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domingo, maio 01, 2022

Falo do deputado totozeco apanhado a ver pornografia no telemóvel, antes do momento da votação?
Ou deixo-me disso e falo antes de um apartamento alugado muito bonito, muito bem decorado?

 

No que se refere a Neil Parish estou como o João: tanto fusuê por causa de uma coisa destas? O homem, enquanto no exercício das suas funções, andava à procura de tractores quando, naturalmente, foi parar a um site porno. Toda a gente sabe que quem diz tractor está na verdade é a pensar em ver como é que o bicho pega. Mas o Parish não sabia. Pasmou, olhou e viu. E, afinal, que mal tem? Quem nunca? Perante um tractor vagabundo quem nunca arregalou os olhos a ver se descobre que diabo se esconde ali?

Ora. Só santinhos.

Mas ele, o Neil, que é toryzinho e de lagriminha no canto do olhinho, confessa que, não esclarecido, foi lá uma segunda vez. Na volta quis ver modelos de pá levantada, modelos de pá de arrasto. Whatever. 

Só que aquilo ali, naquele parlamento, as condições não são as melhores. Tudo acanhado. Tem que estar tudo perna com perna. Hoje vi umas imagens em que uma senhora estava empalmada entre dois calmeirões. Para caberem os três, um tinha que estar de lado com o braço por cima dela e o outro encolhido tentando, mas não conseguindo, empernar com ela. Depois queixam-se de má conduta. É que não sei como evitá-la. Está bem que, se os parceiros foram horrorosos e mal cheirosos, ainda dá para se encolherem e fazerem de conta que não dão por nada, que estão ali só mesmo pelo penteado do Boris. Agora se são simpáticos e jeitosos, ali aconchegados uns nos outros, como evitar que role um climinha? 

Depois, claro, se algum outro da bancada da frente quer arranjar confusão, logo vai intrigar e pôr a rádio alcatifa a comentar que, em vez de estarem concentrados nas leis, estão é a medir a temperatura um ao outro e, nitidamente, se não rolou já pintou. E dali até soar que, entre aqueles dois, há ali má conduta não vai um segundo.

Pois bem, foi no meio destes amassos, uns aconchegados nos outros e os de cima logo ali em cima verem o que se passa na bancada de baixo, que o fofo do Neil se foi pôr a ver as habilidades dos tractores, e si cariño, si cariño, truca-truca, para a frente e para trás.

E agora, tendo sido apanhado naquela sua curiosidade inocente pelos colegas, tudo gente pura e pudica, caíram-lhe em cima. São os colegas, são as televisões e jornais, são as redes sociais: que não há perdão possível. É para a rua e é já. Andor.

E ele, tipo menino do coro, fofinho da sacristia, confessa que pecou, chora, todo ele arrependimento, diz que está a fazer sofrer a mulher e o que isso lhe custa só ele sabe, assume o erro, diz que foi um momento de loucura.

Não sei de que são acusados os outros cinquenta e tal, incluindo três ministros, de quem se diz serem também gente de má conduta. Terão posto a mão na perna do gordo do lado? Terão contado a anedota do macaco Horácio no intervalo de uma votação? Terão visto as capas do Correio da Manha? 

Não sei, não faço nem ideia.

O que sei é que parece que está tudo maluco. Não há explicação.

Portanto, com vossa licença, sigo para um tema em que ninguém me vai poder pegar: não tem a ver com pornô, não tem a ver com Putin nem com o Partido do Zê, não tem a ver com geopolítica nem com a ausência de cultura grega. 

Nada. Decoração pura e dura. Neste caso nem com arquitectura tem a ver. Só com bom gosto. A designer do ano lá da terra dela, a Sophie Ashby, foi para um andar alugado e fez dele uma coisa fantástica. 

Our Designer of the Year Sophie Ashby on decorating her rented Georgian house | Design Notes


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Desejo-vos um feliz dia de domingo
Vivam os trabalhadores e viva o merecido descanso!
E juízo nessa cabecinha. Saüdinha da boa. Paz a sério.

terça-feira, agosto 04, 2020

Little Birds
Post com bolinha encarnada no canto
[Histórias para serem vistas de olhos bem fechados]


Um dia ainda aqui falo daquilo da Purília. Mas tenho que estar mais fadada para a criptografia do que hoje -- hoje estou que nem posso, os pesos que já carreguei, senhores -- tem que ser coisa para não se perceber bem se conheço por dentro ou por fora ou se vi com os olhos abertos ou fechados. E tem que sair uma escrita metafórica, cheia de subtilezas, de claro-escuro, de mil nuances. Não direi de tules que isso é tecedura que fia mais fino, coisa que pede romance, quiçá poesia, suavidades muitas. Aquilo ali é outra coisa, é sacanagem mesmo, malandrice, pura gozação, experimentação de limites, sofisticação de faz de conta, coisa de baile de máscaras, de adrenalina, de pele, de loucura. Não de borboletas azuis a voarem dentro do peito. Mas, dizia eu, da Purília ou de outros carnavais não é hoje que vou falar. Hoje estou mais para a casca grossa, pão pão, queijo queijo.

Kind of.

“Sometimes, you can be turned on by things that you might be frightened to be judged for’ 
- Juno Temple em Little Birds
Fotografia: Dean Rodgers/Warp Films/Sky UK

Hoje falo de Little Birds, coisa ficcionada. Ou talvez não. Angela Anaïs Juana Antolina Rosa Edelmira Nin y Culmell, aka Anaïs Nin, tinha inspiração e experiência e, parecendo que não, sendo amante de Henry Miller, alguma coisa deve ter aprendido com ele, seja nas experiências de vida e do corpo seja nas de escrita. Se mulheres que escrevem são perigosas imagine-se a perigosidade se a escrita for erótica. E ainda mais se for pornográfica. Aí eu, um dia, ainda hei-de pisar. Mas com tempo para burilar o enredo, costurar a escrita com cuidado, com vagar, coisa quase chic. Mas não é de mim e desta minha secreta vocação que estou aqui para falar. Malandro que é malandro não se põe à esquina a anunciar. Malandro que é malandro está na moita e a malandragem aparece feita.

Portanto, que se façam anunciar os Passarinhos. Coisa fina, bem condimentada. Sabores do Mediterrâneo, do Norte de África. Sedução, calor, encobrimento, sombras.

Piu, piu. 

Little Birds




Mas que passarinhos são estes?


Até já

terça-feira, março 13, 2018

O abade prevenia que semelhantes teses e temas só deviam ser apresentados e discutidos a "determinadas mesas e com discrição" e, ainda assim, "mandando sair os criados".





Thérèse philosophe inspirava-se num caso célebre: o padre Girard, um jesuíta reitor do Seminário Real de Toulouse, fora acusado por Catherine Cadière, de quem era confessor, de a tentar seduzir. O padre fora absolvido pelo Parlamento de Aix, em 1731, mas numerosos panfletos repetiram e romancearam o episódio. Assim, Thérèse philosophe passava também a ser um roman à clef.


O padre Girard, Dirrag na ficção, usava os famosos Exercícios Espirituais de Santo Inácio numa desvirtuada acepção carnal, misturando sexo e sacrilégio. A mensagem era a desmontagem da dualidade corpo-alma e a disseminação de uma filosofia materialista. (...)

Para se ilustrar nestas matérias, Thérèse ia lendo na biblioteca do Conde, seu interlocutor, alguns clássicos da pornografia. No final, tirava as conclusões consequentes: a volúpia e a filosofia faziam a felicidade do homem sensível, que chegava à volúpia graças ao tacto e que amava a filosofia graças à razão.

Ao mesmo tempo que se desdobrava em experiências com vários parceiros -- padres, aristocratas, filósofos --, Thérèse ia referindo outros prazeres, para leitores que supunha da sua condição: vinhos de qualidade, como champanhe e bourgogne, e pratos raros e caros, como ostras. O gourmet, o filósofo, o libertino, juntavam-se na boa vida. O público alvo era, claramente, a sociedade dos salões. 

Já Diderot, Voltaire e Montesquieu, em La Religieuse, Candide ou Lettres Persanes, conhecendo a ligeireza intelectual do beau monde, seguiam a mesta receita, servindo a filosofia em pequenas doses, facilmente digeríveis pelas elites do tempo, como os petits pâtés anticlericais de Voltaire. Uma das personagens de Thérèse philosophe, o abade, prevenia que semelhantes teses e temas só deviam ser apresentados e discutidos a "determinadas mesas e com discrição" e, ainda assim, "mandando sair os criados".

Só os escolhidos deveriam ter acesso a estas verdades, pois, se conhecidas e partilhadas por todos, poderiam subverter a ordem social. Assim, a filosofia ilustrada era só para as elites, permanecendo o povo na ignorância e nas trevas da religião e da tradição, sendo preferível e desejável que assim acontecesse.



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Na sequência de Filosofia e Pornografia e de Um best-seller em 1748, este também é um excerto de Bárbaros e Iluminados, Populismo e Utopia no século XXI de Jaime Nogueira Pinto.

Kate Moss aqui é fotografada por Tim Walker

 Divna Ljubojevic interpreta Песма над песмама

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Um best-seller em 1748
-- Teses filosóficas intercaladas com descrições eróticas --




Um texto exemplar deste novo género, e um dos best-sellers da época, foi Thérèse philosophe, um romance libertino típico, em que os diálogos filosóficos acompanhavam os mais variados, sofisticados e rebuscados desvarios sexuais entre os dialogantes.

O título completo do romance é Thérèse philosophe ou Mémoires pour servir à l´histoire du P. Dirrag et de Mlle Éradice. O livro foi publicado em 1748, em pleno século das Luzes. A sua autoria deixa algumas dúvidas, embora seja geralmente atribuído a Jean-Baptiste de Boyer, marquês d'Argens, aristocrata e militar, protegido de Frederico II da Prússia. 

D'Argens era um escritor muito prolífero que se fixara na Holanda para poder livremente atacar a religião católica. Nos 40 anos que precederam a Revolução, o romance conheceu dez edições. Ao modo do tempo, apresentava teses filosóficas intercaladas com descrições eróticas, que a narradora, a tal 'Teresa filósofa', ia contando em jeito de memórias. O livro não tinha alusões políticas críticas -- apenas a religião católica e o clero eram objecto de ataque nas descrições de constantes orgias em bordéis e conventos. Thérèse philosophe inaugurou um género que, até à Revolução, iria contribuir decisivamente para pôr em causa, na sociedade francesa, sobretudo nos círculos do poder, nas classes altas e na burguesia de província, os valores e princípios cristãos.


O próprio Marquês de Sade havia de reconhecer os méritos do livro, que atribuía a d'Argens. (...)

Esta e outras obras chegavam ao público que as queria e as lia através de uma rede de cumplicidade de autores, editores, impressores, livreiros, funcionários e políticos.


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No seguimento do post abaixo, Filosofia e Pornografia, mais um excerto do livro Bárbaros e Iluminados, populismo e utopia no século XXI de Jaime Nogueira Pinto

Ilustrações de época de Thérèse philosophe

Hristos Anesti por Divna Ljubojevic

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Filosofia e Pornografia





As ideias dos filósofos e enciclopedistas, críticos dos pilares das instituições do Ancien Régime, a Igreja e a Monarquia, o Altar e o Trono, encontravam a sua divulgação através da literatura popular que, com o atractivo da proibição, circulava entre gente da classe alta e da burguesia de província, gente geralmente protegida de consequências repressivas pelo estatuto social.

Estas "obras filosóficas" tinham a característica de juntar uma linguagem e uma temática claramente eróticas, ou até pornográficas, e uma filosofia implícita de sátira e de crítica dos costumes tradicionais e da hipocrisia das classes dominantes, sobretudo dos religiosos que, reprimindo em nome da religião e da moral a liberdade sexual dos outros, a praticavam usando e abusando da sua condição.

Assim, estas narrativas assumiam uma natureza utópica nova, descrevendo um mundo ideal, em que os prazeres do sexo e outros excessos sibaríticos eram acessíveis e imediatamente realizáveis; um mundo sem transcendência e sem expectativas de trancendência, onde não havia limites religiosos ou éticos ao desejo nem à imaginação do desejo.


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Ilustração de George Brassens - La Religieuse

Volin Partita no.2 - Gigue - Arthur Grumiaux ( Bach )

Excerto de Bárbaros e Iluminados de Jaime Nogueira Pinto

segunda-feira, março 12, 2018

Quem é, afinal, estaTeresa?
Filósofa? Pornógrafa?


Eu estava na sala de espera do hospital. A minha mãe estava noutra cadeira, não ao meu lado. Quando chegámos já não encontrámos duas cadeiras juntas. De um lado, eu tinha um senhor que tinha ido acompanhar a mulher e que ocupava o tempo lendo uma revista e vendo o relógio de minuto a minuto. Do outro, tinha uma mulher muito feia que estava ao lado do marido, igualmente feio mas feio de uma maneira diferente. Ela tinha um nariz grande que a desfigurava e ele tinha um queixo comprido e muito mal feito. Olhavam, em silêncio, para a parede em frente. Noutro canto estava a filha, feia que só vendo. Com o nariz da mãe e o queixo do pai, uns olhos pequenos e ainda mais reduzidos atrás de uns óculos que nada a favoreciam, a jovem entretinha-se a fazer palavras cruzadas num caderninho.

A minha mãe estava nervosa e eu, por contágio, também um pouco enervada. Então tocou-me o telemóvel. Era o meu marido. Percebia-se mal, ali a rede era fraca.

Ouvi: Therèse Philosophe. Percebi que estava a ler. Ouvi: pornografia. Ouvi: filosofia. Pareceu-me que dizia que andavam de braço dado. Percebi: Therèse, mal comportada, querendo encontrar explicações para as suas dúvidas. Eu não estava a perceber bem mas, naquele lugar, também não podia colocar questões. Imagine-se se ali, entre o senhor que via as horas compulsivamente e o casal feio e silencioso, com a minha mãe quase em frente e a rapariga das palavras cruzadas por perto, eu me punha: Mas quê...? Não estou a perceber. Essa tal Teresa praticava pornografia ou dedicava-se à filosofia? Impossível. Haveriam todos de interromper o seu estado de alma para tentarem perceber qual a resposta a tão inesperada questão. De resto, nem estava a perceber se a dita Thérèse era alguma mulher de verdade, tipo Santa Teresa de Ávila, ou se era ficção. Ele leu um pouco mais. Com a rede a ocultar parte da conversa, ouvi falar em best-seller. Não compreendia nada daquela conversa. No meio dos cortes, ouvi também falar num tal marquês e em século XVIII. Entretanto, acabou a leitura e percebi-lhe o tom de voz irónico: 'Então, até já'.

Agora que estava curiosa, pedi-lhe o livro para ver de que se tratava. Pimbas. Não sabe. Não se lembra. Diz que deve ter ficado no carro. Mas tenho dúvidas. Depois disso já andámos com os miúdos no carro. Nem eu vi o livro nem eles. Se o tivessem visto, teriam perguntado que livro era aquele. Sempre quero ver. Às tantas, ainda o perdeu.

E eu aqui curiosa.

E, en passant, a interrogar-me: What's in a name?*
Parece que há qualquer coisa nas Teresas que as envolve em misticismo. Contudo, não raramente, um misticismo com alguma ambiguidade. Estou a lembrar-me, agora que escrevo, da magnífica Santa Teresa esculpida por Bernini. Aquele êxtase tem que se lhe diga. É mais carnal que espiritual, digo eu. 
Quanto a esta Thérèse Philosophe, querendo eu, à falta de melhor, ter aqui alguma coisa de concreto, fui ao Youtube -- e apareceu-me o vídeo abaixo. Do que percebo, Walerian Borowczyk fez este filme, Contos Imorais, do qual faz parte o conto em causa, Thérèse Philosophe. Extraio da sinopse:
Therese Philosophe' is set in the nineteenth century, and concerns a girl being locked in her bedroom, where she contemplates the erotic potential of the objects contained within it. 
Vi um vídeo mais longo (e mais impróprio para constar num blog de família como é este meu Santo Um Jeito Manso) mas penso que dá mais espaço a outros contos do que o vídeo que aqui partilho que, do que me parece, se centra mais naquele que aqui me traz. Fico-me, pois, por este.

Entretanto, se o bendito livro aparecer, talvez transcreva aqui a parte que o meu marido me leu ao telefone.


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* Já agora, se me permitem: 
What's in a name?



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segunda-feira, agosto 14, 2017

Mark Zuckerberg (o Conquistador puritano), o Facebook e os mamilos e... a fúria da mamã...


Kate Moss, aos 43 anos, para a W Magazine


É sabido por quem por aqui me acompanha. Não tenho conta no Facebook nem tenciono vir a ter. Não há ali nada que me atraia. Pelo contrário, os potentes motores comerciais que movem a máquina do Facebook são de uma perversidade que acho assustadora. Gratuito para o utilizador normal, o Facebook é, na realidade, uma base de dados de interesse galáctico e desregulado e uma plataforma comercial que usa informação colhida nas preferências e comportamentos das pessoas para divulgar produtos e serviços, para induzir tendências, para manipular preferências.

Jean-François de Troy (1679 – 1752) -  Le bain de Diane

Por detrás do que parece um simples mural no qual as pessoas vêm fotografias alheias ou sabem de peripécias dos amigos ou exibem o seu prato de salada bio ou o seu sorriso de boca aberta enquanto dizem cheeese ou ba-ta-ta, há algoritmos a fazerem o seu trabalhinho para que a pessoa veja em primeiro lugar o que o Facebook decidiu ou para que a disposição do que é mostrado induza a reacção desejada.

Para além disso, há o valor incomensurável da infinita base de dados que é alimentada a todo o instante com toda a espécie de dados pessoais. O que pode ser feito a partir da comercialização desta base de dados já começou a ser visto aquando das mais recentes campanhas eleitorais e que conduziram aos efeitos que quem contratou os serviços da empresa de marketing político pretendia: a vitória dos clientes -- num caso a vitória do Brexit, no outro a vitória de Donald Trump.

Lucas Cranach o Velho (1472 - 1553) -- A Justiça

Mark Zuckerberg tem apenas 33 anos e, embora o seu ordenado seja de apenas 1 dólar anual, é já o ilustre detentor de uma fortuna que o torna a 5ª pessoa mais rica do mundo. Comprando as empresas que se mexem à sua volta, destruindo a concorrência e aventurando-se por caminhos que fazem tremer os que já lá estão, o jovem Zuck parece não conhecer limites.


Ao mesmo tempo que as suas empresas acumulam riqueza como se não houvesse amanhã, ele e a mulher resolveram criar uma fundação, a Chan Zuckerberg Initiative, dona de 99% das acções do Facebook, cujo objectivo é  "to advance human potential and promote equality in areas such as health, education, scientific research and energy". Na prática, uma poderosa empresa filantrópica, tão poderosa que assusta.


Jean Auguste Dominique Ingres (1780 - 1867)  - La Source

As movimentações do jovem Mark são seguidas com preocupação por quem sabe detectar sinais de potencial alarme. Leia-se, por exemplo, na Vanity Fair, o artigo Is Mark Zuckerberg Killing Silicon Valley?:

The exact nature of Mark Zuckerberg’s ambitions are a bit hard to pin down. At 33 years old, Zuckerberg has already built the world’s largest and most powerful social-media network; devoured the advertising and media markets; is threatening to put Hollywood out of business; amassed a $73 billion fortune and pledged to give most of it away in what could become the world’s most ambitious philanthropic enterprise. In two years, he’ll be old enough to run for president, a prospect that is being taken somewhat seriously in Silicon Valley, where various sources have told Vanity Fair he wants to be “emperor.”

Only Zuckerberg knows if those two impulses—to dominate the world and to save it—are in conflict. In the meantime, however, the Facebook founder and C.E.O. is not hesitating to ruthlessly expand his business empire in pursuit of whatever master plan he has in mind. (...)

Giorgione (1478 - 1510) -- A Vénus adormecida

No meio disto, parece até ridículo o puritanismo do Facebook. Quem por lá navega já deve ter sido informado das regras mas, ainda assim, transcrevo o seguinte excerto:

Nudez 
(...) Eliminamos fotografias de pessoas que mostram os genitais ou que se foquem em nádegas completamente expostas. Também restringimos algumas imagens de seios femininos se estas incluírem o mamilo. No entanto, permitimos fotos de mulheres a amamentar ou a mostrar seios com cicatrizes pós-mastectomia. Também permitimos fotografias de pinturas, esculturas ou outro tipo de arte que retrate nudez. As restrições na apresentação de nudez e de atividades sexuais também se podem aplicar a conteúdo criado digitalmente, a não ser que o conteúdo publicado se destine a fins educativos, humorísticos ou satíricos. São proibidas imagens explícitas de relações sexuais. Também podem ser eliminadas descrições de atos sexuais detalhados nitidamente.
Tiziano (1490 - 1576)  - Vénus com o Organista e com o Amor


No outro dia, o MCS (de No Vazio da Onda) dava conta que a sua conta no Facebook tinha sido temporariamente bloqueada por lá ter colocado uma fotografia do falecido Serge Gainsbourg (1928-1991) num dia de farra -- e tudo porque a fotografia mostra que, nesse dia, algumas foliãs estavam de mamocas ao léu.


Provavelmente essa fotografia ainda não almejou alcançar a categoria de 'arte'.

Mas o que é arte? Quem decide o que é arte ou não-arte? Não há pinturas de um classicismo irrepreensível e nas quais almas moralistas vêem pura pornografia?

Gustave Courbet (1819 - 1877) -- A Origem do Mundo

As imagens que aqui partilho -- com excepção da primeira que é, ela própria, um clássico entre as fotografias de Kate Moss -- as restantes são pinturas a que nenhum idiota ousaria negar a exibição. Contudo, algumas ou algumas deste tipo não podem ser expostas em galerias ou museus americanos por haver quem considere que ofendem a moral e os bons costumes.

O blogger, ferramenta da Google, que eu saiba, ainda não restringe a partilha de imagens com mamilos, nádegas ou que exprimam actos de amor (tanto mais que as disponibiliza no Google Arts & Culture).


No entanto, tendo recebido por mail um vídeo engraçado ('Embaraçoso...' ou 'Não chateiem a mamã') no qual a protagonista, no fim, aparece em nu frontal, quis inseri-lo aqui via youtube e o que aparece já é a versão coberta. Aqui o deixo na mesma.

Tudo é subjectivo, claro, mas o puritanismo e o moralismos nunca foram bons conselheiros e, em nome deles, grandes patifarias têm sido cometidas ao longo dos tempos. O que seria normal seria que as mentes fossem evoluindo mas, como se vê, a regressão é que parece estar a fazer o seu caminho.


Que mal fazia ver-se o corpo da mamã?

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E, em pós-post, aqui fica como recomendação, a resposta a um comentário meu n'A Matéria do Tempo. Com o Fernando aprendemos sempre.

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Se não fosse por coisas, nomeadamente por ser avessa a selfies, despedia-me com um auto-retrato meu. Assim, despeço-me com o mais parecido que arranjei. Só me falta o gato.

Mulher reclinada e nua com gato -- Pablo Picasso (1881 - 1973)

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E uma boa semana a todos quantos por aqui passam, a começar já por esta segunfa-feira.
Be happy.

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terça-feira, setembro 27, 2016

Contra o stress, o tédio, a rivalidade e todas essas coisas maçadoras, peace and love
- ou como algumas 'esposas' selvagens sabem criar um ambiente em que todos vivem em harmonia
[Este post contém conteúdo sexual explícito. A partir deste aviso não poderão dizer que não sabem ao que vão]


Isto nem tem a ver com o debate entre Hillary Clinton e o pato Donald (Trump): é uma coisa geral. É dos livros, da tradição oral, do que queiram: com as mulheres ao comando tudo corre melhor.


Claro que há mulheres que são pérfidas, mesquinhas, enfernizadoras, etc. Dessas manda a prudência que se guarde distância. Mas não vamos agora deter-nos em casos particulares. Olhemos, sim, para o geral e imaginemos um mundo perfeito, sem dessas mulheres que são verdadeiras almas penadas e sem homens parvalhões, desses que acham que têm que se mostrar muito machos para verdadeiramente o ser. Imaginemos um mundo sem restrições, sem nuvens negras, sem vizinhas censoras, sem virgens ofendidas, sem beatas a granel, sem blogueiras carpideitas, comentadeiras a metro. Um mundo harmonioso, sem poluição sonora, visual, moral. Um mundo perfeito, sem tirar nem pôr.

E isto não é coisa saída da minha cabeça: existe mesmo.

Faço um intervalo para contar como hoje aqui cheguei. 

Outro dia dos valentes, mais de doze horas de seguida. Nada de muito violento, nada, mas o facto de não ter conseguir deixar a cabeça vogar pelo espaço sideral durante uns instantes, de vez em quando, cansa-me. Portanto, aqui chegada, depois de jantar e das lides domésticas, deitei-me no sofá, liguei o computador, acho que comecei a ver os mails ou os jornais online, nem me lembro. Só sei se adormeci profundamente. Acordei com os tlins de mails de trabalho a chegarem e, tal o sono colado a mim, nem me mexi. Que cheguem que, para mim, hoje já chega: amanhã também é dia. Abaixo os mails e os social-mails.

Depois, aos poucos, comecei a despertar. Mas, incapaz de me interessar pelas minudências da actualidade, pus-me a ler a National Geographic. E foi aí que dei com este título Wild Wives of Africa - Bonobo Love.


isto de mulheres selvagens já de si me parece um bom tema. Juntar a isso a boa onda dos bacanos dos bonobos pareceu-me logo o supra-sumo do bom gosto. Fui averiguar.

Enquanto ouço na RTP falar de Nella Maissa e de Brahams e ouço estudos, prelúdios e gente que fala de interpretações ao piano usando palavras que me agradam, vejo o que agora vou partilhar convosco. Isto, sim, é cultura.


E agora ponham os olhos no que abaixo vão ver: para que sirva de exemplo

[E não se esqueçam: o vídeo é impróprio para virgens assarapantadas ou assanhadas, de qualquer sexo]


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As fotografias de gotas são de Linda Biba.

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segunda-feira, setembro 26, 2016

Que desassossego em Lisboa...


Começo as fotografias deste domingo pelo desassossego. Lisboa está desassossegada. Se percorrermos os caminhos ribeirinhos, as obras são omnipresentes. Lisboa, entre o Cais Sodré e Alcântara, está virada do avesso. O perfil da cidade ao longo deste eixo vai mudar radicalmente. Os passeios, que já começam a estar prontos, vão ser larguíssimos, arborizados, vai haver também uma linha de árvores a separar as faixas, as vias estão a ser estreitadas, os jardins e largos estão a ser redesenhados. Tal como o percurso entre o Terreiro do Paço e o Cais Sodré foi mudado de uma forma que trouxe instantaneamente as pessoas para a beira do rio, também estas novas alterações vão, certamente, tornar a 24 de Julho deliciosamente degustável.

As pessoas que por aqui passam todos os dias inquietam-se (para já têm razão: chegar a qualquer lado, passando por aqui, é um calvário!). Mas eu acho que, à parte estas dores de parto, uma vez as obras concluídas, vai ficar uma maravilha. A cidade está um desassossego, sim, mas cada vez mais bela, mais desfrutável. 

É certo que o preço dos edifícios por estas bandas está ao rubro, esta passou a ser uma zona premium. Por acaso, li há pouco no DN uma notícia que o confirma. Vejo isto pelo lado positivo: há cada vez mais turismo, há cada vez mais apetência pela reabilitação destes belos edifícios virados ao rio e o País precisa de tudo isto como de pão para a boca. E há a nova arquitectura que valoriza e moderniza ainda mais a baixa de Lisboa (e digo baixa porque Manuel Salgado, que tem feito em Lisboa um notável trabalho a nivel urbanístico, tem alargado a baixa, espraiando-a para a beira do rio).

De seguida, se o tempo me render, mostrarei uma série de fotografias que tentam mostrar a beleza de Lisboa neste suave domingo outonal.

Começo, pois, pelo desassossego. E, se pensam que vos vou mostrar obras, enganam-se. Mostro o desassossego mesmo. A bem dizer quase uma orgia. Vejamos.


Um prédio desocupado, grafitado.


E agora com olhos de ver, letra a letra:





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Este desenho cheio de graça passa-se na Rua do Alecrim, quase em frente da pensão do Amor e mesmo por cima da Rua Cor-de-Rosa, outra das ruas trendy desta zona da cidade -- o que ainda mais graça tem.



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E, não é por nada mas, já agora, que se achegue aqui Fernando Pessoa com o Livro do Desassossego



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Para as Linhas do Tempo queiram, por favor, descer até ao post a seguir.

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sexta-feira, agosto 12, 2016

O que é arte? O que é pornografia?
- ou o absurdo moralismo americano
[Medo.... Juro. Tenho medo dos moralistas, dos puritanos. Medo.]


Às vezes até me custa a acreditar no que ouço. Dá para conceber que as grandes estações de televisão americanas exerçam censura sobre a exibição de obras de arte? O puritanismo é tão radical e tão estapafúrdio que não lhes basta impedirem a visão de seios ao vivo (e de genitais nem vale a pena falar): não, até tapam ou desfocam partes de obras de arte. Mas não me refiro a obras ultra-realistas. Não. Refiro-me a Picasso ou a Modigliani. Imagine-se onde isto já chegou.

E parece que já ninguém se indigna.

Pode uma das maiores potências mundiais, senão a maior, portar-se como um bando de beatas assanhadas?

Assusta-me isto, palavra que assusta. Quem tem tal espírito censor, é capaz de quê?

Podem os putos ir armados para as universidades, podem passar a toda a hora séries e filmes com assassínios, torturas, perseguições, sangue a jorrar por todos os poros. Isso para aqueles dementes parece ser normal. Mas a visão do corpo humano é interdita. É pecado. Provavelmente acham que ver os seios de uma mulher numa pintura provoca comportamentos desviantes. Mas se fosse uma virgem vestida até ao pescoço e de pistola na mão se calhar já era aceitável.

Que civilização é esta, caraças?

No vídeo abaixo, Stephen Colbert parodia a situação. E ao parodiar, denuncia-a. Vá lá. Menos mal: pelo menos, isso ainda é permitido.

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Ao menos por cá ainda nos é permitido admirar a arte integral, sem desfocamentos ou tapamentos. Pode gostar-se ou não -- estamos no domínio do subjectivo --, podemos até achar que não é arte. Mas, pelo menos, ainda podemos ver.

Ora bem. Antes que a lei da cega cesura chegue à blogosfera, deixa-me já aqui deixar algumas obras. 

Do fotógrafo Robert Mapplethorpe, cujo arte tanto admiro:






O sonho de Picasso, uma das minhas obras de eleição:


A obra censurada de Modigliani (a tal mulher nua de que Colbert fala, arrematada num leilão por 170 milhões de dólares):


Ou, se recuarmos a 1751, a François Boucher:


Ou ainda mais, a 1555, à Venus e ao Cupido de Ticiano:


Para se poder ver num canal por cabo nos EUA, tudo isto seria lancetado? 

Bem, talvez escapassem as flores. aquelas lá de cima de Mapplethorpe. 

Porque as de Georgia O'Keeffe já seriam, concerteza, amputadas ou desfiguradas.


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O mundo parece que está a andar para trás. 

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Pelo sim, pelo não, não vá estar mesmo e daqui a nada desatar a acelerar a caminho do vórtice final, vamos mas é fazer um brinde: À nossa! Saúde! E viva a Arte!

Se estiverem de acordo, brindemos com vinho italiano da região de Friuli.


Um filme de Iris Brosch.

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E que é feito do vinho...?
As meninas, com tanto folguedo, esqueceram-se de nos trazer o vinho, não foi...?
Ora bolas.

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domingo, outubro 18, 2015

Um dia da minha vida com mar e amores dentro - e a acabar com pornografia pura e dura [e, de permeio, com a Clara Ferreira Alves no Eixo do Mal, negativamente exaltadésima com a perspectiva de vir a haver um governo apoiado à esquerda - exaltada mas, atenção, sempre com aquele toque de superioridade que a caracteriza.]






Já o contei abaixo. Dia de mar grande, prateado, por vezes branco, cheio de luz, dia de chuvas e ventanias, árvores de cabelos ao vento ou reviradas, raízes expostas, pássaros em terra, pássaros no mar, pássaros alvos descendo das nuvens, e eu de olhos nus, lavados pela maresia, e as ondas imensas, espuma latejante pelos ares, mergulhando nos mares.

Gosto de andar assim, cabelos quase molhados, o vento percorrendo o meu corpo, os pensamentos à solta, e eu, sem mão neles nem em mim, andando, sentindo o frio molhado, as gaivotas rente à água, desenhando círculos de liberdade no ar e eu vendo-as, sentindo-me livre também, livre, sem sombras, sem peias, pronta para voar.
Foi de tarde, isto.

Enquanto transcrevia, há pouco, os poemas de Sophia, os meninos aqui ao meu lado dormiam, aconchegados uns nos outros, aquecidos pelo amor que os une, e uma manta macia cobrindo os seus corpinhos inocentes. Antes, depois de eu ter chegado da praia, tinham brincado, jantado, feito desenhos. Depois, mais à noite, contei-lhes histórias, invento histórias. Depois de muita luta -- que não queriam dormir porque os pais lhes tinham dito que não dormiam cá e eles tomaram isso à letra -- lá adormeceram. Encho-os de beijinhos, abraço-os, sento-os ao meu colo e o meu colo parece feito para acolher filhos, filhos de filhos, amores redobrados.

Agora já se foram, ao colo dos pais, a dormir. Os pais preferem assim. Nós podíamos ir para casa deles mas esta modalidade dá-lhes mais liberdade, chegam quando querem.




Antes - que os meus dias são grandes - já tinha estado em casa dos meus pais. A minha mãe bem, e eu a convencê-la a inscrever-se na ginástica, ou no yoga, ou no inglês que está meio esquecido, ou em tudo ao mesmo tempo. Lá em casa estava, de visita, uma amiga, viúva, com vários órgãos a menos mas muito activa, escorreita, sempre serena e feliz. Anda na ginástica e diz que vai com a minha mãe à inscrição para garantir que ela se inscreve mesmo, mas que ir para o inglês não, que já não tem paciência para a escola. Era professora na mesma escola que a minha mãe. Se a minha mãe tiver companhia, será mais fácil. Depois chegou o meu tio, contou que a minha tia vai começar a fisioterapia e que a minha prima começou a fazer ginástica mas que falta muito, sempre a correr entre o hospital e a clínica. Ele não, diz que lhe chegam os passeios que dá com o cão. Havia lá uns bolinhos que a amiga da minha mãe tinha trazido, trouxe-os de Vila Real, tinha chegado ontem, tinha ido lá de passeio, percebi que é um grupinho de ginastas, tudo gente destas idades, que se organiza para andar no laré. Diz que a minha mãe, depois, deveria também aproveitar para passear e eu incentivo. Mas a minha mãe não quer, não se sente bem em ir sabendo o meu pai em casa, naquela dependência, os pensamentos enovelados, entre a consciência e a confusão. Digo que não é por ela estar fechada em casa, de roda dele, que ele vai melhorar, e que ela tem que aproveitar a vida, distrair-se, fazer aquilo de que gosta. Mas ela vem sempre com aquilo, 'Achas? Achas que me apetece andar de passeio e o teu pai neste estado?' Digo-lhe que o meu pai está bem cuidado, que a senhora que agora toma conta dele sabe o que faz.
O meu pai trata-me, como todos na família, pelo meu diminutivo. Hoje chamava-me e dizia-me que estava com medo, que não queria ir para lá, que tinha medo de não conseguir voltar. Lá é a cadeira ao lado da cama onde a senhora o senta para lhe dar de comer ou para mudar ou arranjar a roupa da cama. Digo-lhe que não tem razões para ter medo, que está tudo bem. Mas sei que não está nada tudo bem. 
Quando venho de lá tento abstrair-me, e abstraio-me, tenho sempre tanto em que pensar.


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Um àparte. Tenho a televisão ligada, na SIC, e agora, ao olhar para lá, vejo um casal nu, em pleno acto, mudando de posição a cada minuto, um kama sutra ao vivo e a cores. Não sei o que é isto, se é um filme pornográfico, se quê. Na volta isto agora é normal e eu é que ando desfasada. Enfim. 

Com tanta modernice, um dia destes ainda o PS forma governo com o apoio do PCP e do BE - para fúria das Claras Ferreiras Alves desta vida, histéricas como a vi há bocado no Eixo do Mal, as veias do pescoço num transtorno, antevendo mudanças climáticas, falhas tectónicas, fissuras anais e toda a espécie de desgraças se isso vier a acontecer em vez de o PS servir de pau de cabeleira ao Láparo e ao Portas por mais 4 anos). Adiante.

Bem. Não acredito. Deve mesmo ser um filme pornográfico. Distraí-me com a escrita, não acompanhei a história. Só sei que agora está outro casal no maior forrobodó. Agora a cena é de sexo oral. À vez. Mas não é uma mera alusão, coisa velada, ou uma cena artística: não é mesmo uma cena hard. 
Pronto. A Sic generalista às 2 da manhã vira canal pornográfico. Será que é isto todos os dias? Ou só ao fim de semana? Ou alguém se distraíu e pôs a fita errada?
O que sei é que, com isto, me desconcentrei.
Olha, agora já são outros. É sempre a aviar. E eu, a escrever, nem consigo prestar a atenção ao enredo (porque me parece que a coisa tem enredo: acho que, entre as fornicações, os ouço a falar; na volta é Pinter, quiçá Shakespeare - e eu aqui, feita betinha, a desdenhar)
E tinha aqui um poema tão bonito para rematar a prosa. Bolas. Agora já não consigo, seria estulto misturar poesia com o que se está a passar aqui na minha sala. 
Que coisa esta. Claro que me poderia levantar e mudar de canal porque sexo com tatuagens, muitos ai-ais, muitos trejeitos e sem um pingo de normalidade ou vestígios de romance é coisa a que não acho grande graça. Mas, como estou já a acabar isto, não vale a pena, já desligo a televisão quando me levantar daqui. 
Deixa-me cá ver se encontro um poema que faça a transição entre a normalidade e o regabofe que para ali vai.



Cá está ele, um poema à maneira. Para terminar.

No amor o asno vê égua

o sentimento não interessa
amo-a porque é suave o encaixe das vértebras
o sentimento não interessa
amo-a porque
nariz debaixo da crina e
inspirar
parece que outras há com torrões de açúcar dentro do bolso.
não conheço. bolso estreito para nariz entrar
não conheço. Nariz grande para outra estreitar.

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Não vou rever o que escrevi, acho que saíu uma miscelânea disparatada. Por favor, relevem as gralhas. Amanhã a ver se tenho tempo para rever.

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As fotografias que escolhi não têm  muito a ver com o texto mas gostei tanto de fotografar o mar grande da Caparica que, tal como vos mostrei post abaixo, agora mostro de novo.

Lá em cima era, de novo, Kris Delmhorst interpretando Words Fail You que, também, não tem muito que ver com o texto; mas é que eu, ao começar a escrever e ao escolher esta canção, vinha com outra ideia em mente, podia lá adivinhar que ia derrapar para a conversa sobre os meus pais e que, para acabar em beleza, ia ter uma orgia aqui na sala...? Mas agora é tarde para me pôr a escolher outra.

O poema sobre o asno apaixonado é de Sónia Baptista em Tempus Fugit.

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Descendo, encontrarão mais mar e, a seguir, as fabulosas paragens de autocarro soviéticas.

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terça-feira, agosto 04, 2015

Pornografia?... Ná, hoje não... Fico-me pelos inocentes jogos de amor.


Depois do tema do amor e do vídeo do post abaixo, para me fazer passar por inteligente e superior às petites choses du coeur, fiz mais uma tentativa, a sério que fiz: percorri os jornais económicos, vi as aselhices fiscais do governo, todas as outras que são de todas as espécies e feitios, li sobre o pagode que são os cartazes do PS (e digo pagode porque aquilo mais me parece coisa chinesa, do tempo do Mao, para aí, uma coisa pirosa todos os dias), e percorri os jornais generalistas -- e nada -- e as revistinhas pink, tudo -- e nada -- tentando descobrir temas onde pudesse vir para aqui dar-me ares. Mas a verdade é que ou sou eu que estou desinspirada ou é o mundo que anda meio sem graça. 
Claro que há temas sérios, horrendos, mas desses eu só falo quando tenho sossego para rodear as palavras de silêncio. Por isso, espero sentir-me com a gravidade certa na ponta dos dedos para falar nisso e, não sendo hoje, passo à frente. 

Ainda pensei falar de obscenidades. Pornografia. Hardcore, coisa da pesada mesmo: cerca de meio milhão de euros o casório do Jorge Mendes e da sua bem amada Sandra, a ilha grega oferecida pelo Ronaldo, Serralves transformada em sala de baile para futebolistas, treinadores e suas bem arraçadas esposas, advogados e suas coloridas madames, as ruas do Porto cortadas para o grande desfile do dinheiro. Por exemplo. 


O rico casalinho: Jorge e Sandra

O Jorginho e a generosa Sandrinha, aqui à civil

Cristiano Ronaldo entre altas cilindradas e seguranças

Lobo Xavi€r e S€nhora - of cours€, as usual


Tanto que haveria a dizer se hoje estivesse numa de porno... Mas hoje estou mais para o romântico do que para a pornochanchada e, portanto, passo por cima desse happening jorge-e-sandra-mendista regado a milhões e volto-me de novo para o amor.

Mas, dissertar sobre o amor, hoje não, não estou muito fluente. Para falar a sério teria que ser científica, sistemática, e não estou a sentir-me com paciência para me manter no trilho do rigor e do bom comportamento.

Por exemplo, deveria compartimentar os diferentes tipos de amor ou as diversas formas de se manifestar: o amor das mulheres mais novas por homens com patine, ou de mulheres velhas por inexperientes pupilos ou de mulheres introvertidas por homens histriónicos ou vice-versa, ou de mulheres feias por mulheres bonitas ou de intelectuais de esquerda por beatos conservadores ou de homens machões por homens machões. Podia, claro. Até podia falar sobre o amor no ambiente de trabalho sobre o qual acabei de ler que é frequente e que até faz bem à conjugalidade (Flasher sur un collègue peut booster votre couple!). Mas não me está a dar para isso, estou preguiçosa.

Por isso, com vossa licença, abrevio razões e avanço para as fitas.


Jogos proibidos 

(cenas do Paciente Inglês)



Though it's forbidden for my arms to hold you
And though it's forbidden, my tears must have told you
That I hold you secretly each time we meet
In these forbidden games that I play


A liberdade sonhada

(cenas de Lady Chatterley)




O amor à solta

(cenas de A insustentável leveza do ser)




'Não beijo estranhos'

(uma cena de Closer)



Ora bem. Sim, senhor.

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Relembro que, no post abaixo, continua o climinha: amor.
Para que serve o amor? 

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira. 
De preferência com muito amor, muitos beijos, muito romance. 
(Mesmo que não saibam para que é que isso serve).

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