Os meus passos levam-me para a beira da água. O Ginjal é para mim, de facto, um love affair (ou melhor, um caso de ménage a trois: eu, o Ginjal e Lisboa).
Mais tarde recolher-me-ei ao ninho, procurarei o cheiro da terra. Sou mulher-bicho e invento-me entre as águas e a terra. E, soubesse eu voar, e habitaria também os largos espaços, o ar.
Mas antes de me acolher à terra, primeiro busco o azul, o ar limpo e fresco que sobe do rio, o cheiro lavado da maresia. O meu olhar tem que se purificar neste rio por onde deslizam em silêncio os veleiros e em cuja margem uma roseira provocante oferece rosas rubras aos espíritos alados e aos inocentes boémios que por aqui passam.
Lisboa é, vista daqui, um desenho suave, casinhas, pequenas árvores, uma aguarela feita com desvelo. E a ponte é uma moldura rendilhada, refinada.
E eu sou uma menina deslumbrada que ainda não conseguiu perceber como é possível uma tal beleza.
Havia no meu tempo um rio chamado Tejo
que se estendia ao Sol na linha do horizonte.
Ia de ponta a ponta, e aos seus olhos parecia
exactamente um espelho
porque, do que sabia,
só um espelho com isso se parecia
Nas pedras do passeio sobre o mar, uma frase interpela-me: 'Hoje foste um bom robot???'. Sorrio, fotografo. Penso que não sou um robot, que ainda tenho a capacidade de olhar e ver, de achar graça às provocações, de apreciar o desenho das letras, de sentir, de sonhar. Mas penso que as cidades estão cheias de robots, de gente com o coração fechado e sem brilho nos olhos, gente que deseja ser, acima de tudo, um bom robot.
Sorrio, penso que talvez tenha sido um anjo brincalhão, de asas cor de fogo e olhos de água, que aqui tenha deixado esta inteligente interpelação.
Os velhos cais e os frágeis passadiços entram pelo rio, indiferentes às marés, já habituados a fazerem parte desta paisagem que me deixa sempre deslumbrada como se nunca antes tivesse testemunhado tanta perfeição, tanta suavidade nas linhas da cidade, no colorido ameno, na luz que sobe do rio para envolver o casario. Os pescadores curvam-se para preparar as canas mas, vistos de longe, é como se venerassem as águas ou prestassem homenagem a Lisboa, a bela.
Um homem da tripulação de um dos cacilheiros sobe para a casa do leme, a bandeira hasteada esvoaça, a cidade espraiada em fundo, a linha azul do rio -- e tudo me parece uma coreografia elegante, uma encenação espontânea. Penso: deveria passar agora aqui uma gaivota. Mas não passa nenhuma, nem sequer nenhuma mulher a voar.
Mas logo, um pouco mais à frente, uma mulher pousou num banco, na margem do rio. Talvez tenha vindo a voar ou talvez tenha saído das águas azuis que correm a seus pés. Olha a bela cidade em frente. Está silenciosa. Talvez espere o seu amor que talvez venha no barco que se aproxima. Talvez feche os olhos e pense beijo vejo, vejo beijo. Talvez.
Há uma dança contra a corrente
beijo vejo, vejo beijo
elas, belas
só comi uma vez
oh, como não?
Formosas barbatanas
dengosas
já pedi perdão
que agora só beijo, vejo beijo, oh tão grande é o desejo
(...)
------
A itálico:
lá em cima um excerto do 'Poema da Memória' de António Gedeão, in 'Poemas Póstumos' enviado pela Leitora Rosa Pinto a quem agradeço e que pode ser visto na íntegra em comentário aqui abaixo;
no fim, um excerto do poema 'À primeira vista' de Sónia Baptista in Tempus Fugit da Editora Mariposa Azual, um livro que tem desenhos de Bárbara Assis Pacheco
Maria Ana Bobone interpreta Nome de Mar
-----