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domingo, fevereiro 16, 2020

Medusas






Como vós oh infelizes cabeças
de roxas cabeleiras
não há coisa que mais me agrade
do que dançar no meio da tempestade




Visível, invisível,
             um encanto flutuante,
uma ametista tingida de âmbar
             habita-a, o teu braço
aproxima-se e ela abre-se
             e fecha-se; tinhas decidido
apanhá-la e ela treme;
             abandonas a tua intenção.




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Medusas poéticas respectivamente de Guillaume Apollinaire e Marianne Moore, trad Jorge Sousa Braga in 'Animal Animal um bestiário poético'. A medusa dentro do vidro foi fotografada agora e dança em frente de alguns dos meus livros
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Poderá um dia uma medusa também assombrar o mundo?

O pangolim

P



Tinha havido todos aqueles tigres, claro,
e um leopardo, e uma girafa de seis pernas,
e um jovem veado que saltava para a minha janela
antes de ser morto, e certa vez um cavalo azul,
e algures uma impressão de cães maciços.
Por que é que sonho com tamanhas bestas de sangue quente
cobertas de peles suadas e cheias de paixões
quando podia haver lagartos secos e rãs frias,
ou criaturas lentas, modestas, como uma pausa
de todos aqueles animais pintados do tamanho de pessoas?

Ouriços-cacheiros ou talvez tartarugas,
mas eu penso que o pangolim ficava melhor:
um animal vegetal, que vai
disfarçado de alcachofra ou ponta de espargo
num casaco verde de folhas bem ajustadas,
com a sua cauda de pá, lisa, e o seu nariz de pincel:
o papa-formigas escamoso. Sim, ele ficava bem
melhor num sonho do que numa jaula
na Casa dos Pequenos Mamíferos; por isso convido-o
a ser sonhado, se ele estiver interessado.

['O pangolim' de Fleur Adcock, trad. Graça Braga, in 'Animal Animal, um bestiário poético' organizado por Jorge Sousa Braga]



E, então, veio o pangolim e pôs em risco o Império do Meio

segunda-feira, julho 02, 2018

Das rolas, das cabras, das medusas -- e do desejo



Estávamos a passear, eu, a minha filha, os dois meninos. Falávamos não sei de quê. Das pinhas, talvez. Do desenho do banco de pedra que fiz debaixo dos pinheiros. Os meninos por ali e nós conversando. De repente aquele agitado rumor. Olhámos. Uma rola soltava-se da azinheira ou da aroeira e, naquele bater apressado de asas, levantou-se por entre as ramagens e foi para outro lugar onde não fosse perturbada por vozes humanas. Os meninos já não conseguiram ver. Mas eu e a minha filha sim. Grande, cor de prata e de pérola quase rosada.

O cheiro acre da penugem nova
da jovem rola fiel, solitária,
dos próximos pinheiros exilada,
entontecia os seres que a rodeavam
para escutar a paz do seu arrulho
-- os seres tão diversos de três reinos,
o gato negro, a pedra e eu no mundo.

Estão por todo, os pássaros in heaven. Mas mal se vêem. Conseguem esconder-se entre as folhas. Cantam, cantam. Se me ponho estendida ao sol, eles distraem-se e, então, abeiram-se. Vejo-os sobre os muros, saltitando no chão, voando de brincadeirinha de ramo em ramo.


Mas a fruta debicada prova que estão sempre atentos, sempre presentes. Como as uvas e os figos ainda não estão maduros, têm sido poupados. Mas as ameixas, como começam a ganhar cor e doçura, já estão quase comidas.


Quando íamos a caminho do terreno do lado de lá, aquele que foi limpo com uma máquina, o menino a quem em tempos chamava ex-bebé, o mais novo da minha filha, disse: 'O que eu gostava era de ter aqui animais'. E eu disse que eu também, uma cabrinha para comer o tojo e as silvas. Ele disse que ele queria um bode. E que lhe haveria de chamar Bodão. Bode Bodão, disse, sorrindo. E eu fiquei calada, a lembrar-me que esse era o nome pelo qual chamava a mãe dele um amigo que foi amigo de coração durante muitos anos. Depois, mal chegámos ao pé desse terreno, ele exclamou: 'Ah, este sítio era ideal para termos animais!'. E o seu mano veio ver mas não se entusiasma com estes temas da vida no campo, quer ser cientista e modificar o DNA para prolongar a vida humana. Ouço as coisas que ele diz, as suas investigações por vir, e fico sem saber o que dizer. Penso que prolongar a vida humana não é forçosamente bom. Mas não quero dizer-lhe isso nem tenho ideias feitas sobre o assunto. Ponho-me é a pensar na cabrinha que gostava de ter.

Falei com uma cabra
Estava só no prado atada
de erva saciada molhada
pela chuva balia

Aquele monótono balir era irmão 
da minha dor. E eu não lhe respondi primeiro
por graça depois porque a dor é eterna
Era esta a voz que eu sentia
enquanto a solitária cabra balia

Era uma cabra de rosto semita
Lamentava-se do mal alheio
da alheia desdita


E, posto e disposto tudo isto, e não querendo pensar em qualquer desdita (nem na pulga maldita), ao fim da tarde, depois de umas compras, fui fazer uma caminhada rente ao rio. Espantei-me com a beleza. Tanta, tanta. Como se nunca tivesse visto igual, assim me deslumbrei.

Olhei tudo pela primeira vez. O sol sobre o cais, o azul das águas, a magnífica cidade, linda, linda. As rochas, as águas entre elas, as medusas que julgo ver, vagueando, transparentes, cabelos à solta, e que não consigo fotografar.


Como vós oh infelizes cabeças

de roxas cabeleiras

não há coisa que mais me agrade

do que dançar no meio da tempestade

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E agora mais nada porque tenho que me levantar antes que o sol se levante do rio e já não falta muito. 

Mas vocês, que não têm que fazer centenas de áridos quilómetros -- sem rolas, cabras ou medusas -- podem ouvir Hilda Hilst a ler quatro poemas do livro "Do desejo" em gravação do princípio dos anos 90 do século passado (ah o que eu gosto de dizer do 'século passado' como se fosse coisa longínqua na qual eu não tenha estado).

Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?


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As fotografias foram feitas in heaven e no Ginjal

O primeiro poema é de Fiama Hasse Pais Brandão, o segundo é de Umberto Saba e o terceiro de Guillaume Apollinaire -- e estão no livro Animal, animal, um bestiário poético, organização de Jorge Sousa Braga

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E para verem um vídeo que mostra o corpo das mulheres antes de se depilarem queiram descer até ao post seguinte

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