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terça-feira, maio 17, 2022

Três extraordinárias previsões para o futuro -- e alguns dilemas da minha vidinha

 


Tenho vários temas relevantes por resolver. 

Por exemplo: gosto de ver às outras mulheres mãos com nails em vermelho rubi, carmim, bordeaux, grenat ou mesmo em quase negro. Além do mais, sei que a saison, talvez para espantar as pesadas nuvens negras que por aí andam a pairar, requer nails multicores, uma unha de cada cor, e cores alegres, cor de laranja, verde pistachio, azul turquesa. 

Em abstracto tudo isso me agrada. Melhor: seduz-me.

Mas depois vem o lado prático. Não consigo ter unhas compridas nem consigo paciência para as pintar ou retocar frequentemente. Além disso, há que ter precisão para que o colorido não transcenda a pequena superfície que lhes é destinada. Debato-me, pois. Imagino que vendam pequenos estojos com frasquinhos multicores, pincelinhos pequeninos, e sinto-me tentada a experimentar. Mas, depois, já sei que acabarei sem aplicar nada ou, quanto muito, apenas um brilhozinho transparente, quanto muito um discretíssimo nude. 

Dilemas.

Se não trabalhasse, também ousaria uma maquilhagem divertida. Sombras nas pálpebras também em cor-de-laranja. Ou em verde-alface. E lábios em morango suculento e brilhante. Assim, trabalhando, não dá. Não seria levada a sério se me apresentasse assim a discutir propostas que, já de si, deixam alguns com os cabelos em pé. Tenho que me reservar para um dia mais tarde.

No domingo, quando fomos passear com a minha mãe, estava fresca, colorida e jovial: calças justas, alinhadas, em branco, uma tshirt justinha em verde seco e uma blusinha de lã fina em cor-de-laranja sobre os ombros. Ténis brancos. Completava a toilette com um chapéu de palhinha e de abas largas. Elogiei-a, disse-lhe que finalmente se veste como lhe fica bem, sem se preocupar se a toilette é adequada à idade ou com o que amigas e vizinhas pensam. Riu-se. Disse que finalmente tinha começado a libertar-se. Pensei -- mas não disse -- que já não era sem tempo. 

Pode parecer futilidade -- e quem sou eu para o negar -- mas a forma com a gente se arranja é meio caminho andado para a forma como a gente se sente. Se estamos com roupas tristes e desiluminadas, vai ser difícil sentirmo-nos especiais. E claro que é importante sentirmo-nos especiais. Pode haver quem pense que não quer sentir-se especial, quer apenas sentir-se vivo/a, e tudo bem -- só que não é a mesma coisa.

Há também a questão das flores. Vi umas florzinhas lindas, delicadas, em suave lilás. Estavam nas areias, nas dunas, junto à praia. Estou com vontade de ir colher umas quantas e pôr numa jarrinha. Hoje, nas reuniões, pensei que aquelas florzinhas ali ao meu lado fariam toda a diferença. Mas o que gostava mesmo era de apanhar com raiz e plantar um canteiro por aqui. Mas será que flor de beira mar vai dar-se bem em terra? Não sei. Nem sei se tente. Não quero fazer coisas contra natura mas, por outro lado, quem garante que elas não gostariam de mudar de ares?

Dilemas.

E depois há os pássaros. O meu marido reclama da gaiola grande que trouxemos da garagem para pôr aqui no jardim. Diz que está ali para nada, que não sabe porque quis eu trazê-la para aqui. Expliquei que pensava que, tendo a portinha aberta, os passarinhos entrariam e dali fariam a sua casa, podendo sair sempre que quisessem. Mas toda a gente me explicou que era uma armadilha, que os passarinhos que entrassem não conseguiriam sair. E a verdade é que a gaiola ali está de portinha aberta e nem um pássaro lá entra. Mas aí lembro-me de uma coisa. A anterior proprietária tinha periquitos. Nunca prestei atenção a essa ideia. Mas no outro dia lembrei-me de uma vez ter falado ao telefone com uma amiga e só ouvir uma orquestra de pássaros por trás. Ela disse: são os periquitos que a minha mãe aqui tem, são muitos, às cores, cantam que só visto. E era uma alegria. Sou muita contrária a pássaros prisioneiros. Mas será que os periquitos não se tornaram bicho de gaiola? E sendo a gaiola grande e estando no meio de árvores, não será para eles um resort que apreciem? Não sei. 

Dilemas.

E estou com esta conversa nem sei bem porquê. Será que fico com vontade de me remeter à maior simplicidade sempre que ouço falar de temas que me deixam as entranhas num frenesim?

Estive a ouvir três previsões muito prováveis para os próximos tempos. Algumas são-me, à partida, um pouco incómodas. Robots que se auto-fabriquem parece-me coisa meio assustadora. Mas se isso acontecer em Marte talvez não seja mau de todo. Robots que construam fábricas e enviem o fruto da sua produção para a Terra. A Terra transformada em paraíso, sem poluição, sem esforços, só desfrute. Talvez a vida ainda possa vir a ser uma coisa boa e o mundo um lugar feliz e pouco perigoso. E também me é estranha a ideia de fazer download do cérebro e pôr máquinas a usarem as ideias e memórias. Ou a perspectiva de se transmitirem emoções ou sensações e não apenas informação. Não sei bem o que pensar nisso. Mas parece-me provável e potencialmente estimulante. E depois há a promissora ideia de aprendermos, ab initio, se temos células que vão degenerar em cancro. Termos em casa sanitas com auto analisadores que detectem sinais de alerta que permitam que não se formem tumores -- o fim do cancro. Uma maravilha. Um alívio para todos.


Michio Kaku: 3 mind-blowing predictions about the future | Big Think

Carl Sagan believed humanity needed to become a multi-planet species as an insurance policy against the next huge catastrophe on Earth. Now, Elon Musk is working to see that mission through, starting with a colony of a million humans on Mars. Where will our species go next?

Theoretical physicist Michio Kaku looks decades into the future and makes three bold predictions about human space travel, the potential of 'brain net', and our coming victory over cancer.

"[I]n the future, the word 'tumor' will disappear from the English language," says Kaku. "We will have years of warning that there is a colony of cancer cells growing in our body. And our descendants will wonder: How could we fear cancer so much?"


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As luas pertencem ao artigo Super flower blood moon – in pictures e estão aqui na companhia de Blue Moon pela Billie Holiday and Her Orchestra
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Desejo-vos um dia tão bom quanto possível
Alegria. Força. Paz.

segunda-feira, outubro 12, 2020

Palavra de código: arroz de frango

 


O dia foi bom, bom, doce. Calorzinho bom, um solzinho suave. De manhã, para além de termos ido fazer as compras da semana e de termos feito dois transplantes de vasos, fomos caminhar na praia. Manhã de calor. O mar bonito, o areal imenso, o sol sereno. 

O nosso país é maravilhoso. Não sei como há quem, sem razão que o justifique, mostre desprezo por um bocado de terra e mar de tamanha beleza, falando com desprezo de Portugal e dos Portugueses. Custa-me muito isso. Não é justo. E mesmo as pessoas. Cada um de nós tem defeitos e virtudes, quem os não tem?, mas, globalmente, somos gente boa, boa onda, tranquila, com alguma sabedoria de vida. Claro que também alguma irresponsabilidade e inconsequência à mistura (mas há povos perfeitos? só se for no reino dos céus) mas não podemos esquecer-nos que somos um país que descobriu a liberdade há poucas décadas depois de viver outras tantas num buraco sombrio. E, antes disso, salvo um período de agitação política, éramos um país no canto do mundo e teremos que recuar muito para nos encontrarmos como aventureiros, visionários. Mas quem de nós ainda pensa nisso? A história do nosso país está fixada no nosso adn? Não faço ideia. Sei, sim, que somos gente de bem, gente que gosta de gostar, que gosta de acolher as diferenças, que gosta de perdoar e abraçar -- e mesmo aqueles de quem se guardam mágoas são respeitados e recebidos em paz. 
A minha mãe disse no outro dia que é muito dos caranguejos gostarem de alimentar os outros. Dos que conheço assim é. O meu pai sempre gostou de ter mesa farta e de receber a família. O meu filho é igual mas em mais larga escala. E eu é sempre no que penso. O meu marido chama-me sempre à atenção, agora ainda mais por causa da covid: que depois não me queixe de que estou cansada, de que vimos carregados do supermercado e é todo um protocolo para higienizar tudo para estar pronto a tempo e horas, que há que arrumar antes e depois e etc. Não quero saber. Nem penso nisso. Só tenho pena é que não tenham mais barriga pois, por mim, gostava era de ver toda a gente a comer ainda mais de gosto, a apreciar cada petisco. E gosto de os ter por perto, gosto de vê-los juntos, amigos. Esse é o maior sonho da minha vida, sempre foi.

E, portanto, à tarde, a casa cheia, a alegria à solta, os meus meninos queridos todos por aqui. Sempre na rua, no jardim, sempre a alguma distância, quase sempre todos de máscara. Os meninos ficam numa alegria, correm, brincam. Adoram-se. Formam um núcleo fortíssimo. 

Os crescidos conversam, aproveitam o sol que se esvai, a doçura da tarde, um outono que se deixa anoitecer cada vez mais cedo.

Desta vez os meninos arranjaram uma brincadeira nova. Meus queridos meninos, cada vez mais crescidos. Enquanto os adultos estavam no jardim do lado de trás da casa, eles montaram arraiais na parte da frente. 

Estranhando não sabermos o que andariam a tramar, fui por e apareci-lhes vinda de dentro de casa. Um deles gritou: 'Arroz de frango! Arroz de frango!' e logo todos se levantaram e me atacaram, uns com espadas de espuma, outros com outras armas. Uns gritavam: 'Segurança! Segurança!', outros simplesmente tentavam assustar-me. O bebé perfeitamente alinhado com os mais velhos. Aliás, nem é correcto ainda tratá-lo por bebé. Mas só aqui o faço. Ainda no outro dia me apareceu ao telefone identificando-se por nome próprio e apelido. Desatei a rir e disse-lhe: 'Senhor engenheiro!'. Do outro lado, uma gargalhada. Menino mais esperto. Mas, resumindo: fui escorraçada. Ainda consegui perguntar a um deles: 'Mas o que se passa aqui?'. Apressadamente, esclareceu-me: 'Temos um clube secreto'. Só depois de ter sido expulsa é que reparei que tinham levado para lá uma espreguiçadeira, um colchão de água de escorregar na relva e pareceu-me ver ainda outros objectos que não identifiquei.

Passado um bocado, intrigados, tentámos ir em volta mas logo se ouviu o grito 'Arroz de frango! Arroz de frango!' e logo uma brigada de cinco guerreiros armados com paus e espadas nos afastaram sob ameaças e gritos. Tinham posto uma corda a barrar o caminho e de tal forma vieram atiçados que recuámos.

Já antes tinha sido a hora do lanche. Este supermercado, já contei, tem pães de toda a espécie, uns com carnes, broa com chouriço, empadas. E pães de deus, croissants. E, se era para a desgraça, já que os sumos e os iogurtes eram light, até trouxemos pastéis de nata e bolinhos recheados com chocolate. Claro que também coloquei na mesa fruta, maçãs e uvas, mas, claro, não tiveram grande saída.

Gosto de os ver a olhar para a mesa e a gostarem de tudo, a quererem provar tudo, a pedirem um pouco de quase tudo.

E a minha nora trouxe acepipes que tinham sobrado do almoço, incluindo bolo de pêra feito por ela e arroz doce feito pela mãe, do melhor que há. Portanto, mesa com coisas para todos os gostos. Só me arrelia ter tanto apetite e tudo me engordar. A minha filha disse que eu gosto de tudo. Perguntou se há alguma coisa de que não goste. Não há. Gosto de tudo. Antes não gostava de vinho mas agora já gosto. A minha nora disse que o meu filho também é assim. Mas ele lembrou-se de cominhos. De facto, também não engraço muito com cominhos mas se for tempero subtil não faz mal. Acho que ele se lembrou de outra coisa relativamente à qual também concordei mas já não sei o que é. Basicamente, sou de boa boca. A minha filha não, há muitas coisas de que não gosta. Faz-me impressão pois fico sempre com a impressão de que é preconceito ou falta de disponibilidade para querer dar a oportunidade de apreciar e degustar. Mas cada um é como é. E em tudo há vantagens: ela é elegante e mantém o mesmo número de roupa de sempre e eu está bem, está.

Ou seja, estivemos na conversa em volta da mesa. Felizmente a mesa é grande e alonga-se e podemos espalhar-nos em sua volta. Antes que o tempo esfrie e que as chuvas venham e, também, antes que o alastrar da pandemia venha a impor maiores restrições, aproveito até à última gota de afecto cada instante na companhia daqueles que mais amo.

E vê-los juntos, bem dispostos, os meninos na brincadeira e nós rindo-nos com eles, enche-me de felicidade. 

No sábado estivemos com a minha mãe, não o grupo todo mas metade. Fomos passear, lanche no parque, todos também quase sempre de máscara. Os meninos queixam-se: andam de skate e trotinete, transpiram, têm calor e, portanto, sempre que podem e andam à larga, obviamente tiram a máscara. Mas quando se chegam perto dos avós ou da bisavó têm o cuidado de nos proteger, protegendo-se também. 

Tenho receio de que, com tantos meses sem abraçarem e beijarem os avós, acabem por se desabituar. O afecto requer cultivo atento e assíduo. Quando as manifestações de afecto se interrompem, parece que a espontaneidade se perde. Esta pandemia está a durar tempo demais e, pelo que se antevê, ainda teremos quase um ano disto pela frente. Tomara que seja menos, tomara que surja cura milagrosa que a torne uma brincadeira de crianças. Mas, enquanto isso, o tempo arrasta-se e a vida continua -- e os nossos hábitos vão forçosamente sofrendo alterações e, francamente, não sei se todas no melhor sentido. 

Mas, enfim, não dramatizemos que o tempo não está para frescuras.

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As imagens mostram pinturas de Seurat que vêm ao som de I'm a fool to want you numa interpretação conjugada entre Angelina Jordan e Billie Holiday. 

E, se me permitem, partilho convosco um daqueles vídeos de que gosto muito: não percebo o que ali se passa mas, independentemente disso, prendem-me. Não precisamos de perceber tudo para gostar. Há ali uma paz que me inspira e que me convoca para uma maior comunhão com a natureza.



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Uma boa semana. 
Uma boa segunda-feira. 
Saúde, sorte, ânimo.
A vida continua. Frágil e cheia de momentos de pura beleza e harmonia.

terça-feira, janeiro 22, 2019

Não lhe vi um pingo de sangue. E, se não é branca, então que seja azul.




Tenho ideia que ouvi dizer que a lua está vermelha, tingida de sangue. Olho-a e vejo-a branca. O céu espraia-se em branco derramado sobre o rio. Estive à janela a ver a via láctea espelhada no tejo. O céu translúcido. Nem um pingo de sangue. Se calhar ouvi mal. Acontece-me estar a ouvir música na rádio enquanto atravesso a cidade e ir no meu comprimento de onda, pensando palavras, se calhar imaginando outras. 

Por vezes, quando chego ao meu destino, tento lembrar-me do que ouvi e do que pensei e, geralmente, nunca me lembro de nada. Acho que as palavras e a música que ouço se esvaem de mim e que as palavras que se vão juntando dentro de mim também se evadem, sem deixar rasto.

Olhei a lua durante parte do percurso: aqueles pontos brilhantes que se unem através de segmentos muito finos, uma geometria elegante -- tudo quase branco. Nem róseo, muito menos sanguíneo. Finíssimos desenhos em branco na face visível da lua. Sou muito ignorante mas sei que sou pelo que pensei que já deveria ter ido tentar saber o que há do lado de lá, no lado oculto, no lado B, mas não sou só ignorante, sou desinteressada do que me parece escuro e meio triste. Prefiro outros fragmentos e colagens. Poeiras lunares numa paisagem desolada, escura e fria, não é a minha praia. Xodós, lamentos, cantos, poemas destilados, bilhetinhos de amor -- isso sim, eu gosto, espero sempre por mais. Escritos por todos os apaixonados ou apenas por um, tanto me dá. 

Mas, enfim, não sei da lua senão que é branca, doce, e que ilumina com leite e mel os corações enamorados e que chama pelos amantes. Coisas assim, poéticas, sem utilidade outra que não a de fazer a gente sentir a alma mais humana, mais frágil, mais abraçada.

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Portanto, para concluir, posso é dizer que, se a lua não é branca, encarnada também não é. Fotografei-a de longe e de perto e confirmei: não lhe corre sangue nas veias nem a face visível está ruborizada. White ou quase white. Blanche. Mas dizer que está de um branco lunar não apenas é redundante como pode não ser correcto. Ponho-a, então, azul e trago aqui a outra blue moon. E chamo pela vossa companhia. Fiquemos aqui a contemplar as águas do rio, a ouvir os acordes cheios de noite.

E posso ainda acrescentar um outro pequeno despropósito: já converti em acto o presente da massagem que recebi pelo Natal. Entrei num lugar de luz verde, de vegetação tranquila e verde, de água a correr numa fonte, de música de aragem a dançar entre bambus, harpa, piano, sons muito límpidos.

No gabinete quase não havia luz, apenas uma luz muito levemente coada sobre o leito. E umas velas, perfumadas, num canto. E fui mandada despir-me toda. Toda? Toda, e fios, brincos, anéis. Recebi uma tanguinha de papel e deitei-me. E ao longo de uma hora, umas mãos cobertas de óleo foram percorrendo todo o meu corpo, ora com suavidade, ora com intensidade. Não sei se a música foi cambiando. Estive de olhos fechados e sem ouvir nada, sem dizer nada, entregue apenas à sensação boa de umas mãos percorrendo o meu corpo. Quando acabou, deixei-me ficar. Tinham-me avisado: não se levante logo. Por isso, fiquei. Noutro comprimento de onda, descontraidíssima. Saí de lá a flutuar.

E agora vou outra vez pôr-me à janela a contemplar a blue moon sobre o rio.

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Aquí te amo. 
En los oscuros pinos se desenreda el viento. 
Fosforece la luna sobre las aguas errantes. 
Andan días iguales persiguiéndose.
(...)
Pero la noche llega y comienza a cantarme. 
La luna hace girar su rodaje de sueño. 


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domingo, outubro 29, 2017

Cherchez la lune




Recebo um mail. Fala de eu saber viver com ilusão e de como isso é importante para se gostar de viver. Recebo outro que vem de detrás dos montes e que fala do meu modo intenso de falar. E um outro que me oferece palavras lindas, das mais lindas que já recebi. E outro que me agradece e me deseja um bom fim de semana. Sorrio, agradecida eu, feliz pela simpatia que me chega de quem me lê. Um mail tem o título 'abençoada' e é assim que eu me sinto, abençoada pelo que recebo.

E leio outras palavras. Poemas, desabafos, queixumes, sinais, sorrisos, meias palavras, agrados. Gosto do que leio. Se me parece que não vou gostar, não me forço. Mas há casos em que as palavras que leio entram sempre, intactas e luminosas, no meu coração. 

Hoje, enquanto andei entre as árvores, aspirando o perfume do alecrim e dos pinheiros, encantada como sempre por aqui ando, ainda mais encantada fiquei ao perceber, no céu tão azul, uma meia lua branca. Rendilhada, delicada, feita para que nela convirjam os olhares dos apaixonados.


Princesa da Lua. Assim me chamava, às vezes, o meu pai, sabendo que eu gostava tanto da menina da história com esse nome. Sempre gostei da lua. Talvez toda a gente goste da lua. Mas eu gosto de uma maneira muito especial. Conto-vos. Quando estava grávida, à noite, costumava ir para a varanda e, aí, levantava a roupa e deixava que o luar pousasse no meu ventre repleto de vida. Não sei porque o fazia. Nunca me deito a perceber o que faço pois sinto que a percepção dilui a magia e, em algumas situações, a magia é melhor influência que a percepção. Sei que sentia que a luz branca que me chegava da lua era seda e carícia e traria felicidade aos bebés que cresciam dentro de mim -- e, sem o questionar, era isso que eu fazia.

Ambos nasceram no verão. Lembro-me muito bem dessas noites de luar. De noite, bem tarde, calor, muito calor, eu na varanda, tão jovem, um ventre tão bojudo. E eu, tão cheia de esperanças, ali, entregue à luz da lua, quase despida, com as mãos recebendo o reflexo prateado e com ele acariciando a pele morna e esticada para que a suavidade daquela luz branca levasse uma doce serenidade aos filhos pequeninos que, nessa altura, eu ainda não conhecia.


A lua. Eu, uma pequena princesa da lua no meu passado ainda tão presente, eu, ainda e sempre, clair de lune. Eu, aquela cujas palavras deslizam pelo imenso espaço até o vosso olhar as tocar.

Por entre as árvores, escondida, à vista, presente, insinuada, a lua branca e rendilhada. 

Cherchez la lune. Cherchez la femme. 
Je suis ici. Avec vous.

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sexta-feira, março 10, 2017

Cantiga de amor e não-dizer





Nem de escárnio e maldizer, muito menos de amigo. Quanto muito de amor. Ou nem isso que não sei o significado de nenhuma palavra. Como se uma estranha incompreensão me tivesse tocado e eu nada soubesse. Múltiplos sentidos e nenhum.

Ouço um canto longínquo:

Ai Deus! pois me a fizeste mais que a mim amar,
mostrai-ma, onde possa com ela falar,
senão dai-me a morte.

Ouço, ouço. Mas não sei o que quer quem assim se lamenta. Não sei qual das vozes assim me fala. Tantos nomes e nenhum. Só sei que não deixo que Deus me mostre àquele que na noite me chama, àquele que comigo não pode falar.

Escondo-me onde a sua voz não me alcance, fecho os olhos para que nenhuma luz me chame. Fecho-me para que nenhuma palavra tente acender o meu desejo.

Mas ouço o longínquo murmúrio:
E se vos nom vir, que farei?
Pensando em vós, eu morrerei
de amor, de amor, de amor, de amor,
por vós, senhora, de amor

Detenho-me. Suspendo a respiração.

Não morras, não morras, não morras por mim. Pensa em mim, nunca te esqueças de mim, chama por mim. Mantem-te vivo. Por mim.

Sei bem que, mesmo que o teu coração deixe de por mim bater, ainda a tua memória se agitará para chamar aquela que não conheces, de quem não sabes o nome, a quem nunca viste o olhar. Mas quero-te vivo para além dos minutos em que a tua mente e os fiapos do teu espírito se agitariam querendo dizer o meu nome. De ti quero mais do que o silêncio. De ti não sei o que quero. 

Fecho os olhos, em silêncio chamo também por ti. Mas não sei por que nome te chame. Chamo por todos. Mas nenhum deles é o teu.

Não sei se existes. Também não sei se existo.

Não me verás. Isso não. Não saberás o desenho dos meus lábios, a luz do meu olhar, não saberás a doçura das minhas mãos. Mas saberás que, as a shadow, passarei por ti.

As a shadow. As a shadow. 

Sem nome. Sem rosto. Sem palavras.

E, por favor, não digas
... por vós, onde for, hei de penar
de amor, de amor, de amor, de amor,
por vós, senhora, de amor.

porque, já devias saber, não sou uma senhora.


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Excertos de duas cantigas de amor, uma de Bernal de Bonaval e outra de Pedro Anes Solaz.

Billie Holiday interpreta Lady Sings The Blues

Fotografias de Mert Alas e Marcus Piggott

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E, caso queiram mergulhar num mundo cheio de perigos ocultos, queiram, por favor, descer até ao post seguinte. 

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sábado, maio 23, 2015

Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.


Tenho, nos lugares mais diferentes, amigos à minha espera. Você já reparou que, entre centenas, em cada país, nós temos sempre aquela pessoa, que, sem mesmo saber, espera por nós e, quando nos encontra, é para sempre? Por isso é que eu gosto tanto de viajar, visitar terras que ainda não vi e conhecer aquele amigo desconhecido que nem sabe que eu existo, mas que é meu irmão antes de o ser.

Tenho amigos em toda parte. Mas sou feito o Drummond que é tão amigo quase sem a presença física. Esse meu jeito esquivo é porque eu acho que cada ser humano é sagrado, compreende? Eu sou uma criatura de longe. Não sei se me querem mas eu quero bem a tanta gente! Sou amiga até dos mortos. Amiga de muita gente que nem conheci. Você não imagina quanta gente eu levo ao meu lado. E fico emocionada quando penso como uma criatura só recebe tanto de tantos lados, de tantas pessoas, de tantas gerações!





 Billie Holiday - As Time Goes By


Nunca esperei por momento algum na vida. Vou vivendo todos os momentos da melhor maneira que posso. Quero realizar coisas, não para ser a autora, mas para dar-me, para contribuir em benefício de alguém ou de alguma coisa. Quando adoeci e tinha que repousar uma hora depois do almoço, ficava calculando quanto poema deixava de escrever, quanta coisa linda deixava de ler e conhecer naquelas horas perdidas. Mas aprendi também a renunciar. Não tenho poema predileto. Ainda não o escrevi. A intenção é que é perfeita. Às vezes, um poema viaja comigo muito tempo sem ser escrito. Se não lhe dou muita importância, vai embora. Tenho muita pena dos poemas que não escrevo. E também muita dos que escrevo.




Tenho um vício terrível” — me confessa Cecília Meireles, com ar de quem acumulou setenta pecados capitais. “Meu vício é gostar de gente. Você acha que isso tem cura? Tenho tal amor pela criatura humana, em profundidade, que deve ser doença.” “Em pequena (eu era uma menina secreta, quieta, olhando muito as coisas, sonhando) tive tremenda emoção quando descobri as cores em estado de pureza, sentada num tapete persa. Caminhava por dentro das cores e inventava o meu mundo. Depois, ao olhar o chão, a madeira, analisava os veios e via florestas e lendas. Do mesmo jeito que via cores e florestas, depois olhei gente. Há quem pense que meu isolamento, meu modo de estar só (quem sabe se é porque descendo de gente da Ilha de São Miguel em que até se namora de uma ilha pra outra?), é distância quando, na realidade, é a minha maneira de me deslumbrar com as pessoas, analisar seus veios, suas florestas.”

Olho para Cecília encolhida em sua poltrona, iluminando a penumbra do canto da sala. Vejo-a tão menina olhando o solo e descobrindo na madeira floresta e lendas, deslumbrada de azul! Uma ilha cercada de pontes por todos os lados. Pontes para a ternura, pontes para a poesia, pontes para a alma de cada um. E olhando-a assim, poesia ela mesma, tão alta e tão pura, percebo porque continua a ser a garotinha à procura do eco, correndo por todos os cantos e por todos os deslumbramentos, sem poder recolher o eco da própria voz: nós somos o seu eco, cantamos o seu canto, sem que ela perceba; somos todos um pouco habitantes de sua Ilha de Nanja “onde as crianças brincam com pedrinhas, areia, formigas”. “Solombra”, a última obra de Cecília, quer dizer só sombra. Cecília, para nós. é só luz.


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O texto é um conjunto não sequencial de excertos da última entrevista de Cecília Meireles. A escritora morreu alguns meses depois de ter concedido o depoimento ao jornalista Pedro Bloch, em maio de 1964.

As fotografias mostram (e desculpem-me por não traduzir mas mal posso com um gato pelo rabo, quanto mais traduzir mais do que três palavras seguidas...): 
Hawaii-born painter and street artist Sean Yoro (a.k.a. Hula) has created a stunning series of street art murals depicting women emerging from the water along the concrete walls of ruined and abandoned structures. At home on the water, he paddles on a surfboard to reach the best locations for his art, even managing to balance his paint cans as well.
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E hoje por aqui me fico. Andei na rua até tarde, mais concretamente no Terreiro do Paço a ver o espectáculo de luz, a passear à beira do rio, a aspirar a maresia fresca da noite, etc, etc, e isto depois de termos ido jantar ao Mercado da Ribeira que estava a animação do costume, e, portanto, agora estou mesmo é capaz de me ir entregar ao sono dos justos.

E, acabo agora de ver, não sou a única a falar do sono dos justos - o que é natural: it's friday, thanks God.

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Happy little moments
by Maori Sakai


Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado cheio de momentos felizes.
E bons banhos de sol - e, sobretudo, bons banhos de mar a quem nele possa mergulhar. 
Eu espero bem poder fazê-lo.

...

quarta-feira, dezembro 18, 2013

Um comboio nocturno. Acaso. Atracção. Desencontro. O encontro fatal. Forever. I'm a fool, baby, such a fool, but I love you.


Depois de, no post abaixo, vos ter mostrado o perigo que são os saltos altos e as facas afiadas, perigo que pode até fazer sucumbir os anjos secretos (... e depois não venham dizer que não vos avisei), agora mostro o que pode acontecer quando se faz uma viagem de comboio de noite. 

Ah, e o que eu gosto de fazer grandes viagens de comboio. O que eu gosto de atravessar a noite e as florestas mágicas e as cidades adormecidas no aconchego de um wagon-lit. O que eu gosto.

Pode bastar uma gota.

O perfume. A atracção. Um desencontro. Outro desencontro. O acaso. O que nasceu para ser unido, ninguém pode separar. May be I'm a fool but I love you.

Nº 5. Bastam umas simples gotas.

Try it.

Chanel Nº5, claro.



Eles são Audrey Tautou e Travis Davenport.


A música é "I'm a fool to want you" interpretada por Billie Holiday.

*

E sigam, por favor, até ao post seguinte.

terça-feira, abril 09, 2013

Cartas de amor de António José Saraiva a Teresa Rita Lopes


A seguir a este encontrarão dois textos dedicados à actualidade política. Querendo, podem ir já lá ter porque, aqui, agora, a conversa é outra.





Quando, em Paris, o conheci pessoalmente, estava desfeito pela solidão, à beira do suicídio - disse-o e escreveu-o. Tem até um breve conto, inédito, em que encena esse suicídio. Tinha-se separado da mulher e deixado em Lisboa três filhos.

(...)

Disse-me, mais tarde, que imediatamente decidira que havia de me conquistar... mas levou tempo. Teve a inteligência de ne pas me bousculer, como dizem os franceses. Porque, pelo meu lado, não houve coup de foudre nenhum. Foi um relacionamento tecido malha a malha - texto a texto.

Durante largo tempo, foram só conversas, poemas, passeios a sítios bonitos e exposições, só isso.




Eu tinha vinte e seis anos e ele ia fazer quarenta e seis, mas estava envelhecido, mal vestido, à senhor respeitável, com fato, camisa e gravata. Até colete.




(Quando nos emparceirámos, desengravatei-o e troquei-lhe as camisas por camisolas de gola alta - nunca mais usou fato nem gravata na vida! As pessoas pasmavam com o seu rejuvenescimento, que o bigode, que lhe sugeri, acentuava!)

(...)

Acho que se sentiu mergulhado na solidão de quando o conheci em Paris, com um profundo sentimento de abandono. E, como nessa altura, apaixonou-se - para se sentir vivo, disse-me. Quando regressei a Portugal, dei por isso, embora essa paixão fosse inteiramente platónica. Disse-me, com a sua habitual candura, que 'ela' não se comparava comigo, que nunca lhe tinha ouvido dizer nada interessante! Pediu-me que tivesse a paciência de esperar que aquilo lhe passasse. Que tinha sido sem querer, desculpava-se, 'como entalar o dedo numa porta'... 

(...)

A seguir, regressámos. Quando a vida se nos tinha tornado fácil (tínhamos, de novo, pátria, casa, desafogo económico), a nossa sintonia amorosa desfez-se.




Ficámos amigos, sempre, até à sua morte. Até à minha, sei que ele continuará a existir dentro de mim.





[Argelès-sur-Mer, 20(?) de Agosto de 1968]


Amor,

Estou pensando em ti, mas com inércia de escrever. Os meus olhos desalinharam-se das letras. Só vêem ao longe. Ontem à noite, demos um passeio à noite por caminhos da aldeia, à luz das estrelas. Vês as estrelas aí, ou ainda há nuvens? Aqui, o tempo melhorou.

Uma notícia: o meu irmão Zé foi nomeado ministro da Educação. Vinha ontem no Monde. Receio que isso lhe dê completamente volta ao miolo. Ainda não resolvi se lhe escrevo ou não.

Não te esqueças da minha recomendação sobre o chapelinho e o creme.




Adeus, queridinha. Hoje não tive carta tua; muitos beijos do

A. J.

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O texto em itálico é parte do prefácio de Teresa Rita Lopes do livro 'Cartas de Amor de António José saraiva a Teresa Rita Lopes', edição de Ernesto Rodrigues, da Gradiva.

A carta é uma das muitas cartas enternecedoras de AJS que constam do livro.

A música lá em cima é April in Paris interpretada por Billie Holiday.


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Tal como referi acima, para temas como o avózinha-coelhinha e o Schäuble-lobo-mau ou a troika em versão Manuel João Viera, deverão até dois posts abaixo.

Muito gostaria ainda de vos convidar a virem comigo até ao meu Ginjal e Lisboa onde as palavras de Fiama se juntam pela madrugada às de Gastão Cruz. A música é uma maravilhosa interpretação de Monteverdi em onda jazz a cargo de Uri Caine e Paolo Fresu.


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E é isto. Desejo-vos, meus Caros leitores, muita saúde e muito amor.


sábado, dezembro 29, 2012

Sobre a Solidão - filosofia, psicologia, fotografia, música e poesia


Por estes dias, com a casa desatinada, um entra e sai com algum pó fininho à mistura, pouco mais posso fazer do que abrir a porta a quem toca à campainha, responder a uma ou outra pergunta relativa ao sítio exacto onde quero um projector, uma tomada, coisas assim. Só quando todos tiverem terminado é que se poderá limpar, pôr os móveis no sítio, arrumar.

A meio da tarde era para vir a turminha da (des)arrumação, pressupondo que as obras teriam terminado e que já haveria algum canto utilizável mas, afinal, com alguns extras, a coisa derrapou e só acabam amanhã. Ou seja, não puderam vir. Vinham talvez para dar uma ajuda, para lanchar, para estarem uns com os outros e, penso eu, também para me manterem acompanhada e ocupada (uma coisa de tipo terapia ocupacional pois acho que pensam que eu não consigo estar sozinha). 

Mesmo quando, este verão, estive em casa, recuperando das intervenções cirúrgicas, acho que não deve ter passado um dia em que não me arranjassem programa ou, se isso aconteceu, deve ter sido colmatado por  vários telefonemas. Às vezes pensava que à tarde ia conseguir pôr-me a ler um livro e deixar-me dormir, dormir uma bela sesta; mas, que me lembre, se isso aconteceu, deve ter sido coisa rara.

Não sei, pois, o que é solidão. Aliás, quase não consigo, sequer, saber o que é estar sozinha, sossegada. Estar sozinha, descansada, dispor do meu tempo e do meu espaço é coisa rara. Talvez também por isso goste tanto de ficar acordada até bem tarde, até à uma ou duas da manhã, senão mais. São momentos meus.

Mas já a solidão involuntária me parece coisa assustadora. Não gostaria nunca de experimentá-la.

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Música, por favor



Billie Holiday - Solitude

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No entanto, do que conheço da vida, apercebo-me que há muitas pessoas solitárias e que, aparentemente, não se esforçam por deixar de o ser. Recolhem-se dentro das suas casas, dentro de si mesmas, quase como se temessem que a quebra da sua solidão pudesse trazer-lhes males ainda maiores. E nota-se que a imagem de pessoas felizes, descontraídas, atenta contra a dormência em que se habituaram a viver ou, então, nota-se que isso as torna ainda mais tristes, sozinhas ou vazias.




Mas a solidão, não no sentido sofrido de isolamento, mas no sentido da imersão em si próprio, no que de mais íntimo existe em si mesmo, pode ser pacificador, ou pode ser um desafio.

Vem isto a propósito do interessante texto, Solidão, do blogue Homo Viator. Trancrevo uma parte: Estar só é entrar no segredo da nossa natureza e aceitar a nossa condição. Dizer que a solidão é a nossa condição tem a vantagem de mostrar que o solitário não é o produto de nenhuma decisão heróica, mas de uma conformação com aquilo que se é. Não há tragédia nem sequer drama na solidão. O que pode ser doloroso é o medo da solidão, a fuga perante a nossa natureza, a impotência perante o segredo que nos constitui e rumoreja no fundo de cada um.

Mas vem também a propósito de um interessante artigo da autoria de Kendra Cherry que, curiosamente li hoje   a seguir ao almoço (antes de ter lido o texto acima referido do Homo Viator), artigo que tem o nome de Loneliness - Causes, Effects and Treatments for Loneliness.

Este artigo é baseado na investigação de John Cacioppo, um psicólogo da University of Chicago e um dos mais proeminentes especialistas em solidão.

Nesse artigo leio que a solidão não tem a ver com estar-se sozinho mas, em vez disso, com a sensação predominante de se estar sozinho e isolado, distante.




Leio também que a solidão está fortemente ligada a aspectos genéticos.

Traduzo livremente o texto: há outros factores que contribuem, como os que têm a ver com a própria situação tal como o isolamento físico, a mudança para um sítio onde não se conhece ninguém ou o divórcio. A morte de algum ente querido também pode levar a que se sinta solidão. No entanto, a solidão também pode ser o sintoma de alguma desordem psicológica tal como a depressão. Pode também resultar de factores internos como, por exemplo, de uma fraca auto-estima. Pessoas a que lhes falta confiança em si próprias acreditam, muitas vezes, que não têm motivos de interesse para que os outros lhes prestem atenção ou dediquem, sequer, um olhar. Isto pode levar ao isolamento ou à solidão crónica.




Continuo a traduzir: A solidão tem uma série de efeitos negativos, quer a nível físico, quer mental. Alguns dos riscos de saúde associados incluem:

. Depressão e suicídio
. Doenças cardio-vasculares e enfartes
. Níveis acrescidos de stress
. Redução da memória e da capacidade de aprendizagem
. Comportamento anti-social
. Dificuldade em tomar decisões
. Alcoolismo ou outras dependências
. Progressão da doença de Alzheimer
. Alteração de algumas funções cerebrais

De um artigo do site Ciência Hoje, da autoria de Ana Margarida Nunes sobre a mesma investigação, leio que  a “solidão pode contagiar-se” mas também se pode tratar. O tratamento para a solidão pode passar por um aumento do exercício físico, por psicoterapia, por inclusão num grupo de voluntariado onde a pessoa se sente útil e pertencente a uma comunidade, partilhando interesses e atitudes que o valorizem. Passa também por aprender a desenvolver expectativas mais positivas, esperar o melhor e não a rejeição.




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Solidão. 
A multidão em volta 
e o pensamento à solta 
como alado corcel. 
E as ideias dispersas, em tropel, 
como folhas ao vento 
pétalas do Pensamento. 

Solidão. 
A angústia da Cidade, 
a impossível procura da Unidade, 
o clamor 
do silêncio interior, 
mais pungente, estridente, 
que os bárbaros ruídos 
que ferem, dilaceram 
os nervos e os sentidos. 

Fernanda de Castro, in "E Eu, Saudosa, Saudosa"


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Nós não Somos deste Mundo

Para a solidão nascemos. Outras vozes 
nos chamam e invocam, outros corpos 
se perfilam radiosos contra a noite. 
Nós não somos daqui. Num intervalo 
de campanhas esquecidas nos dizemos, 
abrindo o coração aos de passagem. 
Mas quando a manhã chega nós partimos, 
mais livre o coração, longa a viagem. 


Luis Filipe Castro Mendes, in "Os Amantes Obscuros"



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Que cada um faça a sua leitura, retire as suas ilações. Que todos estejamos atentos a quem precisa de ajuda, a quem precisa de um sorriso ou de um gesto de proximidade mas que todos respeitemos também quem aprecia o silêncio.

NB: As imagens foram obtidas na net e desconheço a sua autoria.

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No Ginjal, continuando ainda com os meus livros inacessíveis, optei por um vídeo com interessantes frases de Clarice Lispector. Para quem, como eu, é devota dela, é um best of muito interessante.

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Fui ao IKEA agora à noite e, por isso, cheguei a casa tarde e más horas. Pus-me a escrever isto e, como é costume, saíu-me um texto enorme. É tarde (como sempre) mas a questão é que estou mesmo cheia de sono. Por isso, apenas amanhã responderei aos comentários, agora não consigo mesmo, estou a escrever quase de olhos fechados.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado!