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domingo, julho 03, 2022

Luzinhas, amorzinhos, casinhas para passarinhos

 


Aquele pequeno prolongamento do terraço ficou muito bonito. Acolhedor. Ganhou vida. É agora um lugar onde é bom estar. Penso que uma das coisas que mais contribui para ser tão agradável ali estar à noitinha é aquilo que arreliou o meu marido. Agora já concede que fica bonito. São grinaldas de bolinhas brancas que se iluminam à noite. Funcionam com energia solar. Na sexta-feira, trouxe da loja um outro candeeiro que estava em promoção. Trouxe-o por cinco euros. O meu marido logo a torcer o nariz. Sendo quase cem por cento minimalista, assusta-se perante a perspectiva de ficar com os espaços transformadas em arraial. Mas não. Também sou um bocado discreta. Este consta apenas de uma bola branca, grandinha, talvez uns vinte centímetros de diâmetro. Pode ser o globo que encima um pé que se enterre no chão. Mas eu não usei o pé, limitei-me a pô-la encaixada num vaso branco. Quase parece uma mono-peça. Se não me esquecer, amanhã fotografo para vos mostrar. À noitinha ilumina-se e dá uma luz bem boa. Ao fundo do jardim também está uma grinalda de luzinhas solares. 

Acho uma graça, as luzinhas brancas que, de dia, nem se vêem e que, à noite, como que por magia, ficam luminosas.

Tenho cá três meninos a dormir. Jantámos lá fora e depois deixámo-nos lá ficar até já passar das dez da noite. Fomos conversando, eu penteando-a, ela penteando-me a mim, eu penteando o mano mais novo. Estávamos todos num cadeirão lounge comprido e largo. Obviamente que o urso felpudo não podia faltar. De vez em quando saltava para se ir pôr a ladrar ao cão da casa ao lado. Mas depois vinha pôr-se ali no meio dos meninos. O meu marido também esteve. Depois a menina esteve a pentear o mais cabeludo que se ia virando de um lado e de outro para ela o escovar bem.

Por volta das dez e tal, viemos para casa, vestiram-se para dormir, lavaram os dentes e ela juntou-se aos irmãos no quarto dos rapazes para ouvirem mais uma história da Margaret e do seu irrequieto cãozinho. Eles é que escolhem o tema. E eu desenvolvo. Margaret vai ao oceanário. Depois quiseram mais uma: Margaret no Zoo. Fartam-se de rir. O mais novo conta coisas suas a propósito do que vai ouvindo. Os irmãos mandam-no calar-se receando que se perca o fio à meada. Claro que o urso felpudo estava no chão, enroscado num canto, também a ouvir s histórias. É a encarnação viva do irrequieto e querido cão das histórias da Margaret. A meio de uma história, o mais novo disse: 'Gosto tanto dele. Vou dar-lhe uma festinha.' e levantou-se e foi mesmo fazer uma festa ao seu amigo.

Depois ela foi para o quarto dela e o dog de guarda foi pôr-se no corredor entre as portas dos quartos deles. Algum tempo depois acabou por entrar no quarto dela. Está deitado no chão, ao lado da cama. Ela ficou contente. É a orgulhosa madrinha dele e gosta de ver estes sinais de atenção por parte do seu afilhado.

Hoje está com as unhas pintadas de azul claro. Disse-me que é um verniz vegan. Não faço ideia do que isso significa. Mas é uma cor bonita e fica-lhe bem.

No outro dia, disse-lhe que tinha pensado, um dia que deixe de trabalhar, pintar o cabelo de cor de rosa  claro. Perguntei-lhe a opinião. Disse-me que sim, que acha bem. Mas depois acrescentou: Mas eu acho que preferia em azul. É cá das minhas, não se preocupa com a opinião dos outros, pensa pela cabeça dela. 

Teve notas altas, vários cincos e vários quatros. Mas a EVT teve três. Admirei-me pois adora desenhar e pintar. Perguntei-lhe que matéria deu para não ter gostado assim tanto. Disse-me: 'Perspectivas e assim'. Depois encolheu um pouco os ombros e esclareceu melhor. 'Prefiro o abstracto.' Achei um piadão. Nestas coisas, acho que esta miúda tem muito de meu. 

E hoje fico-me por aqui pois estes passarinhos acordam cedo. Hoje estavam cansados. O mano do meio foi finalista e teve nesta sexta-feira o seu jantar de despedida. Toda a turma e respectivos pais e irmãos. Foi festa até à uma da manhã, dança e brincadeira. Apesar disso, no sábado, praia com eles. Portanto, agora à noite estavam de olho gordo, mesmo com sono. Ela é que agarrou uma espertina das brabas. Diz que não sabe porque não dormia porque até estava com sono. Acontece. Mas estão habituados a levantar-se cedo pelo que mais vale que eu esteja preparada para me pôr em pé quando der por eles já acordados. 

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A beleza de viver

Rugas, linhas, cicatrizes - há muitas formas através das quais o tempo deixa a sua marca nos nossos corpos. No entanto, a cultura dominante teme envelhecer - somos instados a combater o processo de envelhecimento e muitos sentem-se pressionados a mentir sobre a sua idade. Mas, como disse Betty Friedan: "O envelhecimento não é a 'juventude perdida', mas um novo estágio de oportunidade e força".

Com a idade pode vir a confiança e a liberdade para perceber quem realmente somos. À medida que envelhecemos, desenvolvemos um tipo mais profundo de beleza que funciona de dentro para fora. É uma beleza mais autêntica porque irradia de dentro. Então vamos celebrar vidas bem vividas. E sintamo-nos com sorte por acordar todas as manhãs para apreciar o que o novo dia tem para nos oferecer.


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As casinhas de pássaros são algumas das que podem ser vistas no artigo Home tweet home: birdhouses designed by artists – in pictures e estão na companhia de Three little birds. O vídeo, como é bom de ver, é da Green Renaissance

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Desejo-vos um feliz dia de domingo

domingo, maio 15, 2022

Dicas para uma boa vibe.
Torne a sua vida ser um pouco mais feliz

 



Li um artigo com dicas para uma pessoa se sentir um pouco mais feliz. Shift your vibe! 60 quick ways to make yourself slightly happier. Li e concordei com quase todas.

Recomendo a sua leitura pois tem conselhos muito abrangentes e, acredito, eficazes. Contudo, aviso desde já: não recomendo a leitura deste post a filósofos, cépticos, pessimistas ou infelizes por vocação.

Pensei em trazer para aqui os conselhos do Guardian mas, se me pusesse a traduzir, nunca mais acabava pois 60 conselhos são muitos conselhos. Claro que poderia ir ao tradutor automático e já estava. Só que não é bem assim pois o tradutor volta e meia pontapeia a minha sensibilidade e, portanto, tinha que estar a rever e corrigir. Não me apetece. Estive a ver a Eurovisão (comecei a ver e achei que aquela gente parecia estar numa boa onda, a produção era espectacular e, não menos relevante, estava cheia de preguiça para fazer outra coisa). E agora é tarde.

Portanto, vou repescar algumas daquelas dicas ou acrescentar outras ou escrevê-las à minha maneira. 

Caminhe todos os dias

Não é preciso ser muito mas, se for, melhor ainda. Pode ser ir até a um parque e dar lá umas quantas voltas, pode ser dar umas quantas voltas ao burgo, pelo passeio, pode ser ir até à beira rio ou à beira mar, pode ser andar na montanha. Andar ao ar livre. Li no outro dia que, pelo menos durante 10 minutos por dia, a intensidade da caminhada deve ser razoável. Ou seja, pelo menos durante 10 minutos não andar a pisar ovos, em deambulação lenta e romântica. Chova ou faça sol, de chapéu de sol ou de chapéu de chuva, nada deve fazer-nos arranjar desculpa. Andar. Cumprimente as pessoas com quem se cruzar, de preferência sorrindo. 

Eu tento andar pelo menos durante meia hora. De facto, ando quase sempre mais do que isso. À tarde, se puder, ando quase uma hora. E agora com o meu amigo felpudo tenho motivo para andar também a meio do dia. Contudo, se for só eu e ele, este é sempre um passeio pequeno. Mal faz as necessidades, quer vir para casa. E eu, como tenho que almoçar e geralmente não tenho muito tempo, também não me importo.

Leia ao ar livre

Leia no jardim, seja ele privado ou público, na varanda, no parque, numa esplanada -- onde for. E se não há jardim ou varanda, coloque uma cadeira ao pé da janela e abri-la. Por vezes ler ao sol é difícil. Pelo menos para mim é. O excesso de luz, incomoda. Então agora descobri o antídoto perfeito. Uso um boné daqueles que têm uma pala comprida. Dá um jeitão.

Coma bastantes saladas e frutas

Frutas e saladas são uma fonte de bem estar. Em todas as minhas refeições como salada (alface ou canónigos ou tomate, temperada com azeite e orégãos). A fruta é o meu ponto fraco. Como mais fruta do que devia e isso não é bom, tem açúcar a mais. Começo o dia com uma banana, uma laranja, meio abacate. Depois a meio do dia como uma maçã. Depois ao jantar como um kiwi ou uvas ou morangos ou nêsperas ou o que for de época. E, se há tangerinas e me dá a fome depois de alguma reunião, lá vai uma. Não deveria. Deveria cingir-me a três peças de fruta. Mas gosto imenso pelo que abuso.

Veja arte, de preferência em galerias ou museus

É daquelas coisas que faz bem à alma. Andar por lá, olhar, ficar parado a observar. Se houver bancos, ficar sentado a olhar. Por causa da covid e agora por causa do dog, isso são hábitos de que tenho andado arredada. Mas tenho que arranjar maneira de retomar. Museu de Arte Antiga, por exemplo. Depois vir para o jardim, olhar o rio, ficar sentada a sentir o fresco. Ou Gulbenkian. Ou outro qualquer. Não podendo, navegue por museus virtuais.

Faça arrumações

Despeje gavetas e arrume depois, tudo bem arrumadinho. Arrumar livros. É bom arrumar. Ver que fica tudo organizado e mais espaçoso. É uma boa sensação. Se for preciso, lave a roupa que estava guardada ou ponha-a ao sol, arrume depois, tudo mais direitinho, mais limpinho e organizadinho.

Experimente ir a sítios diferentes 

Vá ao lançamento de um livro, ouça o escritor e o que os outros dizem dele. Se calhar é uma chachada mas não faz mal, ouvir gente que se acha é uma fonte de diversão. E, com sorte, pode ser interessante. Vá a uma conferência ao fim da tarde. Vá a um workshop de jardinagem, culinária ou maquilhagem. Vá a uma aula experimental de qualquer coisa. Inscreva-se num clube de leitura. Inscreva-se em aulas de dança. Ou seja, experimente, diversifique. Ouse.

Ouça reggae ou afins

No artigo to Guardian refere Country Music. Um estudo provou que quem ouve este tipo de música melhora a circulação e o seu estado físico. Contudo, para mim, se há coisa que me deixa automaticamente bem disposta e com vontade de dançar é aquela música toda ela boa onda que logo me faz lembrar Bob Marley. Podendo, é pô-la bem alto, abrir a janela e deixar que o corpo faça a festa. Dance, sorria, cante a plenos pulmões.

Invente um cocktail

Uma boa bebida, fresquinha, a olhar a paisagem e a ouvir música é do melhor que há. Se não é de bebidas alcoólicas não tem problema. Tenha uma água tónica fresquinha (ou uma água das pedras), tenha um sumo, misture outro, misture uma casquinha de limão ou de laranja, uma pedrinha de gelo. Ou uma folha de hortelã. Ou, gostando de um cheirinho, junte-lhe rum. Ou vodka. Ou gin. Um copo grande, uma bebida colorida, o olhar descansado a olhar coisa nenhuma. Relax. Feel good.

Faça umas tostas variadas e boas

Torre um pãozinho cortado fininho ou tenha tostas já compradas feitas. Ponha na mesa manteiga, queijinhos, compotas, orégãos, azeite, tomate, mel Misture. Saboreie. Coma com calma. Acompanhe com uma bebida boa. Tenha uma musiquinha boa a tocar. De preferência esteja na varanda ou, pelo menos, de janela aberta. Se tiver amigos que possa convidar para lhe fazerem companhia, melhor. Senão, fica para a próxima.

Esqueça as redes sociais

Viva o prazer de estar e ser sem ter que estar a partilhar o que está a fazer nem sinta curiosidade em ver o que os outros andam a fazer. Descubra o prazer das coisas em si. Desligue-se da opinião dos outros. Procure encontrar a felicidade por si, nas pequenas coisas.

Brinque e faça mimos a um cão (ou a um gato)

Se tiver um na sua família, melhor. Se não tiver, descubra algum amigo que o tenha e combine encontrar-se com ele. Se não, veja se descobre algum grupo de voluntários para passear cães. Ou veja se isso pode ser um extra ou um hobby na sua vida. Ter um cão, brincar com um cão, passear com um cão é do melhor que há. Se calhar o mesmo se passa com um gato ou com uma tartaruga mas isso não sei.

Aprenda a fazer arranjos em casa

Pinte móveis antigos, pinte vasos, dê vida nova a objectos velhos, aprenda a pendurar coisas, pendure um espelho junto às flores, transforme um copo numa jarrinha, arranje florzinhas (de verdade ou artificiais, mas bonitas), conceba recantos confortáveis na sua casa.

Abrace a vida

Queira ser feliz. Queira estar de bem com a vida. Afaste-se de pessoas complicadas e procure a companhia de pessoas que transportam a vida com leveza. Sinta-se agradecido/a por viver em paz. Aprecie os milagres da perfeição espontânea. Sinta-se com sorte e com a vida pela frente. Sorria. Abrace alguém. Deixe-se abraçar pela alegria de viver.

Etc.

Não vou continuar pois, com isto, já passa das duas da manhã. E os conselhos, vendo bem, poderiam ser infinitos. 

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As fotografias são da autoria de Kellie French
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Desejo um bom dia de domingo

quinta-feira, setembro 02, 2021

Peace in heaven

 


Já vimos os quatro episódios na nova temporada da Grace & Frankie. Já vi todos os episódios de 'A Directora' (estes só eu é que vi) e voltámos a The Crown. 

E voltámos às arrumações, ele à estante da tralha dele na despensa e eu ao apartamento. No meu caso, foi mais limpezas: varri, lavei, afastei móveis e sofás. Há um detergente branco com cheiro a sabão de que gosto bastante e que deixa no ar um perfume a casa lavada.

E fiz uma máquina de roupa que foi estendida como gosto: nas cordas que pusemos entre os pinheiros. Dá-lhe o ventinho e seca num instante, até parece que foi passada a ferro.

E deu-me uma ideia. Era para estofar duas bergères, talvez pintar-lhes as madeiras de branco envelhecido. Como estão, em madeira escura e com veludo cor de tijolo, não apenas têm um aspecto datado como, ali, no actual contexto, ficam com um ar pesado. A sala agora está leve e aquelas bergères destoam. E não seria barato modificá-las. Aliás, ainda não arranjei quem me fizesse sequer o orçamento. Pois, neste meu ímpeto transformador, levei-as para a salinha que fica na base da zona antiga da casa. Estão lá reunidos vários despojos e parece haver alguma unidade e harmonia naquela misturada. Ou seja, ficam bem ali. E a ver se arranjo agora umas mais actuais, mais leves, mais claras e mais confortáveis para colocar perto da lareira. 

Quando vejo a minha casa agora tão clara e luminosa com as portas, janelas e rodapés, tudo em branco, e a decoração mais leve, sinto-me tão bem. Parece que a casa traz alma nova a quem nela está. A mim deixa-me feliz. 

Vou vendo, de vez em quando, os mails do trabalho. Retirei as notificações no telemóvel. Assim, só vou ver quando me apetece e isso está a trazer-me uma paz de espírito considerável.

O dia esteve incerto e, de tarde, enquanto víamos a sonsa e cumpridora Lilibet a esfriar os ânimos à fogosa irmã e a ir na cantiga do enervante e eficiente Tommy, trovejava. Era aquele trovejar contínuo e distante que faz boa companhia e que faz desejar um chá quentinho e uma tarde à beira da lareira. Apenas choveu ao de leve e foi pena pois uma chuva forte viria a calhar. As terras estão secas.

Uma figueira grande, lá em baixo, morreu. Se calhar é normal. A vida, nas suas diversas formas, é finita. Era tão grande e tão vigorosa e, não sei como, este ano não nasceram as folhas e ficou com o tronco escuro e sem vida. Felizmente tenho muitas fotografias com ela. Assim, a sua existência poderá ser lembrada. O meu marido cortou-a. Se fosse há uns tempos, teria ficado doente de desgosto. Agora já vou aprendendo que, na natureza, é mesmo assim: morrem umas árvores ou umas pessoas e nascem outras. Não haveria espaço neste mundo para novas vidas se as antigas não lhe cedessem espaço e vez. 

Por exemplo, vejo pés de pinheiro a despontar por aqui e por ali. Há um viço intrínseco na terra, uma vontade de renovação. Não sei se os arranque ou se deixe ver no que vai dar. Por segurança, devemos obrigá-los a um distanciamento mínimo mas vou deixando andar. Não quero forçar ou condicionar o rumo dos acontecimentos.

Hoje, quando estava a andar, de dentro de um arbusto baixo, ouvi o som de um salto, um roçagar assustado de folhagem, uma corrida precipitada. E, no entanto, não consegui ver nada. Não faço ideia do que teria sido. Grande parte do que acontece é invisível. Tal como nas nossas vidas, parte do que há neste mundo está oculto, apenas percebido por quem se abeira de bem perto e com vagar suficiente para deixar que o mistério, a seu tempo, se materialize. 

Reparei também que as três grandes águias voltaram a sobrevoar o terreno lá em baixo, perto dos eucaliptos grandes. Andam lá muito no alto, voam em círculo. Tentei fotografá-las mas não consegui. São rápidas demais. Há vários anos que, de quando em vez, esta coreografia tem lugar. Não sei onde andam quando não andam a voar ali. Podem passar-se dias ou semanas ou meses sem que as veja. Quando as vejo é como se recebesse o atestado de que estou onde pertenço: aqui, in heaven.

Ah, já me esquecia. Estive também a embalar os orégãos deste ano. Há um mês e tal, talvez mais, já nem sei, apanhei braçadas deles. Depois abri um lençol (lavado, bem entendido!) sobre um sofá cama aberto no estúdio e coloquei lá os ramos de orégãos. Há nessa sala uma entrada de luz através de uma fiada de mosaicos de vidro. Portanto, a sala tem sempre luz indirecta, óptima para secar os orégãos.

Hoje trouxe o lençol para cima da mesa aberta da sala de jantar. Com o pano do lençol esfreguei os pequenos ramos uns contra os outros a fim de que as folhinhas se desprendessem. Depois, sempre em cima do lençol, fui limpando pontinhas secas, os pequenos pauzinhos secos que sustinham as flores e as folhinhas. Pensei que é isso que devem fazer os trabalhadores temporários que acondicionam as aromáticas. Um trabalho de paciência e atenção. A sala ficou perfumada de dar gosto, um perfume mediterrânico que tem dentro o sol e o amor pela terra.

Tinha vários frascos que fui guardando ao longo do ano ou de espargos ou de doce ou de mel. Enchi vários, de vários tamanhos. Somos grande consumidores de orégãos. E ofereço alguns com o prazer de quem oferece preciosidades. 

No estúdio, em cima da mesa da kitchnette, há um pequeno regador de metal pintado de amarelo onde estavam uns pés de alfazema já seco, quase sem cheiro. Deitei-os fora. Apanhei pés novos, com o perfume ainda bem activo. Juntei uns pequenos rebentos ladrões de laranjeira que têm um forte e fresco odor cítrico que muito me agrada. Juntei ainda um ramo de loureiro. Penso que o bouquet vai trazerr um perfume bom àquele compartimento.

Há tempos li sobre uma forma de fazer um perfume ambiente a partir de produtos naturais. Quero ver se encontro. Sou muito sensível a perfumes. Gosto de aromas frescos, limpos. Se conseguir ter a casa sempre com um perfume agradável a partir das plantas de cá melhor. 

Depois passei pela pereira e reparei que tinha umas quantas peras. Uma comi-a logo ali. Doce. Se não fosse pelo açúcar, poderia alimentar-me quase só de fruta. Figos pingo de mel, uvas dulcíssimas, moscatéis, peras macias, boas. A vida simples é uma coisa boa.

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As fotografias são algumas das melhores de The 2021 Comedy Wildlife Photography Awards

Bob Marley interpreta She used to call me Dada

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Desejo-vos um dia feliz

Tudo de bom: saúde, alegria, motivação

terça-feira, agosto 24, 2021

Dar à luz

 



No nascimento de qualquer dos meus filhos houve falsas partidas. Nasceram ambos no limite, às quarenta e duas semanas, de partos induzidos. Antes houve ameaços, contrações, idas ao hospital. No caso da minha filha, cheguei a ficar lá um dia inteiro a parecer que ia mesmo nascer. Mas não nasceu. O médico, pessoa em quem tinha grande confiança, dizia que achava que se deveria deixar a natureza seguir o seu curso. Nada me parecia melhor. 

Portanto, nos dois casos, esperámos até ao limite e, no dia acordado, apresentei-me para que, a bem ou a mal, as crianças saltassem cá para fora. Nos dois casos só soube o sexo depois de terem nascido. Era informação irrelevante. Seriam os meus bebés queridos, fossem o que fossem, fossem como fossem.

Nos dois casos fiz preparação para o parto e, nas duas vezes, fui convencida de que não me ia custar nada. Nem por um instante coloquei a hipótese de que poderia doer. Pelo contrário, o que combinei é que não havia anestesia por qualquer via e que cesariana só em último caso.

Não fui nervosa. Pelo contrário, irritava-me quando me diziam que doía. Achava que a dor era psicológica e que eu, encarando a coisa na boa, não iria senti-las. Mesmo na segunda vez, depois daquilo por que passei na primeira vez, tive exactamente a mesma ideia.

Contudo, as dores que tive, horas e horas de violentas contrações, o organismo em sofrimento absoluto, transpirando em bica, por fim verdadeiramente desesperada de dores, seriam para deixar marca em qualquer animal, humano ou não. 

Lembro-me de estar num estado tal, incapacitada de todo, que, quando se aproximou o momento da expulsão, a enfermeira me ter dito que tinha que me pôr de pé e ir para a marquesa que estava mais além. Eu disse que não conseguia. As dores eram dilacerantes, parecia que alguma força invisível estava a rasgar o meu ventre, a agarrar o meu corpo por dentro, a esmagá-lo. Não sei explicar pois, na verdade, nunca antes tinha vivido uma situação de tal impotência perante o fenómeno que estava a enfrentar. Chegou a um ponto em que notoriamente as dores estavam para além do suportável. Pensei que poderia acontecer qualquer coisa de limite pois o sofrimento que estava a sentir já não era compatível com a natureza humana.

Nessa vez em que a enfermeira me mandou andar e me disse que conseguiria, não sei como mas, na verdade, consegui. Encontramos forças onde não sabemos que existem. Fui, quase inconsciente de tantas dores, o corpo todo tolhido. 

Quem não passou por isso não pode imaginar. Não se comparancom dores musculares, ósseas ou traumáticas. É coisa de outra dimensão, uma violência profunda, um espasmo doloroso, visceral, integral, o corpo em carne viva.

Acresce que, por características de família, criança não queria descer.  Melhor: não conseguia descer. No meu nascimento aconteceu o mesmo, no da minha mãe idem. Já mão me lembro mas tenho ideia que são os ossos da bacia que, na altura devida, não dão o espaço devido. Não sei. 

O médico fez de tudo para evitar a cesariana, conforme eu lhe tinha pedido. Saiu com ferros, o médico a puxar para a frente, o meu marido e a parteira a puxarem-me para trás. Não sei como resisti, não sei como não desmaiei. Mal a minha filha chegou cá fora e ma puseram em cima dizendo-me que era uma menina, apaguei. Mas apaguei condicionalmente pois vinha a mim para perguntar se a menina estava bem. Diziam-me que sim, eu caía no vazio para logo de seguida voltar a mim e perguntar pela menina. Até que cheguei ao quarto e foi como todas as dores se tivessem evaporado e se iniciasse uma nova fase em que me ia entregar a ela, dando-lhe o meu leite, alimentando-a e enchendo-a de amor. 

Fui para o segundo parto com a descontração e inconsciência da primeira vez. Contudo, foi pior. Ele era enorme. No momento do parto, sentia-me como se estivesse a rebentar, dores insanas. O médico tentou convencer-me a ser anestesiada. Não quis. O médico disse que deveria ser cesariana. Não quis. Gritavam-me para eu não fazer força pois poderia rasgar o útero mas não era eu que fazia força, devia ser ele. Ou era todo o organismo, não sei. Dores, dores, dores.

Daria a minha vida por eles.

Achava que ao natural, sem anestesias, sem artificialismos, as crianças seriam mais saudáveis. E, por isso, por elas, eu deixar-me-ia despedaçar se necessário fosse. 

Hoje pensaria de uma forma menos linear: tantas horas de dores, de contrações, de brutal sofrimento, afectarão de alguma forma a criança? Sofre também? Estará num sufoco, apertada, quase sem respirar, quase asfixiada durante as contrações? Se a resposta fosse positiva, isto é, que sim, que a criança também sofre e que tanto sofrimento seria escusado se a mãe aceitasse abreviar e atenuar o sofrimento, certamente pensaria melhor. Na altura não me ocorreu nem ninguém me falou de tal hipótese.

Também não me ocorria que uma criança, mesmo que com meses ou escassos anos, tinha sentimentos e pensamentos como qualquer ser humano. Na altura, preocupava-me sobretudo que fossem bem alimentadas, bem higienizadas, bem tratadas, acarinhadas, as suas necessidades compreendidas e atendidas. Se interpretavam bem ou mal os meus gestos ou se sofriam psicologicamente com alguns dos meus actos isso não me ocorria. Tantas vezes debaixo da pressão de trabalhar e deslocar-me e atender as suas necessidades, quantas vezes terei deixado os meus bebés sem perceberem bem as minhas opções? Terão ficado neles marcas de que nem eles próprios suspeitam?

Não sei. 

Sei que queria (e quero e sempre quererei) que sejam felizes e saudáveis. Mas será que há um ponto de equilíbrio entre o que queremos a nível de saúde e a nível de felicidade e que, muitas vezes sem querer, sem nos darmos conta, estamos a desbalancear num ou noutro sentido?

E estes são apenas exemplos de uma coisa. Conheço algumas pessoas que dizem que, se fossem hoje fazer uma coisa, fariam exactamente da mesma maneira. Acham que isso é sinal de coerência. Eu sou o contrário. Talvez seja inconsciente, incoerente. Mas mudo, penso segundo outras perspectivas. Hoje talvez os meus filhos tivessem nascido mais cedo, de cesariana. Pelo menos não teria sido tão irredutível e não pensaria tanto no lado físico, dedicando mais atenção ao seu lado psicológico. A ciência avança e, o que parece de uma maneira, rapidamente deixa de sê-lo pouco tempo depois. Temos que ter a humildade de reconhecer que, por vezes, julgando que estamos a fazer o melhor possível, estamos a errar.

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E já não sei bem a que propósito vinha isto. Caí aqui no sofá e o torpor do cansaço tomou conta de mim. Adormeci várias vezes ao escrever. Estou in heaven. Viemos ao fim do dia, depois de reuniões que demoraram mais do que se tinha previsto. Depois, parámos ainda no supermercado. Pelo meio, consegui convencer o meu marido a desviar-se para irmos aos gelados. À chegada, tivemos que arrumar as coisas. Jantámos às dez e tal. A seguir não se encontravam os cabos da televisão. E não sabíamos onde estavam os lençóis. Tivemos que fazer a cama.

Com tudo isto a pesar-me, comecei a escrever com um objectivo mas, pelo meio, perdi-o e agora, depois das duas e meia da manhã, já não consigo pensar. Portanto, fica assim. Pode ser que alguém consiga descortinar onde é que isto ia levar ou se o texto, tal como está, pode existir por si mesmo. 

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As imagens são da autoria de Adrian Murray que, de forma tão terna, sabe fotografar os seus filhos. 

Bob Marley interpreta Three little birds

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Desejo-vos um dia feliz.

domingo, janeiro 10, 2021

Tudo é verdade e caminho
pelo que
don't worry, about a thing 'cause every little thing, gonna be all right

 


Tem estado muito frio. Quando fomos caminhar, estava cortante, A temperatura percepcionada era substancialmente inferior à temperatura real. Levei o meu chapéu de feltro, a minha gola polar, o meu casacão fofo e quente que já conheceu muito baixas temperaturas. Não sei quantos anos terá, seguramente mais de uma dúzia de anos. Sempre que há frio a valer, ele sai à cena. 

Não nos cruzámos com quem quer que seja. Por vezes sai da chaminé um odor a lareira. Alguns cães dão sinal à nossa passagem. Tal como nós já o fizemos, já praticamente não há enfeites de natal. No entanto, reparo que aqui, no móvel onde estão fotografias e máquinas fotográficas, ficou esquecido um pequeno pai-natal sentado. A ver se amanhã o arrumo. O natal já passou e, como se sabe, deixou um número absurdo de contágios e os hospitais à beira do estado de catástrofe, com os médicos a terem que decidir quem vai poder ser salvo. Assim é o mundo em que vivemos.

No telejornal da RTP 1, João Gouveia, médico intensivista, exemplar na contenção, falou no que poderão fazer para ampliar a capacidade hospitalar (por exemplo, ocupar os blocos operatórios ou as salas de recobro -- o que obviamente significa que muitas cirurgias não serão feitas durante esse período) mas que, a menos que haja uma quebra acentuada do número diário de novos infectados, o limite pode ser atingido a meio da semana que aí vem, com a necessidade dos médicos terem que escolher quem tem mais probabilidades de sobreviver. 

A seguir houve os debates e, a seguir, meio mundo avançou para os televisivos comentaderos botando douta faladura: se quem ganhou foi este ou aquele, se a Marisa, se o Tino, se a Ana Gomes, se o Ventura. se Marcelo, se João Ferreira, se um ganhou e o outro perdeu ou se perderam os outros, cada um dando seu palpite. Conversas gastas sobre conversas equívocas. Aparentemente grande parte dos candidatos não sabe quais as funções do cargo para o qual estão a candidatar-se. E cada um prepara-se tentando apanhar o outro na curva, apontando-lhe contradições. Tudo tretas. Imagine-se o que são horas de televisão em que pessoas que já andamos a ouvir há mil anos ocupam o espaço para nos enfadarem com comentários escusados, inúteis.

Sobre a situação de dentro de dias os médicos já terem que optar entre quem 'merece' ser auxiliado a viver e qual deve ser deixado à sua sorte é tema que passa ao lado de quem traça a agenda das televisões. Mas quase ninguém já vê televisões: meio mundo se entretém com as netflixes ou com os facebooks, instagrams e tretas desta vida.

Já se sabe que pessoas de Lisboa já estão a ser transportadas para outros hospitais. Também me faz impressão. Bem sei que as pessoas não podem ter visitas mas faz-me muita impressão saber que estão sozinhas e, ainda por cima, longe de casa, longe da família. 

Em menos de um ano de existência deste vírus em Portugal já aqui foram infectados quase meio milhão de pessoas e já morreram 7.700. E os números grandes relativos à óbitos, nas redondezas dos cem por dia, só agora é que começaram a apertar. Dizia João Gouveia: 'Significa que, quando atingirmos o ponto em que temos que fazer gestão de catástrofe, vão morrer mais pessoas'. Percebo: as que, apesar de todos os esforços, não resistem e aquelas que se decidiu que não valem o esforço. E escrevo isto com a mesma contenção com que ele o disse. Admito que os hospitais militares, os privados e tudo a que se pode deitar a mão já esteja mobilizado. À pergunta sobre o que mais falta, ele respondeu que os recursos humanos, em primeiro lugar, enfermeiros. Não se inventam enfermeiros. Qualquer país está dimensionado para uma situação normal, não para uma situação de pandemia. 

Entretanto, ainda não estou completamente bem. Parei com a medicação, já estava no limite do que é possível. Junto ao pescoço e às omoplatas tenho os músculos doridos. E continuo com muito sono. No entanto, durante a tarde não adormeci, estive a ler, a espreitar a televisão, a ver se conseguia dormir. A preguiçar. São dias muito frágeis, sem história.

Ontem ao fim do dia fomos a um sítio onde vendem vasos. Queria uma floreira rectangular, de pedra. Havia lá mas era tão pesada que os dois mal a conseguíamos mexer. Disseram-nos que a transportariam até ao carro. Mas e tirá-la do carro e levá-la até ao sítio...? Vi, então, um vaso de terracota escura, com um aspecto artesanal. Pensei que, se calhar, era caro. A funcionária andou de volta dele e não descobriu o preço. Colocou-o numa plataforma com rodas e levou-a à patroa. Veio de lá a dizer-me que custava vinte e cinco mas que a patroa fazia 50% de desconto. Claro que trouxe. 

E hoje estivemos a transplantar a bromelia. Está sob um telheiro. Terá muita luz mas não luz directa e, estando junto a outra, ficará relativamente abrigada. A ver se se dá bem. Fotografei-a depois da operação, antes de varrer, com o chão ainda sujo de terra mas depois de regar, como se vê pela mancha no vaso..

Andei também a pôr umas pinguinhas de água em vasos que estão debaixo do outro telheiro, não apanhando chuva. Se calhar apanham a humidade da noite e talvez isso seja suficiente mas não sei e não quero que fiquem sequiosas. Também andei a apanhar tangerinas, laranjas, um limão para pôr no bacalhau cozido do almoço e uma lima para amanhã fazer um chá. E andei a fotografar. Estas fotografias.

E apenas isto. Só mais os telefonemas. A minha mãe, aborrecida porque esta porcaria da covid a impede de circular por onde queria, aborrecida com o frio. Os meus filhos que passeiam o que podem, até às treze, com os miúdos. A minha filha mandou fotografias no parque onde andava dizendo que era muito giro e que haveríamos de lá ir todos e acrescentou: 'sabe-se lá quando'. Mas não há alternativa senão os que podem hibernar, hibernarem, trabalhando a partir de casa, tentando aguentar o máximo da máquina económica em movimento.

Acredito que com as vacinas e com as temperaturas a subir e, portanto, com mais vida ao ar livre, lá mais para Maio, Junho, as coisas possam retomar alguma normalidade. A menos que surja mais alguma má novidade, penso que é isto, mais uns quatro meses e estaremos de volta a alguma normalidade. A ver é como resistiremos até lá, nós enquanto pessoas e nós enquanto sociedades. 

No outro dia ligou-me um amigo. Estivemos à conversa e, às tantas, perguntei-lhe pela mãe. 'Morreu nos últimos dias do ano'. E ficou em silêncio. Eu também. Que coisa. A quantidade de pessoas que conheço a quem, nestes últimos tempos, morreu o pai ou a mãe... 

Quero ser optimista, é da minha natureza. Mas tudo isto e o frio e este afastamento é coisa que pesa. O meu filho hoje dizia que poderíamos ir passear para a praia. Pois podíamos, e se nós gostamos de praia. Mas junta-se este meu estado físico, ainda longe da minha forma física habitual. E tanto frio. Imagino o frio que deve estar na praia. Capaz de ainda vir de lá pior, sei lá, parece que não tenho vontade, receio piorar. Estivemos lá na antevéspera do ano novo, os miúdos até andaram em tronco nu, a brincar na água. Estava-se bem. Agora não se deve conseguir estar.

Enfim. Estou para aqui nesta conversa. Não se aproveita nada. Vou andando.


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Fernando Pessoa :: A morte é a curva da estrada / Por Natália Luiza

Cine Povero


Desejo-vos um belo dia de domingo

terça-feira, setembro 03, 2019

Nadar, fotografar. Candeeiros, calções e brincos de pérola chineses.
Trajectos filosóficos frustrados. E outros desportos náuticos.
[Os cus dentais ficam para mais logo]




O Verão agora começa em Setembro. Antes, em Maio ou Junho, assoma ao de leve e, nesses dias em que se anuncia, vem com força. Mas é apenas um preview, coisa breve. Verão a sério, do bom, é em Setembro. Uma luz indecorosa de tão límpida que é, um azul vibrante e omnipresente, um mar que chama por nós, afável, bom para mergulharmos nele, peixes em nossa volta, a pele num sossego, um entardecer suave, dourado, umas noites tépidas, boas para passear, para estar nelas.


No trabalho, tudo regressando, tudo a bombar e a gente nem aí, a gente assistindo de longe, a gente no bem bom.

Não há televisão, não há rotinas ou horários, o carro nem a gente se lembra dele, parqueado, em repouso. 

Bom mesmo é nadar. Entrar nas águas, entrar, ir andando até que é só um pequeno impulso para começar a nadar e ir. Nadando, mais ao longe as águas mais verdes, mais fundas, aquele cheiro bom do mar. E mergulhar. O corpo todo debaixo de água. Tão, tão, tão bom. 


Vejo agora, pelos títulos, que deve ter havido debate na televisão. Costa e Jerónimo, não foi? Na volta, pela cidade, já cheira a eleições. Aqui não, aqui só cheira a maresia. Por isso, não posso pronunciar-me: estou fora. Ontem também vi título com uma tiradinha do Marques Mendes. Certamente mais uma das suas abelhudices, coisa de chico-espertinho que mete o bedelho em tudo. Não retive: estou fora. Ou isso ou o arrufo, de verdade ou pseudo, entre o Costa e a Catarina. Tenho visto título por aí, gente a tomar posição. Não sei detalhes, não me assiste: estou fora. E também quase me sobressaltei com a perspectiva de uma snap election lá por terras da Sta Sua Majestade, terras daquela santa senhora que pode ver o reino desmoronar-se que não mexe um dedo, quanto mais uma palha. Mas não mergulhei no assunto: estou fora. Mergulhar só mesmo na água: ou no mar ou na piscina. Bom, mesmo bom. Sou bicho das águas. E às vezes da terra, das pedras, do regaço das árvores. Sou bicho, portanto.


Ah, é verdade: levei mesmo um livro para ler enquanto estava na praia mas não sei onde estava com a cabeça para achar que teria cabeça para ele (e sorry pela redundância da cabeça mas a falta de cabeça dá nisto, para usar o seu santo nome em vão). O solzinho bom a dar em mim, a aguínha boa a chamar por mim, os motivos a florescerem chamando pela minha câmara e eu... filosoficamente a ler o José Gil...? Está bem, está. Ainda tentei, ainda li salpicadamente umas quantas páginas mas naquelo registo vadio em que à segunda página a gente já nem sabe bem de que se tratava na primeira. Um desperdício. E a culpa não é do José Gil, atenção. Os seus Trajectos Filosóficos devem ser coisa fina, nada em que alguém possa pôr defeito. É minha a culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Amanhã tentarei outro, mais à medida das minhas limitadas circunstâncias.


A registar ainda um facto que, por sinal, é identicamente pouco épico mas não tem mal, é o que é. De manhã, antes de irmos para a praia, o meu marido disse que tinha visto uma loja de chineses numa das ruas a caminho da baixa e que achava que deveríamos ir lá ver se tinham candeeiros pequenos para agarrar ao computador. Queixa-se amargamente de eu, à noite, ficar de luz acesa, custa-lhe a adormecer.  Percebo. É sempre isto. Por causa disso, noutra vez, já se arranjou um desses candeeirinhos mas, como é bom de ver, esqueci-me de o trazer. Lá fomos. Duvidei que tivesse. Contudo, a chinesa, mostrando ser muito à frente, não desarmou: 'É USB?'. Dissemos que sim. Chamou um colega, falou-lhe em chinês e ele lá nos levou. E tinha mesmo. E dá boa luz, até tem duas intensidades à escolha. Tem é um problema: o cabo é minúsculo. Como não me apetece estar sentada à secretária ou ali no sofá ou, mesmo, num dos cadeirões, estou a escrever deitada, ligeiramente soerguida. Numa perna, que está flectida, o portátil e, na outra, aberta talvez a 45º. o candeeiro em equilíbrio, apontado ao computador. Uma ginástica. Mas ilumina bem o que escrevo e não interfere com o sono do meu companheiro de leito.

É extraordinário como estas lojas têm de tudo o que se possa imaginar. O que também sei é que andava a precisar de uns calçõezinhos brancos, que dão imenso jeito para usar com uma túnica ou coisa assim ligeira para a praia, já que os outros que tenho já estão muito usados, bons para usar é lá no campo quando ando ao figo ou a cortar mato -- e, já que ali estava, resolvi ir espreitar. O meu marido, como é fácil perceber, passa-se: 'Só visto, vens a uma loja de chineses no Algarve comprar calções?'. Pois comprei, sim senhor. Uma bela compra. Nove euros. Altura e largura certas, tecido levemente elástico, cós na cintura também elástico. Mesmo tudo no ponto. E, na caixa, outro achado. Estava ele já a pagar o candeeiro e os calções, vi uns brincos de pérola, pérola genuína, uns em cor-de-rosa e outros em azul claro. Um jeitaço. Um euro cada par. Hoje à noite já estreei os azuis. Lindos. 


Bem. Abreviando. Fotografo de gosto, estou nas minhas sete quintas. Fotografo os casais que passam, meu motivo habitual, fotografo momentos de ternura maternal, fotografo veleiros, velhos e novos, gaivotas armadas em patinhos -- tudo. E hoje pensei: vou fotografar actividades mais ou menos desportivas na praia. Pensei: desportos náuticos. Mas depois alarguei o âmbito. É o que aqui agora mostro.


Fotografei também outra coisa -- e as feministas que não me roguem pragas nem ranjam os dentes que isso me arrepia. O meu marido, observando-me sempre a ver através da lente, disse-me: 'Olha lá, um bom motivo para fotografares sabes qual é? Fios dentais. Para se poder eleger o melhor fio dental'. Penso que já deve ter dado para perceber que ele tem um lado bem safadão. Não machista, não senhor, que eu isso certifico. Simplesmente safadinho. Mas eu gosto dele assim, malandreco. Pareceu-me bem, a ideia. Não propriamente para eleger mas para glorificar. É que há corpos que, a descoberto, são obras de arte e acho que glorificar o corpo das mulheres nunca será de mais.


Mas, depois, derivou. O tema já não era 'fios dentais' mas 'cus dentais'. Volta e meia, estava eu a focar uma mãe a ajudar uma filha a equilibrar-se numa prancha ou uma gaivota a sobrevoar um veleiro ou um casal a passar e dizia-me ele: 'Cu dental à esquerda, junto ao chapéu de sol verde'. E, portanto, fiz fotografias de uns quantos.

Mas é o que vos digo: apesar de nada fazer, chego a esta hora e estou pedrada de sono. Por isso a ver se durante o dia publico a série de cus dentais que, entretanto, colhi. Hoje fico-me pelos desportos náuticos. Lato sensu, claro está. Tanto lato sensu que termino com a fotografia da bela nadadora-salvadora que, a bem dizer, se tudo correr bem não precisará de nadar para salvar ninguém. Mas, pelo menos, passeia a sua beleza pela praia e isso também me parece um desporto bastante meritório.



E até já. Bons dias de sol. 

[E, como bem vêem, até faço de conta que isto das alterações climáticas nem tal e coiso]

PS: Amanhã teno responder aos comentários e aos mails que tenho pendentes, está bem.? Agora não consigo mesmo, estou para lá de Bagdad,