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domingo, outubro 01, 2023

O olhar perto chão no adeus aos Sinais de Fernando Alves, o Senhor Rádio

 

Quando ia trabalhar, tentava sempre ouvir os Sinais. Cheguei a ficar estacionada fora do edifício (porque no parque subterrânea perdia o sinal de rádio) para ouvir o apontamento do dia. Se não conseguia, tentava ouvir à hora de almoço.

Não eram apenas as palavras em si, tão bem escolhidas, e a forma como o Fernando Alves as entretecia mas também a voz e a maneira de as dizer. Qualquer coisa de poético. Frequentemente, arrepiava-me.

Claro que a sua intervenção na TSF ia muito além dos Sinais. E, fosse nas reportagens fosse nas entrevistas, ele era sempre exímio. Tudo o que ele fazia dava vontade de ouvir várias vezes. 

A sua voz e os seus trabalho  eram dos mais esplêndidos da rádio.

Reformou-se. Compreendo. Sei bem o que isso é.

E a TSF em particular e a rádio em geral perdem uma parte relevante da sua graça. Claro que virão novos jornalistas e que o rejuvenescimento, em si, não é mau. Mas o Fernando Alves é todo um património, um património que leva muito tempo a edificar. E tudo envolto numa toada que encanta -- e com esse talento nem todos têm a sorte de nascer.

Para que aqui fique como um saudoso pro memoria, transcrevo o último texto que disse no seu pessoalíssimo Sinais

Sugiro que cliquem no link para poderem ouvi-lo dito por ele.

O olhar perto do chão

No seu mais recente livro, "Montevideu", que nos é apresentado como "uma ficção verdadeira", Enrique Villa-Matas descreve-nos um dos seus vários encontros com Tabucchi a quem muito admirava desde "Mulher de Porto Pim", esse livro que, assim o vê o catalão, trata "com leveza poética" questões "difíceis e complicadas". Os dois haveriam de tornar-se amigos, partilhando experiências em várias cidades, em conferências literárias ou movidos pelos fios invisíveis de um acaso feliz.

Certa vez, sentados numa esplanada nas margens do Arno, em Florença, Tabucchi contou a Villa-Matas que tinha chegado à fala com um tipo estranho, um vagabundo que muito impressionara o amigo, em Paris.

Villa-Matas guardava do vagabundo uma imagem vincada. Todos os dias, ele sentava-se no chão, à porta de uma livraria, no Boulevard Saint-German. Em frente, havia um quiosque de jornais. O que retivera a atenção de Villa-Matas, nesses longínquos dias parisienses? O modo elegante como o vagabundo se comportava, cumprimentando quem entrava e saía da livraria. Por vezes, levantava-se, fumando, com o olhar perdido no horizonte, um magnífico havano. Durante a maior parte do tempo, permanecia sentado no cartão de vagabundo, lendo um clássico. Durante algum tempo, enquanto viveu em Paris, o catalão viu com muita frequência o estranho vagabundo. Anos depois, em Florença, conversando com Tabucchi, este confidencia que, certa vez, chegara à fala com o homem. Estava sozinho em Paris, vagueou pelas ruas e deu com aquele homem sentado no chão lendo o seu clássico. O vagabundo convidou-o a que se sentasse a seu lado, no chão, apreciando o mundo desse patamar ao nível dos pés. Tabucchi não hesitou. Sentou-se ao lado do vagabundo, ficaram ambos durante algum tempo em silêncio, observando os que passavam por eles com total indiferença.

Na noite estival de Florença, Tabucchi contou a Villa-Matas o modo como o vagabundo quebrou o silêncio. Ele nunca mais esqueceria aquelas palavras. Disse-lhe o vagabundo: "Estás a ver, amigo? Daqui uma pessoa pode vê-lo muito bem. Os homens passam e não são felizes".

Partilho convosco esta passagem do magnífico livro que me ocupa por estes dias, na última crónica que assino nesta rádio. A meu modo, vou ocupar as horas, em grande medida, um pouco à maneira do vagabundo desta história. Não penso sentar-me no chão, à porta de uma livraria. Mas procurarei, muitas vezes, bancos de jardim, à sombra. E assim me deixarei ficar, absorto, tomando notas para uma improvável emissão futura, feita de silêncios e de palavras elementares, assim me pouse no ombro a ave clandestina. Ambição chã. Ficarei a ver passar os transeuntes com o seu ar triste, como só os vagabundos sabem detectá-lo. Até sempre.

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Tomara que alguém da rádio o convença a voltar 

(nem que seja 'apenas' para continuar com os Sinais).

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Desejo-vos um feliz dia de domingo

Saúde. Afecto. Paz.

quarta-feira, junho 08, 2022

Algumas receitas para uma feliz sobrevivência

 

Espero que, muito rapidamente, a indústria avance com processos de electrólise invertida ou de dessalinização ou de formação artificial de nuvens ou o escambau ou o diabo a quatro. Tecnologia e técnicos que saibam da poda há-os por cá. Têm é que ser lançados programas de investimento virados para isto. E tem que ser rápido. Entre o business case, a mobilização do capital, o desenho e projecto da solução, o procurement, a construção, os testes e tudo o que é preciso até que uma fábrica comece a produzir vão anos (ainda mais com a escassez de materiais que há). E há que ter operadores e técnicos de manutenção - e não os há. Ou rapidamente o país aposta intensivamente em escolas técnicas ou arranja maneira de 'importar' gente com esse tipo de formação. Tudo isto leva tempo.

A subida da temperatura média, a seca, o facto de vários dos nossos rios virem de Espanha (e, como seria de esperar, Escassez de água leva Espanha a reduzir caudais dos rios que entram em Portugal) fazem perspectivar que o que, em tempos, parecia um cenário apocalítico longínquo já comece a bater-nos à porta. Temos que interiorizar que sem água não há vida e que, se não há água, temos que fazê-la. Tal como temos que produzir energia a partir dos recursos naturais e renováveis, temos também que produzir água a partir do que há à mão de semear e que, tão cedo, não se esgota.

Espero que consigamos viver em paz, salvar o planeta, salvarmo-nos a nós da insanidade de alguns e vivermos, de forma sustentável (ou sustentada?), com recursos sabiamente geridos. Se é com carne produzida em fábrica de carne a fazer de conta, se é com insectos ou legumes que hoje desconhecemos, se é com algas e outros produtos do fundo do mar, eu não sei. Mas o engenho e a arte têm que se virar rapidamente para a nossa subsistência e para a do terroir que nos coube em sorte.

No meio disto teremos que nos blindar para podermos cuidar dessas premências e não corrermos o risco de, nos entretantos, ser invadidos e destruídos por assassinos tresloucados. O que até há uns três meses nem nos passava da cabeça, afigura-se agora ser de extrema relevância. Um doido varrido pode deitar a perder anos de desenvolvimento e anos de esperança de vida (das pessoas e do planeta).

Casa Do Penedo, 1972, Celorico de Basto

E, last but not least, teremos que continuar a ser felizes e a tentar inebriar-nos com a arte, com a elegância, com a beleza, com a doçura dos bons momentos, com a melodia das palavras, com o voo dos corpos e dos pássaros, com a memória do passado e o sonho no futuro, com a ternura do afecto, com as mil e uma pequenas coisas da natureza.

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No estúdio com Claire Tabouret


Um vestido feito de vidro -- Iris van Herpen


Georgijs Osokins interpreta  Fragile e conciliante do Lamentate de Arvo Pärt 



Um quarto dos poemas é imitação literária / Herberto Helder dito por Fernando Alves



"Petite Mort", Pas de Deux numa coreografia de Jiri Kylian


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As fotografias pertencem a World Beauties And Wonders

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Desejo-vos um dia tão bom quanto possível
Saúde. Imaginação. Vontade. Paz.

quarta-feira, junho 19, 2019

Gestos, essa arquitectura do nada





As minhas sobrancelhas não têm história. São como são de nascença, sem depilação, sem desenhos por cima, sem reformatação, sem coloração. 

Quando vejo que se usam sobrancelhas bem definidas, até a atirar para o farto, bem penteadas e marcantes, sobrancelhas que são, em si, um statement, e olho para as minhas, tão o oposto, tão discretas, tão claras e despercebidas, penso que um dia hei-de experimentar escurecê-las um pouco, engrossá-las -- tudo na base do efémero, claro, com um lápis castanho para poder sair com a lavagem -- só para ver se a minha personalidade muda. E depois olharia de frente e inclinaria levemente a cabeça a ver se impunha respeito. Li que sim, que produz bom efeito.

Deveria fazê-lo primeiro em casa, ao espelho, ensaiar a pose, testar se resulta.

Só que sou fútil por natureza. Se reconfigurasse as sobrancelhas e me olhasse com sobranceria ao espelho estou em crer que, em vez de me sentir intimidada pelo respeito que o olhar e a atitude imporiam, haveria de me pôr a prestar atenção a pormenores que não vinham nada ao caso: que talvez o tom de castanho devesse ter sido mais arruivado em vez de tão soturno, que talvez as devesse ter alongado mais em vez de manter a curvatura original, que devia era ter disfarçado a cicatriz, que devia era ter apanhado o cabelo, quiçá posto um chapéu, talvez aquele chapéu basco com a fita encarnada. 

Portanto, porque intimamente ainda não acreditei que seja interessante impressionar alguém com base em situações não naturais e espontâneas, ainda não mexi nas minhas sobrancelhas. Também receio que, sem querer, ao mudar algo em mim, sem querer desvende um ser misterioso que me habita e que só estava à espera de uma oportunidade para se revelar.

Mas, agora que escrevo isto, penso que mal também não fazia e que talvez fosse mesmo interessante perceber se me sentiria diferente se me olhasse ao espelho e me visse com umas sobrancelhas à Frida. Como se sente uma mulher que tem umas sobrancelhas espessas e insolentes como asas de bicho peludo, descarado, mal intencionado?

Vou ali fazer isso e já venho. Um momento, por favor. Só espero é que não aconteça nenhum bruxedo.

Tenho medo. Tenham medo.

Já fui e já estou de volta, quase horrorizada. Para começar, não encontrei nenhum lápis castanho ou, sequer, preto. Encontrei um verde e um azul escuro. Optei pelo azul que é marinho. Pintei-as e juntei-as. À medida que as ia pintando, quase horrorizada ia vendo que parecia estar a deixar de ser eu. 

Quando as acabei e ficaram azuis espessas e escuras, juntas ao meio, eu era outra. Impossível ser eu, manter a mesma maneira de ser, com tais sobrancelhas. Fiquei com um ar mais do que rural, um ar primitivo. A mulher primitiva que, com ar sério, me olhava não era eu, era alguém saído de outro tempo, com uma outra maneira de ser, perigosa, castigadora. Ainda pensei fotografar mas não consegui. Peguei numa toalhita e limpei tudo. Aquela podia ter sido eu há muitos anos, a viver numa gruta, talvez na minha misteriosa gruta, alimentando-me de bagas e frutas e dormindo no meio de lobos. Aliás, talvez seja isso. Talvez fosse isso que vi quando me vi ao espelho, uma mulher lobo, com umas sobrancelhas azuis prestes a voar.

E tudo isto é uma conversa que parece não ter sentido, eu sei -- mas, por acaso, até acho que tem. O nosso corpo condiciona a nossa maneira de estar. Talvez não seja por acaso que, em algumas línguas, ser e estar se dizem da mesma maneira. E, portanto, quero eu dizer, o nosso corpo condiciona a nossa maneira de estar e, logo, de ser. E poderia dar alguns exemplos. Só não os dou porque, sem querer, iria descrever-me fisicamente e, francamente, tenho mais que fazer -- e vocês certamente também.


E apeteceu-me escrever isto depois de ouvir a crónica de Fernando Alves, 'O segredo está nas sobrancelhas' que me foi enviado e que muito agradeço. Tanta a gentileza.

[Um dia ainda gostava de ouvir um texto meu lido pelo Fernando Alves. Será que iria ficar presa à voz dele, esperando o desenlace, o arrepio final, o poema a varrer-me a pele? Como se as palavras estivessem a nascer dele?]

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E, claro, fui conhecer o poema por ele referido 


Amo-te por sobrancelhas, por cabelo, debato-te em corredores
branquísimos onde se jogam as fontes da luz,
Discuto-te a cada nome, arranco-te com delicadeza de cicatriz,
vou pondo no teu cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.
Não quero que tenhas uma forma, que sejas
precisamente o que vem por trás de tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitectura do nada,
acendendo as lâmpadas a meio do encontro.

Tudo amanhã é a ardósia onde te invento e desenho.
pronto a apagar-te, assim não és, nem tampouco
com esse cabelo liso, esse sorriso.

Procuro a tua súmula, o bordo da taça onde o vinho
é também a lua e o espelho,
procuro essa linha que faz tremer um homem
numa galería de museu.

Além disso quero-te, e faz tempo e frio.

[Júlio Cortázar]


E dias felizes para quem aí está desse lado. 

[E saibam que estou a olhar para vocês com a minha cabeça levemente inclinada na vossa direcção]

quarta-feira, junho 12, 2019

Sinais. Ruben. Olhares. Árvores. Memórias.
E um tango com o perfume de uma mulher.





Há gente que a gente não conhece e de quem, no entanto, já se habituou à companhia. Dois deles são da rádio. Não são só esses mas desses eu hoje quero falar. Poucas vezes consigo ouvir os Sinais do Fernando Alves mas, quando posso, não perco e, mesmo antes dele começar, já antecipo o arrepio que sempre sinto quando aquela voz encorpada roça aquelas suas melódicas palavras que caminham para o final no qual tudo converge, como braços de rio a avançar para uma doce enseada. E não desconheço a mecânica dos rios, não, usei mesmo aquela imagem por deliberação porque assim as palavras dele, correndo, sobressaltando-nos ou levando-nos nos braços e, no fim, não se perdendo no mar mas, antes, tudo se resolvendo e aquietando, represado em nós.


Hoje consegui ouvir. Falava de olhares, de uns olhos azuis e de uns outros, verdes que ficavam amarelos, falava de duas mulheres, uma que recordava e outra que ouvia, e falava também de um poema de Octavio Paz.

Cheguei aqui para ouvir outra vez, o arrepio a querer de novo percorrer-me a pele. E, então, aparece-me o Nónio, que quer que me registe se quero ouvir os Sinais. Um desconsolo. As belas palavras e profunda voz do Senhor Rádio a serem condicionadas por uma treta contra a qual os jornalistas deveriam manifestar-se. Gostava de aqui poder partilhar convosco o que senti ao ouvi-lo. Não posso, não quero ser condicionada desta forma tão escancaradamente absurda. 


E queria, a propósito do que ouvi e de outras coisas cá minhas, falar de olhares, de como, para mim, é indispensável o contacto visual com o olhar do outro. Pelo olhar me desnudo, pelo olhar procuro a alma do outro. E queria contar como os meus olhos mudam de cor e como me desreconheço quando espero um tom do fundo do mar e os vejo, no espelho, da cor de pedras reluzindo ao sol e não sei se é o espelho que lhes dá a luz ou se são os meus olhos que inventam cores novas quando se vêem ao espelho. E queria contar que os meus olhos míopes parece que não precisam de ver para me darem a conhecer o que dizem os olhos dos outros e adivinham até o temor dos que não deixam que os meus os olhem de frente e em profundidade, como que receando que eu mergulhe fundo demais. Mas isto, se calhar, não é bem assim, isto, se calhar, sou eu que sou dada a rêveries, a inofensivas loucuras.

Mas, pronto, não tendo eu para aqui partilhar convosco os Sinais, não falo. 


E foi também no carro que tive uma má notícia: tantas vezes a nossa companhia ao sábado junto à hora do almoço, Ruben de Carvalho -- que se divertia à grande com Jaime Nogueira Pinto, os fantásticos Radicais Livres -- tinha-se libertado das amarras da vida. E escrevo assim não porque a hora careça de metáfora mas porque não gosto de usar a palavra certa. A palavra certa assusta-me quando a a ceifa atinge pessoa que me faz boa companhia. Parece que receio que contagie, que seja mau presságio. Evito.

Muitas vezes tínhamos que levantar o som, apurar o ouvido, eles falavam ao mesmo tempo, riam-se, tinham o prazer da concordância, sempre contentes por se lembrarem das mesmas coisas ao mesmo tempo, avindos apesar de tudo. Histórias, episódios, apartes -- e sempre ambos a completarem-se, rindo da sintonia. Riam um do outro, o da esquerda e o da direita, gozando com a própria irreverência face à ortodoxia. Radicais e livres. E agora o Jaime Nogueira Pinto não terá o seu amigo para desfiar memórias e opinião a par e par e nós, no carro, não teremos o prazer de o ouvir trocando postalinho com o seu companheiro. 


Se calhar vai chegar o dia em que vou começar a sentir que o meu mundo vai ficando mais pobre, sem muitos daqueles que acompanham os meus passos. Ainda não quero dizer isso porque não sou fatalista, não gosto de curtir tristeza. Mas custou-me mesmo que ele se tivesse ido embora e, ainda por cima, sem dar aviso, sem que eu fosse criando mentalização para o que estava para vir. E falo de forma egoísta, não falando no sofrimento dos que lhe são próximos, falando apenas de mim, no carro, a ouvi-lo. Mas acredito que, quem fala na rádio, fala como se falasse para cada um que o ouve e é dessa tertúlia agradável e culta que vou sentir muita falta.

Mas é assim mesmo a vida, cheia de coisas destas, de olhos que se fecham, coisas nem sempre esperadas, coisas que nem sempre causam arrepio bom na pele.

Mas continua. Sempre continua, a vida. 


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Os teus olhos  -  Octavio Paz

Tus ojos son la patria del relámpago y de la lágrima, 
silencio que habla, 
tempestades sin viento, mar sin olas, 
pájaros presos, doradas fieras adormecidas, 
topacios impíos como la verdad, 
o toño en un claro del bosque en donde la luz canta en el hombro de un árbol y son pájaros todas las hojas, 
playa que la mañana encuentra constelada de ojos, 
cesta de frutos de fuego, 
mentira que alimenta, 
espejos de este mundo, puertas del más allá, 
pulsación tranquila del mar a mediodía, 
absoluto que parpadea, 
páramo.

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E para não chegar ao fim num tom dolorido, com saudades de olhares longínquos, com a melancolia de amores perdidos uns dos outros, com a nostalgia de vozes que gostaríamos de ter perto de nós, vou lá acima trocar o Nocturno pelo Redemption e vou colocar as minhas palavras sob a copa das minhas tão amadas árvores que me abrigam quando estou in heaven

Ou melhor: vou acabar a dançar. E vou buscar um dos tangos mais enternecedores e mais sedutores de que tenho memória. E com uns olhos que, na realidade, vêem mas que ali, não vendo a fingir, vêem mais do que todos os olhos que com ele deslizam no salão, a menina deslizando nos seus braços, rendida, transportada.



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Entretanto, por gentileza de um Leitor num comentário abaixo e a quem muito agradeço, recebi a indicação de aqui se consegue ouvir a crónica do Fernando Alves:

http://podcast.static.tsf.pt/sin_20190611.mp3



sábado, abril 13, 2019

Vamos embora, disse ele. Mas eu fiquei. A ouvi-lo.





Já estava um bocadinho atrasada mas o dia estava tão bonito que isso não foi tema. Quando cheguei ao pé do meu marido, ele disse-me: 'Não te disse? Tu disseste cinco para a uma e eu disse que se fosse à uma e cinco seria uma sorte'. Expliquei a razão do meu atraso. Quando estava a sair, tinha sido interceptada por alguém que teria muito para dizer mas cujas palavras interceptei. Então, ele contou: 'Mesmo agora passou por aqui o ex-ministro [e referiu a pasta] e hesitou, como se me conhecesse e viesse cumprimentar-me'. 'E tu?'. 'Eu desviei-me, disfarcei'. Mas logo a seguir apareceu o presidente [e disse o nome de uma associação patronal] e aconteceu  mesma coisa, vinha cumprimentar-me. A mesma coisa, exactamente'. 'Mas estavam juntos?'. 'Não, primeiro um, e entrou para o restaurante. A seguir o outro. E entrou também'. Achei graça e ele também tinha achado. E, assim conversando, dirigimo-nos ao simpático restaurantezinho que descobrimos há pouco tempo.


Pedimos aqueles gostosas entradinhas de que ambos tanto gostamos e estavamos no petisco e a conversar quando reparei que ele estava de olhos postos não sei onde que não em mim. Não gosto. Zanguei-me: 'Estou a falar e tu a prestares atenção não sei a quê'. E ele disse: 'É que acho que entrou a [e disse o nome de uma conhecida deputada europeia] e não pude deixar de reparar'. E, quando me virei para olhar, já ela vinha avançando para uma mesa perto de nós. Jeans, botins, maleta de viagem. Por uma vez não a achei pior nem mais baixinha do que se vê na televisão. Pelo contrário. Bonita, aspecto simpático. Sempre ao telemóvel mas, como é apanágio dela, sempre com um ar vagamente sorridente.


Quando saímos, comentando o ar primaveril e ele brincando com o facto de no prazo de menos de uma hora ter estado ao pé de três pessoas tão 'famosas', olho para o lado e quem vejo? Uma conhecida senhora com uma toilette primaveril, bouquet primaveril na mão e um sorriso encantado de quem tinha acabado de ser presenteada. Fiquei com vontade de ir cumprimentá-la: 'Ora viva! Então como está, Santa Mana?' mas comportei-me.


A seguir separámo-nos e seguimos em direcções opostas, cada um para o seu trabalho. Pensei que teria precisado de um almoço mais prolongado e de ter visto mais celebridades para aguentar melhor a sessão em que ia participar a seguir. Não gosto de me maçar antes de estar no meio das maçadas mas, neste caso, conhecendo do que a casa gasta, não pude deixar de me pôr a pensar no possível antídoto ao que me esperava nas próximas horas. Ia na Antena 2 mas apeteceu-me espevitar. Pus na TSF. E, então, para minha alegria, estava a começar os Sinais. Para se perceber como sou tão absurdamente primária, confesso aqui que, instantaneamente, me esqueci da reunião que ia ter e de tudo o mais à superfície da terra. Encantada, ouvi. Encantada. Como tantas vezes, com aquele arrepio que me percorre a pele. Felizmente o meu piloto automático funciona bem pois a verdade é que desligo. Desligo mesmo. Involuntariamente entrego-me à emoção que me toma: isto quando ouço os Sinais, um andante de Debussy, uma fuga de Bach, o canto de um pássaro, quando contemplo o voo de uma gaivota, a beleza de uma árvore, uma pintura, quando leio uma poesia, quando recordo um momento especial.

Vamos embora, intuí que se chamasse a crónica. Que bom poder testemunhar o prazer das palavras ditas por quem as tão bem sabe escrever e dizer.

Vamos embora -- disse o senhor Rádio, Fernando Alves de seu nome


E depois a reunião foi longa, longa, agitada, e, a meu ver, inconsequente. Mas o tempo o dirá. Penso, para me dar descanso, que não tenho que tentar evitar todos os meus passos que vejo à minha volta. Como nos disse uma vez um senhor da aldeia a quem pedimos que plantasse choupos num lugar que ele dizia inapropriado: 'Mas querem que eu ponha aqui os choupos, eu ponho. Em havendo dinheiro...'. 

E depois, já noite, vim para casa. Como habitualmente, vim conversando. Com a minha mãe, com a minha filha. Depois, já cá em casa, fizemos planos para o fim de semana. Mas, entretanto, em conversa com o meu filho, os planos levaram uma reviravolta. 

E, entretanto,  adormeci. 


E agora estou a ver de novo Out of Africa, um dos filmes que nunca me cansarei de ver. E estou a reparar como um dos actores é igual, igual, igual, a um colega meu. Porque é que nunca antes tinha reparado? Porque nas outras vezes que vi o filme ainda não o tinha conhecido? Ou porque o actor entretanto mudou de feições e de maneira de ser para se pôr igual ao meu colega? Mistério.

E agora estou a ver aquela cena de que tanto gosto, uma intimidade profunda, uma cumplicidade que é tão boa de (vi)ver.



E é isto. Vamos embora.

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Um bom sábado a todos.
Que a alegria vos acompanhe.

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quarta-feira, julho 04, 2018

Svetlana foi ao Porto e é tudo demasiado bonito para ser verdade.
Mas fazer o quê? Um quarto dos poemas também não é imitação literária...?
Portanto, nada como uma bela ménage a trois



Na pintura eu prefiro o que não se sabe o que é, o que não pretende ser bem feitinho. Na fotografia eu prefiro o pormenor indefinível ou o plano quase abstracto ou o prédio que tem uma árvore à frente. Na moda eu prefiro as assimetrias, as peças que se levantam ao passar da aragem, os decotes que quase poderiam ser precipícios. Nos textos eu prefiro os que têm as costuras à vista, os que provocam ou enternecem por razão nenhuma, os que me dão vontade de lhes passar uma rasteira. Nas pessoas eu prefiro as mal comportadas, as imperfeitas, as que procuram os sobressaltos.

E podia continuar.

Por isso, se vejo um poema muito arrumadinho, de uma lisura métrica e uma gramática simétrica, se numa música eu ouço uma melodia muito quadradinha, sem um sopro fora do sítio, se numa pessoa eu sinto pruridos, cuidados e temores e se numa fotografia eu vejo a pretensão da perfeição -- eu viro as costas e sigo noutra direcção. Tudo o que é muito composto, muito bem comportado ou muito perfeito a mim parece-me apenas foleiro. 

Não suporto a mediocridade ou a foleirice, em especial quando aparecem mascaradas de grande coisa.

Nomeadamente.

Estava aqui a ver umas fotografias e os meus olhos bocejavam de tanta perfeição. Até que numa achei o lugar familiarmente bonito. Detive-me. Li: Porto. Portugal.

A opinião manteve-se mas o meu olhar sentiu aquela tolerância generosa que a gente guarda para as pessoas da família por quem não sente empatia mas a quem dedica atenção porque, enfim, família é família -- Portugal é Portugal e eu tenho-o sempre no coração mesmo quando me aparece enroupado in lovely tiles.

Não sei se a Svetlana levou um banho de photoshop ou de outra coisa qualquer nem isso me interessa. O que sei é que há na autora vontade de beleza e isso merece ser louvado. A beleza é fundamental, é vitamina para a alma. Кристина Макеева tem várias fotografias deste género e, reconheço, algumas bonitas.

Mas, pronto, não faz bem o meu género -- e apenas a trago aqui porque se esmerou colocando a Svetlana envolta num padrão de azulejos e mostrando um luso-espaço que é mesmo bonito e, portanto, ok, por esta passa. E, porque hoje estou com o meu coração pacificado (confirmo: já fiz a minha má acção do dia), coloco até uma segunda fotografia da dita Кристина (desta vez a Svetlana estava em Valensole, Provence, França, toda ela cheirando a lavanda)

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Agora gostava mesmo, mesmo, é que ouvissem este belíssimo poema de Herberto Helder lido por Fernando Alves num vídeo do distinto Cine Povero, sobre pintura de Escher

Um quarto dos poemas é imitação literária
(...)
e o último é ele que olha da montanha onde abriu na 
pedra o seu nome inabalável,
e voltava ao primeiro como se fosse orvalho,
(...)

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E termino com um poema que acabei de receber. O L. envia-mo, desejando-me o melhor e eu, agradecida, partilho-o com todos os meus outros Leitores. Há pessoas simpáticas. É como a Gina que me deixou um comentário tão querido. Muito obrigada.


Inesperada chegas e te anuncias,
Rompes no subterrâneo das madrugadas
Os pedregosos trilhos dos meus dias
Nas rotas sempre inacabadas.
Entreabertas gelosias
Na esperança das luzes coadas,
Que sempre irrradias,
Nessas sonolentas e místicas chegadas
Envoltas nas tuas coqueterias.
Sol nascente,
Anúncio de um maio transbordante
No riso incendiado e quente.
Eterno e incansável navegante
Rasgando nas águas da nascente
O destino de um futuro distante.
No precipício do coração... latente
O redimir de um respirar ofegante,
Submerso no delírio que se pressente,
Exaurido, mas ainda ofertante
Ao prenúncio do astro incandescente.






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Afinal agora é que é, agora é que termino. E termino da melhor maneira. Com uma discreta ménage a trois. Que é como quem diz: com um pas de trois.

Os primeiro-bailarinos do Royal Ballet Edward Watson, Marianela Nuñez and Nehemiah Kish interpretam uma coreografia de Frederick Ashton: Monotones II. Música de Erik Satie. Coisa em bom.


segunda-feira, março 05, 2018

E como pão e bebo água de olhos fechados como se fosse para sempre






quem fabrica um poema curto morrerá muito mais tarde
só depois de estar maduro



Num único dia saio de casa, percorro a beira do rio, a cidade, outra cidade, volto a minha casa. Num lugar chove copiosamente, noutro há ventania, a seguir aflora o sol. Em casa há o conforto da família. Fecha-se o ciclo.

E observo como o tempo actua no corpo dos homens. 

Os meus pais. 

Ao lado do meu pai, o avô de um ex-aluno da minha mãe. A filha desse avô que a minha mãe reconheceu apesar de terem passado mais de trinta anos. O seu ex-aluno, agora jornalista com programa na televisão, fala com adoração dessa sua professora, conta a mãe. A minha mãe recorda-o. Sempre gostou de escrever, diz.  Depois a mulher fala do pai: 'Alzheimer. Rápido. Intenso. Tudo a falhar.'. Depois acrescenta: 'E a minha mãe também. Mais progressivo. Tem momentos em que ainda me conhece'. Está cansada. Quase sufocada. A minha mãe diz que a percebe. Eu não digo nada.

Ao fundo, um homem está sentado num cadeirão e tem tubos de oxigénio. Em frente, o que deve ser a filha, mulher talvez um pouco mais nova que eu. Nenhum dos dois fala. Comento com a minha mãe: 'Destes três já nenhum sabe conversar'. Quando a mulher sai, o homem espreita para confirmar que ela saíu, depois, lesto, levanta-se e, com segurança, começa a separar os tubos, tira-os do nariz, e enrola-os cuidadosamente. A seguir coloca-os no bolso. Chamamos a enfermeira. Ela zanga-se. Ele calmamente diz que aquilo é dele, que faz o que quer. A conversa é divertida, parece uma rábula cómica. Ela diz que é dela, que lhe dê os tubos. Ele duvida: 'É...?'. Ela confirma. 'Claro que é'. Ele pergunta: 'Sim...? Pagou...?'. Ela ri-se. Diz que sim. A custo arranca-lhos. Volta a colocá-los. Mal ela vira costas, ele faz o mesmo e, rapidamente, avança para a porta, diz que se vai embora. 

Pergunto à enfermeira se precisa de ajuda. Diz-me ela, sorrindo: 'Deixe... Não é fácil... Demência'

Penso que ali é o fim da linha. Penso mas não digo. Se há coisa que tenho aprendido nestes últimos anos é que não se sabe nada. 

Dali sigo para casa. Estou com os mais pequenos, com os pais dos mais pequenos. Os meus amores. Na minha sala brincam as cinco crianças. Jogam à bola, praticam judo, fazem ginástica, riem. O mais crescido segura o mais pequeno. Riem um para o outro.


Os mais crescidos observam, riem, conversam. O bebé ciranda, anda à descoberta, começa a impor a sua vontade. Depois, à volta da grande mesa, come-se, conversa-se, partilha-se. 

Quando saem, dedico-me às tarefas domésticas. Depois venho ver as fotografias feitas no dia. O Ginjal, o rio, a chuva, os meninos, as brincadeiras, os sorrisos. Sorrio vendo-os.

Na televisão há o festival da canção, os óscares, os futebóis, as eleições em Itália, o mau tempo. Distraí-me a escrever. Quando volto à 1, já começou um filme. Fui agora ver ao DN quem foi que ganhou. E agora fui ao YouTube para ouvir. A miúda, Cláudia Pascoal, tem carisma. Mas canta a canção com ar de sofrimento. Não sei se a letra o justifica mas não me apetece prestar atenção.

Está a começar uma nova semana. Tomara que seja boa. Não precisa de vir com sol. A chuva não faz mal, também é boa. Na sua diversidade e apesar de tudo, a vida é uma coisa boa.


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Três fotografias foram feitas no Ginjal. A outra, na sala.

Fernando Alves diz Quem fabrica um peixe fabrica duas ondas de Herberto Helder num vídeo do Cine Povero

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E queiram continuar de passeio pelo Ginjal, um dos lugares mágicos da minha vida
Aí poderão ver a gaivota que levou a melhor em relação ao pescador.

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quinta-feira, dezembro 07, 2017

É o Steve Cutts e sou eu:
este é o nosso mundo



Teimo em não ter facebook nem twitter nem tretas dessas que causam dependência e nada acrescentam ao nosso conhecimento ou felicidade.

Comecei a fazer fisioterapia e, desde as fisioterapeutas aos clientes, aquilo lá parece tudo gente de sangue azul. Finos, finos, finérrimos. Quando me perguntaram como tinha eu dado cabo do ombro, disse que achava que tinha sido a podar árvores. Pois bem. Parecia eu que estava a dizer que tinha sido a andar de braço esticado a apanhar borboletas em Marte. Não percebiam. Mas... árvores? Árvores... de quê? De fruto? Mas como? E eu: pinheiros, azinheiras, aroeiras. De podão ou serrote. E elas estupefactas. Mas também bastaria olhar para as minhas mãos. Nada de nails artísticas, nada de gel, gelinho ou corte em bailarinas. Com as minhas mãos, ou campónia ou sopeira. Por mim, qualquer das duas. Com muito orgulho.


Mas mil vezes isso do que ser daquelas malucas que estejam onde estiverem tiram selfies, tiram fotografias à comida ou às paredes e logo as postam, passando depois o resto do tempo a rir, supostamente em estado de derretimento a ver os comentários dos 'amigos'. Não há pachorra.

Pior ainda é estar-se numa reunião em que cada um dos presentes (excepto eu!) está de tablet, entretido a ver as notícias, a mandar mails ou o escambau. Onde eles se acham uns moderninhos, eu acho-os uns palermas encartados. Uma vez calei-me e disse que me fazia impressão falar para quem não estava a prestar qualquer atenção. Ficaram todos ofendidos. Que estavam a prestar ultra atenção, ora essa, apenas tinham que ver algum mail em particular ou alguma cotação, coisa muito útil e muito breve. Sim, sim. Mostrei que não acreditava patavina e volta e meia repito a graça: perante uma pausa silenciosa, levantam logo todos os olhos dos computadores não vá eu fazer mais algum remoque.

O mundo tem coisas de gente burra. A espécie, quando vista em geral, parece tender para a anulação. O que se lê é maioritariamente lixo -- e é quem lê alguma coisa para além dos faces desta vida. O pessoal vai desertificando das ideias e baixando o nível de exigência. Aceita-se tudo, convive-se bem com o lixo. Não sei onde é que isto vai parar mas a sítio bom não é, de certeza. Nos Estados Unidos, já os levou ao Trump.

Mas pronto, acho que pouco há a fazer. Massificámos a estupidez e agora chapéu.


Cá para mim, a menos que haja algum dia uma barraca dos diabos e a malta ganhe verdadeira aversão à coisa, este é o inexorável caminho que estamos a trilhar.

Mas ainda há quem do disparate consiga fazer uma coisa boa. Neste caso, um alerta bem parido:

De Steve Cutts (de quem também são as imagens dos gifs): This is our world



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E para aqui estou a tentar acertar o raio de acção dos olhos com o ponto dos óculos em que a coisa se dá. Idem com a posição da cabeça a tentar alinhá-la com a das coisas que quero divisar. Não está fácil. Turvo, desfocado, esbadanado. 
Nem sei se existe esta palavra (esbadanado) mas, olhem, se não existe, passa a existir. 
Recebi mails simpatiquíssimos com palavras de incentivo e/ou conselhos práticos sobre como fazer uma pobre coitada para se adaptar a esta tecnologia avançada dos óculos progressivos. Por isso, embora contrariada, aqui estou a sacrificar-me até que o cérebro se habitue a tanta sevícia. Claro que só os uso à noite, aqui no computador. Para mais do que isso já seria preciso virar-me do avesso e para isso ainda não vejo necessidade.


Mas talvez por causa disso, de estar para aqui, azamboada, às voltas com as focagens, ainda estou com mais sono do que nos outros dias.

Dado o dia de cão que tive, estive a mandar mails de trabalho até há pouco. E era ver-me: toda esperta. Mal acabei a faena, pimba, a cabeça a pendular, os olhos a fecharem-se e eu toda off. Vá lá a gente perceber esta lógica. A pancada devia era ter-me dado quando me ocorreu estar a trabalhar até tão tarde. Santa paciência que até para mim já me falta, caraças. O que vale é que esta quinta vai saber-me a ginjas, pelo menos assim o espero, uma quinta toda prosa, toda sexta.

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E estou tão leve
porque não tenho nenhum segredo
e tão oculto
porque daqui a nada 
já posso dizer tudo.

in Levanto à vista -- Herberto Helder dito por Fernando Alves




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Inté. 
Agora tenho que vos deixar e ir pregar para outra freguesia, ok?

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terça-feira, setembro 20, 2016

Da obra vil e tão repugnante que não vale uma poia de cão largada no passeio, o que dirá aquele que diz não ser da coisa obrada o empreiteiro mas que, porque deu a palavra, a vai apresentar?


Por vezes venho a pensar escrever qualquer coisa e, às tantas, porque vejo que outros o fizeram antes de mim, faço a agulha e aponto noutra direcção. Com quem me acontece isso mais frequentemente é com o Valupi ou com a Penélope, ambos do Aspirina B. E escrevem com tal galhardia que me fazem pensar: ó céus que se me anteciparam outra vez e com tal talento que nem vale a pena pretender vindimar vinha já tão bem vindimada. Chapeau.

Hoje foi outro desses dias. Conto.

Estava eu no carro de manhã quando ouço um daqueles momentos de rádio que valem ouro e que justificam a razão de, àquela hora, eu sintonizar a TSF e não outro posto. Fernando Alves, o Senhor Rádio, leu, com aquela sua inconfundível voz, uma pequena crónica que, de imediato, achei ser uma peça de antologia. Pensei: logo vou colocar no blog o link para esta pérola (ou, vá lá, para esta flor excrementícia).


À noite, à vinda para casa, um engarrafamento. Acidente numa das vias mais movimentadas à hora de ponta e o caldo está automaticamente entornado. Fiz telefonemas, ouvi a Antena 2, desesperei; até que me pus a ver os blogs da galeria lateral do UJM. E, bolas!, gaita!, outra vez!
O Distinto Valupi lá se tinha, uma vez mais, antecipado.

Contudo, agora aqui chegada, pensei que desta vez não me ia ficar até porque me quedaria pena de, neste meu sítio, que é quase um repositório de 'cenas' que vou pensando ou registando, não ficar com o apontamento deste fantástico momento de humor, ironia, sarcasmo -- e arte de bem escrever e de bem dizer. Fernando Alves não diz um nome, Não diz que o empreiteiro da obra que não vale uma poia de cão é José António Saraiva, não diz que a dita obra vil é o asco em forma de livro que dá pelo nome de 'Eu e os políticos' onde o pequeno arquitecto verte para papel o que ouviu off the record ou o que inventou, nem diz que o apresentador da obra que nada poderá dizer que se não suje é o inteligente Passos Coelho. Mas não precisa de dizer.


A quem ainda não ouviu, sugiro que clique para ouvir. É imperdível.

Toleima do apresentador obstinado


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Já agora:

 Pela veemência da repulsa são também dignos de visita:

'Que se afunde com a bosta' de Daniel Oliveira que li na Estátual de Sal
e, no Escrever é triste,
'Um livro que nunca lerei' de Henrique Monteiro
e o delicioso 'Toma' de Rita Roquette de Vasconcellos

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quinta-feira, março 24, 2016

A mulher do casaco amarelo


No post abaixo já falei de arte, já trouxe um poema do novo livro de Herberto Helder que, como uma daquelas estrelas de que o João fala,
Como as estrelas nascem e morrem, muitas das que hoje vemos podem já não ser estrelas. Estamos a olhar para o passado quando olhamos o céu.
continua a emitir luz lá dos longes onde agora está, e já mostrei um vídeo enviado pelo Leitor P. Rufino que, nisto da arte, tem gostos muito diferentes dos meus.

Mas agora, antes de me ir, apetece-me escrever mais uma coisa.

Apetece-me dizer que hoje, à hora de almoço, ouvi os Sinais de Fernando Alves e que ele disse que se lhe tinha rompido o dique ao ver a fotografia da mulher do casaco amarelo, essa mulher vítima dos atentados de Bruxelas, essa mulher com um olhar de medo, salpicos de sangue no rosto, que olha para todos nós, que não pára de olhar para todos nós, incrédulos como ela. 


Agora fui ver essa fotografia e aqui está: essa mulher que tinha saído de casa toda bem arranjada e que agora ali está, descomposta, meio despida, sem um sapato, como que abandonada, esquecida da vergonha que, noutras circunstâncias, teria por estar assim, talvez sem perceber se está viva da mesma maneira como estava antes de o mundo parecer cair-lhe em cima. 


A mim não me saltaram as lágrimas, não sou de lágrima fácil. Perante situações assim, tendo a ficar imóvel, como se sentisse que a contenção é a reacção mais inteligente porque, quem sabe, um dia poderá vir em que tenho que as ter de reserva para o tanto que delas talvez venha a precisar. 

Frequento quotidianamente locais que são de risco. Os meus filhos e o meu marido também. No entanto, não penso nisso. Ajo como se o mundo estivesse em vias de deixar de ser perigoso, como se, pela força da minha vontade, o mundo pudesse voltar a ser apenas uma terra fértil e pacífica, um pedaço de universo onde os rios fossem largos, limpos, cheios de luz e depois se estreitassem entre bosques altos e verdes, onde as florestas tivessem sombras perfumadas, pássaros coloridos, clareiras onde os habitantes se reunissem em rituais, danças, amores. Penso isso. Entrego-me a pensamentos bons, ouço músicas que me levam nos braços, imagino palavras bondosas, laços invisíveis entre pessoas generosas e, assim, vou mantendo afastadas de mim as sombras do medo.

Muitas vezes tenho vontade de sair por aí, perder-me no mundo, ir para onde possa ser útil, a resgatar feridos, a tratar crianças, a ensinar adolescentes, a ajudar a construir qualquer coisa. Mas sei que não poderia estar longe dos meus e sei que nada se faz por voluntarismo, que é preciso que as atitudes sejam concertadas, que haja inteligência na condução dos assuntos. Gestos isolados de nada servem. Por isso, não sei se cobarde ou se lucidamente, limito-me a continuar a viver como sempre, olhando o mundo, sendo sincera na forma como vivo, tentando compreender os outros, tentando ser feliz e que os que vivem perto de mim também se sintam felizes. Acomodo-me, pois, nas minhas inúteis e boas intenções e isso faz-me sentir bem comigo mesmo. Sentimento igualmente inútil mas, enfim, inofensivo. Ao menos isso.

Mas é verdade: vê-se a fotografia daquela mulher e pensa-se que isto não está a correr bem, que em algum momento o mundo caiu num precipício perigoso de onde pode ser difícil sair.

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E queiram, por favor, descer até ao post a seguir, caso vos apeteça ir em busca de territórios mais leves.

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quarta-feira, abril 29, 2015

Da sabedoria das pedras [-- terceiro de três posts sobre a sabedoria]


Anos e anos de vida, serenas na sua quietude, deixando que o tempo passe por elas, as pedras têm uma beleza tranquila da qual gosto de estar rodeada. Com elas me maravilho sentindo que delas me vem a memória de dentro da terra. Têm por vezes aspecto de bichos, outras vezes são apenas um bocado do mundo que pousou na minha vida.




Ou são as escadas que nelas foram escavadas para que as sintamos quando por aqui andamos. E nelas nascem ervas, flores e os nossos passos.




E são as minhas guardiãs e eu não sei se são cegas ou se me vêem ou se são surdas mas eu sinto-as vivas, a pele macia, passo-lhes a mão e sinto como respiram, minhas irmãs silenciosas.




Ou são uma euforia, folhos, rendas, cores, poros como pontos de bordados e aconchegam-se umas nas outras e eu aproximo-me querendo partilhar a sua intimidade tranquila, cheia de segredos bons.




Elas viverão para além de mim, eternas, serenas na sua imensa sabedoria.

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''Homens que são como lugares'' (poema de Daniel Faria - poeta, monge e teólogo português)



terça-feira, abril 21, 2015

Gente como nós



Clique, por favor, para ouvir

O que naufraga


[Sinais de Fernando Alves]


(...) o que é que vão fazer? Já sei que a resposta vai ser "lutar contra as máfias do tráfico de pessoas", que vivem à custa da exploração daquela pobre gente, com travessias de imenso risco. 

Até aí estamos todos de acordo. E depois? Está a Europa disponível para acolher no seu solo os muitos milhares de africanos que chegam às costas da Líbia (onde hoje não há Estado)? E quantos? E como os distribui? Ou será que se está apenas a aproveitar esta indignação para, através do pretexto da luta contra as máfias, tentar, afinal, evitar que os africanos entrem no continente europeu? Será que a Europa está disponível para dar uma solução de vida a essa gente? Ou será que apenas pretende um modelo como aquele que existe em Ceuta, com centenas de pessoas penduradas nas redes de metal que encerram a primeira praça da nossa expansão? Não será isso, lá no fundo, o "sonho" europeu?

A Europa tem de ter a coragem de dizer, alto e bom som, sem eufemismos, que não tem condições para receber milhares de cidadãos oriundos de Estados africanos (e outros) que se revelam incapazes de dar condições de vida decentes a essas pessoas. E tem de ter a frontalidade de dizer que, apesar dessa gente passar por lá fome, violência e imensas provações, não está disposta a abrir-lhes as suas portas. Mas tem de assumir isto, caramba! Andar com discursos piedosos a "fingir que faz" é de uma imensa hipocrisia política. 


O que a Europa podia fazer, e não faz, é promover políticas decentes e eficazes de cooperação para o desenvolvimento nos Estados emissores de emigrantes, que fossem estímulos para a fixação das populações. Basta consultar as conclusões das cimeiras entre a UE e os países africanos para se ter um completo e bem elaborado catálogo do que neles se proclamou, assinou e não se cumpriu.



[Excerto de 'Gente a sul da sorte' do blogue Duas ou Três Coisas do Embaixador Seixas da Costa]

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'Genocide' in the Mediterranean: ANOTHER migrant ship tragedy on Europe's shores as packed



 

'Genocide' in the Mediterranean: ANOTHER migrant ship tragedy on Europe's shores as packed boat washes up on Greek island - just hours after 900 died 'like rats in cages' off coast of Libya. Over 900 feared dead after boat overturned Libya in one of the worst maritime disasters since end of World War Two. At least three migrants killed when a vessel sailing from Turkey ran aground on the Greek holiday island of Rhodes Malta's. PM Joseph Muscat demands the EU tackle civil war in Libya that allows traffickers to operate with impunity. Compounded by rise of ISIS which has threatened to send 500,000 migrants to Europe as a 'psychological weapon' .'Genocide' charged as boat capsizes in Mediterranean (...)

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Another tragic day off the Italian coast: 400 migrants die, witnesses report


 

Tuesday (April 14, 2015) marked "another tragic day":http://www.euronews.com/2015/04/13/fr... off the coast of Italy. Migrants arriving in the port of Reggio Calabria, at Italy's southern tip, told the charity "Save the Children":https://www.savethechildren.net/ that some 400 people died when their boat capsized en route from Libya. Italy: Hundreds of migrants still missing off Lampedusa after latest boat tragedy


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Italy: Hundreds of migrants still missing off Lampedusa after latest boat tragedy




Dozens of bodies have been recovered from the Mediterranean Sea and brought ashore on Lampedusa after one of the worst tragedies involving African migrants trying to reach Europe. The mayor described the scenes on the quayside as "horrific, like a cemetery". Hundreds of people are missing after their boat sank about a kilometre from the Italian island. It is thought the boat capsized after migrants poured to one side of the vessel to escape a fire on board.

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Lampedusa: Way to Paradise or Hell for African migrants? 



As the turmoil of revolutions brought economic instability to many African countries, their citizens began to look across the sea, to Europe, for a chance to improve their lives. The Italian island of Lampedusa is often seen as “a gateway” to the EU paradise. Getting there, though, can be sheer hell. The journey is hard to arrange: it’s costly and travelers are at the mercy of boatmen, often unscrupulous traffickers. The waters are treacherous and have already claimed hundreds of lives. The authorities are determined to intercept would-be illegal immigrants before they can reach the EU border. Yet, in spite of all the hardship and danger, desperate African men and women continue to take their chances. Those who survive and reach the island for which they risked their lives, soon discover that, without papers or knowing the language, the future in a foreign country may be even more uncertain than in their own.

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Quem tem responsabilidades, directas ou indirectas, no estado insustentavelmente caótico a que chegaram os países de onde foge esta gente, gente como nós, que faça alguma coisa. E mesmo os que não têm qualquer responsabilidade que se unam para ajudar aqueles países de origem a ser um lugar bom para se viver, Não é humanamente suportável que se permita que tantos milhares de sonhos se afoguem no inferno da fronteira para o paraíso imaginado.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom dia.

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