele. Identicamente fez algumas alcofas úteis para transportar compras.

Quando eu era miúda, pedi-lhe que fizesse algumas para nós e sei que ele as fez, lembro-me de as ver em nossa casa, isto é, na casa em que eu vivia com os meus pais. Mas agora, quando lá andei a escolher e retirar coisas, não encontrei nenhuma. E tenho pena.

Também tenho pena de nunca ter fotografado o meu avô a fazê-las e de não lhe ter pedido que me ensinasse.

Gostava muito de assistir àquela sua arte mas creio que era a única, para além dele. A minha avó até se irritava pois preferia usar as suas taças de louça ou vidro e não aquelas, campestres, que transportavam a memória do Algarve. E os meus pais também não faziam questão. Provavelmente achavam-nas demasiado rústicas para a nossa casa.

Neste momento, as cestas de empreita feitas pelo meu avô só existem na minha memória. Com sorte existirão também na lembrança da minha prima.

Hoje, ao abrir o youtube, apareceu-me o vídeo abaixo. Gostei muito de ver. Fazer peças com as próprias mãos é, para mim, sempre muito especial pois uma parte de quem as faz fica ali.

Já agora, por curiosidade:

Hermès
Kelly Picnic handbag
(Very good condition)
Green, Wicker 77000 €
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Desvendando a arte do vime em Villaines-les-Rochers 

| Passos da Hermès em todo o mundo

Entre as ruas tranquilas e as casas de pedra de Villaines-les-Rochers, uma antiga vila na França, existe a tradição de trabalho em vime. Mãos hábeis tecem meticulosamente os finos ramos do salgueiro petite grisette, transformando-os em obras de arte. 

A arte do trabalho em vime é praticada desde o século VII em Villaines-les-Rochers e é perpetuada pelos cerca de cinquenta trabalhadores em vime e cesteiros da cooperativa local de vime criada em 1849. 

A Hermès, parceira desta estrutura há mais de quarenta anos, reforçou o seu compromisso ao longo do tempo, num espírito de criatividade constantemente renovada. Dos objetos domésticos, a colaboração estendeu-se à incorporação de bolsas e acessórios de moda, fomentando uma cultura de inovação e criatividade.

Ao promover estas competências excepcionais, novas vocações são inspiradas e o ofício continua vivo.


domingo, abril 07, 2024

Os três da vida airada: cocó, ranheta e facada

 

Continuo a desviar-me do meu rumo. Ando por lugares belíssimos, tenho imensas fotografias e vídeos que poderia partilhar, gostaria de vos contar como há tantos sítios maravilhosos e felizes por onde passear... e, no entanto, quando espreito as notícias, dou com situações que me tiram do sério e me fazem ter vontade de aqui vir pronunciar-me.

Dizia-me hoje a minha filha que, com tanto que tenho para falar, estou a perder tempo com isto.

Além disso, pergunta-me ela: porque falo no aspecto em vez de falar nas competências?

Pois, compreendo.

A questão é que ainda não começaram a trabalhar. Mudar logótipos não é trabalhar, é apenas mostrar qual a noção que se tem das prioridades e, no caso, de que é que a casa gasta.

É certo que hoje recebemos mais uma mensagem de quem conhece um dos artistas convidados para Secretário de Estado, gozando com a sua falta de conhecimentos (académicos e profissionais) na área. Chega a ser doloroso.

Ontem à noite deu-me para conseguir descobrir um canal português. No caso, a SIC N. Mas não durou mais que 5 segundos pois quem apareceu foi a Maria João Avillez a dizer que tinha ficado pessoal e agradavelmente surpreendida por tanta gente querer ir para o Governo. O meu marido imediatamente entrou em fúria e instou-me a tirar aquilo dali. De facto, ou a senhora não está boa da cabeça ou está mal informada ou julga que somos parvos. Então não percebeu que, se calhar na maioria, aquilo é gente que acha que lhe saiu a sorte grande por ir para o Governo não tendo a consciência mínima que não tem condições para as funções? Poderá haver um ou outro caso em que há competência, é certo. Mas sobre um já ouvi dizer (e eu não costumo aqui citar quem não sabe do que fala) que esse foi para o governo pois estava em fim de linha no lugar onde estava. Outros serão arrivistas, pimpões, intelectualmente pouco dotados, sei lá. Mas, do que se vai sabendo, assusta.

Mas, enfim, sobre eles pouco mais tenho a acrescentar para além do que já aqui falei: se ainda há jornalistas competentes, sugiro que investiguem, questionem, compilem informação, informem o público.

Compreendo que provavelmente não arranjam gente competente, sabedora, experiente. Percebo isso. Tem razão quem enumera essas razões. Só com um pacto de regime, provavelmente entre o PS e o PSD, se poderá alterar toda a legislação e todas as condições que rodeiam a nomeação de quem quer que seja para funções públicas. Mas também não resultaria pois a comunicação social está empestada de gente que quer imitar todo o esgoto a céu aberto que empesta as redes sociais. Não sei como se ultrapassa uma coisa destas. Agora uma coisa é certa: o País irá de mal a pior se à frente das pastas estiver gente incapaz. 

De qualquer forma, agora só posso falar do que é concreto, factual, do que está à vista de toda a gente. 

Cinjo-me ao galheteiro aqui abaixo.

Excerto de foto daqui
(Não consegui descobrir quem foi o fotógrafo)

A body language e o dress code são importantes e indiciadores do que vai por dentro. Pode dizer-se que é gente que não tem noção, que há que dar desconto. Mas como podem eles apresentar-se em público, em lugares em que a apresentação é relevante...?

Por exemplo, veja-se os três mais importantes do Governo.

  • O Montenegro com calcinha justa, slim fit, mais parecendo que está com um modelito de toureiro, daqueles que evidenciam mais do que devem... Porquê...? Para quê...? 
  • O Rangel de calça castanha e casaco azul (ainda por cima, abotoado até abaixo!). Todo ele um despropósito. Vai apresentar-se assim nas diversas instâncias em que todos -- todos, menos ele -- sabem estar? Pode dizer-se que o vestuário é irrelevante quando o conteúdo é bom. Só que sabemos que o conteúdo é o que é e o histrionismo como é apresentado ainda mais piora tudo, ou seja, nem um nem outro são os mais recomendáveis. Agora imagine-se ainda por cima aparecer nestes preparos. Alguém vai levá-lo a sério? Lamento, não vai.
  • Quanto ao Sarmento até dá pena... Mas o que é aquilo...? É que nem sei definir bem o que é que ali está mal. É o penteado? São os óculos pequenos de mais para a cara que tem? É o casaco num modelo e num tamanho que estraga ainda mais o conjunto? É a forma como põe os bracinhos para a frente...? Não sei. A sério que nem sei. O que sei é que assim não vai conseguir que o levem a sério. Impossível.

Muito sinceramente, só espero que alguém faça a caridade de os ajudar pois assim não irão longe. Já basta o que basta. Para quê ainda piorar as coisas? Alguém, se faz favor, pode ajudá-los a vestir-se, a arranjar-se, a estar...?

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Desejo-vos um bom dia de domingo

Saúde. Boa disposição. Paz.

sábado, janeiro 20, 2024

A moda das calças justas

 

Por mais que eu veja à venda ou em uso calças largas, é moda para cujo peditório já dei. Se é que dei. No outro dia, quando resolvi soltar a franga e me atirei aos saldos, provei umas. Não, decididamente não é a minha praia. Eu sou mais de calças justas. O que me vale é que a moda de verdade já não é a ortodoxia de há uns anos, agora a moda, a verdadeira moda é sobretudo estilo, o estilo a que cada um adere ou adopta como seu. Mas não me admirava nada que, a continuar a moda das calças largas, qualquer dia eu fosse a única a andar com calças justas na cidade.

"Tight Pants" with Matthew McConaughey | The Tonight Show Starring Jimmy Fallon


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[E a minha família que não venha dizer-me que não estou a esforçar-me, mas a esforçar-me mesmo, para não me deixar afogar em preocupação e perturbação....]

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segunda-feira, janeiro 15, 2024

Este post não é sobre um vestido que não é de noiva

 

Um assunto que, no contexto da finitude da vida, sempre me perturba um bocado não é tanto o de aceitar que somos seres efémeros, passageiros numa viagem que não é infinita, mas o de que muitas vezes se está prestes a chegar ao fim sem que disso sequer se suspeite.

A primeira vez que essa ideia me assolou, e já falei disso aqui, foi quando uma tia do meu marido, uma tia queridíssima, muito bem disposta, sempre a levar tudo para a brincadeira, senhora de um recortado e fino humor, num certo dia em que o gato ia ficando entalado na porta, tendo-se assustado, deixou de falar. Toda a gente pensou que, sendo o afecto dela pelo gato tão grande, o susto tinha sido tão intenso que se tinha produzido ali um estranho efeito psicológico. Mas os dias passavam e a ela não recuperava a fala. E estava estranha, como se tivesse ficado um bocado debilitada. A família toda intrigada com tão bizarra reacção. Sobretudo intrigados, chamaram o médico a casa. O médico mandou fazer exames. E os exames não poderiam ter deixado a família mais perturbada: um tumor no cérebro. Não voltou a recuperar a fala e morreu pouco tempo depois. E, no entanto, antes do episódio do gato, nem ela nem ninguém suspeitaria que o seu fim estava bem próximo.

Com o meu tio aconteceu a mesma coisa e também já o contei. Forte, cheio de vitalidade, cores de pessoa com saúde para dar e vender. voz franca e forte, grande e bom conversador, amante de história e de política, sempre com vontade de relacionar assuntos do antigamente com a actualidade. E com um bom humor imbatível. Ria enquanto falava, ria de gosto. Quando o meu pai teve o AVC foi o grande apoio da minha mãe, sua irmã. Transportava-os às consultas, ajudava o meu pai nas escadas e a andar e a entrar e sair do carro. Estava sempre disponível, sempre bem disposto. Ele e a minha tia, um casal do mais bacano que há. Até que inesperadamente se descobriu que ele estava com um cancro avançado. Sem sintomas, dores, nada. Ao olhar as fotografias dessa altura, ele sempre na boa, sempre com aquele seu ar de homem saudável, nem ele nem ninguém desconfiava que não seria por muito tempo.

A seguir foi a minha tia que recebeu o mesmo veredicto. E foi a mesma surpresa. Num instante desapareceram. O casal a que não se conheciam doenças de relevo, sempre felizes, com uma vida saudável, foi-se sem que antes qualquer um tivesse percebido que o fim estava para breve.

Claro que, perante situações assim, duas atitudes podem ser assumidas: a pessimista, a de que não sabemos como estamos por dentro e de qual a nossa sina pelo que não vale a pena entusiasmar-nos com coisa alguma pois pode ser sol de pouca dura, ou fazer de conta de que nunca pensamos nestas coisas e viver a vida na boa, felizes por estarmos bem e não deixar que receios, porventura infundados, se aproximem de nós. Tendo a achar que a segunda é a melhor. 

Nos sítios por onde tenho andado não posso ignorar que tenho estado muito perto de quem está a caminho do fim da linha, com as angústias que isso sempre traz aos próprios e aos próximos. Para me distrair, penso que todos estamos a caminho do fim da linha. Desde que nascemos que o estamos. Uns mais depressa, outros mais rapidamente, uns com maior outros com menor sofrimento. Que dizer de uma menina que na escola é perfurada por um estilhaço do vidro da porta em que embateu? Ou de jovens que, talvez pela animação do álcool, se envolvem em brigas das quais nasce a morte de um deles? 

No outro dia morreu um familiar próximo de um amigo. Morte inesperada, prematura, deixando toda a gente consternada. E, no entanto, quando soube como foi, pensei que foi uma morte feliz e que a família deveria encará-la assim. Morreu sem o prever, sem sofrimento, de súbito, no local em que mais gostava de estar.

Os meus filhos vão achar que este post é deprimente e que eu deveria procurar a psicóloga. O meu marido, se os ouvir dizer isso, vai insistir no mesmo. Estranham ver-me assim e eu compreendo-os. Mas não sei se não é normal que eu pense nisto e se não é até racional que, com a serenidade possível, eu reflicta nestas coisas.

Uma amiga há pouco enviou-me uma mensagem a lamentar eu não ir a um almoço de grupo e a dizer para eu ligar a combinar alguma coisa. Mas, ao mesmo tempo, face às minhas actuais circunstâncias, a compreender que eu esteja sem grande disposição para participar em encontros em que toda a gente quer é estar animada e feliz e não a falar em preocupações ou com reflexões sobre a finitude da vida. Claro que toda a gente sabe que é finita mas, caraças, isso tem que ser dito em voz alta...? Acho que não. Por isso, reservo a minha participação para quando estiver a milhas de pensamentos destes.

Tirando isso, posso acrescentar que fui comprar uns pijamas para a minha mãe pois no fim da semana foi transferida para um local onde vai continuar a ser cuidada e, dos pijamas que tem, uns acho que são talvez quentes demais e outros talvez frescos de mais pelo que, apesar de ela não se queixar, arranjei-lhe uns bonitos que não são quentes nem frios. E, porque precisava desvairadamente de me alienar e estava tudo em saldos, apesar de não precisar de nem mais uma só peça de roupa até ao fim da minha vida (mesmo que viva até aos cento e cinquenta anos), marimbei-me para isso e cedi à tentação: uma blusa, uma camisa e um poncho. Quero lá saber. Até uns brincos e um colar mega hiper coloridos eu comprei. Apetece-me ter vontade de me revestir de todas as cores.

E quando fui ao supermercado comprar peixe, legumes, kefir e etc, resolvi fazer um desvio até à cosmética e, vendo um creme transparente que diz conter ácido hialurónico, não quis cá saber de coisas e comprei-o também. Pode não preencher ou reafirmar mas mal não deve fazer e imagino que seja uma sensação fabulosa colocar na cara um creme transparente como água.

Quando cheguei a casa, como tinha andado a provar roupas, antes de trocar de roupa tomei banho e usei aquele gel que se transforma em espuma e que supostamente tem poderes de relaxamento que recebi de presente de natal. Deve ter feito um bom efeito pois mal me sentei no cadeirão adormeci profundamente.

E acordei com vontade de voltar a escrever com aquela motivação aguda que me causa um frisson miúdo nas entranhas. E, caraças, quero mesmo acreditar que um dia vou conseguir descobrir uma editora que acredite que o que eu escrevo tem público e resolva apostar em mim. 

Um dia há-de acontecer. Tenho esperança.

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E porque não quero que fiquem a olhar para isto e a achar que estou é a ficar deprimida ou mais lelé da cuca do que era costume ou que só tenho pensamentos que não interessam nem ao menino jesus, termino com umas fotografias que mostram Julia Fox num evento da Sotheby em Nova Iorque na semana passada. E, tal como tive o cuidado de informar no título da mensagem, o vestido não é de noiva nem consta que ela tenha namorado. Igualmente encantadora é a carteirinha de mão que a sua acompanhante levava. Não que me passe pela cabeça pôr-me nestes preparos mas, ainda assim, acho que aqui devo deixar registo de tamanha ousadia (ou maluquice).




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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Alegria e esperança. Saúde.