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sexta-feira, março 20, 2026

‘Cenário apocalíptico’ - refere o Guardian*.
Para o compreender, ouçamos o que Joanna Coles e Michael Wolff têm a dizer sobre o que se passa dentro da cabeça de Trump e ouçamos também o que Jon Kent e Tucker Carlson, duas pessoas que muito o apoiaram (e conhecem tudo o que se passa) têm a dizer sobre o assunto

 

Aquilo a que se assiste no Médio Oriente é de loucos. O que poderia temer-se que acontecesse, está a acontecer: um doido varrido ao leme dos Estados Unidos. O meu marido desta vez não anda tão pessimista como eu, acredita que ele vai perceber que tudo lhe pode correr mal demais e, ao mesmo tempo, fartar-se, e um dia destes decidir que se vêm embora do Irão pois, segundo apregoará, já não haverá lá mais nada para fazer: Já ganhei, já obliterei tudo de vez, sou o maior - dirá. Eu não tenho essa perspectiva pois receio que ele esteja demasiado na mão do criminoso Netanyahu e não seja tão simples assim dar de frosques. Além disso, mesmo que recue, já causou danos tão extensos e tão irreversíveis que as consequências económicas, políticas e sociais se farão sentir de forma muito impactante nos próximos tempos.

Acresce que ele não é apenas maluco. É também cruel, destituído de arrependimentos. As coisas de que já foi acusado, os casos conhecidos em que já esteve envolvido (e os casos de que talvez ainda nem saibamos) e as vinganças que exerce sobre as pessoas que lhe fazem frente ou que o fazem sentir encurralado são de fazer temer o pior. É destituído de autoconsciência e de princípios. E está maluco.

Tenho lido e ouvido vários testemunhos e várias opiniões. Aliás, os dissidentes da sua base de apoio começam a aparecer e a falar, ou melhor, a pôr a boca no trombone, e, à medida que se vão sabendo mais episódios, mais é de se ficar preocupado. É certo que em Novembro há as intercalares e, com certeza perdê-las-á (a menos que consiga impedir as eleições) -- mas daqui até Novembro é muito tempo e, ao ritmo a que ele inventa novas parvoíces, pode dar cabo do mundo de vez.

Uma das opiniões que gosto de escutar, porque me parece que faz sentido e porque as vejo corroboradas por acontecimentos posteriores, é a de Michael Wolff, quer nos seus vídeos curtos no Instagram quer no podcast Inside Trump's Head, no The Daily Beast, com a Joanna Coles. Diz ele que todas as decisões são tomadas por Trump sem ouvir conselheiros. Ou melhor, ouvindo apenas o que lhe interessa ouvir. Portanto, para compreender o que está a passar-se, o melhor é perceber como funciona a cabeça (disfuncional) dele. E eu concordo. 

E reparemos: no meio de uma guerra como esta, ele continua feliz e bem disposto, brinca com aviõezinhos na Sala Oval, diz inconveniências que são mais do que de mau gosto, mas que diz como se fossem piadas, à Primeira-Ministra do Japão, e, no reality show que são as sessões contínuas na Casa Branca, diz que vai tomar conta de Cuba, e diverte-se a pronunciar a palavra Cu-Bá, e a seguir já andam a fazer saber que vão divulgar documentos secretos sobre extraterrestres... ou seja, continua a ser a festa do costume, uma produção permanente de conteúdos. O que sai daquela cabeça não é nada pensado, sopesado, consistentes, avaliado à minúcia. Não. Nada disso. É o que lhe dá na gana sem se preocupar em ser coerente. 

Por isso, não será má ideia tentar perceber como funciona aquela cabeça preenchida por poucos e fracos miolos. O caos, a confusão, as traições, a influência desmedida do genro, Jared Kushner, a descoordenação que chega a ser ridícula, o nível de anedota é demais, parece impossível.  Note-se que a Joanna Coles volta e meia desata a rir e ele também... e eu também. Não será caso para rir mas, na realidade, é difícil levar a sério. O pior são os mortos, é a destruição e as consequências da porcaria que ele anda a fazer.

Abaixo dos dois vídeos entre eles, há uma outra conversa que é de nos deixar muito apreensivos. Jon Kent, ex muito apoiante de Trump, responsável pela Unidade de Contraterrorismo demitiu-se sonoramente, batendo com a porta, publicando uma carta e dando uma entrevista a Carlson Tucker, outro ex-fiel e ex-alto propagandista de Trump. E as revelações queimam: não apenas não havia motivos para atacar o Irão (o que já é mais que óbvio para toda a gente), não apenas andam a matar alguns dos iranianos que poderiam servir de ponte para uma negociação, como há meses que os israelitas andam a pressionar para atacar o Irão (aliás, há muitos anos, mas agora reportando-nos apenas ao 2º mandato de Trump), tendo sido afastados todos os conselheiros e especialistas em segurança que avisavam para não o fazer... e ainda outros assuntos aparentemente não relacionados como o assassinato de Charlie Kirk, ficando no ar a suspeita de que houve mão israelita (ou mais que isso?) porque Kirk andava a mijar fora do penico israelita, e que, sabe-se lá porquê, a investigação foi bloqueada. Isto dito pelo responsável pelo Contraterrorismo. Muita coisa é ali dita. A entrevista é longa mas vale a pena ouvi-la. Creio que vai lançar estilhaços em muitas direcções.

Mas, primeiro, a dupla Michael Wolff e Joanna Coles (já sabem: caso não consigam acompanhar bem o que eles dizem, podem activar a legendagem automática)

Eu sei porque é que a presidência de Trump está condenada ao fracasso: Wolff | Dentro da cabeça de Trump

Michael Wolff junta-se a Joanna Coles precisamente quando a demissão repentina de um alto funcionário antiterrorista devido à guerra no Irão expõe fissuras dentro da própria coligação de Trump. Com figuras do movimento MAGA a virarem-se contra o conflito, mesmo enquanto Trump insiste que está a "obliterar" a capacidade militar do Irão, Wolff explica a lógica direta que orienta o pensamento de Trump: se os generais disseram que a obliteração era possível, então a missão deve estar a funcionar — mesmo com a ameaça de disparar os preços do petróleo, o regime iraniano aparentemente mais entrincheirado e o presidente preso no clássico dilema de uma guerra que não pode vencer nem sair facilmente. Analisam também a estranha insistência de Trump de que um antigo presidente dos EUA elogiou em privado a sua estratégia para o Irão, as disputas silenciosas pelo poder entre Marco Rubio e J.D. Vance, a crescente influência de Jared Kushner na política do Médio Oriente e porque é que a próxima fase da presidência de Trump pode parecer familiar: a procura de alguém — qualquer um — para culpar.



A verdadeira razão pela qual Trump perdeu a cabeça com um aliado importante: Wolff | Dentro da cabeça de Trump

Michael Wolff e Joanna Coles mergulham no caos crescente dentro do universo de Trump, à medida que a guerra com o Irão expõe uma verdadeira guerra civil entre os apoiantes de Trump. Tucker Carlson, Megyn Kelly e Nick Fuentes confrontam-se com Ben Shapiro, Laura Loomer e Mark Levin numa disputa renhida sobre Israel, o anti-semitismo e o futuro do movimento. Wolff revela informações chocantes dos bastidores sobre as correntes conspirativas que impulsionam a base de Trump, a crescente crença de que forças obscuras estão a dirigir a política externa dos EUA e como figuras como Jared Kushner estão a ser reinterpretadas em narrativas sombrias e perigosas. Enquanto Trump se atrapalha num conflito que nunca planeou, marginalizando os seus próprios aliados do "America First" e abraçando os falcões tradicionais, o episódio retrata um movimento a fragmentar-se em tempo real — onde a ideologia, o oportunismo e o ressentimento colidem, e onde a batalha pelo controlo do MAGA pode remodelar a política norte-americana de formas que poucos previram.

E agora, os dois ex-grandes apoiantes de Trump que agora estão em acelerada divergência, sobretudo revoltados com a total e dominante influência de Israel:

Joe Kent revela tudo na sua primeira entrevista desde que se demitiu do cargo de diretor de contraterrorismo de Trump -- com Tucker Carlson

Joe Kent é antigo diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo e principal conselheiro do presidente para assuntos terroristas. Serviu durante 20 anos no Exército dos EUA, com 11 missões de combate a combater redes terroristas no 75º Regimento de Rangers, nas Forças Especiais do Exército e no Comando de Operações Especiais do Exército dos EUA, tendo recebido seis Estrelas de Bronze. Joe é também marido de uma militar condecorada com a Estrela de Ouro. A sua primeira mulher, a Suboficial Chefe da Marinha Shannon Kent, também serviu no Exército e foi morta em combate contra o Estado Islâmico na Síria em 2019.


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Esperemos que os tempos de paz e de esperança, como que por milagre, regressem ao mundo

segunda-feira, março 09, 2026

Ça va san dire, que é o mesmo que dizer que that goes without saying

 

Não dormi nada bem. A meio da noite, ou melhor, da madrugada, vendo que a coisa não ia, por si só, a bom porto, levantei-me e fui tomar meio comprimido daqueles que cá tenho, acho que é de raiz de valeriana. Não me faz logo efeito mas, quando faz, para aí daí por uma hora, finalmente caio no sono. E já sei que, durante uma semana ou duas, vou dormir como uma santinha. Foi o médico de família que me receitou há algum tempo. Tenho ideia que cada caixa tem para aí uns 20 comprimidos e dá-me, à vontade, para 1 ano. 

Mas, por causa disso, acordei tarde. E com mais dor no pescoço. Agora, de vez em quando é isto, torcicolo. Na sexta-feira já me doía um pouco e fui ao ginásio na mesma, não quero dar mole. E, enquanto der, continuarei a ir, mesmo puxando pesos e fazendo aquelas forças que, ao que parece, me garantem a longevidade eterna. Só que, não sei a que propósito, também acordei com dor de garganta. Tenho cá para mim que, quando pinta um stress, o meu corpo reage, inflama, manifesta-se. Estou a virar um vidrinho, é o que é.

Por exemplo, no último ano de vida da minha mãe, em que andei permanentemente debaixo de uma enorme pressão, com ela a queixar-se de tudo e mais alguma coisa mas tudo de forma errática, ilógica, aparentemente nada correlacionado, e em que eu julgava que ela estava num estado descontrolado de hipocondria e já não sabia o que havia de fazer, andei constantemente com inflamações ora num joelho, ora num pé, ora num braço. Ora andava meio manca, ora completamente de perna no ar com canadianas, ora de braço ao peito. Quando ia com ela ao médico ou ao hospital, ela ia lesta e eu toda lesionada. Tenho para mim que o stress me afogava em cortisol e o cortisol amarfanhava-me de todas as maneiras possíveis e imaginárias.

Depois meteu-se o pesadelo de esvaziar a casa, meses e meses, infindáveis meses, de stress. E a ter que carregar com sacos e caixas e toda feita dondoca, a deixar o esforço todo para os outros, em especial para o meu marido, pois continuei aleijadinha de todo e qualquer carga fazia exacerbar ainda mais a inflamação nas articulações. Só visto.

E dormir mal também me atrofia toda. Dantes, quando trabalhava, dormia seis horas, por vezes menos que isso, e andava fresca e arrebitada todo o dia, um mimo. Agora, se durmo menos que sete, já fico com alguma coisa a tender para o disfuncional. 

Seja como for, para já, nem o torcicolo nem a dor de garganta são por aí além. Por isso, fomos na mesma passear à praia. Não estava bom tempo. Mas estava um movimento do caneco, os estacionamentos inexistentes. Tivemos que andar por ali e pelas redondezas à procura de agulha no palheiro. Não íamos almoçar lá mas queríamos comprar sushi para almoçarmos em casa. Tudo cheio, a deitar por fora, tudo com montes de gente à porta. Não estávamos a perceber o que era aquilo. Vi uma mulher com uma roupa meio estranha e por um instante ainda pensei que, na volta, o carnaval se tinha estendido no tempo. Depois vi várias com flores. ainda me ocorreu que fosse dia dos namorados mas depois lembrei-me que isso já tinha sido. Antecipação do 25 de abril não porque não eram cravos. O meu marido também não estava a perceber. Pensei que se calhar era dia da mãe. Depois, porque gosto de confirmar as minhas suposições, perguntei ao gemini. Dia da Mulher. Só me apeteceu pensar que se calhar mais valia passar a chamar-se dia do restaurante.

Fomos passear à beira mar. Como sou míope, vi ao longe uma criatura pequena e gorda a rodopiar com os braços ao alto e um objecto na mão. Comentei: 'Até já as miúdas pequenas se auto-filmam em poses parvas. Em vez de olhar para o mar, olha ali aquela miúda a filmar-se a ela própria como se o mar fosse um mero pano de fundo. Caraças'. O meu marido respondeu: 'Qual miúda?'. Com o queixo apontei. Ele, sempre parco de palavras, apenas perguntou: 'Achas que é uma miúda?'. Pus-me a fotografá-la naquelas poses inestéticas, irracionais e despropositadas. Quando cheguei perto, vi que, afinal, criança era coisa que ela já não era,  era uma mulher baixa e gorda de calças muito justas, o volumoso rabo e as pequenas e gordas pernas a quererem estraçalhar aquelas calças todas. Num banco perto, uma criança à espera que a mãe se cansasse de fazer aquelas tristes figuras. Depois lá foram, à nossa frente. Fotografei-as: a criança mais alta que a mãe e, aparentemente, mais sensata, vestida mais normalmente. Só não ponho aqui as fotografias que tirei não vá a senhora descobrir e ficar furibunda. Afinal estou a descrevê-la como estou enquanto ela se vê, tenho a certeza, como uma nova Raquel Welch. E se já não há por aí a ler-me uma alma que saiba de quem estou a falar, então muito me contam. Serei a mais idosa ou a menos desmemoriada de entre todos os que por aqui passam? -- E ok, ok, façam o favor de fazer a caridade de não me responderem.

O que sei é que, à medida que ia andando, ia pensando: é este o mundo que temos pela frente. Não a perguntar mas a afirmar.

Mas, para não dar a viagem por perdida, ainda lá fiz dois pequenos vídeos que publiquei no Instagram. E, entretanto, ao telefone, a minha filha já manifestou, mais uma vez, a sua estranheza e incompreensão: não sabe o que é aquilo, o mar faz muito barulho, a minha voz mal se ouve, não falo de nada que interesse, e teme que ande, eu também, a fazer figurinhas tristes. Sosseguei-a: estava num sítio em que não havia mais ninguém. E são uns segundos, aponto o telemóvel, digo o que me ocorre dizer naquele instante e já está. Deveria editar ou ter o discernimento de me deixar estar quieta, bem sei. Mas se acho piada a fazer aquilo, porque não hei-de fazer, ora essa? E depois há coisas bizarras. Na quinta-feira à tarde fui passear à beira rio e vi um barquinho quase todo afogado. O barquinho chamava-se Faisão. Apontei o telemóvel e disse: 'Olha... o faisão foi ao banho...'. Pois bem, acreditam que ontem vi que aquilo já tinha sido visto mais de 3.800 vezes? Achei fantástico. E incompreensível. Claro que 3.847 é coisa nenhuma, zero vezes zero quando comparado com os milhões que as influencers de sucesso alcançam. Mas eu sou uma simples anónima, de voz sumida, que não diz coisa que se aproveite. Porque é que as pessoas veem? Será que acham que é uma coisa tão descabida que veem para tentar perceber se há ali alguma mensagem subliminar? Se é, lamento desapontar mas é mesmo só falta de jeito e, se calhar, também de tino.

E, para que vejam bem o grau de desorientação em que esta minha cabeça anda -- na volta porque o pescoço que a sustém está repuxado e a garganta dorida -- tenho que confessar que, quando abri o computador, vinha com a ideia de aqui desabafar um bocado a propósito do animal, do estupor, do infame e cruel cavalgadura que anda a desaustinar o mundo inteiro. Mas distraí-me e, depois, não me apeteceu arrepiar caminho.

Portanto, não levem a mal que eu não tenha feito mais nada senão por aqui ter andado na converseta, sem acrescentar nada que valha a pena... Mas, para que não fiquem a pensar que já estou mesmo maluca de todo e que, com a divagação pegada para a qual derrapei, me esqueci da abestalhada figura, aqui vai o cartoon que a Ella Baron fez para o Guardian

Finalmente, aqui chegada, e vou já dar a faena por encerrada, não faço ideia do nome que hei-de colocar lá em cima, como título deste post. Só me faltava mais esta, já meio a dormir e sem encontrar um denominador comum no que escrevi...

A guerra de Trump e Netanyahu no Irão: As novas roupas do Imperador 


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Desejo-vos uma boa semana

quarta-feira, março 04, 2026

O novo eixo do mal é um belicista aventureiro? Ou não passa de um grande e gordo motor de impulso laranja?

 

 Tinha identificado uns quantos candidatos a serem sucessores de Ali Khamenei mas o ataque foi tão bem sucedido que morreram todos. 

Isto foi dito por Trump. 

Não é de loucos? Eu ouço isto e não consigo conter uma gargalhada. Não parece uma anedota? Mata um para pôr uns que ele lá sabe e, afinal, mata-os a todos? Se não fosse trágico, não era de ir às lágrimas?

É como aquela outra maluquice. Perante as crescentes vozes de que não havia quaisquer evidências de que nos próximos anos o Irão representasse qualquer risco, o fofo Marco Rubio, sempre com aquela sua boquinha de folhos e ar meio perdido, veio dizer que a coisa tinha sido assim: os americanos tinham sabido que Israel -- que se está nas tintas para as negociações que os dois artolas, o genro e o outro totó também do imobiliário, andavam a ter com o Irão -- tinha descoberto uma cena que era uma janela de oportunidade e que iam avançar à bomba sobre o dito Irão. E que pensaram que, se isso ia acontecer, os iranianos, furiosos, iriam retaliar e ainda iam fazer mal aos americanos. Portanto, antes que isso acontecesse, apanharam a boleia de Israel e lá foram dar cabo deles.

Perante a candura desta confissão, a casa veio abaixo: uns a rebolar a rir, outros de boca aberta. Então foi essa a grande razão para avançarem para uma guerra destas que está a desestabilizar o mundo? Então é mesmo verdade que o Bibi é que manda nos Estados Unidos?

Face a esta revelação que pôs o mundo a dar cambalhotas para trás e para a frente, meio mundo perplexo e desconcertado e o outro meio sem sabe se rir ou chorar, Trump, para remediar a barracada, veio contradizer o Marquito: não, não nada disso, não foi bem assim, ele é que forçou a mão de Israel. Só que ninguém acredita numa palavra que ele diz.

Enquanto estou a escrever, estou a ver televisão. E de novo aqui está ele. Confirma que mataram todos os que pensaram que poderiam suceder a Khamenei mas que vão lançar uma onda de ataques ainda mais ofensiva e que, provavelmente, vão matar outros que talvez também pudessem servir. E como, se calhar, a seguir haverá outra onda de ataques ainda mais destrutiva, se calhar depois já lá não conhecem ninguém. 

Ouço isto e penso: mas isto não será para os Apanhados? Isto não será uma comédia? É que é tudo uma maluquice tão grande que é impossível encontrar aqui algum racional.

Também o ouvi a dizer que vai proibir todo o comércio contra Espanha e que, se quiser, usa as bases que (o corajoso e, aparentemente, dos poucos adultos na sala) Pedro Sánchez diz que ele não pode usar. Que não precisa mas, se precisar, os aviões vão para lá e sempre quer ver quem é que o vai proibir. 

Ouço isto e penso que é preciso respirar fundo. Um palhaço destes armado em ditador, em imperador de meia tigela... 


Mais um dilema para Trump
(da autoria de Ben Jennings para o The Guardian)


E não sei se este voluntarismo é bazófia, se é loucura, se é um destemperamento provocador e inconsequente, se é ganância, ou se é demência pura e dura. Sobretudo penso que um estupor destes está é a precisar de uma lição.

E, o que mais me tira do sério, é que, ao lado dele está Merz... a apoiá-lo... Porquê? Como se ouve uma coisa destas e se fica a apoiar? Como!? Não deveria interrompê-lo, não deveria dizer que cada país é soberano e que ninguém se pode sobrepor a isso e, mostrando que não está para alimentar a sede imperialista do bufão laranja, não deveria levantar-se e sair da sala?

Enfim... Um mundo pantanoso em que uns quantos espantalhos se levantam para roubar, vilipendiar e matar os indefesos que esbracejam, tentando salvar-se.

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No vídeo abaixo fala-se numa coisa que me parece muito verdade: se pensarmos em líderes que desencadeiam guerras ilegais, cruéis criminosos de guerra que causam muitas mortes absurdas, então, ao lado de Putin, haverá que colocar Donald Trump e Benjamin Netanyahu.

Claro que, ao falar-se em líderes, David Rothkopf torce-se todo e questiona-se sobre se Trump é mesmo um líder ou, até mais do que um belicista aventureiro, não é senão um grande e gordo motor de impulso laranja. 

E, com isto, já estão a perceber que, uma vez mais, escolho quem quero ouvir sobre o que se passa. Fonte sempre muito bem informada, David Rothkopf, aqui no vídeo ainda não tinha ouvido a confissão de Rubio e as parvoíces de Trump que se lhes seguiram já que a conversa com Joanna Coles foi gravada na 2ª feira de manhã. Mas é sempre uma voz que se ouve de gosto (relembro que nas definições do vídeo podem seleccionar legendar e, aí, seleccionar a auto-tradução para português)

Como a guerra de Trump desencadeou um novo eixo do mal | Podcast do The Daily Beast

David Rothkopf junta-se a Joanna Coles para defender que a guerra de Donald Trump contra o Irão revela um presidente que acredita governar como um rei, e não como um comandante-chefe constitucional. Rothkopf, colunista imperdível do The Daily Beast e fundador da DSR Network, apresenta os argumentos de que se trata de uma guerra ilegal, iniciada sem a aprovação do Congresso, com apenas 21% de apoio público, sem um processo coerente do Conselho de Segurança Nacional e com baixas iniciais que já agravam o caos. Relaciona o ataque impulsivo de Trump aos incentivos políticos de Benjamin Netanyahu, ao risco de escalada regional, aos choques petrolíferos em vésperas de eleições intercalares e à perigosa fantasia de que a mudança de regime resultará de alguma forma em democracia em Teerão.


Desejo-vos um diz tão feliz quanto possível 

quinta-feira, fevereiro 26, 2026

Quem foram as vítimas de Epstein? As crianças e mulheres violadas e traficadas? Ou também os bilionários, intelectuais e outros que foram atraídos por ele?

 

Neste grande escândalo Epstein muitas coisas me intrigam. Já falei nisto várias vezes antes. Tudo para mim é um mistério. É tudo tão improvável, tão inacreditável... Mais: muitas coisas quase me parecem materialmente inconcretizáveis. Custa crer que um só homem conseguisse ter relações sexuais com tantas mulheres (mais de mil), que tivesse tempo para isso e para milhares e milhares de mails e para viagens e mais viagens, várias de longo curso, para tantas farras e orgias, para tantas sessões de brainstorming com físicos e com biólogos, para reuniões com universidades para seleccionar projectos a financiar, para idas a galerias de arte e para escolher objectos decorativos atípicos... e sei lá que mais. E, nas fotografias, sempre como se tivesse tempo, com calma, com espaço para desfrutar das companhias, das brincadeiras, das velhacarias.

E depois há o cerne: qual o eixo central de toda esta história? A pedofilia e a proxenetismo, envolvendo crianças? A obtenção de material comprometedor para sacar dinheiro aos prevaricadores? Ou o material comprometedor destinava-se a ser cedido ou vendido a agências de informação como a Mossad ou a CIA ou o MI6 ou as derivadas do ex-KGB? Ou, para além disto, ainda mais qualquer outra coisa?

A máquina Epstein movia-se pelo prazer? Pelo dinheiro? Pelo poder? Por outra coisa?

Tenho lido coisas sinistras que envolvem a gravidez de muitas miúdas, o sacrifício de bebés para diferentes fins, manipulação de DNA, e muitas outras loucuras, cada uma mais desvairada que as anteriores, que, como sempre, mantenho na minha cabeça em stand by até que apareçam referidas por congressistas ou por jornalistas de referência. 

Mas, isto para dizer que a leitura ad hoc, avulsa, analisada casuística e não sistemicamente, dificilmente conduzirá a conclusões sólidas.

Vi um vídeo em que um especialista em Data Analytics explicava como estava a desencantar fotografias e vídeos que se encontram encapsuladas em ficheiros pdf, como estão a tentar indexar e sistematizar a informação ou a tentar cruzar informação rasurada com a não rasurada para tentar detectar pontas soltas. Isto porque é tanto mail, tanto documento avulso, tanto power point, tanto documento encafuado dentro de outros documentos, e quase todos cheios de rasuras, que não é fácil identificar o fio da meada nem se é suposto que as coisas se organizem segundo uma lógica única (a da pedofilia, por exemplo), ou se faz sentido que, em simultâneo, multidimensionalmente, se organizem segundo lógicas diversas. E, note-se, aparentemente o que está publicado, e altamente rasurado, é uma pequena parte de todo o material que há. 

Eu, se tivesse meios e tempo, não apenas faria aquilo que o especialista em Data Analýtics fez, como, de seguida, aplicaria aos datos devidamente limpos e sistematizados, a teoria dos grafos. Tenho para mim que será com um modelo que assente na teoria dos grafos que se conseguirá mapear todas aquelas conexões, perceber caminhos equivalentes, pontos de relevância, nós górdios e qual o (ou os) caminho/s crítico/s que movia/m esta pessoa (ou este esquema)? 

Seria um bom tema para as universidades estudarem sob diversas perspectivas (a matemática com tratamento de dados e modelagem, a antropologia e a sociologia, a psicologia, as finanças -- porque afinal, que cash flow era aquele, de onde vinha e para onde ia o dinheiro? -- o direito e a investigação criminal, etc).

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Uma coisa que custa a encaixar em qualquer das partições que façamos para dar lógica a esta história: o que, por exemplo, levava Chomsky ou Stephen Hawking ou tantos outros a frequentar e fazer de tudo para agradar a Epstein? 

Entretanto, li um artigo interessante da autoria de Emma Brookes no The GuardianHow did Epstein ensnare so many rich men? By knowing they were entitled and insecure. Como conseguiu Epstein enganar tantos homens ricos? Sabendo que eram privilegiados e inseguros.

Penso que traz uma perspectiva nova e curiosa, porventura realista, pelo que me permito transcrevê-lo. 

Uma das coisas que tem intrigado frequentemente, à medida que os desenvolvimentos da história de Epstein continuam, é a forma como um jovem que abandonou a faculdade e achava cool cometer gralhas conseguiu persuadir os mais poderosos do mundo a entrar no seu covil. Qual era, precisamente, a natureza do seu "génio"? Era chantagem? Era o esquema de pirâmide social de usar um nome importante para atrair outro? Nada chegou perto de o explicar até que, com a mais recente leva de pormenores dos arquivos de Epstein, algo se tornou subitamente claro: não eram as raparigas e mulheres traficadas que Jeffrey Epstein aliciava. O verdadeiro talento do homem, se assim lhe podemos chamar, estava em aliciar o seu grupo de associados.

Isto não significa, naturalmente, que os homens e a ocasional mulher que se aliaram a um homem a quem nos devemos referir, com toda a seriedade, como "o pedófilo morto" não fossem culpados. No entanto, ao analisar a enorme quantidade de material relacionado com Epstein, desde a investigação profunda do New York Times sobre as suas finanças até ao vasto acervo de correspondência contido nos arquivos, emerge a imagem de um homem que causou danos aos seus pares de uma forma que normalmente se vê dirigida às vítimas. Embora múltiplos testemunhos de sobreviventes indiquem que Epstein considerava as raparigas e mulheres que traficava como de tão pouca importância que nem sequer tinha de se dar ao trabalho de as aliciar – segundo o relato de Virginia Giuffre, Epstein violou-a no primeiro encontro –, todos os seus recursos, através de diversas tácticas, foram direccionados para conquistar a lealdade de homens poderosos.

Analisemos Andrew Mountbatten-Windsor, que, após a sua detenção na semana passada, viu o seu público relaxar subitamente, deixando de se inibir em descrever o homem como ele realmente é. Talvez tenha visto o vídeo de 2022, agora amplamente divulgado, no qual o ex-oficial de segurança de Mountbatten-Windsor disse a um canal de notícias australiano que a alcunha que davam ao seu chefe real era "o filho da puta". Com um pouco mais de civilidade, o deputado trabalhista Chris Bryant chamou na terça-feira a Mountbatten-Windsor "rude, arrogante e prepotente", observações que podem ser úteis para explicar como Epstein conseguiu tamanha lealdade do oitavo na linha de sucessão ao trono. Em Mountbatten-Windsor, vemos um homem vaidoso, fraco e prepotente, a viver na sombra do irmão, e que Epstein pode ter atraído para uma amizade através de uma combinação de lisonja e demonstração de poder.

Crucial para esta abordagem é o facto de, a julgar pelos e-mails de Epstein, ele nunca ter sido subserviente, pelo menos não com Mountbatten-Windsor. O seu tom em relação ao ex-príncipe e à sua ex-mulher, Sarah Ferguson, muitas vezes roça a grosseria, dando-lhes ordens e impondo-lhes comandos numa espécie de paródia de um empresário ambicioso e dinâmico que está ali para oferecer ao casal uma hipótese de algo que nunca tiveram em toda a vida: relevância real e central. "Sarah, podes [sic] pedir a uma das tuas filhas para mostrar [censurado] Buckingham, por favor?", escreveu Epstein num e-mail de 2010 — dois anos após a sua primeira pena de prisão — no qual parece estar a pedir à antiga duquesa de York que mostre o Palácio de Buckingham a alguém. (A “Sarah” do e-mail respondeu no mesmo dia: “Claro”.)

Os professores do MIT provavelmente preocupam-se menos com a relevância do que dois ex-membros da realeza decadentes, mas podem, por outro lado, sentir inseguranças persistentes sobre o seu estatuto em relação às mulheres. Veja-se o caso de Marvin Minsky, o falecido professor do MIT que, segundo o livro de memórias de Giuffre, foi levado para a ilha de Epstein para ser vítima de tráfico sexual. Neste caso, o poder que Epstein exercia sobre homens como Minsky pode estar menos relacionado com o sexo do que com a auto-imagem. No livro de Giuffre, esta alega que, depois de um dia a andar de mota de água e a fazer atividades turísticas comuns, Minsky teve a ousadia de lhe pedir aquilo que Epstein anunciara como “uma das suas famosas massagens”. É uma passagem terrível, sobretudo porque, a acreditar no relato de Giuffre, Minsky está claramente muito constrangido com o que está a fazer. Dizem que Epstein ofereceu a este homem a oportunidade de viver uma versão fantasiosa de si mesmo que – pesquisem sobre ele no Google – está completamente fora da realidade, e, meu Deus, ele agarrou a oportunidade.

Foi aí que o falecido criminoso sexual se destacou: em extrair influência e proteção de pessoas poderosas, identificando e explorando as suas fraquezas. Como tal, compreendia algo melhor do que ninguém: que, por mais diferentes que fossem nos seus pormenores, estes homens, todos senhores do universo, ainda sentiam fundamentalmente que a vida os tinha prejudicado; que tinham direito a mais do que possuíam. Epstein podia ajudá-los com isso e, a julgar por como e com que risco continuavam a agradar-lhe, amavam-no por isso.

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sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Será que só as mulheres conseguem pintar magníficos nus femininos...?

 

Uma mulher despe-se e mostra-se apenas para ser desejada pelos homens que a olham?

Se uma mulher se ajeitar numa posição que seja esteticamente atraente está forçosamente a querer despertar a lubricidade em quem a contempla? 

E o que dizer se o fizer para que outra mulher a fotografe ou a retrate numa tela?

E, claro, se for homossexual, fá-lo para despertar o desejo noutras mulheres?

Talvez haja quem pense que sim. Mas não forçosamente. 

O corpo de uma mulher é uma obra de arte e tão mais extraordinário quanto parece ser coisa do acaso, coisa transcendente. Duas células que se juntam, se desdobram, se multiplicam. E tudo se vai juntando de uma forma mágica e, no fim, sai um corpo funcional que, ainda por cima, parece habitado por uma alma que ninguém sabe bem o que é. E claro que isto se aplica a um corpo de homem ou de mulher. Mas aqui foco-me no corpo da mulher. Aí a magia é ainda mais extraordinária: os seios que se desenvolvem, os seios que se enchem de leite para alimentar a criança que sai do seu corpo, quando o corpo gerou uma outra vida que começa por ser alimentada no ventre, um ventre que se atapeta e dilata. Tudo milagroso. Retratar o corpo da mulher em qualquer dessas fases é quase um dever. Há muita beleza nisso. 

Tal como é belo o corpo de uma mulher quando as ancas alargam, as carnes se expandem. Ou quando os seios perdem o viço. Ou quando as rugas desenham sulcos e escrevem histórias.

A beleza está na disponibilidade para a beleza. 

Já contei muitas vezes que uma das esculturas que mais me impressionou e na qual penso muitas vezes é uma pequena figura de Rodin, uma mulher de idade, corpo quebrado, pele enrugada. Em tempos uma bela mulher. Em tempos conhecida pela sua beleza. Celle qui fut la belle heaulmière. Uma obra tocante. 

Há tempos, ao ver uma fotografia minha de quando tinha uns vinte e tal ou trinta anos, não sei, surpreendi-me comigo mesma. Disse: 'Era bonita, não era?'. O meu marido respondeu: 'Ainda és.'. Foi simpático. E talvez tenha sido sincero. Eu, que me apaixonei por ele sem o conhecer, apenas porque o achei um pedaço de mau caminho (identicamente ao que aconteceu com ele em relação a mim), ainda o acho bonito, ainda acho que, se fosse hoje, voltaria a encantar-me com ele. Não tem o cabelo comprido como tinha naquela altura, aliás quase não tem cabelo, não tem o corpo tão ginasticado como tinha naquela altura em que praticava desporto federado, tem rugas. E é natural. Mal seria se com a idade que tem ainda se apresentasse de cabelo bem preto, pele esticada e todo bombado. Detestaria, não posso com gente artificial, com gente que não aceita com orgulho a idade que tem.

Com a inundação, as telas que estão na cave e que estavam no chão encostadas à parede foram colocadas em cima da mesa de ping-pong. Outras, felizmente, já estavam num lugar alto. Muitas têm mulheres, muitas delas nuas. Mulheres jovens, sonhadoras, com corações sobre os seios, um coração no ventre, mulheres grávidas, ventres redondos, seios pesados, mulheres guerreiras, caminhando sobre os edifícios, mulheres corajosas, desafiadoras. Por vezes, quando o motivo era mais caliente, apareciam aos pares, pequeninas, num canto, vestidas de freiras, de joelhos a rezar. Mal se viam. Mas estavam lá.

Também pintei corpos de homem. Mas menos. Parecia-me que, para que a pintura fosse interessante, teria que ser pornográfica. Como sou muito ajuizada, evitei-o. Para não ferir susceptibilidades, limitava-me a pintar falos a aparecer onde não eram chamados. A minha filha gozava: 'onde está o wally...?', e frequentemente ele lá estava, muitas vezes disfarçado, quase escondido.

Mas, enfim, vejo agora que me distraí e estou para aqui a escrever um bocado à toa. 

Está a chover imenso, mas mesmo imenso, caraças, e, de vez em quando, vou ali espreitar a ouvir se a bomba que está a funcionar na caleira junto ao portão da garagem continua a funcionar. Mas chove tão torrencialmente que só ouço mesmo a força da chuva a cair. 

Hoje entrou ar na bomba, e funcionava mas a água não era chupada. Felizmente o chatgpt explicou o que deveríamos fazer para lhe tirar o ar. E resultou.

Tentámos pô-la no poço do esgoto das águas pluviais mas não conseguimos levantar a tampa da caixa. É de cimento, pesadíssima, nem mexe. O meu filho diz que só com picareta a servir de alavanca, que vem cá no fim de semana e traz uma picareta. Por isso, por enquanto não há alternativa: temos que tentar extrair toda água que se junta na caleira lá de baixo, a ver se não volta a entrar na garagem e na cave. 

Já conseguimos tirar a água quase toda da inundação mas agora aparece de debaixo dos móveis. E o chão continua molhado. Já não tem altura de água, só que não seca. E já cheira a bafio, vem um cheiro a mofo e a bafio de lá que não se aguenta. Era preciso que parasse de chover para abrir o portão da garagem e para abrir as janelas da casa para o ar circular como deve ser. Agora a chover sem parar não dá. Abrimos de tarde, enquanto não choveu, mas de pouco ou nada serviu.

Mas isto não é nada. O drama que vai pelo país é que é de partir o coração. Meio país debaixo de água.

Ainda hoje, por várias vezes fiquei a chorar ao ver as pessoas em risco de perder as casas ou outras que têm tudo enlameado e estragado. Comovo-me tanto, tanto. Quase tenho que fechar os olhos de tanta pena que sinto, tanta, tanta. E comovo-me quando vejo pessoas corajosas que, perante a desgraça que se abateu sobre elas, conseguem sorrir, dizer que estão vivas e que isso é o mais importante, que o resto se haverá de resolver. Têm esperança em melhores dias. E eu fico toda em lágrimas.

Bem. Adiante.

Comecei com a conversa lá de cima, dos corpos nus das mulheres, influenciada pelo interessante artigo do Guardian. ‘Not for ogling’: forget Titian, Botticelli and the male fantasists – only women can paint great female nudes, da autoria de Rhiannon Lucy Cosslett

Transcrevo um pouco:

(...) Quando Gwen John estava no seu quarto, em 1909, a desenhar-se nua, com o reflexo do seu corpo no espelho do guarda-roupa, o que lhe passava pela cabeça? Na altura, vivia um intenso e infeliz caso amoroso com Auguste Rodin, para quem posava frequentemente. Posar para si mesma, porém, era diferente, para não dizer ousado. John lutava para ser a sua própria musa, em vez de Rodin, mas esta imagem mostra-a livre do olhar masculino.

(...) Durante grande parte da história da arte ocidental, as mulheres não tinham acesso a modelos nus e, se fossem suficientemente corajosas, tinham de confiar no seu próprio corpo. O trabalho que produziam era frequentemente recebido com indignação, desprezo, troça ou indiferença. 

Artigo que vem ao arrepio da espuma dos dias. Gostei de ler.

E, como não me apetece ir agora à cave fotografar as minhas bonecadas, até porque estou apenas de meias e, se fosse assim, ficaria com elas molhadas, pedi ao Sora que me gerasse algumas imagens. Claro que descrevi o que pretendia a nível do 'modelo', do 'estilo' da pintura, do ambiente, juntei umas dicas, etc. -- e claro que algumas saíram tão pirosas que não as ponho aqui. Mas outras aprovei. 

Partilho algumas que, se eu fosse tão habilidosa quanto a Inteligência Artificial -- e não sou nem de longe nem de perto -- e tivesse aqui o material, talvez tentasse aventurar-me a fazer por mim qualquer coisa que se parecesse. 


E vivam as mulheres, e viva a beleza das mulheres em toda a sua nudez
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Desejo-vos um dia feliz
(E tomara que não aconteçam por aí mais desgraças... Se chover em todo o lado tanto como por aqui, temo o pior)

domingo, novembro 30, 2025

Sopradores de folhas, clubes de leitura, labubus, inimigos, livros sobrevalorizados e outras coisas do género.
Isto num dia em que não estou na minha melhor forma.

 

Lembro-me bem de ter quarenta e tal nos e de ter ido a casa da senhora que transpunha para papel quadriculado os desenhos de tapetes de Arraiolos dos séculos XVI ou XVII e de, às tantas, lhe ter dito que não ia decidir ali pois gostava de pedir a opinião à minha filha. A senhora olhou para mim, muito admirada, e perguntou que idade tinha a minha filha para me poder dar opiniões sobre umas hipóteses tão específicas. Teria certamente vinte e poucos. A senhora olhou-me ainda mais admirada e perguntou. 'Não me leve a mal... mas qual é a sua idade para já ter uma filha dessa idade...?'. Disse-lhe e ela mostrou-se muito espantada, disse que ninguém diria, que julgava que eu não teria mais que trinta e poucos. Não sei se era ela que não via bem mas a verdade é que toda a gente se admirava comigo, dizendo que eu parecia estar sempre igual, diziam que a idade não passava por mim. E lembro-me de, por essa altura, um conhecido que nos tinha ido visitar ter dito que se alguém nos quarentas dissesse que não tinha, de quando em vez, alguns problemas de saúde ou dores ora aqui ora ali, estava de certeza a mentir. Eu disse que eu não tinha queixas de nada e que não estava a mentir. 

Na realidade, até tarde convenci-me que tinha uma sorte do caraças por nunca ter queixas de nada. Nem cabelos brancos tinha. 

Claro que alguns anos depois a realidade do meu corpo humano veio bater-me à porta. Ou por genética ou por durante anos não praticar qualquer exercício físico, a verdade é que comecei a ter queixas nos joelhos. Descobri mais tarde, aliás já muito recentemente, qual a condição que me provoca, de vez em quando, algumas inflamações nas articulações. A mesma coisa que o meu pai teve e que a minha avó materna também. 

No intervalo dessas 'crises' fico bem, como se não tivesse nada e faço uma vida absolutamente normal.

Desde há dois dias que tenho estado meio empanada. Na sexta-feira fui na mesma ao supermercado, este sábado fomos almoçar fora. De tarde limpei a casa. Ou seja, não fico inválida nem pouco mais ou menos nem tenho paciência para me ver como uma velhinha meia coxa. Ou seja, fico apenas meio condicionada. Claro que, se tudo correr bem, um dia chegarei a velha. Mas tem tempo... não preciso de começar já a ensaiar para isso, não é'

E já tenho alguns cabelos brancos... Não muitos mas tenho, sobretudo nas frontes. Nisso também saí ao meu pai que manteve o cabelo da sua cor natural até tarde. Depois começou a ficar levemente grisalho, mas já bem tarde. Portanto, até nesse aspecto, aquela coisa de assumir os brancos também tem tempo. Deixa-os vir, um a um, devagarinho. Quando os tiver na cabeça toda e com fartura logo vejo se viro uma velhinha platinada. Talvez tivesse piada, se calhar aproveitava e fazia um corte à maneira, bem curtinho, à rapazinho. Mas ainda deve faltar um bom par de anos, não vale a pena estar a antecipar.

Isto para dizer que, ao contrário do que é costume, não andei a apanhar cogumelos, não andei a caminhar por entre as árvores a fotografar ou a fazer vídeos. Dei uma leve voltinha mas não tive disposição para me deixar encantar.  Só uma ou outra fotografiazita mas agora também é tarde, não me apetece passar do telemóvel para aqui. 

O que me vale é que sei que, quando isto me passar, e acho que já está a passar, até à próxima, estarei bem, na maior. Faço parte do grupo de malucos que vêm o copo sempre quase cheio.

Este algoritmo do instagram já me topou e agora aparece-me com vídeos com exercícios e sei lá que mais para prevenir inflamações deste tipo. Mas o que despertou mais a minha atenção foi a acupunctura. Só não sei é que parte do corpo haveria de espetar pois a cena dá-se onde calha, ora num joelho, ora num pé, ora num pulso - onde calha. Mas qualquer dia ainda vou ver o que um tipo desses me diz. E capaz de ser até bom, já estou a imaginar-me deitada numa marquesa, toda picadinha e a dormir o sono dos justos. Essas coisas dão-me um sono... Quando ia fazer fisioterapia, adorava. Quem lá andava queixava-se à brava, diziam que só queriam ver-se livres daquilo. Eu era ao contrário, adorava. A chatice era que me debatia para não adormecer. Uma tentação danada, quase irreprimível de me deixar embalar nos aconchegantes braços de Morfeu. Aliás, não sei se isso não aconteceu uma ou outra vez.

Enfim. 

Vi o debate entre o Jorge Pinto e o Marques Mendes. Não me aqueceu nem me arrefeceu mas voltei a achar piada ao Jorge Pinto, acho que o País precisa de malta assim. Já disse que ainda não o acho maduro para a função pelo que não votarei nele. Mas também não voto no Marques Mendes. Era o que faltava. Bolas.

Seja como for, não tenho pachorra para agora falar neles.

Vou é transcrever parte de uma entrevista a Fran Lebowitz, no Guardian. Fazer caminhadas é a coisa mais estúpida que eu poderia imaginar

Achei graça pois identifico-me um bocado com ela, não nisto das caminhadas, que gosto bastante de fazer, mas em muito do resto. Ou melhor, para ser mais precisa: gostava de ser tão desabrida e desbocada como ela. E há uma diferença de fundo entre nós: já não fumo, coisa de que me orgulho imenso pois estupidamente fumei durante tempo demais, Mas, por exemplo, estou com ela no horror aos sopradores de folhas, à barulheira que fazem. Gosto é de as varrer. Sobretudo, gosto de ver o chão coberto por elas. É como os clubes de leitura: nunca consegui inscrever-me nisso. Tinha duas colegas que os organizavam e dinamizavam. Tentaram mil vezes levar-me. Nunca fui. Não me imaginava a dissertar sobre o que tinha lido e muito menos me imaginava com paciência para opiniões parvas, até porque, à partida, tenho para mim que tudo o que se diga sobre um livro num clube desses tem alta probabilidade de ser parvo. 

Mas vá, aqui fica um excerto. Para o lerem na íntegra, podem clicar aqui.

Gostaria de saber a sua opinião sobre cinco coisas. Primeiro, os sopradores de folhas.

Uma invenção horrível, horrível. Eu nem sabia da existência deles até há cerca de 20 anos, quando aluguei uma casa no campo. Fiquei chocada! Vivo na cidade de Nova Iorque, não temos problemas com folhas. Temos todo o tipo de problemas. Quando eu era criança, tínhamos de varrer as folhas. O que é silencioso. Os sopradores de folhas são a coisa mais estúpida que já vi. Primeiro, são incrivelmente barulhentos. E segundo, 10 minutos depois de o usar, aquele soprador gigante no céu atira todas as folhas de volta. É uma invenção muito estúpida.

Jantares.

Gosto de jantares em casa de outras pessoas. Não sou eu que o dou. Acho que o mundo se divide entre convidado e anfitrião. Sou convidada. E sou velha, por isso normalmente não me prendo a jantares de que já não gosto, porque sou uma ótima juíza de jantares antes de ir a um.

Clubes de leitura.

Acho giro que as pessoas o façam, mas, sinceramente, não consigo pensar numa atividade mais solitária do que ler — e essa é uma das razões pelas quais adoro ler. Não tenho nada contra a ideia, mas certamente não me atrai.

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Labubus.

Eu sei o que são, infelizmente. Já houve muitas modas de bonecas, mas estas bonecas em particular parecem-me muito desagradáveis. O que é diferente agora é que os adultos o fazem. Antes, isso era coisa de crianças. Mas os adultos têm estas coisas presas às suas bolsas e cintos. Francamente, parecem ridículas.

Qual a coisa mais estranha que já fez por amor?

Aos 75 anos, o romance não é a sua principal preocupação, pode ter a certeza. Quem diz que é, está a mentir. Portanto, não sei. Sei que as pessoas me acham invulgar, mas não sou estranha. Também não sou de fazer grandes gestos.

Poderia ser algo estranho para os seus padrões — como praticar um desporto radical.

Ah, não, não, eu nunca faria isso. Nunca fui tão jovem ao ponto de dizer: "Uau, escalar montanhas parece divertido". Não, não me parece divertido. Se quer escalar montanhas, divirta-se. Não percebo porque alguém faz estas coisas. Fazer trilhos é a coisa mais estúpida que consigo imaginar. Já vi pessoas a jogar ténis, porque isso aconteceu mesmo no início do meu amor. Duas semanas depois? Já não estou lá.

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Tem algum inimigo?

Ah, tenho a certeza que tenho mais do que um. Tenho a certeza que são dezenas. Felizmente, não costumo prestar muita atenção às outras pessoas. Sei que não sou a menina dos olhos da América. Mas mesmo que soubesse exatamente o nome da pessoa, não te diria.

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Qual acha que é o livro mais sobrevalorizado?

Não creio que me consiga limitar a um só. Existem muitos escritores sobrevalorizados. Quero muito que os romances contemporâneos sejam bons, mas percebo que não gosto da maioria deles. Muitas vezes as pessoas dizem: "É uma questão de geração, Fran, este escritor tem 20 anos". E a minha resposta é: "Bem, não é bom, porque isso não deveria ter importância". Sei quantos anos tinha Tchekhov quando escreveu as suas histórias? Não sei. Não importa. É simplesmente uma grande história.

Durante a maior parte da minha vida adulta, fiquei muito irritada com a lenda de F. Scott Fitzgerald. Por isso, de cinco em cinco anos, releio O Grande Gatsby, esperando que não seja assim tão bom – mas infelizmente é.

Qual é o objeto mais antigo que possui e porque ainda o possui?

Tenho muitas coisas antigas no meu apartamento. A maioria dos meus móveis é do século XIX. Tenho muitos livros antigos. Ainda tenho o trenó da minha infância, de quando era muito pequeno. Eu devia ter uns seis anos, no máximo. Tem uma corda amarrada para o puxar colina acima – lembro-me de ver o meu pai a amarrar a corda. Também tenho o meu carrinho de mão original da infância. E, como tudo neste apartamento, tem livros em cima.

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Desejo-vos um feliz dia de domingo 

segunda-feira, novembro 17, 2025

Sobre a banalização do mal

 

Lembro-me de um conhecido me contar que tinha estado num almoço em casa de um empresário que na altura era de referência no país, com alguns dos seus homens de confiança, com um ex-presidente da Câmara, com um ou dois ex-ministros,  e que, no meio da animada conversa em que as línguas se iam tornando mais soltas à medida que os bons vinhos iam subindo da bem fornecida adega do anfitrião, se teriam referido ao que na altura era presidente de uma das maiores empresas do país dizendo que 'esse gosta muito de meninos'. Esse meu conhecido ficou intrigado e estupefacto e quis confirmar se tinha percebido bem. Tinha. Entre risadas e piscar de olhos falaram das incursões da pessoa em causa nas noites Parque Eduardo VII. Isto antes do escândalo Casa Pia.

O meu conhecido ficou chocado com a forma 'normalizada' como todos aparentemente sabiam e fechavam os olhos, aparentemente achando até uma certa graça. Para eles, parecia que o grande administrador gostar de meninos estava ao mesmo nível de gostar de usar o cabelo penteado de uma determinada maneira ou só usar sapatos feitos por encomenda numa certa casa italiana ou ter um gosto refinado a nível de obras de arte. Excentricidades, idiossincrasias, particularidades inócuas próprias de quem tem dinheiro e poder.

Ao ouvir isso, fiquei estarrecida. E incrédula. Não encaixava na imagem que tinha dele. 'Mas será verdade?''. Era pessoa conceituada no país, politicamente relevante, profissionalmente reconhecida. Eu não o conhecia pessoalmente mas conhecia quem o conhecia e sempre tinha ouvido falar dele e da mulher, dele e da sua casa de praia onde recebia os amigos, dele e do prestígio como bom profissional. Na altura, para mim isso era incompatível com ir 'aos meninos'. E que meninos eram esses? Se me tivesse falado de ir às prostitutas, eu teria ficado chocada mas percebia. Por exemplo, as mulheres nas esquinas ali nas ruas na zona do Técnico eram bem visíveis. Agora 'meninos'...? No Parque Eduardo VII? Parecia-me uma história estapafúrdia.

Mas, a ser verdade, igualmente chocante era todos saberem e ninguém o denunciar, e todos continuarem a conviver com ele -- como se 'ir aos meninos' não fosse uma perversão, um crime. 

E, volto a dizer, isto foi antes, embora pouco antes, de ter rebentado o escândalo da Casa Pia.

Leio o artigo do Guardian, The banality of evil: how Epstein’s powerful friends normalised him - David Smith, e é nisso que penso. Toda aquela gente sabia e todos se mantiveram amigos dele, todos mantiveram o relacionamento estreito. Mesmo depois da primeira condenação, continuaram a ser amigos chegados. Mesmo sabendo que continuava a abusar de meninas. Como se fosse normal. Isto se é que eles próprios, amigos do condenado, não continuaram a fazer o mesmo. E, pela troca de mails, vê-se como a erosão moral se estende à política. Epstein a ajudar os russos a lidar com Trump, Epstein amigo do peito de Bannon, conselheiro de Bannon sobre como melhor dar cabo da Europa. Todos em torno de Epstein. Epstein, Epstein.

Não tenhamos dúvidas: as pessoas com vidas simples, as boas pessoas, provavelmente nem sonham qual a dimensão do mal que pode habitar a cabeça dos que se acham donos do poder, da influência e da impunidade suficientes para tudo fazer. Roubar, extorquir, chantagear, abusar, manipular, ocultar provas, comprar o silêncio, subornar -- tudo actos normais para certas pessoas que se vão tornando coniventes umas das outras.

Vale a pena ler o artigo. 

E vale também a pena ver e ouvir a entrevista de Joanna Coles a Mary Trump, a sobrinha renegada pelo homem mais poderoso do mundo. Partilho esse vídeo.

Este mundo em que vivemos brinda-nos com um realidade que supera a mais imaginativa e pervertida das imaginações.

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Why Seeing Epstein and My Uncle Donald Haunts Me | The Daily Beast Podcast

Mary Trump joins Joanna Coles to pull back the curtain on the Trump family and the man at its center. She recounts a childhood spent seeing her uncle everywhere, the opulent parties that doubled as power plays, and the lessons learned about a man who thrived on attention and control. Mary dissects Donald’s core pathologies—from his craving for wealth and status to the public slips and impulsive behaviors that now define him. She warns that the real danger isn’t just Trump himself, but the enablers who prop him up and profit from his rise. From her perspective as a clinical psychologist and family insider, Mary asks: when the myth collapses, what happens to those left in its wake?


Desejo-vos uma boa semana

terça-feira, outubro 21, 2025

Crianças de ninguém

 

Não vou escrever muito pois este é daqueles assuntos em que as palavras se me extinguem. Nem é uma questão de não conseguir conceber, é mesmo mais que isso, é uma repulsa profunda, uma revolta que vem do mais íntimo de mim. Pensar que alguém se aproveita da inocência e da incapacidade de defesa de uma criança para a molestar sexualmente deixa-me transtornada.

Giuffre (then Virginia Roberts) around the time she met Epstein and Maxwell.
Photograph: courtesy of Virginia Roberts Giuffre

E nisto não há gradações pois sou incapaz de pensar que é ainda mais grave se forem pessoas que violam crianças institucionalizadas, totalmente indefesas, ou, pior ainda, se as violações forem perpetradas por gente ligada à igreja, ou se pior ainda é se for um pai a fazê-lo a um filho ou filha. É tudo igualmente mau de mais, tudo desnaturado, tudo demasiado insuportável. Não consigo sequer pensar no trauma que isso deve causar numa criança, na vergonha, no asco, no medo que ficam inscritos no seu corpo. E depois sabe-se que quando os crimes de abuso ocorrem, é sempre pedido às crianças que guardem segredo, e é pedido sob ameaça, por vezes velada ou sob chantagem. As crianças tantas vezes a sentirem-se cúmplices, talvez até culpadas.

Não consigo sequer pensar o que é crescer com uma mancha destas dentro de si. Compreendo que quem é vítima de abusos o esconda, tente esquecer, não queira que ninguém saiba. Expor o assunto deve ser quase como se a sua intimidade voltasse a ser devassada. Não consigo imaginar. Deve ser horrível.

Se há matéria em que as minhas entranhas se reviram é esta. Dou por mim a pensar que deveria conseguir sentir alguma compaixão pelas almas perdidas, perturbadas, que o praticam, que deveria tentar entender a sua história, se calhar também uma história de abandono e abusos. Mas não consigo, é mais forte que eu. Só penso que pessoas assim, abusadoras, violadoras, têm que estar enjauladas, longe de crianças, impedidas de voltarem a praticar os mesmos actos.

Li há dias, no Guardian, um excerto do livro póstumo de Virginia Roberts Giuffre, Nobody’s Girl: A Memoir of Surviving Abuse and Fighting for Justice, no qual ela relata como foi parar às mãos dos dois predadores sexuais, Epstein e Maxwell, qual deles o mais sórdido e depravado, qual deles o mais perverso e com vida mais estranha, mais sombria. 

Li e fiquei incomodada. Tudo acontecia com a naturalidade de quem se comporta como se tudo pudesse e tudo lhe fosse permitido. Usavam e abusavam, traficavam, cediam, emprestavam. Entre sorrisos, entre promessas, entre gentilezas. Eles dois, a dupla Epstein e Maxwell, o Príncipe André e os bilionários a quem ela se refere por números. Tinha 16, depois 17 anos. Não tinha seis ou sete. Já não teria a inocência da primeira infância. Tinha, isso sim, os sonhos de uma jovem e sonhadora adolescente. E nessa idade, por muito que já se tenha passado -- e Virginia já tinha sido abusada em criança -- ainda se acredita que uma vida melhor pode estar pela frente. Desde que obedeça.

Na sequência da publicação desse excerto e por tudo o que tem estado a vir a lume, o canalha real já abdicou dos títulos. Mas, não sei porquê, não é detido para interrogatório. E, dadas as provas e os testemunhos, porque não é julgado e condenado. Velhaco. Ele e a mulherzinha dele, ambos nas mãos de Epstein, ambos a receberem favores e milhões dele. A troco de quê? A Justiça britânica não deveria averiguar?

Virginia, entretanto, como vários dos envolvidos neste escândalo, também já cá não está. Mais um suicídio nesta teia. Para ela, a sua caminhada de denúncia acabou.

Mas para tantas vítimas desta rede de pedofilia que alimentava o vício ou a luxúria animalesca de tantos 'ricos e poderosos' o pesadelo ainda não acabou. Os chamados ficheiros Epstein continuam a não ser divulgados.

Mas se lá o escândalo atingiu contornos hollywoodescos, já o que se passa na casa de tantas crianças ou em instituições em Portugal e por todo o mundo é igualmente sinistro, atormentador. 

Partilho o vídeo em que a psicóloga Gabriela Salazar fala de uma menina de 11 anos, violada pelo pai, que não percebia de que é que era culpada para ter que sair de casa e afastar-se dos seus amigos. Tudo doloroso de mais.

Por isso, considero que talvez quanto mais se falar destes fenómenos horrendos mais algumas vítimas ganhem coragem para denunciar os algozes que as molestam.

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“Do Outro Lado.” A menina que era vítima mas achava que era culpada

A primeira paciente de Gabriela Salazar, ainda durante o estágio, foi uma criança de onze anos vítima de abusos sexuais. Este caso acabou por definir o rumo da carreira da psicóloga.


Desejo-vos uma feliz terça-feira

sábado, setembro 13, 2025

‘Uma escapadela secreta onde o verão perdura’: as viagens favoritas dos leitores do Guardian, em setembro, na Europa

 

Ao ver o título da notícia do Guardian (acima, no título), patriota como sou, fui logo ver se aparecia algum destino português. E sim, aparece. Fiquei contente. Mas fiquei admirada. Évora é uma cidade linda (e onde se come bem) mas, ainda assim, estava à espera de um lugar mais pitoresco ou mais desconhecido ou com uma oferta mais diversificada. No entanto, reconheço, é disparate meu, na volta até demonstro algum provincianismo ou alguma miopia.

O Alentejo banha-se em luz dourada até finais de Setembro e Outubro. A região estende-se desde florestas de sobreiros a praias selvagens do Atlântico, com temperaturas diurnas ainda a rondar os 20°C. Na cidade caiada de Évora, ruínas romanas e praças tranquilas convidam a um passeio tranquilo. Mais a oeste, a costa perto de Vila Nova de Milfontes oferece ondas quentes e areias quase desertas. O Alentejo é lânguido e soalheiro, um refúgio secreto onde o verão se prolonga e o tempo parece parar.
Autor do texto: Matthew Healy.
Autor da fotografia:  Praça do Giraldo, Évora. Fotógrafo: Philip Scalia/Alamy

Numa altura em que alguns dos meus amigos andam no laré por locais longínquos e enviam fotografias maravilhosas, eu sinto-me cada vez melhor no nosso país, e, em particular, em casa, seja na da cidade, por acaso perto do mar, seja na do campo, no meio do nada, rodeada de serras e de silêncio. 

No outro dia o meu marido estava a sugerir uma viagem e eu, que antes estava sempre numa de ir e que adorava planear, escolher hotéis, ir à aventura, agora penso sobretudo na maçada de fazer malas, na falta de conforto que representa a ausência dos nossos sítios tão bons, ou penso no déjà vu que já tudo me parece, quase como se já nada é verdadeiramente novidade. E quando, no meio deste comodismo, abro uma excepção e penso em ir visitar algum lugar, o que me ocorre é sair de manhã, irmos de carro, levarmos o nosso querido cãobeludo mais fofo, e regressarmos ao fim do dia. Quem me viu e quem me vê.

Mas depois, quando tento situar, no tempo, o momento em que comecei a desinteressar-me por ir viajar, localizo facilmente. Primeiro foi o meu sogro com uma doença grave que nos enchia de preocupação, que ia fazer tratamentos, que era preciso acompanhar, visitar, que nos fazia ter receio de nos ausentarmos. Depois, durante esse mesmo período, foi a minha sogra, também muito mal, internada durante bastante tempo, depois em casa, acamada, a precisar de cuidados permanentes. O que esse período nos trouxe a nível emocional e logístico não tem explicação. A seguir, durante esse mesmo período, foi o tremendo avc do meu pai. Aí a nossa vida complicou-se severamente. Eu e o meu marido cheios de trabalho, com responsabilidades que não podiam ser compatibilizadas com a ocupação que nos era requerida, e as preocupações a sucederem-se, umas atrás de outras. As férias passaram a ser apenas no país e fora de casa não mais que uma semana de seguida. E, ainda assim, íamos sempre com o credo na boca. Entretanto, morreu o meu sogro, algum tempo depois a minha sogra. Depois veio a covid, o confinamento, a morte do meu pai, e, quando já apenas sobrevivia a minha mãe, vieram os horríveis problemas com ela, que me iam levando a uma tremenda depressão tal a situação complexa que ela atravessou. Impossível afastar-me. Já lá vai um ano e picos que se foi, já poderia ter recuperado os meus velhos hábitos de nos pormos na alheta, de irmos passear e descobrir outras terras. Talvez um dia. Mas não sei.

Em retrospectiva, lembro-me de quando trabalhava, saindo de manhã e regressando ao fim do dia, os fins de semana sempre tão cheios de visitas e de mil compromissos, sempre sem tempo para usufruir tranquilamente da nossa casa. Agora consigo fazê-lo. Olho para as árvores, sento-me a ouvir os pássaros, rego, ocupo-me da casa, o meu marido ocupa-se com o jardim, lemos, cozinhamos, caminhamos. Tempos muito tranquilos. 


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Desejo-vos um bom sábado

quarta-feira, setembro 18, 2024

A versão dantesca de Sol na eira e chuva no nabal

 

Enquanto noutros países chove que deus a dá, levando tudo à frente, um dilúvio que deixa toda a gente assombrada com a tenebrosa força bruta das águas, por cá está como se tem visto, o fogo inclemente a devorar florestas, matos, casas, carros e, infelizmente, também algumas vidas -- humanas e, mais do que provavelmente, também não humanas.

O calor de brasido, a raiva furiosa das chamas que avançam a uma velocidade medonha, tudo é um pavor.

Por muito que se queira encontrar culpados próximos (e há-os certamente, em primeiro lugar os criminosos que ateiam os fogos), creio que não restam dúvidas de que estamos às portas do mundo que nos espera, em especial as gerações que nos seguirão. 

Medidas estruturais, de fundo, disruptivas, terão que ser levadas a cabo para tentar travar estas alterações no clima pois eventos extremos de calor, de vento, de chuva não podem ser apaziguados com lenitivos.

A woman next to her home in Covelo, Gondomar, northern Portugal. Photograph: José Coelho/EPA

Fotografia integrante do artigo do Guardian: 

Portugal wildfire deaths rise to seven after firefighters trapped in blaze


More than 50 people injured as 54 fires burn across country amid hot, dry and windy weather
(...)

Scientists have said human-caused climate breakdown is supercharging extreme weather across the world, driving more frequent and more deadly disasters, from floods – as seen this week in central Europe – to heatwaves, droughts and wildfires.

Human-caused climate breakdown is making heatwaves more likely and more intense, with some – such as the extreme heatwave in western Canada and the US in 2021 – all but impossible without global heating.

sexta-feira, abril 26, 2024

Foi bonita a festa, pá
25 de abril sempre

 

Um imenso mar de gente em festa, em família, entre amigos. Uma festa intergeracional mas, arriscaria dizer, com uma inédita e inacreditável massa de jovens e de crianças. 

Todas as ruas iam dar ao Marquês. Os relvados da avenida e da rotunda cheios de gente. Muita cor, muita alegria. Gente a cantar, a rir, a abraçar-se, a festejar, a gritar gritos de ordem: um hino à liberdade cantado a muitos milhares de vozes.

Muita emoção, uma emoção contagiante, uma vontade de que as ruas nunca percam a alma, que continuem cheias de gente, que não seja só nos 25 de Abril. As ruas querem-se vivas e alegres. É na rua que as pessoas se encontram, se abraçam, se vêem a rir, que cantam em uníssono. Não é na solidão das redes sociais. É nas ruas. É na partilha, no contacto, na felicidade de estar com os outros que a liberdade e a democracia se mantêm vivas e pujantes.

Em boa hora o meu marido se lembrou de que devíamos ir para a avenida. Estou muito feliz por lá ter estado. 

Desejo que o 25 de Abril se mantenha vivo, cada vez mais festivo, cada vez mais enraizado e pujante, cada vez mais um balão de oxigénio que alimente os nossos quotidianos. E desejo que daqui por 50 anos os meus filhos, os meus netos, os meus bisnetos e trinetos continuem a sair à rua a festejar o dia da Liberdade e da Democracia no nosso querido país.

















































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Nota: Caso algum dos que aparecem nas minhas fotografias aqui não quiser estar, peço o favor de me contactar identificando a fotografia que logo a retirarei

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Galeria de Fotografias do Guardian: clicar (link abaixo) para ver todas

Portugal commemorates the Carnation Revolution – in pictures

Thousands in Lisbon celebrated the 50th anniversary on Thursday of Portugal’s Carnation Revolution, which toppled the longest fascist dictatorship in Europe and ushered in democracy. The almost bloodless revolution was conducted by a group of junior army officers who wanted democracy and to put an end to long-running wars against independence movements in African colonies
Guy Lane
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25 de Abril sempre