Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, novembro 30, 2017

Aristóteles talvez explique o que se passou com Joshua Bell





Não é novidade, tenho-vos contado. Não gosto de decorar. Decorar = Fixar = Marrar. Não gosto. Nunca gostei. Enquanto estudei era o meu calcanhar de aquiles. Tudo o que fosse de decorar era um castigo. Não dava. Não que não tenha boa memória. Acho que, de certa forma, até a tenho. Mas selectiva que só ela. É o que ela quer. Nunca tive motivação para a forçar. Era assim. Continuo igual. Gosto de descobrir. Não gosto de mal-habituar o cérebro. Tudo há-de ser degustado como numa primeira vez.

E já nem sei se é causa ou consequência: se não me lembro porque a memória é de má qualidade ou se é por ser de qualidade de me deslumbrar de forma quase infantil que a memória já se acomodou a ficar a leste. Nunca consigo lembrar-me de citações, de títulos de livros ou canções, nunca nada em que possa mostrar que sei alguma coisa. Mas, se calhar, porque nunca me esforcei. 


A verdade é que espreito paredes e gestos, paisagens e pássaros, rostos e poemas como se nunca antes tivesse visto coisa que se parecesse. O meu marido agasta-se, não quer que eu esteja sempre a parar ou a abrandar para ver ou fotografar porque acha que já o fiz mil vezes antes. Mas eu acho que é sempre novo. Porque a luz é diferente, porque a envolvente é outra. Por mil motivos. Ele acha que é por mil maluquices. Não discuto. Não sei explicar. Só sei que é assim.

Sei de pessoas que perderam a capacidade de se deslumbrar porque se lembram de tudo o que conheceram antes e já nada lhes parece novo ou à altura do que aconteceu nos primórdios, nomeadamente na Grécia Antiga. Eu sou o oposto: laboriosamente cultivo a ignorância. Nem shazam nem bases de dados de coisa alguma, nem nada. Ler e ouvir às cegas, como se tivesse nascido naquele instante e nada mais esperasse do que conhecer o mundo.


Mas, claro, isto sou eu a dizer. O cérebro, apesar do meu esforço, regista e classifica algumas coisas e, portanto, volta e meia dou por mim desatenta em relação ao que a minha cabeça, por si, decreta ser déjà vu.

Portanto, não tenha dúvidas de que ignoro mais de metade do que me é dado conhecer: por cegueira, desatenção ou preguiça.

Arte, música, palavras. Quantas vezes passei por situações que, se atenta, me vergaria de admiração e que, por desatenção, as ignorei? Mil vezes. Mil vezes por dia.


Mas, pensando bem, a responsabilidade não é só minha. Sempre me questionei sobre isto, sobre a nossa incapacidade para abarcarmos toda a realidade ao nosso alcance e para a processarmos de forma abrangente. E agora fiquei a saber que, para que o click se dê e para que a coisa nos agarre tem que haver um misto de logos, ethos e pathos.


Fosse eu uma rapariga esperta e desenvolveria o tema. Mas não sou. Portanto, limitada que sou, cedo o passo a quem melhor o possa explicar.

O que Aristóteles e Joshua Belle nos podem ensinar sobre a persuasão



E, agora, abaixo, Joshua Bell, o conhecido violinista,  explicando o que se passou. A coisa não é de agora mas é interessante e intemporal: depois de encher salas de espectáculos com devotos que iam para o ouvir tocar (a ele e ao seu fantástico Stradivarius avaliado em milhões), em que ninguém discutia os 100 dólares por bilhete, aceitou fazer a experiência de ir tocar para o metro em Washington, D.C. Tocou durante 45 minutos as mesmas músicas que tinha tocado uns dias antes, incluindo Bach. Contudo, ninguém parou e apenas algumas pessoas lá deixaram umas moedas. Desprezo absoluto.


Tempos depois repetiu a experiência mas, desta vez, tendo anunciado que ali ia tocar. A estação encheu. Foi o delírio.

Joshua Bell na Estação de Metro de Union Station em Washington, DC



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O mesmo aconteceu com obras de Banksy vendidas no Central Park há um bom par de anos. Vendidas a preço de uva mijona. Obras que normalmente são vendidas por cerca de 20.000 estiveram à venda por $60. Pois bem. Ninguém quis saber. Pouco se vendeu. Provavelmente, outra vez, a aquela 'cena' do Aristóteles.
[Sempre os gregos, caraças...]


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Imoral da deshistória: por involuntários preconceitos, limitações intelectuais, deformações a nível de percepção ou por falta da conjugação certa das circunstâncias, mais de metade do que seriam opções válidas de interesse são, por nós, descartadas sem que, sequer, disso nos apercebamos.

E mais não digo.

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Fotografias feitas in heaven
Lá em cima é Je crois entendre encore de Bizet interpretado por Joshua Bell. 

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Quente e Frio.
Kate Moss 4 YSL


Leio que Kate Moss foi a escolha óbvia por encarnar a mulher Yves Saint Laurent 2018: sulfurosa, sexy e plena de auto-confiança.


Como não percebi o que o que queriam dizer com isso de ser sulfurosa, fui tentar descobrir. Penso que tem a ver com a sua natureza herege, muito pouco santa. Seja.

Mas vejo o vídeo e lá está: é Kate Moss da cabeça aos pés. Sempre aquele toque de irreverência ou descaramento que tempera bem a inegável capacidade de sedução. 

Casaco de pele (porventura uma falsa pele) a cobrir o corpo nu, a ausência de sorrisos para agradar, o abandono ao prazer do sol sobre a pele. Black and White, Quente e Frio.


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quarta-feira, novembro 29, 2017

Da prostituição





Por mais do que uma vez disse que, se tivesse que tomar partido entre as Mães de Bragança e as prostitutas brasileiras, provavelmente me colocaria do lado das prostitutas. A forma como aquelas 'mães' falavam incomodava-me profundamente. Lembro-me de as ver, inflamadas, feitas vítimas, clamando vingança. Parecia que se achavam donas dos maridos e falavam como se eles fossem uns atrasados mentais à mercê de umas perdidas. Pelo contrário, as brasileiras pareciam-me inteligentes e dignas. 


Nunca consegui sentir repulsa pelas prostitutas ou, sequer, pela sua profissão. Ao invés, o que lamento é não ter oportunidade de conversar com mulheres que exerçam a prostituição. Quando passo nalguma rua de alguma cidade em que haja mulheres à porta a oferecer os seus serviços (estou a lembrar-me de algumas zonas de Paris ou mesmo duma certa rua do Porto) tenho que controlar a minha curiosidade pois gostava de poder aproximar-me, conhecer a sua história de vida. Deve ser um prazer ouvi-las, devem ter uma experiência de vida riquíssima.


Claro que há muita miséria e, por vezes, muita decadência sobre aqueles corpos e imagino as humilhações que, tantas vezes, devem sofrer. 

Se passo numa estrada nacional, e ainda no outro dia passei, ou em Monsanto, em que há mulheres na berma e camionistas por perto, o que penso é nos riscos que elas correm, no desconforto, nas situações difíceis pelas quais, certamente, passam. Impressiona-me, acima de tudo, a sua coragem.


E, quando penso nas dificuldades terríveis de tão controversa profissão, e pondo agora de lado as humilhações ou os riscos que acima referi, mais do que no comércio do sexo o que a mim me gera uma impressão profunda é a proximidade física que têm que suportar em relação a alguém que, por algum motivo, possa causar-lhes asco ou medo.
Muitas vezes, quando aqui escrevo e mostro que não sinto reservas morais em relação a algum tema, recebo depois críticas por ter sido interpretada como defensora da causa. Por isso, permitam que esclareça o que a mim me parece óbvio mas que pode não o ser para quem me lê: não advogo como recomendável o exercício da prostituição. Mas o facto de não aplaudir ou não incentivar não é sinónimo de me achar moralmente superior a quem o exerça. 

Cada um sabe de si, cada um tem as suas motivações ou necessidades, cada um sabe das suas circunstâncias, cada um lida melhor ou pior com o que tem que fazer para ganhar a vida. As vezes em que eu aturo o que abomino ou me forço a suportar até à náusea situações que afrontam as minhas convicções não têm conta. Penso, nessas alturas, que o que me apeteceria fazer seria virar a mesa, bater com a porta, mandar essa gente dar uma grande curva e, no acto, demitir-me. Mas depois penso que consigo aguentar mais um pouco e que é a minha profissão. Desempregar-me não me parece melhor opção. É aquilo pelo que passo, nessas alturas, mais agradável do que abrir as pernas a um estranho...? Não sei. Nunca experimentei esta opção. Mas de uma coisa estou certa: piores afrontas e mais duras violentações de consciência passam outras pessoas. Entre o asco sentido por uma advogada ao defender um corrupto em tribunal ou o asco sentido por uma mulher que, igualmente por dinheiro, receba um estranho num quarto de pensão, qual é o socialmente mais defensável? Não sei. 

Mais: admito até como provável que algumas mulheres por vontade de aventura, por desfastio ou por qualquer outro motivo que não o económico, resolvam exercer a prostituição, talvez uma prostituição selectiva e que não lhes custe nada. E, também nesses casos, não me sinto tentada a exprimir condenação moral. 


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Tenho andado para escrever isto desde que li um texto magnífico. Foi a Ana que o escreveu e foi das coisas mais verdadeiras e inteligentes que, nos últimos tempos, li na blogosfera. Chama-se Vender sexo e para ele peço a vossa atenção:

nunca considerei que fosse mais grave vender sexo do que vender ideias, do que abrir mão daquilo que se acredita ser certo, por dinheiro, por segurança. nunca considerei a prostituição uma profissão inferior a outra qualquer. qual professor que se sujeita a tutelas das quais discorda, CEOs que negligenciam os valores que apregoam no seio da família, padres que pregam o que não cumprem, médicos que não defendem, com unhas e dentes a vida. vender sexo parece-me muito menos indigno do que qualquer outro contrato que nos faça abrir mão daquilo que somos, daquilo que acreditamos, da nossa verdade.nunca considerei que pudesse interessar a alguém o que considero, mas sabe-me bem escrever isto, porque o penso, e porque faz-me lembrar daquela prostituta que vendia sexo na avenida da boavista para pagar os estudos dos filhos, e também me faz lembrar da colega de trabalho dela, que ajudava os idosos que moravam na rua onde ela alugava o sexo. também me faz lembrar do advogado que forjava provas para vencer os processos, e do homem que caluniava a mulher para que os filhos desrespeitassem a mãe, e do cirurgião que assustava os doentes para vender cirurgias.
e esta manhã, ao acordar, depois de ter escrito isso aí acima antes de me deitar, lembrei-me que também eu troquei sexo para evitar dias de mau humor do homem com quem estava casada, durante anos, por um humor que nunca entendi, que desprezava. nem dinheiro recebi por isso. se tivesse recebido, certamente hoje teria uma vida muito menos trabalhosa, feitas bem as contas até podia estar rica
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E, já agora, que entre e nos faça companhia Séverine, a Belle de Jour


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As fotografias são da autoria de Ellen von Unwerth e, digo eu, nada têm a ver com o tema aqui abordado

Lá em cima Khatia Buniatishvili interpreta Handel

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Trump, a Pocahontas, a tonta Sarah Sanders e um white and very melania Christmas


Custa a crer que tudo isto que aqui vos mostro seja verdade mas manda a prudência que ninguém cuspa para o ar pois, face ao que temos visto por todo o lado, quem nos garante que não nos cairá em cima? Quem nos garante que, para sempre, estaremos livres de tal praga?

Trump e a sua tenebrosa corte de gente estranha, onde se inclui a actual porta-voz, parecem saídos de uma soap opera de 5ª categoria. Até a bela Melania parece uma burra contratada por ser bonita e de quemapenas  se espera que nunca abra a boca ou dê palmadas na mãozinha atrofiada do marido. Enfim. Tudo o que se diga sobre a cavalhada que por ali parece estar sempre armada é pouco

Eu, pela parte que me toca, apenas sorrio -- e é muito ao de leve -- para não atrair. Foge...




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Melania Trump mostra as decorações de natal na Casa Branca



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terça-feira, novembro 28, 2017

Eu perguntaria:
somos um corpo com um software exclusivo que é desactivado logo que o corpo se desliga ou somos uma alma transitoriamente alojada num corpo?
(Não sei é se atendem chamadas de outro país)



Há coisas extraordinárias. Esta que se pode ver no vídeo lá mais abaixo, a da Biblioteca Pública de Nova Iorque ter um serviço personalizado em que qualquer pessoa pode telefonar para colocar uma pergunta e haver sempre alguém a responder, é, nos tempos que correm, do além.

Explica uma das funcionárias que talvez sejam pessoas que não têm acesso às tecnologias ou, então, pessoas que gostam de ter alguém que fale com elas.

Acho isto tão bonito, tão bom, tão genuinamente humano que nem sei bem como exprimir-me. A partilha do conhecimento através de um interface humano parece coisa quase ficcional. E, no entanto, até há não muito tempo era assim que as coisas funcionavam: através do contacto humano.


Sou do tempo em que a internet começou a aparecer nas empresas. Ao princípio nem se percebia bem o alcance da coisa. Havia um motor de busca de que eu gostava muito. Chamava-se, se não estou em erro, Altavista. Parecia-me uma fantástica janela aberta para o mundo. E sou do tempo ainda mais antigo em que, para saber coisas fora do meu alcance, subscrevia revistas estrangeiras ou era-me dado conhecimento do índice dos livros novos que chegavam à biblioteca, livros, bem entendido, dentro do meu intervalo de interesses. Já, por essas alturas, eu andava em busca da inteligência artificial, de modelos complexos, de coisas assim. 

Outras vezes, ligava para a bibliotecária, senhora muito low profile, quase parecendo esvaída tanta a sua vasta erudição, e colocava-lhe questões complicadas. Dizia-lhe o que gostava de saber sobre um assunto e pedia que ela espreitasse livros que tratassem disto ou daquilo. Depois ela ligava-me, contava-me sobre as suas pesquisas e enviava-me, por envelope interno que um contínuo distribuía pelos gabinetes, fotocópias de algumas páginas. Com as suas pesquisas, tantas vezes 'ao lado', aprendi também muita coisa pois, mesmo que as fotocópias não contivessem bem aquilo que eu procurava, não raramente introduziam-me noutros mundos.

E eu gostava de falar ao telefone com ela. Na altura, eu tinha um telefone dos modernos. Era cinzento e tinha teclas. Muitas outras pessoas tinham telefones pretos com um marcador de andar à volta, com o dedo preso no buraquinho correspondente ao número.


Enfim. Se eu contar isto aos meus pimentinhas acharão que é mais uma das minhas histórias, daquelas que gostam de me ouvir contar e que invento à medida que vou contando. Mas aconteceu. Numa outra era.

Agora, enquanto escrevo -- e a propósito daquilo de as pessoas ligarem talvez porque gostam de ter alguém com quem falar -- estou a lembrar-me da minha tia, a tia que, por tanto gostar dela, convidei para madrinha de casamento e a quem ela, eu ainda uma miúda, tinha convidado para madrinha da sua filha. Telefonava-lhe todas as sextas-feiras. O meu primo trabalha, claro, e tem uma profissão sem horários. A minha prima vive numa oura cidade. O meu tio tinha-nos abandonado havia pouco,  uma morte súbita que o poupou a maior sofrimento, deixando-nos todos muito tristes e a ela ainda mais. Ela não queria ir para lado nenhum, queria estar em sua casa. Cada vez mais doente, cada vez mais fraca. E todas as sextas feiras, ela cada vez mais débil, me falava da sua falta de forças, me falava da nora que era tão impaciente com o meu primo e de como lhe custava ver aquela rapariga gritar com o 'parvo do teu primo, que aceita que ela fale com ele daquela maneira', me falava dos netos, tão espertos, e da neta bebé da minha prima, filha de uma segunda relação, e quem ela tinha pena de não poder ir ajudar, 'faço ideia aquela casa, os filhos do rapaz, as filhas dela, tanta gente, e mais os cães, e uma casa tão grande e ela que nunca gostou nada das coisas da casa, faço ideia, faço ideia'. E, sem forças, toda se emocionava por não poder meter-se na camioneta e ir ajudar a filha. Eu conversava com ela de coração partido. Sentia que as forças estavam a abandoná-la. Comecei a convencê-la a ir para um lugar onde tivesse assistência. A minha mãe, com alguma ginástica e aflita por deixar o meu pai durante tanto tempo, conseguiu ir vê-la nesses últimos dias. Veio de lá, cheia de lágrimas, 'Coitadinha... Já não dura muito... Coitadinha... Para andar, já só dobrada e encostada aos móveis... Já não dura muito'. E não. Morreu pouco depois.


E eu, durante muito tempo, chegava a sexta-feira à tarde e sentia a falta de falar com ela. Sempre que eu me despedia, ela dizia: 'adeus, minha querida, obrigada por ligares sempre'. E tratava-me pelo meu diminutivo. Ela dizia que ficava à espera que eu ligasse e eu ficava à espera de serem horas de lhe ligar. Já foi há algum tempo mas continuo a lembrar-me disso. Sinto a sua falta. Era tão alegre, tão moderna, tão para a frente, as tuas palavras tão humanas. Tão consciente da sua finitude. Tão corajosa..

E isto que estou a dizer não tem a ver com o google humano ou com a função social dos bibliotecários. Foi assunto que chegou enquanto eu escrevia. Tem a ver apenas com as saudades que sinto de uma pessoa de bem, que sempre conheci sorridente, boa companhia, muito amiga. Gostava de me sentar ao fim da tarde das sextas-feiras, marcar o seu número e ficar ali a ficar com ela. Ainda não apaguei dos meus contactos no telemóvel o número de telefone lá de casa. Há pessoas de quem me custa pensar que desapareceram para sempre. Preferia acreditar que a alma delas vive agora num outro corpo qualquer. Poderia até ser no corpo de um animal. Ou numa árvore.

Talvez um dia ligue para a Biblioteca e pergunte: 'Por onde anda agora a alma da minha tia?' ou, então, 'As palavras que troquei com a minha tia naquelas tardes de sexta-feira desapareceram no imenso cemitério das palavras mortas, ou andam ainda por aí, acompanhando-me ao longo desta minha caminhada?'

Se um dia o fizer, o que será que a Rosa Caballero me dirá...?


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O Google Humano da Biblioteca de Nova Iorque



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Já agora, se me permitem, algumas outras bibliotecas maravilhosas

(entre as quais a que acima se mostra)


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E mais livros, desta vez livros proibidos, uma instalação também extraordinária. Na Alemanha.


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Junto ao texto, as imagens mostram esculturas digitais de Chad Knight

Música de Philip Glass para harmónica de vidro

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segunda-feira, novembro 27, 2017

"Nenhuma poesia é possível depois de Auschwitz"...?
Está bem, está.





Poderá alguma coisa tornar-nos incapazes de certas impercepções, de certas cegueiras ou tipos de surdez? Alguma coisa poderá tornar a imaginação responsável e imputável perante os princípios da realidade da existência humana em nosso redor? Essa é a questão.
(...) Uma das respostas possíveis é dizer que toda a nossa cultura se mostrou totalmente impotente e sem defesa, aliás, embelezou uma grande parte do assunto.
Gieseking tocava a integral da música para piano de Debussy durante as noites em que se ouviam os gritos das pessoas nos vagões de comboio selados na estação de Munique com destino a Dachau, nos arredores. Os gritos chegavam à sala de concertos. Isto foi registado. Nenhum testemunho sugere que ele não tenha tocado maravilhosamente bem, tão-pouco que o público não se tenha mostrado completamente receptivo e profundamente comovido.


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"Na base de cada grande obra de arte estão os escombros da barbárie"- Walter Benjamim

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Nenhuma poesia é possível depois de Auschwitz, disse Adorno.

Mas a história encarregou-se de o refutar. Desde logo Celan e Primo Levi, lembra George Steiner. Embora se tenham suicidado a seguir, refere ele.

Mas habituamo-nos bem ao mal dos outros -- essa é a grande verdade. E isto já sou eu a dizer. Temos, aliás, uma extraordinária capacidade para nem nos darmos conta do mal dos outros. Todos nós. 

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Já agora.
Relembremos.

Se isto é um homem - Primo Levi


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SalmoPaul Celan 

Ninguém nos moldará de novo em terra e barro,
ninguém animará pela palavra o nosso pó.
Ninguém.


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O texto lá em cima, em itálico, é um excerto da entrevista de George Steiner concedida à Paris Review em 1995, lida no 3º volume das Entrevistas da Editora Tinta da China.

As imagens representam Auschwitz. A primeira é da autoria de Bart Vromans e a segunda de Anne Berger

Walter Gieseking interpreta "Reflets dans l'eau" de Debussy

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Caso vos apeteça desanuviar, nada como uma caminhada por Lisboa. É só descer.

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Bordalo II, uma fadista e um Sto. António, uma musa pouco estimada, gaivotas e árvores, casas e barcos.
Lisboa, a bela, num dia de Outono






Caminhar. Descobrir. Rever como se nunca tivesse visto. Espreitar pela lente. O prazer da primeira vez.

Alfama, vielas, becos, escadinhas, arcos, varandas e varandinhas, vasos, piropos, roupa estendida -- e muitas casas reabilitadas.

Grandes armazéns e velhos prédios estão agora a ser restaurados, com bons materiais e bom gosto. Um hotel privado. Janelas de pedra, cortinas, gatos. Recantos que vêm de outros tempos.


Foi, pois, dia de passeio pela cidade. Eu turista, visitante de primeira viagem, sempre encantada, sempre à descoberta. Lisboa, a bela, tão visitada, tão cosmopolita e, no entanto, tão acolhedora, gente de todas as nacionalidades, raças, idades. Uns vestidos de invernia, outros de verão. Casacos, agasalhos. Calções, cavas.

E eu à procura de graffitis, de recantos, de gentes. Espreito as paredes, detenho-me, fotografo.


Na 24 de Julho, um fantástico novo trabalho do Bordalo II. Restos, lixos. O prédio abandonado ganha uma nova vida.

E os largos com árvores tingidas de Outono. Lindas, lindas. Fosse eu capaz de transformar emoções em palavras e haveria agora de estar aqui imaginando romances vividos em casas com vista para o arvoredo. Fosse eu dotada de capacidade de síntese e de musicar ideias e haveria de estar aqui a escrever poemas que soubessem transportar os cheiros da cidade, as cores e os sons e as saudades de todos quantos por aqui, ao longo dos tempos, se sentaram nas esplanadas e escreveram postais aos amados que ficaram noutras paragens.


O novo espaço do Campo das Cebolas quase pronto, uma engenhosa e bela solução que eleva o piso, cria uma nova zona de lazer ampla e luminosa com vista para o casario e para o rio. Um dos espaços mais inesperados da capital, que, certamente, irá trazer ainda mais pessoas para dentro da cidade e para bem próximo do Tejo.


Esta Lisboa que eu amo cada vez mais estimada, mais inteligentemente aproveitada. O novo e o velho, o luminoso e o escuro, o amplo e o esconso. Os azulejos gastos e os novos, os candeeirinhos, as escadinhas.

Há uma arquitectura muito própria que acompanha a orografia da cidade e há uma clarividência extraordinária de quem sabe inventar espaços novos que convivem com os antigos.


E os desenhos, os cartazes, o humor, a graça, o grito, o queixume, a rebeldia, a melancolia. O jeito lisboeta de ser onde a truculência se mescla com a nostalgia, o humor com a poesia, a exuberância da cor com a lágrima sentida.




E, depois, almoço no cantonês, caminhada à beira rio, o frescor do ventinho trazendo a maresia da baixa mar, as gaivotas, as muitas gentes, as muitas línguas.




E, de novo na avenida ribeirinha, o novo terminal de cruzeiros. Ao lado, um paquete enorme por onde entravam os viajantes. As árvores ainda são novas, os acabamentos ainda faltam mas já se percebe ali um outro espaço de modernidade. Não deu para andar por lá a cirandar, apenas o vimos do lado de cá. Um dia destes aproximar-me-ei pois ficámos em dúvida sobre se parte do edifício está ou não sobre a água.


E o Terreiro do Paço e o Cais das Colunas, lugar sempre tão tranquilo apesar da quantidade de gente que por ali anda. O símbolo da abertura portuguesa ao mundo. 


Quando voltámos a casa já a tarde se estava a pôr, já Lisboa anoitecia. Uma suave e serena tarde de Outono.

Era bom que chovesse mas não chove. Se chovesse não teria podido andar a palmilhar o ruedo e as avenidas da cidade, fotografando como se nunca tivesse visto a cidade que diariamente percorro. Mas era tão bom que viesse a chuva.

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Álvaro de Campos e Alberto Caeiro 

Lisboa e o Tejo




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domingo, novembro 26, 2017

Porque é que a empatia está na moda?



Há não muito tempo era o amor. O amor fazia girar o mundo, o amor era a única coisa que importava. Das conversas em família, dos segredos cúmplices e das revistas do coração, o amor transbordou para o ambiente empresarial.

O amor como forma de gestão -- diziam com ar de quem diz coisas sérias.

Diziam e eu ouvia. Confesso: já estive em cenas em que apareciam oradores convidados a falar do amor na gestão. Tínhamos que nos amar todos uns aos outros -- era a mensagem.

Não fora ser coisa sponsorizada pela igreja católica, e poderia pensar-se não se tratar de amor platónico e, numa leitura mais literal, perceber que aquilo era um incentivo à suruba.

Orgia. Mas não, tratava-se de um apelo à orgia platónica, amor puro e fraternal, uma neo-transliteração do velho conceito da 'alegria no trabalho' fusionado (para não dizer fundido) com 'amai-vos uns aos outros' ou, quiçá, 'amai-vos e reproduzi-vos'
E que não se pense que tenho alguma coisa contra o amor. Não tenho. Toda eu sou peace and love. Mas, no mundo da gestão como no resto do mundo, volta e meia a coisa só lá vai à canelada e ao encontrão, quando não com murro na mesa. E, nessas situações, a gente tem que pôr o amor um bocadinho de lado. Digo eu. Mas, lá está, sou agnóstica.
Depois veio a felicidade.

Coisa mais abrangente. Queremos é felicidade. A felicidade deve ser o primeiro e o último motor da vida. Nada mais importa do que sermos felizes e fazermos felizes os que nos rodeiam. Smiles everywhwere. Terapia para a felicidade para todos..

Concordo. Segundo os gurus da gestão, mesmo nas empresas a malta tem que geri-las tendo como primordial critério para tudo a felicidade. Qual lucro, qual capitalização, qual quê. Ebitdas já eram. Queremos é KPIs para medir a felicidade. Felicidade é que é.

A felicidade dos stakeholders.

Colaboradores, accionistas, clientes, fornecedores e tutti quanti todos felizes. Não sei se a concorrência também feliz ou se a esses a malta pode, pelo menos de quando em vez, pisar os calos. Mas, portanto, felicidade. Programas para pôr a rapaziada toda feliz. Não vou entrar em detalhes mas faz-se de tudo. Ter-se uma cesta com fruta do dia à disposição dos colaboradores é pormenor face a tudo o resto.

Mas eis que nova onda ultrapassa, em pertinência, o amor e a felicidade: a da empatia.



Não há assessement que não meça o nível de empatia de cada qual. Não há curso de liderança ou whatever que não ensine a ser empático, não há conversa sobre o que está a dar que não aborde o tema da empatia.


E, uma vez mais, que não se pense que não acho que a empatia é vital. Penso. Pessoa que não seja empática é uma ave que tende ao isolamento ou a ser nociva na interacção com os outros. Chefiando eu algumas pessoas, pessoas que, por sua vez, chefiam outras pessoas, o que mais contacto é como gente inteligente, organizada, dedicada e etc. e tal que acaba por ser uma lástima a lidar com subordinados e pares por, simplesmente, não ser capaz de ser empática. Gente que apenas vê o mundo sob a sua própria perspectiva, gente que não é capaz de se pôr no lugar do outro ou que não percebe o lado emocional da interacção mútua acaba por ser um desastre. E isto é válido no mundo da gestão como na vida em geral. Por isso, acho muito bem que se fale nisto e se estimule a compreensão da empatia. 
O que já me causa um bocado de erisipela é que às tantas parece que tudo se resolve na base da empatia ou que basta ser-se empático para que tudo funcione, relegando para planos secundários a competência profissional, o ser-se focado em torno de objectivos bem concretos, ter-se visão e, até, conhecer minimamente as matérias. E empatia é uma entre muitas outras 'competências', sejam elas comportamentais, profissionais ou outras. Importante -- mas uma entre outras.

Ora bem. Tendo o meu filho regressado de uma formação em regime de imersão lá mais para o norte do mundo, eis que me envia um vídeo para eu pôr no blog. Bem mandada que sou, aqui está ele.


Brené Brown sobre a empatia

What is the best way to ease someone's pain and suffering? In this beautifully animated RSA Short, Dr Brené Brown reminds us that we can only create a genuine empathic connection if we are brave enough to really get in touch with our own fragilities.


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Beijinhos, abraços e lots of empatia para todos.

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sábado, novembro 25, 2017

Se a sorte te surgir quando menos esperares, be gentle, não vás estragar o momento... Ok?


Não é que esteja a dar-me para a filosofia. Sou lá eu disso. Muito menos a esta hora. Muito menos depois de várias centenas de quilómetros em cima. Filosofia só quando acordo às onze da manhã e tenho a cama já só para mim, eu atravessada, à larga, descansada, bem dormida, sem ralações em cima, sem quaisquer afazeres em carteira. E isto se puder ficar mais meia hora a preguiçar sem pressas para coisa alguma.

De costas posso parecer-me com ela. De frente, apenas nos atributos superiores.
E mais não digo.

Aí, sim, quando estou assim, dá-me para filosofar. Pena é que isso aconteça tão raramente que já nem me lembro de quando foi a última vez. 

O que se passa é que estou aqui reclinada, meio a dormir, um olho no burro e outro na Sils Maria. La Binoche, la femme sagrada. Kristen Stewart, la anti-diva. Cinema. Filme sem perseguições, tiros, ruído. Silêncios, bons textos, boas representações. Agora caminham na montanha, um carreiro sem árvores. Anoitece. Gostava de estar agora naquele carreiro. Deve cheirar a terra. Terre. Apenas as palavras habitando os caminhos da noite.


Enterneço-me. Não propriamente com o filme. Mémoires. Sweet memories. Palavras, jardins suspensos, poemas, mundos cruzados, acasos.

E, enquanto isto, enquanto divago, vou espreitando os mails, as notícias, as sugestões do youtube. 

E o youtube pensa isto de mim. Aparece-me com estes vídeos. O dos gnus com uma valente dose de burrice naqueles palitos e agora este, aqui abaixo, tão ternurento e tão verdadeiro. Quantas vezes não são os pequenos golpes de acaso que modelam a nossa vida? Com um gesto involuntário podemos afastar alguém do nosso caminho, com um irreflectido passo podemos mudar a rota do nosso destino. Com um olhar podemos enlouquecer a nossa vida, com uma palavra podemos fazer transbordar de sonho o resto dos nossos dias.

Filosofo de novo. Ou será que não? Será que dizer lugares comuns não é sinónimo de filosofar? Se calhar, não. 

Bem. Adelante.

O meu filho enviou-me um vídeo e escreveu apenas 'para o blog'. Mas gostaria de lhe juntar umas palavras e a esta hora já poucas me sobram. Fica, pois, para amanhã.

A verdade é que noite vai alta e ainda não espreitei a lua. Há pouco, na autoestrada, estava envolta em neblina, uma esbatida luz dourada num céu indefinido. Agora não sei. Talvez pudesse abrir  a janela para conferir. Mas quem me garante que, se abro a janela, o meu coração não vai sair por aí,  livre e louco, evadindo-se por entre as brumas?



Sketchy Blues


Some unlikely characters turn up to spread a smile across the face of a heartbroken man. Will they succeed?


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E queiram descer para mais um vídeo do Birdbox Studio

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Quando perante os indícios e, mesmo, perante as evidências, há quem não queira ver


Acontece tanto. A gente a ver o que ali está e os incautos a acharem que não. E, mais tarde, mesmo quando perante a evidência dos factos os pategos, em processo de negação, ainda a acharem que a coisa talvez não seja bem como a gente a aponta... Na política, no trabalho, na vida social. 

Um amigo meu, quando os factos provam que o que eu tinha antevisto acaba por se concretizar, diz-me: ter razão antes do tempo, na prática, é a mesma coisa que não ter razão. E é verdade. Acontece-me ser vítima disso com alguma frequência. Contudo, ultimamente estou mais numa de deixar andar até que os que não vêem um palmo à frente do nariz se estatelem. Acho que já dei demais para o peditório dos burros. E, quem diz dos burros, diz das bestas quadradas.

Depois penso que isto é capaz de significar que não estou a ir para nova. A PDI a atacar em grande estilo. Ou, então, estou a precisar de férias.

Alguma delas é.


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sexta-feira, novembro 24, 2017

Dos lobos





Tenho esta coisa com lobos. Acho que devem ser bichos inteligentes, cheios de energia e subtileza, escondendo mistérios e silêncios. Bichos cuja natureza há-de ser estranhamente próxima da minha.
Provavelmente estou a navegar. Sou menina sonhadora, da cidade, nunca sofri as durezas da ruralidade ou da fome, não conheci a verdade de umas mãos gretadas, não sei, de facto, o que é o medo paralisante. O que sei é do que leio, do que ouço, do que imagino. 
Desde pequena que ouço que os lobos são maus. E na serra vi as armadilhas. Deviam ser maus para terem que ser traiçoeiramente caçados em buracos. Comem ovelhas inocentes, atacam aldeias. 
Mas eu sempre me senti tentada a perdoar-lhes. A necessidade, o instinto. Não a vulgar maldade.

Acho que, se visse um lobo, ficava a olhar para ele e ele para mim. E acho que ele viria ter comigo. Devagar, devagar. Haveria de querer que eu lhe fizesse uma festa. E eu far-lhe-ia. Lobo, lobo, lobo mau... E ele ficaria imóvel, deixando que eu tentasse conhecê-lo. Lobo, lobo, lobinho. Eu a adivinhar os seus pensamentos, ele a adivinhar os meus, querendo descobrir afinidades, temendo não as descobrir. Pronto a atacar. Pronta a defender-me, pronta a destruí-lo. Pronto a destruir-me. Animais tentando reconhecer-se. Temendo a adversidade, pressentindo o perigo.

É como com os cães grandes. Dantes tinha tanto medo e depois perdi-o. Qualquer cão grande que se aproxime eu tenho vontade que eles se cheguem para eu lhes fazer uma festa.
O meu marido repreende, que não me afoite -- diz que não os conheço, que não sei como vão reagir. Mas é instintivo, eles aproximam-se, eu aproximo-me.
Por acaso, uma vez, fui com a minha filha e os miúdos visitar um quartel de bombeiros. Os miúdos adoram ver os carros, os tinonis, aqueles mecanismos, escadas, mangueiras, motores, luvas, capacetes. E, às tantas, vejo lá um caozão gigantão. Estava deitado a dormir e, quando nos viu a andar por lá, levantou-se e veio ter connosco. E eu, como sempre, estiquei o braço para lhe fazer uma festa. Ele, que já devia estar mal disposto com a nossa invasão em território à sua guarda, abre-me a sua bocarra, solta um rugido e mostra-me um ar feroz. Apanhei um susto, claro, não fosse ele ainda se atirar a nós, em especial aos miúdos. Recuei, sobressaltada, sem palavras.
A minha filha volta e meia fala disso para ilustrar a minha falta de medo ou de prudência.  

Mas, dizia eu, os lobos.

Os lobos são, pelo menos assim os imagino, bichos silenciosos, orgulhosos, delicados. Imagino-os a cruzarem a noite, passos cautelosos, respirando com a delicadeza dos seres superiores. Imagino-os a verem através do escuro, todos eles intuição, adivinhando os vultos, antecipando os perigos, resguardando-se para o desfrute solitário do prazer de existir. Assim os imagino. Hábeis, sábios, clarividentes, elegantes.

Já li livros com lobos. Salvam a vida de quem se deixa amar por eles.

Têm, ou assim os imagino, um pelo forte, à superfície áspero, macio como seda junto à pele, e exalarão um cheiro animal, selvagem, secreto. Terão uma respiração dócil. Outras vezes, bravia, pura sobrevivência, puro prazer de existir.


Se eu estivesse a caminhar à noite numa serra azul, tingida de magia -- as árvores como sombras esguias, talvez uma ténue lua em crescente, o frio cortando-me a pele, e eu cheia de medos, tremendo ao som dos ruídos indefinidos, piares de pássaros longínquos, murmúrios de folhagem rodopiando ao vento -- talvez sentisse, de repente, um arrepio cru na pele, talvez o coração se me acelerasse sentindo uma alteração no fôlego de um ser caminhando na minha direcção, o vapor quase invisível da sua respiração, os seus passos pisando as folhas húmidas, os musgos, as gotas pingando das árvores, eu na direcção dele, ele na minha direcção. Eu cheia de medo. Ele cheio de medo. Desconfiada eu dele. Ele de mim.


Receando-nos, farejando-nos, o coração descompassado, a respiração trémula, a pele sensível, passo após passo, o bafo cada vez mais perto, o dele, o meu, o secreto calor do nosso corpo -- e o silêncio cada vez mais cúmplice.

Depois ele veria o meu olhar húmido, a neblina envolvendo o meu corpo, sentir-me-ia desarmada, pronta para atravessar todos os medos, pronta a atravessar os perigosos labirintos, a cair no mais tentador dos abismos. E eu senti-lo-ia nervoso, fremente, envolto em bruma e solidão, corajoso como um deus do fogo, altivo como um pássaro distante. Caminharíamos ao encontro um do outro.

E não mais nos separaríamos. Um afecto feito de inexplicações, transportando memórias de tempos muito antigos e emoções vindas de uma profundidade onde não existem palavras, apenas lágrimas silenciosas, sangue latejante, olhares enfeitiçados. Para sempre. Para sempre.

Lobo, lobo, lobinho... 


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Histórias com lobos






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E o lobo que não esqueço


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Um dia muito bom a todos quantos aqui estão comigo.

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