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segunda-feira, março 23, 2026

Ouço uma conversa assim, pessoal, íntima, entre um homem e uma mulher, e penso que seria provável que acabassem apaixonados

 

O meu dia foi, tal como o anterior, muito bom e muito tranquilo. Fomos lanchar/jantar a casa do meu filho, e estivemos na casinha de vidro que têm no jardim, que é um lugar muito agradável. Como o dia esteve primaveril, o ambiente fica ainda mais acolhedor. Os lugares em que estou com os meus é sempre um lugar de felicidade. 

Antes de irmos para lá, estive ao sol que não estava muito quente mas que, apesar de tudo, me aqueceu levemente a pele. Ouvia os pássaros e os sinos e pensei o que penso muitas vezes: mesmo que fosse só por um momento assim já valeu a pena. 

Já aqui contei mas, como penso nisso muitas vezes, vou repetir. A primeira vez que me encontrei com um colega depois do confinamento, contei-lhe que tinha mudado de casa. Descrevi-a, disse onde era, e ele ficou pensativo e disse que, quando sabe que algum amigo mora numa casa assim, pensa sempre: 'e quando um dos dois morrer, a casa não fica grande demais só para um?'. Já não me lembro se me ri e lhe disse que estava mórbido demais para o meu gosto ou se fiquei contagiada, melancólica. Só sei que lhe disse que não tínhamos pensado nisso mas que, quando isso acontecer, logo se verá, mas que, até lá, valerá sempre a pena. E tem valido. No verão fará seis anos que aqui vivemos. E cada dia vale a pena. Mas penso no que ele me disse. A lei das probabilidades não esconde que talvez um dia um de nós dois vá antes do outro. Espero que seja daqui por muitos e bons anos. Mas, quando acontecer, será um problema, claro, em especial se, nessa altura, já for, como desejo que seja, bem velhinho. Um velhinho ou velhinha numa casa grande, sozinho/a, longe do centro da cidade, será sempre complicado. Mas os problemas existem para serem resolvidos e, em princípio, a sua resolução requer sempre uma avaliação concreta das circunstâncias. Portanto, como não se sabe quais as circunstâncias desse dia futuro, não vale a pena estar agora a pré-ocupar-me com isso. 

O que vale a pena é pensar: estou aqui, agora, estou bem, gosto de aqui estar, tenho a sorte e a felicidade de aqui viver e de poder sentir o sol, ouvir os pássaros e a música dos sinos, ver as árvores e as flores, andar descalça, pôr as mãos na terra, estender roupa ao sol.

Mas, portanto, ponho-me ali nestas divagações e nem me apetece pegar num livro, estou simplesmente ali, a existir. Também poderia pegar no computador, ver as notícias, circular pelo youtube, não deixar tudo para as tantas da noite. Mas não. Há isto de que já falei um milhão de vezes: tenho que viver o lado funcional durante o dia, cozinhar, jardinar, fazer compras, arrumar coisas, etc, e depois aproveitar um bocado para estar sem fazer nada, a pensar, a dormitar, a olhar em volta. Não quero deixar que esse tempo seja invadido pelo silêncio de que preciso à noite. 

Por isso aqui estou agora. Comecei por me informar sobre esta guerra perigosa -- mas hoje não estou com disposição para me deixar atormentar. Por isso, desviei-me, escolhi outra rota: estive a ouvir a lenta, gostosa, conversa entre a Bella Freud, designer de moda e filha e neta de dois ilustres Freud, Lucian e Sigmund,  e o escritor Karl Ove Knausgaard.

Já no outro dia aqui partilhei um vídeo de uma outra destas conversas. Há vagar, há espaço, não há interrupções nem confrontações. Ouve-se, partilha-se, está-se disponível. É bom de ouvir, são momentos de calma.

Desta vez o convidado é improvável. Mas o engraçado é que a coisa funcionou muito bem. Há uma empatia entre eles, talvez até mais que isso. Gostam de ouvir o que o outro diz, entregam-se à escuta do outro. A conversa vai para áreas sensíveis. Não que ele já não tenha escrito sobre isso: o alcoolismo do pai, o sofrimento que isso lhe causou, o impacto que teve na sua vida. Mas escrever, no silêncio, é uma coisa: não há ninguém a ver, não há ninguém a ouvir, não há ninguém a questionar. Outra, muito diferente, é falar sobre assuntos íntimos e difíceis com alguém. Mas, aqui, a conversa flui.

E sente-se que, um momento assim, tão íntimo, tão exposto, tão sincero, pode dar lugar a um belo romance de amor. Não sei como foi quando ele se levantou do sofá, podem apenas ter-se despedido, gostei muito, thanks e até um dia destes -- mas a mim parecer-me-ia natural que se abraçassem, e, quando falo em abraço, falo em abraço a sério, apertado, demorado. Parecer-me-ia também natural que, depois do abraço, se olhassem nos olhos. E um olhar prolongado nos olhos um do outro, um deep dive, já se sabe ao que leva. Ou seja, parecer-me-ia natural que se beijassem. E, já que o sofá está ali à mão de semear e já que não são umas crianças e que, naturalmente, não têm muito tempo a perder, que testassem logo ali mesmo ver se os corpos também se entendiam entre si.

Mas isto sou eu a ficcionar. Gosto de histórias de amor.

Karl Ove Knausgaard sobre o Poder dos Pais | Podcast Fashion Neurosis com Bella Freud | Vídeo

Karl Ove Knausgaard é um escritor norueguês. O seu romance autobiográfico "A Minha Luta", lançado em seis volumes, foi aclamado como uma obra-prima em todo o mundo. Exerce um grande fascínio tanto sobre os intelectuais como sobre os jovens que refletem sobre o propósito existencial da vida.

O autor Karl Ove Knausgård junta-se a Bella Freud para uma conversa intimista que explora o poder dos pais e as complexidades da identidade. A discussão aprofunda as experiências pessoais com a vergonha e o significado inesperado das escolhas de vestuário. Prepare-se para reflexões perspicazes sobre relacionamentos, arte e a busca universal do eu. 


Desejo-vos um dia feliz

domingo, janeiro 05, 2025

Como escolhemos 'aquele' ou 'aquela' que nos vai dar volta ao miolo? Como é que, no meio de mil opções, escolhemos quem vai ser o nosso crush? Qual o algoritmo que o nosso cérebro usa?

 

É uma questão de química? Ou é mais uma questão física? Uma questão psicológica? É aquele je ne sais quoi?

As borboletas no estômago são desencadeadas por quê?

É aquilo das almas gémeas? (Um aparte: por mim, posso acreditar em tudo menos nessa fantochada das almas gémeas... Quem é que quer ter uma paixão por uma alma gémea? Não percebo. Não é que seja por até soar a incestuoso, é mesmo por ser uma seca)

O vídeo abaixo explica tudo bem explicado. E, afinal, como é mais que sabido, é mesmo uma cosa mentale... 

How Your Brain Picks Your Crush!

Ever wondered why you’re irresistibly drawn to certain people? In this video, we uncover the fascinating science of attraction and reveal how your brain secretly picks your crush! From the chemicals that fuel those butterflies to the subconscious patterns that guide your preferences, this deep dive will leave you amazed at what’s really happening in your mind.

We’ll explore the roles of dopamine, oxytocin, and serotonin, the psychology of familiarity and the “X factor,” and even how evolutionary biology influences your love life. Plus, find out why it’s not just about looks but also personality, emotions, and unique connections.


domingo, setembro 11, 2022

Amor, medo, noites sem dormir. O telefone ao lado da cama.

  



“É um triângulo impossível e todos se sentem magoados”, diz ela. “Algumas pessoas conseguem. Eu não. Foi uma situação destrutiva. É preciso coragem. Percebi perfeitamente o dano que isso pode causar. Para cada um de nós, foi doloroso. No entanto, não se consegue parar. É o que é. É como se tivéssemos que estar na frente de um dragão e tivéssemos que enfrentá-lo, sabe?” 

Porque é que não conseguia escolher entre os dois homens da sua vida? 

“Nós amamos de maneiras diferentes, acho que se pode dizer”, responde. “É como perseguir uma necessidade dentro de nós. Quando estamos no meio de uma situação destas, não percebemos porque é que acontece”

Penso no conselho que foi dado a Binoche aos 14 anos por uma amigo artista da sua mãe, quando ela não conseguia decidir entre atuar ou pintar. “Juliette: escolhe fazer tudo!”

Mesmo enquanto Sara está a planear encontros com François, ela convence Jean de que não há nada em andamento, que ela e ele foram feitos um para o outro. Porquê submeter os dois a essa tortura? "Tem que ser", diz Binoche decisivamente. “Ela está perante uma necessidade em si mesma, um apelo sexual, como uma onda de calor, talvez de amor. Tem que ser vivido. Ela tem que perceber o que é. Se ela não fizer isso, ela estaria a colocar-se entre parênteses, ou... no frigorífico! É o que a torna humana e verdadeira.”

 “Permitir-se passar por isso é incrível porque muitos de nós diriam: ‘Não, é muito destrutivo’ ou ‘vou perder o que já tenho’. Tornam-se conservadores antes mesmo de começar. Mas quando uma onda tão grande está a chegar, é difícil não dizer sim, eu acho. Ela pede para ter essa liberdade de ser ela mesma, sem saber qual será o resultado. Isso é tão corajoso. E terrível! Eu sei o quão doloroso e perigoso pode ser.”

Tradução livre do artigo: ‘I fell in love with two men – it was unbearable!’: Juliette Binoche on love triangles and ‘little boy’ Gérard Depardieu. A propósito do filme Both Sides of the Blade


Porque há Leitores que me acompanham há muito tempo não vou entrar em pormenores ao voltar a recordar os épicos tempos em que vivi uma situação de intenso triângulo amoroso. Durou três, quatro meses, não mais, mas foi o que Juliette tão bem descreve: amor, medo, noites sem dormir. 

E é tanto mais difícil quanto se decide expor a situação aos envolvidos. Pretendia ser franca, pensava eu, mas no fundo talvez esperasse que ambos aceitassem a situação. Melhor: nem sei bem o que esperava quando contei ao mais recente que eu já namorava, namoro firme, intenções de casamento já em andamento e quando contei ao legítimo namorado que achava que tinha conhecido o homem da minha vida. Não sei o que esperava quando me despedia de um dizendo que ia passar o fim de semana com o outro ou quando, ao domingo, me despedia deste dizendo que me ia encontrar com o outro no dia seguinte.

Claro que, se o 'intruso' começou por aceitar bem a situação, pois ele é que estava a entrar em terreno ocupado, já o outro aceitou pessimamente desde o início. E digo que aceitaram pois não podiam impedir-me e, portanto, deram por eles a viver essa situação. E claro que o 'intruso' ao fim de algum tempo também já não aceitava bem que eu me despedisse dele para me ir encontrar com o outro. Uma situação que se complicava de dia para dia.

E claro que, por fim, por defesa pessoal e também deles, eu já não podia ser completamente sincera. E não ser sincera dava cabo de mim. E claro que, por fim, já andava era sempre com medo que se cruzassem e que a coisa desse para o torto. Aliás, uma vez quase deu.

Não é fácil. Mas é o que Juliette Binoche diz: quando acontece parece que não há volta a dar, a tentação fala mais forte.

Até que um dia, inevitavelmente, há que tomar uma decisão, fazer uma escolha. 

No entanto, tenho para mim que a escolha só tem que acontecer porque os homens são muito territoriais. Se fossem menos picuinhas, talvez a convivência fosse pacífica. Para quê tanto drama?



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Já agora, e porque Juliette Binoche também pinta e são suas as pinturas que aparecem no filme Words and Pictures também referido no artigo acima citado, aqui fica o trailer desse filme em que contracena com um dos meus xodós, Clive Owen.


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E é verdade, Lucy, Juliette Binoche é uma das mulheres que aos 58 anos continua belíssima e sem problemas em mostrar a idade que tem. Belíssima, sedutora, fantástica actriz.

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A todos um bom dia de domingo
Saúde. Vontade de viver. Paz.

sexta-feira, agosto 12, 2022

Só há uma pergunta a fazer quando se pensa em casar

 



A pergunta refere-se a casar mas quem diz casar diz juntar os trapinhos ou namorar. Para o efeito, vai tudo dar ao mesmo.

E a pergunta quem vai dizer qual é não sou eu, é o Rubem Alves aqui abaixo, que, através dele, a coisa soará mais inquestionável do que se for eu a botar prosa.

O que posso dizer, e digo com os ensinamentos que um casamento de mil anos já me proporcionou, é que, a meu ver, as questões críticas são as seguintes: 

    • entendemo-nos? 
    • estamos bem um para o outro? 
    • vivemos no mesmo mundo? 
    • orgulhamo-nos um do outro? 
    • estaremos sempre cá um para o outro? 

É que é tudo muito bonito mas se um fala de alhos e outro de bugalhos, se um gosta de natureza e outro de estar fechado em casa, se um vive na terra e outro (pensa que) vive na lua, se um até treme com os disparates que o outro a qualquer momento pode dizer ou se um está sempre disponível para o que for preciso e o outro nunca está nem aí, então... então, adeus minhas encomendas.

Pode a gente achar que o outro até é lindinho ou que, volta e meia, faz umas flores ou, quem sabe, pode iludir-se e sonhar que o outro pode vir a modificar-se e melhorar... mas se, lá no fundo, aquilo que acima referi é uma sombra que a gente pressente que existe (embora querendo fazer de conta que não tem importância), então, é para esquecer. Pode a coisa aguentar-se algum tempo, podem agarrar-se à probabilidade de a coisa vir a melhorar... mas é tempo perdido, oh lá se é.

Claro que há mais factores relevantes para a coisa dar certo. Por exemplo, há o lado físico. Fundamental. Do mais fundamental que há. A gente pode armar-se em platónica, em lírica, em anjinha, mas, vamos ser claros, se a gente não sente uma atração, uma afinidade de pele, um prazer em estar junto, em olhar de perto, em olhar de longe, em olhar para dentro, em sentir o cheiro, o toque, o calor, se a gente não gosta do tom de voz, se a gente acha que aquelas mãozinhas não sabem agarrar, que aquela boca não sabe causar um arrepiozinho bom.. então é a mesma coisa: para esquecer. Não vai dar. Mais vale saltar fora.

E outra: se são almas gémeas, iguaizinhas, se o que um pensa é tal e qual o que o outro pensa, se gostam exactamente ds mesmas coisas, se estão sempre de acordo... então, bye bye maria ivone. Não dá. Uma seca. Ao fim de algum tempo, se ainda não tiverem morrido de tédio, já estarão a pular a cerca cada um para seu lado. 

Hoje, ao fim da tarde, antes de resolvermos ir passear para a praia, espreitei a netflix. Apareceu-me a casamenteira indiana. Deixei-me ficar durante um bocado. Há mundos paralelos. Uma pessoa nem sonha que, aos dias de hoje, ainda existem casamenteiras. Os que querem arranjar noivo enumeram os requisitos para que a casamenteira saiba o que procurar. As mulheres que salteadamente vi, querem homens da mesma idade ou um pouco mais velhos, mais altos, bem sucedidos, pessoas de família. Coisas assim. A casamenteira acha que, se houver um mínimo de afinidades, com o convívio e a vontade de dar certo, a coisa acabará mesmo por vingar. Não sei. Se calhar, quando não dá certo, toleram-se, resignam-se. Mas isso não é a minha cena. Se é para ser, tem que ser mesmo, de verdade, amor a sério.

Amor que é amor e que perdura como amor tem que ser coisa de boa cepa, sentimento forte, elástico, flexível, resiliente, auto-regenerativo.

Mas, enfim, isto sou eu a falar e, na volta, sou exigente para lá da conta. No entanto, a sensação com que estou é que, apesar do que já disse, devo ter-me esquecido de mais um montão de coisas importantes. 

Ah, sim, agora lembrei-me de uma que é fundamental: tem que ter sentido de humor. Humor é oxigénio. Eu morreria à míngua se tivesse que viver com alguém que não soubesse fazer-me rir.

E tem que ser generoso. Gente má, mesquinha, invejosa, complicada, implicante, tem que estar longe. Gente assim infecta. Não pode. Distância. Xô!

Ah, sim, outra que é fundamental. Podem crer: fundamental. A gente tem que olhar e ter a certeza que o outro vai ter sempre a capacidade de nos tirar o tapete, de nos tirar o chão, de nos tirar a respiração. E de nos tirar do sério

E há mais. De certeza que há.

Mas agora passo a palavra a um mestre que acha que nada disso, que tudo se resume a uma questão:

Rubem Alves • Só existe uma pergunta a ser feita quando se pretende casar


Transcrevo o texto que acompanha o vídeo no Youtube:
Depois de muito meditar sobre o assunto, concluí que os casamentos são de dois tipos: tênis e frescobol. Casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e costumam ter vida longa. Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente: “Ao pensar sobre a possibilidade do casamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a velhice?’. Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar”.

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme “O império dos sentidos”. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar “mil e uma noites”. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre depois de morrer.

Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: “Eu te amo, eu te amo…”. Barthes advertia: “Passada a primeira confissão, ‘eu te amo’ não quer dizer mais nada”. É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: “Erótica é a alma”.

O tênis é um jogo feroz. Seu objetivo é derrotar o adversário. E a derrota se revela no erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir. E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo.

A bola são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá… Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão. O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde. Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem, cresce o amor… Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim.
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As fotografias são de Man Ray e Melody Gardot interpreta If you love me

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Desejo-vos uma boa sexta-feira
Saúde. Boas descobertas. Bons amores. Paz.

quinta-feira, junho 30, 2022

4 programas de televisão. 4 vídeos. 5 pinturas. 1 canção.

 


American Master Chef Junior -- fico espantada, intrigada, comovida. Não percebo como é possível aquelas crianças saberem tantas técnicas, conhecerem tantos ingredientes, instantaneamente terem tantas boas ideias, terem tanta perícia, tanta força, tanta perseverança, tanta rapidez, tanta confiança, tanta generosidade. Pasmo, pasmo, pasmo. E, quando a Eva saiu, chorei. E quando vi o Grayson atrapalhado, atrapalhei-me também. E, quando ele ficou choroso, eu fiquei chorosa também. Outra coisa: depois das minhas barrigas gigantes não tinha visto coisa semelhante até ver a da Daphne. Não sei como não lhe cai a criança aos pés. Tento não perder.

Pantanal -- a vida na natureza. Os grandes espaços. As águas correndo com mansidão. As verdejantes margens do rio. O encantamento mágico. As histórias populares. A música. Os preconceitos postos a nu. A graça da forma como falam, a língua portuguesa adoçada com o tempero das terras perdidas nas lonjuras. As personagens tão cheias de evolução nas suas histórias. A valentia vulnerável dos homens-macho. A sabedoria das mulheres. A irresistível paixão entre Juma, filha de Maria Marruá, e Jove, filho de José Leôncio, o jovem desengonçado de quem a peãozada diz ser flosô, uma paixão que é tão real que fez com que os seus protagonistas, bissexuais assumidos, virassem um apaixonado par amoroso. 


10 anos mais jovem, Reino Unido -- as pessoas chegam derrotadas, a vida passou por cima delas e elas chegam com o rosto amassado, os dentes estragados, a pele gasta, o cabelo velho, o corpo cansado, a vontade esgotada, o sorriso escondido, os gestos envergonhados. E, então, pegam nelas, e refazem tudo o que podem, tatuam os rebordos dos lábios, alisam a pele, florescem as sobrancelhas, cortam, pintam, amaciam e penteiam os cabelos, descobrem a roupa que melhor se adequa, disfarçam e maquilham... e, no fim, as pessoas estão mais novas, mais bonitas, mais confiantes. E sorriem, felizes da vida. 

Original é a Cultura - pessoas que falam com tempo, outros que escutam calados e atentos, observações interessantes, temas vistos sob perspectivas diferentes, apontamentos que se escutam com curiosidade. Carlos Fiolhais, Dulce Maria Cardoso, Rui Vieira Nery sob moderação de Cristina Ovídio. Do melhor a nível de conversas em televisão. Devia passar em horário nobre.

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Dermot Mulroney, além de ser um actor conhecido, é um violoncelista talentoso. Sentou-se para ser pintado por pintores no Paul Schulenburg Studio em Cape Cod Massachusetts, e tocou para eles num intervalo.

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No deserto do Arizona, pode visitar-se uma das casas do famoso arquiteto Frank Lloyd Wright. Mas nos últimos meses, o local também abriga uma instalação do artista de vidro Dale Chihuly. O correspondente especial Mike Cerre analisa como o trabalho desses dois artistas se uniu na paisagem acidentada.

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Um retiro familiar tranquilo numa vila no Vietname


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Pinturas de Alberto Burri na companhia de Maro com We've been loving in silence (com o Salvador para despistar)

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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Motivação. Alegria. Paz.

terça-feira, junho 08, 2021

Dez sinais de que outra pessoa está atraída por si

 


Não há coisa melhor do que a gente se sentir atraída por outra ou sentir que alguém que nos é especial está atraído por nós.

E, ao escrever isto, hesito: não há coisa melhor? não haverá mesmo...?

Bem, talvez haja. A gente ter saúde é fantástico. A gente ter os nossos também de boa saúde e felizes da vida é ainda melhor. A gente sentir-se realizada e motivada para fazer mais e chegar mais além é também do melhor que há. Ou seja, aquilo ali em cima de não haver coisa melhor não deve ser tomado à letra. Quero apenas dizer que é uma coisa boa. Quentinha de boa. Saborosa. Saborosinha.

Depois de um tranquilo -- e sem televisão -- não tenho notícias para comentar e nem acontecimentos meus para relatar. Ao fim da tarde, no jardim, estive a ver, rever e contemplar as decorações da revista que a minha filha me trouxe e, vendo aqueles ambientes claros luminosos, fiquei a fervilhar de ideias. E ando com aquela atravessada: arranjar uma lata de tinta em spray para me pôr a pintar móveis. 

Abri o youtube para me pôr a ver casas e jardins e eis que me apareceu outra vez a Jamila Musayeva. Pensei: o que será desta vez? como entrar na água do mar sem se arrebitar aos saltinhos aflitos? como pintar flamingos nas nails dos pés mantendo a compostura? Mas não. Para minha surpresa, o tema não tinha nada a ver. Dez sinais na expressão corporal de que outra pessoa está atraída por si. Fiquei curiosa. Pensei: a Jamila sabe estar à mesa e sabe dessas coisas das etiquetas mas... atracção... está bem, está... Mas, cusca como sou, por via das dúvidas, fui conferir. 

E, estranhamente, concordei com tudo o que ela para ali foi desfiando. 

Digo-o agora por minhas palavras a ver se consigo ser tão convincente como ela.

Olha-se para duas pessoas e sabe-se logo se estão atraídas uma pela outra. Ou olha-se alguém e sabe-se, ah sabe-se..., se essa pessoa está afim de nós. Não tem que enganar. 

Sei que há muitas pessoas que têm dúvidas e, portanto, receando estar equivocadas, retraem-se. E o outro, vendo a pessoa retraída, retrai-se também. E o momento passa.

Mas não tem que enganar. 

Pessoas que se atraem estabelecem contacto visual de uma forma íntima, uma pessoa tem vontade de ver o outro por dentro. Têm vontade de estar fisicamente perto. Olha-se e percebe-se que há um braço que se aproxima do outro, uma perna que tem vontade de sentir o calor da perna do outro, qualquer oportunidade é boa para tentar tocar a mão do outro. E as pessoas sorriem abertamente na direcção uma da outra. A felicidade de estar perto do outro faz com que o sorriso se abra só de o olhar. Quem se sente atraído pelo outro sorri e o sorriso é inevitável, é um sorriso que encerra cumplicidades e recorda ou promete malícias, contém insinuações, sugestões, e percebe-se que quer estar fisicamente perto e não consegue deixar de olhar os olhos do outro. E não dispensa a gargalhada. Quem se sente atraído por outra pessoa acha-a divertida. Não há relação que se aguente sem bom humor de permeio. Quem quer atrair o outro, sabe como fazê-lo rir e ri-se com ele. O riso partilhado é essencial, é vitamina, é combustível, é oxigénio, é elixir.

A Jamila fala ainda no rubor, fala no brilho nos olhos, fala no corpo aberto na direcção do outro, sem braços ou pernas cruzadas a marcar a distância, fala nos pés na direcção do outro e não na direcção de quem tem vontade de fugir. E eu concordo. Tudo sinais que há coisa. Que há fumo e há fogo. Que há little birds e butterflies, que há promessas no ar, que há desejo de festejar.

Quando a gente sente atracção por outra pessoa não quer cá proteger-se de coisa alguma, a gente quer é que qualquer barreira seja derrubada, a gente quer é que os pés se aproximem, a gente brilha, os olhos brilham, os lábios abrem-se, todos nós nos predispomos ao prazer da sedução mútua.

E se é fácil a quem está de fora perceber o que rola ou pinta entre dois que se atraem, para os próprios isso deve ser ainda mais evidente.

E qualquer relação só vale a pena se isto se mantiver vivo. Se esta chama se esvai, então adeus minhas encomendas.

Haverá quem dê explicações sobre como ressuscitar atracções extintas mas eu sou um bocado céptica em relação a fenómenos de ressurreições. Talvez haja quem diga que não há paixão nem amor nem coisa nenhuma dessas que requer ingredientes tais como sal, pimenta ou açúcar mas há amizade e que amizade é do melhor que há. Pois, sem dúvida. Mas amizade é amizade, não é amor, nem paixão, nem tem a graça das relações onde há o fogo da atracção, o prazer da sedução, o picante e a doçura do lado jubiloso da vida, não há a beleza e o mistério e o risco de um vulcão.

Mas que entre a Jamila Musayeva, que é mais contida que eu e que, além disso, já publicou dois livros.

Signs of attraction: 10 Body Language Signs That Someone Is Attracted To You


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Maria Zagorskaya, Santiago Rusiñol, Dan Dailey, Gustave Klimt, Marc Chagall mostram como é ao som de Norah Jones com Turn me on

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Um dia feliz

Saúde. Alegria. Vontade de festejar.

sábado, março 27, 2021

Vamos falar de amor...?

 


Gosto de histórias de amor. Quando namorava aquele com quem viria a casar-me sentia uma atracção tão absoluta por ele, presumo que fosse aquilo a que também se chama química, que não conseguíamos desgrudar-nos um do outro. Ele ia ter comigo à escola em que eu estudava e eu fazia o mesmo em relação a ele. Cheguei a assistir a aulas práticas dele. Tempos curiosos aqueles. Ao passo que no meu curso era tudo muito formal e todos os alunos levavam tudo muito a sério, no dele tratavam-se todos por tu, alguns professores quase pareciam alunos e reinava a informalidade. 

Atravessávamos a cidade para estarmos um com o outro. Almoçávamos juntos, jantávamos juntos, estávamos juntos até de madrugada. Dormíamos pouco para estarmos juntos o mais que podíamos. Visitámos todos os parques e jardins, conhecemos todos os cinemas, não perdíamos as grandes peças de teatro, exposições, ruas e miradouros. Quando ele ia levar-me a casa, a última das quais uma bela moradia na Lapa, víamos as luzes acesas nas outras casas e invejávamos a intimidade que se adivinhava lá dentro. Naquela casa em concreto, ele tinha que ficar à porta. E isso era um sofrimento para nós. O que fazíamos no escurinho do jardim é outra conversa. O que custava era termos que nos despedir. 

Quando estávamos juntos, no mínimo estávamos abraçados ou a beijar-nos. Uma vez estávamos em casa dos pais dele e uma das suas tias, a sua tia preferida, uma de quem sempre gostei muito, ao ver-nos naquele chamego, olhou-nos com ternura e disse: 'sempre aos beijinhos, como se as bocas fossem rebuçadinhos'.

Uma vez estávamos na Cantina de Farmácia, uma cantina muito decente que havia por bandas que frequentávamos, estávamos na fila para escolher a comida no self, íamos jantar, e, como sempre, era aquele enlevo de que nem nos dávamos conta, quando um senhor, certamente professor ou investigador, olhou para nós e, a sorrir, disse: Se me permitem, deixem que vos diga que, ao ver-vos, tenho que concordar quando se diz que, quando se casa, se passa da poesia à prosa. Rimo-nos. Éramos poesia em estado puro. Aliás, uma vez estávamos num café onde gostávamos de ir, e estávamos como sempre estávamos, olhando-nos, sorrindo, dando-nos as mãos, ele fazendo-me rir, por vezes fazendo bolinhas de papel com o papel das toalhas ou dos guardanapos e fazendo pontaria ao meu decote, coisa que me fazia zangar com ele e, logo, fazia com que ele tentasse apanhar-me distraída para ver se encestava, e sempre nestas brincadeiras de namorados enfeitiçados, quando um senhor se levantou da sua mesa e nos veio oferecer um papel, pedindo licença para nos oferecer um poema que tinha composto ao olhar para nós. Fiquei encantada, agradecida. Era um poema muito bonito. Guardei-o dentro do livro que tinha comigo e assim o conservei até que o perdi de vista, entretanto casada, a dar aulas enquanto ainda estudava. Tenho pena. Gostava de poder reler o poema. Era do poeta Rui Knopfli.

Gosto de filmes de amor. Não tanto de dramas que metem mortes, sofrimentos, abandonos mas amores arrebatadores, amores que não envolvem dúvidas, amores totais, inquestionáveis, incontornáveis.

Era bom que, por cá, houvesse cinemas ao ar livre como aquele fantástico ao ar livre, em Luanda, salvo erro num bairro que se chamava Alvalade, um cinema em declive, o grande ecrã lá em baixo, bananeiras, nós em socalcos na noite grande e quente, o grande amor a invadir uma noite feita para incendiar os sentidos. Lara. O Dr. Jivago. O Joca -- naqueles dias meu inseparável companheiro, o Joca que dizia que os meus ombros o deixavam louco, que afastava o meu longo e pesado cabelo das minhas costas com o pretexto de que era para me aliviar do calor -- dizendo ao meu ouvido que a Lara era quase tão bonita como eu e eu a rir com a ternura e a cegueira dele. Nos dias seguintes, olhava para mim e eu dizia que não fosse parvo, que não olhasse para mim assim, e ele desculpava-se, insistia que éramos parecidas e eu ria e dizia 'não sejas parvo'. Naquela altura o meu namorado era outro e estava longe, e as noites de África eram estranhamente perigosas. Por vezes, ele dizia: 'quando lá chegares acabas o namoro'. Eu dizia que não e que também não queria que ele acabasse o dele. Ele zangava-se. Eu achava que não daria certo, eu em Lisboa, ele a Norte. Ele dizia que sim, que viria para baixo ou eu iria para cima. E eu achava que não poderia ser. Naquela altura eu sabia muito pouco da vida (hoje ainda sei menos) e achava que os duzentos ou trezentos quilómetros que nos separariam impediriam qualquer amor e não me imaginava a ir viver para o norte nem queria que, por mim, ele se separasse da família de que tanto gostava. Penso que ainda bem. Se tivesse ido naquela onda tão tentadora e caliente provavelmente algum tempo depois não me teria deixado apaixonar como apaixonei por aquele que me fez conhecer o intenso sabor da paixão.


E lembrei-me de escrever isto ao descobrir os dois deliciosos vídeos que aqui partilho convosco. Duas maravilhosas histórias de amor.

Neron and Keira, uma história de amor entre jaguares


Barbara e Stanley: um romance moderno

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Pinturas de Hee-Choung Yi

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Desejo-vos um belo sábado

sexta-feira, janeiro 15, 2021

Porque era ele, porque era eu. Porque é ele, porque sou eu.
[Já lá dizia o Montaigne ao tentar explicar o amor]

 


Eu também acho. Também não sei outra fórmula que seja mais exacta. Porque ele é ele e eu sou eu. 

Se quiser dizer mais do que isso, terei as maiores dificuldades. Só sei que tem que ser inequívoco, não pode haver dúvidas nem reservas. Não se pode gostar de tudo excepto daquilo. Não se pode dizer que é pena aquilo porque, se não fosse, seria excepcional. Nem se pode dizer que é verdade, é um bocado isso mas, tirando isso é uma maravilha. Não, não pode haver uma parte de que se não gosta senão, invariavelmente, isso vai alastrar e, com o passar do tempo, vai tornar-se insuportável. Isto não quer dizer que tenha que se gostar sempre de tudo. Mas tem que ser uma coisa variável, ocasional. Não pode haver, em permanência, uma coisa de que se não gosta. Se se consegue dizer que há ali uma coisinha que é uma pena senão era todo bom, então, que não se duvide: essa coisinha vai virar o aleijão que vai contaminar tudo o resto. E, se não se corta o mal pela raiz, o que vai acontecer é que, aos poucos, mesmo sem querer, o que vai a sobrevir é a repulsa, a aversão total.

No meu caso, o que posso dizer é que, sempre que me apaixonei, mas apaixonei a sério, apaixonei totalmente, sem reservas. Mais: sem ser capaz de explicar. Ou melhor: podendo elencar mil razões e, se calhar, esquecendo-me de outras mil e nenhuma explicando a paixão de per se já que ela é apenas explicável pela conjugação, na dose certa, de cada componente.  

Da única vez que namorei uma pessoa sabendo que havia ali uma ou outra coisita que, no meu íntimo, não me agradava por aí além, apesar de durante algum tempo ter banido do meu consciente essas insignificâncias e conseguido simular tão perfeitamente que gostava dele que a mim própria cheguei a enganar-me.... a coisa não acabou bem. Foi uma questão de tempo. Havia amizade, havia esse afecto que é a amizade misturada por um inconsciente, vago e nunca confessado sentimento de culpa, e foi difícil cortar. Tentava auto convencer-me que me seria doloroso cortar. Tentava auto convencer-me que ele era uma opção. Tentava auto convencer-me que me custava infligir-lhe sofrimento. E custava. Mas, no meu íntimo, tomara eu ver-me livre dele. Mas não o assumia. Não queria, nem apenas para mim, assumir que estava a namorar uma pessoa sem estar loucamente apaixonada por ela. Mas, quando cortei, foi para nunca mais. Creio que não queria admitir a possibilidade de poder vir a ser confrontada com a evidência do que, ab initio, era um acto falhado. A vida da gente tem coisas assim.

Mas, por isso, sei bem que, para um amor ser amor e ser bom, para ser imenso, para resistir ao tempo e a tudo, para ser compensador, tem que ser total: tem que haver igual investimento de parte a parte, o que um dá, o outro tem que dar em igual medida, tem que haver sintonia, empatia, dádiva, acompanhamento, química (que talvez seja a mesma coisa que atracção -- a coisa física é fundamental -- mas que talvez seja uma outra coisa, não sei; nisto não sei explicar nada), e vontade de atravessar junto o deserto mais árido e o vulcão mais incandescente, ter a certeza de que se vai gostar hoje, amanhã e para o resto da vida. Mesmo que, por vezes, a gente vire onça e tenha vontade de dar surra e atirar da vida para fora, a gente sabe que amor assim a gente tem que conservar porque amor assim acontece uma vez na vida.

Para explicar o amor


E, já que estou com o Chico, bora continuar com ele falando de mulher?

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Pinturas de Klimt, Nicolas Poussin e Rubens ao som de 'O meu amor' e Teresinha com Chico Buarque 

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E um dia feliz. Saúde.

terça-feira, dezembro 29, 2020

Rubro

 




Durante anos, quando pensava numa cor era apenas no encarnado que pensava. Encarnado rubro carmim vermelho carne sangue fogo alma loucura flama paixão.

Com o tempo fui tentando conter-me.

No entanto, se me vejo perante uma tela em branco é para as tintas incandescentes que a minha mão espontaneamente se dirige. Posso tentar moderar-me. Mas não consigo. É a fogosa exaltação que se derrama sobre a tela. Sou feita de extremos e o extremo para que sempre me inclino é o da paixão. 


Mas tento a contenção. Abro a mente e o coração aos mil aromas de verde: o verde musgo, o verde oliveira, o verde pinheiro, o verde cedro, o vedro eucalipto, o verde bosque, o verde fundo do mar. Deixo-me envolver pelos verdes e sinto que estou em casa. Mas a vibração de uma alma tingida de paixão continua presente. Tento também a claridade do azul céu, a profundidade do azul veludo, a insolência do azul klein, a inocência do azul alfazema. Gosto do azul. Mas há no azul uma elegância conservadora ou uma pureza, não sei bem, que não me acolhe. E há o branco. Os mil tons de branco. A luz. A ilusão da luz. Não me identifico totalmente. Prefiro os reflexos, as sombras; a luz, sim, mas quando matizada de pecado, de dúvida, de excesso. Claro que poderia ser o preto, o negro, o breu, o infinito, o eterno labirinto. Mas há no negrume a maldição das trevas e eu não gosto de antecipar o funesto destino de tudo o que um dia viu a luz. O amarelo, sim, claro, poderia ser. É alegre, festivo, irradia mel e ouro, sol sobre a pele, calor, afago, doçura. Gosto do amarelo. Mas o amarelo é superficial, fica na pele, não desce onde a carne se verga ao sobressalto da paixão.

Encarnado, sim, não há como fugir-lhe. Encarnado rubro carmim escarlate fogo vermelho chama. Chamamento.


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Pinturas de  Zhu Wei, Hyung Ju Park, Igor Tishin e Ligyung na companhia de The Paper Kites em For All You Give 

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Desejo-vos um bom dia