Já nem vale a pena falar no consumismo que se nos entranha até à medula e que nos leva a oferecer coisas mesmo a quem não precisa de nada. Isso é mais do que sabido.
Eu, desde há algum tempo, temo sempre receber coisas desnecessárias. E, ao escrever isto, retomo a ideia de sempre: necessidade, necessidade já não sinto de nada.
Não quer isto dizer que, quando vou a algum lado, não arranje sempre o que comprar. Tudo o que seja bugiganga inútil, desde que com o seu quê de charme, me entusiasma. Mas já penso sempre: onde é que vou meter isto? E já só trago coisecas que quase não ocupam lugar. E roupa, para que vejam, só coisas mais do que funcionais. No outro dia, quando fui às compras com os rapazes, numa das lojas, vi uma blusinha fininha, para mim, preta, boa para vestir sob qualquer casaco, em qualquer situação. Dava-me jeito. Estava em saldos e custou 9,9€. Fiquei feliz e contente.
E comprei no supermercado um tabuleiro de ferro fundido para levar ao forno, pesado para caraças, mas muito bonito, um belo encarnado profundo no exterior. Custou vinte e tal euros, e ainda tem uma grelha separada que vai dar jeito para pôr legumes no fundo e a carne em cima. Pensei cá para mim: olha que belo presente que me estou a oferecer. Vim mesmo contente com a beleza daquele tabuleiro.
De resto, o que gostava mesmo era de ter sempre dias felizes, de viver rodeada de honestidade intectual e moral, de afabilidade, doçura, gestos generosos, sorrisos. Coisas assim. E o que gostaria de poder oferecer a toda a gente era isto mesmo: alegria, motivação, boa disposição, gestos bondosos, esperança em dias melhores.
Mas, para já, boas intenções à parte, aqui fica o pedido de sempre: a quem não souber o que me oferecer e fizer questão de oferecer mesmo qualquer coisa, pode ser isto que aqui abaixo se refere. Nada de crocodilos, elefantes ou rinocerontes. Só mesmo isto: um hipopótamo.
I Want A Hippopotamus For Christmas - Postmodern Jukebox Cover ft. Lauren Tyler Scott
______________________________________
Peço desculpa mas ando completamente sem tempo para agradecer pessoalmente os vossos comentários e mails. Leio-os, obviamente, e agradeço-os mas ando totalmente absorvida noutras missões.
No outro dia doía-me um pé, coisa apenas de um dos lados. Tinha posto umas palmilhas de gel nos sapatos e, como andei no laré durante horas, cá para mim aquele pé estranhou os mimos e deu um ar da sua graça. Por causa dessa dor no pé, passei a andar com ele um bocado de lado. E continuei a fazer a vida normal. Em consequência de andar com o pé de lado, começou a doer-me o peito do pé. Para ver se não forçava o pé, comecei a andar com a perna a modos que esticada, para não fazer trabalhar a articulação do pé. E continuei a fazer a vida normal. Em consequência disso começou a doer-me o joelho. Tentei poupar o joelho até perceber que deveria tomar um anti-inflamatório. Tomei de manhã e deveria tomar ao jantar. Só que, distraída como sou, no fim do jantar, tendo estado na conversa, já não sabia se o tinha tomado ou não. Por via das dúvidas, achei prudente não arriscar e não tomei. Conclusão: no dia seguinte estava pior.
Ontem estive de perna para o ar. Hoje estava melhor pelo que vim cumprir o meu programa que incluiu, de tarde, uma ida às compras com os rapazes num centro comercial. Levei canadianas e estava apalavrado que, se me sentisse a piorar, pedia-se uma cadeira de rodas. Mas, andando lá, achei que não seria necessário.
Contudo agora, ainda em casa alheia, verifico que o exercício da tarde não foi benéfico para o joelho. Ou seja, estou de novo de perna esticada.
Isto para dizer que não sei se isto é da idade, se é porque tenho pouco cuidado e exagero em tudo o que faço (o meu marido aposta nesta), a verdade é que agora, nesta altura festiva, sempre com coisas para fazer, esta lesão não dá jeito nenhum.
Mas é o que é. E todos os males fossem estes. Não digo bola para a frente pois, no estado em que estou, acho melhor deixar os futebóis para melhores dias.
De qualquer maneira, já tenho os presentes para toda a gente. Para toda a gente... menos para o meu marido... Não sei o que há de ser, ele não dá uma única ideia, recusa as opções que me ocorrem. Quando me lamento de que não quero chegar ao dia de Natal e não ter uma única coisa para lhe oferecer, diz: 'Deixa estar, eu não mereço...'. Já estive a ver sugestões na Madame Figaro e também não vejo que nada seja adequado. Se alguém tiver alguma ideia, aceito sugestões.
Grandma Got Run Over By A Reindeer - Postmodern Jukebox ft. Sunny Holiday
Já o confessei: parece que ando meio aluada. Muita mudança em simultâneo, alguma perturbação na rotina, algumas preocupações, alguma falta de energia. Tudo junto dá este cocktail em que parece que não ando completamente com os pés na terra. E é que, em simultâneo com isto, tenho sempre muita coisa para tratar -- as que andaram a acumular-se durante tanto tempo à espera destes dias mais as que, de repente, me caíram em cima.
Levanto-me (e, por incrível que possa parecer, sempre cheia de sono e a sentir-me a modos que meio desorientada), tentando organizar-me face ao programa de festas do dia e do que lá terei que encaixar.
Claro que, depois das abluções matinais e antes do pequeno almoço, costumo vestir-me normalmente.
E, nos dias em que tenho a hidroginástica, logicamente antes de ir, visto o fato de banho e preparo o saco, guardando a roupa interior, a toalha, a touca, os chinelos, a bolsa onde guardo o telemóvel e as chaves.
Pois bem.
Neste último dia, vendo que estava bom tempo resolvi vestir logo o fato de banho e ir assim tomar o pequeno almoço lá fora, ao sol. E não é pelo bronze, é mais pela vitamina D.
E até aqui, tudo tranquilo.
Antes de ir para a piscina, arrumei o saco, verifiquei se tinha o cartão de acesso. Menina organizada.
Lá chegada, despi a roupa de fora, calças brancas e túnica fininha, guardei tudo no cacifo, coloquei a touca, calcei as chinelitas e ala moça, piscina com ela. Tudo jóia.
A aula voltou a ser puxada. Ora trabalham os abdominais, ora os ombros, ora se fortalecem os braços, ora as pernas ou, o pior de tudo, a coordenação e a concentração. A última que me deixa de cabeça à nora é saltar a abrir e fechar as pernas em tesoura, para o lado e juntar, abre para o lado, fecha e junta, e, ao mesmo tempo, os braços, não a acompanharem esse movimento mas, para a frente e para trás, desencontrados. Uma coisa terrível. E se estão para aí a rir, experimentem. Vão ver como é difícil... Mal dou por mim, estou com os braços a fazer o mesmo que com as pernas. E quando finalmente consigo atinar, lá vem o 'E troca!', ou seja, os braços a abrir e fechar ao lado do corpo e as pernas uma para a frente e outra para trás, e salta e salta e salta. E troca. Caraças.
Bem.
No fim, para fazer o gostinho ao meu lado nadador, fui dar umas braçadas. Já aguento um pouco mais.
Portanto, quando saí da piscina já os meus companheiros e companheiras estavam nos respectivos balneários.
Quando lá cheguei para o meu duche só de água com o fato de banho vestido, já as minhas parceiras estavam quase no fim do seu duche, naked way, com gel e shampoo ou, outras, a vestirem-se. Cada um é como cada qual e eu sou pudica. Fazer o quê?
Dirigi-me, então, para a zona dos cacifos para me vestir.
Tirei o saco, a roupa, coloquei tudo no banco. Retirei a touca, abanei a cabeça para soltar bem o cabelo, e, com a toalha pelas costas, discreta e pudica, retirei o fato de banho. Só que, quando fui à procura do saco de plástico que costumo levar para pôr o fato de banho encharcado, a touca e os chinelos, onde estava ele...? Vi que me tinha esquecido. Portanto, tudo encharcado para dentro do saco.
Mas o pior... muito pior... estava para vir.
Quando fui à procura das cuecas e do soutien... que é deles...? Espreitei. Nada.
Por um instante, nua debaixo da toalha, fiquei paralisada. Percebi que me tinha esquecido.
O que fazer?
Para vestir, só as calças brancas, por sinal com o fecho meio estragado. Fecho-o mas, ao mínimo movimento, abre-se. Com uma blusa mais comprida ou uma túnica, não há problema, não se vê.
Mas sem cuecas...? Ui...
E por vezes não visto soutien mas, nesse caso, visto um top para evitar o efeito das transparências das blusas. Mas que é também do top...?
Sem soutien e só uma túnica fininha...?
Palavra...
Ainda hesitei, seria de voltar a vestir o fato de banho encharcado...?
Não. Não ia passar pelo incompreensível vexame de voltar a vestir um fato de banho ensopado. E não me ia vestir por cima de um fato de banho carregado de água.
Então, foi o que teve que ser.
Ali, ao pé das minhas parceiras desinibidas, eu, a pudica da turma, vesti as calças sem cuecas por baixo, e a túnica também sem soutien por baixo.
Calcei os ténis, desejei boa páscoa e zarpei a todo o gás dali para fora. Na volta ficaram a comentar que, no fim de contas, o que sou é um espírito livre, nem cuecas uso...
Quando cheguei ao pé do meu marido vinha a rir à gargalhada. Quando lhe contei, ele nem queria acreditar. 'Ao fim de duas semanas de piscina já de lá vens sem cuecas...'
Expliquei-me: foi aquilo de ter vestido logo o fato de banho. Nos outros dias, quando visto o fato de banho, dispo as cuecas e o top e guardo-os. Assim... varreu-se-me... Ele, gozão: 'Sim, sim. Desculpa-te.'
Estou aqui a ganhar coragem para desencostar a cabeça do sofá para escrever. Acordei bem, provavelmente ainda sob efeito do paracetamol da noite mas, para a tarde, o torcicolo começou a mostrar os dentes e agora está aqui a morder de uma maneira... Tenho que tomar outro mas, como também estou com sono, prefiro escrever agora e, só depois, quando for para a cama, o tomar.
Não levem a mal que não agradeça os comentários ou não responda aos mails. Vai a caminho da uma da manhã e estou um bocado incapacitada.
O dia foi muito bom, talvez dos melhores dias de Natal. Todos bem dispostos, todos com tempo, todos a mostrando gostar de estar na conversa. A lareira estava óptima, a deitar um quentinho bom e, aos poucos, fomo-nos juntando ao redor a contar histórias e recordações, a rir, os miúdos contentes por ouvirem histórias da família.
Claro que isto foi já à noite, quando a maltinha miúda já tinha gasto parte das pilhas. Alguns dos meninos receberam jogos de cartas e jogos de palavras e, por isso, houve uma animação doida com o pessoal em volta da mesa. Depois de almoço e durante um bom bocado, os decibéis estavam delirantes, tamanho o entusiasmo. A minha filha também trouxe hastes de rena que punham na cabeça e argolas para os outros acertarem, atirando-as de longe. Uma festa.
E houve filmes, houve montagem de legos, um dos bisnetos a resolver fenómenos "inexplicáveis" do telemóvel da bisavó, a tia a fazer penteados à sobrinha e houve tudo o que de bom acontece quando todos estão disponíveis para conviver em harmonia.
E naturalmente houve troca de presentes (e até e pequena fera os recebeu e na foto está já a usufruir de um) e houve contentamento e alegria pela troca e pelo prazer não apenas em receber mas, sobretudo, em dar.
Desta vez, durante um parte do dia, pusemos o ursinho na rua, senão seria o fim da picada com as mesas cheias de comida à pata de semear, com papéis e sacos all over.
Claro que não está habituado e ficou infelicíssimo. Subiu para um parapeito e pôs-se ali e encher-nos de remorsos.
A minha filha fotografou-o e aqui está, em baixo, coitadinho.
Quanto ao repasto, penso que gostaram da comida e isso é uma coisa que me enche de alegria. Abriu-se a mesa grande e teve que se trazer mais uma mesa grande lá de fora. E ter assim uma mesa enorme cheia de gente é daquelas coisas que me enche o coração. A mesa redonda ficou a servir de mesa de apoio, onde nos íamos servir.
Vou contar o que foi o almoço. Uma vez, ao descrever o repasto alguém disse que era comida a mais. Por acaso sobrou alguma coisa que, quando saíram, à noite, levaram. Mas é preciso não esquecer que é muita gente e, felizmente, todos uns bons garfos.
De entrada, tínhamos polvo no forno, tostas e embrulhinhos folhados. De prato principal, açorda de galinha do campo. De sobremesa, uma menina fez arroz-doce, outra doce de chocolate, outra bolo de cenoura e vieram também filhoses, sonhos e bolo-rei, broas. E havia uvas, bombons e etc.
Quando estou a cozinhar é sempre num registo contra-relógio pelo que nunca me dá para fotografar. E quando a comida é disposta, logo várias vivalmas se acercam de prato na mão para se abastecerem. Por isso, de comida nada tenho para mostrar.
Tentei fotografar algumas luzinhas para vos mostrar mas não ficaram grande coisa pois há sempre alguém a passar. Ficam aqui as possíveis.
Mas vou contar como fiz o que eu fiz:
Tostas
Usei pão, salvo erro de massa mãe que fatiei, finamente, no supermercado. Foi ao forno até as fatias secarem. Cá fora, cobrimo-las de queijo mozzarela ralado. Voltaram ao forno para o queijo derreter. Quando saíram, reguei ao de leve com um fio de azeite e polvilhei com orégãos. A seguir, cobriram-se umas com presunto serrano de cura longa e outras com salmão fumado. Por muitas que se façam voam num ápice.
Polvo no forno
De véspera (de véspera apenas porque tive que ir adiantando serviço) cozi o polvo, depois de descongelado. Segui o ensinamento do meu filho. Põe-se a água a ferver. Mergulham-se os polvos e retiram-se. Deixa-se que a água volte a ferver. Novo mergulho e cá para fora. Depois de ferver, vai de novo mas desta vez fica por cerca de 45 minutos, até que fiquem macios. No fim, juntei um pouco de sal. E ali ficou até que hoje escorri e coloquei num tabuleiro de ir ao forno. Coloquei dentes de alho (com a sua pele), folhas de louro, um pouco de alecrim e azeite. Envolvi bem. Deixei ficar um niquinho do caldo. Ficou um bocado (20 a 30 minutos, talvez) no forno. Quando estava com ar tostadinho e cheiroso, retirei, cortei aos bocadinhos, retirei o louro e os alhos e coloquei numa taça.
Embrulhinhos folhados
De véspera coloquei num tacho três cebolas grandes, dois alhos franceses fatiados, bastante salsa fresca, folhas de louro, um bocado de vinho branco. Sobrepus uma belo naco de cachaço de porco no qual dei uns golpes fundos para melhor cozinhar. Cobri com outra grande cebola, sal, azeite, um pouco de alecrim. Depois de levantar fervura, baixei e ficou a cozinhar lentamente até a cebola e o alho francês estarem desfeitos, a carne muito macia e o caldo bastante reduzido. Depois de desligado, com um garfo andei à volta para a carne ficar desfiada. Ficou no frigorífico. Fiz de véspera também para adiantar e para que não estivesse quente quando usasse como recheio.
De manhã, usei massa folhada fresca que comprei no supermercado. Cortei cada uma em bocados e, em cada bocado, com uma colher colocava o estufado que estava quase com uma papa. Fechei bem para cada embrulhinho ficar selado. Alguns ficaram como bolinhas, outros mais irregulares. Entretanto, numa taça juntei umas colheradas de mel, azeite e gemas de ovos. Bati para ficar um espécie de polme caldoso. Num prato coloquei sementes de sésamo. Então, envolvi cada embrulhinho naquele 'polme' dourado e depois passei pelas sementes. Na grelha do forno, que estava quente, coloquei papel vegetal e acomodei o melhor que consegui uns quarenta e tal embrulhinhos. Ficaram até estrem bem dourados. Por acaso, uns quantos ficaram um pouco tostados de mais. Tem que se estar de olho e foi na fase dos presentes, distraí-me por uns minutos.
Aprovados. Numa tigela tinha polme de maçã que penso que fazia uma boa combinação com os folhadinhos.
Açorda de galinha
Encomendei duas galinhas do campo. Não sabia bem o tamanho. Acontece que, no conjunto, tinham sete quilos e tal e, por isso, acabei por não as usar na íntegra. Mas quase.
Mal me levantei, o meu marido tirou da última prateleira da despensa, o maior tacho que temos. Coisa tipo quartel. Uma vez mais, cebolas grandes, umas quatro. Um alho francês. Umas três ou quatro cenouras grandes às rodelas. Um belo bocado de salsa. Galinhas, aos bocados, lavadas e lá para dentro com água que deitei já a ferver, água abundante, quase até acima. Um pouco de sal. Depois de levantar fervura (mais de meia hora para isso, imagine-se), baixei. Ficou ali cerca de duas horas. Ao fim desse tempo, quando a carne já mostrava despegar-se do osso, juntei um bocado de chouriço aos bocadinhos, uma farinheira (poucos enchidos pois eram mais para temperar do que para serem ingrediente principal), ovos, um por pessoa mais dois de bónus, para escalfar no caldo. Já perto do fim, juntei uns cotovelinhos (massa) e deixei que cozessem. No fim, escorri um frasco de grão de bico cozido e juntei. Juntei um molho de hortelã fresca e mexi bem para perfumar o caldo.
Entretanto, num tigela juntei azeite e coentros finamente picados. Numa outra, o mesmo mas com um bom dente de alho picado (isto porque alguns não gostam de alho). Mexi bem cada uma. Cobri o fundo de dois tabuleiros grandes e fundos com fatias de pão alentejano. Cobri-as com o azeite com coentros (um tabuleiro sem alho e o outro com). Por cima do pão, colocámos (o plural é porque esta fase já foi a duas mãos, com o meu filho) os pedaços de carne, os ovos, as massinhas, o grão, a cenoura, os bocadinhos de chouriço, rodelinhas de farinheira e, por fim, regámos com o caldo.
Devo dizer que ficou boa e creio que o grande mérito tem a ver com a qualidade da carne de galinha do campo. Nada a ver, nada, nada, nada com as galinhas de aviário. De tal forma que a minha filha, estava a comer e até achava que seria outra carne. Uma carne escura, compacta, muito saborosa.
______________________________________________
E foi isto. Comeu-se, conviveu-se, curtiu-se e, bem vistas as coisas, aviou-se mais um Natal. Daqui a nada estaremos no próximo, ouçam o que vos digo.
E eu agora vou tomar o desejado paracetamol a ver se tenho posição na cama pois preciso meeesmo de dormir.
Estou a escrever com uns dedos em cujas extremidades há umasnails num tom quase very peri. Gosto de me ver assim. No pulso tenho uma coisa totalmente preta que é uma espécie de relógio fininho, e que me poderá dar informações sobre passos, sobre saúde, sobre mensagens e sobre mais não sei o quê. Por enquanto apenas sei ver as horas e o número de passos e já vou com sorte. Nos pés tenho umas sapatinhas pretas muito confortáveis e bonitas. E tenho vestido um macio e chic bomber jacket. E ao jantar, tendo afirmado com total assertividade que nem pensar em comer, só chá e era para fazer companhia ao meu marido, acabei a comer tostas com requeijão e doce de maçã com canela, rematando com uns deliciosos bombons trufados. Nos lábios tenho um bálsamo que os deixa macios e a saberem-me bem. Tudo presentes. Mal os recebo, começo logo a dar-lhes uso. Recebi mais e todos bons.
Desde que deixei de dizer o que queria, dizendo é que não quero nada, só recebo presentes que me agradam e surpreendem. Nada como a gente ter zero expectativas para ficar contente com tudo o que recebe, pois deixamos espaço para a criatividade e bom gosto dos outros que, frequentemente, são melhores que os nossos.
A noite da véspera para o dia não foi extraordinária: uma ventania que fazia um rugido cavo que nos entrava pela janela. Durmo com o vidro aberto, acho que durmo melhor se sentir o ar frio a vir de fora e eu quentinha entre lençóis. Mas a chuva e o rugido do vento eram fortes demais. Poderia ter-me levantado e fechado a janela? Sim, poderia. Mas não me apeteceu.
Talvez também pelo vento mas, certamente, também pela excitação de termos novos habitantes cá em casa, o urso peludo também dormiu mal. Mas, enquanto eu, quando não durmo fico quieta e calada no meu canto, a fera cabeluda não senhor, tenta acordar toda a gente. É ele e o dono. Para mal dos meus pecados, fazem sempre de tudo para eu perceber que estão acordados e a quererem companhia. Maçadores.
O dia foi muito bom. Não começou exactamente muito bem pois de manhã houve uma falha de energia que fez perigar o programa de festas. Ter um monte de janelas e serem todas eléctricas é daquelas que não se recomenda: estores corridos e sem electricidade é do mais frustrante que há. O meu filho já punha a ideia de irmos fazer o Natal em casa dele. Mas sou pessoa de fé. Por isso, depois de termos tomado o pequeno almoço quase às escuras, fui preparando os comes à luz das velas enquanto a minha filha foi buscar a avó e ajudá-la a fazer o teste.
E, entretanto, veio a electricidade e tudo se compôs. Ganhei novo ânimo, palavra. E começaram a chegar os restantes convivas.
A casa cheia, toda a gente bem disposta, a casa quentinha, a lareira a dar aquele ambiente bom, os meninos todos numa alegria e nós também. E o cão eufórico no meio de tanto saco, tanto papel, tanto alarido.
Para entrada, tínhamos tostas com queijo fresco e salmão, tábua de queijos, tábua de carnes frias.
A minha mãe trouxe mini quiches: umas de frango e espinafres, outras de frango e cogumelos. E quiches normais, das grandes.
Eu fiz timbales, uns de bacalhau e outros de salmão. Uns com puré de batata, puré de abóbora e cenoura, grão, ovo cozido, e outros com puré de batata, espinafres crocantes, pouco grão, ovo cozido e todos com pão tostado grosseiramente picado por cima.
O meu filho fez uma deliciosíssima e maciíssima porchetta que esteve seis horas no forno e ficou suculenta, e que acompanhou com um saboroso molho de tomate com ricotta.
Para sobremesa a minha mãe trouxe dois bolos, tínhamos o fudge de chocolate com iogurte grego que a minha filha fez em dose dupla e que depois de frio ficou ainda melhor, vindos da mãe da minha nora tivemos também azevias e coscorões, eu tinha também umas broinhas de doce ovos. E bombons.
Portanto, gordices que me sabem pela vida mas que me devem acrescentar cinquenta quilos aos duzentos que devo estar quase a alcançar.
E jogámos ao joker, equipas mistas, os meninos a fazerem um chinfrim que quase fazia saltar a tampa da moleirinha à minha mãe.
E o cão correu atrás dos meninos e os meninos atrás do cão e os rapazes jogaram futebol na play station e a minha menininha mais fofa e mais linda encantou-se com o presente hand made por uma amiga da tia, presente delicado e amoroso feito especialmente para ela.
A árvore de Natal tinha as luzinhas a piscar e a lareira crepitava e o ambiente estava caloroso e feliz.
À noite, depois da jornada festiva, dividiu-se a comida por todos e ainda me sobrou o suficiente para ter esperança de quase não precisar de fazer nada nos próximos dias. Sou uma mulher de fé, já o confessei.
Saíram todos carregados com os presentes recebidos e com a marmita.
Depois fomos levar a minha mãe a casa. Ia toda contente. Imagino que durma uma data de horas de seguida pois vai daqui feliz mas com a cabeça um bocado esvaída.
O urso felpudo também foi. Quando regressámos, mal entrou em casa atirou-se para o chão, logo ali mesmo, em pleno hall. Estava KO, completamente KO. Não apenas dormiu muito menos de noite do que é costume como não pregou olho durante o dia, ao contrário do que lhe é costume. Espero que esta noite durma a noite inteira, se seguida, de preferência até às dez e tal da manhã a ver se eu faço o mesmo.
E é isto. O Natal de 2021 já se foi. O que vale é que agora tenho o dia seguinte para rebater. Se tivesse que ir trabalhar é que era pior. Assim, sendo domingo, está perfeito.
E para o ano há mais. Tomara que se possa estar à vontade, marimbando-nos para a covid: um convívio mais alargado, todos à volta da mesma mesa, todos perto uns dos outros. Assim, em mesas separadas por agregados familiares, fica estranho. É certo que as mesas estão na mesma sala e nos vemos e ouvimos uns aos outros e conversamos de mesa para mesa e levantamo-nos e vamos ao pé uns dos outros. Mas não é a mesma coisa.
Seja como for, estamos bem de saúde, bem dispostos e isso é que interessa.
______________________________
E agora, para terminar os festejos do dia, os muito crentes que me perdoem mas irreverência é fundamental.
Por isso, recebam com um sorriso e o vosso melhor aplauso... o Mágico do dia
Por acaso tive um dia muito eclético. Para começar, recebi um mail determinante para o meu futuro próximo. Poderia ter procrastinado na resposta, debatido alternativas, estudado hipóteses. Mas sou mais o oposto disso: se tenho alguma destas pela frente, quero atirar-me logo ao assunto não vá a coisa esfriar. Além disso, em regra acredito que a melhor solução é a mais imediata, a mais simples, a mais intuitiva. Por isso, antes que a cabeça comece a dar nós, vou em frente.
Ou seja, parte da manhã foi a elaborar a resposta. Comecei a escrever com uma ideia e, depois, aconteceu o que aqui acontece tantas vezes: as ideias tomaram o seu próprio rumo. Refiz o início do mail para que a coisa parecesse coerente.
A seguir fomos para a praia: maré vazia, espaço amplo, um tempo agradável. Uma bela caminhada. Pensei que era bom que as férias estivessem a começar e não, estranhamente, já a acabar.
Depois veio o almoço e, logo a seguir, chegou novo mail: a resposta ao meu. Para que ficasse tudo bem claro, enviei novo mail. Gosto das coisas inequívocas.
Depois fomos até à cidade para tratarmos de uma série de expedientes. Quando regressámos, fui varrer o jardim. Parece que o Outono já chegou. Tantas folhas secas. Pelo meio fui apanhando ameixas. Gordas e doces. O meu marido chamou-me a atenção: não deveria comer mais do que três peças de fruta por dia por causa do açúcar e onde é que as três já lá iam. Respondi que não sei se uma ameixa conta como uma peça de fruta. O meu marido disse que sim. Perguntei se um bago de uva também conta como uma peça. Respondeu com uma pergunta: achas que só um abacaxi é que conta como uma peça de fruta? Portanto, ficámos por ali quanto à dose diária de frutas.
Entretanto, ele estava cheio de afazeres profissionais: telefonemas de seguida, mails para fazer. Aproveitei para varrer melhor. Fui buscar o ancinho e fui fazendo montes que depois apanhei e levei para o monte da compostagem.
Já passava das sete quando saímos. Passámos por um restaurante para trazer jantar e pusemo-nos a caminho do campo. Ou melhor, para ser completamente sincera, houve uma outra coisa. Reparei que perto do restaurante havia um big chinese bazar. Como tínhamos que fazer tempo para a comida estar pronta, fui lá. Ele ficou no carro a fazer e a receber os seus telefonemas e a ranger os dentes. Diz que estas férias, por razões que o transcendem, estão a ser passadas maioritariamente em lojas chinesas e isso chateia-o. Gosta de exagerar, como se sabe. Mas, implicações e preconceitos dele à parte, trouxe de lá duas caixas de plástico de arrumação, para colocar no móvel debaixo do lavatório da casa de banho grande. Agora os pacotes de lenços de papel ou coisas assim andam por lá um pouco ad hoc.
No século passado, o móvel foi construído à medida e, na altura, preocupei-me com o design e com os acabamentos, deixando a funcionalidade para enésimo plano. Hoje, obviamente, tudo se passaria de maneira bem diferente.
Agora, com estas duas caixas, tudo ficará devidamente acondicionado. Mas ao meu marido tudo isto lhe passa ao lado e embirra é com as lojas dos chineses. Mas, se não fosse aos chineses, onde é que ia comprar as caixas? Só se fosse ao Leroy mas ele também embirra com ir ao Leroy... Portanto, o melhor é não dar muita importância aos seus remoques.
Para esta sexta é que temos pela frente uma tarefa que temo que seja deveras hercúlea: retirar o guarda-fatos antigo do nosso quarto e levá-lo para a arrecadação das máquinas que é longíssimo do quarto, do lado de lá do estúdio. Ele diz que é impossível, diz que para o tirar daqui só partindo-o. Não posso aceitar isso pois preciso dele para arrumar telas e outras coisas que não sei onde pôr. E diz também que, para ele caber na arrecadação, só tirando de lá várias coisas que não se sabe onde pôr. Aliás, deviam lá ficar só que não devem caber. Ou seja, segundo ele, por todos os motivos, uma equação impossível.
E depois está lá uma coisa mastronça que não faz lá falta nenhuma e que ocupa muito espaço mas que está cheia de coisas como lençóis bordados das tias. São lençóis que são estreitinhos, só mesmo em camas individuais. Mas alguma vez vou deitar os miúdos em camas com lençóis cheios de rendas e bordados...? Passavam-se.
A coisa mastronça é uma arca enorme em madeira perfumada, creio que sândalo. Mais do que perfumada, a madeira é trabalhada, esculpida. Uma obra de arte. Comprámo-la, eu e a minha mãe, quando eu era jovem adolescente. Deve ter sido ideia da minha mãe eu precisar de uma arca para ir colocando o meu enxoval. Só ideias ultrapassadas e disparatadas. Ainda hoje tenho toalhas, jogos turcos e lençóis desse infinito espólio. Já na casa dos meus pais, aquilo ocupava um espaço precioso e o meu pai, então, embirrava fortemente com ela.
Não me lembro se ainda cheguei a levar a arca do tesouro para alguma das minhas casas mas sei que acabou em casa de uma das minhas avós. Queixava-se que ocupava muito espaço mas, enfim, acabou por receber a indesejável hóspede.
Quando morreu, nem os meus tios nem os meus primos quiseram nada do que quer que fosse. Deram muita coisa, deitaram fora outro tanto e eu é que fiquei com algumas recordações. E, claro, com o raio da arca já que tinha começado por ser minha. Veio numa leva de mudanças e foi parar à casinha das máquinas.
E eu só vejo que a solução para aquela casinha passa por tirar de lá a dita cuja. Poderíamos levá-la e colocá-la na cave da outra casa. Mas acho que não deve caber no carro. E é pesada que ninguém imagina. O meu marido fuzila-me quando falo nestas coisas. Mas para lá colocar o guarda-fatos, supondo que ele não o desfaz antes, acho que não há outra solução.
Só tenho coisas que me ralem, é o que é.
Portanto, como se vê, esta sexta-feira avizinha-se problemática. Vai ser daqueles dias em que mais vale exprimir-me por gestos ou, melhor ainda, estar calada, talvez mesmo fazer-me de morta. A ver vamos, como diz o ceguinho, se chego ao fim do dia ainda casada.
A ver se, inspirada aqui pelo meu velho amigo Larry, no regresso ao trabalho tenho uma vida mais tranquila e se arranjo tempo e disposição para ir fazer ioga.
O que, a esta altura do campeonato, tenho a dizer é que aquilo que está resolvido como menu para o almoço de Natal permanece ciência oculta. O meu marido, que gosta das coisas planeadas e estudadas, quase me persegue tentando que eu lhe diga como vou fazer. Quando lhe digo que não sei, porque não sei mesmo, fica inquieto e quase me obriga a pesquisar receitas. Ainda agora tivemos um diferendo. Quer que eu leia para saber como é. Já lhe respondi mil vezes que, para cada coisa, há mil receitas. Cada um que faz uma treta vai para a internet e conta como fez. Até eu. Quantas vezes já aqui escrevi receitas? Portanto, quero lá eu saber como é que uma faz e a outra deixa de fazer? Que maçada.
Agora uma coisa é certa: da leitura que, contrariada e mais do que apressadamente, fiz já me ocorreu que talvez precise de dois ingredientes que ainda terei que ir comprar: vinho branco e queijo parmesão. Tenho cá vinho branco, claro, mas é mal empregado para o uso em causa.
Vou levantar o véu: vou fazer sopa de bacalhau e tenho ideia de como deve ser mas só quando estou a cozinhar é que as ideias me vêm.
A ideia que tenho é fazer assim: numa panela bem grande ponho umas cebolas, uns dentes alhos, um bocado de abóbora e umas cenouras. À parte cozo uns ovos. Depois de cozidos separo a gema das claras. As gemas vão para o caldo. Com a varinha, transformo tudo num caldo que deve ficar bem de um amarelinho alaranjado. Num tacho ao lado, em pouca água, cozo uns lombos de bacalhau. Não junto na outra panela não vá soltar-se alguma espinha. Depois separo as lascas do bacalhau e retiro-as e, uma vez o caldo coado, junto umas massinhas. Quando as massinhas cozidas, junto-as bem como algum caldo remanescente à sopa. As lascas de bacalhau, bem entendido, também. Junto ainda uns grãos de bico e as claras cortadas aos bocadinhos. Não é para ficar empapado. Longe disso. Ao lado, vou ter uma tacinha com coentros picados e outra com hortelã. E outra, lá está, com queijo parmesão ralado. Cada um usará o tempero que entender. Mas não vi isto em lado nenhum, Simplesmente, aqui há algum tempo comi uma sopa de bacalhau que era gostosa que só visto e, desde então, tenho ideia de conseguir fazer uma ainda melhor.
Parece-me isto uma alternativa razoável ao bacalhau cozido com batatas e couves que é coisa que me chateia um bocado pois uma coisa é cozinhar para meia dúzia de pessoas e outra é fazer para mais do dobro. Para as postas ficarem direitinhas, para enfiar as couves numa panelona, etc, é sempre um desafio que acho que não compensa. E isto já para não falar no salsifré que é lavar couves gigantes que, como já contei, ultimamente já lavo na banheira (não com sabonete ou gel mas chuveiradas aparadas por um alguidar). Assim, com esta sopinha, está lá o bacalhau da ordem mas é coisa mais fácil de cozinhar e servir. Espero é que fique boa, apuradinha. Mas a minha auto-confiança faz-me acreditar que ficará.
Vou também fazer galo capão recheado. E aqui divido-me. Li uma recomendação na Madame le Figaro que me está a dar que pensar. Dizem eles que para garantir que fica tenro e saboroso se lhe deve dar uma cozedura prévia em água, sal, cebolas, salsa e cenouras. A seguir é que se deve rechear, pincelar com mel, azeite e ervas e, então é que deve ir ao forno. Mas há outras receitas que o põem a marinar de véspera com vinho branco e laranja e que depois deve ir umas horas valentes para o forno. São duas opções tão díspares que me deixam balançada. Tenho que ver para que lado me puxa a intuição.
Com receio que seja pouco, também se encomendaram duas peças de piano. Pianistas cá em casa não abundam mas, atendendo que não se esperam sonatas ou nocturnos, creio que os existentes darão conta do recado. Estou a falar mas, sinceramente, não sei bem o que é isso do piano. O meu filho é que encomendou e quando eu pensava que ele ia encomendar entrecosto, encomendou piano. Seja o que for, carne com ossinhos de roer é coisa com que a malta cá de casa se lambe. Talvez não todos mas, pelo menos os que têm ainda muito marcada a sua onda carnívora, não se fazem rogados. A minha dúvida é como é que, com o forno cheio com um galo capão que é do tamanho de um boi (e que quero aperaltar com batatinhas de lado) e que vai estar horas no forno, vou, ao mesmo tempo, conseguir assar os dois pianos.
Bem. Se verá. O que for, soará. E, de seguida, se comerá.
A minha dúvida também é se me ponha ainda a fazer tiropitas. Acho que só com um forno industrial daria conta de tamanho recado. A questão é que é uma família com muito homem e todos de muito alimento. E as mulheres também são bons garfos. Portanto, de cada vez que faço uma coisa, com receio que todos queiram provar, tenho sempre que fazer muito. E, às tantas, na cozinha, quase não dou vazão.
Para a véspera, que não é em minha casa, vou levar camarões selvagens. Já cá os tenho e daqui a nada cozo-os. Outro risco. Neste caso, a questão é o sal. É a olho mas tem que ser na mouche. Salgados seriam horríveis, sem sal seriam um pãozinho deslavado. Ora, traçar a bissectriz em tal matéria não é coisa que possa ser científica. E, a olho, é preciso ter mão e fé. E aí, sim, vou levar também tiropitas: umas de alheira, outras de farinheira e outras de salmão. Todas com ricota e maçã. Só que vão lá estar mais pessoas do que eu pensava e, portanto, terei que fazer bem mais. Já comprei sementes de sésamo, de chia e de outra coisa de que agora não me lembro para pôr na massa folhada, coladas ao mel. Mas isso não vou aqui contar como é, penso que toda a gente deve saber. Gostava de fazer algumas verdadeiramente diferentes mas, para já, não me ocorre. A receita que conheço, das tiropitas gregas, não são nada como eu as faço. Têm ricota ou ricota e espinafres e, que eu saiba, mais nada. Eu é que já vou na alheira, na farinheira, no salmão fumado. Como se costuma dizer: o céu é o limite. Ou seja, um dia destes ainda faço tiropitas com uma nuvem lá dentro.
Mas, pronto, se as coisas me saírem bem, depois logo vos conto como as fiz. Até lá, é ainda tudo na base do 'logo se vê'.
Esta terça-feira ainda tentarei vir cá desejar-vos uma noite e um dia de Natal felizes. Digo-o com a sensação de que estes votos não serão bem recebidos por todos já que, para algumas pessoas, o Natal traz um triste sentimento de solidão ou de perda ou de abandono. É em especial para essas pessoas que vai o meu pensamento e o meu abraço.
Só para dizer que ele há coisas. Fui para comprar um livro para uma certa pessoa, vermelha dos quatro costados. E que reparem os Caríssimos nortenhos como esta verde alface que aqui têm agora, com propriedade, está a usar a palavra vermelho. Ora, sabendo eu que deveria ter o cuidado de não oferecer um livro capitalista nem um a falar mal dos bolcheviques ou dos regimes soviéticos e pró-soviéticos em gearl, só se me saltavam os olhos para coisas dessas, completamente impróprias para o suposto consumo. Então, na demanda sistemática que resolvi levar a cabo, olhando para cima e para baixo dos escaparates, fui descobrindo mais uns quantos, não para o fim em vista, mas, quiçá, para o meu marido.
Quando agora à noite viu um sacalhão, insurgiu-se todo: Mas não tinhas dito que já tinhas comprado os livros todos? Queria ele dizer 'para o Natal'. Expliquei que eram quase todos para ele, muita, muita bons. Disse: 'se são assim tão bons, quero já começar a ler'. Mas nem pensar, tem que esperar que o Santa Klaus desça pela chaminé e os coloque na meia. E disse-lhe o que tinha comprado para a tal pessoa. Disse: 'Coitado...'. Como sou pessoa sem problemas de auto-estima não me condoí de mim.
Bem. Mas então queria eu dizer que.
Como paguei os livros nas máquinas de pagamento self-service, não tive oportunidade de trazer um saco. Então, vim com uma braçada de livralhões pesadérrimos prestes a despenharem-se. E aflita para fazer chichi. A pensar: mas como? onde pousar os livros? Ainda pensei: será que só com uma mão consigo desabotoar as calças, baixá-las, ficar em equilíbrio para não me sentar, etc, e, em simultâneo manter o equilíbrio com os espiões, os historiadores e os políticos no outro braço? Admiti: impossível. Uma aflição.
Pensei, então, vou à Zara compro uma coisa qualquer, peço um saco dos grandes e meto lá os livros. E assim fiz.
Vestidinhos para soirée, vestidinhos para dates, vestidinhos para impressionar, vestidinhos para a véspera do Christmas. E camisolas para o frio e camisolões para outras ocasiões. E pérolas em colares, em brincos, em pregadores, em ganchos. E enfeites com brilhos, com glamour. E casacos, casaquinhos e casacões. E eu aflita para fazer chichi, já quase sem conseguir dar passo, já cheia de arrepios e tudo.
Pensei: Controla-te, mulher, a vontade de fazer chichi épsicológica. Não vou pensar nisso e vai passar.
Peguei então num vestido super-hiper tchanam, tão rouge e pequenino que mais parecia um hotbaby doll, e fui para o provador. Pensei: com este vestido, todo encarnado (encarnado porque era um vestido capitalista), todo cheio de brilho, vou ficar com o espírito natalício impregnado em mim. Comme il fault. Depois, como tenho uma mente tendencialmente perversa, pensei: com um vestido destes, só espero que o Santa Klaus também se apresente a preceito. Já estava a ver-me, toda produzida, toda mulher de vestido encarnado, toda natalícia, e um Pai Natal, todo oh-oh-oh, a aparecer-me em pessoa ali no escurinho da sala. E as luzinhas blinc-blinc a darem nele.
Depois, enquanto avançava para o provador, tive um rebate de consciência: 'Credo, ó pr'a mim com pensamentos tão indevidamente cintilantes... como se o Natal fosse isto...que horror...'.
E nisto, ao entrar no provador, vejo que a anterior ocupante se tinha esquecido de alguns pertences: uns restos de palhinhas, daquelas que por vezes estão a acondicionar algumas peças para não se partirem e, em cima, uma revista. Ao pegar na revista para entregar à empregada, vi que tinha o Jorge Jesus na capa. Então percebi: era um sinal. Jesus nas palhinhas.
Foi como um raio. Saí dali sem comprar nada, vade retro consumismo. Carregada de livros, uma verdadeira doutora, fui para o carro. A vontade de fazer chichi tinha desaparecido. O milagre tinha acontecido.
O que, não há muito, era uma arrumação de dar gosto, cada livro em seu devido sítio, tudo na formatura, é agora já um desalinho, uma tropa fandanga, cada um para seu lado.
Tento ainda manter algum decoro mas é tentativa vã. Há uma pequena estante que está encostado à lombada de uma estante alta onde está parte da poesia portuguesa. Parte. Era para ser a estante da poesia. Depois percebi que os turistas tinham que ficar de fora.
Aliás agora ando com um problema. No outro dia enviaram-me fotografia de uma página de Homero onde alguém chegava como chega a noite. Gostei. Chegar como chega a noite é bonito. Tentei achar o meu para perceber se era a mesma tradução que tenho. Se era do Frederico Lourenço por quem sou tão assanhadamente céptica. Corri tudo. Uma odisseia. Nada. Nem esse nem nenhum dos outros. Não sei em que gruta se enfiaram, não sei de que ninfas são os braços que os prenderam. Desapareceram. Os do Éluard e outros já os descobri. Ou seja, os poetas não portugueses também não devem ter cabido no espaço que lhes estava destinado e, portanto, um lote deles deve ter procurado outras ilhas, outros mares. E por aí devem andar enquanto eu, fraca penélope, por aqui vou tecendo estas páginas.
Mas mesmo os portugas não tiveram todos lugar na mesma estante, na alta. Pensei: saltam os prolixos. E, assim sendo, Sophia, Maria Teresa Horta, Vasco Graça Moura, Manuel António Pina, António Ramos Rosa, Eugénio de Andrade -- e certamente outros mais -- foram veranear para a estante larga dos portugueses proseadores que está no escritório. Claro que dessa tiveram que saltar também uns quantos, os que são espaçosos que, por isso, tiveram que saltar para a estante do hall dos quartos: Aquilino, Manuel Torga, Camilo, Ferreira de Castro, etc.
Bem. Só de gps.
Mas ia eu a dizer que em cima dessa pequena estante fui fazendo uma pilha, por segurança amparada à lombada da estante dos poetas. Os do meu marido não, esses foram formando uma pilha sobre a estante baixa e comprida que está ali do outro lado. Mas ele é moderado pelo que a pilha dele nunca cresce muito (e deixa-me cá reler não vá distrair-me e deixar o h voar; ok, confere). A minha, em contrapartida, cresce à maluca pelo que não era de admirar que um dia acontecesse o que aconteceu: desmoronou-se. Portanto, para não desafiar demais as leis da gravidade, desmobilizei alguns. Em cima de uma cadeira das que rodeiam a mesa redonda, está agora uma pequena torre com grandes e pesados. Assim, algo aliviada, a outra, que continuou a crescer, quando voltar a cair talvez não cause abalos com richter muito elevado.
Entretanto, por via das dúvidas, o braço do sofá em que estou também já tem uma boa teca. No outro dia peguei na máquina e fotografei alguns que estavam ao meu lado, incluindo um do meu marido que, por algum motivo certamente inconfessável, me apareceu aqui no maior concubinato com os meus.
E, portanto, para concluir: a coisa voltou, pois, a sair dos eixos. Ainda estou na fase em que tento disfarçar para não parecer que me deixei outra vez cair no vício. Mas já ando naquela de pensar que tenho que me segurar na base de um dia de cada vez. Afastar-me dos sítios onde se trafica. Não olhar. Passar ao largo. Não lhes sentir o cheiro. Festejar os dias em que não cedo.
Enquanto escrevo, olho dois que estão aqui ao meu lado. Passo a mão na pele da Lucia Berlin. Macia. Bela capa. E bonita, ela. Bem-vinda a casa. Espreito as fotografias. Espreito as cartas. Vontade de entrar nas suas intimidades. Depois passo a mão na raposa de Herta Müller. Gosto de raposas. Cativam. São silenciosas, subtis, sedutoras. Penso: enquanto não ler estes dois, não compro mais.
Mas não respondo por mim. Tantas vezes já o pensei e depois, fraca, dependente, soçobro.
Penso também: se, em vez de estar para aqui a deitar conversa fora, estivesse a consumir, via-me livre deste lastro insurrecto que por aqui anda no laré, uns em cadeiras, outros em sofás, outros em pilhinha equilibrista, e, uma vez lidos, poderia arrumá-los, direitinhos, alfabeticamente ordenados. Seria bom. Dar-me-ia a sensação de ser moderada, arrumada, dona de casa exemplar. Até me imagino: ia para o cadeirão de leitura que está no escritório e colocava os óculos para ver ao perto que nunca usei. Aliás, de ver ao perto não. Progressivos. Se calhar, se me pusesse sossegada, compenetrada, uma senhora, acabava por me habituar aos óculos. Um horror aqueles óculos. Nunca mais lhes toquei. Só de pensar naquela sensação. Parece que ficava almareada. Nem pensar voltar a experimentar. Embora, com certeza, se conseguisse, deixava de ouvir os remoques do meu marido sempre a picar por os óculos não saírem de dentro da caixa, ali dentro da taça em cima da mesa redonda.
Mas, confesso, por vezes sinto falta. Continuo a ler sem óculos mas ao fim de várias páginas, em especial se a luz não é boa, já começo a sentir que os olhos precisam de uma certa distância. Mas, pronto, é um caso por resolver. O meu marido diz: toda a gente se habitua, tem é que tentar; mas tu não, não estás para isso. E eu, ouvindo isso, fico aborrecida, fico a pensar que ele deve ter razão, que, se calhar, se me habituasse, afeiçoava-me mais à leitura em vez de gastar o tempo nisto, a escrever à toa.
Mas isto vinha a propósito já nem sei de quê.
Ah, já sei. A bagunça que daqui a nada está para aqui armada, livros por todo o lado como antes da reorganização que tão feliz me deixou. E esta tristeza que sempre sinto quando assumo que sei que não vou conseguir ler tudo o que, quando comprei, me pareceu imprescindível e que, uma vez aqui em casa, se escapa por entre os dias, escondendo-se de mim nos esparsos momentos em que podiam estar nas minhas mãos.
Penso: um dia que tenha tempo, fixo um horário, estabeleço uma rotina. Todos os dias, das quatro às cinco da tarde, reservo uma hora para a leitura. Mas sei que, logo no primeiro dia, falharei e que o precedente dará o pretexto de que a minha indisciplina congénita se iria servir. Não sei como é que as pessoas normais fazem. Arrumam logo na estante, no local certo, os livros ainda não lidos? Não é certo e sabido que, uma vez inseridos na ordem, se diluem no que nunca mais despertará vontade de ser lido?
E pronto. Calo-me já.
Repesquei para aqui algumas fotografias que, no outro dia, fiz à bonecada, sacra e profana, que tenho na estante dos portugueses (de alguns portugueses, como expliquei). Não dá para mostrar as medusas ou as fadinhas ou uma bola de vidro com flores a sério dentro porque o texto já não suporta mais enfeites.
E, assim sendo, com vossa licença, vou andando. Vinha para falar do Brexit e de outras tristezas mas deixei-me para aqui ficar nesta conversa e agora já não me apetece.
Podia dedicar este post à Gina, senhora de amplos dotes doceiros e inesgotáveis dons criativos ou poderia dedicá-lo à Joana Vasconcelos que usa todos os meios para dar palco às artes das rendas e dos bordados.
Ou poderia dedicá-lo aos gulosos e gulosas que por aqui costumam passar ou, simplesmente a todos os Leitores, para que se lambam todos a ver os belos bolos que Leslie Vigil tão artisticamente decora.
Ou poderia dedicar a todas e todos as pessoas de bom coração e boa boca.
Mas não quero ser elitista. Por isso, dedico estes belos bolinhos simplesmente a todos -- bons ou maus, artistas, burgessos, sensíveis, calhaus, gulosos ou enfastiados, lambões ou biqueiros, delicados ou casca-grossas.
E isto também para que saibam que eu aqui não me ocupo apenas de baixa política, mau sindicalismo, doutores-pardais ou demais passarada de arribação: não, eu aqui, na realidade, sou mais bolos.
E, para rematar, que entre a malta do Postmodern Jukebox que isto aqui é All about that bass. Bora cantar e dançar, malta.
E até já, ok?
[Mas primeiro tenho que ir ver um programa que me anda a encher as medidas, o Alone. A ver se depois me chega a vontade de voltar a escrever, ok?]