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segunda-feira, junho 27, 2022

Portugal, Portugal

 


Gosto muito do meu país. Gosto dos lugares, das paisagens. Acho que o meu país tem sítios lindíssimos. Gosto dos portugueses. Claro que, como em todo o lado, há gente de toda a espécie. Há os miseráveis e os ignorantes. Há os corruptos e os arrogantes. Os palermas e os parvos. Mas há muito boa gente, gente tolerante, gente generosa, gente talentosa, interessante. E há a língua portuguesa, tão bonita, tão rica. 

Em muitos lugares do país há agora muita gente de fora. Se, por exemplo, estivermos na linha de praia, há uma multidão de jovens que falam outras línguas, muitos surfistas, muita gente descontraída que fica à beira mar a conversar até a noite chegar. Se estivermos na linha de restaurantes e esplanadas, estão cheias. Ouvem-se todas as línguas, as pessoas estão já um pouco bronzeadas e geralmente sorriem, de bem com a vida. E por todo o lado se ouve a língua portuguesa nas suas múltiplas variantes, dos brasis, das áfricas. Uma riqueza extraordinária. O país agora é aberto, alegre, inclusivo, luminoso.

Já lá vai o tempo em que os portugueses eram gente ensimesmada, gente que vivia fechada em casa espreitando atrás do cortinado, gente sempre pronta para a censura castradora, sempre pronta para a maledicência, pronta para rejeitar a diferença.

Ainda há alguns assim. Os que são dessa raça podem correr mundo e assentar arraiais noutras paragens que continuarão a ser assim, soturnos, fatalistas, maledicentes, sempre prontos para cortar na casaca dos outros. Gente maldosa, cinzenta.

Mas são uma minoria. Agora, por onde se passa, já se vê gente aberta à vida, aos dias que passam, à música e à claridade, já se vê gente que aparenta alguma confiança nos dias futuros.

Há ainda gente com rendimentos muito baixos, é verdade, e que, com certeza, não pode ter acesso ao que de bom a vida tem para oferecer. Mas onde não há? Em lado nenhum. Imaginar que há é querer viver dentro de uma utopia. Para além disso, em Portugal há apoios sociais e há a educação e há uma atenção crescente à necessidade de não deixar ninguém para trás. Haveremos de ser ainda melhores. E não é com palavras de ordem e parangonas que as coisas se mudam. É com acções concretas e uma forte consciência social.

Pode dizer-se mal de tudo, claro. Há quem o faça. Os populistas são assim. Ouça-se o líder do Chega e comprove-se: segundo ele, Portugal é uma desgraça, os portugueses uns desgraçados. E eu olho para ele e acho que desgraça é haver portugueses assim, como ele.

Há ainda muito a fazer, muito. Alguém diz que não? Alguém de bom senso acredita que Portugal é perfeito? Claro que não. O que é preciso é que ninguém baixe os braços, que ninguém de bem vire as costas aos que ficam. A partirem, que partam apenas os que não sabem honrar a história, a língua e a garra dos portugueses de gema.

O que temos pela frente é um percurso. Ainda não há cinquenta anos que vivemos em democracia. Durante décadas o país viveu tolhido, amarrado à força à pobreza, à ignorância. Éramos um país fechado sobre si próprio. E isso deixas marcas profundas.

Leva tempo a construir mentalidades novas, a abrir as mentes de forma colectiva, a abrir-se ao mundo. 

Eu estudei em Portugal, perto de casa. Não me ocorreu ir para longe quando podia estar perto. Mas uma prima mais nova já foi estudar para uma universidade a centenas de quilómetros de casa. E a filha de uma outra prima já foi estudar para um outro país, um país longínquo. Os meus pais nunca me deixaram fazer o interrail porque eu queria ir com um namorado e eles acharam que nem pensar ir por aí, à aventura, com um namorado. E casei-me aos vinte porque não me passou pela cabeça ir viver com ele sem me casar. Com os meus filhos foi tudo diferente. Viveram juntos sem se casarem, passearam, fizeram o que quiseram. Não sei como será com os meus netos. Da minha parte, quero que sejam felizes, que realizem os seus sonhos -- mas que amem sempre, de paixão, o nosso país, que sejam sempre solidários com os seus concidadãos, que sintam sempre orgulho em serem portugueses.

Não é um sentimento abstracto. É bem concreto, bem real. É um amor verdadeiro, completo que, em cada pequeno acto, deve ser materializado. É daqueles amores que se quer físico, demonstrado. Quem ama o seu país sente-se também amado. É como com as pessoas. Amor verdadeiro é amor partilhado, é amor tolerante, é amor que se quer construir e para o qual se quer que depois de um dia venha o outro dia. Quando assim não é, então não é amor. 

Há pouco apareceu-me um vídeo que mostra o meu País pelo olhar de um não-português, muitas vezes em imagens aéreas que, obviamente, não são alcançadas por quem anda com os pés no chão. Conheço aqueles lugares mas sob uma outra perspectiva. Gostei de ver. Que país tão bonito.

A seguir, com alguma edição, vi como um casal também não-português vê o nosso país. Vi muitos lugares que conheço e percebo o encantamento de quem os vê pela primeira vez. País mais lindo, o meu querido Portugal.

Partilho-os convosco. Mostram o país visual. Claro que há depois o país vivido, o país do dia a dia, tantas vezes tão difícil. Mas esse não é agora o tema. Só espero é que gostem tanto do nosso país como eu. 

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Os melhores locais para visitar em Portugal segundo Ryan Shirley

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Portugal - The Europe We Didn’t Know Existed!

Portugal has been on every "top travel destination" blog for years. Over a 2-week road trip we explored the beautiful castles, incredible history, and rugged coastline, from Lisbon to Sintra down to the world-renowned Algarve beaches and caves, and then all the way up to the rolling vineyards of the Douro Valley wine region in this fascinating slice of Europe. 

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Mário Cesariny :: Queria de ti um país 

Música de Rodrigo Leão & Gabriel Gomes / Vídeo Cine Povero


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Pinturas respectivamente de Vieira da Silva, Paulo Ossião, Guilherme Parente, 2x Graça Morais, Noronha da Costa, Paula Rego, Cargaleiro.

Carlos Paredes com Luísa Amaro interpreta Canto do Amanhecer

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Boa sorte. Compreensão. Paz. 

segunda-feira, janeiro 14, 2019

Lisboa tem pontos cardeais.
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 8 de 8]




Muita coisa a fazer em casa mas, mal acordei, o meu marido foi ter comigo à cama para me perguntar se não queria ir passear, almoçar ali pelo Chiado. Turistar em Lisboa. Claro que sim, há lá coisa melhor? No fim, já a meio da tarde, até lhe disse: não me importava de tirar dois ou três dias de férias para podermos andar à descoberta do que mudou desde a última vez. 

Aliás, deve ter sido telepatia entre mim e ele pois ontem, ao adormecer, naquela fracção de segundo que levo para cair no sono, tinha mesmo pensado nisto: não inventar, limitarmo-nos a passear na mais linda cidade do mundo, linda, cada vez mais linda. 

Entretanto, regressámos quase a anoitecer e, desde aí, já me fartei de trabalhar. Tarefas domésticas que é coisa de que gosto se feitas à pressão. Um dia que esteja em casa sem necessidade de fazer as coisas à pressão nem sei como vai ser.

E agora vou continuar a enviar postais de Lisboa. Espero que gostem.

sexta-feira, fevereiro 16, 2018

O mar em Vila do Conde
[Último de sete posts sobre Vila do Conde]





Terei que voltar a Vila do Conde. 

Já o contei algumas vezes. Quando penso num lugar ao qual tenha sempre vontade de voltar, penso em alguns de que muito gosto (penso, por exemplo, em Honfleur, penso em Saint-Malo) mas, de entre aqueles em que já estive algumas vezes e sempre neles me sentindo em casa, penso em Donostia (San Sebastian). Sinto que aquela a cidade poderia ter-me acolhido, não fora eu ter criado raízes um pouco mais a ocidente. Gosto de nela andar a pé, gosto de andar rente ao mar, gosto da cidade em si, de nela passear, gosto de lá estar. Gosto mesmo muito. Por algum motivo que não sei bem explicar, sinto que é uma cidade feliz.

Mas agora que vislumbrei a maravilha que é Vila do Conde, penso que terei que lá estar de novo, com mais tempo e que, na minha cabeça, qualquer movimentação de preferências se começou a desenhar. Aquela casa rente ao rio, da qual se desce mesmo até à água, ou aquelas casas mesmo à beira do mar de onde se há-de ouvir o rugido e aspirar a maresia --- que bom deve ser viver lá. Se eu conseguisse descobrir maneira de passar uns dias numa casa assim. O meu marido até ficou com ideias, a medir distâncias. Mas é longe para se poder ir e vir com assiduidade. 


Quando se pensa que se conhece o que de melhor o País tem, chega a prova de que nem pouco mais ou menos e de que o que não é mais divulgado não quer dizer que seja menos bom. É certo que é bom estar num lugar assim -- virgem, cuidadíssimo, sem tuc-tucs, sem adolescentes a arrastar a mala de rodinhas, sem hordas de asiáticos com paus de selfies a filmarem-se em permanência ou espalanadas a rebentar de jovens que exprimem a sua extroversão noutras línguas -- mas o que me ocorre logo é que é pena que Vila do Conde não esteja mais divulgada para que mais pessoas possam desfrutar a sua imensa beleza.

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E a velar pela protecção dos que se fazem ao mar, a Nossa Senhora dos Navegantes


(Mas não são apenas as Caxinas que são abençoadas, é toda a cidade de Vila do Conde).

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E queiram continuar a descer caso vos apeteça passear em Vila do Conde

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sexta-feira, outubro 19, 2012

Numa noite fria de névoa, num hotel, dançando com luzes e ouvindo a trova do vento que passa (e hoje não quero saber do Passos Coelho nem do Gaspar nem do Portas)





Aqui onde estou está frio, húmido. Quando há pouco cheguei ao hotel estava uma noite agradável, uma névoa fresca, daquelas noites em que é agradável uma pessoa perder-se na noite, sair a passear pela beira do rio (aqui também há um rio) e deixar-se ir, sem saber por onde, deixar-se ir apenas. 

Mas não fui. Para isso teria que ter quem depois me trouxesse de volta e me trouxesse abraçada porque a noite está fria para se andar sem um aconchego nos ombros, sem uma palavra quente nos ouvidos.

Vim, portanto, para o quarto e aqui estou. Estou a ouvir o noticiário da meia noite e meia. A mesma tourada de sempre. Neste momento ouço que apenas um interessado se confirma na privatização da TAP. Em qualquer parte do mundo decente, alguém que estivesse a negociar com apenas um interessado, desistiria da venda. Aqui não, vai-se em frente. 

Ouço também que o Gaspar-não-acerta-uma, quando foi ter uma reunião com os deputados para lhes explicar a orgia fiscal, levou quadros que tinham os cálculos engatados. Olha! Qual o espanto? Já houve alguma vez em que ele tivesse acertado?

Mas não me apetece falar de nada disto. Tretas, amadorismos, parvoíces.

Só que não estou com grande cabeça para escrever sobre outras coisas. Poderia falar da Sylvia Kristel mas também não quero. Há uns anos li a sua autobiografia e fiquei com muita pena. Alguém que em tempos víamos como uma mulher tão sensual e tão cheia de uma luminosidade inocente e, afinal, teve uma vida tão sobressaltada, fez más escolhas, foi infeliz. E depois foi a doença. Fico com pena. Mas não quero agora falar de coisas que não têm remédio e que me dão pena.

Também não tenho aqui os meus livros nem as minhas fotografias. Por isso, vou aqui apenas colocar um vídeo com um grupo de que gosto bastante, o Quixotic Fusion, gente que dança com luzes.





Mas está mesmo a apetecer-me poesia. Fui à procura e encontrei esta que me apetece ouvir. A Trova do vento que passa, porque É preciso um País. É a voz do poeta diseur Manuel Alegre e a guitarra de Carlos Paredes.




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E nada mais que daqui a nada tenho que me estar a levantar para mais um dia intenso. 
Tenham, Meus Caros, uma bela sexta feira!

segunda-feira, junho 11, 2012

In heaven: uma terra abençoada que dá pedras, flores e frutos numa exuberância quase escandalosa; e ainda uma grevílea que ressuscitou, videiras que renasceram macias e vigorosas, pássaros que nos deixam viver no seu território.


Música, por favor

Pedro Jóia interpreta Verdes Anos (Carlos Paredes)


. 1 .

Em Novembro de 2010, num dia de ventania, para meu grande desgosto, partiu-se uma árvore in heaven. A árvore já era muito alta, talvez uns 3 metros, embora o tronco fosse relativamente fino. Tinha sido uma árvore plantada por nós vários anos atrás, uma grevílea robusta.

Durante muito tempo quis esperar, não quis que se cortasse o tronco, tinha esperança que voltasse a rebentar. Mas a imagem de uma árvore destruída é triste de ver e acabei por ceder. O tronco foi cortado curto, quis que se guardasse a sua memória.

Para minha surpresa e alegria, cerca de um ano depois, começou a despontar, ao lado, uma folhinha que me parecia ser a bela folha rendilhada da grevílea. E assim foi. À medida que o tempo passava fui vendo embevecida como é generosa a natureza. Renasceu a minha querida grevílea. Ao fim de um ano e meio já deitou corpo e já iniciou o seu percurso a caminho de voltar a ser uma árvore crescida.



A minha grevílea, qual fénix renascida, menina ainda, tão cheia de graça, brilhando ao sol

(Ao lado, rochas saídas da terra)


. 2 . 

Falei-vos já muitas vezes desta minha nesga de terra aqui, in heaven. Quando resolvemos comprá-la, o meu pai olhava desconsolado para aquela terra inóspita, só pedra, e tentava dissuadir-nos: 'nunca aqui vão conseguir ter uma horta'. Só pedra e mato rasteiro. Nada crescia, apenas o tojo em que nos picávamos constantemente. Só pedras, pedras, pedras. Uma vez um senhor da terra a quem pedimos para ir lá cortar o mato e que, ao cavar, só lhe saíam pedras, lamentou-se: 'Ah terra ingrata...'. Custou-me muito ouvir isto. Apesar de tudo, nunca achei que aquela minha terra fosse ingrata. Desistimos de a tentar domesticar e agora somos nós dois que, sozinhos, fazemos o que entendemos que deve ser feito o que, diga-se, é muito pouco.

Mas muita persistência, total ausência de resignação, levaram a que esta terra se transformasse. Ao princípio, os meus filhos não percebiam a minha teimosia, achavam que era à toa que, no meio das pedras, plantasse tantas árvores minúsculas. Sempre lhes disse que um dia iam admirar-se por ver ali um bosque.

Em alguns recantos já o é quase e eu só não me ajoelho para beijar esta tão amada terra porque não sou muito dada a essas 'cenas'.

Talvez muitas pessoas olhem para aquilo e digam que é mato, ainda apenas mato. Mas não é. É o meu bocado de céu.



Se repararem o solo é, todo ele, pedregoso.
Mas amaciou-se e cobre-se de um suave e perfumado colorido - talvez não dê para horta mas o rosmaninho  é lindo


Não sei se foi pelo meu muito forte amor, o que sei é que aquela terra que, à vista, ainda é seca - uma fina camada de terra seca sobre um corpo de pedra - permite agora que o que lá nasce se torne exuberante. 

Claro que há espécies que não vingam, pelo menos em alguns bocados de terra. Há sítios onde já plantámos e replantámos uma meia dúzia de vezes e, sei lá porquê, não dá. Mas, onde nasce, é um excesso de vida e cor que me deixa feliz como nem imaginam.

Tudo me enternece. Vocês podem achar que o excesso está é em mim, por achar extraordinárias coisas que são banais. Mas é que não são banais. Podem, a alguns, parecer banais mas, para mim, são maravilhosas.

Vejam.


. 3 . 

Hoje reparei na parte de baixo de um cedro que está já enorme. Por cima está verde, cheiroso, frondoso. Mas por baixo é um tal aparato de rendas, de fios, atilhos, laços...!



Parte de baixo do cedro

Melhor: a lingerie, rendada, emplumada, do meu grande cedro


Mas isto é por baixo. Porque ou o cedro é um nome masculino só para disfarçar e, de facto, esta árvore é feminina ou, então, o meu cedro é dado a vestir-se de mulher. 

Quanto ao underware, já estamos falados. Mas,  por cima, é o mesmo aparato: a ramagem verde virtuosa toda se enfeita, uma profusão de enfeites, uma garridice faustosa. 


Jóias chamativas e lustrosas, carnudas, cheias de sementes

É o meu cedro que gosta de ser assim: uma chamativa mulher perfumada e frondosa


Fiz uma ginástica para conseguir ângulo para vos mostrar estas viçosas bolas verdes que agora enfeitam todas as ramagens. Toda a árvore está assim, cheirosa, ramalhuda, enfeitada. Uma fertilidade absoluta.


. 4 .

No final de Fevereiro, os meus pés de videira estavam ressequidos, pareciam mortos, ramos retorcidos e secos. Eis que tenho, então, notícia de que um Poeta tinha podado as suas. Leiga, informei-me, é agora a altura? Há técnica específica? Respondeu-me que se guiava pela intuição e pelo carinho, e que corria bem.

No fim de semana seguinte fiz-me ao labor. Com o podão na mão e seguindo as instruções - intuição e muito carinho - peguei nos ramos velhos e, com toda a delicadeza, podei-as generosamente, com gosto,  rente, com a convicção de que o milagre haveria de acontecer (lá bem no fundo, talvez algum receio de que as tivesse ferido de morte, mas apenas lá muito no fundo...).

Pois bem, o milagre aconteceu mesmo.



Videiras verdes, macias, e, de novo, um rendilhado: desta vez, cachos de uvas que despontam com inesperada exuberância

(Atrás, azulejos com uma reprodução de Max Ernst)


Viçosas, frondosas, verdejantes, carregadinhas de cachos lindos, miudinhos que virão, certamente, a ser uns belos cachos de uvas escuras, carnudas, sumarentas. E eu olho estes rebentos com o desvelo com que olharia filhos que eu tivesse ajudado a nascer. 

Correu bem aquela cirurgia a que as sujeitei em Fevereiro. Os Poetas são, como é sabido, pessoas em quem se pode confiar.


[A posteriori, volto aqui para vos convidar a ler o poema que o Poeta fez inspirado nesta notícia sobre o bom resultado que o seu conselho propiciou: poderão lê-lo quer nos comentários aqui abaixo, quer no seu Traçados sobre Nós]

*

Música, de novo, por favor

Carlos Parede e Luísa Amaro - Canto do Amanhecer


. 5 .

E isto acontece por todo o lado. Da terra, as árvores dão frutos saborosos e misturam-se com arbustos carregados de flores, uma desordem colorida, em que ninguém tenta impor qualquer ordem.



Macieira carregada de pequenas maças ainda verdes, misturando-se com um loendro cheiroso e cor de rosa

(Atrás passeiam os cavalos azuis sonhados por Marc Franz)



Poderia continuar aqui o resto da noite a falar-vos de outras proezas assim. Mas não quero maçar-vos mais. 


. 6 .

No entanto, deixem que vos peça ainda um pouco mais da vossa paciência para vos falar ainda destes meus dois loendros. Mediam escassos centímetros e estavam afastados um do outro. Pareciam iguais. À frente, entre os dois, uma das muitas pedras que saíram do solo e a que eu tirei a terra dos orifícios como se limpasse um animalzinho que me tivesse aparecido à porta. Na altura a pedra parecia grandinha junto dos pequenos loendros.



Os meus dois loendros, entrelaçados: não duros mas macios; no entanto, ainda assim, cheirosos
tal como a eles se referiu Natália Correia


Pois bem. Desataram a crescer, ao despique, era ver qual se fazia maior. E o bicho de pedra ia perdendo escala. Agora os dois loendros entrelaçam-se, enormes, todos floridos, e acolhem, à sua sombra, o bichinho de pedra. Um dá flores de um rosa clarinho, aveludado; o outro, flores de um rosa mais garrido, umas flores mais miudinhas. Ambos cheirosos.

Mas, mais à frente, espontaneamente, no meio da vegetação natural - rosmaninho, orégãos, esteva, funcho - eis que nasceu uma haste isolada com umas flores lindas, de um belo veludo grenat (deveria escrever à portuguesa, grená, mas parece que estaria a abastardar uma palavra tão bonita...).

O que eu andei de volta dela, fotografando-a. Um luxo. Está cercada de funcho, que é uma planta de um verde macio e rendilhado. Que cores, meus amigos, que cores.



Não sei como se chama esta flor que nasceu no meio das plantas do campo
mas é linda.
Apeteceu-me limpá-la antes de a fotografar mas presumo que é pólen e respeitei a natureza


Apenas lamento não poder, por esta via, partilhar convosco o perfume doce, macio, florido, quente como a terra, que aqui respiro. O perfume e a música. É que os pássaros fizeram deste bocado de céu a sua casa. Canta, cantam, voam, recolhem-se às árvores, saem dos arbustos, por aqui andam, brincando em total liberdade, trauteando. Aqui, in heaven, os pássaros, as flores, as árvores, as pedras e eu vivemos em absoluta liberdade. Talvez a felicidade seja mais ou menos isto.


***

E é isto, meus Caros Leitores. Permitam ainda que abuse da vossa boa vontade: gostaria muito de vos ter lá pelo meu Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras fogem ao tempo e voam em volta de um belo poema de Natália Correia. As Valquírias envolvem-nos com o seu canto. É a semana que dedico a Wagner que começa.

***

Tenham, meus Caros, uma bela semana. Que esta segunda feira seja uma maravilha.