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quarta-feira, outubro 25, 2023

Mosab Hassan Yousef, filho do fundador do Hamas, depois um dos principais agentes secretos ao serviço de Israel, diz o que pensa (e sabe) sobre o que está a passar-se
[E Yuval Noah Harari reflecte sobre a situação]

--- E a palavra ao grande Eugénio Lisboa ---

 

Nestas guerras sangrentas, somos todos vítimas. 

Mas as vítimas não são todas iguais.

Umas morrem, outras são violadas, estropiadas, roubadas, agredidas, humilhadas, ameaçadas, forçadas a ver o horror.

E depois há as que estão a ver de longe -- nós.  

Estamos no bem bom das nossas casas, perto dos nossos, livres de perigo. Somos vítimas mas vítimas numa escala que, de forma alguma, se pode comparar com as que sofrem com o corpo e com a alma a dor e o medo das guerras sangrentas. Somos, isso sim, vítimas da verdade, vítimas de manipulação a que diariamente estamos sujeitos. 

Perde-se a perspectiva histórica, opina-se sem se conhecer a total verdade dos factos, fala-se do que não se sabe. O pó que nos entra em casa através das televisões não cobre apenas os corpos ensanguentados: cobre também a verdade que nunca conseguimos, realmente, ver.

Como sou ignorante, tenho dificuldade em dissertar sobre tema tão complexo. Mas tento adquirir informação para conseguir navegar neste mar encapelado e com tão fraca visibilidade.

Nos dois vídeos abaixo, pode pôr-se legendagem automática para português (mas, se o fizerem, não se espantem com gralhas que são de gargalhada...).

Hamas leader's son who became a spy explains what Hamas really wants

Mosab Hassan Yousef, the son of Hamas' founder who later became one of Israel's top informants, speaks with CNN's Jake Tapper about Israel's war on the terror group and the situation in Gaza


Yuval Noah Harari & Rosemary Barton - Israel's war with Hamas


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Recomendo a visita e a leitura de um texto do Grande Eugénio Lisboa no qual me revejo em absoluto: 

Começo, para não haver dúvidas sobre aquilo a que venho, por dizer que condeno com a maior veemência, o comportamento arrogante, brutal e invasivo que Israel tem demonstrado, ao longo dos anos, para com os palestinianos da faixa de Gaza. Mesmo tendo em conta que Israel passou por períodos altamente perigosos, no começo da sua formação, quando foi atacado por todos ou quase todos os Estados árabes da redondeza, o que lhe terá criado um complexo de “excesso de resposta”, este excesso tem ultrapassado todas as linhas vermelhas de uma desejada proporcionalidade. 
(...)
O fanatismo só pode levar à destruição e faz pena ver uma certa esquerda a pôr-se embevecidamente ao lado de fanáticos religiosos, que os devorarão, assim que tiverem oportunidade. Por detrás destes está um país infernal, tirânico, retrógrado e misógino, que a esquerda – uma certa – não gosta de atacar, porque financia os delírios revolucionários de grupelhos mais ou menos genocidas. Dizia o grande Umberto Eco que “as pessoas nunca são tão completamente e entusiasticamente más, como quando agem em nome das suas convicções religiosas.” Ficam aqui estes avisos destinados àqueles que se referem sempre à triste tragédia do povo palestiniano, esquecendo-se de mencionar o HAMAS, como um dos encenadores dessa tragédia. Com Israel, sim. Juntos.

Peço que o visitem e leiam o texto na íntegra

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Desejo-vos uma boa quarta-feira

Saúde. Boa sorte. Paz.

quinta-feira, setembro 21, 2023

Dilemas sem solução evidente

 

Não posso dizer que o dia tenha sido dos mais tranquilos. As situações com a minha mãe vão ocorrendo mas aparecem-me, sempre, envoltas nos receios que ela tem e que, voluntária ou involuntariamente, não me permitem clareza de análise. Acho que já o referi (e talvez, até, mais que uma vez): tem mais medo dos medicamentos do que das doenças. Por isso, faz de tudo um pouco, para provar que não precisa ou que não pode tomar o que prescrevem. 

No outro dia um amigo médico enviou uma piada de médicos (não sei se sabem mas há milhares de piadas sobre médicos e doentes que os médicos animadamente trocam entre si). Nessa piada a que me refiro, um 'paciente' vai ao médico contrariado, apenas para fazer a vontade à mulher que acha que ele está doente. O médico prescreve uma coisa que não ata nem desata, apenas para o homem sair dali confortada e a mulher convencida. A verdade é que o comprimido provoca um efeito secundário que deixa o homem incomodado e o leva novamente ao médico. A seguir segue-se uma longa narrativa em que para tratar o mal que os comprimidos anteriores fizeram, o médico vai prescrevendo outros. Às tantas, o pobre 'paciente' já está mesmo doente, toma todos os dias dezenas de comprimidos e, ao fim de algum tempo, morre.

E, até porque, na realidade, a gente nunca sabe o que vai acontecer e porque, na verdade, a minha mãe é autónoma e independente e sabe o que faz e é senhora do seu nariz, nunca quero pressionar. Mas não é fácil. O meu lado pragmático, racional, objectivo, fica sem saber bem como lidar com estas situações com que me vou deparando. E depois, com alguma frequência, as decisões dela, baseadas (ainda que não conscientemente ou, pelo menos, não assumidamente) nos seus medos, não dão bons resultados.

Mas, enfim... Apesar de tudo ainda consegui dar um salto até à praia. Estava boa. Pouco sol mas temperatura amena. 

E tinha metido na cabeça levar uma toalhita, daquelas pequenas e ultraleves, para me deitar ao sol. Não sei onde é que estava com a cabeça. Mal a estendi na areia, a fera fez-se de lord e, imediatamente, deitou-se-lhe em cima. Pimbas. Tudo dele. Pensou, imagine-se, que a toalha era para Sua Excelência. 

Afastei-o, claro, mas fez-se de desentendido e o mais que consegui foi espaço para me sentar. 

Logo de seguida, levantou-se e, freneticamente, desatou a escavar à volta, enchendo a tolha de areia. Tive que me afastar para não ficar revestida a grãos de areia.

A seguir, quando apareceu água no buraco que fez, enfiou-se lá dentro. E depois, todo molhado, sacudiu-se. E depois voltou para a toalha. Ou seja, impossível refastelar-me. Estive de pé, pois claro. Portanto, aquele devaneio de estar a apanhar banhos de sol saiu-me duplamente furada.

Menos mal. Só de estar na praia já é bom. E caminhámos e fui à água. Mas se me molhei à gato, a minha valentia não deu para mais, não consegui coragem para mergulhar. 

Em casa fiz sopa e caldeirada. E telefonei. E estive a ler.

E, de concreto, para além do relatado, pouco mais.

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E que entre Jacob Collier, ao vivo em Lisboa, com  Somebody To Love

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E chamo a vossa atenção para este alerta (por favor carreguem no link para lerem o texto completo da autoria do sempre atento e sempre jovem Eugénio Lisboa):

Eça vai ter de dar muitas voltas, no túmulo, a tentar destemidamente evitar que lhe remexam nos ossos. E não vale a pena invocar a autoridade de eminências académicas, para justificar o injustificável: os textos e a vida do escritor falam por si. 

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Desejo-vos uma boa quinta-feira

Saúde. Paciência. Paz. 

terça-feira, setembro 06, 2022

poemas em tempo de guerra suja

 

E eis que me chega às mãos um livro de alguém que admiro e com o design elegante que caracteriza as edições Guerra e Paz. A capa é negra como é negra a guerra que nos ensombra e que aparece em grande parte dos poemas. Mas tem um círculo branco por entra a luz da poesia.

O autor é Eugénio Lisboa, o mais jovem, o mais irreverente, o mais brincalhão, o mais certeiro nas pedradas, o mais culto, o mais tantas coisas de entre os autores da nossa blogosfera.


Junto algumas fotografias que acabei de fazer a algumas páginas do livro (e peço desculpa pela má qualidade das imagens mas o telemóvel e a minha aselhice não dão para mais...) e que vou intercalar com a transcrição de alguns poemas e de uma observação (tudo em itálico).

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Receita para fazer uma guerra
Encontre-se um pretexto
     qualquer.
Dê-se a volta que um texto
     requer.
Cuide-se bem do contexto
     a rever.
Propague-se o hipertexto
     com saber.
Usar então o pretexto
     que houver
A guerra que está no texto,
     requer,
 ENTÃO,
bombardear o contexto.
     Morrer
estava previsto no texto
13.04.2022

Como se faz um Putine

Heil, Putine, que uma bruxa pariu,
em noite assombrada de segredos,
feitiços e mezinhas, e previu,
naquele monstro, só medos e enredos.

Heil, Putine, aborto malcheiroso,
cozido no enxofre do inferno,
em frenético coito ardiloso,
fazendo do planeta longo inverno

Heil, ó filho de coitas fedorentas,
lambido por demónio malformado,
farejando ruínas com as ventas

sujas de beber o famigerado
sangue dos que à vida já roubou,
feliz por ter feito quanto almejou

29.04.2022


Pergunta singela aos que persistem em defender Putine

Imaginem Rosa Casaco,
eleito nosso presidente!
Rimaria um tal velhaco
com um cargo tão eminente?

Mas ver eleito presidente
de uma Rússia tão augusta
este CAPA-Gê-Bê doente
não perturba nem vos assusta?

30.04.2022

Esta perplexidade é muito séria. Desde o tempo em que os nossos corajosos comunistas engoliam elefantes para justificarem as maiores atrocidades do regime soviético até aos dias de hoje, em que engolem hipopótamos para 'situarem correctamente' as acções de Putine, nunca deixou de me intrigar a dimensão dos seus esófagos e dos seus estômagos. Um verdadeiro caso de estudo.

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Poderia transcrever ou mostrar a imagem de muitos mais poemas deste livro tão oportuno, tão certeiro, tão lúcido, mas não seria boa ideia. O certo é adquirir o livro e lê-lo todo, de uma ponta a outra.

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Muito obrigada, Mestre Eugénio Lisboa.

terça-feira, agosto 23, 2022

Um coração que não sei se é real se é fake. Mandos e desmandos duma geração Z. E uma fera punk e muito fofa


Naturalmente que a excursão do coração do outro até ao Brasil me deixa beige. Para começar, não sei se alguém tem a certeza que aquela miudeza ali já com ar cozido e recozido já esteve mesmo dentro de um qualquer longínquo Pedro desta vida. Quem garante que aquilo não é fake, por exemplo coração de porco...? Não dizem que coração de suíno é tão bom quanto o de nós outros? Quem garante que não pegaram num e o puseram em calda, se calhar feito pickles para ficar mais descorado? Sim, quem garante?

Não digo que não haja por aí, algures, nalguma arca frigorífica ou nalgum cofre com recheio mal cheiroso, algum deslavado coração que seja mesmo o do outro mas eu, se fosse o guardião da real miudeza, não ia arriscar levá-la para perto do Bolsonaro e outros que tais. Vai que o Bolsonoro resolve mandar rezar missa cantada para o defunto coração? Vai que, numa dessas ou num nalgum daqueles comícios manhosos, o dito Jair deixa cair o frasco e a coisa se esparrama pelo chão. Vai que vai a passar um cão, pega a esbodegada coisa e abala a correr com ela na boca? Vai que nunca mais ninguém põe os olhos em cima do cão?

Não é que se perdesse alguma coisa mas isto há gente para tudo, gente com cismas, gente que gosta de guardar tesourinhos deprimentes. O que digo é que eu, se fosse a eles, mandava um coração fake quiçá enfeitado com uma coroazinha imperial, blink blink, para dar mais graça

E, por falar em haver gente para tudo, hoje, não sei a que propósito, veio aquilo do LGBTQ. Ninguém sabia o que era o Q. Indo-se ver, concluiu-se que isso já era. A coisa já vai num comboiozinho mais composto. LGTBQIA2S+. Nenhum de nós ali sabia a que correspondia tudo aquilo. Viu-se no google mas, nem assim, a coisa ficou clara. A realidade vai evoluindo e o nosso conhecimento dela vai ficando para trás. 

Para ilustrar este novo mundo, o mais velho exemplificou com algumas coisas bizarras, descrevendo comportamentos típicos de pessoas da sua idade. O meu marido disse: 'Este mundo está perdido, já bateu no fundo'. O puto concordou, disse que é a Geração Z, uma geração deveras marada.

E ele diz isso sem saber dos que fazem fila na rua para verem aquela miudeza já fora de validade, sem saber dos ildefonsos deste mundo, dos ideologomaníacos, das estátuas de pés de barro, dos malucos que aqui me deixam comentários ofensivos que atiro para o lixo, das beatas que não sabem a quantas andam e de todos os estúpidos que por aí pululam. Um mundo perdido.

Quanto ao resto não sei bem o que dizer. Tenho andado campestre, longe das mundanidades que por aí vejo comentadas. Nos intervalos trabalho. E vou pensando no que fazer: pinto as unhas de carmim? Ou deixo-me disso? Nem um pingo de verniz? Campesina de cabo a raso? E quanto aos olhos? Mantenho-os smoky? Sem rímel, sem nada que se veja? Tento o reverse eye liner?

Pois não sei. As minhas dúvidas são deveras existenciais. Consomem a minha energia, fico sem ânimo para me ocupar dos Mithás desta vida. 

Tirando isso, o que sobra é aquilo dos cães chorarem lágrimas de verdade. Dizem que é quando reencontram os donos que mais acontece. Acredito. Coisas mais fofas, mais amigas. 

Ora vejam o urso mais feroz aqui, derretido, nas mãos do mais crescido que se divertiu a pôr-lhe a melena à punk. Fofos.

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Desejo-vos um bom dia

Saúde. Uma vida longa e feliz. Paz.

terça-feira, agosto 02, 2022

Os mais qualquer coisa de entre os bloggers que sigo (Parte 1):
o mais jovem, o mais criativo, o mais romântico, o mais cirúrgico, o mais inesperado, o mais doido, etc.


O mais jovem. De longe o mais jovem. O mais irreverente. O que mais gosta de atirar pedras para o charco. Um que me diverte, me ensina, me chama a atenção. Um que seguramente se diverte enquanto escreve. Quase sempre, ao ler o que publica, me apetece transcrever aqui para ter a certeza de que, se quiser reler, o encontrarei. Depois não o faço, penso que seria deselegante. Mas hoje aqui fica o devido tributo. Acho-o o máximo, o máximo, o máximo.

[Ao fazer o link para a wikipédia e, logicamente, ao ler o que lá se diz, fiquei de boca aberta (literalmente aberta) ao saber de quem é pai. Não fazia ideia. Espantoso -- até por nunca tal me ter ocorrido.]

Eugénio Lisboa no De Rerum Natura

Hoje transcrevo aqui uns bocadinhos apenas para que se possa apreciar a suculência:

Se alguma coisa Fernando Pessoa viu bem, nos portugueses com que veio encontrar-se, no seu regresso de Durban, foi o seu profundo e não radicável provincianismo. Somos provincianos a admirar e somo-lo a não sermos capazes de o fazer, quando disso seja caso. Um prémio dado lá fora, um elogio vindo de fora, criam um verdadeiro histerismo nacional, como se fôssemos, de repente, o povo eleito. 

Já muitas vezes comparei a sobriedade com que o galardão Nobel é anunciado, recebido e comentado, na grande imprensa inglesa. Entre nós, com Saramago, foi aquilo que se viu. 

Para quem seja minimamente adulto, do ponto de vista intelectual, e esteja razoavelmente informado dos bastidores e da durabilidade das reputações dos laureados, o espectáculo da fúria admirativa lusíada é realmente confrangedor. 

Nunca vi, em França ou na Inglaterra, falar-se no “nosso” Nobel André Gide ou T. S. Eliot. Até seria insultuoso pensar que fora o prémio que lhes dera prestígio e não o seu mérito. O grande dramaturgo George Bernard Shaw não precisava para nada do prémio, porque já era uma lenda viva, na altura em que lho deram: quem precisava do prestígio dele era o prémio. Visto isso, até se deu ao luxo de recusar o dinheiro, aceitando, só por cortesia, o diploma e a medalha.  (...)

Tem-se visto isso com os vários gurus de serviço, como foi, por exemplo, a vergonhosa figura feita pela nossa intelectualidade, durante toda a vida de Eduardo Lourenço e, particularmente, por ocasião da sua morte. Aquilo não era admiração, era pura adoração bacoca. Fazerem de um homem que nunca foi filósofo o mais genial deles, na história da nossa cultura, tem que se lhe diga. Mas poucos, em Portugal, apreciam o grito “o rei vai nu!” (...)

in A POSTERIDADE DE ALGUNS PRÉMIOS NOBEL DE LITERATURA

ou:

Na sua coluna habitual, na última página, da última edição do quinzenário JL, Gonçalo M. Tavares refina na idiotice que usa as vestes sumptuárias de uma pitonisa cheia de segredos ominosos. As suas reflexões sobre a guilhotina, além de já terem vetustas barbas, alcançam, nesta nova formulação, uma densidade de tontice por decímetro quadrado de página, como havia muito não me era dado observar. E este senhor é publicado, patrocinado, promovido, premiado, prefaciado, traduzido, viajado e venerado. Não sei se condecorado, mas deve ser falta de informação minha. O nosso meio intelectual anda realmente a bater no fundo. A boa notícia é que, a partir daqui, só podemos melhorar. (...)

Poetas como Gastão Cruz, seduzidos por proclamações extremistas e carecidas de verdadeiro sentido, não perceberam estas coisas como não perceberam muitas outras e ficaram cinquenta anos agarrados ao excesso deliberadamente provocante de Mallarmé, pretendendo fazer poesia só com palavras. 

Seria bom que os nossos críticos literários, com tribuna oficial e responsabilidades acrescentadas, dessem um banho lustral às suas ideias e não andassem a vender gato por lebre, lançando a confusão nas jovens cabeças que os frequentam (...)

Toda a recensão está cheia de coisas confusas e sempre me pareceu que uma cabeça confusa não é o melhor equipamento para clarificar as ideias dos outros. Os nossos literatos têm de interiorizar, de uma vez por todas, que o opaco e o obscuro da escrita não são um valor, muito pelo contrário. A um literato deve exigir-se, tal como a um cientista ou a um filósofo, a boa fé das ideias claras. 

Já basta a obscuridade que muitas vezes habita na própria poesia, não se lhe acrescente a de quem a escrutina. Citando o nunca assaz citado António Sérgio, um eclipse do sol é uma obscuridade, mas a explicação científica desse eclipse deve ser uma claridade. 

Não há uma escrita literária e uma escrita de ideias, há só uma escrita.

in  PÁGINAS DE UM DIÁRIO POUCO COMPLACENTE

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A mais criativa. Talvez também a mais genuína. Do pouco faz muito. Há qualquer coisa de inocência e de muito íntimo em tudo o que publica. Há nela qualquer coisa de Lispector e de Helena Almeida. Gosto muito do que faz e gosto muito dela. Acredito que seja muito boa pessoa. Diz-se solitária mas desencanta nela e no que a rodeia sucessivos motivos de inspiração. Gosto imenso de a acompanhar. É uma lufada de ar fresco.

Gina do Dias de uma Grafómana

Poses

(Durante as férias)

Quis repetir uma pose que fiz em outras férias, as de há uma década. (link aqui) Já nessa altura imitei esta pose, havia visto algures alguém roçando os cabelos na água da piscina e, considerando giro pra caraças, imitei. Ora, este ano, imitei-me foi a mim, que o lugar é o mesmo e idem para o fotógrafo - O Luís, who else? - Entretanto, lá atrás, há post fotográfico com a foto, porém de corpo inteiro. Antes de a publicar idealizei que faria uma junção de quadradinhos azuis desenhados (desenhei-os para apagar as pessoas presentes na piscina, sei lá se quereriam estar presentes no blogue!) com os quadradinhos do interior da piscina, mas depois deixei-me de falas dispensáveis e toca de chamar simplesmente 'quadradinhos azuis à despedida'. - Pronto, sou deveras original. - Deixo agora a foto recente, mais aproximada do que a já publicada, bem como a que publiquei há uma década. Qualquer diferença encontrada, casual ou procurada, pois que, pá... Pára o mundo de girar? Não, né? Poi zé.

ou:

Pequeno-almoço

Chá de hibisco e torradas com manteiga, o pequeno-almoço. Às vezes parece que, escrevendo, retirarei a presença, e até a poesia, às coisas que vivo. Calo-me, então.

ou:
Cremes no rosto
Como sabem, e se não sabem não faz mal, eu gosto de vocês na mesma, tenho um creme de rosto que afinal até nem é creme nenhum, é um sérum, e oleoso, e eu tinha idealizado que o poria no nécessaire aquando das férias, a ver lhe acabava com o rasto e pâ pâ pâ. Pois bem, acabei, já até pus a embalagem no contentor dos plásticos. Guardei foi a tampa, que lhe estou a dar um uso para o qual não foi criada - o de servir de base e apoio para o desodorizante, que, estando de resto, virei ao contrário para o líquido escorrer e se manter always junto ao roll. Precisely, a tampa é redondinha, daí não se manter em pé e ao contrário. A imagem, o que tem a ver com o assunto já exposto, é que estava a distribuir o protector solar pelo rosto quando me lembrei que podia tirar-me o retrato e assim eternizar os pedaços de creme que haveria de espalhar. Pus o filtro que pus porque o retrato a nu é tão risível que não o aguento.


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O mais romântico. O mais subtil, o mais elegante no manuseio de palavras que acariciam, o que estende a leveza do traço ao desenho e à escolha das cores, o que destila com requinte as mágoas, as saudades, os sonhos. Também um cuidadoso coleccionador de instantes, de troca de palavras alheias, de troca de olhares. Alguém que, no acto de coligir, sempre encontra maneira de deixar perceber a atenção carinhosa com que observa os outros. Um romântico integral. Silencioso e sedutor como um gato. 

Xilre in Xilre


aceno
há instantes que pertencem às mãos, a elas apenas
[riscos: x.]

..........

beijos
há beijos feitos
de átomos de voragem
[riscos: x.]

..........
A semente
Todos precisamos de alguém a quem possamos realmente dizer a verdade quando nos é perguntado:— Como estás?
..........
Que és tu?
Comprei o livro no dia em que saiu sem ter lido qualquer referência, que os mergulhos em águas escuras são trepidantes também. Terminado no espaço de vinte e quatro horas, pergunto-me: terminou, de facto? Haverá sequela, haverá fecho em obra subsequente? «What are you?», se chama o livro de Lindsay Lerman, e idêntica interrogação se pode colocar quanto ao livro em si: o que és, «What are you?» Que objeto incompleto, inacabado és que nos deixas mais interrogações que respostas? Ao leitor são dadas pistas, indicações, sinais, mas não conclusões, sequer pontes entre os dados. Como uma impossível estante de montar à qual faltem prateleiras e uns quantos parafusos. Para leitores que querem ser co-autores. Para mim, talvez, assim me ache capaz de assumir tal responsabilidade sem o poder associado, a mais temível das condições, a que sempre evito, aquela que será difícil aceitar, para já.

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Nota

Se a algum dos três ilustres bloggers aqui festejados não agradar que as suas fotografias, ilustrações ou textos aqui tenham sido plantados, por favor diga-me, está bem? Retirarei logo que possível, prometo.

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E, por hoje, por aqui me fico. Se amanhã não surgir nenhuma emergência que vá além de tartarugas gigantes a bloquear o tráfego ferroviário no Reino Unido ou da suposição de que Trump enterrou a primeira mulher, a loura recauchutada Ivanka, no 1º buraco do seu campo de golf para ter benefícios fiscais e se, estoicamente, continuar a não ceder à tentação de dizer algumas coisinhas sobre o Presidente de todos os comentadores que comenta pecados de cardeais, bocas de uma senhora num restaurante da Caparica e outras inconveniências, aqui estarei para dar curso a mais umas quantas selecções. Boa matéria prima e ilustres candidatos é o que, felizmente, não falta.

Amanhã, se tudo correr de feição, falarei do mais cirúrgico, do mais inesperado, do mais doido ou de outros ainda melhores. E não quero dizer que sejam do género masculino: podem ser e podem não ser. O que são é especiais.

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Boa sorte. Paz.

quarta-feira, junho 05, 2013

'Por vezes, tento dar vida a essas plantas que morreram, deito-lhes a água das lágrimas antigas. Mas elas morrem de novo.'. Tempos de cinza, estes.


No post abaixo conto como, ao ver Nuno Crato a ser entrevistado pelo Paulo Magalhães na TVI 24, me recordei da visão aterradora que tive um dia, ao assistir à dormência e antecipada rendição de um ratinho que se deixou devorar por uma cobra. Tomara que os professores não se portem como ratos. Ou melhor que não se deixem devorar, que lutem de pé, de frente, sem medo. 

Mas isso é a seguir. Agora, aqui, a conversa é outra.


Música, por favor, ouçamos o chubinho do mar




Podia falar-vos da estranheza que é para mim pensar que o Diário de Notícias ou a TSF, tão portuguesas, com uma história que se confunde com a de Portugal nos tempos mais recentes, vão passar a pertencer maioritariamente a um empresário angolano, Mosquito de seu nome, que, pelo que percebi está nisto como investidor e não pelo amor à Comunicação Social.

Podia falar-vos também da estranheza que é para mim pensar que os CTT, uma empresa lucrativa e tão enraizada na sociedade portuguesa, podem (se ninguém travar este desalmado governo) passar a ser propriedade de uma empresa de transportes e mudanças ou, então, propriedade da empresa de correios do Brasil, uma empresa estatal, mais uma empresa estatal de outro país a ficar com uma outra das nossas maiores empresas públicas, imagine-se.

Podia falar-vos da estranheza que ainda me causa saber da perfídia de quererem publicar a lista de pessoas assistidas, dos que recebem apoios sociais, habitação social. Podia falar-vos do espanto que ainda me causa perceber que a atracção pela desonra destes seres que nos governam não tem limites. Podia falar-vos disso. 

Podia falar-vos da revolta que vai alastrando na sociedade perante tantas e tantas coisas estranhas e inquietantes, da violência que vai crescendo, uma violência surda, uma raiva. Podia falar-vos da angústia que sinto quando leio os comentários tão desalentados, tão sofridos, tão cansados, que vocês, meus queridos leitores, escrevem aqui neste vosso espaço.

Mas hoje não o vou fazer mais. As coisas concretas começam a assustar-me. É tudo tão assustadoramente mau e o mal alastra a uma velocidade tal e de forma tão sorrateira que me assusto. Não quero, pois, falar de coisas concretas. 




                                              Por vezes, tento
                                              dar vida a essas plantas que morreram, deito-lhes
                                              a água das lágrimas antigas, despejo sobre as suas raízes
                                              o álcool dos copos bebidos até meio, e vejo-as
                                              animarem-se como o rosto cuja palidez ganhou
                                              um fulgor de sol no dia de névoa. Mas
                                              elas morrem de novo; e recomeça a viagem, para
                                              que o vento da memória me obrigue a fechar
                                              os mapas que me deram, para nunca saber o caminho.


Quero procurar a abstracção, perder-me no infinito abstracto, ignorar as muitas dimensões do espaço, deixar-me ir. Não quero ficar presa na mediocridade que alastra, não quero falar mais da leviandade impiedosa, da maldade gratuita (ou pensada - não sei). Juro que não quero. Hoje quero ir à toa, quero ser levada. Que passe por aqui um anjo ou um pássaro ou um sonho e que me levem por umas horas. 

Vou abrir a janela, esperar que um sopro me traga alguma serenidade ou me leve por caminhos que ignoro. Quero percorrer, na noite, os caminhos das palavras, quero que sigam o seu autónomo caminho, livres, leves.

Mas não é fácil. O peso dos dias prende-me o voo.




                                                              os jovens afastaram os velhos
                                                              e agora achincalham os velhos
                                                              Isto não fica esquecido
                                                              até a vossa juventude ser esquecida:
                                                              o que aos velhos fizerdes os vossos jovens vo-lo farão


Mas a incerteza que oculta a luz, os labirintos obscuros, os gemidos nas esquinas, o medo, o muito medo, tudo me prende o passo. 

                                                                                    O dinheiro nunca teve cor, mas agora
                                                                                    não tem mundo nem maneiras

A realidade é pesada. Teima em vir agarrar-se às minhas pernas, impede-me de abrir as asas. Tento afastá-la mas não consigo.

- Não. Isto não.

Não quero rostos de cinza, palavras velhas, lamentos sofridos, rugas e tristezas, esgares amargos, lágrimas - não quero.

Quero a largueza de um voo, a doçura de um sorriso, o calor de um corpo livre.

Mas não consigo.




Um abraço com risos, flores cheias de sol, esperança e bondade, inocência - quero tanto isso agora. 

Onde estão vocês, meus amigos, que não vêm agora até aqui para me levarem convosco por essa noite fora, pelos vastos céus, por caminhos limpos, por entre estrelas e palavras puras?

Onde estão vocês, meus amigos, que não entram por esta janela para me ensinarem a esquecer por momentos o negrume que cresce do chão?


*

Fico-me por aqui. Por mais que tente, hoje  não consigo escrever palavras alegres. Desisto.

As pinturas são de Ilda David. A música é composta e interpretada pelo talentoso Vasco Duarte Abranches e desejo que, de tão bela que é, tenha atenuado o negrume das palavras.

O primeiro poema é um excerto de 'Registo', de Nuno Júdice. O segundo é de Walther von der Vogelweide e é citado por Eugénio Lisboa. O último é um excerto de 'Os derrotados de Abril' de Luís Filipe Castro Mendes. Todos eles constam da última edição do JL.

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Relembro, embora não seja agradável: para lerem sobre o mamar doce da cobra Crato é descerem até ao post seguinte.

Caso queiram aligeirar um pouco o ambiente, convido-vos a virem comigo até ao meu Ginjal e Lisboa, a love affair. Aí, pelas mãos do Poeta-Embaixador, escrevo sobre a noite de um certo Poeta. A música por lá é do mais desconcertante que há. Ou melhor, hoje nem é bem a música que é desconcertante: é a intérprete. Verão porquê.

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E, portanto, não conseguindo animar-me e não vindo vocês aqui dançar comigo ou conversar e rir, vou-me deitar.

Tenham, meus Caros Leitores, uma boa quarta feira. Saúde e esperança é o que vos desejo.