Continuo quase sem ver televisão, em especial notícias. Não consigo. Há futilidade, leviandade, tendência para o alarmismo e para a maledicência. Portanto, ando um bocado por fora do que por aí se passa. Obviamente, se passo pelos Chegas, pelos Rios, pelos zeros que por aí pululam, fujo a sete pés. Não sou de comer o que me dão a comer.
E ultimamente pouco encontro que me dê vontade de comer (televisamente falando, claro). Por isso, lamento mas sobre a actualidade pouco ou nada tenho a dizer.
Tragam-me caminhos por entre recantos desconhecidos, escaladas até mosteiros abandonados no alto de cumeadas, tragam-me quem saiba encantar flores, quem saiba dançar com melros, quem saiba bordar de olhos fechados, quem invente histórias nunca acontecidas, quem guarde segredos em grutas invisíveis. Isso, eu veria de bom gosto. Agora o resto... Não, obrigada.
Se ontem foi um dia entre o campo e as pinturas e a visita à minha mãe, eu com a mobilidade bastante condicionada, este domingo o dia foi mais descansado, de perna no ar, gelo, agora já não o pé mas o joelho empanado. Não sei se esforcei alguma coisa sem dar por isso, se tenho mesmo uma perna mais curta que provoca desequilíbrio nas cargas, se são sapatos cambados em piso irregular, isso não sei. Sei que não estou bem.
Mas tive a visita de quem traz alegria, boa disposição, risos. Desta vez não fui eu que preparei o lanche. Os meninos a queixarem-se de fome, a minha filha a dizer que ia ajudar mas o chef que não, que dava conta do recado. O menino mais crescido já dizia: o avô deve estar a fazer ciência...
Mas, finalmente, lá apareceram os comes e os sumos e foi tudo apreciado. E o avô ficou contente por ter cumprido. E a minha filha trouxe uma deliciosa tarte de amêndoa. E comeram mini-geladinhos. E eu gosto imenso de vê-los em volta da mesa, com apetite, conversando, rindo.
Não me juntei a eles, claro, mas só de observá-los já me dei por feliz.
E jogaram à bola, e vólei e raquetes e fizeram palhaçadas e eu, apesar da minha condicionante e misteriosa lesão, estive a vê-los de gosto. Sempre uma fonte de vitalidade, todos eles.
Esteve um calorzinho bom. Envoltos em verde e flores, cercados pelo canto dos passarinhos, estivemos felizes da vida.
Antes de terem chegado, estive a ler um livro cujo prefácio me agarrou. Jorge Luis Borges fala com admiração e estima de Silvina Ocampo. Desse prefácio extraí o título deste post. Depois, entram os contos e, a começar, a lebre dourada.
No seio da tarde, o sol iluminava-a como um holocausto nas gravuras dos escritos sagrados. As lebres sã todas diferentes, Jacinto, e não era a pelagem, acredita, o que a distinguia das outras lebres, não eram os seus olhos de tártaro nem a forma inusitada das orelhas : era algo que ia muito além daquilo a que nós, homens, chamamos personalidade.
(...)
Os cães desataram a correr e a lebre ficou imóvel por um instante «, sozinha, no meio do prado. Mexeu o focinho três ou quatro vezes. como se farejasse um objecto afrodisíaco. Deus, ou alguma coisa parecida com Deus, chamava por ela, e a lebre, talvez revelando a sua imortalidade, fugiu num único salto.
E é isto. Os vasos foram regados mas não fui eu que os reguei e as nêsperas estão dulcíssimas mas também não fui eu que as apanhei.
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As pinturas são de Kanō Hideyori e vieram ouvir a Cinematic Orchestra com Patrick Watson a interpretar To Build A Home
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Partilho ainda um vídeo muito bonito, o género de coisas que gosto de ver
Dance With Life
Even if you can't or don't want to leave your comfortable urban life, get out there and be wild every now and then. By regularly doing that, you will be reminded of how much nature means to us, how much solace it can bring, how much joy and peace and hope. You will be reminded of how deeply we are connected to all living things. Dance with life!
Tenho acabado os meus dias muito tarde. Hoje acabei de jantar quase às onze da noite. Depois, quando aqui chego, ao sofá, dá-me o sono. Há dias que não consigo responder aos comentários. A ver se amanhã consigo. Tem coincidido isto com ter andado a levantar-me mais cedo. Pode parecer absurdo, estando eu em teletrabalho. Mas a verdade é que é isto mesmo. Reuniões, assuntos complicados, telefonemas. E outros afazeres de permeio. Há pouco, quando despertei, pensei que devia ir dormir e deixar o blog. Mas há este misto de vício, de dever e de parvoíce que me leva a abrir o computador e olhar a página em branco impelida pela vontade de escrever alguma coisa.
Não tenho conseguido responder aos comentários mas tenho lido. Eu sabia, e brinquei com isso, que ao dizer que nunca tinha conseguido ler nenhum livro nem do Mãe nem do M. Tavares, estava a expor-me à censura: se não leu, como pode dizer mal?
Mas passa-se o seguinte. Sou velha, para cima de centenária. Na verdade, talvez até já bicentenária. Por isso, não sei quantos mais anos vou ainda viver mas intuo que menos do que os que já vivi. E, nesse sentido, tenho que ser criteriosa. Não posso gastar os preciosos anos que tenho pela frente a fazer sacrifícios, por exemplo lendo livros que me parecem arremedos de qualquer outra coisa que não de literatura. Podem ser palavras agrupadas em frases, podem ser tópicos a fazerem-se passar por tiradas, podem ser lugares comuns travestidos de profundidades, pode tudo vir enroupado e dar-se ares de coiso e tal. Não papo. Santa paciência. Não papo aquilo de que não gosto ou que não me convence. Só papo coisa pela qual sinta apetite ou que sei que me vai deixar de alma lavada. Ou tumultuada, tanto faz.
E aqui volta a entrar aquela séria e legítima dúvida: mas se não leu, como pode dizer tais virulentas barbaridades?
Explico. Quando se é velha e relha já não tem que se ver o filme do princípio ao fim para perceber de que é que a casa gasta. Ou isso ou a intuição, que é como o vinho do porto, cada vez mais apurada. Folheia-se e lê-se, abre-se mais à frente, lê-se, mais à frente, lê-se. E outra vez. E outra vez. E não há uma frase que cative, uma ideia que valha a pena, uma palavra que surpreenda. Nada. Fecha-se, vai ver-se outra coisa e regressa-se não vá ser infundado preconceito. De novo. Nada. Nada. Vulgaridades. Bonitinhos. Monotonias. Nada. E aí a gente extrapola. Não precisa comer a sopa toda para vir a saber que era uma seca, basta umas colheradas para perceber que vai ser uma seca, e escusa de passar por ela.
Depois abre-se outro, outro autor, e logo a página se ilumina. Ainda na quinta-feira, na Escriba (yes, APS, na Escriba) que prazer este de abrir um livro e não conseguir resistir-lhe. Uma frase, uma palavra, uma ironia dita de forma elegante, um piscar de olhos à inteligência, a beleza de uma toada que se antecipa. É a diferença entre ser literatura ou ser outra coisa qualquer. Se o tempo me escasseia para ler tudo o que me encanta, como desperdiçá-lo com aqueles que se ocupam a escrever 'outras coisas quaisquer'?
E, no entanto, ao ver como pessoas que considero gostam do que eu não gosto, sou forçada a reconhecer que nem os cem ou duzentos anos que já vivi me conseguem fazer perceber como é possível que, perante o mesmo objecto, haja leituras tão distintas. E chamo-lhe objecto como poderia dizer outra coisa qualquer, obra, por exemplo. Veja-se com as obras de arte: um quadro, uma escultura, um jardim. Onde eu me emociono, há quem ache incompreensível que alguém de bom senso se emocione perante coisa assim. Onde outros veneram a perfeição de um trabalho, eu passo ao lado, achando monótono. Não há verdades absolutas, essa é que é essa.
Para além disso, gostava de contar que os meus vizinhos do lado, os da casa grande, se mudaram. Nunca vi a senhora. Soube que raramente saía de casa. Via o marido, ela nunca vi. A anterior proprietária desta minha casa disse-me que, em vários anos, apenas a viu duas vezes, e foi porque lá foi bater à porta aquando do desaparecimento do gato. Diz que era assombrosamente bonita. Tenho pena que se tenham mudado pelo piano. Gostava de estar no jardim ou em casa a ouvir tocar piano. Há umas semanas, estiveram lá uns brasileiros animados, faladores, brincalhões a fazer as arrumações e depois a mudança. Durante dias era uma conversa e uma risota pegada. A seguir, mal eles carregaram e levaram tudo, começaram a vir jardineiros, brasileiros também, limparam árvores, arbustos, cortaram a relva, desbastaram tudo. E antes todas as semanas lá iam dois jardineiros. Não sei como foi que fizeram tal limpeza num jardim já de si tão permanentemente tratado. E vieram empregadas das limpezas. Chegavam de manhã, três, falavam e riam e cantavam todo o dia. Janelas abertas, uma animação. Mais de uma semana de limpezas de manhã à noite. E antes, todas as semanas, também lá iam duas mulheres fazer a limpeza. Não sei também que limpezas foram aquelas a limpar uma casa que supostamente estava limpa. Esta sexta-feira de manhã mudança de registo, nem jardineiros nem limpezas. Mas ouvíamos vozes, movimentações, carros, portões. Saímos ao fim da tarde e apenas regressámos às dez e tal da noite. E, para nossa surpresa, não apenas estavam todas as portadas abertas com as luzes do terraço a toda a volta da casa acesas como, junto à porta, no alpendre, umas luzinhas piscar, luzinhas de natal. Não sei que fenómeno foi este. Portanto, já devo ter vizinhos novos.
Na casa do outro lado não há estores ou cortinados. Ou, se há, estão sempre abertos. Vejo tudo o que lá se passa, do lado da casa que dá para a minha. Como os dias estão curtos, acendem a luz ainda cedo e ainda melhor se vê. Parece que estou a ver um filme. No outro dia, estava eu numa mesa no terraço da minha casa que dá para esse lado da casa deles, estava a ter uma reunião e, mesmo sem querer, ia assistindo à jovem a apanhar o cabelo, prendia-o no alto da cabeça dando-lhe uma volta e segurando-o com um lápis, a ir à cozinha buscar uma caneca com qualquer coisa quente, via como ela a envolvia com as mãos como que para as aquecer. É uma coisa curiosa, isto. Lembro-me de andar a passear em Amsterdão e achar curioso o desprendimento das pessoas dentro de casa, com as janelas à altura das ruas, sem portadas ou estores, sem cortinas, a ver-se tudo para dentro de casa e elas na maior descontração. Aqui também é assim, a gente anda pelas ruas e em algumas casas também se vê tudo lá para dentro.
E uma outra coisa. Hoje tive que ir, durante o dia, a um sítio longe daqui, onde antes nunca tinha ido. Nem sabia que existia. Demos com aquilo graças ao gps. Um lugar meio urbano, nem sei bem como descrever, com uns certos laivos de campo. Com muita estranheza lá fomos de rua em rua, ruas muito estreitas, nem sabíamos se eram de um ou dois ou nenhum sentido. Fui com o meu marido. Não me aventuraria a ir para o desconhecido sem companhia. Às tantas, sem saber se o gps nos estava a levar para lugares completamente errados, olho para o lado e tenho uma visão. No meio daquele casario meio desordenado, um burrinho. Exclamei: olha, um burrinho! O meu marido que estava a esforçar-se por caber na rua, olhou desinteressado e fez um ar arreliado: qual burro, não vez que é um pónei? E, então, ainda mais perplexa, reparei que sim, um pequeno pónei branco com uma grande franja loura, um rabiosque todo farfalhudo em louro platinado, um ser irreal, ali, na maior improbabilidade. O mundo é um lugar cheio de coisas imprevistas, inusitadas, incompreensíveis. Vim intrigada com aquilo. Se não fosse por me ficar tão fora de caminho e não ter tempo, teria lá voltado só para ver se ainda lá estava ou se tinha sido uma visão natalícia.
Bem. Comecei a escrever a dormir e agora é que estava a apetecer-me começar a escrever. Mas acho que não faz sentido, é muito tarde.
Mas vou partilhar um vídeo de que gostei muito e que vi antes de, há bocado, adormecer.
Redefine masculinity with this Cuban ballet dancer
Andy Sousa is a dancer from Cuba. By the age of 5 he knew he had a passion for movement so decided to pursue ballet. With all its vintage charm and exciting cultural pluralisms, the Caribbean island, however, still favors a type of hegemonic masculinity that indulges in machismo behaviors. Although he had the encouragement of his father, Sousa's adolescence was scarred by peers and relations who attempted to undermine his heterosexuality and masculinity through bullying...
De manhã encontrámo-nos na praia. Um dia azul. O céu azul, o mar azul. O ar transparente, leve, feliz.
Há, contudo, invisível, aquela sensação estranha de não sabermos quando voltaremos a estar juntos. Nos próximos dois fins de semana não será. Depois começará a aproximar-se o Natal. Costumávamos ter festa de família de véspera e festa de família no dia. Este ano ninguém sabe como adaptar festas tão especiais para que as crianças sintam, na mesma, a magia, a surpresa, a alegria, o aconchego das luzes e do afecto em família.
Na praia, ao verem-se, os meninos mostram-se contentes, brincam uns com os outros, os rapazes, os pequenos e os grandes, jogam à bola, as meninas, as pequenas e as grandes, conversam, jogam ao disco, o mais pequeno dá cambalhotas, os outros fazem a roda e o pino. O tempo foi pouco pois à uma havia que estar em casa; mas foi bom enquanto durou. Estivemos todos de máscara excepto o mais pequeno que não tem paciência e a tira e os restantes enquanto comeram o lanchinho que levámos. Como não posso tê-los em casa, em volta de uma mesa grande, levámos um lanchinho. Por dentro sinto que isto me custa, que é uma pena que tenha que ser assim. Mas, pragmatismo oblige, tem que ser assim e contra factos não há argumentos. Não mostro que me custa pois, para além de tudo, estou contente por estarmos juntos e porque sei que ainda tenho é que me sentir agradecida por morarmos perto uns dos outros, por gostarmos de estar uns com os outros, por podermos estar juntos.
Os meninos, em especial quando andavam a jogar futebol, queixavam-se da máscara. Transpiravam, corriam, iam ao chão -- e tudo, a areia e o estarem ofegantes, de facto, não ajuda a sentirem-se confortáveis com máscara. Mas não dá para facilitar: os mais pequenos andam na escola sem máscara, sabe-se lá, e, em cima disso, pensava-se que o pai de parte dos meninos poderia ter contactado com uma pessoa positiva. De manhã soube-se que o teste dessa outra pessoa tinha dado negativo mas há casos de testes negativos em que, dias depois, se confirmam as piores suspeitas e, por isso, nunca fiando.
E a manhã passou num instante e nem deu para contemplar o mar que estava grande e muito bonito. Antes de nos virmos embora, um dos meninos, dos cinco o que é o do meio, agora já com nove anos, foi sentar-se perto do mar. Gosta de se sentar a meditar. Fica imóvel, o corpo deixando transparecer uma grande tranquilidade. Depois, quando estava cá em cima a calçar-se perguntei se, quando está assim, pensa em alguma coisa. Ele disse que não. Eu e a minha filha perguntámos ao mesmo tempo: 'E consegues?'. Com naturalidade disse que sim. E acrescentou que fica a ouvir o mar. Este menino surpreende-me. O mais crescido está quase da minha altura. Quando falo com ele ponho-lhe o braço pelos ombros e ele o braço dele pela minha cintura. O meu marido sempre a dizer que nos afastemos. Mas é difícil. Gosto de os sentir. A menina também está crescida e sempre linda, fala em vídeos tik-tok, fala em seguidores. Por dentro, arrepio-me. O mundo das redes sociais alastra e substitui a vida de bairro, de brincadeiras na rua. Une o que a distância afasta. Disso não tenho dúvida. O pior é o que vem por acréscimo. O outro menino, esguio, sempre atento, sempre ágil e pronto para dançar, genuíno na sua versatilidade. E o mais pequeno, brincalhão, alegre, com uma destreza física e verbal que nos deixa espantados.
Fotografei-os. Ficam registados estes dias de pandemia, de máscaras e tentativa de adaptação a estes estranhos tempos.
Depois, em casa, foi uma tarde tranquila. Lida doméstica. Leitura.
Tínhamos, in heaven, um cadeirão relax, dos que se reclinam e em que deles, puxando uma pequena alavanca, sai em baixo, um suporte para as pernas. Um dia resolvemos levá-lo para a casa da cidade. Na altura, acho que contei a proeza. Pesado, pesado, pesado. Não conseguimos que coubesse no elevador. Impossível voltar a enfiá-lo na carrinha. Tinha sido um pesadelo, os bancos todos rebatidos, a porta do porta bagagens mal fechada. Então resolvemos levá-lo escada acima. Morávamos no último piso de uma torre. Íamos desfalecendo várias vezes. Ele, em cima, içava-o degrau a degrau e eu, em baixo, tentava equilibrar e que o cadeirão não se despedaçasse escada abaixo de cada vez que a coisa não corria bem. Várias vezes pensámos que não íamos arranjar forças para o levar até dentro de casa. Mas há aquela velha máxima de que querer é poder. E conseguimos.
Desta vez não fomos nós que o trouxemos para aqui, foram os fantásticos brasileiros da empresa de mudanças. Está na sala grande do sótão, junto à janela onde dá o sol. É lá que me sento nestas tardes em que o tempo corre com vagar. A ler. A sentir o sol a deslizar sobre mim. A deixar que o sono desça, adoçando-me a consciência, a existência.
Depois aqui, à noite, vendo uma vez mais o Perfume de mulher, esperando para ver, uma vez mais, o magnífico tango no qual o Al Pacino mostra o que é saber encantar uma mulher, ponho-me a escrever sem saber porque o faço. Escrevo porquê? Porque tenho que escrever? Porque não consigo deixar de escrever? Neste domingo, 1604 pessoas vieram aqui. Sei de alguns, não sei da maioria. Quem são? Agora passa das duas da manhã e já 175 aqui estiveram desde que a segunda-feira começou. Quererão encontrar alguma coisa em concreto? Será que gostam de acompanhar estes meus passos? Não tenho feitos a anunciar, a minha vida nada tem de mais. Porque vêm aqui? Saberão que, quando aqui estou à noite, é como se estivesse a conversar convosco? É como se sentisse a vossa companhia. É convosco que falo. E agradeço-vos.
E, para retribuir o conforto da vossa presença aí desse lado, aceitem que partilhe convosco este vídeo maravilhoso. Leio que é um presente de Natal. Tomem-no como o meu presente de Natal antecipado.
"Lightplay, A Christmas Gift" -- Sergei Polunin
Voa, Sergei, voa
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Pinturas de Lee Kyung Hae ao som, uma vez mais, de Je te laisserai des mots, Patrick Watson
Esteve muito frio por aqui. Quando fiz a caminhada estava um gelo impensável. Estava a falar ao telefone enquanto andava e a minha mão ia enregelando enquanto o tempo ia avançando. Um frio de natal. Não sei de onde apareceu.
Quando entrei em casa, senti-a acolhedora, uma temperatura boa. Quando vinha, estava a pensar que, um dia destes, havemos de experimentar a lareira. Mas, ao entrar, achei que ainda é cedo demais para isso.
Agora até me lembrei. Uma vez, in heaven, estava a ter uma reunião (remota, claro) em frente da lareira. Às tantas, virei-me para trás e apressadamente coloquei um tronco grande. Quando dei por ela, algum tempo depois, havia fumo na sala. Com o braço, peguei na pinça grande e empurrei o tronco porque, se bem me lembro, tinha ficado longe da chaminé. Não quis interromper a reunião mas os olhos já me estavam a chorar. De repente apareceu o meu marido a gesticular, entre o assustado e o irritado. Abriu a janela, passou atrás de mim a perguntar se eu não tinha percebido que a casa estava cheia de fumo e o ar irrespirável. Tive que pedir desculpa aos da reunião, tirar o som e a imagem. Ele conseguiu levar o tronco lá para fora para acabar com a fumarada e eu lá recomecei a reunião no meio da neblina e do frio que vinha da rua. São os percalços de quem está a fazer reuniões em casa, um olho no burro e outro no cigano.
Hoje tive um dia excessivamente preenchido. Dias assim são aborrecidos. Passam a correr. Não consegui um tempinho para mim. De manhã, tinha dito ao meu marido que a ver se ligávamos a aparelhagem. Sozinha nem sei por que ponta hei-de pegar, aquilo liga-se tudo entre si, tem que se ver com que cabos e o quê a quê. Só depois poderemos arrumar os LP's e os CD's. O meu marido disse-me: 'podes ir andando'. Mas não fui a lado nenhum, claro. Não me entendo com cabos, sou avessa a liaisons de certos tipos, nomeadamente eléctricas. E, depois, só voltei a ter tempo para pensar nisso por volta das sete e tal da tarde. Mas depois tive telefonemas, demorados, e depois o jantar para fazer. Sei lá. Esgotou-se o tempo útil. Só sobrou o inútil, este, agora.
À hora de almoço, vi as notícias. Tudo em aberto. Uma tragédia, mesmo que Biden ganhe. Agora voltei a ver. Talvez a coisa se dê (tomara, tomara, tomara) e, apesar de achar que Biden é falho em carisma e que não faz grande sentido alguém iniciar um mandato destes com a provecta idade que ele tem, os resultados mostrarão que quase metade dos americanos votaram no traste mais traste de que há memória. E isso é assustador. Ao fim de quatro anos ninguém pode alegar que não sabe o que está ali. Trump mostrou à saciedade que é um psicopata, um perigoso narcisista, um mentiroso compulsivo, uma pessoa destituída de empatia, de sentido de estado, de honestidade intelectual. Quem votou nele sabia, forçosamente, no que estava a votar. E isso assusta-me. Melhor: deixa-me sem perceber nada.
Quanto ao corona, às vezes sinto que é como se sentisse que o cerco está a apertar. Agora é uma colega com a casa cheia de gente com covid, todos infectados e doentes. Ela, que pensava que tinha escapado, afinal agora também com sintomas. No outro dia foi outra que também teve. Vale-nos as equipas andarem desfasadas e toda a gente que pode estar em casa. Senão estaria meio mundo infectado e inoperacional. Ao ritmo a que isto vai, a ver no que esta porcaria vai dar. No outro dia, quando se falava que, não tardaria, estaríamos acima dos 3.000 por dia, eu disse, tomara é que daqui por umas duas ou três semanas não estejamos nos dois dígitos. Espanto em quem me ouvia. Concretizei: acima dos dez mil. Disseram: não, vão tomar medidas, não vai chegar aí. Ai não que não. Não tarda. Isto está perigoso. Em termos percentuais a coisa não amedronta mas, como a base de incidência é grande e crescente, o resultado será também expressivo, gente a sobrar face ao número de camas, os hospitais a deitarem por fora. Não poderemos deixar de andar com o credo na boca.
Aqui e por todo o lado. Aos poucos, a Europa está a fechar-se em casa. Um mundo virado para dentro de si próprio. Se não é doçura, só pode ser travessura. Travessura dos deuses, claro, fartos de aturar estes macacos burros armados em inteligentes que somos nós.
Mas passa das duas da manhã, adormeço a cada sílaba, não me apetece ir deitar-me ainda com o sarro do merdinhas colado aos dedos. Muito menos com o do palhaço cor-de-laranja (Orange clown. Orange stupid cow, orange coward)
Por isso, vou-me mas não sem antes partilhar um vídeo do caraças que o meu amigo algoritmo hoje tinha para me oferecer. Nada a ver com nada. Apenas encontros inesperados entre animais. Muito engraçado. Um oásis no meu dia, uma forma de escapar à tortura que têm sido as notícias deste dia.
As pinturas são de Mário Cesariny e acompanham Lost with you na interpretação de Patrick Watson
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E eu desejo-vos um bom dia. Saúde. Força. Boa disposição.
O meu marido disse: esta casa começa a estar desarrumada. Eu também já tinha dado por isso. E tinha-o sentido com gosto. Quando vieram os móveis e se arrumaram nos sítios certos, quando a minha filha escolheu peças e as dispôs onde lhe pareceram mais em harmonia com o espaço, foi como se a casa tivesse nascido ali, para nós. Era uma casa de revista, nada fora do sítio, ainda não era um ser vivo.
Agora que já aqui estamos há cerca de um mês, já aqui tenho livros ao meu lado, no sofá, já há almofadas descaídas, já há um computador fora do sítio. Hoje, apressada, entre reuniões, a meio da manhã, a minha filha chegou com os meninos. A partir desta quinta-feira deixa de ter esta mobilidade pelo que veio aproveitar o dia. Eles, de imediato vieram para esta salinha pela qual parecem ter especial predilecção. A bela e espessa coberta branca de algodão que cobre o sofá já aqui tem uma mancha nas costas, marca de um pé que, antes de aqui aterrar, andou descalço na terra. Vi-os aqui sentados, um em cima, outro num canto. De tarde chegou o meu filho e aí, as cinco crianças todas felizes, foi a animação e a graça de sempre. Têm espaço e largueza verde e, ao mesmo tempo, recatada para jogarem às escondidas. Tirei-lhes umas fotografias, o bebé à frente, dizendo: 'bora, malta'.
Mas, depois de se irem todos, ao reentrar em casa, reparei em copos por aqui e por ali, cadeiras desarrumadas, as almofadas da sala todas desalinhadas. Tive vontade de rir. Esta é cada vez mais a minha casa.
Não me lembro se cheguei a falar-vos de uma coisa. Havia um pormenor que me trazia apoquentada: não sabia onde arrumar os meus colares. Na outra casa, tinha 'ocupado' o ex-quarto da minha filha e, sem regras ou limites de qualquer outra espécie, fui espraiando por lá todas as minhas coquetteries. Aqui a casa tem outra tipologia, outra topologia. Mas já resolvi também mais esse pepino. Já estão organizados: as pérolas, os brancos, os claros, os turquesas, os verdes. Os dourados, os neutros. Coloquei-os num recanto que há por detrás da porta da salinha de língua portuguesa, em cujo armário embutido (na parede livre) também já tinha arrumado écharpes, carteiras, adereços diversos -- enfim, os meus ex-bens de primeira necessidade. De vez em quando vou espreitar os meus livros, tão organizados, com espaço para se reproduzirem. Os meus colares, tão bem tratados. Hoje, um dos meninos, nessa salinha, olhou em volta e vi como estava admirado. Queria saber porque estavam uns ali e os outros noutro sítio. Expliquei. Ele ouviu com atenção. E eu gostei de vê-lo a prestar atenção a estas minhas coisas. Depois viu uma fita métrica, das metálicas. Pegou logo nela e foi fazer medições, disse que gostava mesmo de medir coisas. O irmão esteve a filmá-lo, depois editou o filme, fez montagens, inseriu efeitos especiais. Muito bom. Quando o elogiei, disse que ainda ia pensar se em vez de cientista investigador não vai ser realizador. Disse-lhe que talvez possa ser as duas coisas. Pensei que é preciso ter cuidado com o que se diz a um miúdo que acabou de fazer doze anos. Muitas vezes penso no que serão em adultos. Ainda não dá para perceber. Tomara que sejam pessoas motivadas, que venham a realizar-se, que sejam felizes. E que se mantenham unidos, amigos, apoio uns dos outros pela vida toda.
Tirando isto, só posso acrescentar que agora só tenho que arranjar energia para ir à outra casa fazer as escolhas definitivas, deitar fora aquilo que já não faz sentido vir para cá, embalar o que ainda tem ou pode vir a ter préstimo, trazer o resto dos armários que irão para a cave, depois arrumar o que, na cave, ainda está em caixas e sacos.
Sobre o dia de hoje, posso ainda contar que a noite passada foi noite de são joão. A meio da noite disparou o alarme. Como a casa é grande, de noite deixamo-la em alarme parcial. E disparou, sirenes por todo o lado. Um susto do caraças. Passado um bocado, de novo. Uma sensação tramada. Andámos à caça, vimos as imagens. E percebemos que vamos ter que fazer alguns ajustes ao sistema de segurança. Já cá vêm, logo de manhã, para tratar disso. Claro que pensei naquilo do cão. Sim, um cão seria uma boa ajuda. Não que um cão só se justifique pelo aspecto instrumental. Claro que não. Há o lado do afecto e aí eu rapidamente me torno tão cão como o cão se torna gente, amigos, iguais. Mas guardar-nos-ia, faria barulho se sentisse risco. Mas, enfim, nada na vida vem sem reverso e ainda não está na altura de darmos esse passo.
Também temos que pensar na trabalheira de mudarmos a nossa morada em tudo o que é coisa. Não sei como encaixaremos isso na nossa vida sempre tão cheia de afazeres. Não é só o tema de irmos buscar o correio pois isso já sei que pode ser desviado: é mesmo a necessidade de regularizar o que deve ser regularizado.
E outra coisa -- e esta eu nem devia contar aqui pois não sei se estou a fazer uma coisa acertada. Comecei a ir deixar os restos de comida lá ao fundo, onde vi a raposa. O meu marido passa-se. Explico que quero tornar-me amiga da raposa. Não se comove, diz que atraio é ratos e cobras. Digo que não, que é longe da casa, que quero é atrair a raposa. Cativá-la. Cativar um animal, tal como cativar uma pessoa, é coisa boa, misteriosa, tão boa que quase mágica. Vou pé ante pé, receando assustar-me, receando não saber como reagir se a vir. Às vezes isso acontece, a gente desejar muito uma coisa e, ao mesmo tempo, ter medo que aconteça.
Mas, enfim, é uma aprendizagem. Estou a aprender esta casa.
E agora vou descansar. Os dias, por mais que eu faça, alongam-se sempre noite adentro, um nonsense que não sei contrariar.
Custou-me a adormecer. Pela primeira vez, hesitava. Sentia-me como se uma corrente me tivesse arrastado e, exausta, incapaz de pensar, tivesse acabado conformada com o lugar onde tinha ido parar. E, de repente, questionava: mas será que este é o momento? será que é mesmo isto que quero? que queremos?
De manhã, eu ainda a dormir pesadamente, o meu marido foi acordar-me. Tínhamos muito que fazer antes que o novo habitante nos viesse ser entregue. Tinha-se levantado cedo, como sempre, já tinha estado a fazer uma série de coisas com vista a preparar o alojamento desse nosso novo co-habitante. Verbalizei: 'Estamos a tomar a decisão certa? Já pensaste bem no que estamos a meter-nos?. O meu marido disse: 'Mal dormi. Não sei.'. Fiquei perplexa. Sempre foi entusiasta de cães, muito mais que eu. Confirmou: 'Não sei mesmo'. De repente, todas as reservas assomavam ao meu espírito: íamos perder a nossa liberdade, a partir de agora toda a nossa vida seria agendada em função do cão. É certo que com a covid pouco se passeia mas a pandemia há-de perder vapor, haveremos de voltar a uma vida em liberdade. O meu filho diz que ficaria com ele, nessas alturas. Mas uma coisa é um fim de semana de vez em quando, outra seria duas ou semanas, duas ou três vezes por ano. E têm lá eles vida para isso? E se o cão fosse de qualidade de dar cabo dos jardins? Do nosso, do dele? Um jardim tão lindo, este meu jardim. E o deles também tão bonito, tão bem arranjado. E ambos só víamos o lado negativo. Claro que o afecto, claro que a segurança. Mas e a perda de liberdade...?
Já tinha nome. Na véspera, quando o tínhamos ido ver, logo eles a fazerem festinhas, logo todos cheios de amor pelo bichinho, o bebé (que já não é bem bebé pois já tem três anos e meio) disse: vai chamar-se Meny que é como os manos me chamam. Disseram-me depois que é Manny que se escreve. Eu não quis fazer nenhuma festa. Senti que, se fizesse, para sempre ficaria incapaz de pensar, para sempre afeiçoada a ele.
E é que, depois, há outra coisa: o absurdo e insuportável fundamentalismo das senhoras das organizações que tratam da adopção de cães. Parece elas que alguém lhes conferiu poder para se armarem em justiceiras, em juízas de costumes, em grandes decisoras, uma espécie de autoridade à direita de deus-pai-todo-poderoso. Querem saber se temos uma família estruturada, se temos uma casa com condições, querem conhecer a casa, querem conhecer-nos a nós, querem que garantamos que as autorizamos a vir cá regularmente a casa verificar as condições em que vivem os animais e, se a coisa não lhe agradar, a virem resgatar os animais. E temos que assinar termos de responsabilidade, dar-lhes a cópia do cartão de cidadão, e temos que aturá-las dissertando como se fossem donas do mundo dos animais. Pensámos: 'Mas vamos alinhar nisto? Vamos meter-nos numa fria destas...?'. E tantas dúvidas formulámos que acabámos a concluir que não. Pelo menos por agora. Ainda não. E não desta maneira. Telefonei, enviei mensagens. Quando consegui falar com uma delas, toda sentenciosa, respondeu-me: 'Agora não posso falar mas isso não é bom'. Passado um bocado, ligou-me outra, toda prosa, toda doutoral, falando como se fosse a dona de todos os cães do mundo, a dona de todas as verdades, inspectora-mora, magistrada do grande reino dos céus para cães adoptados. Falei cordatamente com ela mas intimamente só me apeteceu mandá-la para um lugar bem feio. Uma das coisas que me chocou foi a exigência de esterilizar os bichos. Mas quem são elas para nos exigir que esterilizemos os animais? Qual a ideia? Dizem que é para evitar que nasçam ninhadas. Ouvi aquilo com uma repulsa que mal consigo aqui descrever.
Quando comuniquei à família a nossa decisão, ficaram decepcionados. Mas acho que perceberam. Sobretudo, senti que acharam muito bem que não assinássemos aquele absurdo termo de responsabilidade. Fascistas, disse o meu filho. Fundamentalistas, disse a minha filha. Gente estranha, digo eu.
De seguida, aliviados pela decisão (mas, intimamente, com pena: o cachorrinho era uma fofura), fomos caminhar pela orla do mar.
Dali fomos tratar das argolas para o cortinado. Como não as encontrámos tão grandes quanto necessitávamos (obrigada, Amofinado, mas precisava de vinte e duas bem grandes, de um castanho envelhecido, nada que o Preço Justo me resolvesse), tivemos que trazer outro varão. Dali seguimos para o supermercado. Almoçámos depois das três. Ainda deu para descansar um pouco. Quando chegaram os primeiros convivas, estava eu a dormitar. O meu marido trouxe para junto do alpendre um grelhador grande que os anteriores proprietários deixaram junto à horta. O meu filho preparou uma bela grelhada mista com carnes que trouxe: piano, bifes de borrego, asinhas de frango, alheiras. Fiz arroz e salada de tomate. Depois houve fruta, gelados e a minha filha fez o bolo de iogurte que fica sempre bom.
E jantámos no jardim e depois ali ficámos. Os meninos a brincarem às escondidas, a trepar às árvores, a correr, e nós a vê-los. Depois as meninas do outro jardim começaram a meter-se com eles e depois eles com elas e depois foram buscar bancos para espreitar para o jardim dos vizinhos e foi uma festa, uma alegria, os rapazinhos todos malucos com as meninas. A minha filha fotografou-os e é um momento que vai ficar para a história. Uma imagem do mais inocente, divertido e inesperado que é possível.
Quando se foram, por volta das dez da noite, o céu limpo e estrelado, ainda não estava frio. Pouco depois de ter estado, no portão, a despedir-me da minha filha, liga-me ela. Mas não era ela, era o mais crescido ao telefone, todo excitado: tinham visto uma raposa. Ao fim da rua, uma raposa. Grande, um rabo grande e peludo. Tinha estado a olhar para eles. Fotografaram-na. Mandaram-me a fotografia. Fiquei emocionada, arrepiada. Afinal, aquele vulto, no outro dia, com um grande rabo felpudo ali na horta, era mesmo uma raposa. É uma sensação estranha, curiosa. A sensação de um mistério vogando por aqui.
Vai doce o mês de Setembro. E estes dias, com todos juntos, são ainda mais doces. Dias inesquecíveis.
Parece que o tempo vai mudar. Ainda não vivi esta casa em dia de chuva. Mas sei que vai ser bom, talvez ainda mais acolhedor. Se calhar, quando não pudermos estar no jardim, porque chove ou faz frio, iremos para o sótão que é amplo e, creio, confortável. Esqueci-me de dizer que quer os miúdos quer alguns dos graúdos estiveram de máscara. Eu não. Esqueci-me ainda de dizer que sinto saudades de os puxar para o meu colo, de abraçá-los e cobri-los de beijos. Se tento, logo alguém me diz: 'olh'ó covid...!'. Mas, havendo cuidado, haveremos de nos ir aguentando e logo, logo, já poderei andar agarrada a eles, meus meninos mais lindos, mais queridos.
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E, por hoje, nada mais tenho a declarar a não ser que as pinturas são de Sargent Claude Johnson com Patrick Watson interpretando Good morning Mr Wolf
De tarde, acabei de trabalhar e, coisa inédita, estava sozinha em casa. Fui lá para fora e instalei-me numa espreguiçadeira a ler. Os pássaros, que aqui são grandes, bateram as asas com força e voaram para mais alto. Apenas se ouvia o seu canto. Aquele calor brando de Setembro, a amansar a alma. Estou quase a acabar o Com Borges. É um livro pequeno, bom de ler, ler-se-ia num instante. E, no entanto, faço-o render. Leio devagar, releio, paro, distraio-me, olho as flores, tento descobrir onde se escondem os pássaros, retomo. Depois levantei-me, fui buscar a máquina, pus-me a fotografar. A seguir, voltei ao livro. Logo, logo senti que o sono estava a chegar; fechei os olhos, conscientemente, para melhor o sentir a pousar sobre mim. Ao todo creio que terão sido uns vinte minutos, talvez um pouco mais. Uma chamada quebrou o sono, o sonho. Estar aqui é ainda um sonho. Rodeada de verde pontuado pela cor das buganvílias, ouvindo os pássaros a cantar a múltiplas vozes, na maior paz, parece-me que isto que me aconteceu ainda não é completamente real.
A seguir chegou o meu marido. Fomos fazer uma caminhada na praia. Estamos a aproveitar os dias enquanto o sol dourado e morno ainda acontece depois do trabalho. Dentro em pouco noitará ainda estamos a trabalhar e desaparecerá esta benesse que o bom tempo e a hora de verão nos oferecem. Enquanto caminhávamos rente ao mar, ao belo mar das douradas tardes de setembro, fui observando esta tendência crescente para a estupidificação. Toda a gente faz selfies. Mas o culto do eu para exibir ao mundo já não se fica pelas ridículas e omnipresentes selfies: agora já se fotografam e filmam uns aos outros, no que parece ser uma triste emulação do que vêem às celebridades (e ponham aspas que não acabam em volta das "celebridades"). Uma mulher fotografava outra que não se inibia, fazendo publicamente toda a espécie de poses, caricatas poses. Mais à frente, o que me pareceu ser a mãe, filmava a que seria a filha que alçava o rabo a la Georgina, que levantava os braços, que se expunha, gratuitamente, em toda a sua frivolidade. A seguir era um casal. Diria que ambos devem praticar aquelas coisas do body building. Torneados, trabalhados. Ela filmava-o. Ele dobrava a perna, arqueava o corpo, fazia sobressair os bíceps. Fazia poses. No fundo, fazia figuras. Depois, ia ver o fruto da filmagem e, apontando outro ângulo ou enquadramento, voltava a pôr-se a jeito para ela o filmar. E isto é recorrente. Dá ideia que, de um lado está uma imensa mole humana que se vai estupidificando, alheando dos outros para se focar na sua auto-promoção, construindo uma ficção na qual são a personagem principal (e única), stories nas quais inventam personagens eternamente felizes e empinadas, engalanadas, filtradas. E, do outro, pessoas como eu, pessoas como os demais bloggers que acompanho, pessoas como os leitores que me lêem e demais gente polida e devidamente encadernada, que pensam que têm algo a dizer ao mundo e que, na sua ingenuidade e tolice, não percebem que falam para um grupo cada vez mais pequeno de gente que pode representar-se a si própria mas representar o mundo, isso é que era bom.
Quando regressámos já escurecia mas, ainda assim, fui lá para o fundo, onde a terra é macia e escura e enchi um vaso grande para transplantar o feto que a minha mãe me deu no outro dia. Ficou tão pesado que tive que pedir ajuda. Coloquei-o numa floreira grande que estava vazia e que está num sítio que, penso eu, está maioritariamente à sombra. Enquanto isso o meu marido esteve a regar a horta. Como a prioridade têm sido as arrumações interiores, não a temos tratado e já começa a desaparecer no meio da erva. Tenho que ver se me organizo de modo a ter tempo para ela. O meu marido perguntou: A horta é só isto aqui, não é? Os tomateiros? Ou é mais alguma coisa? Olhei e nem percebi, já está tudo a ficar meio bagunçado. Parece que tem mais qualquer coisa mas não reconheço. Ele disse: 'Olha, morangos'. Nunca tinha reparado. Uma haste com uns moranguinhos que pareciam rubis. Pequeninos, carnudinhos, rubros. Apanhei a pequena haste. Quando cheguei a casa, não resisti. Afinal não são morangos: são framboesas.
E tenho uma novidade: comprei uns auscultadores para poder fazer as minhas reuniões em maior privacidade. Geralmente isso não é tema mas naqueles dias em que há criançada correndo e rindo à solta pela casa percebo que estaria melhor se conseguisse isolar-me naquela bolha em que costumo ver imersos os que estão sempre com eles postos. São óptimos: permitem uma qualidade de som que me deixa agarrada. Um dos meninos quando me viu com eles postos exclamou: 'Olha, tens uns auscultadores de gaming'. E tenho ideia que o jovem que mos vendeu também me disse isso. No dia, estava entre telefonemas, um dos quais um bocado complicado, e não prestei grande atenção. Continuo sem perceber exactamente de que falam mas sei que o som é maravilhoso. Mesmo agora, enquanto escrevo, gosto de os ter postos para ouvir a música com uma qualidade de que me tinha desabituado. Gostava que todos os que ouvem a música que aqui coloco pudessem experimentar esta fantástica experiência imersiva.
Quanto à casa, estou com uma questão por resolver. Já tenho cortinados no quarto, a tão aguardada renda belga, mas não tenho argolas suficientes. E estas argolas que cá estão são gigantes, não sei onde vou encontrar iguais. Em madeira antiga, igual a estas, já sei que não. Mas mesmo a questão do diâmetro não é fácil. A alternativa será trocar tudo, varão, suportes. Seria uma luta para a qual não sei se, neste momento, tenho energia para travar.
Mas, sobretudo, estou a querer começar a acalmar. Há ainda um conjunto de sacos por arrumar, há a outra casa para acabar de embalar, há o trabalho a começar a aquecer. E há outros assuntos por resolver. Mas há este forte desejo de acalmar, de ter a paz a envolver cada momento, de ter o vagar para sentir as árvores, o canto dos pássaros, a boa música, as palavras que nos abraçam e marcam.
Gosto de ouvir pessoas inteligentes a falar. O covid e as circunstâncias afastaram-me fisicamente de pessoas a quem eu gostava de ouvir. É bom conversar com pessoas inteligentes, com quem aprendemos. Procuro, pois, com alguma avidez, entrevistas com pessoas assim. Hoje vim parar a uma surpreendente entrevista a Bioy Casares. Com oitenta anos, ele parece já um velhinho. A minha mãe tem oitenta e sete e parece uma teenager ao pé dele aqui. Casares, neste vídeo, dir-se-ia ter mais de noventa, dir-se-ia que já sentia que a porta para a passagem para o outro lado já ali estava aberta, à sua espera. Faz-me uma certa impressão perceber que alguém que se sente de bem com a vida percebe que já o chamam do outro lado. O jovem que o entrevistava, impreparado, agarrando-se aos papéis, fazia, no entanto, perguntas com algum interesse e Casares, delicado, agarrava-se a esse pretexto para dar respostas sinceras, de um desprendimento comovente. Há seres cuja superioridade é sempre evidente e, ainda mais, quando, mesmo perante a evidência dessa superioridade, escondem que estão cientes dela, humildemente colocando-se no mesmo plano daqueles a quem facilmente poderiam aproveitar para menosprezar. É reconfortante saber que pertenço a uma espécie habitada por seres assim.
Pinturas de Mequitta Ahuja ao som de Patrick Watson
Regressei à casa nova. Embora estivesse feliz e descansada in heaven, sentia vontade de voltar.
Trouxe de lá umas cobertas branquinhas que estavam guardadas e as duas carpetes maiores de Arraiolos, umas em tons claros. Troquei-as por duas, feitas por mim, modelos originais do Sec XVII, nos tons fortes originais que estavam no apartamento. Mas trouxe tudo lavadinho, tudo seco ao vento e ao sol.
Mal cheguei, vim logo colocar nos devidos lugares. Nesta sala em que agora estou, os dois sofás, um de três lugares e um de dois lugares, estão cobertos por cobertas brancas. Há ainda um cadeirão pequenino em tecido aos quadradinhos cor-de-rosa esbatido e branco. E uma banqueta clarinha, com um galão florido em tons claros. As almofadas são também brancas ou em veludo em cor-de-rosa velho muito claro. E, imagine-se, a coincidência de tudo isto (porque tudo isto já existia e parece que estava tudo à espera de ser conjugado) é que a carpete de arraiolos que aqui coloquei é justamente em tons rosados, um rosa pastel claro, com barra beige, floral, tudo muito claro, a barra muito nos tons do galão do banquinho. Fica tudo de uma harmonia que me parece perfeita, tudo muito tranquilo e feliz.
Desde o início, a minha filha dizia-me que esta casa poderia ser assim, clara, luminosa. Eu dizia-lhe que não ia deitar fora as coisas que tinha em casa e comprar tudo de novo e ela ia enviando fotografias que obtinha nos instagrams e quejandos desta vida para me mostrar como poderia ser. E a verdade é que, revirando tudo do avesso, trazendo coisas daqui e dali, redescobrindo o enxoval, desencantando cobertas e colchas, a casa está, em tudo, o oposto do que era a minha outra casa.
E depois dá-se esta coisa de eu estar a colocar cobertas e colchas e carpetes tudo acabadinho de lavar pois, obviamente, não ia colocar coisas guardadas há muito tempo nem ia trazer carpetes de uma casa para a outra sem aproveitar a ocasião para fazer coincidir a lavagem anual que lhes faço com a mudança de casa. E, então, cheira tudo muito bem, a lavadinho. Um ambiente verdadeiramente bom, clean. E até tinha duas bonecas curiosas, igualmente em tons rosados, que agora aqui estão sobre os móveis. A ver se um dia destes perco a preguiça e volto a usar a máquina fotográfica para vos mostrar. E os quadros também são em tons neutros, claros, pastel. Tudo parece ter nascido para aqui se reunir.
E, na salinha dos lusófonos, a tal em que as estantes novas saíram em tom a modos que pardo -- mas de que agora até já gosto --, penso que está também tudo em total harmonia. A carpete também veio da casa in heaven e é identicamente um arraiolos em tons pastel mas, neste caso, em tons verde seco claro, beige, amarelo quase dourado claro. A chaise longue que está junto à janela é em cetim às risquinhas douradas e pérola com franja dourada. Mas cobri-a com uma coberta branca e, por cima, na zona do assento, por uma colcha de renda simples, branca. Por cima tem um rolo e duas pequenas almofadas em tecido igual à chaise-longue. Os quadros são em tons predominantemente amarelos, ensolarados. Gosto mesmo. Quando vou ao quarto ou à casa de banho, vou lá espreitar. E sinto-me feliz.
Antes de aqui chegarmos passei pela minha mãe para a ver e lhe deixar figos. Tinha, para me dar, uma tarte que fez, daquelas boas que toda a gente come e chora por mais, o vestido da minha filha arranjado nas mangas, uma pulseira para a minha nora, uma pêra abacate grande que uma vizinha lhe tinha dado e um vaso com umas hastes de feto. Sabe que sempre adorei fetos grandes. A ver se consigo ter um, a ver se o mudo para um vaso maior e arranjo um lugar à sombra. Também gostava de ter uma avenca. Um dia ainda hei-de tentar. E também gostava de ter uma orquídea. Mas receio não ser capaz e ter um desgosto grande se a perdesse. Deve ser uma flor de alma demasiado sensível. As rosas são mais carnais. Estas rosas que agora aqui tenho estão bonitas, parece que estão mais vivas. Pelo menos, gosto de pensar nisso, que as flores gostam de mim. Mas de uma orquídea não sei se saberia tratar. Parece-me flor esquiva, cheia de subtilezas, uma flor com alma de gato.
Antes disso, como disse (e deu para perceber através dos posts anteriores), tínhamos estado no campo, eu a varrer, fazer máquinas de roupa, a lavar a casa, a lavar mais três tapetes -- gosto cada vez mais de fazer limpezas, lavagens -- e a ler. Estive a ler parte de «O Rei Faz Vénia e Mata» de Herta Müller que a querida JV um dia me recomendou. Depois passei para outro de que já antes tinha lido uma parte. Pensei ler a partir do ponto em que tinha ficado mas, depois, voltando a sentir o prazer da bela escrita, regressei ao início. Há na inteligente escolha das palavras qualquer coisa de ancestral. Vitorino Nemésio escreve sobre Raul Brandão, «Íntimo».
Como ele saberia aproveitar a medula trágica deste brado do serrano empolgado pela solidão e a penedia -- «braveza, solidão e negrume», como escreve --, ele que chegou a este apuro: «olho para a ilha descarnada pelo vento, tão forte de inverno que o sino tange sozinho, e sinto-me como nunca me senti, isolado do mundo. Que vim eu aqui fazer?»!
O que gostei de ali estar, deitada, sentindo o calorzinho bom do fim de Agosto, lendo um escritor a falar sobre um outro escritor, lendo palavras sobre a casa, os hábitos e algumas peripécias de Raul Brandão. Agradável. Nestes últimos dias voltei finalmente aos livros, e com que prazer voltei.
À vinda, ainda não eram nove da noite e já anoitecia. Os dias parece que se fartaram do verão, fogem para a noite, parece que procuram o outono. E eu pensei nas minhas roupas mais quentinhas, pensei nas minhas écharpes. Tive saudades de me perfumar. Tive vontade de fazer um chá quente e cheiroso.
Tive vontade de me sentar a uma das mesas desta minha casa onde as janelas dão para um jardim -- e começar a escrever.
Penso por vezes que, da minha passagem pela terra, vão sobrar os tapetes que fiz e, talvez, as palavras que tenho escrito e que, se ninguém as tirar do ar, para sempre poderão ficar por aí, pelo espaço, voando ao sabor de quem as procurar.
Je te laisserai des mots En dessous de ta porte En dessous de la lune qui chante
Tenho estado a reler a entrevista que a Anabela Lopes Ribeiro fez, já lá vão uns cinco anos, ao meu querido mestre Alberto Vaz da Silva, pessoa encantadora.
Transcrevo um pouco:
Como é que um rapaz com o seu percurso intelectual, cultural e pessoal não tinha dúvidas?
É muito o meu temperamento e o meu carácter. Há uma grande predominância de fogo na minha textura psicológica.
Olhando para si achei que podia ser água. Porque tem uma leveza, como água que corre. Porquê fogo?
Porque sou um apaixonado, por temperamento. O apaixonado atira-se facilmente para as coisas com confiança, com certezas. Penso que sou uma pessoa modesta, não gosto de dar nas vistas. No entanto, na minha sombra, sempre fui muito seguro do que fiz. Sabia o que gostava, o que não gostava. Se fazia o que não gostava sabia porquê. Se fazia o que gostava ia até ao sétimo céu. Essa pergunta traz-me uma reflexão: tive muita sorte na vida. Muita coisa me foi dada, como a Helena. As coisas caíram-me em cima da cabeça, ou através de pessoas. No meu último livro, sobre a Sophia de Mello Breyner, pus em epígrafe Saint Martin, filósofo do século XVIII, que esteve na base da alquimia e de grandes conhecimentos esotéricos: “Houve certos seres através dos quais Deus me amou”. Aconteceu-me a vida inteira.
(...)
Por coincidência, antes de começarmos a gravar, perguntei-lhe o que é que significa a letra “f”, e disse-me que é a letra mais reveladora, mais importante.
É a mais sintetizadora. É sempre a primeira coisa de que se vai à procura, o “f” minúsculo. O “f” escolar tem um traço inicial, depois vai para cima (o espírito, a imaginação). Depois passa por uma linha (o real, a vida de todos os dias, a actividade). Vai para baixo (os instintos). Volta para cima (mostra como é que a pessoa dominou ou domina os instintos e volta aos outros). Outra vez a linha, agora para a direita. Percorre os quatro espaços da escrita, os quatro pontos cardeais. E também o passado, o presente e o futuro.
Há pessoas que escrevem “f” a mais. O inconsciente tem esta coisa espantosa de empregar despropositadamente uma determinada letra. Quando há “f” a mais é mau sinal: significa que a pessoa ainda não se encontrou. Quer desesperadamente encontrar-se, mas está a lutar contra moinhos de vento. Quando não há “f” é uma tragédia: a pessoa desistiu de si.
Sobre o f, que ele diz ser a letra mais reveladora, já aqui o contei mas repito-me. No fim da aula em que ele se referiu ao f, mostrei-lhe o meu. A sala estava na penumbra, ele rodeado das suas devotas, não me viu antes de observar a folha com a letra e de ter dito. Só depois olhou para mim e sorriu, dizendo-me que eu poderia saber se era ou não. Tinha dito: 'O f de uma sedutora'. Sim, sou. Mas só às vezes. E sei disfarçar.
[Um apontamento pessoal, irrelevante. Não consigo analisar a minha letra. Não quero, não me interessa]
Mas, de fez em quando, na blogosfera há quem mostre a sua forma de escrever. Mesmo sem querer, esboço logo uma opinião. A forma de escrever não engana e eu, que não sou dada a esoterismos de qualquer espécie, não olho isto como uma coisa do domínio da devinação. Somos a forma como nos manifestamos, incluindo através da escrita à mão, é a nossa impressão digital. Não me lembro de alguma vez me terem dito que a minha análise foi ao lado. Só me intimido um bocado quando me ponho a adentrar pelas miudezas das pessoas. Precisava de mais folhas escritas para poder ter a certeza de que não estou enganada e, geralmente, só tenho uma página. Não pode ser levianemente que se escreve que a pessoa é insegura, que disfarça e se arma importante porque receia que percebam o medo que tem que descubram que é frágil e pouco sabedora. Ou que a pessoa receia tomar decisões com medo de desagradar. E dizer isso a alguém que tem um poder enorme, incluindo o de me prejudicar. Neste caso, bastante tempo depois, esta pessoa ainda dizia, como se estivesse a brincar: 'Viu-me a escrita, deu cabo de mim'. E eu: 'Nada... Tanta coisa boa que vi' mas sabendo que o que lá vi o torna um erro de casting no que está a fazer e que, lamentando-o, tive que lho dizer, não explicitamente assim mas a bom entendedor... Ou a outro dizer que é como se fosse bipolar e que é mentiroso e que tem dúvidas quanto à sua sexualidade. Isto a um que encena ser um conquistador. Não é levianemente que se dizem coisas assim. Ou a alguém que parece muito bem disposta que tem que ter cuidado para não se deixar cair em depressão. É quase a medo que me arrisco a dizer. É que posso estar a ver mal...
Outras pessoas são solares. Uma escrita fluida, solta, arejada, bem estruturada na forma, no balanço, no andamento. Olha-se e vê-se ali uma pessoa motivada, realizada, boa companhia. Olha-se e vê-se que olha a direito, que sabe sorrir, que sabe amar, que sabe viver.
Ver a escrita e a assinatura de Trump é ver tudo. O disparate completo, as contradições, as tentativas de disfarce. Não engana. Compará-la com a de Obama é comparar a noite com o dia.
Já recebi, por mail, digitalizações de páginas manuscritas de leitores. Na medida do possível e apesar de a amostra ser curta, tenho ousado dizer o que vejo da pessoa que escreve. É como um blind date: arrisca-se tudo às cegas, sem conhecer a pessoa e sem ter como aferir se a leitura está a sair correcta.
E, note-se, sendo eu devota das letras, sou, na verdade, uma pessoa sobretudo dos números. A minha formação académica e a minha vida profissional sempre se moveram mais sobre a racionalidade, ou seja, mais sobre a objectividade da análise dos números do que em volta de subjectividades, emoções, sentimentos ou crenças.
Portanto, é colocando toda a minha racionalidade na análise da escrita que digo o que vejo, face ao que aprendi. E o que aprendi nisto da grafologia foi, sobretudo, a ver, a estar atenta aos sinais.
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Mas, enfim. Não era sobre isto que eu vinha aqui falar. Porque hoje tinha uma reunião com um senhor vereador e a reunião foi marcada para uma hora que tornava absurdo voltar ao trabalho, acabei por ficar com tempo livre e, como se estivesse de férias ou em dia feriado, feliz da vida, meti-me ao caminho e desabalei-me para o meu lugar de perdição. Dia de vendaval. Mas quando se gosta de um lugar, gosta-se no matter what. O rio picado, um friozinho intrusivo. Eu de verão, toda frescuras e o vento a percorrer-me a pele. Um sol magnífico, aquele sol dourado do fim da tarde. E eu, sentindo-me turista, a fotografar tudo -- paquetes, veleiros, cargueiros, namorados, gaivotas, gente solitária, o azul das águas e do céu -- por ali andei, matando saudades. Há tanto tempo que não conseguia estar no meu Ginjal.
Talvez seja uma questão de auto-disciplina e imposição mental: forçar-me a colocar em plano de igualdade a minha necessidade de caminhar à beira do rio, de fotografar, de ter tempo de qualidade para mim ao longo da semana e a minha responsabilidade profissional.
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E agora?
(...)
the tree outside doesn't know:
I watch it moving with the wind
in the late afternoon sun.
there's nothing to declare here,
just a waiting.
each faces it alone.
Oh, I was once young,
Oh, I was once unbelievably
young!
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O post talvez tenha acabado por ter um tom nostálgico mas foi por acaso, mesmo sem querer. Se estivesse com mais tempo, escolhia um outro poema. Aliás, tinha escolhido outro mas era de uma tal sensualidade que me pareceu não ter muito a ver com o texto. Então, retirei-o e já sem grande cabeça para puxar por ela, ficou este que é desalentado mas que fica apenas por ser bonito. A verdade é que conjugado com a letra da música que escolhi lá para cima, envolve isto num véu de melancolia e despedida e não é assim que me sinto, caraças, muito longe disso. Não se deixem contagiar, ouviram? Se não fossem duas da manhã refazia isto tudo. Assim, olhem, não liguem.
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As fotografias foram feitas ao cair do dia no Ginjal
Lá em cima Patrick Watson interpreta Je te laisserai des mots
O poema So Now? de Charles Bukowski é lido por Tom O'Bedlam