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segunda-feira, abril 13, 2020

Um domingo de Páscoa com um acontecimento misterioso e muitas descobertas





Estes dias têm momentos bons e momentos maus.

Adoro andar pelo campo, adoro fotografar, adoro aspirar o ar perfumado. Também gosto de fazer limpezas ou cozinhar. E gosto de ler e este domingo consegui ler, em tranquilidade, quase todo o último Cogneti. E ao longo de todo o dia fui recebendo fotografias e falando com a família. Também recebi mails e mensagens de colegas e amigos a desejarem boa páscoa. 

Mas depois há momentos de um certo vazio. Não estou de férias mas as minhas rotinas estão viradas do avesso. Saber que se avizinha uma semana cheia de responsabilidades e que esperam que dê orientações ou tome decisões agora em ambiente tão incerto e em que vejo tanta gente que me parece que ainda não percebeu a dimensão da mudança incomoda-me tanto mais quanto vou estar em casa, intercalando tudo isso com a preparação do almoço ou a arrumação doméstica. Acho que o teletrabalho é a solução que se antevê para muitos dos problemas de qualidade de vida pessoal, urbanísticos ou de organização territorial, mas este teletrabalho que vem em doses cavalares, absorvendo os meus dias de sol a sol e, ainda por cima, atado ao confinamento e à obrigatoriedade de engolir as muitas saudades que sinto, é-me deveras incómoda. Direi mesmo: traumatizante.

Claro que se estivesse presa num andar me sentiria ainda pior mas isto é sempre tudo relativo já que nunca ninguém está contente com o que tem. 


O futuro deve passar por teletrabalho para toda a gente que o possa fazer sem prejuízo da produtividade, disso não tenho dúvidas, mas deverá ser num horário não superior a seis horas diárias,  que, vendo bem as coisas, para que haja trabalho para todos, chega e sobra, e sempre permitindo a saudável separação entre período de trabalho e período de lazer e de descanso. Provavelmente deve estar assegurado que talvez um vez por mês haverá uma reunião presencial entre equipas para que se mantenha o vínculo afectivo.

Bem, mas isto não é agora para aqui chamado.

O fim de semana foi bom, descansado, mas tanto me tinha ficado por fazer durante a semana que, inevitavelmente, tive que ver apresentações, mandar mails, marcar reuniões. E essa invasão do meu espaço doméstico e do meu tempo de descanso anda a ser-me saturante. Tenho que tentar encontrar um ponto de equilíbrio.


Hoje de tarde, estava eu, absorta, a ler a subida de Paolo às montanhas, quando comecei a ouvir um barulho curioso. O meu marido levantou-se, foi ver. O barulho intensificou-se. Dir-se-ia que estávamos a ser atingidos por uma chuva de projécteis. O meu marido chamou-me, que eu fosse ver. E fui. Como uma chuva de pipocas, saltando ao atingirem o chão, fazendo ricochete nas pedras. Num instante tudo se cobriu de bolinhas brancas, pareciam pétalas. Mas eram bolinhas de gelo. E o céu a ribombar. Uma trovoada vindo do nada. Um epifenómeno. Mais um. Uma chuva torrencial, granizo, trovoada. Fui a correr fotografar para ficar com a prova de tão inusitado mistério. O paraíso é um lugar misterioso.

Algum tempo depois estava sol. Se não fosse a água ainda escorrendo das árvores ou a terra tão molhada, dir-se-ia que aquilo não tinha acontecido. Assim é a vida. Acontecem coisas, intensas, incompreensíveis, e depois, passado algum tempo, custa a acreditar que tenham acontecido.

Quando saí para passear ao fim do dia, os pássaros estavam mais efusivos que nunca, cantavam que era uma alegria, parece que estavam a soltar a franga que existe dentro deles depois do valente susto que devem ter apanhado. Uma cantoria que me pôs a sorrir. Também eu estava com vontade de festejar a alegria de tal mistério.

Do gatinho nem sinal. Tive pena pois gostava de perceber como tinha reagido ao que aconteceu. Se calhar abrigou-se numa das grutas e achou prudente não se arriscar a outro banho de pérolas geladas.


E agora que aqui estou, depois de ter visto em que param as modas no Japão no que ao corona diz respeito, um programa que passou na RTP 3, pus-me para aqui a descobrir o vasto mundo do YouTube. E pasmo. Pasmo com o que para aqui vai. Uma coisa infinita, impossível de adivinhar tudo o que para aqui se aloja. Não é a dark web, porque está tudo à vista, mas é um salsifré, a casa da mãe joana, o albergue espanhol, a sopa da pedra, o pot pourri, um bric a brac de milhões de peças multicores e multiformes.

Hoje descobri que há mulheres que têm canais próprios para explicarem como se maquilham os olhos, como se disfarçam as rugas, como se encobrem olheiras, como se tapam papos estejam eles onde estiverem, como se aplica a base, como se valorizam as sobrancelhas, como se enrolam as pestanas, como se alivia o semblante. Vi vídeos em que elas aparecem como se levantam, enrugadas, macilentas, e, ao fim de pouco tempo, estão frescas, iluminadas e desejáveis como se viessem de hollywood. Outra aparece velha e acaba o vídeo a parecer filha de si própria. Dei por mim a ver um atrás do outro. A aprender cenas. E dei também por mim a perceber que tenho andado a passar ao lado de uma outra eu.

Vejo que todas têm vários pincéis e que os conhecem pelo número. E há-os para todos os fins, para aplicar, para esbater, para iluminar, para realçar. e há toda uma paleta de cores e de produtos para que qualquer mulher banal pareça uma mulher não apenas apresentável como, direi mesmo, bela e intemporal.

E isto já para não falar das técnicas mais invasivas, em clínica, para preencher rugas, para encher lábios, para elevar as maçãs do rosto. Um mundo de oportunidades para contrariar o efeito do tempo ou a má qualidade estética de origem.


Nunca fiz nenhuma intervenção estética mas, mesmo a nível de tratamento de pele e de maquilhagem, que descuidada tenho sido. Mentalmente revejo a minha pobreza franciscana quanto a produtos. Aqui, in heaven, então, zero pincéis, zero blush, zero iluminadores, zero rímel, zero praticamente tudo. E depois o tempo que é preciso. Geralmente se gasto mais de uns quatro ou cinco minutos com a cara, de manhã, é muito. Ora, para toda a montagem de cenário que aqui tenho estado a ver, precisaria de uns dez a quinze minutos. No mínimo. Onde é que, em tempos normais, sabendo que tenho trânsito pela frente e um dia preenchido para não perder minuto, como arranjá-los? Ainda por cima, a deitar-me sempre às quinhentas, como levantar-me um quarto de hora mais cedo para me embonecar...? Mas que fiquei a pensar no assunto lá isso fiquei. Fiquei, fiquei.

Outra coisa que vi num vídeo é a altura a que se deve pôr o computador e a iluminação quando se está em vídeoconferência. Há técnicas para tudo quando o que está em causa é aparecer glamorosa do outro lado. E eu, no maior amadorismo, a andar com o computador de um lado para o outro e sem saber de todos os truques que afinal estão em tutoriais à disposição de quem o queira.

O meu amigo algoritmo, talvez por me achar uma intelectual extravagante dada aos números, às artes e às coreografias maradas, sugere-me sempre vídeos nessa base. Nunca me propôs estes vídeos espectaculares que tive que descobrir por mim mesma. E são viciantes.  É que há vídeos para tudo: penteados para cabelos que não se deixam pentear, franjas para todos os tipos de caras, maquilhagem para jantares em casa, batons para lábios finos e para lábios grossos, protectores solares para quem não quer usar base, sei lá. De tudo. Se me deixasse estar aqui mais um bocado nisto e se tivesse um arsenal a preceito a ver se esta semana não surpreendia os meus colegas. Nem saberiam com quem estavam a falar. 


No meio disto, imagine-se, apareceu-me um filósofo checo a falar do corona; mas a rede dele lá em casa devia ser pior que a minha pelo que não percebi nada do que ele disse. Desisti ao fim de um minuto. Para além de que é belfo e tem um sotaque cerrado que, em inglês, mal se percebe o que diz. E a meio dos tutoriais para peles e olhos claros e como parecer eternamente adolescente apareceu-me ainda o Chomsky, também a falar do corona. Testezinho do algoritmo, a ver se a quarentena me deu volta ao miolo, só pode. Abri o vídeo do Noam mas mais de trinta minutos e a perceber-se um bocado mal era coisa que cansaria a minha beleza, coisa certamente não recomendada para a iluminação da minha cútis. Fechei. Ficará para um outro dia em que me sinta mais capacitada para profundidades. 

Mais umas semanas de quarentena e ponho-me eu a fazer tutoriais. Modelos, cenários, green fields, inteligência artificial ou o escambau nem vê-los. Só tutoriais sobre beleza feminina.

Tirando isso, mais nada. Só se for que o cozido à portuguesa ficou bom e que o que sobrou ainda dará para esta segunda feira, pelo menos para o almoço. 


As fotografias estão aqui porque gosto delas e estão à venda no site Pictures For Elmhurst (A Print Sale Fundraiser for Elmhurst Hospital in NYC), uma iniciativa interessante e que talvez pudesse ser seguida por cá, divulgando fotógrafos nossos e beneficiando os nossos hospitais.

Se não me enganei na ordem, os autores são, respectivamente, Jody Rogac, Benedict Brink, Yelena Yemchuk, Samantha Casolari, Hart Lëshkina,  Zora Sicher e Sharif Hamza. Vieram ao som de HAEVN interpretando We Are 


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Uma boa semana para todos. Saúde.

quarta-feira, setembro 04, 2019

Esqueletos a fugirem do armário, bichos encarnados de seu nome 'esponjas' e outros cujo nome apenas mais abaixo desvendo, mãos cada vez mais quentes à medida que vão massajando, TPC por fazer e etc.
Isto, com vossa licença, em dia de 'cus dentais'







O senhor é magro, levemente encurvado, cabelo grisalho um pouco comprido. Tem um ar apagado. A mulher é grande, entroncada, usa saia relativamente curta, blusa justa de alças, não se importando por não disfarçar a gordura. Usa cabelo liso, pelo meio das costas. Não pinta o cabelo, usa-o grisalho. Fala muito com a filha. No primeiro dia que os vi, de longe, parecia-me que a filha estava vestida da cabeça aos pés, talvez com uma lycra bastamente colorida. Quando ela passou junto à minha mesa percebi que é tudo tatuagem. É grande como a mãe mas mais gorda. Usa o cabelo comprido e, a partir do meio, pintado de verde. Falam muito, riem. O pai é como se não estivesse ali: não fala, não ri. As tatuagens são de todas as cores. Hoje estavam na mesa em frente à minha e, para ir buscar mantimentos, levantou-se várias vezes (e que pratadas acaguladas ela trouxe de cada vez que lá foi, senhores), dando-me a possibilidade de observar a obra. Uma das pernas está cheias de gatos, alguns quase em tamanho natural. Na outra tem um cão sentado à frente de uma casota. Na parte de trás tem flores, cachos de flores, tudo às cores, e, pelo meio, dizeres diversos. Num dos braços, rotundo braço, tem um armário do qual fogem, como que espavoridos, vários esqueletos. Como usa saia ainda mais curta e justa que a mãe, reparei que apareciam vários raios como se a vagina estivesse a cuspir raios e coriscos.

E eu, vendo todo aquele pano de cena, só me ocorreu aquela minha dúvida metódica: um dia que resolva fazer dieta e que reduza a superfície de exposição, onde será que ela vai conseguir meter todos aqueles cães, gatos e esqueletos fugitivos?


Tirando isso, pouco mais tenho a reportar.

Só se for que, atrás de nós no passadiço de acesso à praia, iam duas beldades com pronúncia do norte. Olhei-as à sorrelfa e, intimamente, gabei o vestido comprido de uma e o belo cabelo que tinha e o ar elegante e moderno da outra. Poderia ser uma pintora e outra galerista. O pior foi o resto. Dizia uma: 'A ver se hoje ainda cá há daqueles bichos que ontem havia por todo o lado...'. 'Que bichos?', perguntou a outra, muito admirada. 'Umas esponjas encarnadas. Sei que não fazem mal mas não gosto.', esclareceu a que tinha ar de pintora. A outra, a beldade com ar sofisticado e modermo, disse: 'Ah, espero que não. No outro dia, para aqui, tiveram que fechar uma praia por causa de uns bichos que parece que faziam mal. Não me lembro do nome.'. Mas a artista estava ao corrente: 'Ah, isso não foi aqui, foi na Praia do Alemão. Aí, sim, é que havia uns bichos que faziam mal, tinham bactérias'. Nessa altura, o meu marido aproximou-se de mim e disse-me baixinho: 'Diz à senhora que aqueles bichos se chamam cagalhões'. 


E posso ainda acrescentar que fui levar a minha massagem das férias, full body, relaxante e terapêutica, com óleo quente. Perguntei à massagista se o óleo estava a ser aquecido e ela esclareceu que não, que as suas mãos é que aquecem cada vez mais à medida que dá a massagem. Uma coisa extraordinária. Diria que estava a pôr-me óleo quente. Não é que não fosse agradável, estava era a estranhar o óleo cada vez mais quente, isto num dia de verão. Seja como for: foi bom, soube-me bem. Uma hora inteirinha, cabeça incluída e pés, então, nem se fala.


Devo ainda dizer que os e-book parece que estão a cair em desuso já que a maioria da malta lê livros é de papel. À volta da piscina ou nas espreguiçadeiras do hotel quase toda a gente lê. Eu é que continuo sem atinar. Levei um livro que um colega me ofereceu, achando que eu ia gostar e, inclusivamente, arranjando maneira de mo fazer chegar antes de eu encetar este meu período de galdeirice já que, nessa altura, estava ele de férias. Pois bem. Impossível. Tentei. Li tresmalhadamente e, a cada página em que calhava, dava ideia que o tema nada tinha a ver com as anteriormente lidas. Pedi ao meu marido para o ler por mim e depois fazer-me um resumo. Nem respondeu. Mas tenho impressão que depois o folheou. Contudo, também deve ter ficado desconcertado porque, depois disso, me perguntou: 'O livro é sobre o quê?'. Um problema, isto. Não posso regressar sem ter lido o livro. O meu marido ri-se: 'Tens a mania que tu é que a sabes mas afinal a ti é que te passaram TPC para as férias...'. Pois. Só tenho coisas que me ralem.


E, entretanto, não tendo conseguido durante o dia dar à estampa os cus dentais de que ontem vos falei, é agora, aqui espetados no meio deste proseado preguiçoso, que vos dou a conhecer a colheita possível.

Só inseri aqui aqui aqueles cujos rostos não estão à vista (e devo confessar que, em minha opinião, o corpo mais bonito, incluindo o formoso rabo, é o de uma mulher que não consegui apanhar sem que se visse o seu igualmente belo rosto, razão pelo que aqui, infelizmente, não o quero divulgar).

Contudo, se a dona de algum, devidamente comprovando que o cu lhe pertence, não o quiser ver aqui, a destempero, é só dizer-me que o mesmo será recolhido logo que possível. Aqui não se querem funfuns e gaitinhas, aqui só se querem cus incógnitos ou, se cógnitos, então que sejam orgulhosos da sua própria existência, seja ela pujante seja ela simples e delicada.












E. por ora, é isto.

E vivam as mulheres. E vivam as mulheres que gostam dos seus corpos. E vivam o mar e o sol que dão vontade de andar com o corpo à solta. E viva a vida, caraças, viva mesmo a vida.

E uma bela quarta-feira a todos quantos aí estão desse lado.

quinta-feira, abril 11, 2019

O célebre buraco negro, uma gatinha incrédula, um perigoso aracnídeo, uma teia de dar medo (e outras coisas) -- tudo 3D, tudo ilusões de óptica e o escambau.
[Só os lencinhos é que se aproveitam]





Hoje numa reunião, um colega quis atirar-se para fora de pé e eu interceptei-o. Ele insistiu, tentando seguir numa deriva que, em meu entender, não ia levar a lado nenhum. E eu que não. Ele, então, do outro lado da mesa, em voz baixa, tentando ser discreto para não me envergonhar em público: 'open mind... está a perceber...? open mind...'. Achei graça. Interceptei na mesma, expliquei as minhas razões, ele percebeu. Mas fiquei a pensar naquilo. 



E há bocado voltei a pensar. Se em tempos alimentei o secreto desejo de me fazer tatuar com uma rosinha bonita perto de um ombro ou na parte de cima de um seio, a verdade é que me saíu completamente da ideia desde que a coisa virou banalidade. 



À hora de almoço estava à espera de vez para uma mesa, distraída. O meu marido disse-me em voz baixa: 'São copos?'. Não percebi. Ele disse-me: 'São copos no braço?'. Olhei e vi ao nosso lado um rapaz com copos tatuados no braço. Copos mal desenhados, sem ponta de graça, sem ponta de arte. Um disparate.


E agora dei com tatuagens em 3D. Antes de ver, só pela designação, não estava a perceber bem qual o efeito. Mas, caneco, quando vi achei assustador. Na volta é porque não tenho a mente aberta. Mas, caraças, imagine-se alguém que não esteja preparado par ao que vai ver, ao dar assim de repente com uma coisa destas. Que susto, bolas.


E, para terminar, a versão tattoo do mediático buraco negro que os outros viram por um canudo:


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Para contrabalançar a open-minded arte 3D sobre a pele, juntei dois apontamentos de beleza tradicional.

O vídeo lá em cima, obra de Sølve Sundsbø, junta Alexander McQueen & Damien Hirst e o resultado são écharpes de uma grande beleza. 

E o vídeo abaixo mostra outra maravilha. Seda marmoreada com desenhos lindos: Hrmè$. 


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sábado, junho 30, 2018

Um post em forma de assim



Se falo de futebol, recebo mails a dizer que me deixe disso, que já não se aguenta tanto futebol. Quando falava do Bruno, recebia mails a desaconselhar-me tão imprópria companhia (ainda que apenas mental). Se escrevo sobre boas maneiras, logo se queixam que ando mundana e me enviam poemas a ver se me estimulam a veia poética.

E eu, cheia de canseira e calor e com a cabeça, à hora a que escrevo, já a mover-se a pedal, concordo. Mas concordo devagarinho, em ponto morto. Penso que deveria subir uns degraus na craveira intelectual das minhas ideias. Penso. Mas penso ao de leve, penso entre a névoa lenta da moleza mental que, a esta hora, me tolhe a ideologia. Gostava de conseguir trazer aqui coisa da boa, bife do lombo, filete de peixe branco e filosófico, sem espinha, sem pele, a saber ler em grego antigo. Mas não dá. Nem step rasinho eu consigo fazer, fará trepar pela intelectualidade acima. Não dá. Não consigo trazer temáticas fantásticas nem, tão pouco, simples banalidades políticas mesmo que com o sarro dos partidos agarrados às virilhas (às virilhas das politiquices, atenção, não às minhas que eu cá não tenho sarro nenhum, caraças -- posso ser arruivada e ladininha mas cotão e rolinhos de pêlo nas entrelinhas eu não tenho e a raposinho eu também não cheiro, não).


Portanto, aqui chegada, apenas tenho a dizer que nada da actualidade me faz ficar com os dedos a fervilhar de coceirinha boa, daquela que só passa quando as letrinhas desatam a correr da ponta dos dedos para fora, aos saltitinhos sobre as teclas, inventando palalavrinhas que se enfiam umas nas outras, brincalhôtas, maganôtas, sem saberem umas das outras, cada uma, safadinha, a desafiar a do lado.

Trago, pois, aqui, nada. Nadica de nadica.

Às vezes, depois desta confissão de inutilidade, adormeço e, quando acordo, sinto que uma nuvem doce pousou em mim e que os chacras das ideias se alinharam,  pedindo para ser escritas, todas elas feita prosa, madames senhoras de si, nariz empinado, vontade própria, madamas. 

Não sei como vai ser hoje. Gostariam os meus Leitores que eu, ao acordar, confessasse coisas de mim? Ou que inventasse amores secretos? Ou que sonhasse sonhos bons, impúdicos, loucos?

O que queriam que eu aqui dispusesse? Poemas, epístolas, flores, canteiros de flores? Canteiros de morangos? 

Ou que falasse da última fantasia do Santana Lopes?

Digam que eu falo. Eu, generala refundida depois daquele ex-cândalo das armas de Tamancos, falo e refalo.


Pronto. Pois não sei que mais vos diga. Não vos ouço. Estão aí caladinhos, feitos sonsos. Eu aqui sem conversa e vocês todos renhonhós, de bico calado, sem me darem uma mão. Ora bolas.

Na volta, ainda vou buscar uns excertos de um mail que recebi para aqui enunciar mais umas quantas coisas da gente fina. E não me falem de mundanidades, ok? Sou bicho do mato, camponesa que gosta de uma boa poda, mas também gosto de me apresentar à mesa de mãos lavadas e bem comportada, ora essa. Acho que essas matérias são tão ou mais importantes do que saber declinar em latim, declamar em grego ou andar à roda feita sufi tresmalhada. Tudo uma questão de perspectiva.

Mas está bem. Eu sei. Para estar nisto mais vale estar calalada, certo? Ok. Vou calalar-me.


Já agora: 


Até já

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Os aristocratas das imagens acima são da autoria de Markus Pilgrim

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sexta-feira, janeiro 26, 2018

Será que é desta que vou fazer uma tatuagem...?



Já contei algumas vezes. Dantes, quando não era moda, eu alimentava a esperança de me auto-convencer a fazer um botão de rosa num sítio sexy do meu corpo. Nunca cheguei a consenso sobre qual seria esse sítio. Nem sabia onde ir. Portanto, fui empurrando a rosa com a barriga.

Entretanto, isto das tatuagens banalizou-se e eu, que sou desalinhada por natureza, descurti. 

Mas esta de que agora tive conhecimento parece-me muito bem. Claro que teria que ser coisa não definitiva. Não quero fazer coisas deste género que sejam definitivas. Versos. Frases bonitas. Teria que ser pintura efémera. 

Senão, imagine-se que me apetecia escrever nas mãos o início daquele poema do Al Berto
visita-me enquanto não envelheço 

toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me 
... e que, às tantas, se me engelhava a pele das mãos e ficavam as palavras todos entrevadas...? Ná. Terão que ser laváveis. Todos os dias palavras novas.

Estou a escrever isto e a achar que é uma ideia fantástica, esta de todos os dias escrever o início de um poema diferente nas mãos.

Mas, para quem não saiba, aquilo de que falo aconteceu no desfile Dior. Citações de André Breton escritas no peito ou nas mãos. Lindo.
Au départ, il ne s'agit pas de comprendre, mais bien d'aimer.

L'amour est toujours devant vous, aimez !
L'imaginaire, c'est ce qui tend à devenir réel. 

terça-feira, setembro 26, 2017

Tatuagens muito lindas
[E outras coisas do género]


Lá está. Pode ser que seja eu que esteja já fora de prazo. Não curto. fazer o quê? Não curto, não curto.

Quando ninguém usava tatuagens e não havia onde as fazer, queria eu ter um botão de rosa carmim sobre um seio. Depois, temendo que fosse complicado, já admitia que fosse mais acima, algures sobre o coração. Quiçá, até, entre o coração e o ombro. Depois, como já aqui o referi, temendo que, com o passar do tempo, a pele enrugasse e a rosa perdesse o viço, imaginei-a nas costas, sobre uma omoplata. Mas não sabia onde concretizar. O tempo foi passando. A minha filha ia perguntando pela rosa tatuada. O meu marido incentivava. O mais que me aventurei foi a pôr um piercing. Só um. Ainda o uso. Coisa feita em condições, tipo seringa à pressão, numa ourivesaria. Depois começaram a aparecer uns lugares para as tatuagens, uma espécie de lojecas, coisa que me parecia manhosa, pouco asseada. Agulhas, tintas... tudo aplicado por um cabeludo mal amanhado...? Ná... E o tempo sempre passando. Até que veio a moda. Tattoos para todos os gostos. Programas na televisão. Uma praga. E agora não há cão nem gato que não se pinte de alto a baixo, flausinas cheias de caveiras, letras chinesas, mensagens cifradas, malandrecos com carros de corrida, serpentes, bichos suspeitos. Ná... agora é que não é mesmo para mim.

No outro dia cruzei-me com uma mulher gorda, meia idade, vestida de garina, tshirt surreal, saia curta e justa, ténis de fantasia meio brilhantes, cabelos com madeixas cor de rosa e, claro, com uma hera com bicharada trepando-lhe pelo anafado pernão. Intuí que se achasse o máximo e, se calhar, até estava melhor assim do que antes. Tudo depende do ponto de partida. Enfim. E no outro dia descobri que um colaborador meu que costumo ver de camisa e casaco tem uns bíceps de impor respeito e, para alegrar, cobertos por artísticos desenhos. Ao deparar com tão insólita descoberta, ia comentar mas não consegui imaginar nada politicamente correcto para verbalizar. Depois ouvi outras a dizerem-lhe que tem que ir assim para o trabalho. Ele sorriu, orgulhoso do impacto que tinha causado. Pudera.

Esta imagem não tem nada a ver e eu, se tivesse juízo,
não a colocaria aqui.
(Mas hoje estou assim. Não me recomendo)

-- Um parêntesis: sigam o link porque é extraordinário --
Sobre um outro avisaram-me: 'quando estiver com ele, veja lá... controle-se...' Parece que anda apaixonado por uma colega e não se sabe se para lhe agradar ou se já é imposição dela, sendo ele careca de longa data, coisa que notoriamente lhe está no ADN, apareceu agora com um triângulo cabeludo, em preto, no alto da cabeça. Acontece que o de origem, que já está ralo, é grisalho. Parece que a coisa se faz por lotes. A urbanização, digamos assim, começa da testa para cima, e, ainda assim, deixando uns triângulos de lado. Parte da cabeça, em cima, ainda está a descoberto. A quem ficou de boca aberta a olhar para ele, consta que contou que os implantes são com cabelo dele. O meu marido, que não é bom da cabeça, quando lhe contei, disse que se calhar lhe tiram pelos do rabo e que o cuidado que ele tem que ter é que a cabeça não lhe passe a cheirar mal. Só visto. Disse-lhe 'cala-te, não digas parvoíces'. Respondeu perguntando-me: 'dizes que ele apareceu com um triângulo cabeludo no alto da cabeça e a mim é que acusas de ser parvo?'. Pois a verdade é que venho engarrafada no trânsito e perdida de riso, a rir à gargalhada, sozinha, só de pensar nisto. Se me vejo de frente para ele, não conseguirei suster o riso. Vai ser bonito.

Mas, enfim, não era sobre plantações capilares que estava a falar. Tatuagens. Tatuagens artísticas.

Estas que aqui vos mostro apareceram no 13º International London Tattoo Convention.





Muito lindos, sim senhor.

Mas eu, mal por mal, antes os das pinturas corporais que, mal tomem banho, voltam ao normal. Vide, por exemplo, estes aqui abaixo que usam o corpo como uma tela para reproduzir pinturas célebres. Também em Londres, of course.


Ia agora fazer um comentário, sugerir uma pintura (até inspirada num post de um blog aqui da galeria lateral) mas abstenho-me. Estou com o meu nível de censura interna muito baixo, ainda ia ferir algumas susceptibilidades. Parecendo que não ainda há umas virgens putativamente ofendidas que por aqui resistem e que, volta e meia, quando alegadamente piso o risco, se zangam comigo e, bolas, bolas, bolas, eu isso não quero. Portanto, calo-me já.

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Só mais uma coisa:
uma musiquinha dos meus amigos OK Go que me está apetecer entra e sair de paredes

OK Go - The Writing's On the Wall



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E pronto. É isto. E agora vou pregar para outra freguesia. Vinha para falar dos edifícios que visitei no domingo naquilo do Open House mas pus-me a falar da Melania e do doido varrido do Trump e da mão misteriosa do ex-Dirty Harry desviei-me dos meus bons propósitos. Acontece. Mas desçam que também tem graça. Kind of.


quinta-feira, setembro 14, 2017

Palavras que fazem mal


Tento lembrar-me e, menina feliz, nada me ocorre. Palavras que, quando eu era criança, alguém me tenha dito e que tenham doído a ponto de nunca mais as ter esquecido. Mesmo adolescente. Mesmo adulta. Não me lembro de nada. No entanto, sabido é que tudo se me varre, especialmente coisas más. Admito que alguém, alguma vez, me tenha ofendido ou tentado denegrir-me. Contudo, provavelmente, na altura, devo ter pensado que palavras de burro não chegam ao céu ou que, quem assim me tratou, devia ser algum palerma encartado ou coisa do género e, portanto, na hora, a coisa logo se esvaneceu. A verdade é que não me lembro de nada. Não sei se é mecanismo de defesa, ou seja, se é uma forma inconsciente e automática de limpar emoções ou pensamentos tóxicos dentro de mim ou se sou simplesmente desmemoriada, vulgo cabeça de alho chocho.

No entanto, conheço pessoas que guardam mágoas de anos, recordando com tristeza palavras que alguém, em criança, lhes dirigiu. Dizem: 'Ficou-me gravado'. ou 'Ainda me lembro como se fosse hoje'.

Tenho estado aqui a pensar em gente com quem, ao longo de anos, tive alguns desaguisados. Por exemplo, o que já antes aqui contei, quando, sendo eu directora, o administrador de quem dependia me disse que, se eu não conseguia concordar com ele e acatar as suas orientações, sabia bem o que deveria fazer. Dessa não me esqueço. Mas também não me esqueço da minha resposta: 'Mais depressa vai um administrador ao ar que um director.' E, na verdade, pouco depois, tiraram-lhe o meu pelouro e, não muito depois, foi destituído. E eu continuei, tranquilamente. Portanto. Ou seja, as palavras dele não me perturbaram, apenas me deram pica e, no conjunto, recordo a conversa com vontade de rir.

Agora mesmo, ao jantar, o meu marido lembrou outro caso, uma situação com o nosso vizinho Rodrigo. Conto. O que ele disse também é inesquecível.

Terá uns trinta e tais, talvez já uns quarenta, consultor, boa figura, bem vestido, bem falante. Na altura vivia com a primeira mulher e com a filha. Uma conversa sempre extraordinária, mesmo bem falante. Tinha feito umas obras aparatosas no andar e, da rua, via-se a casa sempre super-iluminada, grandes janelas sem cortinas deixando ver o interior. Era, então, o responsável pela gestão do condomínio. Já ia no segundo ano. Entretanto, a mulher deixou-o e ele ficou com a casa. Entrou numa fase de festas e festanças. Rapou o cabelo, deixou crescer a barba. Parecia um consultor-taliban. E, com frequência, até às quinhentas, a casa cheia de gente, não sei se dançavam, se quê. Se calhava chegarmos tarde a casa, lá se via aquele ajuntamento aparentemente numa grande farra. Nada a ver. Não tínhamos nada a ver com aqueles convívios. Estou apenas a contextualizar. A questão é que não fazia as contas do condomínio. Não recebia as mensalidades de parte dos condóminos que, por ele não ter antes passado recibos, tinham deixado de pagar. Connosco também aconteceu isso. E já havia também queixas de atrasos em alguns pagamentos, às senhoras da limpeza, por exemplo. E, como não tinha contas, não podia passar o testemunho já que ninguém queria pegar numas contas por fazer, uma bagunça: não se sabia quem e quanto devia ou a quem é que o condomínio devia. Com aquela conversa dele, sempre charmoso, ia empurrando com a barriga: que na semana seguinte apresentava as contas, depois que não tinha conseguido, que no mês seguinte era de certeza, e assim sucessivamente.

Um dia subi com ele no elevador e chamei-lhe, de novo, a atenção. Por uma vez foi honesto e, cabisbaixo, confessou que tinha perdido o fio à meada, que não conseguiria fechar as contas. Disse-lhe: 'Isso já eu percebi há muito tempo. Mas alguma coisa vai ter que fazer, senão isto apenas se agrava. Organize minimamente os papéis, peça ajuda. Porque é que antes ainda não me tinha dito isso?'. Ficou em silêncio e depois disse esta coisa surreal: 'Porque tenho medo de si'.

Bem. Fiquei estupefacta. Só fui capaz de lhe dizer: 'Essa é boa. Coisa mais disparatada. Você não é bom da cabeça.' E ele entrou em casa dele e eu segui viagem no elevador.

Quando cheguei a casa, contei ao meu marido. Fartou-se de rir. Disse: 'É para que vejas o que eu sofro contigo. Até o Rodrigo, que pouco te vê, tem medo de ti...'

Mas lá está. Desta não me esqueço. Mas não me traumatizou, apenas me divertiu.

O bom do Rodrigo, entretanto, arranjou logo outra mulher e já tem mais um filho. Quando me vê, baixa a cabeça e cumprimenta-me com deferência. O meu marido diz em surdina: 'Coitado, não conseguiu fugir a tempo, teve que te cumprimentar, mas olha para ele, coitado, aflito..., vê-se bem o medo que tem de ti...'

Mas pronto. Vem isto a propósito do vídeo abaixo. Infelizmente, acho que não há versão legendada até porque o vídeo foi publicado ontem. É um vídeo de sensibilização para que não sejamos agressivos, maus, ofensivos para os outros, em especial com crianças. As palavras que nos fazem mal. Não usar palavras que magoem. Não magoar os outros tal como não queremos que nos magoem a nós. Palavras que ficam gravadas: 'Não vales nada', por exemplo. Nunca dizer nada a uma criança que a faça sofrer. Nunca, nunca, nunca. As palavras podem ferir mais do que uma palmada. Nunca dizer a uma criança: 'Já não gosto de ti' ou 'gosto mais do teu irmão do que de ti' ou 'que mal fiz eu para merecer ter um filho como tu?'. Nunca, nunca, nunca. 

Contra a violência verbal.
Não dizer às nossas crianças (nem a ninguém) palavras que fazem mal




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As imagens que intercalei no texto mostram trabalhos feitos pelo tatuador turco Alican Gorgu (AKA PigmentNinja) que tatua imagens que representam fotografias de família, em especial dos próprios quando crianças.


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domingo, setembro 10, 2017

O meu corpo é uma tela e dela faço eu o que quiser?
[3º de 5 posts]


De novo, dois casais. Elas sem nada a referir. Eles, pelo contrário, com o corpo orgulhosamente tatuado de uma ponta a outra. Já não muito novos. Coloridos de uma forma muito idêntica. Sendo amigos, devem ter feito as tauagens no mesmo sítio. 

Interrogo-me: porque se tatua assim uma pessoa? É uma questão estética? Um gesto de auto-afirmação? Com o meu corpo faço o que eu quiser? Uma forma de exprimr a liberdade que lhes vai na alma?

Não percebo. Não gosto. Acho quase uma mutilação. Mas respeito. E, no caso destes dois homens, até achei uma certa piada. Flores e monstros impressos no corpo como se a pele fosse um cenário para as suas fantasias.





Extraordinários. 

Pena tenho eu de não ter coragem para chegar ao pé das pessoas e pedir-lhes que me deixem fotografá-las à vontade, entrevistá-las, trazer para aqui a sua história. Isso é que era. Tenho a certeza que, com estes dois, a conversa haveria de ser animada.

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sábado, dezembro 17, 2016

Vai uma tatuagem, meu gatinho mais lindo...?




Durante anos, quando ainda não era moda, alimentei a vontade de fazer uma tatuagem. Dissuadiam-me, que não, que não, que horror. Queria uma rosinha, coisa simples na parte de cima de um seio, algures entre o fim do seio e o caminho ascendente para o ombro. Ou isso ou nas costas, numa omoplata. Tinha que ser num lugar que não viesse a padecer dramaticamente de flacidez. Um botão de rosa todo murcho é que não.

Achavam-me uma extravagante. E eu não sabia onde ir, só sabia de sítios chinfrins, sem condições de higiene. Ficou essa vontade pelo caminho e agora já não quero. Odeio alinhar em modas massificadas. 

Também achava graça a piercings mas isso fiz um, na orelha. Tenho as orelhas furadas para usar brincos e depois, por cima de um dos orifícios, tenho um outro onde uso um brinquinho ínfimo, pouco mais que ponto dourado ou brilhante ou o que for, pequeno, discreto. 

Agora isto das tatuagens banalizou-se até à obscenidade. Gente pintada de alto a baixo, pinturas horrorosas, coisas de um mau gosto gritante. Mas, enfim, gente doida é o que não falta. Gente com um mau gosto de bradar aos céus, então, é aos montes. No outro dia, uma bem nutrida, estava de calções, botas, uma blusa transbordante de galhardia bizantina, um cabelo completamente assanhado e, numa perna (vi eu!), um cão. E como tinha perna grossa, o cão era quase em tamanho natural. Outra vez era um casal e o homem tinha num braço a cara da mulher. Uma coisa tétrica.

Às vezes penso com horror que gente que faz estas escolhas deveria ser interditada de votar.

(O horror tem a ver com as ideias que me vêm à cabeça).


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As gravuras são da autoria de Kazuaki Horitomo que também se especializou em tatuagens de gatos (isto é, a fazer desenhos de gatos em humanos) e por causa dele é que escrevi este post.


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sexta-feira, maio 27, 2016

O artista dos mamilos


Penso que todas as mulheres conhecem o potencial erótico dos seus seios. No outro dia ouvi uma mulher dizer, num vídeo que aqui coloquei, que a mente masculina é que implantou erotismo nos seios femininos porque a função deles é amamentar os filhos. Não vou avançar por aí porque essas discussões do ovo e da galinha ou do homem versus mulher não me interessam. Os homens gostam dos seios femininos e ponto. E penso que, por isso ou independentemente disso, as mulheres gostam de ter seios bonitos ou gostam que gostem dos seus seios. Claro que haverá excepções mas, como não fiz qualquer estudo sobre o assunto nem me documentei, falo de cor, falo do que conheço. Claro que uma mulher gostar dos seus seios não significa que os ache perfeitos pois tal como o cabelo, as pernas, as ancas, a estatura e tudo o mais, nunca nada está na medida certa. Mas, enfim, é o que há e, portanto, em vez de uma pessoa viver infernizada com a sua natureza, o melhor é tomar os seus atributos por aliados e, na medida do possível, valorizá-los.

Mas por vezes a natureza é traiçoeira.

Do que sei, quando a uma pessoa é diagnosticado cancro, a sensação é de que uma traição ocorreu e que a vida está prestes a entrar no beco de todas as desgraças onde o pior pode acontecer.

Quando a minha mãe foi fazer uma colonoscopia, convencida de que não tinha nada de especial, felizmente estando acompanhada por uma amiga, ficou quase sem acção quando a médica, no final, lhe disse que tinham que conversar, que deveria marcar com urgência mais uma série de exames e que deveria ser operada o quanto antes. Nessa altura, ela ligou-me e, num fio de voz, disse-me que era melhor eu ir lá porque havia coisas a combinar.

Voei, aflita, e, quando cheguei, encontrei-a com a amiga, a amiga em silêncio e ela, branca, voz quase sufocada, pensando no que iria acontecer ao meu pai, naquele estado, estando ela fora, no hospital. Antevendo o pior para si própria, era sobretudo com ele se preocupava.

Em cerca de umas duas semanas estava a ser operada, meio cólon para o lixo, e felizmente, até ver, tudo a correr bem. Provavelmente apanhou o bicho mau ainda no início. Quando me fala no que aconteceu quase a querer considerar-se doente digo-lhe que esqueça, que teve uma porcaria dentro dela mas que, em boa hora, deu por isso e que acabou, está boa, melhor agora que antes porque antes a semente do mal provavelmente andava por lá e agora, tendo sido detectada, foi varrida de cena. Digo estas coisas assim, provavelmente carregadas de ignorância, mas que me tranquilizam e que, sobretudo, quero que a tranquilizem a ela.

A mulher de um colega meu também teve uma má notícia: no peito. Um seio à vida. Teve menos sorte que a minha mãe porque teve que fazer quimioterapia. Passou mal. Caíu-lhe o cabelo. Esteve cá em casa na altura em que usava peruca. Fomos todos dar uma volta a pé menos ela que não quis, estava vento e tinha medo que o cabelo voasse. Teve uma menopausa antecipada. Tornou-se hipersensível. O marido sofreu por ela e pelo que teve que lhe aturar. Fez uma reconstrução. Não sei se ficou bem pois nunca falou no assunto. Mas ficou livre do cancro e isso foi o mais importante.

Aquela amiga da minha mãe, uma corajosa ex-professora de oitenta e tais anos, viúva, já não tem seios nem parte do estômago. Tudo isso lhe aconteceu tarde na vida. Mas vive descontraída e feliz como uma menina que nada soubesse da vida. Passeia que se farta. Fala com acentuado sotaque alentejano, cheia de bom feitio, disponibilidade e graça. De vez em quando, encontro-a em casa da minha mãe: conversam e riem-se. Por vezes, lá vem à baila alguma preocupação. 

No entanto, imagino que, nos casos em que a reconstrução mamária não é perfeita, sobretudo quando a mulher ainda tem uma vida sexual activa ou um parceiro com quem partilha a sua intimidade, subsistirá alguma frustrante inibição, a nudez deve ser uma provação -- como se a lembrança do que aconteceu lhe tivesse ficada gravada na pele. Esta é uma mama a fingir porque por aqui passou um bicho mau que devorou a original.

Vi uma reportagem da The New York Times, que já não é de agora, sobre um homem que dedica a sua vida a fazer tatuagens em seios reconstruídos, simulando na perfeição os mamilos. Gostei de ver. Geralmente associamos as tatuagens a alguma subversão ou a um tipo de estética alternativa e, no entanto, a tatuagem pode também ter uma função em que nunca tinha pensado.

Partilho convosco este vídeo que a mim me comoveu pois pode acontecer que seja útil a alguém. 

The Nipple Artist | The New York Times




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