Não deve ter interesse para ninguém mas, como tenho passado os últimos dias com este assunto em mente, parece que, agora à noite, tenho que desabafar um pouco.
Meti na cabeça escrever uma coisa num prazo muito curto. Resolvi escrever sobre uma situação muito concreta em que, de certa forma, tenho sido espectadora.
Como é uma situação real, sei o que se passou até aqui mas não sei o que vai acontecer doravante.
Claro que poderia prosseguir a narrativa inventando.
Mas, às tantas, pareceu-me que, mesmo inventando, o assunto esgotar-se-ia sem grande graça.
Só que, nestas coisas da ficção, mesmo quando se está a relatar uma situação real, a imaginação intromete-se. E se há coisa que de há muito sei é que a imaginação tem vontade própria. A gente não sabe quais os caminhos que vai percorrer e para onde vai levar a narrativa.
Foi o que aconteceu.
Sem que eu tivesse premeditado, do nada apareceu um personagem. E esse personagem trouxe outro. E, sem que eu pudesse interferir, às tantas tomaram conta da história.
Agora, aqui chegada, aconteceu uma outra coisa. Estando eu, de início, a relatar acontecimentos reais, fi-lo na primeira pessoa. Ou seja, eu na história sou eu na realidade. O meu marido na história é o meu marido de verdade.
Ora os novos personagens viraram a história de pernas para o ar e, se fossem de verdade, viravam a minha vida também de pernas para o ar.
E, nesta altura da escrita, vejo-me bloqueada.
Eu faria isto?
Eu aceitaria que o meu marido fizesse aquilo?
E por mais que me auto-convencesse que é uma ficção, a verdade é que os dias passavam, as páginas avançavam e eu era incapaz de escrever aquilo que a narrativa exigia.
Portanto, andei a pisar ovos, a esforçar-me por ser capaz de me convencer que o eu da história já não era eu de verdade.
Até que hoje, não sei como nem porquê, consegui desbloquear este imbróglio.
Já escrevi a cena em que consigo emancipar-me de mim. Foi uma sensação boa, uma libertação.
Agora estou desejando de dar continuidade à história embora tenha para mim que o fim deve ficar em aberto.
Agora uma coisa vos garanto. Raramente, muito raramente, me dói a cabeça. E hoje dói. Dá ideia que, com esta brincadeira, dei uma tareia aos neurónios.
Já bebi um chá, já me pus aqui de olhos fechados, mas continua a doer-me. E, sobretudo, estou mortinha por acabar de vos contar isto para me atirar de novo à luta.
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E, por hoje, nada mais que isto. A não ser a homenagem que à data de 13 de Setembro deste ano da graça de 2023 se fez por ocasião dos 100 anos que nasceu Natália Correia.
De Amor Nada Mais Resta Que Um Outubro | Poema de Natália Correia
com narração de Mundo Dos Poemas
Poesia e poema de autor português. Natália de Oliveira Correia (1923 — 1993) nasceu na Fajã de Baixo, São Miguel, Açores, a 13 de setembro de 1923. Poetisa, ficcionista, contista, dramaturga, ensaísta, editora, jornalista, cooperativista, deputada à Assembleia da República (primeiro pelo PSD, depois como independente pelo PRD), foi uma das vozes mais proeminentes da literatura e da cultura portuguesas na segunda metade do século xx, tendo resistido energicamente ao Estado Novo e aos radicalismos do pós-25 de Abril. Ecuménica e eclética, filantropa e idealista, anteviu um novo tempo, que garantisse a paz, a dignidade humana, a justiça social e o direito à diferença como raízes indeléveis da democracia. Morreu em Lisboa, a 16 de março de 1993.
Quando acontece um qualquer crime, os polícias e os jornalistas vão interrogar vizinhos e conhecidos. E, salvo raras excepções, verifica-se que foram todos colhidos de surpresa. O suspeito é quase sempre uma pessoa reservada, tida como boa pessoa, nunca se soube de problemas, de casa para o trabalho e do trabalho para casa, por vezes até acontece que ia tomar um café e cumprimentava toda a gente, alguém dirá que era amigo de seu amigo.
Todos põem em perspectiva os tempos anteriores em que nada o faria prever e dirão que não compreendem, que parecia uma pessoa normal, uma pessoa de bem, que nunca arranjou problemas com vizinhos, que se metia em casa lá com as coisas dele. Ninguém saberá dizer ao certo que coisas eram essas, era pessoa de poucas falas. Mas sempre muito correcto.
Alguém lembrará que um dia em que chovia e ventava com força, o viram a ajudar a Dona Adelina que, coitada, já velhinha, quase ia levada pelos ventos, a chuva batendo-lhe em todas as direcções. E, ao ouvir lembrar esse gesto delicado, outro se lembrará que, noutra vez em que ardeu um bocado de mato nas traseiras do Vizinho Manuel Coelho, ele foi dos primeiros a aparecer com um balde e uma pá para ajudar no que fosse preciso. Prestável mas acanhado, concluirão.
Mais tarde as televisões mostrá-lo-ão a sair do carro da polícia à entrada no tribunal. Irá de cara baixa, tentando encobrir-se do olhar dos outros, talvez vá envergonhado, talvez arrependido. Ou talvez apenas não queira sentir a rejeição que os seus actos provocaram.
Geralmente é assim.
Neste caso não sei pois, do que averiguei, pouco se sabe. Mas não me admiraria.
O nome não foi divulgado. Sabe-se apenas que tem 62 anos.
Vivia sozinho em Biar, um lugar no sopé das montanhas de Alicante. Pouco mais se sabia dele. Era normal. Reservado.
Um dia vendeu a casa. E não a esvaziou. Deixou a casa cheia de sacos cheios de coisas. Em todas as divisões deixou ficar aqueles sacos cheios.
Teve que ser a equipa contratada pelos novos donos para renovar a casa a remover o lixo. E foi então que descobriram o que continham os sacos: cerca de vinte mil cartas, muitas ainda seladas, incluindo facturas, documentos oficiais.
Ao que parece, o carteiro acidental ia aos Correios buscar a correspondência e, em vez de distribui-la pelos destinatários, guardava-a em casa. Durante um ano aconteceu isto até que, por irregularidades mal explicadas, foi demitido.
Ainda pouco mais se sabe. Será que lia as cartas? Será que construía histórias a partir do que lia? Será que as palavras dos outros lhe faziam companhia? Ou será que não sabia ler e não sabia a quem deveria entregar as cartas?
Um dia saber-se-á. Para já está preso.
Talvez um dia as cartas venham a chegar aos seus destinatários. Ou talvez já não façam qualquer sentido, talvez a vida das pessoas tenha seguido por outro caminho.
Como aqui o expressei, não acreditava que o PSD fosse ganhar. Não vou em cantigas. Guio-me pela minha intuição mas, também, pela razão. Não apenas não vi que a população estivesse, de forma geral, insatisfeita com a governação socialista como não acredito que se deixe completamente manipular pela chusma de comentadores, jornalistas-comentadores e convidados-avençados nem pelos argumentos hipócritas e imaturos do Bloco nem pelos argumentos antiquados e arrevesados do PCP nem pelas arruaças da direita.
Contudo, há uma franja da população que é naturalmente mal informada e relativamente à qual nunca se sabe bem a dimensão nem para que lado pende. As televisões dos cafés e dos espaços públicos (até numa clínica já eu vi) estão sintonizadas no Correio da Manhã que é o que se sabe A linha editorial da TVI e da nova CNN sintonizam-se no mesmo comprimento de onda: o medo, o drama, o 'está tudo mal', 'isto é tudo uma pouca vergonha', 'são todos uns gulosos' e etc... E isso é sabido e consabido que é o caldo em que germina a semente do populismo, do fascismo, do racismo.
Ora, em vez de apostarem na desmontagem deste perigoso argumentário, formando uma barreira contra o Chega, o Bloco e o PCP apostaram antes em dizer mal do PS. Por outro lado, o PSD e o CDS pensaram que o bom seria mimetizarem o Chega, apostando num bota abaixo ao Costa.
Mas uma coisa é certa: se há muita gente mal informada, na sua maioria os portugueses não são parvos. O governo do PS tem sabido gerir bem este período da pandemia não apenas numa perspectiva de saúde pública mas também de atenção social e humana aos mais atingidos pela crise, tem sabido relançar a economia, tem sabido controlar o défice, tem sabido desagravar a dívida pública apesar das mil dificuldades, tem sabido controlar, e bem, o desemprego, tem sabido manter o país informado e coeso. Portanto, pela cabeça de quem passaria acreditar que os portugueses queriam acabar com esta governação?
Acabar com o governo de António Costa para lá meter quem? O Chicão... porque dizia que ia acabar com o Acordo Ortográfico...? O Jerónimo porque tem melhor dicção que o Costa...? O Rui Tavares porque a Justiça em Portugal funciona como se sabe e há que penalizar o PS...?
Talvez algumas pessoas pensem assim e, obviamente, estão no seu direito. Mas são casos isolados. A maioria das pessoas acautela a boa governação e quer ter gente de confiança à frente dos destinos do País.
Por isso, sempre acreditei na vitória do PS e, por isso, desejei que o resultado eleitoral garantisse alguma estabilidade.
António Costa diz, e é o que penso, que maioria absoluta não é sinónimo de poder absoluto. E temos um Presidente da República que garantirá o normal e saudável funcionamento das instituições. Portanto, a quem assusta a maioria absoluta? O que assusta é a instabilidade, o que assusta é que o Chega se unisse ao PSD, o que assusta é que o País voltasse a andar para trás.
Dito isto, penso que, agora que o Partido Socialista obteve a maioria absoluta, é tempo para se abrir ao futuro, começando a trabalhar mais energicamente numa transformação em direcção à modernidade. É preciso fazer mais, melhor, mais agilmente... e diferente.
Temos ainda uma classe dirigente a nível da gestão bastante iletrada e, logo, ineficiente e improdutiva. Temos ainda uma mentalidade muito quadrada, muito presa a ortodoxias, pouco aberta à cultura e à diversidade. É preciso criar momentos de reflexão e ter a coragem de ousar. Façam-se pilotos, testem-se modelos, inove-se. Não coisa de boca, para o papel, para inglês ver. Não: inove-se na maneira de trabalhar, na maneira de estar e, em alguns pontos, na maneira de ser.
Certamente António Costa quererá receber contributos de todos os que estão no Parlamento, ouvir ideias, receber sugestões. Por exemplo, do PAN, do Livre e, até, da IL. É gente com boa cabeça, boa vontade, boa atitude.
Em especial a nível urbano, em especial nas camadas mais jovens, a IL é ouvida com atenção. Isso não deve ser levado a brincar. Há na Iniciativa Liberal algumas ideias que merecem ser ouvidas. Mesmo que não sejam para ser lidas integralmente à letra, deve ter-se em atenção que contêm a vontade da mudança. O PS deve estar aberto a esta vontade. E não são apenas as ideias: é também a atitude. A atitude da IL é uma atitude cordata, cosmopolita, desempoeirada -- e isso é louvável.
O PS tem entre os seus militantes e simpatizantes gente muito boa e deve saber valer-se disso. Mas, ao mesmo tempo, deve fugir do aparelhismo, das soluções autocentradas e burocráticas, do facilitismo. Deve ouvir e receber com agrado sugestões que visem aproximar o País de outros países mais desenvolvidos mesmo que isso configure algumas disrupções.
Mas deve ouvir também, com atenção, as sugestões válidas que provenham do PSD, do PCP e do Bloco. Acredito que estes três partidos, com o banho que levaram nestas eleições, provavelmente com novas lideranças, venham a ter uma atitude de humildade e de lealdade perante os portugueses.
E deve ouvir também os artistas, os agentes culturais. Um país move-se tanto melhor quanto for movido a cultura. A cultura não move apenas montanhas: move oceanos, move continentes. Move e aproxima.
Deverá haver uma atenção genuína e pragmática em relação ao conhecimento e às artes.
Uma vez, num fórum de inovação promovido pelo Grupo a que estava ligada, sugeri que convidassem um filósofo como orador. Não quiseram. Mas acho essencial que se tragam os agentes da cultura, do saber, da investigação para o debate público nem que seja apenas para nos fazer pensar de outra maneira, para enriquecer a nossa visão com outras perspectivas.
E que se percebam os problemas de base da sociedade para que se invista onde as necessidades são mais básicas e prementes: nas creches públicas, no ensino e na saúde tendencialmente gratuitos, na formação de adultos, em residências seniores assistidas também tendencialmente gratuitas ou em redes de assistência domiciliária a idosos, no acolhimento inclusivo e de qualidade aos imigrantes, em habitação de baixo custo para os mais desfavorecidos e/ou para jovens. Etc. A baixa natalidade é uma ameaça à coesão nacional e à confiança no futuro. Por isso, tem que se investir em tudo o que comprovadamente inverta essa tendência. E o envelhecimento não tem que ser um sufoco ou um fardo para os próprios e para as famílias. O envelhecimento tem que ser digno e feliz.
Mas há muito mais: há que repensar profundamente o modo de vida a que nos habituámos.
Por exemplo: deve incentivar-se o teletrabalho sempre e onde seja possível (de forma controlada, obviamente) e a semana com menos horas de trabalho, deve promover-se a existência de mais espaços verdes e de hábitos de vida mais saudável, deve assegurar-se o absoluto respeito pela natureza, a adopção de práticas mais sustentáveis em todos os momentos da nossa vida. Etc.
Estou certa que, com as mãos mais livres, o PS irá saber interpretar o querer e o sentir dos cidadãos, irá trazer ideias novas para melhorar a qualidade de vida de todos e não irá desbaratar o capital de confiança que recebeu dos eleitores.
Por isso, mais do que tempos de compromisso, espero que sejam tempos de boa mudança os que aí vêm.
Portanto, boa sorte a António Costa. E, desejando muito boa sorte a António Costa, estou ao mesmo tempo a desejar muito boa sorte a todos nós.
Sobre o que escrevi ontem, recebi um mail e uma mensagem. E, com a devida autorização do estimado Leitor que me enviou o mail e pressupondo que o meu filho não se vai aborrecer que eu refira o reparo que me fez, aqui segue então, em primeiro lugar o texto do mail (que agradeço):
Votos
Bom dia UJM. Faço meus os seus votos, por mil e uma razões !
Há aproximadamente 2 anos foi diagnosticada uma doença degenerativa à minha Mulher. Durante os 2 ou 3 anos anteriores, foi seguida no Hospital da Luz por uma especialista que cobrava honorários a peso de ouro. Um dia pedi-lhe um relatório médico que me foi solicitado pelo Centro de Alcoitão, para iniciar terapia da fala. A dita médica, depois de muita insistência minha, escreveu meia dúzia de linhas manuscritas de difícil compreensão. A técnica do CRA, classificou o dito relatório, "no comments". Ao mesmo tempo, a dita médica, recomendou a realização de um exame no HL, sendo que o mesmo teria que ser com internamento de 3 noites. Aí eu desconfiei ....
Realizámos o dito exame da Ressonância magnética num laboratório conhecido, a preço muito acessível, e decidimos recorrer aos serviços do SNS no HEM.
Tudo mudou desde então. A abordagem pluridisciplinar que se impunha, começou a funcionar em pleno. Sabemos que é uma doença progressiva, contudo, para minimizar os impactos temos contado com uma equipa excepcional do HEM e HSFX que tem agido de forma integrada.
Várias vezes tenho referido aos membros da equipa, a nossa gratidão. Sinto que a equipa dos médicos, também aprecia a manifestação do nosso reconhecimento.
Interrogo-me e preocupa-me o que irá acontecer com o hipotético regresso ao poder dos que propõem a privatização do SNS.
Desculpe-me não publicar este meu testemunho no espaço dos seus comentários. (...) Se achar relevante, pode transcrevê-lo.
Do meu filho recebi um reparo, primeiro por mensagem e depois, mais tarde, por telefone. Dizia-me ele que. se António Costa conseguiu formar Governo e governar bem durante seis anos e se foram feitos alguns avanços significativos em algumas áreas, tal se deve ao apoio dos 'bandidos' a que a avó se tinha referido.
Do que lhe conheço, ao falar nos ditos bandidos, a simpatia dele vai mais para Jerónimo de Sousa. Não lhe conheço qualquer simpatia para com o Bloco. Também eu sinto respeito pelo velho moicano. E também eu, desde o minuto zero, achei bem que António Costa governasse com o apoio da esquerda. E, apesar da frequente queda da Catarina e das Mortáguas (com o Cardeal na rectaguarda) para a traição, passei por cima disso e foquei-me no importante: a defesa de políticas justas, de desenvolvimento, de salvaguarda dos direitos dos que mais precisam de apoio. Mas quando Catarina Martins, o ano passado, num gesto de arrogância, de irresponsabilidade política e de ânsia por protagonismo, chumbou o Orçamento e quando este ano, um ano tão difícil, com um Orçamento equilibradíssimo e com inúmeros pontos de convergência com as pretensões desses dois partidos, resolveu chumbar o Orçamento, juntando-se ao seu companheiro de percurso PCP e juntando-se à direita reunida, PSD, ao CDS e ao Chega, a minha posição mudou. Mudou mesmo.
O meu filho diz que em democracia devemos aceitar que os partidos se manifestem. Claro que sim. Em ditadura, quem se manifesta contrariamente aos cânones é perseguido, detido. Em democracia não: em democracia os ajustes de contas fazem-se nas urnas. E é nas urnas que desejo que quem antes votou no PCP e no Bloco agora lhes vire as costas pela irresponsabilidade e pela traição.
O Bloco e o PCP podem fazer o que quiserem, são livres de o fazer. Claro que sim. Mas ao quererem agradar aos seus militantes mais fundamentalistas esqueceram os interesses do País. E, com isso, revelaram que lhes falta o sentido de Estado.
Ao argumentar assim ao telefone com o meu filho, ele lembrou-me que, há seis anos, contra um longo historial de aversão aos socialistas por parte dos comunistas, Jerónimo de Sousa aproximou-se de António Costa e, com esse gesto, viabilizou um Governo socialista.
É verdade. Foi um gesto corajoso e digno de um verdadeiro estadista. Louvo-o por isso. Louvei-o na altura e, ainda hoje, reconheço o valor e valentia do gesto
Mas critico-o por agora ter saltado fora na votação na generalidade deste Orçamento (que, na especialidade poderia ainda ser melhorado), juntando-se à direita trauliteira e revanchista que sempre fez de tudo para denegrir a Geringonça e o Governo apoiado pela esquerda.
O meu filho recordou-me que o chumbo do Orçamento não implicaria a dissolução da Assembleia e que, aí, quem se precipitou foi o Marcelo.
Concordo. Algumas vezes aqui o tenho dito: Marcelo precipitou-se. Também ele é refém do seu forte apelo pelo auto-protagonismo.
Mas, tendo ele anunciado que, se o Orçamento chumbasse, a Assembleia seria dissolvida, já não havia recuo possível. Portanto, o PCP e o Bloco, ao votarem como votaram, sabiam a crise que iam abrir no País.
Faltou-lhes sentido de Estado, faltou-lhes o sentido de lealdade, sobretudo lealdade perante os portugueses. E a quem faz isso (pela 2ª vez) não deve ter servida de bandeja a oportunidade de o fazer uma terceira vez.
Entretanto, num comentário, o João, reportando-se ao que escrevi sobre as virtudes do PS e de António Costa enquanto governante, pergunta-me pelo Cabrita, pelo ministro da Educação, pela fraca intervenção cultural, pelas cativações*. Percebo-o. Tem razão. Mas, João, há soluções perfeitas? Quadros em que são todos umas sublimes, excelsas e não-pecadoras criaturas só aquelas pinturas com santinhos sobre as nuvens, uma virgem (a tal do imaculado pipi) e passarinhos iluminados por abençoados raios.
[Eu não incluiria as cativações nos episódios menos felizes. Cativações são procedimentos normais na gestão económico-financeira. O facto de estar previsto em orçamento não tem que significar que são verbas automaticamente disponíveis para gastar pois as circunstâncias podem mudar e há que ir aferindo da oportunidade ou da necessidade de se gastar]
Na vida real, seja em que situação for, há sempre o que não é tão bom como o demais. Mas há que sopesar cada aspecto, olhar para o conjunto, avaliar alternativas.
Imagine, João, que não ganha o PS. Aí, vamos pensar no que acontece no dia seguinte. Ganhando o Rui Rio, vamos ver quem é que ele poria na Administração Interna. Na Defesa já sabemos que põe o Chicão. Coisa esperta, não é? Na Administração Interna, imagino que não vá repescar o Ângelo Correia. Mas vai buscar quem? O Silvano? Credo. A Mónica Quintela? O Rangel...? Susto... E na Educação? Quem? Qualquer nome que me ocorra é para ser um susto ainda maior... E na Cultura? Quem é que o PSD tem para pôr na Cultura... Aqui nem consigo imaginar. Que ideias é que o Rui Rio tem para a Cultura...? Sabemos o que foi o reinado dele na Câmara do Porto. Um desastre absoluto. E na Economia? O José Gomes Ferreira...?
Ou seja: pensando numa equipa governativa liderada por Rui Rio, o João consegue perspectivar melhor equipa do que uma equipa que António Costa possa formar?
Por isso é que acho que nem vale a pena a gente pensar muito. Mesmo que não se ame o PS de paixão nem se se idolatre o Costa, há que reconhecer que, neste momento, as alternativas a um governo PS são de mal a pior, são para a desgraça.
Portanto, mesmo que não seja por total convicção, mesmo que seja um mero voto útil (quimicamente puríssimo), qualquer pessoa que goste do País e dos portugueses e que se preocupe com o futuro, o seu e o do País, não tem grande alternativa. Por isso, espero que os hesitantes e os sonhadores e os distraídos caiam na real e vão votar. No PS.
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Desta vez as belas rosas fotografadas por Nick Knight vêm ao som de Silêncio e tanta gente de Maria Guinot
Neste sábado, ao passearmos, a minha mãe voltou a dizer que 'esta gente' que provocou a queda do Governo -- e põe no mesmo saco PCP, BE, PSD e CDS -- é uma 'cambada de irresponsáveis'. Depois entristece-se, quase como se fosse ela a ser vítima de injustiça. Diz: 'Com o que este Governo tem feito, o que tem aguentado...Não há direito...O que eles têm lutado, o que têm penado... E agora o que estes aldrabões para aí andam a dizer... Não há direito... Para que são estas eleições? Uma vergonha.' para logo rematar, já enfurecida, naquele registo informal de quem sabe que o que diz à filha não é testemunhado por terceiros: 'Se estas bestas vêm outra vez para o poder, sempre quero ver. Já não basta o que fizeram antes... Alguma vez eles são capazes de fazer o mesmo que estes? Alguma vez...? Uma cambada! Nem quero pensar!'.
Quando se refere ao que 'fizeram antes', penso que se refere ao Passos Coelho; mas também pode ser ao Cavaco, que ela detesta. Não fala do Rio. Para ela, o Rio é apenas uma representação dos outros. Não o reconhece sequer como ser autónomo e capaz.
Não sonhando que as suas palavras seriam aqui reproduzidas, enfurece-se ainda mais ao falar do Bloco ou do PCP: 'Bandidos. Eles é que têm dado espaço para esse Ventura, esse porco. Nem consigo vê-los, quando aparecem mudo logo de canal. Bandidos.'.
E acrescenta: 'Desde o 25 de Abril que não estou tão preocupada com umas eleições. Vou votar logo à abertura. Estou mesmo preocupada com isto'. Pergunta-me a que horas abrem as urnas. Digo-lhe que acho que é às 8 da manhã. Diz que vai antes para votar logo que abram.
Nunca, nestes anos todos, lhe perguntei em quem votava. Nem a ela nem ao meu pai. Mas creio que, em geral, terá sido no PS. Neste caso, agora, não há dúvidas pois di-lo explicitamente. Gosta muito do António Costa tal como gosta bastante da Marta Temida.
De resto, quer a minha avó quer o meu tio, irmão dela, sempre mostraram ter o coração devidamente implantado: à esquerda.
Um dos seus tios, irmão dessa minha avó, tio que eu ainda conheci quando era muito pequena, antes do 25 de Abril esteve preso e foi deportado creio que para São Tomé. Mais tarde, já por cá, viveu clandestinamente e lembro-me de o ver uma vez à noite em casa da minha avó e de o ter encontrado uma vez no mercado do peixe. Estava com a minha mãe e ela deu de caras com ele. Lembro-me de ter sido um encontro estranho, meio a correr e a disfarçar. Nunca se sabia por onde andava. Tenho ideia que morreu pouco antes do 25 de Abril pois a minha avó lamentava que aquele irmão não tivesse desfrutado a liberdade pela qual tanto tinha lutado.
Do lado dessa minha avó sempre foram uns resistentes e houve um primo da mãe dela que foi Presidente da República, uma pessoa da cultura.
Há pouco, ao chegar a casa, já tarde, liguei a televisão enquanto nos preparávamos para jantar (felizmente a comida estava já feita). Vi o Rio a aconselhar o Costa a acabar a sua vida política com dignidade. Senti um enjoo, um incómodo profundo.
Os portugueses não podem ser irracionais ao ponto de trocar uns bons governantes, como os que temos tido nestes últimos anos, por gente que não lhes chega aos calcanhares.
Nem acredito que achem que o Costa tem governado bem o País e, por qualquer enviesada razão, vão votar noutro qualquer, abrindo a porta para o Rio, para o Chicão, para o Ventura.
Não acredito.
Só espero é que quem pense que a melhor solução para o País passa por ter um governo liderado por António Costa se chegue à frente e o afirme a plenos pulmões. E vote. No PS.
Eu, pela parte que me toca, é o que aqui estou a fazer. Vou votar no PS e creio que praticamente toda a minha família mais directa vai fazer o mesmo. Nenhum de nós é filiado. Nem somos de ir a comícios, arruadas ou coisas do género. Mas concordamos numa coisa: nenhum outro partido tem mostrado a sensatez, a abertura de espírito, a visão de futuro, preocupações humanistas e intergeracionais, espírito inclusivo, apetência cultural, capacidade de pôr o país a crescer assente num equilibrado modelo económico, no poder da educação e do desenvolvimento científico e tecnológico, sempre com sentido de Estado e pés na terra como o Partido Socialista. E reconhecemos António Costa não apenas como um competente e digno líder socialista como um excelente governante.
Espero muito sinceramente que ninguém fique em casa nem vote com os pés: vamos votar e vamos votar com a cabeça. Se não queremos a direita, votemos em quem melhor lhe consegue barrar o caminho e em quem melhor governará o país: no PS.
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As rosas foram fotografadas por Nick Knight ao som de do tema do Cinema Paraíso de Ennio Morricone na interpretação de Renaud Capuçon
Estamos quase lá e creio que já ninguém se aventura a fazer grandes previsões. Com sorte, entre vacinas, reforços, sprays, comprimidos e outras gracinhas, haveremos de conseguir controlar as nossas vidas. Mas enquanto a luz ao fundo do túnel não está ao alcance das nossas mãos, mais vale batermos a bolinha baixa e assumirmos a nossa insignificância perante um enxame invisível de merdinhas, pior que praga de microscópicos gafanhotos ranhosos.
Hoje fui à farmácia à hora de almoço. No balcão, entre uma miríade de produtos, vi uma lata grande onde dizia que era um desinfectante para o ar. Fiquei sem perceber se era para matar moscas, melgas ou mosquitos. Apurei a vista pois o que fazia tal coisa no balcão de uma farmácia? Pois bem. Entre várias coisas, dizia que matava vírus. Claro que não sei se, de caminho, não mata também um bocadinho das pessoas que respiram o ar assim desinfectado mas em tempo de guerra não se limpam armas e, portanto, se a prioridade é matar coronas, que se lixem as pessoas. Dum-dum para cima de toda a gente a ver se a malta se desencarde deste sebo covídico.
Isto para dizer que eu, pouco dada a visões e, ainda por cima, com um bocado de miopia e de estrabismo, ainda pior para ver ao longe. Sei lá o que vai acontecer em 2022... E não é estrabismo, é outra coisa mas agora não me estou a lembrar.
Ah, sim, astigmatismo. Na última consulta soube que tenho também um bocado de astigmatismo. Não sei se é coisa que costume aparecer com a idade mas a mim apareceu. Felizmente nada forte de mais já que ando sempre sem óculos... e ainda não me perdi. Melhor: quando me perco não é por não ver bem mas por ter o meu gps interior mal configurado.
Portanto, não me arrisco a avançar com palpites sobre como vai ser o 2022. Gostava era de estar cá para ver como vai ser o 2222. Isso, sim. Os malucos por números vão delirar. É ano para se fazer o pleno e para toda a gente se desforrar antes que seja tarde.
Dormir ao relento na praia, ao pé de uma fogueira. Por exemplo. Vestir-me de noiva e pregar um susto ao meu marido. Também por exemplo. Contratar o Benedict Cumberbatch para me dizer um poema ao ouvido. Também por exemplo.
Mas, se calhar, por essa altura já cá não estou, pelo menos igual ao que hoje sou. A menos que me congelem e em 2222 me ponham no microondas a descongelar. Pode ser que descongele bem e esteja em boa forma, ou seja, que não me desfaça em água. Nunca se sabe.
Portanto, se não sou capaz de fazer conjecturas sobre o que o longínquo 2222 e o próximo ano nos trazem, posso é dizer aquilo que eu gostaria que acontecesse já para o ano que aí está quase a dar as caras. E, então, sem qualquer outra ordem senão a ocasional, resultante do que me vai ocorrendo, aqui vai:
1) Semanas de trabalho de 4 dias úteis, rotativamente. Ou seja haveria escalas de dias de descanso. Trinta horas de trabalho por semana, no máximo.
2) 26 dias de férias [já muita gente tem 25, seria apenas alargar a todos e acrescentar-lhe 1]
3) Forte incentivo (seja fiscal, seja de que forma for) a que, em férias, pelo menos duas vezes por ano, num mínimo de três dias de cada vez, sejam passados em Portugal, num concelho diferente daquele em que se vive.
4) Oferta de uma viagem por ano de comboio em Portugal a todos os cidadãos portugueses
5) Para todas as profissões que o permitam, pelo menos metade dos dias úteis em teletrabalho
6) Licença parental de 1 ano, sem perda de rendimento, repartido entre pai e mãe, conforme o desejem
7) Abertura de um número significativo de creches gratuitas com horários de 24 horas (nos locais em que tal se justifique, para que os pais que trabalham em turnos tenham onde deixar os filhos em segurança)
8) Abertura de um número significativo de espaços gratuitos de ATL
9) Abertura de residências séniores públicas, com mensalidades ajustadas aos rendimentos, e com actividades tais com fisioterapia, ginástica, aulas sobre matérias diversas, enfermagem, cabeleireiro e manicure, etc
10) Obrigatoriedade de disponibilização de várias hortas urbanas e jardins partilhados em cada localidade com apoio de agrónomos, agricultores, arquitectos paisagistas e jardineiros
11) Disponibilização de espaços para arte pública (escultura, pintura, azulejaria, artesanato, artes tradicionais, música, dança, etc) em cada localidade
12) Obrigatoriedade de um número mínimo de aulas ao ar livre em cada ano lectivo
13) Obrigatoriedade de aulas de Sustentabilidade e Defesa do Planeta desde o primeiro ao último ano de cada curso (Medicina, Engenharia, Direito, Biologia, Urbanismo, Farmácia, Teatro, etc)
14) Obrigatoriedade de aulas de Língua Portuguesa do primeiro ao último ano lectivo de todos os cursos
15) Obrigatoriedade de aulas de Nutrição e de Exercício Físico do primeiro ao último ano lectivo de todos os cursos
16) Reforma compulsiva do Super-Judge Alex e do seu destrambelhado Rosarinho
17) Criação de um canal televisivo alternativo que mostre o lado bom das coisas e arrume com a TVI, a SIC, Correio da Manhã, CNN Portugal e até com a RTP quando copia os outros
18) Criação, em cada distrito, de residências de acolhimento, escolas e estruturas de apoio para imigrantes
19) Que se descubra maneira de que todos quantos carregam nuvens negras à sua volta -- e que conseguem contaminar com má sorte quem lhes está por perto -- desamparem a loja e vão existir para bem longe, quiçá enviados para o espaço naquelas naves do maluco do Musk.
(etc. etc. etc. )
Ou seja, não previsões mas uma lista de wishful thinkings.
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Mas se eu não passo de uma pomba lesa a antever o futuro, já o The Economist não. Ali bebe-se do fino. Eles falam e é bom que a gente os ouça. Convido-vos a verem o vídeo.
O que é que o futuro nos reserva para 2022?
The World Ahead 2022: five stories to watch out for | The Economist
What will be the biggest stories of 2022? As the pandemic continues to wreak havoc across the globe, President Xi will cement his power as leader of China, tech giants will coax more of us into virtual worlds and the space race reaches new heights. The Economist is back with its annual look at the top stories of the year ahead. Film supported by @TeneoCEOAdvisory
Mais um daqueles dias com (quase) tudo lá dentro. Preciso desesperadamente de férias. Esta sexta-feira vai ser obra. Queria estar já numa de zero reuniões, reuniões free, mas não consegui. Não me dão tréguas. E mandam-me documentos para aprovar e eu não consigo aprovar o que quer que seja sem ler atentamente. E tem sido com cada um.... Dose. Portanto, há dias em que é praticamente non stop. E isso, nesta altura do campeonato, pesa a dobrar.
Trabalho à parte, a mesa de que eu gostava tanto e que se desconjuntou foi considerada um caso perdido. Mas o tampo é muito bonito e estava bom pelo que o meu marido se lembrou de lhe arranjar uns pés de tipo cavalete que tinha visto no Leroy. Assim, ficamos com a mesa suplementar de que temos falta para refeições de grande ajuntamento. A mesa nova creio que não acomodará mais do que 10 pessoas o que é curto. Além do mais, em tempos covid, não é de bom tom estarmos todos de boca aberta, sem máscara e colados uns aos outros. Portanto, a solução do tampo e dos cavaletes que se fecham e arrumam é uma boa.
Aproveitei para trazer do Leroy uma latinha de dourado. Acho que alguns dos móveis pintados vão ficar uma belezura com um filet em dourado.
Ao lado do aparador, a minha filha fez uma mistura de mesas e de cores e numa jarra que está sobre o dito aparador, achou que ficaria bem umas flores no tom. Então, já que tínhamos que ir também comprar uma cafeteira (até a máquina do café se avariou) e uma box para a tdt (que se avariou), resolvi ir num pulo ao Gato Preto. Será escusado dizer que, em pleno Gato Preto, tive que me chatear pois, mal entrei, já ele estava passado. Detesta compras. Detesta. Sempre detestou. Quando eu não estava em teletrabalho, jardinava e passarinhava à vontade sem andar com ele. Agora, trabalhando em casa, aproveitamos os fins de dia para estas incursões em conjunto. Mas nunca correm bem. Ver flores no Gato Preto é porem-no a andar descalço sobre brasas: só quer correr dali para fora. Tive que lhe dizer, com maus modos, que parasse de me perseguir, loja fora, a dizer que não estava para aquilo. Ficou ainda mais bravo. A empregada vinha perguntar se precisávamos de alguma coisa mas deve ter percebido que havia raios e coriscos entre nós e arrepiou caminho.
Portanto, lá escolhi apressadamente um little bouquet e lá nos viemos embora. Mas deve ter percebido que exagerou na birra pois no parque de estacionamento já vinha todo simpático a perguntar se não seria melhor irmos comprar comida para não ser preciso cozinhar quando chegássemos a casa.
Felizmente a minha mãe não estava connosco senão punha-se logo do lado dele. Habituada a que o meu pai pusesse e dispusesse, condicionando-a nas suas vontades, faz-lhe muita impressão que o meu marido se mostre abertamente contrariado por fazer algumas coisas e que eu não acate cegamente a vontade dele. Eu digo que ele tem bom remédio: não vir comigo. Mas ele acha que eu sou despistada, me perco ou me distraio a ver isto e aquilo e nunca mais apareço em casa e, portanto, contrariado, vem. Mas vem mais numa de me controlar e obrigar a despachar. E isso irrita-me. Em contrapartida, há vantagens.
Como estamos numa de, in heaven, tornar o ambiente mais claro, as carpetes da sala da lareira, que eram de tons mais intensos (Arraiolos feitos por mim respeitando as cores originais), foram para a zona mais antiga da casa e, para ali, a sala estava precisada de umas mais suaves. Portanto, hoje, a seguir aos pequenos electrodomésticos e às florzinhas fomos comprar uma carpete. Ou seja, um rolo bem gigante e bem pesadão. Poderia ter encomendado online? Poderia. Mas não seria a mesma coisa. Escolher um tapetão é daquelas que só mesmo ao vivo. E é também daquelas que eu não teria conseguido trazer sozinha.
Portanto, a ver se ele não se enfurecia mais e me dizia que carregasse eu com a carpete, calei-me caladinha. A vida de casada, quando a gente se gosta e se conhece, tem disto: um jogo de equilíbrios em que o deve e haver se misturam, se confundem, perdem o sentido. E, além disso, as pequenas quezílias evaporam-se instantaneamente (pelo menos connosco, é o que acontece).
Quando chegámos a casa, perto das nove da noite, fui ainda fazer uma proeza: pintar as raízes com tinta comprada no Lidl. Já o contei: na linha lateral de contorno do rosto, entre as orelhas e as laterias da testa, tenho já alguns cabelos brancos. Aliás, em meu entender, bastantes. Se usar o cabelo caído, mal se vêem. Mas, se o apanhar como gosto de fazer no verão, vêem-se bem. Também podiam ficar assim mas parece que não gosto ou, pelo menos, ainda não me habituei a gostar. Segui todas as instruções. Vinte minutos nas raízes e depois dez no resto para não ficar um contraste grande. Agora ainda o tenho um pouco húmido mas parece que ficou bom. Creio que até está igual à cor original. A ver se amanhã, sequinho e ao sol, está como deve ser. Acredito que sim. Jantei ao lado do meu marido e ele não disse nada. Acho que nem reparou. Ora isso significa que nada a reportar, que é o que importa.
Pelo caminho, encomendámos comida num restaurante e pouco depois estávamos lá a buscar a encomenda. Rolinhos de porco no forno com champignons, batatas em mil folhas, trufas e mais não sei o quê. Bons.... de comer e chorar por mais. Souberam-nos que nem ginjas boas, boas. Também... com a fome com que estávamos...
Com tudo isto, cheguei aqui e, como sempre, não apenas me constatei sem assunto como, para mal dos meus pecados, foi logo tiro e queda. Portanto, vou mas é pregar para outra freguesia que aqui, por hoje, parece que isto já deu o que tinha a dar. Sorry.
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Fotografias (lindas) da autoria de Nick Knight enquanto Roo Panes interpreta Childhood
PS: Se o que escrevi estiver pejadinho de gralhas, peço o favor de que relevem. Ou me corrijam, Please.
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Desejo-vos uma bela sexta-feira.
E, se não for pedir demais à suprema entidade reguladora, desejo que todo o fim-de-semana e toda a próxima semana sejam bons a valer para todos quantos estiverem a ter a paciência de aí estar, desse lado, a fazer-me companhia.
Estou a ver um belo documentário na 2, Fevereiros, em que Bethânia, Caetano e Mabel, manos tranquilos e felizes, falam do seu contacto com a religião. Mas, sobretudo, fala-se aqui da íntima ligação de Bethânia com a religião, uma relação telúrica, íntegra, visceral, mágica. É uma festa a religião contada por eles e tão sentida por ela.
Bethânia fala de como subiu degrau a degrau até chegar ao contacto com a Senhora, coroando-a. Fala da primeira comunhão, da alegria de festejar o contacto com o divino. E fala do candomblé, de desfile, da dança, do canto, da reza, da partilha, do afecto, fala de curtir a presença dos santos e dos espíritos.
Já aqui contei e vou repetir-me -- para mim a religião nunca foi festa e alegria.
Bem, talvez tenha sido no principiozinho, quando não era senão gracinha de criança.
Havia uma capela bonita num lugar um pouco mais isolado que ficava entre o bairro onde morava uma das minhas avós e o bairro dos meus outros avós. Ficava também perto da escola. Era na escola que tínhamos a catequese.
Em Maio, a capela era toda decorada com flores e. num certo domingo, era dia de festa, o dia em que havia a primeira comunhão para os mais pequenos e a comunhão solene para os crescidos.
Isto era precedido de um desfile, na rua, dos meninos abrangidos e não me lembro se também, talvez atrás, dos respectivos irmãos ou pais. Disso não me lembro bem, tenho apena uma vaga ideia da minha mãe não estar longe..
Lembro-me que, antes da minha comunhão, eu ia à frente, de anjinho. Disso eu gostava.
Gostava muito do cheiro fresco das flores, gostava de estarmos todos vestidos de branco, gostava dos cânticos religiosos que ecoavam pelas ruas e depois na capela. As vozes das crianças e as vozes serenas dos adultos, tudo era muito límpido e claro.
Como anjinho, eu, que tinha cabelos compridos, louros, ondulados, usava, em volta da cabeça, uma grinalda de florzinhas brancas e umas asas enormes saindo das costas do vestido, que era comprido, até aos pés. Já contei que tenho uma fotografia da qual gosto muito: eu e outras duas meninas, luzindo ao sol de Maio, eu, com os cabelos esvoaçando, eu, rindo. Uma festa. As asas eram pesadas e a grinalda não prendia bem os meus cabelos mas eu não queria saber disso. Gostava era de andar naqueles festejos brancos.
Até ao momento em que chegou a altura da minha primeira comunhão. A cena dos pecados e de confessar pecados que eu achava um disparate já me arreliava um bocado. Puxava pela cabeça para ter alguma coisa para confessar e todo aquele exercício me parecia forçado, absurdo. Ia confessar palermices só para não ficar ali calada por não ter nada que dizer.
Mas pior, pior, pior foi quando, nos ensaios, resolveram dar uma hóstia para experimentarmos. Avisaram que não era para mastigar, que era corpo de deus. Acontece que aquilo se me colou ao céu da boca. Fiquei naquela aflição, sem saber como dar a volta ao corpo de deus. Pôr o dedo na boca para deslocar Deus do céu, isso, ainda menos. Portanto, fiquei num sufoco. Não falava, mal me mexia. Claro que, perante tal, logo a catequista e as professoras perceberam que algum problema havia comigo. Às tantas rompi num pranto. Lá me explicaram que... bem... aquilo não era exactamente o corpo de deus. Não devem ter dito que era mito ou metáfora mas descansaram-me, que tentasse dar a volta com a língua, que bebesse água para deus amolecer, que não estivesse tão apoquentada, E a coisa lá se resolveu. Ensinaram-me truques para vezes futuras e perdi o medo. Mas percebi que os tempos de anjinho, os tempos da inocência em que não tinha que me confessar e comungar, tinham acabado.
Não estou certa mas acho que, para a primeira comunhão, aos seis anos. devo ter levado o vestido que usei no casamento dos meus tios, um vestido de renda branca, sainha rodada, talvez o cabelo apanhado em cima com florzinhas brancas em volta, sapatinhos brancos. É assim que me lembro de mim mas, na minha cabeça confunde-se ir levar as alianças ao altar ou ir receber a hóstia na primeira comunhão.
A partir daí toda a mística se perdeu. A catequese era um castigo, um desfiar de histórias sem graça, carregadas de pecado. Detestava. Como ficção pareciam-me aborrecidas, como supostamente verdadeiras, eu não acreditava. Até que chegou a comunhão solene, aos nove. Não sei porquê, aí fui de monja. Não há explicação. Não era eu. Nada naquela indumentária batia certo em mim. Um hábito com um cordão a servir de cinto, um véu. As fotografias mostram-me sem o ar alegre e até malicioso de quando era anjinho mas como alguém que estava a ser obrigado a parecer outra.
Não faço ideia qual o simbolismo da comunhão solene mas desse dia nada guardei.
Creio que a seguir era o crisma mas nessa altura já tinha adquirido voz e não quis. O meu pai deve ter dito à minha mãe que se deixasse dito e ela provavelmente deve ter percebido que nada daquilo era a minha onda.
A partir daí acabou-se-me o contacto com os rituais da igreja.
Durante os dois ou três anos seguintes, se ia à missa, ia sozinha com as minhas amigas, já não à capela da infância mas à igreja perto de casa -- a igreja onde velámos, na capela mortuária, os meus avós e tios -- e era apenas o pretexto para ter autorização para isso mesmo, para irmos até umas ruas mais abaixo. Íamos de casa à igreja e regressávamos mas a ideia de irmos sozinhas era uma feliz sensação de desenfianço, de liberdade. Ficávamos cá atrás, na conversa, na galhofa, descobrindo quem estava e quem não estava.
Quando nasceu a minha prima mais nova, eu tinha treze anos e disse que gostava de ser madrinha dela. Deixaram. Da minha parte, não teve nada de instinto religioso nem os meus tios também eram disso. Mas senti-me crescida, eu madrinha de uma bebé, a ocupar o lugar de uma pessoa crescida. E, com esso acto simbólico, desliguei-me de vez dos cerimoniais da igreja.
E, no entanto, há em mim um forte sentido de religiosidade e agradecimento: venero a natureza, a bondade humana, a inocência dos animais, a liberdade, a beleza em estado puro, a magia dos momentos efémeros e perfeitos, a sabedoria dos acasos.
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As flores e Kate Moss foram fotografadas por Nick Knight.
Sobre as contradições e os absurdos que envolvem tudo o que se refere ao narcisista-demente hoje não me apetece falar.
Dia inteiramente preenchido, sem tempo para esticar as pernas, descansar a cabeça ou desanuviar a vista. Ao fim do dia estou sem vontade de me atiçar. Gastei os rastilhos e cargas explosivas ao longo do dia. No entanto, estive paciente. De vez em quando, sobem-me umas impaciências que chego a julgar não conseguir controlar. Mas estava a lidar com gente bem intencionada e, portanto, por decência e generosidade, aquietei-me, deixei rolar. Ver o tempo a passar, eu a ficar com a agenda sobreposta, e a manter-me quieta, deixando que as pessoas tenham o seu momento e se alonguem até quererem.
Penso que consigo desafiar as pessoas levando-as a acreditar que vão conseguir coisas para as quais nunca imaginaram que alguém as fosse puxar, penso que percebem que estou ali para os ajudar a serem melhores e a irem mais além. E isso a mim é o que me motiva. Acredito que modifico a vida de algumas pessoas fazendo muito pouco, apenas acreditando nelas. Mas a crença, lá está, cá para mim faz milagres.
Mas tantas vou acumulando, a tanta dose suplementar de paciência me forço, que chego à noite e estou verdadeiramente sob o efeito de um pack de efeitos secundários. Um deles é este: a energia para desferir flechadas sobre cavalgaduras criminosas falha-me.
E, assim sendo, digamos que hesito entre dar o dia por feito e encostar a cabeça para trás, adormecendo de imediato, ou deixar-me por aqui ficar, vagueando entre coisas nenhumas.
Agora que escrevo, passa um documentário biográfico sobre o médico Sousa Martins. Há pessoas que despertam sentimentos bizarros nos outros. Não sei como se parte de um sentimento de reconhecimento agradecido para com uma outra pessoa, para um sentimento já em segunda, terceira, quarta mão, que não é senão espelhar na sua memória a imagem de um santo, seja lá o que isso for. Vejo a reportagem e há ali gente e gente e gente que nem deve conhecer minimamente o percurso de Sousa Martins e que o venera como se o senhor, que já morreu há cento e tal anos, ainda pudesse curar males que os médicos vivos não curam ou satisfazer caprichos ou conceder favores que não lembram ao careca.
Acho bizarro mas não censuro. Tenho para mim que a mente comanda a vida e se uma pessoa quer curar-se ou quer ser abençoada ou tocada por uma qualquer graça, todo o seu organismo se polariza nesse sentido -- e o bem aparece. Em contrapartida, quando uma pessoa desiste, descrê, se desinteressa e se entrega ao fatalismo, o corpo rende-se, a cabeça sucumbe -- e o mal acontece.
Por isso, é bom ter fé. Se umas pessoas têm fé no 'doutorzinho' como a extraordinária Lina da Trafaria tem, se outras acreditam na Nossa Senhora de Fátima ou no Cristo Redentor ou na Santinha do Pau Oco, se outras na grande força cósmica do universo ou na boa onda com que tantas vezes o acaso se apresenta, tanto faz. O que é preciso é acreditar, seguir em frente. Desde, claro, que se mantenha um mínimo de racionalidade. No entanto, tenho a impressão que mesmo quem tem fés e fezadas estranhas geralmente não descura os tratamentos médicos normais ou não deixa de lutar pelo que quer.
Mas, enfim, o tema é complexo e eu não tenho competência para tanto. A pouca que tenho reservo-a para sobreviver, não para frescuras.
Por isso, vou pôr-me na sic e ver a novela da noite, uma brasileirada cheia de ternura e graça. Totalmente demais. Não posso cansar a minha beleza. Já dobrei o dia, daqui a nada recomeço. Outro dia assim. Tenho que me poupar.
Mas dizia eu, a minha latitude mental e a hora avançada, não dão para temas elevados, só mesmo para rasteiros, assuntos que têm a ver com os pés, não com a cabeça.
Conto. Com isto do macaquinho cabeçudo dos totós cor-de-rosa veio a coisa de não andarmos em casa com sapatos da rua. Por acaso, nunca andei -- mas atravessava o hall, depois o corredor e ia deixar os sapatos na sapateira que estava num canto da varanda fechada das traseiras. Ora agora não apenas é suposto não se andar a atravessar a casa com sapatos da rua como não há cá varandas fechadas ou recantos onde fiquem à mão de semear. Ir pôr na cave sapatos de uso corrente não dá e ninguém quer exércitos de merdinhas a desfilar pelo corredor. Portanto, ando a lidar com esta dúvida. Temo-los deixado no chão, junto à porta de entrada, mas coisa mais sem jeito não há. Os meus, os dele, às tantas uma sapataria desorganizada a fazer a recepção a quem chega. Muito mau. Pois bem, dei agora com uma solução. Não é perfeita mas se puser isto atrás da porta, quando se entra, não se vê e, quando se sai, eis que ali estão, ao dispor.
And that's all Folks!
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As imagens são da autoria de um dos fotógrafos com quem eu, quando crescer, gostava de estagiar: Nick Knight.
A Janis Joplin está ali em cima porque obviamente.
Acabo com um suplemente vitanímico. Não vitamínico mas isso mesmo que escrevi. Um suplemento anímico com as minina, as avós da razão.