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segunda-feira, dezembro 27, 2021

Domingo de chuva com uma aula prática sobre como combater a neura e a ansiedade

 



Estive como se estivesse de férias. Choveu todo o santo dia, em especial de tarde. Pouco fiz. Tenho várias coisas para fazer esta semana mas a vontade é pouca. Vi o Dont't look up e vi a Emily in Paris. Estou anestesiada com a ligeireza em doses mais do que duplas.

Praticamente não vi televisão. Não ouvi a mensagem de António Costa mas, quando à hora de almoço ligámos a televisão, apareceu um ilustre desconhecido -- nem sei de que partido -- a criticar; mas o que dizia não fazia qualquer sentido. O meu marido disse que não estava para ouvir parvoíces (acho que não usou a palavra 'parvoíces') e que o melhor era desligar. E eu assim fiz. Portanto, estou fora.

Não sei porque é que as televisões insistem em dar palco a gente que não tem nada para dizer senão dizer mal. Gente assim é um veneno. E as televisões espalham veneno. Portanto, quanto menos se vê, melhor.

A meio da manhã fizemos a nossa caminhada à chuva, numa altura em que era apenas uma chuvinha. O urso peludo molhado e feliz. Gosto de levá-lo à trela. Vai de trela curta, alinhado, bem comportado. Quando ando assim com ele até crio a ilusão de que consigo controlá-lo e torná-lo bem comportado. O pior é quando tem aqueles picos de energia, especialmente em dias como os de hoje em que está maioritariamente dentro de casa, sem poder gastar energia. Mas, na caminhada, ia feliz embora pingando. Os jardins também pingando. Muitas casas têm decorações de natal no jardim. Mas as decorações de natal parecem tristes assim à chuva, nos dias escuros.

Esta pandemia é bem capaz de modificar a nossa maneira de ser. Se calhar acabaremos todos um bocado mais afastados uns dos outros. Mas não sei. Uma porcaria de um vírus, uma coiseca ruim, desalmada e descerebrada, dá conta da nossa vida. 

O ar que respiramos é a fonte dos contágios. Espaços fechados são ratoeiras. 

A civilização levou a que as empresas se concentrassem longe das zonas habitacionais, torres energeticamente eficientes, sem trocas de ar com o exterior para evitar que esfrie ou que aqueça e se gaste mais dinheiro a manter a temperatura ideal. Ratoeiras.

Levou a que o comércio se concentre em grandes superfícies em enormes espaços fechados em que todos respiram o ar de todos. Ratoeiras.

Claro que agora, com isto, algumas empresas, alguns espaços -- os mais conscientes, os mais endinheirados -- já adaptaram os seus sistemas de climatização, extraindo o ar respirado e injectando o ar do exterior. Mas basta que haja avarias ou que a manutenção não seja correcta para que o burro esteja nas couves. 

Não iremos voltar à saudável vida no campo pois a agricultura de subsistência é mantimento para umas famílias, não para comunidades.

A vida nas cidades é cara, há muitos transportes a pagar, muita despesa a fazer, e toda a gente quer comprar tudo a baixo custo. 

Em todo o lado as empresas, sejam de que ramo forem (excepto as que comercializam produtos de luxo ou as que se dedicam à ficção, às miragens, ou seja, aos unicórnios para enganar os pategos), defrontam-se com a impossibilidade de vender produtos ou serviços de qualidade pois quase ninguém os quer pagar, toda a gente quer saldos, borlas, fancaria. Podem ser produtos fabricados em lugares remotos em que se explora mão de obra infantil ou escrava, podem ser serviços em que se recorre a imigrantes que fazem qualquer coisa para sobreviverem ou a mão de obra desqualificada e precária. E não vale a pena apontar ao dedo ao vizinho do lado. Somos todos assim. 

Foi para isto que caminhámos.

Não sei se há pandemia que nos volte a colocar nos eixos. Creio que não. Agora é este corona, outro dia há-de ser outra porcaria qualquer, depois são os vendavais, as chuvas diluvianas, as temperaturas avassaladoras, incêndios descontrolados. 

Mas os humanos são mais burros que os mais descerebrados e invisíveis vírus: não aprendem nem por mais uma. Só se prendem com ninharias, só gostam de maledicência, são egoístas e parvos. 

Um dia ainda vem um asteroide, um pedregulho gigante ou uma coisa qualquer destravada do universo na nossa direcção e acontece uma coboiada como a que se pode ver no Don't look up: palhaçada atrás de palhaçada, cada uma mais incrível e parva que a outra, até que vamos todos desta para melhor.

...

E vou mas é acabar de escrever pois até parece que estou apocalíptica, a anunciar o fim do mundo -- todos com um big calhau na tola. 

Mas acho que não, isto é mesmo de ter estado o dia todo sem fazer nada, um dia escuro, sempre a chover. Tanta roupa que tenho para lavar. Mas lavar roupa com um tempo destes...? Como é que seca? E também me chateou que às quatro e tal da tarde já tive que acender a luz para conseguir ler, parecia quase de noite, um tempo da treta.

Agora lembro-me que se calhar também fiquei um bocado blue por ter visto no Emily in Paris um restaurante onde almocei há não tanto tempo quanto isso, um restaurante especial, e onde gostaria de voltar mas onde agora, com tudo isto que não se vê jeito de acabar tão cedo, não sei se voltarei.

Quando penso em Paria, agora penso em ir de carro, se calhar até com alguns dos meninos. Mas como metermo-nos a viajar com a porcaria do ar todo embruxado, tanta gente a bufar coronas pelas goelas e pelas ventas...? Gaita.

Bem. Passa das duas da matina. Vou-me deitar que esta segunda volta a ser dia de trabalho. As minhas short férias só duraram este domingo.


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Pinturas de Leonora Carrington ao som de River por Joni Mitchell

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Mas, para combater a ansiedade, a pancada, a neura ou a chatice nada de meter para dentro, nada de ficar a remoer, a repisar. Pelo contrário, o melhor é deitar cá para fora. Sobretudo, lutar contra isso. Mostro como -- e recomendo que o exercitem, de preferência se tiverem algum comentador televisivo pela frente.


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Estamos na última semana deste ano. Espero que, apesar de se inserir num dos anos mais estúpidos de todos os tempos, seja uma boa semana.

Saúde, peace and love e boa sorte. 

terça-feira, dezembro 23, 2014

"Alzheimer espiritual", "terrorismo da má-língua", "carreirismo", "oportunismo" são algumas das 15 doenças da Cúria que o Papa Francisco denunciou perante o incómodo de bispos e cardeais. [E, a propósito de maldade extrema, alguém sabe quem é a Rainha da Tortura, a tão enigmática 'Queen of Torture'?]


No post abaixo partilhei o episódio especial de Downton Abbey feito para ajudar a angariar fundos numa festa de beneficência anual inglesa. É uma paródia pegada e é um prazer ver aqueles personagens a divertirem-se tão abertamente. É que não são apenas os actores que se divertem, são os próprios personagens. Uma festa.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.


E, se concordarem, vamos com The River Live na interpretação de Joni Mitchell.





Devo dizer que quando ando com um tema atravessado mas não sei por que ponta lhe pegar, temendo não o fazer da forma mais apropriada, parece que fico com as ideias presas pois tudo o que não seja aquilo em que estou a pensar me parece coisa pouca.

Podia falar e pronto, desaparecia a ânsia. Mas não se pode falar com ligeireza ou leviandade de temas que devem pesar, doer, ferir a nossa consciência. Nem se pode errar.

Ora nem eu tenho tempo para grandes investigações nem tenho a disponibilidade mental para me livrar da ligeireza que, por vezes, parece cobrir a minha escrita. Estou cheia de trabalho e, pelo meio, tenho que arranjar tempo para pensar no que tenho que comprar para preparar a parte que me compete na ceia de Natal que não vai ser em minha casa e mais os ingredientes para o almoço que vai ser cá em casa e mais presentes de última hora e mais as coisas normais de casa.

E, enquanto isso, ando com a maldita ideia que não me sai da cabeça. Já pensei passar ao lado, ser-me-ia mais cómodo não me aventurar por territórios que não conheço, que não vejo na nossa imprensa, que não me é fácil confirmar. Mas como, se isso por aqui anda permanentemente a tolher-me os movimentos? 

Ainda não vai ser hoje mas, para ver se me amarro já a um compromisso de forma a não poder libertar-me, digo já que o tema é a tortura.


A tortura a que os Estados Unidos submeteram prisioneiros, sevícias impensáveis. Através de relatórios falsos em que se fazia a apologia da eficácia de métodos bárbaros, indignos, desumanos, os EUA foram-se auto-desculpando e ganhando a cumplicidade de muitos Estados para poderem continuar a fazê-lo.


Afinal, sabe-se agora, aquela barbaridade era contraproducente em termos de resultados de interrogatórios, e, portanto, de uma ponta a outra, tudo não passou de um embuste, de selvajaria gratuita.

Os portugueses como vários outros povos sabiam e fechavam os olhos. Aviões com prisioneiros...? Ora, deixa-os estar. Aliás, é bem capaz de tudo não passar de mais um desmando da Ana Gomes. E, como temos sempre mais com que nos ralarmos, mostramos que não estamos nem aí.

Ou seja, lavamos as mãos, coisa em que somos especialistas - nós e quase todos os outros. Quando se trata de não ver o que não quereremos ver, é como se fossemos acometidos por uma oportuna cegueira branca.

E isso custa-me muito. Que raça de gente somos nós que nos desinteressamos mesmo quando, no fundo de nós, sabemos que temos razão para suspeitar? Porque deixamos que alguém torture outro ser? ....Porque pensamos que são terroristas e que, portanto, é bom que se faça de tudo para se lhes arrancar confissões? Mas e se não forem? E será necessário fazer-lhes o que agora sabemos que lhes fizeram?

(...) Para além da simulação de afogamento ou da privação de sono (que no caso de um detido ultrapassou sete dias seguidos), o documento refere a imposição de “alimentação anal” e “reidratação anal”, assim como suspeitos com ossos das pernas partidos obrigados a permanecer de pé, acorrentados à parede. O problema não é apenas cada um dos métodos, mas as consequências provocadas pela sua utilização em conjunto, como a simulação de afogamento ou da execução de um detido combinada com privação de sono ou com longos períodos de isolamento. (...)

No entanto, há um pormenor que ainda me angustia mais em tudo isto. Se bem percebi, quem estava por trás de tudo isto, quem ordenava, quem engendrava os procedimentos cruéis, quem chegava a conduzir sessões de sofrimento infligido, quem fazia relatórios enganosos, quem tinha tamanha malvadez dentro do corpo, era uma mulher. Uma oficial da CIA. 


Se bem percebi, as fileiras cerram-se agora em torno desta mulher que não se identifica, que ninguém identifica, que ninguém sabe quem é. Uma mulher. A Rainha da Tortura. Arrepia-me, aterroriza-me pensar numa coisa destas.


Mas temo não ter percebido bem, temo meter-me por caminhos ínvios, por labirintos dos quais não saiba como sair e, por isso, hoje não vou falar nisso.

Mas aqui fica expressa a intenção: a ver se um dia destes, com mais certezas, consigo escrever alguma coisa sobre assunto tão maligno.


Por isso, não falando nisto, quero apenas dizer que, uma vez mais, Jorge Bergoglio, o Papa que me faz ter vontade de me aproximar da Igreja (porque, para mim, Igreja é isto, um lugar de verdade e de inclusão, não um lugar de preconceito e expiação), me voltou a surpreender - tal como terá surpreendido meio mundo.



O Papa Francisco e os 15 pecados que habitam a Cúria


[Permito-me transcrever na íntegra um artigo. Trata-se de um texto intitulado "Do "Alzheimer espiritual" ao "terrorismo da má-língua" - Papa denuncia 15 doenças da Cúria", foi escrito por Ana Fonseca Pereira e publicado no Público.]




Enganaram-se os bispos e cardeais da Cúria que nesta segunda-feira entraram na ornamentada Sala Clementina esperando ouvir as tradicionais felicitações natalícias. 


No discurso aos dirigentes do governo central da Santa Sé, o Papa Francisco denunciou, uma por uma, 15 doenças que afligem a hierarquia da Igreja, do carreirismo, à ganância e ao “terrorismo da má-língua”.


Francisco denunciou com uma severidade inédita as tramas e os métodos daquela que é, desde Março de 2013, a sua “corte”, numa intervenção temperada com palavras de incentivo e até algum bom humor. 

Mas quem assistiu ao discurso, que o correspondente da AFP descreveu como “um banho de água fria”, diz que na sala se viram muitos rostos fechados e tensos. 

A atmosfera contrastou com a informalidade da audiência seguinte, quando familiares e funcionários do Vaticano encheram o auditório Paulo VI e ouviram o Papa elogiar os homens e mulheres “invisíveis” que garantem o funcionamento da cidade e da sua administração.

Uma forma de agir que já se tornou habitual no Papa argentino – que no dia do seu aniversário almoçou com os trabalhadores da residência de Santa Marta e mandou distribuir 400 sacos-cama pelos sem-abrigo de Roma –, mas que promete ressoar muito tempo pelos corredores do Palácio Apostólico, tal a dureza das palavras proferidas. Andrea Tornielli, vaticanista do La Stampa, sublinha que em nenhum momento Francisco referiu nomes e fez questão de dizer que os pecados que trazia listados “são um perigo natural para cada cristão, cada cúria, cada comunidade”. “No entanto, identificou-os claramente como estando presentes no ambiente que o rodeia há 21 meses”, escreveu o jornalista, numa alusão às notícias sobre o clima de conspiração e à oposição cada vez mais audível de alguns sectores do Vaticano às reformas que pôs em marcha na Cúria.

Em vésperas de Natal, o Papa convidou os cardeais a fazerem um “verdadeiro exame de consciência”, pedindo perdão a Deus, “Ele que nasceu na pobreza numa caverna em Belém para ensinar a humildade” e foi acolhido “não pelos eleitos”, mas pelos “pobres e simples”. Ao contrário, afirmou, a Igreja de hoje padece de “infidelidades” ao evangelho e está ameaçada por doenças que é urgente “tratar”.

Numa lista exaustiva, Francisco fez o diagnóstico de 15 enfermidades, descreveu sintomas e apresentou remédios, de uma forma “tão lúcida e conhecedora do assunto em causa que voltou a abalar o estereótipo de um latino-americano que não está habituado às ‘complexidades’ de Roma e da Europa, o argumento que os seus críticos tentaram usar para o neutralizar”, escreve o site Vatican Insider.

Criticou os que ficam demasiado presos à burocracia, os que recusando abandonar as suas tarefas “se esquecem que o mais importante é sentar-se aos pés de Jesus”, ou aqueles que, pelo cargo que atingiram se julgam essenciais e a quem convidou a visitarem os cemitérios “onde estão tantas pessoas que se consideravam indispensáveis”. Foi mais duro, quando denunciou o “Alzheimer espiritual” dos que se afastaram de Deus e “vivem dependentes das suas paixões, caprichos ou obsessões”, ou quando criticou os que se tornaram “vítimas do carreirismo e do oportunismo”, os que protegem os interesses de um círculo fechado e os que “tentam preencher o seu vazio existencial arrebanhando bens materiais”.


Denunciou uma vez mais a cultura da má-língua, mas com palavras duríssimas para um Papa: trata-se, afirmou, da  “doença dos cobardes”, dos “semeadores da discórdia” e “assassinos a sangue-frio” da reputação dos seus irmãos. “Tende cuidado com o terrorismo da má-língua”, afirmou, antes de exortar os presentes a trabalharem pela unidade da Igreja.


Para temperar o duro sermão, Papa terminou com uma nota de bom humor – recordou ter lido algures que “os padres são como os aviões, só são notícia quando caem” – e pediu a todos que mantenham no seu ministério uma boa dose de “auto-ironia e sentido das limitações”. Mas, no final ouviu-se apenas um aplauso tépido e o ambiente continuou pesado mesmo quando Francisco saudou um a um os cardeais para, por fim, lhes desejar Feliz Natal.


. & .


Grande Francisco. Corajoso Francisco. Bem podemos e devemos rezar por ele como ele tanto nos pede.

Que as suas palavras ecoem por todos os centros de poder sejam eles a Cúria, a CIA, os Senados deste mundo, os Bancos das praças financeiras deste mundo, as Comissões (Europeias ou outras), os aparelhos de Estado ou os aparelhos partidários, numa escala global ou numa escala mínima - que parem todos para pensar na vã ilusão da imortalidade e da inimputabilidade, que percebam a sua cobardia e arrogância, que se envergonhem e arrependam.

E que todos aprendamos a cultivar a bondade, a generosidade, a auto-ironia, o sentido das limitações e, já agora, por favor, o bom humor.

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Para Francisco I, com agradecimento e afecto, um tango

Mariposa



Grupo Corpo, música de Ernesto Lecuona

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As fotografias são de Emmanuelle Brisson 

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Relembro: caso vos apeteça ver o vídeo feito por graça pela equipa de Downton Abbey com a participação especial de George Clooney (que esbanja o seu charme pelas mulheres da família, nomeadamente pela impagável Avó Violet), desçam, por favor, até ao post já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.

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sexta-feira, fevereiro 03, 2012

É a economia, estúpido! Manuela Ferreira Leite, Poul Thomsen, Carlo Cottarelli - todos dizem que é preciso abrandar a austeridade e relançar a economia mas Passos Coelho ainda não percebeu. E, para não nos afogarmos em tristezas, Joni Mitchell, a poesia de António Ramos Rosa e as mulheres de Jeanloup Sieff e Robert Mapplethorpe


1. Ar puro, por favor, preciso. Comecemos por ligar a música* para, então, prosseguirmos.



(* Obrigada P. R!)

 de JeanLoup Sieff


                       Mulher, tu cabes num soneto se o fizer perfeito e imperfeito
                       Se o abrir tanto como se abre o teu peito ao respirar
                       Com as tuas ancas balanças inseguras para a dança
                       Mulher tu não tens par para parar contigo
                       A tua dança não nivela entre os teus braços ao alto
                       Mulher amiga eu desisto do soneto não porque não o mereças
                         ....
                       se desisto é porque corres como um rio em raios de música
                       e na caixa simétrica de um soneto serias uma boneca branca fixa 
                                                                                                                     ou uma estampa


[Início de um poema inédito de António Ramos Rosa in Cultura ENTRE Cultura Nº 4, bela revista que recomendo]

..... ..... 

2. Peço agora a vossa licença por ir passar para um outro comprimento de onda. Quase sinto que vou conspurcar a leveza do momento anterior e devo confessar que estou aqui a vacilar sobre se o devo ou não fazer.

Não me apetece nada - mas acho que devo fazê-lo. Todas as vozes que se levantem são poucas e o pouco que faço é nada face ao que sinto que deveria fazer. 

- . -

2.a. É preciso ter muito cuidado com o poder nas mãos de pessoas pouco inteligentes.  

Quando há eleições que não se pense que, com o voto, se está essencialmente a punir o ente indesejado que lá está. Não, não se trata disso – porque o lugar nunca fica vazio. Quando se vota, está a escolher-se quem lá vai ficar.

Por isso, podia não se gostar de Sócrates mas dever-se-ia ter avaliado se Passos Coelho e respectiva turma não seria pior solução. Em meu entender, via-se à vista desarmada que era uma gente sem competência, sem experiência, sem cultura e, mesmo, com uma inteligência algo limitada. Mas agora está à vista o perigo que são.

Com ciência colada a cuspo, sem bases teóricas e sem prática, não fazem ideia do que andam a fazer. Como qualquer mau aluno que se preze limitam-se a copiar por aquele que acham que sabe e, com a espertalhice que aprenderam na Jota, para disfarçar que não sabem nada de coisa nenhuma, querem ainda parecer mais papistas que o papa. Querem que se pense que a troika ou a Merkel é que andam a copiar por eles. E então aplicam a suposta cartilha liberal  à outrance.

O que estão a fazer é a mesma coisa que um doente destituído de inteligência a quem dissessem que, para curarem uma doença, deveria tomar 1 comprimido de 8 em 8 horas e o doente, por sua alta recriação, desatasse a tomar 1 comprimido de 2 em 2 horas para fazer mais efeito e mais depressa. E, burro, ao ver que andava com vómitos, dor de cabeça, a desmaiar 5 vezes por dia, com problemas de visão e queda de cabelo, resolvesse que tinha era que tomar uma dose ainda maior e passasse a tomar de hora em hora, e que, quando já mal se levantasse da cama, concluísse que tinha era que os tomar em contínuo, e pusesse um balde de comprimidos ao lado da cama para engolir um de minuto a minuto. Nem mais. É isto que está a acontecer por cá.

Se tiverem curiosidade, recomendo a leitura integral do texto publicado no blogue do FMI da autoria de Carlo Cottarelli, do Departamento de Fiscal Affairs do FMI. Aqui.


Diz Carlo Cottarelli que os ajustamentos fiscais para combater a crise da dívida pública devem ser graduais e seguros. Querer regularizar a situação num período muito curto vai inibir o crescimento, ou seja, na prática, vai impedir a recuperação. Salienta que os mercados não gostam de dívidas muito elevadas mas ainda menos gostam de fracos crescimentos.

Refere a sua preocupação com o que está a acontecer em alguns países da Europa que não estão a perceber isto. 

Isto mesmo disse Manuela Ferreira Leite. Isso mesmo disse Poul Thomsen que diz que se está a ir depressa demais no ajustamento, que será necessário abrandar. Um pouco por todo o lado, as mais insuspeitas vozes clamam contra o que está a ser feito.

Só Passos Coelho e respectiva entourage não percebem isto. Todos os dias fecham mais empresas, cada vez mais ordenados em atraso, cada vez mais gente sem dinheiro para se tratar, cada vez mais crianças com fome nas escolas, desemprego e mais desemprego - e esta gente persiste. Acham que há é que sangrar ainda mais a população. É demais. É um perigo gente assim à frente do País.

Não vos maço mais com isto mas aconselho a leitura do artigo. Está claro e bem fundamentado.


2.b. Portugal precisa urgentemente de um programa de crescimento.

Um programa de crescimento não é antagónico de austeridade. Deve haver combate ao consumo disparatado, aos gastos desnecessários, ao despesismo, ao investimento em coisas que não servem para nada.

Mas deve haver um programa transeuropeu de crescimento - especializar o desenvolvimento por regiões. Portugal, por exemplo, pode apostar forte nas indústrias ligadas ao mar (com tudo o que isso implica em volta, e a montante e a jusante, desde a formação, investigação, até às indústrias complementares) ou indústrias ligadas a outra coisa qualquer que se identifique como viável e interessante. E, identificando isso, deve começar a atrair e a fomentar a instalação de tudo o que dê corpo a essa estratégia. E deve fazer isso com pés e cabeça numa estratégia consistente ao longo do tempo, dure o tempo que demorar.

Dir-me-ão que não há dinheiro para isso.

Há. Há sempre dinheiro quando se tem um projecto viável. Dinheiro é o que não falta: podem ser investidores não europeus, podem ser fundos que a Europa disponibilize, pode ser uma realocação diferente de recursos públicos (se apostarmos na actual estratégia de miserabilismo, grande parte dos recursos vai para subsídios de desemprego, subsídios de apoio à subsistência; há menos gente a descontar porque há mais gente a ganhar menos e mais gente no desemprego que, em vez de descontar, recebe. Numa estratégia de crescimento os recursos são alocados numa perspectiva multiplicadora.)

E o que se precisa é que a economia funcione. É vital que se volte a ligar o motor económico. 

Ora, uma economia a funcionar passa por um comprar a outro, o que vende recebe dinheiro e vai comprar a outro e assim sucessivamente. Havendo retracção, um não compra, o outro não vende, e o dinheiro deixa de circular, a confiança perde-se, a dívida aumenta. 

Mas quero voltar à minha afirmação ali de cima que vos pode ser soado polémica – a de que dinheiro não falta.

Ora bem. A China, o Brasil, Angola, por exemplo, são casos que conhecemos muito bem de investidores que precisam de ensopar a sua liquidez. Grande parte das nossas maiores empresas já estão na mão deles. E há países pacíficos do médio oriente que também nadam em dinheiro e procuram bons investimentos.

Ora podem consegui-lo por abdicarmos da nossa soberania, vendendo-lhes as nossas empresas estratégicas.

Mas uma outra coisa, bem diferente, é negociar contratos numa outra base e não vou aqui alongar-me a identificar as diversas modalidades. Mas, basicamente, há uma diferença de monta entre mostrar que se está de calças na mão ó tio, ó tio e outra, oposta, é dizer ‘tenho aqui um projecto interessante e andamos à procura de um parceiro’. Read my lips.



Em suma, esta situação que atravessamos, que é errada na teoria e na prática, está a conduzir Portugal ao beco em que a Grécia está metida. Portugal, após alguns meses de governação do bando Passos, Relvas, Gaspar, Moedas está hoje muito pior do que antes. E o grave é que eles ainda não perceberam. 

. &.

3. Nova operação de purificação do ar. Música de novo, por favor.


(Thanks again. P. R.)

Lisa Lyon por Robert Mapplethorpe


                        O poeta que canta a tua graça
                        não poderia chamar-te uma leitora anónima
                        (...) 
                        Se não conhecesse o teu andar
                        e os teus gestos vivos,
                        perdida noutro século
                        azul e cintilante como uma estrela
                        ter-te-ia perdido, minha amiga,
                        nem poderia sonhar contigo!


                       [Excerto de um poema inédito de António Ramos Rosa in Cultura ENTRE Cultura Nº 4]

....

E vocês, meus leitores, alguns anónimos, que estão aí, algures no mundo, não me percam nem deixem que eu vos perca. E permitam que eu sonhe convosco.

E tenham, meus Amigos, uma bela sexta-feira.