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quarta-feira, setembro 19, 2018

As palavras que não te disse







As palavras que não te disse estão aqui
caladas há tanto tempo não se calam
trago-as em mim e sem falar te falam
estão dentro do silêncio e cantam para ti.

Palavras nunca ditas e no entanto
não param de dizer-te o que não digo
palavras para ti e a sós comigo
palavras que não digo e são o canto.

Palavras que não disse e tu esperavas
não sei se ainda esperas ou se é tarde
o que nelas ardia ainda arde
não são de mais ninguém essas palavras.

Palavras que te digo sem dizê-las
palavras onde pulsam várias vidas
e são a escrita mesmo se escondidas
e são o canto mesmo sem escrevê-las.



[Poema de Manuel Alegre in 'Todos os poemas são de amor'
Fotografias de Robert Mapplethorpe]

sábado, junho 09, 2018

Bourdain.

Porquê?





Tenho que dizer que há desaparecimentos que me pertubam muito. Repito-me: quando soube que Bernardo Sassetti tinha morrido fiquei quase em estado de choque. Estava a conduzir e não queria acreditar. Pouco tempo antes tinha-o visto no Largo. E ouvia-o muito. Não me parecia possível tal coisa, um absurdo que carecia de imediata correcção e, no entanto, percebia que tal seria impossível.

Tenho esta coisa: raramente me dou por vencida. Estou sempre a arranjar soluções. Talvez por isso estão sempre a procurar-me para me comunicarem problemas. Arranjo soluções. Canso-me de ser assim, canso-me de estarem sempre a trazer-me problemas. Mas, mesmo que involuntariamente, estou sempre a ver como resolver problemas.

Talvez também por isso algumas mortes me atormentam tanto.

Quando é declaradamente um suicídio ainda mais. Parece que algo de muito estúpido -- algo que facilmente poderia ter sido solucionado -- aconteceu de forma irreversível. Como se tivesse bastado alguém ter verbalizado o seu problema que logo a solução apareceria, limpinha -- e assim, agora, lamentavelmente já nada se pode fazer.

Não sei se estou a explicar-me bem. Tenho dúvidas e essas dúvidas atormentatm-me: por exemplo, quem decide retirar-se da vida, fá-lo-ia feito no dia seguinte se, no dia trágico alguém tivesse conseguido demonstrar-lhe o absurdo da decisão? Ou seja, é uma vontade funda, sentida, irreversível ou apenas um cansaço grande, um afundar-se sem que ninguém perceba e deite a mão, um problema facilmente resolúvel?


Li que Bourdin se tinha enforcado e fiquei também em estado de choque. O meu marido, que não tem paciência para ver televisão, gostava muito de ver os programas dele. Por isso, habituei-me também a ver aquele personagem desconstruído, simpático, afável, displicente, culto, simpático, bad boy, politicamente pouco correcto. Havia nele aquela empatia imediata que o tornava tão querido e gentil. Uma pessoa assim, tão popular, merecendo tanto reconhecimento, como chega ao ponto de sentir que já não aguenta mais?

Foi o meu marido que o disse: estes tipos não param, esgotam-se no que fazem, têm que estar sempre a descobrir coisas novas, têm que estar sempre disponíveis. Chegam a um ponto que já não aguentam.

Não sei se foi isso Se calhar foi. Quando apenas olhamos o lado de fora das coisas, a gente só vê o que parece bom: viajar, conhecer tanta gente diferente, tantas coisas novas. Pensa-se: quem me dera.

E, no entanto, Bourdin disse que nunca estava perto de quem amava, que estava sempre a partir, que não podia criar laços. Olhava-se para ele e diríamos que isso não lhe fazia falta, andava sempre tão bem disposto, tão disponível para ser surpreendido, tão próximo daqueles com quem conversava, comia, bebia.


Ao jantar, eu estava a falar nisto. O meu marido disse, com ar levemente desagradado: agora vais ficar só a pensar nisto.

Confirmei: sim, faz-me impressão. Percebo que uma pessoa se sinta chegar ao ponto de saturação mas não consegue perceber que essa é a alturar para parar? Quem tem dificuldades económicas terá problemas em virar costas a uma vida que o esvazia mas uma pessoa com pecúlio considerável pode facilmente dizer: 'já chega, vou dedicar-me à jardinagem ou ao dolce fare niente'. Porque não o fez?

O meu marido disse: porque se perde a capacidade de parar. Parar, em situações assim, não é opção.

Será? Pensa-se que já não há mais surpresas depois da próxima curva? Que o corpo já não aguenta mais o cansaço de se mostrar sempre feliz? E, no entanto, continua-se incessantemente fingindo que ainda se acredita que os dias que vêm são melhores dos que acabam numa noite solitária? Será?

Até que, uma dessas noites, é a última. Um ponto final.

Li que Bourdin teve um passado de dificuldades, de drogas, de dinheiros curtos, de medos. E que, depois, a sua vida mudou, vindo a tornar-se a estrela que conhecemos. Nunca escondeu as agruras, os deslizes, os sustos. Faziam parte da sua vida e de tudo isso falava com frontalidade. Não terá sido isso que o puxou para a negritude. 

Mas talvez não tenha querido jogar-se no inferno mas, sim, libertar-se em direcção à luz. 


Quando alguém morre assim, de forma inesperada, fico com a curiosidade -- que sei que é mórbida -- de ver fotografias feitas pouco antes. Ou palavras ditas pouco antes. Quero perceber se teria sido possível descobrir a sombra que, se calhar, já pairava sobre a alma de quem estava prestes a partir. Alguma marca de tristeza que estava bem ali e em que ninguém reparava, algum rasgão que estivesse oculto na esquina de alguma palavra. 

No fundo, acho que tenho necessidade de perceber se, estando atento, é possível perceber que o vínculo à vida está prestes a quebrar-se ou se isso acontece de súbito, de forma inelutável.

Seremos todos responsáveis? Será que o nosso apreço tolhe a alma de quem se sente aprisionado por tanta estima? O peso do amor ou da fama ou da responsabilidade em agradar torna muito frágeis aqueles que amamos demais?

Há explicação para mortes assim? Haverá forma de alguém as evitar? Ou não? 


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As fotografias que usei foram feitas ao fim do dia na praia

Divna Ljubojevic interpreta Polyeleos

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terça-feira, março 13, 2018

O abade prevenia que semelhantes teses e temas só deviam ser apresentados e discutidos a "determinadas mesas e com discrição" e, ainda assim, "mandando sair os criados".





Thérèse philosophe inspirava-se num caso célebre: o padre Girard, um jesuíta reitor do Seminário Real de Toulouse, fora acusado por Catherine Cadière, de quem era confessor, de a tentar seduzir. O padre fora absolvido pelo Parlamento de Aix, em 1731, mas numerosos panfletos repetiram e romancearam o episódio. Assim, Thérèse philosophe passava também a ser um roman à clef.


O padre Girard, Dirrag na ficção, usava os famosos Exercícios Espirituais de Santo Inácio numa desvirtuada acepção carnal, misturando sexo e sacrilégio. A mensagem era a desmontagem da dualidade corpo-alma e a disseminação de uma filosofia materialista. (...)

Para se ilustrar nestas matérias, Thérèse ia lendo na biblioteca do Conde, seu interlocutor, alguns clássicos da pornografia. No final, tirava as conclusões consequentes: a volúpia e a filosofia faziam a felicidade do homem sensível, que chegava à volúpia graças ao tacto e que amava a filosofia graças à razão.

Ao mesmo tempo que se desdobrava em experiências com vários parceiros -- padres, aristocratas, filósofos --, Thérèse ia referindo outros prazeres, para leitores que supunha da sua condição: vinhos de qualidade, como champanhe e bourgogne, e pratos raros e caros, como ostras. O gourmet, o filósofo, o libertino, juntavam-se na boa vida. O público alvo era, claramente, a sociedade dos salões. 

Já Diderot, Voltaire e Montesquieu, em La Religieuse, Candide ou Lettres Persanes, conhecendo a ligeireza intelectual do beau monde, seguiam a mesta receita, servindo a filosofia em pequenas doses, facilmente digeríveis pelas elites do tempo, como os petits pâtés anticlericais de Voltaire. Uma das personagens de Thérèse philosophe, o abade, prevenia que semelhantes teses e temas só deviam ser apresentados e discutidos a "determinadas mesas e com discrição" e, ainda assim, "mandando sair os criados".

Só os escolhidos deveriam ter acesso a estas verdades, pois, se conhecidas e partilhadas por todos, poderiam subverter a ordem social. Assim, a filosofia ilustrada era só para as elites, permanecendo o povo na ignorância e nas trevas da religião e da tradição, sendo preferível e desejável que assim acontecesse.



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Na sequência de Filosofia e Pornografia e de Um best-seller em 1748, este também é um excerto de Bárbaros e Iluminados, Populismo e Utopia no século XXI de Jaime Nogueira Pinto.

Kate Moss aqui é fotografada por Tim Walker

 Divna Ljubojevic interpreta Песма над песмама

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Um best-seller em 1748
-- Teses filosóficas intercaladas com descrições eróticas --




Um texto exemplar deste novo género, e um dos best-sellers da época, foi Thérèse philosophe, um romance libertino típico, em que os diálogos filosóficos acompanhavam os mais variados, sofisticados e rebuscados desvarios sexuais entre os dialogantes.

O título completo do romance é Thérèse philosophe ou Mémoires pour servir à l´histoire du P. Dirrag et de Mlle Éradice. O livro foi publicado em 1748, em pleno século das Luzes. A sua autoria deixa algumas dúvidas, embora seja geralmente atribuído a Jean-Baptiste de Boyer, marquês d'Argens, aristocrata e militar, protegido de Frederico II da Prússia. 

D'Argens era um escritor muito prolífero que se fixara na Holanda para poder livremente atacar a religião católica. Nos 40 anos que precederam a Revolução, o romance conheceu dez edições. Ao modo do tempo, apresentava teses filosóficas intercaladas com descrições eróticas, que a narradora, a tal 'Teresa filósofa', ia contando em jeito de memórias. O livro não tinha alusões políticas críticas -- apenas a religião católica e o clero eram objecto de ataque nas descrições de constantes orgias em bordéis e conventos. Thérèse philosophe inaugurou um género que, até à Revolução, iria contribuir decisivamente para pôr em causa, na sociedade francesa, sobretudo nos círculos do poder, nas classes altas e na burguesia de província, os valores e princípios cristãos.


O próprio Marquês de Sade havia de reconhecer os méritos do livro, que atribuía a d'Argens. (...)

Esta e outras obras chegavam ao público que as queria e as lia através de uma rede de cumplicidade de autores, editores, impressores, livreiros, funcionários e políticos.


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No seguimento do post abaixo, Filosofia e Pornografia, mais um excerto do livro Bárbaros e Iluminados, populismo e utopia no século XXI de Jaime Nogueira Pinto

Ilustrações de época de Thérèse philosophe

Hristos Anesti por Divna Ljubojevic

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segunda-feira, abril 18, 2016

A propósito de 'As mulheres de Atenas',
a palavra a dois Leitores, os Caros P. Rufino e José Neves


No outro dia transcrevi um excerto do livro 'Os Gregos' que suscitou comentários interessantes. Por recear que passem despercebidos, resolvi puxá-los para aqui pois considero que enriquecem o conhecimento da matéria versada.

O Leitor José Neves polemiza a propósito do que eu disse pelo que teve resposta, como poderão ver, na respectiva caixa de comentários. Por isso, não vou aqui repetir-me. Contudo, não me referi a um dos aspectos pois, na altura, passou-me. Refiro-me agora.

Considera ele que o termo 'amante' -- que, pelos vistos associa a 'vulgar amante' -- é depreciativo e sinónimo de 'mulher por conta' e que, portanto, eu não o deveria ter usado ao referir-me a Aspásia. 
Mas essa conotação é sua, Caro José Neves, e não minha. Amante, para mim, é alguém a quem se ama e com quem se tem um relacionamento amoroso sem vínculo contratual, digamos assim. Uma amante, para mim, não é forçosamente uma mulher por conta, uma mulher vulgar, ou, sequer, uma mulher a quem não se reconhecem atributos intelectuais ou culturais de monta. 
Finalmente duas observações: a abertura de parágrafos no texto é de minha responsabilidade e pretende manter alguma homogeneidade com critérios usados em textos meus ao longo do blogue. As fotografias que intercalei, intercalei porque sim e porque é também hábito meu. Foram feitas esta manhã.

E, feito o preâmbulo, que fale quem sabe.


Divna Ljubojevic - Agni partene Αγνή Παρθένε

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A palavra ao Leitor P. Rufino


Já Heródoto quando relatava os comportamentos dos Egípcios, dizia que as mulheres egípcias gozavam de um maior controlo das suas vidas do que as suas congéneres gregas, podendo, por exemplo, ser elas a iniciar um divórcio. E podiam ser comerciantes, por oposição às mulheres gregas, que não possuíam essa liberdade, total, de negociar. Embora, a exemplo das outras sociedades dessa época, a função principal das mulheres egípcias, tal como as gregas, assentasse na sua capacidade procriadora. 

O grande orador e estadista grego, Demóstenes, da Antiga Atenas, costumava dizer: “nós temos as Hetairai para o nosso prazer, as concubinas para os nossos desejos mais comuns e as esposas para a procriação e guardiãs domésticas”. 

Na desaparecida Etrúria Antiga, as mulheres tinham mais direitos, por exemplo, participavam nos banquetes com os homens, uma prática que era criticada por Teopompo que estava habituado às prostitutas de diverso tipo (Hetairai, etc) nos tais banquetes. As mulheres Etruscas tinham inclusivamente direitos civis e financeiros e os Etruscos consideravam o casamento importante, mais do que um mero arranjo com vista à reprodução. 

Na Grécia Antiga, algumas Hetairai obtiveram vulto e sucesso, como Teódote a companheira do estadista Alcibíades, Aspásia a amante de Péricles (de quem se contava que o filósofo Sócrates ia a sua casa e terá tido uma relação), Prynea modelo e amante do grande escultor Praxiteles (e do orador Hiperides). Mas, houve outras, que ficaram igualmente famosas (pela beleza e intelecto), sobretudo na qualidade de Hetaeras, como as duas Lais (de quem uma delas o grande pintor Apeles se deixou encantar pela sua extraordinária beleza), a Thais, Sinope, etc. Naera era tão bonita e célebre que os seus patronos lhe compraram a liberdade, ao ponto de ela dizer de si própria “ser a amante de si própria”. Xenofontes, no seu livro “Memórias de Sócrates” dá conta dos amores de Sócrates por outra conhecida Hetairai, a bela Theodote, um misto de mulher independente, vivendo numa casa “de gosto deslumbrante”, segundo crónicas do tempo. 

E grande estadista e legislador Solon (misógeno e homossexual) determinou, entre muitos outros aspectos, que o homem guardião podia vender uma mulher solteira que tivesse perdido a sua virgindade. Em sua opinião, “as mulheres eram uma fonte perene de fricção e conflito entre os homens”. 

As mulheres da Antiga Roma tinham, mesmo assim, mais direitos do que as suas congéneres Gregas. 

Quanto a Artemis (a Diana na mitologia Romana) é fascinante ler o que Sarah Pomeroy escreve num dos seus livros (a “Amazonas” costumavam adorá-la e procuravam assemelhar-se a ela, segundo a mitologia Grega). Fascina-me particularmente Artemisia (Grega de Helicarnassus), a Rainha Ionian, brilhante estratega militar, ao serviço de Xerxes, durante as campanhas das Guerras Persas. 

A terminar, não se deve comparar os costumes daquelas épocas e daquelas civilizações com as de hoje. Embora, se possa comparar com as diferenças dessas civilizações de então. Como as mulheres da Etrúria, os direitos que gozavam, com as suas congéneres Gregas. E as de Roma e da Antiga Grécia.

Há hoje, sobretudo na historiografia inglesa, muita informação sobre a Antiga Grécia e, no caso em questão, sobre as mulheres desse tempo e das diversas categorias de “prostitutas”, que de facto possuíam características diferentes e destinavam-se a fins igualmente diferenciados, como as “dicteriades”, as “auletrides” e as “hetairae”, sendo as primeiras as de mais baixa categoria, trabalhando em bordéis, as seguintes, “auletrides” (que significava “tocadoras de flauta”), possuíam mais instrução e capacidades, tais como cantoras, músicas, dançarinas, etc. 

Por fim, as “hetairae” eram as de mais elevado estatuto, devido às suas qualidades e conhecimentos intelectuais, de beleza, educação, etc. Muitas, como já se disse, ficaram na História dessa grande civilização, que foi a Grécia Antiga, “o berço da nossa civilização actual”. 

Terá sido Solon, o grande reformador dessa época, que terá criado os primeiros “bordéis” (“porneia”), com vista a que aos cidadãos nunca faltasse “conforto sexual”. 

Curiosamente, a iniciação sexual dos mancebos muita das vezes fazia-se através de contacto com homens mais velhos, os “erastes”, com quem o tal adolescente, “eromenos”, acabava por ter uma relação sexual. O sexo entre homem e rapaz era comum nessa época e fazia parte da cultura e hábitos de então. 

Para as mulheres casadas, nessa altura, sexo três vezes por mês era considerado suficiente para qualquer cidadã casada. E o guardião de uma mulher solteira, se aquela fosse apanhada em “flagrante delito” tinha o direito a vendê-la como escrava. 

Sobre este tema haverá muita coisa para dizer e contar, mas também pode ser maçador. Agora, há autores e, sobretudo, autoras – historiadores/as -, cujos relatos e descrições desses tempos, bem como das situações e respectivos hábitos culturais, que sabem ser cativantes para quem é leigo na matéria e cuja leitura acaba por se desfrutar, com prazer (salve a redundância). 

É preciso avançar vários séculos, até chegar à Renascença, para se encontrar um tipo de “prostitutas” semelhantes às tais “hetairae”, como algumas famosas cortesãs italianas (“somptuosa meretrize”), cuja designação acabou por vir a ser a de “cortegiana honesta”, em vez de meretriz. Eram mulheres que para além de serem muito belas, possuíam um elevado grau cultural e até social. Algumas pintaram, outras eram poetisas, etc. 

Verónica Franco (pintada por Tintoretto) foi poetisa e escritora, Beatrice de Ferrara, cuja casa ficou célebre pelo esplendor e que foi modelo de Rafael, foram alguns desses exemplos. Voltando à Grécia, há uma pintura mural em Pompeia (que recomendo vivamente que se visite – fiquei fascinado) que retrata Safo, a tal poetisa Grega. 

E na Roma Antiga, Aesia Pola foi uma das raras mulheres a exercer medicina, actividade que posteriormente veio a ser proibida às mulheres Romanas. E já que se fala de prostitutas, deixo-lhe uma curiosidade: Roma é talvez a única cidade do Mundo a ter uma praça, ou melhor, pela dimensão, praceta, dedicada a uma “cortesã” (“cortesã honesta”), que significava, mais ou menos, “mantida por alta roda”, na pessoa de Fiammetta Michaelis, que foi amante entre outros de Cesário Borgia, filho do Papa Alexandre VI. Fiammetta tinha residência perto da dita praceta que hoje tem o seu nome e “costumava deslocar-se à igreja de Sant’Agostino para se confessar, rezar e fazer inúmeras doações generosas para as almas do Purgatório. Acabou sepultada naquela igreja, embora os vestígios da sua sepultura tenham desaparecido.

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A palavra ao Leitor José Neves


(...) Já tinha confessado antes que lera quase tudo mas não os gregos e isso nota-se perfeitamente no modo ligeiro como tratou o problema das "mulheres de Atenas". Essa ligeireza é patente ao propor uma confrontação sem mais de costumes e práticas sociais entre uma sociedade de há 2500 anos com a sociedade actual. E abusa dessa situação ao legendar um quadro de Aspásia como a "amante" de Péricles, um termo cujo significado e sentido moral de hoje ou não existia para os gregos e por isso mesmo as titulavam de "heteras" que não eram "mulheres por conta" como uma vulgar amante mas, como diz um helenista francês , "As raparigas particularmente dotadas para o canto e para a dança eram com frequência treinadas como heteras".

Aspásia é a mais célebre porque cativou Péricles (este deu o divórcio à mulher e assumiu viver com Aspásia) e exerceu uma grande influência sobre os costumes atenienses mas, também Praxíteles teve a sua Frine, Platão a sua Arqueanassa, Epicuro as suas Dánae e Leôncia, Sófocles a sua Teóris e Míron a sua Làide. E porquê, porque as heteras eram as únicas mulheres cultas de Atenas.

Embora sendo Atenas uma democracia esclavagista e consequentemente o estatuto das mulheres estar inteiramente subordinado aos homens e ao serviço do tear e trabalhos domésticos, nem por isso deixou de haver mulheres livres como Safo de Lesbos e aquelas que nas tragédias gregas aparecem como sendo activas e inteligentes como Medeia, Antígona e outras.

Mas sobretudo, nesta sociedade de homens e esclavagista onde a filha era do pai e a mulher do marido sem quereres ou vontades, os racionalistas gregos punham-se a discutir e filosofar, como Platão pela boca de Sócrates, acerca de uma sociedade perfeita onde existiria uma "Comunidade de Mulheres" cuja defesa vai sendo fundamentada por Sócrates, lógica e racionalmente passo a passo, até chegar à conclusão: "Por conseguinte, meu amigo, não há nenhum emprego respeitante à administração da Cidade que pertença à mulher enquanto mulher ou ao homem enquanto homem; pelo contrário, as aptidões naturais estão igualmente distribuídas pelos dois sexos e é próprio da natureza que a mulher, assim como o homem, participe em todos os empregos, ainda que em todos seja mais fraca do que o homem".

A sociedade da democracia grega só foi possível pela liberdade de pensar e racionalizar todas as questões da existência e também do papel dos escravos, dos sábios, da justiça, da moral, dos deuses e religião e também das mulheres dentro do seu tempo e conhecimentos. 

Não é possível comparar seriamente aquela sociedade com a de hoje e muito menos opondo uma à outra através dos costumes ou moral. 

E mesmo que a comparemos, salvo determinados aspectos mais primitivos que entretanto foram sendo ganhos da humanidade, ficam sérias dúvidas acerca da grandeza de uma e outra.

Só mais umas notas:

A hetera Aspásia tentou criar cursos de letras e filosofia para raparigas que foi um escândalo e, claro, um insucesso.


Se a mulher levava um dote para o casamento em caso de divórcio esse dote era, por lei, restituído à família da mulher o que lhe permitia uma inestimável protecção e alguma independência.

Também há inscrições tumulares que indicam mulheres a trabalhar fora de casa como Fanóstrate, parteira e médica; Melita, filha do imigrante Apolodoros registada como ama; Mânia, merceeira cuja loja fica perto da nascente. 

Também a religião era uma das actividades em que as mulheres tinham mais liberdade para se envolverem diretamente na vida da comunidade como sacerdotisas, pitonisas, menades.


Uma questão é importante assinalar; os gregos, como diz Kitto, actuavam dentro de um quadro pensado e instituído tão racional e lógico sobre todos os assuntos, quer familiares quer os da polis que não consta qualquer relato de um grego fanático quer político quer religioso nem dado a excessos como os do nosso tempo acerca do desporto ou comercialismo. E, embora pudessem "expôr" à porta os filhos recém-nascidos indesejados, também não consta que batessem nas mulheres, as maltratassem ou matassem como hoje acontece frequentemente por questões de sexo ou ainda mais frívolas.



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Pelo seu generoso contributo, aqui, muito sinceramente, agradeço aos Leitores P. Rufino e José Neves.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.
Saúde, sorte, alegria - é o que vos desejo a todos.

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