Mostrar mensagens com a etiqueta Nuno Markl. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nuno Markl. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, setembro 28, 2026

A atitude de Nuno Markl perante o AVC. E a atitude do meu pai também perante o seu AVC.

 

Em especial quando a coisa me toca de uma forma profunda e, ainda mais, quando já aqui a abordei tantas vezes e segundo diversas perspectivas, evito falar. Soará a déjà vu, poderá ser uma seca.

Estou com o computador no colo e já me ocorreu escrever sobre diversos outros temas, mas a verdade é que não comecei, e isto porque o que se sobrepõe é o AVC do Markl. 

AVC
Imagem gerada pelo ChatGPT

Por isso, rendo-me, não há volta a dar: é sobre isso que vou voltar a escrever. 

Quando eu tinha uns quarenta anos, numa manhã, no trabalho, soubémos que um colega tinha saído a voar para o hospital, que tinha acontecido alguma coisa à mulher. Ninguém sabia ao certo o que seria.

Só apareceu no dia seguinte e por pouco tempo. Muito transtornado. A mulher tinha tido um AVC gravíssimo. Ele ainda não estava nele. Julgava, como eu também julgava, que era coisa que acontecia a pessoas mais velhas. Ela, jovem, magra, dinâmica, seria a última pessoa a quem se pensaria que podia acontecer. Factores de risco: fumar muito e, disse ele, parece que também poderia ter a ver com a pílula. Mas, ao certo, ele pouco sabia dizer, estava em pãnico. Esteve em coma, ela. Temeu-se o pior. Quando estava a trabalhar, ele mal conseguia falar no assunto, custava-lhe a acreditar. Com filhas pequenas, foi um pesadelo que se abateu sobre a família. Sobreviveu. Perdeu a fala, perdeu o andar. Teve uma recuperação lenta, difícil.

Anos depois, quando ela já trabalhava normalmente, estive num almoço em que ela estava na minha mesa. Fez-me muita impressão. O marido já me tinha avisado: normal, normal, ela não está, as palavras por vezes vão e não vêm. Por isso, eu já estava preparada. Talvez o que me tenha feito mais impressão é que continuava a fumar. Parecia inconsciente do risco. Mas, a falar, também exigia de nós uma atenção grande. Por exemplo, disse-me: 'passas-me aí o relógio?'. Fiquei a olhar, espantada. No entanto, vi que tinha estendido a mão na direcção do cinzeiro. Dei-lho, e ela agradeceu, aparentemente sem se dar conta da troca da palavra. Depois, mais à frente, queria dizer botão e dizia 'aquilo que entra na casa'. Mas dizia isto no meio da conversa, normalmente, como se não percebesse que, quando estamos a conversar normalmente, usamos palavras e não charadas. A seguir a conversa derivou para o ensino e ela, animadamente, queria criticar a reforma que a ministra tinha introduzido. Contudo, seguir a sua conversa foi um desafio. Apesar de me parecer que ela agia como se estivesse fluente, a sua conversa soava quase incongruente, embora me parecesse que talvez fosse porque não usava as palavras certas. Isto, enquanto fumava cigarro atrás de conversa. Quando comentei com o meu colega o facto de ela fumar tanto depois do AVC tão grave, ele encolheu os ombros: 'Já desisti. não é fácil... Percebeu isso, não percebeu?'. Noutra vez ele comentou: 'À vista desarmada parece bem, ninguém diz aquilo por que ela passou, recuperou os movimentos, anda bem, tem força nos braços. Mas a cabeça....'

Cada caso é um caso, disso não há dúvida.

O livro "Valsa lenta" no qual José Cardoso Pires relata como foi com ele: outros sintomas, outra evolução (e outra aflição).

Com o meu pai, metade do corpo foi à vida: a perna, o braço, e o campo visual daquele lado ficaram inactivos. Os movimentos da perna e do braço acabou por recuperar. A boca ao lado, ao fim de um dia ou dois estava normal. A fisioterapia faz milagres. Nunca simpatizou nem com andarilho nem com bengalas, quase como se quisesse preservar o orgulho de conseguir andar pelos seus próprios meios. Andava sozinho, embora agarrando-se aos móveis, subia e descia a escada sozinho, apoiado no corrimão, andava sozinho no jardim. O meio campo visual é que se perdeu irreversivelmente. E a orientação geográfica de proximidade, de início, também. Para sair do quarto, abria a porta do roupeito e ficava desorientado, sem perecber como entrar, para ir para a sala não sabia se era para a esquerda ou para a direita, quando estava na sala às tantas dizia que queria ir para casa, quando afinal o que queria era deitar-se.

E acertar com a medicação foi difícil. Por vezes alucinava, dizia que havia uma fenda na parede, queria que a minha mãe chamasse um pedreiro para arranjar a parede. Outras vezes, dizia que tinha deixado ficar as chaves num sítio em que poderia vir alguém e pegar nelas. A minha mãe dizia que as chaves estavam no lugar delas e que não entrava ninguém dentro de casa que as levasse, e que não havia fenda nenhuma. Então, exaltava-se, gritava, achava que a minha mãe não ligava ao que ele dizia, achava que a minha mãe negava a evidência de uma corrente de ar que passava pela fenda. A minha mãe chegou a dizer que já não o aguentava mais naquele estado, e que eu fosse lá a casa resolver o assunto. Quando lá cheguei, vi que ele estava num estado de pressão assustador, parecia ir rebentar a qualquer momento, enervado, stressado, a tender para o agressivo. Consegui levá-lo ao hospital. Alteraram-lhe a medicação e ficou bem. Outras vezes estava num estado de prostração que nos deixava a temer o pior. A minha mãe ia falar com o neurologista que alterava a medicação e ficava melhor.

Passava temporadas muito bem. Autónomo a nível das refeições e da higiene, sentava-se e levantava-se sozinho, conversava normalmente. A perna e o braço que ao princípio não mexiam, voltaram a funcionar. Chegou a ir passar o natal a nossa casa, chegou a ir passar o dia à nossa casa no campo, andou por lá a passear (com a minha mãe ou eu a dar-lhe a mão), chegou a ir ao casamento do meu filho (quando foi o da minha filha ainda estava bem). Só declinou de forma muito evidente quando partiu o colo do fémur na sequência de uma queda e foi operado. A partir daí tudo se complicou de vez.

Quando vejo o Nuno Markl no seu passo ainda hesitante, quando o vejo com o braço inerte, inevitavelmente penso no meu pai.

Mas vejo como ele encara as limitações com sentido de humor e, aparentemente, sem pudor e sem receios. E constato como isso é positivo.

O meu pai não. Sentiu o que lhe aconteceu com tristeza, desânimo. E não gostava que o vissem assim. E não gostava de sair de casa não apenas porque parece que se sentia humilhado por outrora ser tão autónomo e em tão boa forma física e, naquela altura, já tão frágil, a carecer da mão de alguém. Sobretudo, apavorava-o a perspectiva de ter vontade de ir à casa de banho e, com a sua lentidão e dificuldades, não chegar a tempo. E isso, para ele, seria a humilhação maior, temia ser objecto de comiseração ou chacota.

A forma como o Markl brinca com a situação, apesar de ainda ter os movimentos da perna um bocado presos e de ter um braço ainda incapacitado, a forma como se arrisca a ir para um palco ou para um estúdio de televisão, talvez demonstrre que parte da forma como o corpo reage a uma rasteira destas tem muito a ver como o modo como a cabeça reage.

Enquanto teve energia e cabeça para isso, o meu pai empenhava-se fortemente na fisioterapia e nos exercícios. A sua tenacidade enchia-me de orgulho e os seus progressos espantavam-me. Mas tudo o que fazia, fazia sempre com tristeza, sempre como se a vida o tivesse privado do prazer de ter liberdade de movimentos e total autonomia durante os últimos anos da sua vida, como se percebesse que não poderia voltar a ir fazer caminhadas para a praia, não poderia voltar a ir passar férias no verão para o Algarve e na primavera para a Curia ou para um desses sítios de que tanto gostavam. não poderia voltar a conduzir, não poderia fazer as suas marcenarias, não poderia voltar a ir ao mercado comprar peixe fresco, não poderia voltar a fazer as suas belas caldeiradas para a família. Essa consciência das suas limitações faziam com que se sentisse diminuído e, no seu íntimo, ele sentia-o como uma condenação a uma morte antecipada. E talvez isso fosse um acelerador para o seu declínio, enquanto o optimismo e o sentido de humor do Markl talvez sejam um reforço vitamínico, um autêntico catalisador para uma recuperação mais feliz.

Mas não sei. Não há AVCs iguais. Não há pessoas iguais. Esta é uma realidade complexa (e temível).

Bom mesmo é prevenir o mais possível pois passar por uma destas não é bom para ninguém. E bom mesmo seria que houvesse instituições públicas que apoiem na recuperação de pessoas a quem isto acontece. Pessoas sem condições para estarem internadas meses numa clínica privada ou para pagarem fisoterapia privada três vezes por semana ao domicílio durante meses como fazem? Entregam-se à fatalidade de ficarem acamados até morrerem? Isso, sim, deveria ser objecto de reflexão para os nossos políticos. Toda a gente tem direito à dignidade e à recuperação na sequência de um acidente. E escrever isto não deveria soar a lirismo.

segunda-feira, novembro 24, 2025

AVC

 

Claro que o tema me deixa sempre um pouco perturbada. Posso não demonstrá-lo, aliás tento não demonstrar nada, mas claro que fico perturbada. 

Quando ouvi que o Markl tinha tido um AVC senti um baque. 

Só pensei: caraças, como é possível? 

Quando li que tinha sido um AVC hemorrágico retrocedi uns anos. Não vou repetir com pormenor o que já aqui contei algumas vezes. O que se passou, os antecedentes, as consequências. A minha avó, mãe do meu pai, também teve um AVC. E o irmão dela também. E creio que antes deles a minha bisavó também. Mas o meu incómodo não vem só do receio que esse seja também o meu destino. O meu incómodo vem de não ter estado devidamente informada quando o meu pai teve os AIT que precederam o AVC e não ter sido informada das causas e dos riscos de que coisa maior pudesse estar para vir. O meu incómodo vem de não ter percebido que o meu pai devia seguir, à risca, uma medicação nem ter sabido que, por achar que estava tudo bem e controlado, de vez em quando não a tomava. E vem de não ter sabido que ele andava com arritmias acentuadas (ou taquicardias?) e que não foi ao médico. E vem de pensar que, na noite em que ele teve o grande AVC, ele e a minha mãe demoraram tempo de mais para chamar a ambulância sem perceberem o que estava a passar-se e que, por isso, as consequências foram tão devastadoras. Ainda me lembro de um médico, ao ver os exames, o felicitar e dizer que quem tem um assim, tão extenso, tão profundo, geralmente não fica cá para contar. Devíamos ter ficado contentes por ele ser a excepção à estatística mas as suas limitações eram tantas, tão arrasadoras, que naquela altura não havia notícias que nos animassem. E, por isso, o meu incómodo vem também de me lembrar de todos os horrores pelos quais passou: a perda de tantas faculdades, a perda da autonomia, a perda da dignidade.

Felizmente parece que o filho do Markl estava por perto e se apercebeu e ligou para o 112 e tudo decorreu dentro da janela temporal em que os danos são limitados e, espero, reversíveis. 

Mas há efectivamente que estar atento até porque estamos sempre tão alheados das nossas fragilidades que, quando a coisa nos bate à porta, nem nos ocorre que uma coisa assim pode estar a acontecer. 

E digo isto porque, há anos, passei por isso. Creio que também já o contei. Num certo dia, um dia de trabalho normal, o meu marido acordou a sentir-se estranho. Dizia que estava um pouco tonto. Não liguei muito e ele também não. De manhã tínhamos os minutos contados, despachávamo-nos apressadamente para não chegarmos tarde. Ele dizia que parecia que estava  tonto e eu pensei que talvez estivesse com a tensão baixa. Sugeri que esperasse pelas nove horas para ir à farmácia ver a tensão. Ainda não tínhamos medidor em casa, estávamos tão longe dessas preocupações. Mas depois dizia que lhe doía já não me lembro se era o pescoço ou o ombro. Perguntei se teria dormido sobre aquele lado, se teria dado algum mau jeito na cama. Não me ocorreu, nem a ele, que esse sintoma estivesse relacionado com as tonturas. Ainda me lembro de ele se ter encostado à parede e isso não era nada normal nele. Estávamos ambos prontos para sair de casa. Mas depois ele disse que parecia que estava com um bocado de falta de ar. E eu, espantada, perguntei o que é que a falta de ar tinha a ver com o resto. Pareciam sintomas desencontrados, que nada tinham a ver uns com os outros. Felizmente calhou estarmos à porta do quarto do meu filho e por sorte ele ainda estava em casa e por sorte, apesar de estarmos a falar baixo, ele ouviu e, por sorte, foi mais inteligente que nós e, de um salto, vestiu-se e disse que ia com o pai ao hospital e nem sei como voou e levou o pai às urgências. E chegou a tempo. Não chegou a ser grave, foi medicado, interceptado a tempo, ficou em observação, e só então caímos na real e nos assustámos. E desde essa altura está medicado.  

Ora como é que nós, pessoas informadas, não percebemos o que estava a passar-se? Custa a crer. Estávamos tão longe de que uma coisa assim nos poderia acontecer, a nós, ainda jovens, saudáveis, que não conseguimos ver uma coisa tão óbvia.

O testemunho que abaixo partilho é uma experiência diferente. No caso dela foram os médicos que desvalorizaram o que estava a passar-se. Poderia já cá não estar para contar. Impressiona. 

A nossa vida é, tantas vezes, um milagre, uma questão de sorte por estarmos ao pé de quem nos acuda, por darmos com um médico que se interesse, que acerte no diagnóstico, por conseguirmos chegar a tempo e horas.

“Estava numa situação de bomba-relógio” | Quando a Minha Vida Mudou | Observador

Celmira Macedo tinha sintomas que ninguém valorizou. Sobreviveu a dois AVC até ter um diagnóstico e um tratamento adequado. Hoje vive com sintomas difíceis, mas invisíveis aos olhos dos outros.

Arterial é uma parceria do Observador com a Novartis. Tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. 


Desejo-vos uma boa semana
Saúde
E que a boa sorte sempre vos acompanhe

sábado, abril 27, 2024

Contra as marcelices que estão na ordem do dia (e outras anteriores), que avancem as calças que se rasgam nas virilhas

 

Tive um dia complicado, enredada nas manigâncias burocráticas de funcionários que me atrapalham a vida com mentalidades e atitudes burocráticas, sem o mínimo de compreensão. Nem falo em empatia. Falo em compreensão básica. Dizem-me que o que é preciso fazer é aquilo que os outros fora das Finanças dizem que é impossível. Há um senhor que diz que se tem que fazer uma coisa que só na Conservatória se faz. E a Conservadora diz, embora com todo o respeito e em linguagem jurídica, que os das Finanças vão mas é dar banho ao cão pois o que querem é tecnicamente impossível. E é taxativa: já disse o que tinha a dizer, não vai dizer mais nada. Face a isso, lá fui outra vez para as Finanças.

Portanto, uma audiência. Uma audiência que me tirou do sério.

Na sequência disso, mal cheguei a casa fiz uma exposição para uma Notária.

E mais umas quantas coisas.

Portanto, não levem a mal mas hoje já não tenho cabeça para me insurgir contra as marcelices que se sucedem em catadupa nem para o que quer que seja que puxe pelo lado sério do meu pensamento.

Até podia falar da entrevista ao Galamba na CNN. Comoveu-me. Ainda não foi ouvido pelo MP. Ainda não conhece o processo. O que sabe, sabe-o pela Comunicação Social. Entraram-lhe pela casa, para fazer buscas, estando as filhas a dormir. Escutaram-no durante anos. Ninguém merece tamanha pulhice. Os danos de toda a espécie que isto causa na vida de uma pessoa... E, disseram os juízes da Relação, tudo porque se esforçou por fazer o melhor para o País. Qual crime...? Num outro dia, eu falaria sobre isto. Esta entrevista merece ser falada. E não tem a ver com a entrevista, pois ele foi até bastante contido, mas também não deve ser esquecido pois não é só uma coisa incompreensível por parte do MP (ia dizer canalhice mas não quero ir por aí), é também tudo muito obra do Marcelo que não descansou enquanto não lhe fez a cama. O que Marcelo pressionou António Costa para correr com o Galamba é coisa que não deve ser esquecida. Mas tem que ser num outro dia. Hoje estou com a cabeça feita em água.

Por isso, deixem-me mas é distrair-me com esta rapaziada aqui abaixo me põe bem disposta.

Calças que se rasgam nas virilhas | Fugiram de Casa de Seus Pais | RTP

Um problema que já lhe causou forte embaraço junto da polícia e que poderá ser resolvido, apenas, se ele tirar as calças.