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segunda-feira, setembro 18, 2017

Outros luxos



Há alturas em que vagueio por entre leituras, sentido-me bem, apreciando o sabor das palavras, a elegância da escrita, contente por ter a sorte de gostar de livros.

Mas há outras em que, talvez porque mais predisposta, talvez por afortunadas coincidências, a experiência de ler é mais do que isso: é sinónimo de pura felicidade. Leio e sinto um envolvimento profundo que me transporta para aquele espaço indefinível em que a nossa matéria se dilui na felicidade de viver o momento.

De vez em quando, se o meu destino inclui a Gulbenkian no percurso, arranjo maneira de fazer coincidir um almoço rápido com uma ida à livraria. Mil vezes que pelo parque ou pela livraria eu ande, mil vezes me encanto como se fosse prazer inaugural. Desta vez o que trouxe de lá, para além da serenidade que o passeio por aqueles recantos frondosos sempre me proporciona, foi o Colóquio de Letras, Setembro/Dezembro 2017. 

Esta do Colóquio de Letras foi tema durante anos. Eu vinha de um namoro erudito. O meu namorado era todo artes e letras e eu, sendo naturalmente interessada por estes domínios, vivia imersa em informação, em revistas, livros, discos. Sendo ele pessoa muito dada à literatura, o Colóquio de Letras era uma lufada de arte, saber e ar fresco que consumia com avidez e do qual também me tornei devota. Ao começar a namorar o que viria a ser meu marido, todo ele de áreas mais exactas e concretas, falei-lhe uma vez no Colóquio e, para meu espanto, descobri que era coisa que ele desconhecia. Fiquei escandalizada. E ele deve ter achado o meu escândalo uma coisa disparatada pois, quando queria ridicularizar algum intelectual de pacotilha, acrescentava logo, 'ah... e não deve perder um Colóquio de Letras...'. Não me deixei abalar. Troquei de namorado, nada de mais, mas ao Colóquio de Letras mantive-me fiel.
No Colóquio gosto de tudo. A começar é o objecto em si. Agrada-me o design, a paginação, a qualidade do papel, o peso (é pesado, um compacto de luxo), o cheiro a tintas quando é novo. E gosto da selecção de temas, gosto do que lá se escreve, gosto do cuidado da feitura, gosto das imagens.

Mas este número é, de facto, especial: é um luxo. 


António Ramos Rosa e Herberto Helder. A poesia de ambos, a amizade que os unia, a correspondência trocada. A imagem das cartas, a letra deles, a insegurança de HH, o conforto que procurava junto do amigo, a palavra certa de ARR -- tão bom ler, ver, ter a poesia deles assim materializada.


E os poemas de ambos, poemas maiores, vozes a um tempo vindas das entranhas da terra, das entranhas da alma, da seiva das árvores, dos cavalos quando correm na noite, da seda das pétalas das rosas, do sangue das mulheres, da luz, das trevas, da imaterialidade do amor... O prazer de ter uma edição destas nas mãos, folheá-la, palpá-la, fechar os olhos e, ao voltar a abri-los, aquelas palavras ainda ali estarem, disponíveis, belíssimas.

Para acescentar ainda mais espessura à 'alquimia verbal da escrita de Herberto e à voz inicial de Ramos Rosa', as imagens de 'algumas peças da obra ao negro de Rui Chafes -- tal como Nuno Júdice o refere no Editorial.


Entretanto, este domingo, dia muito tranquilo: caminhada à beira rio, fotografias, almoço no cantonês, a aragem que faz dançar suavemente o arvoredo, as gaivotas, os veleiros, as cores doces deste fim de verão que já sabe a outono.


E, de tarde, um outro livro. Estou no princípio. Mesmo no princípio. E, no entanto, já lá estou dentro. Daqueles livros, pura literatura, em que as palavras nos levam pela mão. Bem sei, como no outro dia li a Javier Marias, que uma tradução é uma reescrita, a toada é outra porque a língua é outra, as subtilezas das palavras são, certamente, outras. Uma reinterpretação do original. Mas é uma tradução o que estou a ler (a cargo de Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues). Se calhar, se estivesse a ler o original, o meu maravilhamento seria ainda maior. Mas é em português que leio e é em português que falo do prazer que o livro, desde já, está a trazer-me. Chama-se Pedro Páramo e é de Juan Rulfo que o publicou em 1955.


Ler sentindo o toque das palavras

E estou aqui a escrever e com vontade de parar já para ir ler o livro. E há livros em que retomo no exacto ponto em que os deixei porque cada palavra conta -- e não são muitos autores com quem isso acontece. Neste sim. Neste livro não poderei perder palavra. Se calhar, quando a ele voltar, vou até reler a última página para ter a certeza que a cerzidura na leitura fica perfeita porque este livro não é um livro qualquer. Vou no princípio mas já sinto que é raro. Um luxo.

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Excertos de Pedro Páramo lidos por Juan Rulfo



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E, porque este post é também deles, poemas de António Ramos Rosa e de Herberto Helder 
(lidos por José-António Moreira)

O teu rosto



O amor em visita


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Fotografias feitas este domingo


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Abaixo fala-se de uma pessoa pouco recomendável pelo que deverão avaliar bem se é de vossa conveniência perturbar a alegria que as gaivotas vos estão a enviar

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quinta-feira, janeiro 19, 2017

O que tentam dizer as árvores




Se souberes o que dizem as árvores, talvez aprendas a dar sombra para que encostado ao teu corpo adormeça o animal cansado, e nos teus braços pousem aves cujo canto replicarás com frutos, tu já metamorfoseado no vital conhecimento da resina, da cortiça, das folhas caídas como células onde poderemos encontrar, assim tenhamos ciência para tal, a raiz que nos expulsou do paraíso. (...)


(...) Talvez se souberes o que dizem as árvores saibas também dizer vento, afagando a brisa com o pólen da flor que surde majestosa na ponte de cada um dos dedos inúmeros que uma árvore oculta. Tronco onde um dia cinzelámos o verso da única medalha que alguma vez nos foi atribuída, não por mérito nem por singela participação, mas por esforço em nos mantermos de pé e verticais como a árvore ensina.


O que tentam dizer as árvores
No seu silêncio lento e nos seus vagos rumores, 
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverência, a ressonância, a transparência, 
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve
integridade. 
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes. 
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus 
ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo.




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A música lá em cima é Dream de Turlough O'Carolan

Em prosa, parte do texto de hmbf, autor de Antologia do Esquecimento.

O poema (escrito) das árvores é de António Ramos Rosa

O poema lido por Tom O'Bedlam é "The Trees" de Philip Larkin

As fotografias de árvores são minhas e foram feitas este fim-de-semana.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um dia mesmo bom.

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sexta-feira, outubro 21, 2016

JV versus Bea


Duas mulheres falam da sua forma de sentir e viver o amor




E, como sempre fui completamente a favor de relações abertas, sem exclusividade, e crente de que é possível amar duas ou mais pessoas de forma igualmente poderosa, em simultâneo ou em momentos distintos da nossa vida, também não me custa a crer que alguém - Miterrand, no caso - tenha amado Anne Pingeot imensamente. 

Sou contra pensarmos que para amar alguém é preciso amá-la em exclusivo (e desde sempre tive a ideia de que aceitar uma relação aberta era dar o maior voto de confiança e amor a outra pessoa), mas para mim tem de ser tudo às claras: se há enganos, mal entendidos, uma (ou cada uma das várias mulheres) acha que é mais que as outras, mas na verdade não é, então esse "tudo" que cada uma julga que é, pode ser, afinal, muito menos que isso, talvez mesmo quase nada. [JV]
As relações humanas - e sobretudo as amorosas - são coisa muito complexa para ser ajuizada do exterior. O melhor é não julgar, quem as vive já sofre por vivê-las, não precisa de juizos; e isso mesmo que julgamos pode ainda vir ao nosso encontro.
Relações abertas e com várias pessoas em simultâneo parecem-me extravagâncias. Mas podem não ser. Talvez haja maneiras - difíceis - de existirem em coexistência. [bea]

Quanto às relações abertas, vejo-as com a maior naturalidade. É claro que quando penso em relação aberta não penso em alguém estar constante e perpetuamente à procura de novos companheiros de vida (tipo ter muitos namorados/namoradas), se bem que isso é um fenómeno em crescimento, por exemplo, no Brasil (paradigmaticamente, o poliamor, em que vários homens e mulheres partilham uma vida em conjunto). Não me oponho obviamente a nada disso, mas aquilo a que me referia quando falava em relação aberta era apenas à possibilidade de uma pessoa, mesmo estando numa relação séria com outra, ter sexo com outra (com quem terá maior ou menor grau de intimidade). Recuso a ideia de que estar numa relação implica dar a alguém o controlo e o exclusivo do nosso corpo, implica abdicar da nossa liberdade sexual, da possibilidade de, querendo, ter relações sexuais com outra pessoa. Em minha casa, nunca foi segredo que o meu pai teve relações sexuais com mulheres para além da minha mãe e nunca me passou pela cabeça que isso fosse algo que me dissesse sequer respeito, quanto mais pôr em causa o seu comprometimento com a família. [JV]

Serei antiquada. É possível. Mas tenho para mim que pior que ser conservador é fingir ser quem não somos. Portanto aí vai: 
Se quando fala de relação séria está a falar de amor mútuo, que tem condições de realização, digo-lhe que ele dispensa terceiros. Por norma não é sequer pensamento que aflore à mente. Mas há quem saia da norma. E quem saia até com alguma inteligência prática, como o dito arquitecto que refere. Ou, quem sabe, o próprio Miterrand. Se os intervenientes as aceitam, por que razão os outros não hão-de fazê-lo?!
Mas lembro-me de um livro de Gabriel Garcia Marquez, não sei precisar, mas parece-me que "Amor em tempos de cólera", em que o protagonista leva a vida apaixonado por uma lady. O que se passa com um e o outro durante a maior parte da vida amorosa dos dois, cada um para seu lado - e na maior parte do livro -, não macula o que, pelo menos no caso dele, os prende. Ele não se coíbe de ter mulheres, ela casa com outro, tem filhos, envelhecem ambos separados... e, no caso dele, é como se essa existência quotidiana seja qualquer coisa de paralelo, que não inibe nem incentiva. Porque está aquém. São dimensões diversas.
Não me parece que essa seja uma relação aberta. Era a que podia ser. Mas apeteceu-me contá-la. [bea]

E as pessoas são todas diferentes. No meu caso, daquilo que já descobri de mim própria, não consigo estar com alguém (sexualmente) de quem não me sinta próxima, a nível sentimental. Mas há quem separe as águas (sexo e amor) com grande facilidade, o que é mais frequente (ainda que não exclusivo) nos homens. Por isso, não acho que alguém ame menos outrem apenas por ter vontade (desejo!) de estar com outra. Se alguém se compromete a não estar com mais ninguém, é claro que fazê-lo é cometer uma traição, quebrar uma promessa. Mas isso é outra história: cada um é responsável por aquilo a que se compromete.

Quanto a ciúmes, também todos somos diferentes. E podemos ter ciúmes de um(a) amante, de um(a) amigo(a), do tempo que o nosso parceiro dedica ao trabalho, a um hobby, de um animal de estimação, etc. 

Por fim, não creio o cerne da questão relação séria(aberta esteja em ela "dispensar terceiros": com certeza que esse "sacrifício" será/é possível. E, para alguns, nem é sacrifício nenhum, porque simplesmente só querem estar com uma pessoa. Mas exigi-lo, exigir que alguém renuncie à escolha de estar com outra pessoa, que nos ofereça essa sua liberdade, parece-me quase uma brutalidade. E que, na verdade, não serve de nada, porque se alguém se apaixona por outra pessoa, não é por não estar ou não poder estar com ela que se vai desapaixonar (aliás, quase sempre o efeito dessa proibição será o inverso: estilo o fruto proibido é o mais apetecido). [JV]

Todos nós somos uns ases teoricamente e na prática grandes aselhas. 
Ninguém, suponho, exige fidelidade. Confia-se que ela exista. E cobra-se se não existe. Por ser uma quebra de confiança, a traição é um golpe profundo numa relação e no amor que lá exista. Pelo que representa. Mas também porque o pior de cada um, aquilo que o amor iludiu ou afastou, se expressa em força. Não é montanha fácil de escalar. 
E não vejo que Miterrand fosse assim um mentiroso por dizer a várias mulheres que eram o seu sol; se o disse em tempos diversos, por que razão não estaria falando verdade?! Quase diria que pertencia ao género amores seriados, se não fora manter a legítima cuja existia fora da seriação.  
Também não vejo o cristianismo com esse peso negativo. É verdade que não estudei a seita nos seus tempos iniciais, ma fiquei curiosa, o que a faz ser menos higiénica que outras? As relações de um para um continuam a parecer-me saudáveis. E, ainda que a promessa seja arrojada, é exactamente assim que ela é sentida na altura: para sempre. Não o sendo, mais vale nem começar.[bea]


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A itálico as palavras da Leitora bea.
A direito as da Leitora JV
(Em comentários lá mais para baixo)

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Fotografias de Rosendo Ayala Dávila

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Não posso adiar o amor 
(António Ramos Rosa dito por José-António Moreira)


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E caso tenham vontade de padecer, queiram, agora, descer até ao meu comentário a propósito do Sérgio Figueiredo, esse insuportável basófias, que, com o pretexto de entrevistar António Costa, foi para ali, para a TVI, encher a paciência dos telespectadores.


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segunda-feira, setembro 05, 2016

O ocaso compõe o seu adágio






O ocaso compõe o seu adágio
de uma plácida melancolia majestosa.
As luzes acendem-se nos vidros
enquanto perdura o vermelho rastro do poente.
Um ténue e total desmoronamento
abre-nos à antiguidade da matéria.
A solidão é nua. A atenção respira.
Ouve-se o longínquo latido de um insecto.
Caravanas de nuvens atravessam a água.
De tudo o que fui e quase imóvel perdura
nos vem a lenta protecção tranquila.
Dir-se-ia que o intacto sorri em nós e no mundo
enquanto uma frágil estrela se acende no azul.



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Fotografias feitas no Ginjal

Poema Adagio de António Ramos Rosa

Dmitry Shishkin interpreta um Nocturno (Op.9 Nº2) de Chopin

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E muito gostaria que fossem também visitar o meu Ginjal onde, ao som de uma certa 'berceuse', também vou pela mão de António Ramos Rosa em busca de alguém que não sei se existe.

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[E, por falar em ocaso, talvez tenham interesse em ler alguma coisa sobre o dramático ocaso de Weiner. É a seguir.]

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quarta-feira, maio 20, 2015

Há um pássaro azul no meu peito e eu escuto na palavra a festa do silêncio


Num dia de canseira e ventania, estou mais para ser embalada do que para dissertações ou regabofes. Cansada, com sono, a precisar de dormir. Que dias estes, de manhã à noite, senhores, e o trânsito um horror. E o vento.
Durmo de janela aberta, gosto de sentir a aragem fria sobre o corpo. Por vezes acordo de madrugada com as gaivotas: gritam, gritam. Não sei se são lamentos, se é um choro sofrido, se é gozo, festa, dança, namoro. Não sei. Acordo e ouço-as, tento manter-me acordada, perceber quantas serão, o que fazem na relva àquelas horas escuras. Mas logo adormeço. Levo-as e às suas longas asas brancas dançando no escuro da noite para dentro dos meus sonhos. 
Mas a noite passada não foram elas que me acordaram. Foi o vento arrastando coisas pela rua, tudo batia, tudo fugia na rua escura. Custou-me adormecer. E depois o dia, todo, todo.

Chego a esta hora e o corpo pede-me descanso.

Pois que descanso tenha.

Que me desculpem os meus Leitores mas hoje estou em modo piloto automático, a cabeça a funcionar nas margens do sono, incapaz de pensamentos conscientes. Funciona apenas uma parte de mim, uma parte pequena, a só me pede silêncio, imagens de outros mundos, palavras que me tragam notícias de lado nenhum, e que chegue até mim qualquer diferença, preciso de diferenças, estou farta da normalidade, da mediania, quero ver o que nunca vi, quero palavras que não façam sentido à luz dos preceitos vulgares, estou farta, farta, de racionais, de conversas alinhadas, encenadas, na verdade quase vazias. Ou que venham até mim corpos que se movam como eu, em sonhos, gostaria de me mover, fora de mim, para longe de mim.

Afasto de mim as sombras, não as quero. Ou então não, que venham - mas venham macias, sibilinas, sussurrantes, dizendo-me segredos perigosos, olhando-se sem medo, aliciando-me. Ou que a luz me ofusque, me desarme, me desequilibre.

Fecho os olhos e puxo a estranheza que me é irmã, deixo que me abracem os sons que me trazem labirintos, galerias perdidas no fim do mundo, barcos abandonados nas praias ao sabor do vento e das areias. E que me tomem em suas asas os pássaros de escamas de fogo, que me levem, que me levem para as nuvens, para os castelos em ruínas habitados por espíritos azuis, por poetas, por músicos loucos, por cavaleiros perdidos, por sonhadores sem rumo, por deusas, por rastos de luz.

E, quando nada mais fizer sentido, eu fecharei os olhos e dormirei descansada, dentro de um mundo inventado onde os abraços que me envolvem são quentes e íntimos, onde as palavras me acariciam como se fossem deuses saídos do fundo do mar, transparentes como poesias infinitas, e com olhares longos e húmidos como a boca do meu amor.


Duck feather dress, The Horn of Plenty, AW 2009-10, Model Magdalena Frackowiak, image : firstVIEW




turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos

menos que escuro
menos que mole e duro
menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma?
claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica
e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha
que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor
e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo
(não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia


Nu au chapeau de plumes ©Isabel Munoz
[Isabel Munoz part quant à elle en Colombie avec "Eros y Ritos, Eros et rites". Avec ses portraits de danseuses sous des masques rituels, elle révèle l'essence de l'être humain, à la recherche de ses craintes et de ses passions.]



Sim. Eu tenho o coração tomado de amor. Sou dessa gente que vai com tudo, caminha na brasa, mergulha na lava, se joga no fogo louco do encontro. Da vida, quero nada senão viver assim. Em chamas. É daí que vem todo o resto.

Comigo, essa história de pé atrás não funciona, não. O amor chega e entra com os dois pés e o que mais há em volta.(...) Contenção no amor é desperdício, sonolência, anticlímax, chateação. Quem sente amor tem a pele fustigada por um raio, voa baixo, treme de susto.

E que o diga o casal feliz de outro tempo em suas histórias de encanto e seus quarenta anos de namoro e sonho, suas viagens pelo mundo, seu olhar de cuidado aos mais jovens: o amor é ou não é um susto, um abalo, um assombro, um sobressalto? Decerto que é. O amor é o inesperado, o carro que quebra na padaria, a água que falta, o gás que acaba. (...)

“Ah! Mas isso não é amor, é só paixão”, dirá o ser impecável, perfeito, em sua fúria por rotular a vida e quem nela esteja. E eu respondo: que seja! A paixão é minha e eu dou a ela o nome que eu achar que devo. Inclusive amor, esse palavrão que incomoda tanto a tanta gente. (...) Mas que ainda assim, quando se tornar robusto, maduro, corajoso, conserve em si o frio na barriga, a saudade, o riso fácil, o jeito simples e as declarações de apreço com os olhos brilhando de ternura.

Assumo e declaro: meu amor não tem pudor. Amo em total descaramento. Vergonha eu só tenho na cara, não no coração. (...) Fazer o quê? Uma hora eu aprendo. Com tempo e trabalho e coragem, eu aprendo a ter menos vergonha e ainda mais amor.


Tahitian pearl neckpiece, Shaun Leane for Alexander McQueen, Voss, Spring Summer 2001 ©Anthea Simms 


há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo?
(…) há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique triste.
depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
como nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu não choro,
e você?



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Escuto na palavra a festa do silêncio. 
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se. 
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. 
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. 
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma. 

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia, 
o ar prolonga. A brancura é o caminho. 
Surpresa e não surpresa: a simples respiração. 
Relações, variações, nada mais. Nada se cria. 
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça. 

Nada é inacessível no silêncio ou no poema. 
É aqui a abóbada transparente, o vento principia. 
No centro do dia há uma fonte de água clara. 
Se digo árvore a árvore em mim respira. 
Vivo na delícia nua da inocência aberta. 

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  • Pela segunda vez aqui, a música é Epilepsy Is Dancing numa interpretação de Antony and the Johnsons  -- e o vídeo deverá ser visto pois é qualquer coisa de irreal.
  • O primeiro poema é um excerto de Poema Sujo, de Ferreira Gullar
  • A prosa é um excerto de Deixemos de coisa. O que mata mesmo é abrir mão de viver de André J. Gomes na Bula
  • O penúltimo poema, transcrito (numa tradução de Pedro Gonzaga) e lido (por Tom O'Bedlam), é O pássaro azul de Charles Bukowsky
  • O último poema é A Festa do Silêncio de António Ramos Rosa
  • A primeira e a última fotografia fazem parte da exposição Savage Beauty relativa à arte feérica de Alexander McQueen que vai estar até 2 de Agosto no Victoria & Albert Museum 
  • A segunda fotografia, de Isabel Muñoz, integrou a exposição 6 artistes pour 6 "Regards de femmes" que decorreu na Galerie Hegoa (França)
  • O ballet é  'Chroma' chor. Wayne McGregor, numa interpretação de Artem Ovcharenco e Anna Tikhomirova (Bolshoi Ballet)
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    Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quarta-feira mesmo muito feliz. 
    Divirtam-se, aproveitem bem a vida, está bem?

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    terça-feira, abril 28, 2015

    Relato de um dia simples (com a memória do nascimento dos meus filhos por ter visto na televisão o médico que fez ambos os partos)


    Limpo a casa, varro o chão, sacudo tapetes, lavo as louças, encho o balde de água e detergente que cheira a sabão, lavo tudo e não me esqueço dos cantos, lavo a roupa, estendo a roupa, e abro portas e janelas e deixo que o ar e o sol e o canto dos pássaros entre pela casa adentro e depois a casa fica cheia de luz, de perfume a limpeza, de abril.

    Depois tomo banho e, a seguir, faço o almoço: batata doce, feijão verde, pescadinha de anzol, tudo cozido e temperado com azeite. Quando acabamos já não é cedo, o cabelo ainda está molhado, e eu recosto-me num sofá, o sol a bater na minha pele e leio que da sala se passa para o escritório e do escritório se passa para o atelier, e do atelier para a cozinha e da cozinha para  a sala e por aí fora. E continuo a ler até que adormeço. E durmo até que o telefone toca.

    Depois como dois morangos e vou apanhar sol, caminho devagar. O cabelo secou, está uma juba que voa ao sabor da leve aragem. As flores, os cheiros, as tocas, uma lagartixa ao sol, as folhas secas, as sombras nas paredes, a minha sombra, a luz dourada da tarde, os pássaros numa alegria. Entro pelo meio do alecrim, passo as mãos pela ramagem, depois aspiro o aroma do rosmaninho, tão bonito, tão cheiroso, e, mais à frente descubro que a madressilva está em flor. Paz. 

    Depois telefono, está tudo bem. Outro telefonema e tudo bem, todos bem. Mais logo receberei outra chamada e ouvirei relatos de castelos e risos e brincadeiras.

    Passo as fotografias para o computador, escolho, saturo as cores a algumas, brinco, adivinho que se os pássaros as vissem assim transtornadas de tanta cor se haveriam de rir e diriam entre eles o Pollock passou por aqui. Ou talvez não, talvez apenas pensassem, com alguma indulgência: ainda não viste foi nada, pois de cores exuberantes devem eles ter os olhos cheios.

    Depois finalmente a televisão: o Nepal abalado por uma desgraça sem fim; por cá nem quero ver, se alguém quer construir uma alternativa, logo as vizinhas aparecem para destruir, uma política tuga, pequenina, destrutiva.

    Jantar simples, tosta com queijo fresco e tomate, iogurte, fruta.

    Regresso. Agora, ouvi na televisão uma voz conhecida, uma voz com um grande sorriso lá dentro. Levantei os olhos do computador, olhei. Era o médico, na altura muito jovem, que, com esforço e uma tranquilidade contagiante, puxou os meus filhos de dentro de mim, ele a dizer que era melhor com anestesia e eu a dizer que não queria nem cesarianas nem anestesias, queria tudo ao natural, ajudas só mesmo em último caso, queria parir como os animais, sentir as crianças a sair de dentro do meu corpo. Depois, horas e horas de trabalho de parto, a já achar que não aguentava, eles não desciam, e doía, doía tanto, tanto, e ele a dizer que já era tarde, que o processo de expulsão já estava em curso mas que a coisa ia, que eu ajudasse que ele ia puxá-los com ferros, e sorria, tranquilo - apenas uma vez o vi sério, com ar apreensivo mas, mal me viu a perscrutar o seu semblante, logo sorriu; e o meu marido, jovenzinho como eu mas corajoso que só visto, sempre presente e preocupado comigo por me ver tão transpirada, exausta e aflita, e eu cheia, cheia de dores sem ser capaz de o tranquilizar, e a ajudar nas operações (numa das vezes, tanta a força para puxar a criança que ele e a enfermeira tiveram que me segurar pelos ombros para eu não ir atrás); mas, mal os bebés saíram e vieram para cima de mim, já eu estava feliz, sem me lembrar de nada, qual sofrimento? nenhum!, e toda contente com as minhas pequenas crias ensanguentadas em cima de mim e eu a falar com eles e eles a olharem para mim, o cordão ainda ligado, e ele, o médico sorridente, a dizer que era assim mesmo, que o que eu estava a fazer era uma coisa boa, que fortalecia a ligação e que dava segurança às crianças, e sorria, sempre com aquele ar tão tranquilo. Igual das duas vezes, fórceps a sangue frio. Agora ali na televisão, quase igual, apenas com o cabelo mais branco, continua a sorrir, uma harmonia grande à sua volta. E a voz, igual.

    Telefonei à minha mãe para saber se estava tudo bem, que sim; e se o tinha visto na televisão. Que sim, igual, disse ela, a mesma calma, o mesmo sorriso. Naqueles dois dias, horas a fio, várias vezes ele tranquilizou a família, que não estava fácil mas que tudo se resolveria sem problemas e, depois, contente, a partilhar o alívio e a alegria com a família.

    Daqui a nada irei à procura de notícias nos jornais e revistas, talvez alguma coisa valha a pena. Senão voltarei a ler, ou talvez vá pintar. Ou talvez abra a porta, agora que já anoiteceu, e me ponha a olhar o céu.




    Vive-se quando se vive a substância intacta 
    em estar a ser sua ardente  
    harmonia 
    que se expande em clara atmosfera 
    leve e sem delírio ou talvez delirando 
    no vértice da frescura onde a imagem treme 
    um pouco na visão intensa e fluida 




    E tudo o que se vê é a ondeação 
    da transparência até aos confins do planeta 




    E há um momento em que o pensamento repousa 
    numa sílaba de ouro 
    É a hora leve do verão 
    a sua correnteza azul 
    Há um paladar nas veias 
    e uma lisura de estar nas espáduas do dia 




    Que respiração tão alta da brisa fluvial! 
    Afluem energias de uma violência suave 
    Minúcias musicais sobre um fundo de brancura 
    A certeza de estar na fluidez animal 




    "Miracles" by Walt Whitman (read by Tom O'Bedlam)

    ...


    Poema transcrito: Vive-se quando se vive a substância intacta de António Ramos Rosa.

    ...

    quinta-feira, julho 10, 2014

    As seis top models mais sexy do mundo visitam o Um Jeito Manso ao som de Lolita e apenas cobertas pelas palavras de António Ramos Rosa








    Em Portugal, mais propriamente no Porto, nasceu uma das seis modelos mais sexy e requisitadas da actualidade, a jovem Sara Sampaio, quase a fazer 23 anos. Recentemente posou para a conhecida revista masculina Lui. O fotógrafo convidado foi Mark Segal e a sessão decorreu em Saint-Tropez.


    Aí ela aparece esguia, bela, sensual e bem acompanhada: Magdalena Fracowiak, Isabeli Fontana, Emily DiDonato, Karmen Pedaru, Lais Ribeiro juntam-se-lhe. 


    Um festim para os olhos dos homens - e também para os das mulheres que gostam de beleza, e, em particular, de escultura.

    Claro que haverá as invejosas que olham estas belas e elegantes jovens com olho gordo, pensando que daqui por uns anos elas já não estarão tão bonitas ou que alguma gordura já se terá depositado naqueles corpos agora tão bem esculpidos. Seja. As coisas são boas enquanto duram e elas são muito bonitas agora e isso é o que importa. Depois se verá e o mais provável é que sejam belas para o resto da vida.

    Sara Sampaio, morena, olhos verdes, mede 1,71 m e é graciosa e alegre.

    O elevado número de prémios que já recebeu e os desfiles importantíssimos onde participa, nomeadamente no desfile de anjos da Victoria's Secret, parecem não a ter modificado pois continua a aparecer radiante e fresca na simplicidade genuína que parece caracterizá-la. Tomara que se mantenha com este ar de boa menina, saudável, bem disposta, não obstante o meio competitivo e tantas vezes tão pouco saudável em que se move.

    Inicialmente com uma imagem muito próxima de Adriana Lima ou mesmo  Irina Shayk, Sara Sampaio vem ganhando um lugar muito próprio e a sua presença neste número da Lui é, sem dúvida, uma poderosa alavancagem na sua carreira.



    Mas vejamos então as outras cinco meninas bonitas e impudicas que também se desnudaram ao sol perante a câmara de Mark Segal.


    Magdalena Fracowiak



    Se é clara a luz desta vermelha margem 
    é porque dela se ergue uma figura nua 
    e o silêncio é recente e todavia antigo 
    enquanto se penteia na sombra da folhagem. 
    Que longe é ver tão perto o centro da frescura 

    e as linhas calmas e as brisas sossegadas! 
    O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço 
    que no umbigo principia e fulge em transparência. 
    Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo 
    que em espiral circula ao ritmo da origem. 

    Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola 
    do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa. 
    O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar. 
    Quase dorme no suave clamor e se dissipa 
    e nasce do esquecimento como um sopro indivisível. 


    Isabeli Fontana

    A casa é viva
    (A mulher dorme)
    Dorme na espuma
    nas cores puras
    Dorme na espuma do silêncio 

    Planos brancos
    e cores lisas

    Dorme no vidro
    tranquilo
    Dorme viva

    (...)

    Uma brisa lava
    a casa fresca

    A varanda nua
    é seca e branca
    com sede de mar

    A varanda é nua
    A mulher é nua

    Da casa branca
    vê-se o mar
    o fulvo dorso
    da praia
    nu
    mulher de areia
    deitada e panda
    na frescura azul

    Uma vela branca
    de minúcia fresca
    dá ao olhar a brisa
    dá ao silêncio o mar

    A mulher dorme
    viva
    na espuma
    do silêncio


    Emily DiDonato


    Para quem o deseja e quem o ama
    um corpo é sempre belo no seu esplendor
    e tudo nele é belo porque é sagrado
    e, mesmo na mais plena posse, inviolável.

    Um corpo que se ama é uma nascente viva
    que de cada poro irrompe irreprimivel
    e toda a sua violência é a energia ardente
    que gerou o universo e a fantasia dos deuses.

    Tudo num corpo que se ama é adorável
    na integridade viva de um mistério
    na evidência assombrosa da beleza
    que se nos oferece inteiramente nua.

    Não há visão mais lucida do que a do desejo
    e só para ela a nudez é sagrada
    como uma torrente vertiginosa ou uma oferenda solar.
    Esse olhar vê-o inteiro na perfeição terrestre.


    Karmen Pedaru

    Sóbrio o teu corpo me pede
    penetração: nomes puros:
    os de boca, braços, mãos
    sobre a terra e sobre os muros.

    Sóbrio o teu corpo me pede
    nomes justos, nomes duros:
    os de terra, fogo e punhos,
    claros, acres, escuros.



    Lais Ribeiro

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    E Deus criou a mulher. E com o calor que está só apetece estar assim. 

    .

    sexta-feira, maio 30, 2014

    Quero dormir na água das palavras que amam o silêncio, quero ser a concha do ingénuo sossego de uma flora branca, quero ser o ouvido de veludo de um insecto azul





    Quero dormir na água das palavras
    que amam o silêncio
    e a lentidão da luz
    que é o fulgor de uma evidência indecifrável

    Quero ser a concha do ingénuo sossego
    de uma flora branca
    com o monótono murmúrio
    de uma respiração solar

    Quero ser o ouvido de veludo
    de um insecto azul
    e quero beber a linfa do olvido
    numa boca de argila
    para sentir a monotonia ardente
    da garganta da terra






    Insiro o rosto
    entre os ramos de um arbusto
    e bebo a delicada fábula
    dos fulgores solares

    Consumi toda a fragilidade verde

    Dormi como uma folha
    de braços abertos
    e passo a passo
    subi ao cimo do dia





    Repito:
     palavras
    que amam o silêncio
    e a lentidão da luz

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    Os poemas são de António Ramos Rosa e constam de Numa folha, leve e livre

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    > A fotografia e o último filme pertence à campanha Secret Gardens da Dior
    Secret Garden foi rodado no Château de Versailles, e é um filme de Inez and Vinoodh. 

    > O primeiro vídeo é The Dior Gardens - Rose de Granville
    A pioneer in ethnobotany for over 20 years, Dior identifies in nature the rarest and most powerful flowers and cultivates them in soils most favorable to their growth. This has resulted in dedicated Gardens around the world. The Loire Valley Garden in France is dedicated to Rose de Granville, the prodigious flower of Dior Prestige range. This garden perfectly embodies the Dior Gardens' philosophy: ultimate performance, complete traceability and absolute respect.

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    Se depois destas palavras e destas imagens quiserem estragar o ambiente - coisa que desaconselho - ou, mais concretamente, se quiserem ler a minha reacção ao recorrente assunto de mais um chumbo do Tribunal Constitucional (tantas vezes o cartão vermelho já foi levantado que não sei qual a regra mas, se fosse como no futebol, aqueles fora-de-lei já estavam no olho da rua), desçam, por favor até ao post já a seguir.

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    sábado, setembro 28, 2013

    José Rodrigues dos Santos e o seu último livro, 'O Homem de Constantinopla', sobre Gulbenkian: 'o Gnomo no Jardim' ou o balde de água fria deitado em grande estilo por Clara Ferreira Alves no Actual do Expresso deste sábado


    Actual do Expresso

    Gnomo no jardim e, ainda por cima, a cavalo num coelho
    (isto dos coelhos é praga que não nos larga, credo -
    claro que não tenho nada contra os coelhos de boa índole)


    A propósito de gnomos, nomeadamente dos gnomos no jardim da literatura, a semana passada mostrei o meu desagrado pelas quatro páginas concedidas pelo Expresso ao novo livro de Valter Hugo Mãe. Os meios de comunicação social em peso a divulgarem uma coisa que não passa de um produto comercial de fraca qualidade, imprensa que deveria pautar-se pela exigência a dar honras de capa a um chorrilho de banalidades travestida de pseudo-literatura - tudo isso me arrelia imenso. Claro que tratando-se de produtos de consumo, consome quem quer mas a verdade é que toda a gente sabe que o mainstream se faz de conjugações mediáticas e, aos poucos, a exigência e a qualidade vão ficando pelo caminho. Um dia o campo estará minado por erva daninha - e é sabido como a erva daninha impede as outras espécies de vingarem. Estas coisas fazem com que eu me insurja. Num mundo perfeito toda a gente deveria estar sequiosa de obras de qualidade e, em contrapartida, ficar indiferente perante tentativas de aprendizes mal sucedidos.

    Mas, enfim, esta semana o Actual do Expresso surpreendeu-me e eu aqui estou para mostrar o meu agrado. Chapeau.



    Clara Ferreira Alves vai refinando na pontaria e na acutilância
    (e, finalmente, parece ter acertado num look que a favorece bastante:
    fica com um ar moderno, interessante, valoriza a sua maneira de ser)

    Clara Ferreira Alves, alguém que sabe de crítica literária e mantém uma notável isenção (pelo menos, assim parece), dedica 3 páginas a José Rodrigues dos Santos (J.R.S.). 


    Um texto fantástico a que deu o título assassino de O Gnomo no Jardim, título que airosamente assenta sobre a fotografia do ligeirinho e bem-sucedido artista (que vende livros às pazadas enquanto tanto bom escritor não sai do limbo da obscuridade). 






    Transcrevo:


    Também é verdade que certa crítica literária convencional, que em Portugal labora no equívoco dos compadres, na pressão dos pares e na cumplicidade com os autores, condena ao ostracismo autores populares. 

    Não toca em J.R.S. nem com pinças. 

    E é verdade que o que muitas vezes é considerado literatura não passa de uma redação de pomposidades e pretensiosismos, literatices embrulhadas numa sintaxe irregular e falsamente pós-moderna. 


    E Clara Ferreira Alves termina o seu brilhante artigo referindo que a matéria prima usada na construção do livro - a aventureira e riquíssima vida de Gulbenkian - é da melhor. O pior é mesmo o que José Rodrigues dos Santos fez com ela. Volto a transcrever:

    É como se JRS tivesse uma mansão construída com boa carpintaria e bons materiais e, ao acabá-la e decorá-la, não hesitasse em colocar dois leões de pedra na portaria e um gnomo no jardim. Como ele diria em tom conversador, o gnomo lixa tudo.

    Com artigos como este de Clara Ferreira Alves, tal como com o de Valdemar Cruz sobre António Ramos Rosa a quem chama, 'O poeta cansado', faço, uma vez mais, as minhas pazes com o Expresso.


    Os amores são assim mesmo, cheio de arrufos, briguinhas, estardalhaços... e de reconciliações. Por estas e por outras é que me mantenho fiel ao Expresso desde sempre.

    *

    Já volto.

    terça-feira, setembro 24, 2013

    António Ramos Rosa - os poetas não morrem. Por ele, festejo aqui 'a luminosa corola dos sorrisos' e 'a lentidão clara do sossegado desejo de não ser nada'.










                                                                  Agrípia, foi a partir de ti que eu renasci
                                                                  na luminosa corola de um sorriso
                                                                  e os meus navios cinzentos e perdidos
                                                                  seguiram a bondade do teu rumo.
                                                                  Esta casa não seria a minha casa
                                                                  se não fosse a tua branca arquitectura
                                                                  e o teu hálito límpido que me guarda
                                                                  nas suas tranquilas coordenadas.
                                                                  Por ti o horizonte está em casa
                                                                  e nele eu vivo contigo a ondulada
                                                                  permanência da alma iluminada.




    (...)

    a lentidão clara
    do sossegado desejo
    de não ser nada


    *

    Gosto de festejar a vida e gosto de trazer aqui os poetas sempre que me apetece a transparência das palavras puras.

    Por isso, trago hoje aqui o poema Agrípia de António Ramos Rosa, casado com Agripina Costa Marques, poetisa a quem ele dedicou tantos poemas. Para António Ramos Rosa, Poeta Maior, habitante frequente de Um Jeito Manso e do Ginjal e Lisboa, sempre haverá lugar nestas minhas e vossas casas. Que aqui chegue, curvado, etéreo, luminoso, e nos deixe as suas palavras pausadas.


    É certo que já alcançou o seu desejo de lentidão clara e que avança agora, voando, a caminho do sossegado desejo de não ser nada. Mas nós, os que por aqui ficamos por mais algum tempo, iremos continuando a desfazer os nós dos nomes e aceitando a oferta nua da sua abolição, vendo as aves de sombra, sentindo o tempo a fluir sem ecos.

    *

    As imagens são fotografias de Steve McCurry do post Two of Us. A música é Nelson Freire interpretando Gluck / Sgambatti Melodia de Orfeo e Eurydice.


    Para além do poema Agrípia, o pequeno excerto bem como as expressões em itálico são também de António Ramos Rosa e fazem parte do poema Passa uma Ave de Sombra e podem ser lidos na sua Antologia Poética (selecção, prefácio e bibliografia de Ana Paula Coutinho Mendes).


    *

    Apenas para espairecerem ou para esparveirarem, ou, então, para acentuar o contraste entre um Poeta Escritor e um Valtinho, permito-me referir que, se descerem um pouco mais, poderão perceber, com provas documentais, o que é um livro muito plástico e uma utopia de purificar a experiência difícil. Admito: reincidi na desumanização. É já a seguir.

    *

    Resta-me desejar-vos, meus Caros Leitores, uma terça feira muito simpática 
    (agora que já estamos no Outono, tempo de gentilezas e suavidades)