Na farmácia a que agora vou apareceu um novo funcionário que, na minha modesta opinião, é burro que nem uma porta.
Na última vez desatinei por completo e acabei por trazer uma coisa que não queria.
Eu estava um bocado constipada, com a garganta levemente arranhada e, tendo lá ido para comprar uma coisa qualquer, aproveitei para lhe pedir uns rebuçados ou pastilhas que funcionassem como um desinfectante para a coisa não progredir e que me aliviasse a sensação de garganta arranhada. Olhou para mim sem perceber. Repeti sem perceber o que é que ele não tinha percebido. Começou, então, a fazer uma bateria de perguntas em que eu via que ele estava a leste.
Eu dizia: qualquer coisa serve, mel, eucalipto, qualquer coisa.
Mas ele não largou: tem muita expectoração?
E eu: não, não, acho que estou a começar a constipar-me, se calhar, se isto progredir, acabarei por ficar.
E ele: Então está é a queixar-se de tosse seca.
E eu: Não. ´É um resfriado ou constipação, sinto que estou a ficar apanhada.
Ele: Assim, sem dizer bem o que quer, é muito vago.
Eu: Olhe, umas pastilhas quaisquer.
E ele: Mas com antibiótico?
E eu: Acho que não, podem ser rebuçados desses banais.
Respondeu: Assim não percebo, não sei como posso ajudar.
E eu: Então deixe, não importa.
Pelo meio, depois de cada resposta minha, punha-se a olhar para as prateleiras atrás dele cheias de pastilhas e rebuçados, pegava numas, lia a embalagem, encolhia os ombros, um tempo infinito. Eu completamente doida com aquilo e sem conseguir libertar-me sem perder a compostura.
Por fim, quando eu já estava a descompensar, foi buscar uma embalagem: Estas são boas, recomendava-lhe estas, mas são para tosse seca.
E eu, vencida: Pronto, levo essas.
12€ para nada.
Hoje tive que lá voltar. Há uma meia dúzia ou mais de balcões. Tirei a senha e fiquei a implorar a todos os santinhos que não me saísse ele. Saiu.
Começou por me perguntar se eu tinha cartão da farmácia. Disse que sim mas que a receita era para o meu marido. Fez um ar desorientado. Então como é que sei quais os que o senhor costuma levar?
Eu, desconcertada: Mas ele praticamente nunca leva nada...
E ele: Mesmo assim, tenho que saber.
E eu, sem perceber a razão da cisma: Não se preocupe, não é tema.
E ele, com de censura: Dizem isso e depois quando vou buscar o medicamento dizem: 'ah, as caixas que costumo levar não são essas'. E eu é que tenho que adivinhar'
E eu já a ver que a coisa estava outra vez com tudo para descarrilar: Ele nunca levou isto.
E ele: Não? É que, sem ver a ficha, como é que eu sei isso?.
Eu, à beira de um ataque de nervos, expliquei-lhe qual o mal do meu marido, coisa pontual, para ver se o convencia. E rematei: Portanto, como vê, sei eu. Nunca levou nada disto. Dê-me uma marca qualquer ou genérico, se houver.
Contrariado lá o fez.
A seguir pedi Ben-u-Ron. Perguntou se podia ser genérico. Respondi que sim. E ele: Não se pode vender de 1gr mas, para aquilo que é, abro uma excepção e vendo-lhe.
E eu: Mas eu até prefiro de 500mg pois é mais flexível.
E ele: E o senhor vai tomar 1 comprimido de 500mg?!?!
E eu: Toma 2.
E ele, a olhar para mim com ar de dúvida: Ai é?
E eu: É.
Fez um trejeito mostrando um estranho cepticismo.
E assim foi até ao fim. Não há explicação. Quando passou à fase do registo para pagar foi o bom e o bonito. Passou o leitor de código de barras no mínimo três vezes em cada embalagem. Quando me parecia que haveria de sair o talão, ele voltava ao início.
Saí de lá exausta. Cansa-me imenso aturar gente pouco inteligente. E não sei como lidar com estas situações. Não posso dizer que cedo a vez ao cliente seguinte, demonstrando que não quero ser atendida por ele. Nem posso dizer-lhe que atine pois poderá ofender-se.
Não sei. Penso que tenho que descobrir outra farmácia para não voltar a correr o risco de me sair outra vez aquela malfadada fava.
Isto de que estou a falar não tem a ver com o que se vê no vídeo. Mas revejo-me na impaciência dos actores quando estão sujeitos a entrevistas parvas, em que os entrevistadores fazem perguntas parvas, inconvenientes, despropositadas
Times Celebs Gave Unexpectedly Honest Answers To Interview Questions
Costumam contar-me coisas. Chegam-se ao pé de mim e começam a contar-me coisas, por vezes coisas muito pessoais. É um pouco desconcertante mas é a verdade. Não sei bem porque é que isso acontece. Não sou de sorrisinhos, não sou de simpatias a la minute para angariar amigos, não sou de palavrinhas fáceis ou consolos de efeito, sou mais de ouvir atentamente. No entanto, pelo menos a julgar pela minha experiência, o ser como sou faz com que as pessoas se sintam confiantes em partilhar comigo situações muito pessoais.
Eu, pelo contrário, não sou de falar de mim. Mesmo aqui, em que me farto de escrever e em que escrevo num registo por vezes quase diarístico, há muitos temas que nem afloro. Mesmo nos que falo, tento não dar pormenores muito objectivos pois penso que os assuntos são mais interessantes para quem os lê se houver, aqui ou ali, um certo véu. Mas se a escrever ainda vou falando de mim, ao vivo e a cores pouco falo. Não tenho muito para dizer.
Se a Thoraya montasse a banca ali no jardim ao fim da rua e me pedisse um segredo, acho que não me ocorreria um único. Acho que não tenho segredos. Pelo menos dos que se podem contar.
Vejo os vídeos dela e fico espantada com a quantidade de pessoas que têm segredos escondidos e que, pelos vistos, são segredos que estão ali à bica para poderem sair. Eu teria que puxar muito pela cabeça e, no fim, penso que no máximo me ocorreria uma palermice qualquer de quando andava na escola primária.
Na verdade, acho que nunca fiz uma patifaria, nunca gamei nada, nunca sacaneei ninguém, nunca tive inveja de ninguém. E, no entanto, no outro dia, num daqueles exercícios de imaginação em que me ponho a imaginar o que hei-de fazer um dia que me reforme, ocorreu-me que talvez gostasse de escrever umas memórias e, ao pensar no que poderia escrever, lembrei-me de algumas coisas de que habitualmente não falo. Melhor: de que nunca falo. São coisas que não interessam, coisas que ficaram no passado. Ao contrário de muitas pessoas que ficam a remoer e atormentadas com isto ou com aquilo, eu ponho para trás das costas e nunca mais penso nisso.
Não sei o que é que hoje em mim vem de situações mal resolvidas no passado. Diria que nada. Se me ponho a pensar na minha infância, adolescência ou vida adulta, o que me vem à cabeça são as situações boas, reconfortantes, divertidas. Só com um aturado esforço de reconstrução é que me recordo das coisas menos boas. Mas agora, tal como antes, relevo-as, relativizo-as, arranjo atenuantes para quem praticou algum acto ou proferiu alguma palavra que me incomodou.
Não guardo recordações desagradáveis em relação aos meus primos, aos meus amigos, aos meus colegas. Não me lembro de alguém que me tenha magoado. Se o fizeram, desculpei-os tão completamente que disso não sobrou qualquer ponta solta. Mais mais facilmente me lembro de situações em que estive um bocado ao lado ou em que, por erro ou omissão, induzi nos outros deficiente compreensão de situações, levando-os a ficar felizes com situações que não correspondiam exactamente ao que lhes tinha parecido ou, pelo contrário, levando-os a desgostos desnecessários. Mas não sei se isso encaixa no conceito de segredo.
Mas, sim, um dia que me ponha a escrever, sairão à cena algumas novidades.
Penso também no seguinte: se um psicólogo me virasse de cabeça para baixo e chocalhasse, será que iria conseguir que saltassem algumas peças soltas que fossem reconhecidamente a chave para explicar a minha personalidade ou alguns dos meus comportamentos? Creio que não. Mas nunca se sabe.
Seja como for, gosto de ver estes vídeos da Thoraya. Já aqui a tive algumas vezes. E a quantidade de pessoas que os comenta e que se solidariza com o que ouviu ou que se revê no tipo de segredos que ali são revelados é espantosa.
E vai escrever um livro sobre segredos, ela, e está a pedir que lhe enviem segredos para que possa usar alguns no seu livro. Pelo que expliquei, não vou enviar nada mas se algum de vocês, aí desse lado, tiver alguns para a troca, é enviar-lhe.
Quanto mais ouço os ignorantes a quem as televisões põem um microfone à frente mais me agonio. As televisões e as redes sociais são um perigo, estão cheias disto. Obama diz que a internet é um dos maiores riscos para a democracia e eu concordo. Charlatões e ignorantes são do pior que há. Não percebem nada, deturpam o que ouvem, propagam aldrabices e parvoíces de toda a espécie -- e, pior, falam muito, falam em todo o lado; e o pior é que, quanto mais disparates dizem, mais os outros gostam de ouvir. O espaço público está invadido por parvoíces, asneiras, maldades. Em vez de haver opinião informada, sensata, há um ruído de fundo que inflama descontentamentos, descrenças, que alimenta a apetência por discursos simplistas, populistas.
Por exemplo, a que propósito (ou com que propósito) contratam um João Miguel Tavares desta vida? Alguma vez gente desta diz alguma coisa que se aproveite? Palermas que falam do que não sabem, que não sabem pensar, que opinam usando as patas e não os neurónios para tentar raciocinar. Mesmo o Ricardo Araújo Pereira, que é culto e não é burro, para que é que é contratado para dar opinião? Por vezes lá diz alguma coisa de jeito, em especial quando contraria o JMT, mas, na maior parte das vezes, cede à mais soez e gratuita maledicência na ânsia de apelar ao riso fácil. Falei destes mas são estes e mais dezenas deles e delas. As televisões cheias. E imagino as barbaridades que grassam nas redes sociais. Uma poluição insuportável.
Tudo o que é mentecapto gosta de ter de que dizer mal. Como nunca conseguem ver a floresta, vão andando às cabeçadas de árvore em árvore e, claro, vão acusando cada árvore em que se espetam. Não percebem que o problema é deles que não sabem orientar-se, que não conseguem ver; não conseguem perceber que, se forem de encontro a elas, se vão magoar. É escusado. Não percebem. Assim são os burros: por mais que a realidade lhes entre pelos olhos adentro eles não percebem.
Nisto da covid não há conhecimentos para poder dizer uma coisa hoje e dizer a mesma coisa passadas duas ou seis ou doze semanas. Há cientistas a seguir diversas linhas de investigação, por todo o mundo. Andam às apalpadelas. E é normal que andem. Este vírus é novo e, ao que parece, com um comportamento algo atípico. Por uma questão de partilha (a ver se, em rede, se chega lá mais depressa), as pequenas conclusões, algumas certas, outras nem tanto, vão sendo conhecidas. Mas alguém, a esta altura do campeonato, sabe alguma coisa ao certo? Creio que não. À medida que se vai sabendo mais algumas coisinha, vão-se adaptando as instruções. É o melhor que se consegue fazer.
Mas os burros não percebem isto. Os burros acham que o corona veio com manual de instruções. Ao fim de todo este tempo, ainda não perceberam que não.
Por exemplo, ainda não se sabe porque é que, numa mesma casa, dos quatro habitantes, o marido, quarenta e tal anos, está positivo e seriamente doente, a mulher, da mesma idade, positiva e apenas doente, o filho positivo e completamente assintomático e a filha negativa. E isto está a acontecer com uma conhecida, tudo gente longe de pertencer a grupos de risco, saudáveis, com vidas saudáveis. O que há neles que os leva a que, perante o contágio, os seus corpos reajam de maneiras tão distintas? Ou porque é que um jovem médico, menos de quarenta, saudável e forte, e que trata todos os dias, desde há meses, doentes covid, sabendo os do's e os dont's e como tratar-se quando a coisa aperta, está agora seriamente doente? Que conclusão é que os burros, que sabem tudo, retiram disto? Face a isto, se fossem governantes, que recomendações emitiriam que fossem válidas para toda a população in saecula saeculorum?
Acham que a directora da DGS, antes que qualquer outra pessoa no mundo, deveria saber como prevenir o contágio. Não percebem que se os sinais e as recomendações da OMS vão num sentido, à falta de melhor informação é nesse sentido que se deve recomendar que se vá. Se, passado algum tempo, os cientistas e as evidências apontam noutro sentido, então é nesse sentido que as recomendações devem passar a ir. A isto chama-se inteligência. Ora, como é sabido, a inteligência é algo a que os burros têm aversão. Por isso, mal vêem qualquer coisa que não percebem, a primeira coisa que fazem é zurrar e dar coices.
Os burros acham que não: acham que se antes se pensava uma coisa, então, para não se sentirem baralhados, é nesse sentido que se deve continuar. Os burros não percebem que a coerência -- ou melhor, a inteligência --, quando se navega por mares nunca antes navegados, é ir ajustando a rota.
Os burros não percebem outra coisa: não percebem que quem governa tem que tentar traçar a bissectriz entre múltiplos vectores: o da saúde pública, o da economia, o dos recursos existentes, o da estabilidade social. Etc. Os burros não percebem -- porque geometria ou cálculo vectorial não é com eles -- que encontrar uma bissectriz nestas circunstâncias é impossível e que o melhor que se pode conseguir, em contexto de geometria variável, é ir fazendo iterações.
Os burros não percebem que isto, o que está a acontecer, esta pandemia, não é uma coisa simples que eles possam compreender. Se nem os inteligentes e estudiosos compreendem, como podem eles compreender? Portanto o que se espera é que os responsáveis pela comunicação social não dêem palco aos burros, sejam eles comentadores, comunicadores ou simples amadores. Numa altura destas, o ruído e a poeira só servem para atrapalhar.
E depois há alguns políticos. Refiro-me agora, em concreto, aos burros. Acham que há aqui matéria para se armarem em revolucionários -- como se a saúde pública em caso de emergência fosse tema com que se brincasse às liberdades. São uns irresponsáveis e, em matérias destas, a irresponsabilidade é imperdoável.
Se não tivesse havido estas medidas mais restritivas que o estado de emergência permite, dentro de dias estaríamos com mais de dez mil infectados por dia e com o dobro no mês seguinte. Não há camas, não há médicos, enfermeiros, técnicos ou ventiladores que cheguem para acolher quem precisa numa extensão desta ordem de grandeza. Mesmo assim, com estas medidas e com estes números, a situação é dramática e mais dramática ainda vai ficar.
Os burros acham que a culpa é do desinvestimento no SNS. Burros. Não há -- nem aqui nem em alguma parte do mundo -- sistema de saúde apto a lidar com uma pandemia como esta, caso extremo, de dimensões imprevisíveis. Os recursos dimensionam-se -- aqui e em qualquer parte do mundo -- para as situações médias, admitindo-se a possibilidade de escalar dentro de percentagens razoáveis. Mais do que isso é desperdício. E o desperdício sai dos bolsos de alguém, mormente do dos contribuintes.
Um hospital é um edifício físico. Tem lá dentro enfermarias, espaços para cuidados intensivos, blocos cirúrgicos, salas de recobro, etc. Quando se intensificam os doentes, há alguma elasticidade. Por exemplo, há corredores onde se podem ir pondo macas ao lado umas das outras. Até caberem. Mas, como não se quer misturar doentes covid com doentes não covid, a elasticidade não é tão grande quanto isso. Podem ainda montar hospitais de campanha no lugar de estacionamento. Certo. E os enfermeiros, médicos para tudo? Dizem os políticos burros e as histéricas do costume: contratem-se. Boa. Onde? Há médicos e enfermeiros no desemprego? Não me parece.
E quando há médicos, enfermeiros e técnicos infectados ou em quarentena e as equipas começam a diminuir? O que se faz? Vai buscar-se ao privado? Boa. E os doentes que estão nos hospitais privados? Vão para casa? Ou deixamo-los morrer? Ou será que os burros pensam que quem vai para os hospitais privados são só os ricos e, portanto, não há mal nenhum se quinarem? Se é isso, explico: sabem que os funcionários públicos, via ADSE, frequentam os hospitais públicos? Ou que as empresas pagam seguros aos seus funcionários e eles, mesmo os de mais baixos recursos, vão a hospitais privados?
Agora mesmo ouvi um burro a dizer que acha mal que Marcelo tenha falado na 3ª vaga de covid lá para Janeiro ou Fevereiro. Insurgia-se, dizia que sabe lá o Marcelo se vai ou não haver uma terceira onda. Mas eu -- que não sou cientista nem bruxa -- daqui posso assegurar: se se aliviarem as medidas, nomeadamente se a malta puder dar largas aos afectos e desatar a matar saudades com ceias, abracinhos e todos juntos a abrirem os presentinhos no Natal, de Janeiro para Fevereiro a coisa dá um pinote que vai lá, vai. Chame-se terceira onda, pinote da curva ou desgraça da grande tanto faz, é uma questão semântica.
Agora uma coisa eu continuo a dizer. Continuo a achar mal -- e aí critico Governo e Presidente da República -- a não existência de campanhas de divulgação em força, básicas, que entrem pelos olhos adentro dos burros e dos distraídos, e concertando-se com os canais de televisão para que haja uma permanente atenção a comportamentos de risco.
Continuo a ver montes de gente de nariz de fora. Se o contágio nasce sobretudo de quem tem a boca de fora da máscara, seja porque falam, bocejam ou o que for, porque se expele com maior vigor pela boca, projectando as gotículas, o contágio dá-se, certamente, em quem tem o nariz de fora. Portanto, quer para evitar contagiar quer para evitar ser contagiado, o uso da máscara tapando boca e nariz é essencial, sobretudo quando se está em espaços fechados ou em espaços muito povoados, mesmo que ao ar livre.
Hoje vieram entregar uma coisa cá a casa. O rapaz que a veio trazer não usava máscara. Quem o atendeu foi o meu marido que, quando lhe agradeceu, recebeu de volta uma tentativa de aperto de mão. Um caso entre tantos. Mesmo agora vejo nas televisões programas de debate em que não há distanciamento nem separadores de acrílico e, claro, não há máscara. Que exemplo estão a dar?
Mas, enfim, vinha para aqui hoje para me divertir e não para isto. Mas passei pelo Expresso da Meia-Noite, pelo O último apaga a luz e pelo Governo Sombra e o que vi e ouvi tirou-me do sério. Mas também quem me manda a mim armar-me em masoquista? Querem lá ver que, na volta, a burra sou eu...?
Não vá dar-se o caso de acharem que as imagens e a música lá de cima não são suficientes para não darem a vossa visita por perdida, permitam que partilhe mais um vídeo, desta vez com um pouco de dança.
Nederlands Dans Theater (NDT) | Medhi Walerski -- 'SOON’
De vez em quando o homem aparece. No inverno, quando chego é muito de noite. Ele põe-se no recanto junto à porta. Ali é abrigado, não chove, não bate o vento. Quando se vem da rua, não se vê. Apenas quando se vira para entrar no prédio é que de vê. Assusto-me sempre. Não se vem à espera de ver um vulto ali no chão. Não via se era novo ou velho, estava escuro e ele deitado. Se era mais cedo, por volta das oito e picos, estava soerguido, encostado à parede que lhe serve de cabeceira. Assustada, não tentei nunca olhar bem, creio que por pudor, respeito pela sua privacidade.
Agora voltou e é de dia até mais tarde. No outro dia, não estava nada à espera, como sempre assustei-me. Nesse instante, desejei que ele não tivesse visto que eu me tinha assustado. Estava outra vez encostado à parede, em cima dos cartões, coberto por uma manta escura. Percebi que estava um vulto ao lado, talvez uma mochila ou um saco. Num relance vi que é de meia idade, talvez mais novo, talvez abaixo ainda dos quarenta, que tem barba, que estava vestido de preto. Desviei o olhar, abri a porta. Pensei que deveria ter dito boa noite. Mas não sei se o incomodaria com isso, talvez não queira ser visto assim. Não sei.
Faz-me impressão. Um sem abrigo a dormir à nossa porta é coisa que incomoda. Não sei definir porque me incomoda. Talvez porque é a constatação próxima do abandono. Ou a constatação de que o infortúnio pode apear qualquer um. Ou porque há uma tristeza muito grande numa situação assim e a gente não sabe o que fazer. Ou porque pensa que é um caso em muitos.
Um outro dia, era já mais tarde, regressávamos os dois, já ele dormia ou, pelo menos, estava deitado e todo tapado. Assustei-me com o vulto. Disse: 'Mas com tanta assistência, porque não procurará ele apoio? Não será que deveríamos avisar que viessem cá oferecer-lhe guarida?'. O meu marido achou que não, que o deixássemos estar em paz. Lembrei-me do curso que fiz, do que nos ensinavam, que deveríamos sempre respeitar as opções de cada um, que muitos sem-abrigo vivem na rua por opção sua.
De manhã, por mais cedo que seja, já lá não está. Nem vestígios dele.
Quando passo na A1, na zona de Vila Franca, olho sempre aqueles prédios grandes que nunca foram acabados. Entre pilares, há sempre roupa estendida, uma cadeira, provas de que ali vive gente.
Admiro-os desde que vi uma reportagem na televisão. Gente digna. Gente muito pobre. Nada têm e, no entanto, do pouco que conseguem fazem uma casa. Diziam, na vizinhança, que são pessoas simpáticas, bondosas. Apenas não conseguem trabalho, apenas lhes falta suporte, apenas se viram despojados de tudo.
Há uns dois ou três anos vi um filme que me impressionou muito. Samba. A história de um imigrante, sem documentos, clandestino, vulnerável. Um filme extraordinário que mostrava a vida da gente invisível. Com medo de ser preso e de ser deportado, sujeitava-se a tudo, a toda a espécie de exploração e violência. Tinha um coração grande e era lindo. A rapariga do filme apaixonou-se por ele. É certo que as raparigas dos filmes gostam de se apaixonar pelos rapazes corajosos que se encontram em situações de fragilidade. Quando são bonitos, têm umas mãos generosas de quem sabe dar abraços longos e quentes e um olhar meigo e carente ainda mais.
Hoje vi aquele filme com o Mamoudou Gassama.
Vi sem perceber como era aquilo possível. Como é que uma pessoa normal trepa a um quarto andar em meio minuto, sem cordas, sem qualquer apoio? Se eu visse uma criança suspensa num quarto andar, desatava a gritar, a chorar, haveria de querer ligar para os bombeiros e não saberia que número ligar, talvez me pusesse de braços abertos cá em baixo sabendo que de nada serviria, impotente, aflita. Não me ocorreria trepar para salvar a criança. Não sou ginasticada, por muito que tentasse não o conseguiria. Mas será que o Mamoudou alguma vez suporia que seria capaz de tal milagre? Se calhar não. Conseguiu-o porque a generosidade falou mais alto, porque a coragem superou o medo.
A França rendeu-lhe homenagem mas é pouco. Todos os presidentes de todos os países da Europa deveriam fazer o mesmo. Todos deveriam abrir-lhe as portas, dar-lhe emprego. Todos deveriam abrir o coração aos imigrantes, aos pobres, aos que nada têm senão a sua alma, a sua força. A velha Europa precisa do sangue nobre desta boa gente.
Emociono-me ao ver o filme. Já vi algumas vezes sem perceber como é que um vulgar ser humano consegue subir a um quarto andar mais depressa do que voasse pelas escadas. Talvez Mamoudou seja um anjo, talvez os seus fortes braços sejam longas asas, talvez seja o anjo da guarda do menino que estava sozinho em casa, o menino cujo pai se calhar também tem uma vida complicada e cuja mãe, noutro país, se calhar também não tem uma vida fácil. A vida não é fácil para os pobres, para os despojados. O que os salva é a sua força de deuses e o seu coração de fazedores de milagres.
E o que Mamoudou, 22 anos apenas, já andou para ali chegar. O que ele já viu. O que ele já viveu.
E, no entanto, quando viu a criança pendurada apenas pensou em ir salvá-la. No vídeo abaixo ele conta.
Por formação (ou deformação, como queiram) só vou pelas coisas quando as vejo demonstradas, q.e.d., e só aceito hipóteses como verdadeiras quando, sujeitas a testes, os superam. Diz-que-diz-que não é coisa que me assista. Mesmo que referendado pelas redes sociais em peso, comunicação social e comentadores: não me impressiono. Não sou Maria-vai-com-as-outras nem à lei da bala. Só vou quando, por mim, me convenço a ir.
Ou seja, pode meio mundo cair a pés juntos sobre uma verdade absoluta que eu só vou saber que é verdade absoluta quando a vir provada, cientificamente provada.
Isto traz-me, com alguma frequência, alguns desconfortos. Bem que colega amigo costuma avisar-me: cuidado não vão dizê-la desalinhada. E sou.
A invasão do Iraque era inevitável e mais do que justificada porque havia provas do uso de armas de destruição em massa, não era? Como duvidar quando alguns dos mais poderosos Chefes de Estado o afirmavam sem sombra de dúvida?
Não para mim. Só com as provas à vista, provadas e recomprovadas.
Lembro-me bem da acesa discussão no dia da invasão. Estava numa bela moradia no Restelo. A enorme sala dava para um jardim relvado e florido. Circulávamos por ali, um simpático coktail era servido entre comentários sobre a notícia do dia. Os meus interlocutores aplaudiam. Eu relutava. Eles convictos: provas, o ditador assassino, uma invasão inevitável. E eu céptica. Como pode ter dúvidas? Não ouviu as notícias? E eu que não ia em conversas, muito menos daqueles ali. Queria saber de provas. Não se invade um país com base em conversa, em bocas, em indícios. Os meus interlocutores -- gente de bem, gente civilizada -- abanavam a cabeça. Uma selvagem no meio de gente fina. Estava isolada.
E, no entanto, depois do país destruído e de tantas vidas destruídas, descobriu-se o embuste.
E, no entanto, todos os papagaios e demais passarinhas que se tinham afobado a defender a invasão e a justeza da guerra, enfiaram o rabo entre as pernas e nem um pio, nem um mea culpa por terem defendido uma cambada de aldrabões assassinos.
Podia agora invocar alguns dos casos mediáticos em que meio mundo acusa e condena a partir do Correio da Manhã. Todos estão certos de tudo. Todos relacionam tudo com tudo. Se o Correio da Manhã diz é porque é -- e se o amigo emprestou dinheiro é porque o dinheiro não era do amigo era dele e se o dinheiro era dele então é porque ele é corrupto e se ele é corrupto então a crise financeira foi culpa dele. Esta é a linha de raciocínio da vox populi. E eu que estudei como analisar a lógica dos raciocínios e como desmontar sofismas traiçoeiros e como demonstrar os mais complexos teoremas e como comprovar hipóteses por mais rocambolescas que pudessem parecer, não é agora, que vou renegar as minhas bases e desatar a papaguear argumentação badalhocamente construída.
Podia invocar esse e outros casos mas não o farei: estão em segredo de justiça, segundo dizem.
Mas vou falar disto do ex-espião russo. Alguém o envenenou. E à filha. E isso é uma coisa condenável. Inaceitável. Ponto.
Mas quem colocou o veneno? Não sei. Alguém sabe? Penso que apenas os executantes e os mandantes o saberão.
Não faço ideia se foram os russos. Podem ter sido os ingleses para mobilizarem a opinião pública a favor do governo (que anda pelas ruas da amargura e que bem precisados estavam de um novo fôlego). Sabemos lá.
O que também sei é que o círculo das suspeitas em torno do inner circle do actual establishment político inglês tem vindo a estreitar-se.
Pressure grows on PM over Brexit Cambridge Analytica scandal. Campaigners demand Theresa May investigates what Michael Gove and Boris Johnson knew.
E toda esta campanha em torno da expulsão dos russos vem mesmo a calhar. Em situações assim nada como atirar poeira para os olhos. O Brexit aconteceu devido a fraudes em cima de fraudes? As figuras gradas do Brexit podem estar implicadas? Upsss... Que jeito que dá uma coisa que apele ao medo, que una as pessoas em torno de potenciais ameaças, que convoque os mais íntimos instintos nacionalistas?
Portanto, nada sabendo eu do que se passa, posso enunciar a partir do que vou lendo: que se conheça, não haveria móbil para os russos envenenarem o ex-espião e a filha. Que se conheça, haveria forte motivação para os ingleses inventarem uma cena que distraísse as atenções do seu eventual envolvimento nas barracadas do Brexit e da Cambridge Analýtica (já para não falar na sua baixíssima popularidade interna e a escassa credibilidade nos meios internacionais).
E, com isto, o que também posso dizer é que, com base no que se sabe, andar meio mundo a expulsar russos parecem-me carneiradas e rangelices desprovidas de sentido.
E, a menos que se fique a saber (de fonte segura) qualquer coisa mais, acho que mais valia que se falasse menos e se pensasse mais.
Será escusado recordar que nestas coisas que metem espionagem, disputas políticas internas, guerras comerciais, alianças internacionais tantas vezes espúrias, etc, etc, nunca nada é aquilo que parece e que pareceria prudente que a reserva se sobrepusesse à precipitação.
Mas, enfim, o mundo não é perfeito.
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Testemunhos interessantes: Christopher Wylie e Shahmir Sanni
Desde menina que tive muito claro que queria ter uma profissão e que tinha que garantir, eu por mim, a minha independência. Comecei a trabalhar mal fiz vinte anos. Certo é que há quem comece muito mais cedo mas, na minha geração, já era relativamente normal que quem estudava na universidade apenas entrasse no mundo do trabalho depois de acabar o curso.
Eu não esperei. Embora a minha família não tivesse dificuldades económicas e não tenha ideia de que algum dos meus (escassos) pedidos tivesse sido alguma vez regateado, havia em mim como que um orgulho que fazia com que me fosse penoso aceitar a mesada.
Assim, contra a opinião dos meus pais, em especial do meu pai que temia que eu me dispersasse e acabasse por não concluir a licenciatura (que, na altura, era de cinco anos), comecei a dar aulas mal acabei o chamado bacharelato (três anos de curso).
Soube-me muito bem começar a ter o meu ordenado, apesar de, por vezes me ser algo difícil conciliar horário completo como professora, aulas como aluna e, logo de seguida, também a lida da casa como 'mulher casada'.
Sempre gostei de trabalhar. Como é normal, tenho atravessado fases de alguma descrença ou desconforto ou desmotivação. Mas sempre consegui superá-las pois a força das minhas convições (especialmente as que se referem à necessidade de olhar para o lado bom da vida) sempre me ajudou a ter paciência e esperar pelos momentos de maior entusiasmo.
Tenho tido sorte -- e, no fio condutor da vida, atribuo à sorte um papel importante. Mas também sempre encarei o trabalho não apenas como uma necessidade mas também como uma forma de valorização pessoal e isso, acho eu, sempre me ajudou nas opções que tomei e na forma como tenho encarado a vida profissional.
Ao contrário de algumas pessoas que encaram o trabalho como um frete e que usam todos os estratagemas para trabalhar o mínimo possível (e tenho no meu círculo de amigos e familiares algumas pessoas que o fazem), eu sempre encarei o trabalho como uma componente indispensável da minha vida.
Mesmo em casa, gosto de trabalhar, de limpar, de arranjar, de fazer coisas. Trabalhar para mim é manter o motor da vida a funcionar.
Tenho tido a sorte de passar incólume pelas muitas reestruturações que levam a rescisões e tenho acompanhado de perto a angústia de quem teme perder o trabalho e baixar o seu nível de vida. Não têm conta as pessoas que de mim já se despediram, frequentemente em lágrimas, por terem aceitado uma rescisão amigável, com indemnização, ou por se terem reformado, algumas delas antecipadamente.
Algumas vão confiantes ou porque já trabalharam o suficiente e vão descansar ou porque se preparam para começar uma nova vida. Mas outras vão angustiadas, sentindo-se injustiçadas e muito tementes quanto ao futuro. Por elas, sempre sinto um aperto no coração.
Tenho contactado também com pessoas que trabalham em empresas de trabalho temporário e, de cada vez que trabalho com alguma, a minha vontade é poder continuar com elas pois penso que a insegurança de não voltar a ter um trabalho tão cedo deve ser terrível.
Apesar de algumas pessoas que conheço e que, por opção e rendimentos próprios, não trabalham me olharem como uma excêntrica por gostar de trabalhar, não me sinto como tal; mas também não olho com superioridade moral quem não trabalha por decisão própria, nomeadamente mulheres que, em tempo, optaram por ser, a tempo inteiro, mães de família e donas de casa. É uma opção que, face à minha maneira de ser, me custa a perceber mas que respeito até porque essa opção pode ter resultado de condicionalismos alheios à vontade ou de acasos que, de alguma forma, se conjugaram. E, de resto, trabalhar em casa, a tempo inteiro é certamente bastante desgastante.
O que penso, e isso penso com convicção, é que um país só pode ser bom se tiver condições de ser inclusivo para todos, para os que podem viver bem e para os que precisam de apoios. E, para que isso aconteça, o país tem que ter uma economia saudável, que gere riqueza. E, portanto, mais do que defender o trabalho por razões meramente morais, defendo-o por razões objectivas. É o trabalho, físico ou intelectual, que permitirá, antes de mais, manter em movimento a máquina do desenvolvimento.
Claro que o capital também é indispensável mas nunca o capital acima de tudo, e nunca o capital como princípio e fim de todas as coisas.
Nunca foram os trabalhadores que causaram malefícios ao país e a história recente, para os de memória curta, aí está para o provar. Opções políticas erradas, governantes impreparados, preponderância da ganância de uns poucos em detrimento do desenvolvimento económico, social e humano, isso sim, deu, por vezes, cabo da vida de muita gente.
Hoje, 1º de Maio, é o Dia do Trabalhador e eu fico feliz por sentir que agora, no meu país, os trabalhadores não são vistos como os bodes expiatórios de uma crise (que, ainda por cima, nasceu noutras paragens e teve origem na especulação financeira), ou uns oportunistas a quem é necessário restringir direitos. Hoje, de maneira geral, sente-se que há uma consciência que valoriza o trabalho, que respeita os trabalhadores e começa de novo a perceber-se que o futuro será um lugar bom para se viver se a dignidade de quem o constrói for sagrada,
Um dia feliz a todos os que trabalham, seja onde ou em quê, ou que já trabalharam ou que gostariam de voltar a trabalhar ou ainda os que gostavam de começar a trabalhar.
Não tenho novidades do Stephen Hawking. A verdade é que, mal acabei de escrever o post sobre quem parece fadado para não conseguir experimentar a felicidade, caí para o lado. Deve ter sido a profundidade do tema que me deixou arrasada.
(e eu devia agora incluir aqui um smile, três eheehehe e mais um lol para ter a certeza que todos percebem que estou a gozar -- senão ainda ficam a pensar que sou parva, como se acreditasse mesmo que aquilo que escrevi tivesse alguma profundidade).
Adiante.
Acordei com o meu marido a levantar-se do sofá, meio a dormir, e a ir para a cama. Mas ele tem razão em estar assim pois madrugou e, antes, ainda foi fazer uma caminhada. (Não estou eu já farta de confessar que gosto de malucos?) Mas, portanto, lá acordei. Arrastei-me até aos comentários para agradecer e agora, ainda patati-patata, apeteceu-me voltar a abrir uma página em branco.
Não que tenha alguma coisa para dizer porque não tenho.
Não tenho paciência para as cenas da CGD. Parece que fica tudo maluco quando o tema é CGD. Como é que é possível que alguém consiga gerir uma empresa, que é coisa que se rege por princípios racionais, com meio mundo a meter o bedelho? Era a mesma coisa que eu, lá no meu estaminé, fazer as contas para ver como manter lá uma cena qualquer equilibrada e saltarem-me em cima as temíveis manas Mortágua, o walking dead Láparo, a Cristas enxertada em kiwis, o Carlos César a reboque, e, pasme-se, até o ubíquo Marcelo -- todos a alvitrarem isto, aquilo e o outro. Havia de ser giro.
Está tudo mas é passado, oh caraças.
Manter um banco vivo e de boa saúde passa por geri-lo com seriedade, com sentido de inovação, e com os pés na terra (e as mãos, que se querem limpas, sempre à vista). Não passa por sujeitar cada decisão a plenário nacional.
Se há actividade que maior reconversão sofreu e há-de ainda sofrer é a da banca. De negócio de proximidade passou, sobretudo, a negócio virtual. E isto tem que ser encarado com pragmatismo. É assim e cada vez há-de ser mais.
Claro que nas aldeias, nas vilas, em lugares de população envelhecida, isso não existe, o que existe é o balcão e a pessoa que se conhece e em quem se confia. Então não vejo pela minha mãe? Ou somos nós que tratamos de alguns assuntos pela net ou é ela que vai ter lá com a amiga da CGD.
Só que a verdade é que não faz sentido manter um balcão em cada canto e esquina só para movimentar meia dúzia de contas e atender uma pessoa de vez em quando. Mais vale haver lojas de cidadão com pessoas disponíveis para ajudar na utilização de meios informáticos e que apoiem na consulta a saldos ou a fazer levantamentos ou depósitos.
E o que faz ainda menos sentido é esta histeria colectiva em que mergulham os políticos (de A a Z) de cada vez que o tema é Caixa.
Tirando isso não sei de mais nada. No telejornal, durante o bocado que vimos, só se falava de mortos, quer de mortos por acidente, por briga ou por doença. Depois ouvi a Ana Lourenço a perguntar sobre o aumento de capital já nem sei de quê, devia ser da CGD: 'e o que é que pode correr mal?. Parece que toda a gente se viciou na desgraça. Sobre um tema destes, um aumento de capital, a pergunta que lhe ocorreu foi aquela. Se eu estivesse lá e a pergunta me fosse dirigida acho que poria o meu ar mais sério e diria: 'pode vir uma onda maior e levá-lo' ou outra parvoíce qualquer que cheirasse a tragédia.
Mudámos logo de canal. Depois passei para a prostituição na RTP 1 mas, ou porque já estivesse com sono ou quiçá até mesmo a dormir, pareceu-me que a única que disse coisas interessantes foi a profissional do sexo. Os outros nem percebi bem quem eram. Isto do sexo ser discutido por gente que parece que nem sabe bem o que isso é nunca pode dar grande coisa.
Depois a televisão desligou-se e, embora tenha o comando ao meu lado, não me apetece ligar. Gosto é de ver programas sobre bichos raros do fundo do mar, ou expedições a aldeias perdidas no meio de inóspitas montanhas, ou entrevistas a pianistas ou pintores. Coisas assim.
Uma coisa engraçada que tenho para contar é esta: ontem, quando estava à porta a despedir-me da minha mãe, vi um vulto do além a fazer-lhe adeus e a dizer-lhe 'tudo resolvido, já as tenho aqui comigo, vou levá-las à serra' e apontou para qualquer coisa dentro de um jeep.
A minha mãe contou-me, então, que de tarde, um vizinho tinha visto vir pelos ares uma nuvem escura, uma coisa estranha, e que essa nuvem tinha ido para dentro do quintal duma outra vizinha. A medo e já suspeitando, o vizinho foi espreitar. Eram milhares de abelhas. Por sorte, sabia de um apicultor. E era esse apicultor, todo coberto, que eu ali tinha visto. Só tinha visto antes na televisão e nunca esperaria ver um ali, na rua da minha mãe. Chapéu, máscara, colete, mangas, luvas. Achei graça a ele dizer que as tinha apanhado a todas e ia levá-las de volta para a serra. As malucas tinham vindo dar uma volta à cidade.
E agora calo-me. Tenho em carteira mais uma coisa sobre a inteligência artificial e uma coisa qualquer que me ocorra sobre casamentos porque vi umas fotografias com uns vestidos de noiva mesmo ao meu gosto e estou até capaz de fazer uma dieta que me ponha com dez quilos a menos para caber dentro de um modelito assim para depois convencer o meu marido a renovar os votos, e isto só para o ouvir disparatar, até porque isso dos votos deve ser só para quem casou por igreja, o que não foi o nosso caso, e porque ele não tem o mínimo de pachorra para essas coisas (e eu ainda menos que ele).
Mas fica para outro dia. A ver é se no dia em que estiver para virada para esses temas esotéricos não me aparece o Marcelo a opinar sobre a pessoa que querem substituir no balcão da CGD de Alguidares de Baixo, coisa que, justamente, nem a dona leal ao coelho nem a dona galinha nem as manas amazonas acharão nada bem e isto para já não falar nas pessoas que serão interpeladas na rua por uma chusma de jornalistas exorbitantes e que dirão, para as câmaras, que fulano de tal é muito boa pessoa, sorri para toda a gente e que nunca antes ninguém tinha desconfiado que batesse na avó.
Mas, pronto, partindo do princípio que isso não vai acontecer, pode ser que eu, para a próxima, arranje oportunidade para falar de temas relevantes.
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As fotografias claro que não têm nada a ver com o assunto, estão aqui só porque gosto delas. Fazem parte das selecções das Fotos do Dia do The Guardian.
Lá em cima Benjamim Clementine interpreta I Won’t Complain.
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E, caso queiram conhecer três casos verídicos de quem nunca conseguiu relacionar-se bem com a felicidade, é só descerem um pouco mais.
De duas selecções, uma da Elle e outra da National Geographic, escolho algumas fotografias de 2016. Eu que gosto tanto, tanto, de fotografar (ao ponto de quase nem me apetecer visitar alguma coisa caso a não possa fotografar), vejo estas fotografias com uma admiração dupla -- e dupla porque as vejo como simples observante mas, também, como quem sabe o prazer supremo que se sente quando se sabe que se captou o instante preciso em que o que não era aconteceu, logo deixando de o ser. A magia do instante perfeito. Por vezes é o golpe de sorte, a intuição de saber que vai acontecer. Outras vezes é a persistência, o rigor, a elegância.
É, pois, com a devoção que os amadores sentem pelos profissionais excelentíssimos, que aqui partilho algumas fotografias.
Faço-me acompanhar por alguém de gosto muito, Benjamin Clementine. Tinha escolhido Adios mas depois não resisti e bisei o People and I.
Primeiro umas quantas pessoas conhecidas. Depois a natureza, a guerra, a animalidade, as aparentes excentricidades. Isto a juntar às duas que já ontem mostrei. Deliberadamente não vou colocar legendas para que as fotografias valham por si mas quem quiser poderá procurá-las através dos dois links que acima deixei.
Junto neste post -- e se calhar nem faz sentido fazê-lo mas paciência -- parte do que poderá muito bem ser usado como um índice arrumativo de livros.
No último dia do ano, quando comprei aqueles livros de que aqui falei, um cartão foi colocado no saco.
Li-o quando cheguei a casa. Trata-de de um belo cartão negro com letras em ouro velho. Livros Documenta / Sistema Solar, sendo que Sistema Solar é o nome da livraria (há duas, uma no Chiado e outra na Passos Manuel, ambas em Lisboa).
É parecido com o da fotografia (e só por preguiça é que não vou buscar a máquina para fotografar este que aqui tenho comigo).
Para além da bela fotografia do livro que acima vêem, podem ler-se frases extraídas de livros de Mário Cesariny. Transcrevo algumas (o cartão deve ter o dobro) pois parecem-me excelentes critérios para os arrumar.
livro de memórias livro de um burro
livro emprestado livro dos livros dos livros
livro ilustrado livro antológico
livro admirável um livro feito para adular
livro de versos um livro insólito
livros proféticos livro apenas impacientemente lido
livro jovialmente aberto está tudo nese livro
livros em alto voo planado um grande livro fechado
numerosos livros empilhados em livro eugénio e invulgarmente lilás
o livro que lhe cabe o Orador fecha o livro e foge
Acho que um dia destes vou esquecer os meus critérios banais e optar por estes. Tiro tudo das estantes e entrego-me a esta singular classificação. Só de imaginar, já estou a rir.
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Permito-me, ainda, informar a quem aterrou agora aqui que, no post já a seguir, poderão ver o que fiz para o almoço do Ano Novo. Como de costume não segue qualquer tradição e apenas pretende ser bom e fácil de fazer.
Esqueço-me frequentemente que o meu corpo tem limites que a minha mente desconhece e o resultado disso é que, volta e meia, tenho umas 'cenas'. Nada de mais, pelo menos até ver (noc, noc, noc - três vezes na madeira) mas há exames, análises, médicos, ou seja, maçadorias adicionais e, sobretudo, recomendações de repouso, repouso, repouso.
Hoje, de tarde, numa dessas incursões, estava eu no balcão da recepção e o sistema informático bloqueado, não conseguiam emitir facturas, aceder às agendas dos médicos, etc. E eu ali à espera. Mas, como estava sem pressa, não me fez confusão. E, sobretudo, às tantas comecei a ouvir a conversa de um casal que, encostado também ao balcão, perto de mim, falava com a que me pareceu ser a chefe do atendimento. Mesmo que não quisesse ouvir, ouvia na mesma dado que falavam com naturalidade. Ao princípio, eu estava distraída, reparando na aflição das pobres coitadas que ligavam e desligavam os computadores, que diziam umas às outras para experimentarem carregar aqui ou ali -- e nada funcionava.
Mas, depois, como aquilo não desenvolvia -- e ligaram para um técnico de informática que fosse lá com urgência pois já estavam fartas de fazer tentativas com ele do outro lado -- olhei para o lado e vi quem mantinha aquela conversa com a 'patroa' da recepção.
Era um casal talvez com uns quarenta e tais, classe média (a classe média portuguesa que é pouco mais do que remediada). Falavam do filho, agora com 19 anos. Que estava cada vez mais estranho, que não estudava, que dizia que não valia a pena porque depois não há trabalho, que passa os dias fechado no quarto de roda do computador, que ouve músicas muito estranhas (o pai acrescentava: pesadas; e depois contava que o filho lhe tinha perguntado se não havia nenhuma música com a qual se identificasse e que ele tinha respondido que não, e depois virava-se para a senhora da recepção e dizia: está a ver? Tem conversas destas, cada vez mais estranhas). A senhora da recepção fazia um ar compreensivo.
A mãe tinha um rosto de angústia e perplexidade e continuava: que ele se veste de forma cada vez mais estranha, que acha que não é gótico mas que é muito estranho, e aquelas músicas, tão esquisitas que quase dão medo. E que se tem apercebido que ele visita sítios muito estranhos na internet. Que não se interessa por procurar coisas úteis, só coisas estranhas que a deixam preocupada.
A senhora da recepção perguntou se não havia outros casos na família e a mãe do rapaz, num tom de voz mais baixo, disse que o pai há uns anos tinha passado por uma fase muito difícil e que isso tinha marcado muito o filho, e aí o marido encolheu-se nos ombros, quase envergonhado, fez que sim com a cabeça e disse: foi complicado, foi. A mãe continuou: e a avó também tinha problemas de nervos. A senhora da recepção fez um discreto e entendido sorriso: estas coisas são genéticas, muitas vezes são.
A mãe, com o rosto branco e derrotado, continuou: que já o tinham posto numa instituição mas que, quando ele fez 18, lhes disseram que, a partir daí, só se ele quisesse, que não o podiam ter preso. E que o filho não quis.
O pai dizia que já tinham marcado consultas mas que ele nunca ia. E que não sabiam se havia de ser psiquiatria ou psicologia. A senhora da recepção decretou: Psiquiatria - porque ele precisa de medicação. E que a psiquiatra depois é que havia de dizer se devia ter também acompanhamento psicológico.
Os pais perguntaram, quase a medo, quanto custava. A senhora da recepção perguntou se tinham seguro. Que não. Então explicou-lhes que tinham que pagar na totalidade. 90 euros a primeira consulta, porque é a mais demorada, e 60 (ou 70, não me lembro) as seguintes. Os pais entreolharam-se, preocupados. Depois a mãe perguntou: E tem que vir quantas vezes à consulta? Uma vez por semana? A da recepção disse que não, que até podia ser de 2 em 2 meses, que as de psicologia é que poderiam ser mais mas que isso a psiquiatra é que depois havia de recomendar, que até podia não ser preciso.
Aflitos, disseram: Pois, se for muito a gente não pode. Depois a mãe disse ao pai: Se calhar havíamos mesmo de ver isso do seguro. E o pai disse: Pois, temos que ir ver. Imaginei que deviam estar a pensar que um seguro também não é barato. E não é.
Mas marcaram uma consulta e que iam convencê-lo a ir, porque começavam a sentir medo do que ele pudesse fazer. E lá saíram os dois, esmagados.
Fiquei numa ansiedade. Imagino o sofrimento de ver um filho assim, de não lhe conseguir chegar.
Não sei se no Serviço Nacional de Saúde não haverá psiquiatras e psicólogos que façam um tratamento atempado e de proximidade junto de jovens que começam a derrapar em planos perigosamente inclinados. Se calhar não, ou se calhar não em número suficiente.
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Agora, ao percorrer os jornais online, leio que o autor do acto bárbaro na igreja francesa era um jovem de 19 anos que desde há anos era problemático, tanto que ainda andava com pulseira electrónica, e que quem o acompanhou no acto foi outro jovem talvez ainda mais jovem. Vi a foografia: pouco mais que um menino grande.
Jovens como Adel, perturbados, que se sentem desinseridos -- ou Ali, o outro jovem de 18 anos, que matou tantas pessoas em Munique e que tinha perturbações de foro mental, tendo conhecido o outro jovem que o teria acompanhado no ataque no centro de apoio psiquiátrico e que tinha como ídolo o doido varrido do Breivik -- são verdadeiras bombas-relógio com as quais os pais não sabem lidar e, como se tem visto, nem os pais nem as sociedades.
Adel Kermiche virou-se para o Daesh porque é o que está a dar, a 'onda' mais mediatizada, enquanto Ali andava obcecado com a matança de Breivik, tão mediatizada cinco anos atrás.
Vê-se as fotografias de ambos e o que se vê são putos, adolescentes, jovens a quem, certamente, os pais não conseguem compreender ou amparar.
Claro que no Daesh qualquer destes infelizes jovens caem que nem ginjas na sua estratégia de marketing já que nem têm que os treinar nem influenciar: estão, por eles mesmos, prontos para fazer maluquices a eito e por conta própria.
Por isso, uma vez mais o digo: mais do que andarem por aí a falar em guerras religiosas, a imaginar grandes complots, penso que seria bom que quem manda percebesse o problema grave, endémico e profundo que tem em mãos. O mal maior não está fora das fronteiras da Europa: está dentro. Há um sentimento de desenraizamento e desesperança entre muitos jovens e esses sentimentos, muitas vezes, são maus conselheiros. Em minha opinião, deveria ser planeado, com urgência, acompanhamento sociológico/psicológico/psiquiátrico a todos os jovens identificados como jovens de risco.
Deve também, de uma vez por todas, encarar-se o grave problema do tráfico de armas. Se em França ou no outro dia num comboio foram usadas facas já o rapazinho de Munique, se não estou em erro, tinha um arsenal bélico em seu poder. Adquirido na dark internet, ouvi dizer. Certo. A internet não detectada, sites a que não se acede pelas vias normais. Ok. Mas teve que as pagar e o dinheiro é físico, e sobretudo as armas são físicas, materiais, não são virtuais. Circulam. A toda a hora se houve falar em rixas que acabam em tiroteio. Parece que meio mundo tem armas.
Se estou a ver bem o que se tem estado a passar, nenhum destes atrozes atentados teve na génese o Estado Islâmico. Se bem leio a realidade, tudo se tem passado às mãos de europeus desequilibrados: um adulto jovem desempregado, em processo de divórcio, perturbado, outro que sofreu bullying em miúdo e que vivia fechado na adoração de mitos bélicos, outro que sonhava com guerreiros do deserto que degolam prisioneiros, mais ou menos, tudo nesta base.
O que a mim me parece, face ao que observo, é que estamos perante uma sociedade que não sabe interpretar a causa dos riscos, uma sociedade que gera líderes fracos como galinhas atarantadas, uma sociedade que explora até à náusea as desgraças sem as saber perceber e sem, sequer, perceber que a invenção de heróis que são uma espécie guerreiros do Daesh é um incentivo para adolescentes que não reconhecem outros 'idolos' que não os que as televisões e os jogos e filmes de guerra idolatram.
Nota: Comecei este texto refeindo uma conversa a que hoje, involuntariamente, assisti e derivei para o tema dos atentados. Contudo, não sei quais os riscos que tanto atormentam os pais que ali, por várias vezes, vi prestes a rebentarem em lágrimas.
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As imagens que usei são algumas das belas obras de street art que se podem ver em Lisboa e que, sabendo sou grande admiradora, Leitor a quem muito agradeço há dias me enviou. Poderão ver tudo aqui.
Lá em cima Benjamin Clementine interpreta The people and I
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira. ..