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terça-feira, setembro 25, 2018

Vou mas é arranjar um bichinho de estimação a ver se esqueço as minhas ralações...





Já falei muitas vezes: passei de ter medo de ter cão a, na hora, ficar rendida a uma cachorrinha fofa, cor de mel, que alguém nos apresentou. Tinha um ou dois meses, um latidinho de bebé traquinas. E eu ainda tinha medo de pegar. Os meus filhos andavam com ela ao colo e eu, nos primeiros dias, com medo. Ela dava saltinho brincalhão e eu encolhia-me, com medo, achava que ela ia atacar e morder. Os miúdos riam, o meu marido nem ligava, não havia compreensão que abarcasse tanta infantilidade e medriquice minha.

Depois o medo passou. Com ela eu era apaixonada, maternal, amiga, admiradora, inseparável. Foram quase treze anos e passaram a correr. Dela ficou uma saudade eterna. Saudade maior. Cãzinha mais meiga, mais amiga.

Jurei que nunca mais. Não suportaria outro amor assim, outra dor tamanha. 


De gato nunca quis proximidade. Tenho medo de tanta superioridade, de tanta altivez.  A minha mãe sempre teve medo de gatos, contava que se assanhavam. Falava no eriçamento deles, em como se arrepiava de medo. Pegou-me.

A namorada do meu filho tinha um gato que o atacava. Quando ele estava no sofá com a namorada, saltava-lhe para cima, por trás, o gato. Eu morria de medo do que o bicho traiçoeiro pudesse fazer ao meu menino.

Acho gato um bicho lindo, gosto de fotografar aquela inteligência, aquela subtileza. Mas não sou capaz de passar a mão, de fazer festa. Respeito a superioridade alheia.


E cavalo. Gosto de cavalo. Se, naqueles inquéritos armados em espertos, me perguntam que animal eu poderia ser, logo a resposta me sai pronta: cavalo. Aquela elegância, aquele sentido de liberdade, aquela beleza, aquele olhar doce e inteligente, aquele andar veloz e feliz. Ah. Quem me dera. Mas andar em cima, nunca fui capaz. 


Passarinho também não. Pássaro é bicho cantor, das alturas, das folhagens cheirosas.Não é bicho que aprisione em gaiolinha, em marquise. 

Peixe também não. Quando os meninos eram pequenos, tínhamos aquário bonito. Peixinhos lindos, coloridos, franjas douradas e ondulantes. Tinham nomes especiais mas só me lembro do nome dos menos bonitos: os limpa-fundos. Nadavam nas águas aquecidas onde havia algas, uma luz coada. Mas morriam. Eram ausentes em relação a nós, só acorriam quando levávamos a comida. Afecto interesseiro. Afecto desse não gosto.

Claro que há o bicho-homem mas esse não encaixa bem aqui. Não é bem de estimação. É outra coisa que não sei dizer bem. 

A minha filha sempre foi sossegadinha. Falo nela não porque alguma vez tivesse sido bichinho de estimação mas por outra coisa que já verão qual. Usava chucha. Gostava muito de bonecas. Queria-as para as despir e vestir. A minha mãe fazia vestidos e casaquinhos para as bonecas. Punha-as a dormir, levantava-as e as roupinhas como peça fundamental na ficção que criava. As bonecas que ficaram para a posteridade estão todas nuas. 

O meu filho sempre foi irrequieto. E nunca usou chucha. Arranjámos-lhe um coelhinho branco, de peluche, com umas calças. Chamei-lhe Chicão e desassossegado como era (o meu filho), aquietava-se se fosse fazer ó-ó com o Chicão. Sempre foi mais de carros, construções, jogos de bola mas o Chicão por ali andou até ele ter uns quatro ou cinco anos. E nunca se perdeu. Agora os meninos, quando aqui vêm, vão buscar o Chicão e o Chicão por aí anda. O cúmulo dos cúmulos é onde está agora. A senhora que cá vem uma vez por semana, ao arrumar a sala, resolver pôr o Chicão a meio do sofá que está junto à estante ondulada, em frente de umas almofadas, e pô-lo de perna traçada. Tem mais de trinta anos e ainda ali está todo pimpão. Só visto. tenho que fotografar aquele dispautério. Talvez seja o animalzinho de estimação que me está destinado.

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As fotografias com animais de estimação são de Arthur Mebius. Esta aqui abaixo também é dele e mostra um bebé que parece estar doido com as mamocas de estimação da passageira do banco de trás.


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A fotografia do chefe afectuoso e do empregado todo incomodado que está no post abaixo é também do dito Arthur

Uma fotografia que a modos que ilustra 'o meu assunto'*


Mal comparado, claro. Primeiro não é um, são uns quantos. E não há gordos nem carecas (e não que os gordos ou carecas tenham alguma coisa de mal, mas, de facto, os meus têm uma ar mais fashion, é tudo homem elegante, tudo orgulhosamente bem ginasticado, e, ainda por cima, com um certo toque de sofisticação). Contudo, embora sejam vários, é mais personalizado num mas, ainda assim, uma coisa colectiva. Dizem, para me convencer, que foi uma decisão tomada por uníssono. Quase acrescentam: por aclamação. E, como disse, estou a falar de um convite apresentado como a demonstração suprema da consideração superlativa que têm por mim. Já mil vezes tal me aconteceu e, mais ou menos entusiasmada, sempre aceitei dar o corpo ao manifesto, aceitando agarrar os desafios com que me têm contemplado (mesmo que sejam pepinos do caneco ou macaquinhos insurrectos que me atiram para o colo). Mas este é diferente. Não me agrada. E se me irrito com a insistência e mostro que não quero -- não, não e não -- noto neles o escândalo total, parece que estou a fazer uma ofensa.

Mas a verdade é que, perante tais situações, passo bem sem tamanhas demonstrações de apreço. Quase como este pobre coitado aqui abaixo que notoriamente não quer demonstrações de afecto por parte do chefe.


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Refiro-me, no título, ao meu 'assunto' pois é assim que a coisa vem para cima da mesa: 'temos que falar sobre o nosso assunto'. 

A fotografia é de Arthur Mebius