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terça-feira, agosto 18, 2026

Os heróis que dormem ao relento nas ruas de Ceuta

 

Tenho a maior admiração pelas pessoas que têm a coragem de emigrar para tentarem a sua sorte num local distante em que, apesar de não conhecerem ninguém e, muitas vezes, nem falarem a língua, acreditam que vão conseguir ter uma vida melhor.

No início do século passado, o meu avô paterno, creio que ainda adolescente, vivendo com a mãe e com duas irmãs (o pai tinha fugido para outro continente, não sei se por dívidas de jogo, se por outro motivo), foi até França e lá viveu algum tempo. Quando eu era pequena, gostava imenso que ele me contasse sobre as aventuras em que se viu metido, e gostava de ouvi-lo a falar francês. Adorava sobretudo a palavra fourchette.

Uma irmã ou irmão da minha avó paterna tenho ideia de que também viveu em França pois uma prima do meu pai tinha um nome francês e creio ter ouvido dizer que tinha nascido em França.

E dois primos do meu pai, irmãos dessa prima de nome francês, quando jovens adultos, resolveram também sair de Portugal, do Algarve mais concretamente, um para França, outro para Austrália. E por lá ficaram, por lá formaram família, tendo filhos que adquiriram essas respectivas nacionalidades. 

Na actualidade, há uns anos, a filha da senhora que ajudou a tratar do meu pai e que depois apoiava a minha mãe foi para a Alemanha, em busca de um futuro melhor. Sem saber falar alemão. Foi para os armazéns do Lidl. Já tinha duas filhas pequenas que inicialmente ficaram com a avó e que depois foram para lá. Integraram-se, adoram lá viver, dizem que o apoio à maternidade e à criação dos filhos é uma maravilha, dizem que nem pensar regressar, que lá as escolas e tudo para as crianças é completamente gratuito. 

Não tenho ideia de que nem os meus familiares nem a filha e as netas da senhora alguma vez tivessem sido maltratadas nos países onde são imigrantes. Nem faria sentido. São pessoas que vão trabalhar, que ajudam na economia desses países.

Aqui há dias estava a ver uma reportagem que decorria em Ceuta e em que se perguntava àqueles pobres coitados de onde eram, como tinham chegado até ali. Uns vinham do Sudão, já tinham passado por não sei quantos países, já andavam naquela 'aventura' há anos. Uns diziam que vinham a fugir à guerra e à miséria. Outros eram jovens, diziam que não tinham emprego na terra deles. Um dizia que gostava de poder vir a ser professor de línguas. 

Corajosos. Lutadores. Guerreiros.

Eu, se fosse empresária, arranjava maneira de contratar o maior número possível deles. Gente rija, valente, determinada, gente que dará certamente valor ao que tem, gente que fará de tudo para se progredir, para ter uma vida com futuro, gente que quererá ou trazer a família ou constituir a sua própria, gente que se integrará, gente que corre atrás dos seus sonhos, gente destemida. Sinto a maior admiração por estas pessoas.

Em contrapartida penso que aquelas mulherzinhas toscas, ignorantes mas armadas em sabichonas, umas broncas que deveriam ter vergonha de abrir a boca em público, e que para aí andam a formar movimentos de mulheres parvas e a palrar quer nas redes sociais quer também nas televisões que perderam a vergonha na cara, são umas imprestáveis. Não daria emprego a uma única delas. Fúteis, parvas.

E quem diz essas mulherzinhas diz esses políticos aldrabões, sarrafeiros encartados. Nenhum se aproveita. E se agora ganham dinheiro a espalhar aldrabices e veneno porque alguém, mais ignorante e parvo que eles, os elegeu ou porque as televisões andam de cabeça perdida a querer ganhar audiência com gente medíocre que 'dá canal', uma coisa me parece óbvia: é gente a quem nenhuma empresa ou organização normal, em que se queira gente capaz de trabalhar, dará emprego. São umas nulidades.

E, claro, por cada burro e alarve que se arma em tribuno e desata a espalhar aldrabices, há uma horda tão ou mais bronca que os apoia.

Se os países fossem governados por gente de bem, face ao drama que se vive em tantos países em que há guerra, há miséria e poucas perspectivas, o que me pareceria inteligente seria avaliar de que mão de obra há falta por sector e abrir a porta aos que desses países queiram vir. 

E, neste caso em concreto de Ceuta, ao mesmo tempo deslocaria emissários para lá e faria um levantamento da sua formação, da sua experiência profissional, das suas aptidões, dos seus sonhos. E tentaria arranjar uma solução, um match, distribuí-los-ia pelos destinos em que serão úteis. A Europa está envelhecida, com falta de mão de obra e com falta de sangue novo. Estas pessoas poderiam ajudar a colmatar esse défice.

Claro que a integração tem que ser planeada e bem pensada. Mas aumentar a população com gente nova, que vai ter filhos, que vem trabalhar, é do que Portugal e outros países europeus estão a precisar. Claro que Portugal, que já tem um grave problema de falta de habitação social, tem que urgentemente lançar ambiciosos programas de construção de habitação social, barata. Peguem em quartéis abandonados, em prédios devolutos ou construam de raiz. Não haverá dinheiro melhor gasto do que o que for investido na integração digna de todas estas pessoas que mantêm a nossa sociedade a trabalhar e que não têm onde dormir, onde tomar banho, onde criar os filhos como deve ser.

E em cada cidade em que haja uma força significativa de mão de obra imigrante eu faria questão de ter arte pública em honra a eles: uma escultura, um mural, o que fosse. Estas pessoas que atravessam guerras, fronteiras, que vêm a nado sem mais nada a não ser a roupa que têm no corpo e um telemóvel embrulhado em plástico são uns heróis e como tal devem ser louvados. E teria todos os anos, um dia do imigrante, um dia de festa, de celebração da mestiçagem, um dia que fosse um abraço.

Não tenho medo dos imigrantes, dos pobres, dos que têm uma pele diferente da minha. Pelo contrário, sinto-me agradecida, sinto-me em dívida, admiro-os.

Pelo contrário, sinto um profundo desprezo pelos cobardes que não apenas não reconhecem o quanto devemos a estas pessoas como, ainda por cima, não reconhecem como elas são corajosas, como conseguem trabalhar no meio de nós vivendo no limiar do cansaço, no limiar da indignidade, sem condições de vida minimamente aceitáveis.

Tenho muita pena que este mundo, em vez de se tornar cada vez mais inclusivo, com mais demonstrações de compaixão e de generosidade, seja, pelo contrário, um mundo em que prevalece a cobardia, a ignorância, a estupidez.

Não se pense, contudo, que o modelo de integração que defendo é o que resulta de movimentos caóticos (e maldosamente orquestrados por gente sem escrúpulos), do tipo da 'invasão' que aconteceu em Ceuta. Claro que não. Tudo deve ser planeado, articulado.

Mas tendo acontecido a desgraça que aconteceu, com tantos deles vindo ao engano, acreditando que as portas estavam abertas, que agora não se demonizem, que se apoie aquela gente, que se tente arranjar uma solução. São pessoas como nós. Certamente muitos deles, pela sua extraordinária coragem e pela sua imensa capacidade de arriscar, arriscar a própria vida, para atingirem o sonho de um futuro melhor, são melhores do que muitos de nós, que estamos acomodados, sempre prontos para renegar os que vêm de fora, sempre prontos para ir na conversa dos ignorantes e dos estúpidos que apelam ao medo em vez de apelarem à compaixão.

Parte-se-me o coração ver como aquelas pessoas estão agora a viver, fico em lágrimas quando os vejo a falarem da fome que passam, do frio que sentem à noite, quando referem que as famílias nem sabem por onde eles andam -- e, apesar de tudo, como ainda continuam a querer viver na Europa. 

E só penso: o que podemos fazer para os ajudar?

segunda-feira, agosto 10, 2026

Um dia com cantorias, bela comida e milagres e experiências novas. E, agora à noite, em descaminho, comento um comentário do outro dia.

 

Os Leitores que comentam são sempre bem vindos mesmo quando comentam parvoíces e me forçam a esconder o que escrevem. Foi o caso de ontem. Estavam danadinhos para a brincadeira. Esticaram-se cá de uma maneira. Tive que os deixar de castigo, claro. 

Outras vezes escrevem coisas que me parecem surreais, tão surreais que nem sei o que responder.

Acresce que tenho andado com o problema do computador. Uns fanicos que não se entendem. Este domingo, quando o liguei, nada. Nada. Não estava falecido que eu bem via uma little luzinha bruxuleante a circundar o botão (Mr. Jorge de Sena, chapeau). Mas nada. Escuridão absoluta. Com a ajuda do Gemini, fui tentando fazer manobras de reanimação. Reset energético, nada. Acordar a placa gráfica, nada. Reactivar a partir do botão de arranque de reserva, nada. Sei lá que mais. Nada. Nada. Sugestão: levá-lo de novo ao lugar de onde veio (mal) reparado.

Agora imaginem. Sem carro. 

E estamos na época dos leões. Uma das hipóteses era fazer os festejos cá em casa. Mas sem mantimentos para tanta gente e sem carro para ir ao supermercado, como? Compras online, dir-me-ão. Mas não é de um momento para o outro, certo? Portanto, fomos nós os convidados. Ou seja: programa de festas -- Ir a umjantar de aniversário e antes ir levar o computador de volta à oficina.

Uber. Pela segunda vez na vida, uber. Tudo bem. 

Chegámos à oficina dos computadores. Tiro o desfalecido paciente do saco, ponho-o no balcão, descrevo a situação: veio ontem de cá, tenho aqui a guia da reparação, e hoje não arranca nem por mais uma. Nada

"Vamos lá ver", diz o rapaz. Abre a tampa e... o computador normal, a funcionar. Juro: a funcionar!

Estão a ver a minha cara? 

Estão a ver a cara de gozo do meu marido? No caminho veio a gozar e a dizer que eu tinha carregado no botão errado. Como errado? Não há erro possível: só tem um botão. E, aliás, nem é preciso carregar em botão nenhum, liga-se mal se levanta a tampa.

Explicação? Não tenho. O rapaz diz que é como quando é para ir ao dentista, passa logo a dor de dentes.

Depois era para ir para casa do aniversariante. Pensámos: Uber? Ou a pé? 

Resolvemos: a pé. Coisa para uma meia hora. Faz-se bem, pensámos.

O pior foi para sair de lá a pé. Pela primeira vez na vida estavamos ali a pé. Sempre para lá fomos de carro. 

Parecíamos, certamente, uns saloios. A olhar para todo o lado sem saber para onde ir, muito menos como apanhar a estrada por onde era suposto irmos (a pé). Tudo vedado. Um trânsito do caraças em volta. Canteiros, bancos de jardim, e junto às estradas tudo vedado. Para mais acima, tudo vedado. Em direcção à outra rotunda: tudo vedado. Resolvemos, então, ir à papo-seco. E, atravessando aqui e ali, lá demos connosco do outro lado e lá iniciámos o caminho. De saco ao ombro, com o computador lá dentro.

'Porque não pediram boleia? Porque não chamaram um uber?', perguntaram-nos quando lá chegámos Mas não, uma bela caminhada. Experiências novas.

O jantar estava óptimo, a companhia o melhor possível, a cantoria uma animação, a divertida toilette do aniversariante um espectáculo (dentro do género, claro). Sempre uma festa.

De volta a casa, de novo uber. O preço muito mais alto. É a lei da procura e da oferta, disseram. Claro, pois então. Queixei-me: um balúrdio, isto. Encolheram os ombros, acham que é o que faz viver afastada da realidade.

Correu bem com o insignificante senão de não conseguirmos abrir a porta, quando o carro lá foi ter connosco para nos apanhar. Nunca tínhamos andado num carro daqueles, o fecho invisível, a forma de funcionar do puxador deveras atípica. O meu filho estava à varanda, perdido de riso. Mas entrámos. E viemos cá dar. É o que interessa.

Há pouco, liguei o computador. Vinha com o credo na boca, receosa de que estivesse outra vez em greve. Mas não. Em contrapartida sem rede, sem acesso às redes, a qualquer rede. Praguejei mentalmente. Not again, filho da mãe. Reiniciei-o. Aleluia. Funcionou.

Amanhã será a saga do carro. Pelouro do meu marido. Todos nos dizem: comprem outro. Não concordo. Estou cada vez menos consumista. Quando trabalhava, de três em três ou quatro em quatro anos, andava com carro novo em folha. Zerinho. Se havia problema, arranjavam-me carro de substtuição, se era preciso garagem, um motorista levava. Nunca me preocupava com tal coisa. Com o meu marido era o mesmo. Agora é toda uma outra cena, transtornos e obrigações por nossa conta.

Por mim, usava o mesmo carro durante mais vinte anos. Quando digo isto, o meu marido, alerta: 'Não te esqueças da idade que tens'. Mais uma razão. 

Ao passo que os meus colegas vibravam com os carros, escolhiam e reescolhiam, avaliavam, faziam testes, discutiam e analisavam entre eles, viam os acessórios e sei lá que mais, eu era assim: 'o que é que há para entrega?'. Ou 'o que é que há em escuro, de preferência preto?'. Depois, quando vieram as modernices, o requisito era outro: 'o que é que há que ainda tenha mudanças?'. Um castigo, já era tudo automático, e automático eu não queria, fazia-me confusão conduzir sem os 3 pedais e sem as mudanças. Portanto, estão a ver, não quero cá saber de carros xpto nem de carros novos. Tenho esperança que a avaria deste seja simples e que o carro dure pelo menos mais os ditos 20 anos. Mas, de preferência, mais que isso.

Mas, voltando ao tema dos comentários. 

No outro dia, alguém escreveu isto: 

"Por aí...até acho que o que Costa fez com a imigração em massa foi um crime. Em quatro ou cinco anos fez entrar nesta terra cerca de um décimo de população. O dobro dos retornados em 1975. Pior ainda, imigração que na larga maioria não serve para nada em tempos de revolução no trabalho com a automação e a IA. Os empresários agrícolas alentejanos precisam de gente para apanhar fruta? Vejam o youtube e a maquinaria inteligente que já por aí há. Precisamos sim de mão de obra qualificada. Mas essa ou não vem para cá ou está na sala de partidas do aeroporto de Lisboa." 

E eu li e pensei que devia ir buscar os óculos, não devia estar a ler bem. Então esta pessoa ainda não viu quem é que está a manter os hotéis e os restaurantes a trabalhar? Acha que poderia prescindir destas pessoas, em favor de malta das IAs? Ou não sabe quem é que lava e desinfecta os hospitais e quem é que dá banho e muda as fraldas a doentes e idosos em hospitais e lares? Acha que é malta das IAs? Ou já viu quem é que trabalha nas obras? É a malta das IAs?

Mais: este comentador não sabe quais os empregos mais sacrificados com a IA? Não sabe que é a malta formada, engenheiros, arquitectos, advogados, informáticos, gestores, financeiros, etc? Não sabe que a malta do trabalho braçal é a malta que se vai safar?

Se não sabe, então faça o favor de se informar. Ora veja.

Em que mundo vive esta pessoa e todas as que condenam a imigração? Não conseguem perceber que grande parte dos sectores económicos assentam em mão de obra que já é, na maioria, imigrante, e que, se deixar de existir, lá vai a economia para o galheiro? Qual IA qual carapuça nas actividades em que a mão de obra imigrante hoje trabalha... E se não forem eles quem é? Temos cá gente em número suficiente para se ocupar destes trabalhos? Claro que não. 

A minha filha costuma passar uma semana num turismo de habitação que este ano não conseguiu manter-se aberto no regime habitual porque não tem quem faça o trabalho, os pequenos almoços, etc. Não arranjou ninguém.

Eu, no meu latifúndio campestre, em que caíram carradas de árvores e pernadas, ainda não consegui tirar de lá grande parte daquilo porque não arranjamos quem o faça. Há lugares em que a imigração ainda não chegou e em que não se arranja ninguém para fazer este género de trabalhos pesados e debilmente remunerados. Dirão os mais simples de espírito: pague-se mais. Não resolve. As pessoas que há são pessoas de idade, que já não são capazes de trabalhos mais difíceis, ou pessoas que estão a trabalhar, sem tempo livre para uma segunda ocupação.

Tudo isto me parece óbvio. Mas, então, porque é que ainda há tanta gente com medo dos imigrantes? Em vez de estrem agradecidos (eu estou), falam mal deles, querem vê-los pelas costas. Estupidez? Deficiente informação? Espírito caguincha, medo de tudo?

Ainda não leram sobre a preocupação que vai nos Estados Unidos com os industriais a queixarem-se do abrandamento económico por falta de mão de obra, nomeadamente imigrante?

Há gente que tem uma mente tão fechada e tão deformada que nem consegue raciocinar, vivem alimentados pelo medo, medo dos imigrantes. Como se nós, portugueses, não fossemos imigrantes em todos os países por onde nos espalhámos. 

Caraças. Coisas tão simples de perceber.

Bem.

Fico-me por aqui. O dia foi longo (bom! -- mas longo).

Tenham uma bela semana, ok?

quinta-feira, julho 02, 2026

O Leitão, o Ventura, a Ramalho e o Alexandre ou a "liga dos sem vergonha", sem esquecer, bem entendido, a Dona Ana Paula e o chefe deles todos, o Luís
-- E, finalmente, eis que o senhor meu marido se dignou, de novo, a dizer de sua justiça --

 

Ouvir um tipo que é jurista e deputado dizer que o governo não deve cumprir uma ordem do tribunal é assustador e chocante. Assustador porque percebemos que a extrema direita se sente com poder suficiente para fazer este tipo de afirmações, chocante porque apesar desta e de outras afirmações semelhantes ou piores, muita gente vota neles. O Ventura é o Trump cá do burgo. Populista, demagogo, xenófobo e autocrata -- e podem ver pelo que tem acontecido no EUA e no Mundo o desastre que é eleger um tipo com esta natureza. Devia servir de vacina e ninguém votar num tipo sem um pingo de vergonha! 

Mas neste cantinho à beira-mar plantado temos outras aberrações semelhantes. 

As afirmações que o "Lentão" Amaro fez recentemente sobre a imigração confirmam que a xenofobia e a direita mais populista ocupam lugares de relevo no governo. Ter um ministro que, das duas uma, ou não tem um mínimo de conhecimento da realidade ou mente descaradamente é uma vergonha para quem os elegeu, para quem o escolheu e naturalmente para o próprio. 

Outro elemento do elenco governativo que se pauta por uma enorme falta de vergonha, basta relembrar as mentiras que foi dizendo para suportar as suas tentativas legislativas discriminatorias e com cheiro a direita saudosista é a Palma Ramalho. É preciso não ter vergonha para fazer o que tem feito mas, é preciso ser verdadeiramente desavergonhada para manter a reforma da lei laboral na agenda após 12 meses de negociação e namoro ao Ventura que no final redundaram no colossal fracasso que conhecemos. Como é possível tanta falta de razoabilidade e de vergonha!

Não procurando ser exaustivo sobre os membros do governo que fazem parte da "liga dos sem vergonha" e sendo óbvio que o PM e a ministra da saúde são sócios desde a primeira hora (como é possível a ministra ter gasto mais 21% na saúde, termos atingido o caos atual e não ser corrida?) tenho que referir mais um que está de corpo e alma na liga: é o rapaz da Educação. O Alexandre depois de torrar dinheiro em tudo o que dava chatice decidiu tentar fazer umas coisitas que não correram nada bem. Desde os números sem fundamento relativos ao número de alunos sem aulas, referidos pelo ministro até à vergonha que é o atual processo de correção dos exames, existem bastas razões para incluir este ministro em lugar de destaque na "liga dos sem vergonha".

Mas tenho que voltar à da Saúde. Com estes calores extremos, o que ouvimos à que nunca mais é ex é que alerta para o aumento da mortalidade. Mas alguém morre porque quer? O que é isto de alertar para a o aumento de mortes? Não passa pela cabeça da Ana Paula Martins que o que ela tem que fazer é dar conselhos práticos, é informar sobre medidas concretas, é fazer com que haja meios para minimizar insolações ou para acudir rapidamente a quem se sinta mal? O que mais esta senhora tem que fazer de mal para que o Luís perceba que mantê-la é caso quase de alarme social?

E é destas vergonhas que se vai fazendo uma parte da politica em Portugal. Que vergonha!

sábado, abril 04, 2026

Dois anos de governo AD e viva a mediocridade dos governantes
-- Como sempre, o meu marido não lhes dá descanso... --

 

Ontem, o Luís veio informar-nos que, após dois anos de governo AD, o País está melhor. 

Provavelmente só ele e os seus aficcionados é que deram por isso. Aposto que o pessoal, quando vai ao supermercado, quando enche o depósito, quando tenta arranjar uma casa ou quando não obtém resposta no SNS, pensa exatamente o contrário: o País está pior. 

  • Este governo conseguiu a proeza de diminuir em 2025 o PIB per capita dos portugueses de 82,4 por cento para 81 por cento do valor médio da UE e conseguiu também que a posição de Portugal no ranking do poder de compra passasse do vigésimo primeiro lugar para vigésimo segundo. Diria que a isto se chama andar para trás. 
  • O SNS piorou como nunca antes tinha acontecido, chegando-se ao cúmulo de ocorrerem partos em sítios inimagináveis, incluindo em plena rua. 
  • Os alunos sem aulas continuam mais do que muitos, sem que o ministro saiba dizer, ao certo, quantos são. 
  • Os preços da habitação dispararam. Portugal foi o País em que os aumentos na habitação foram maiores. O exemplo acabado do insucesso das políticas do governo para a habitação e a confirmação de que foram atingidos resultados opostos aos pretendidos é que 28 por cento dos contratos celebrados pelos jovens originam um taxa de esforço entre 40 e 50 por cento. 
  • O combate aos incêndios foi um desacerto total. A resposta às calamidades recentes revelou a total inoperância e ineficiência do governo. Mesmo as medidas de apoio que foram anunciadas não chegam aos destinatários apesar de todas as promessas do governo. 
  • As polícias voltaram a marcar protestos.
  • E os professores também voltaram a ouvir-se. 
  • A justiça continua inoperante, intrusiva, demorada e com agenda própria. 
  • O crescimento do País foi menor que o crescimento dos anos anteriores e, embora se mantenham os resultados positivos face ao orçamento, eles são menores do que no governo anterior. 
  • Para cúmulo dos cúmulos o governo não toma as medidas necessárias para responder à crise atual, que tende a agravar -se,  mas que o governo parece ignorar. Compare-se as tíbias medidas que o Luís anunciou -- tíbias, remissas, frouxas e de perna muito curta -- com as que Pedro Sánchez anunciou em Espanha. Face à inoperância deste Governo é de temer o pior.

Contra factos não há argumentos. Mas lá virão os aficionados do Luís dizer que o governo pode ter falhado nas situações mais críticas mas teve um desempenho positivo nas áreas da segurança e da imigração. Pois, pois .... 

Na imigração, a AD andou a seguir a agenda do Chega para resolver um problema sem grande dimensão mas muito amplificado pelo Chega. 

Na realidade, foi graças aos imigrantes que a economia cresceu e que vários sectores de actividade não pararam. Não esquecer os 3,2 mil milhões de euros positivos que resultam da contribuição dos imigrantes para segurança social. 

Hoje o problema é a falta de mão de obra imigrante para dar andamento a muitas obras. É o resultado da politica do governo. 

A seguir, para desviarem as atenções dos falhanços, vieram com a lei da nacionalidade. De facto, temos um problema gravíssimo com os dois mil e setecentos pedidos de nacionalidade por pessoas vindas do Industão (e, obviamente, estou a ser irónico). Já basta o que basta, tratem do que é importante. 

Quanto à segurança, o último RASI é elucidativo. Foram verificados 85.000 imigrantes e só 1 por cento estava irregular. Em contrapartida, os crimes relacionados com redes ilegais de imigrantes aumentaram 250 por cento. O governo foi avisado que era o resultado esperado da política que queria seguir mas não deu ouvidos a quem tinha razão. Os crimes relacionados com a droga e com a violência doméstica, isto sim um verdadeiro flagelo que é preciso combater, também aumentaram. Portanto, não se pode dizer que os resultados na área da segurança sejam os melhores. 

Enfim, é muito difícil encontrar algo de verdadeiramente positivo na actuação do governo e só alguém vindo de um planeta muito distante poderá dizer que o País está melhor. Atendendo a que estamos na época pascal (feliz Páscoa para todos) apetece-me escrever que presunção e água benta cada um toma a que quer. No caso vertente, o Luís toma carradas e carradas de presunção.

quarta-feira, dezembro 31, 2025

Montenegro & Ventura - a dupla de circunstância ou o controlo de fronteiras
-- Na despedida de 2025, de novo a palavra ao meu marido --

 

Conforme planeado (ironia, claro!) e em linha com a política seguida, o governo, superiormente "governado" pelo Luís, decidiu, pelo menos nos próximos três meses, deixar de utilizar o sistema informático de controlo de entradas de extra comunitários. A EU não gostou. Pudera! E eu não percebi. 

O que me surpreende é que, a ao contrário do que faria há dois ou três anos, o Luís não ande por aí a gritar aos quatro ventos contra esta medida, que o "Lentão" num ataque de histeria não se insurja contra esta decisão, que o Hugo Soares não vocifere com a má-criação habitual, acrescentando uma boa dúzia de palavrões, contra esta desorientação e que last but not least a D. MAI não seja despedida com justa causa. 

Mas ainda é mais surpreendente que o Andrézito não fale agora de política de "portas escancaradas" e de "bar aberto", que não contrate mais dez seguranças para garantir que não é violado por um extra comunitário e que, no mínimo, não tenha um, senão, dois fanicos. Aposto que ainda vem dizer que os "bandidos" vão respeitar a decisão e não vão ousar pôr cá os pés. Será que existe um plano de cessar fogo secreto entre o Luís e o Andrézito que foi mediado pelo Trump e relativamente ao qual este último ainda vai dizer que foi mais uma guerra com que acabou? É pena é que quem vota ainda não tenha verdadeiramente topado esta malta que nos governa. Haja dó para tanta incompetência e desfaçatez!

sábado, novembro 29, 2025

Em dia de debate entre a combativa Catarina Martins e o velhaco Ventura Martins, prefiro falar nos invisíveis que constroem e mantêm o mundo.

 

Isto há coisas do caraças. Reparto-me entre dois computadores, um com uns problemas, outro com outros, e, para ajudar à festa, também entre o telemóvel.

Comecei a escrever o post num computador e, depois, mudei para outro. Escrevi sobre o debate, comparei a combatividade da Catarina com a do Totózé Seguro, mostrei o meu descontentamento pela pulverização dos candidatos de esquerda, insurgi-me contra a conversa miserável do Ventura, sempre a armar peixeirada e a apelar ao que de pior a população tem. A propósito dos imigrantes, falei da minha família, uns por cá e a maioria perdida pelo mundo.

Enfim, pintei a manta. Um post longo e com uma componente pessoal. 

E publiquei.

Passado um bocado, distraidamente, voltei a pegar neste computador. Não me apercebi que tinha apenas uma coisa de nada e, automaticamente, antes de fechar o computador, fechei as janelas abertas e devo ter feito um save no post na sua versão embrionária.

Só há minutos me dei conta que anulei tudo o que tinha escrito e republicado o post, na sua forma de desinteressante girino. Fiquei passada. Caraças. Mas passa das duas da manhã, não vou pôr-me para aqui a tentar relembrar-me de tudo o que tinha escrito. Agora que fiquei f da vida, fiquei. Nunca me tinha acontecido uma destas. Que estupidez a minha. Desmiolada, cabeça no ar. Caraças. Agora nem se percebe a que propósito vem este vídeo. Mas vejam-no, por favor. É muito interessante. E desculpem lá isto.

Almoço no topo de um arranha-céus: a história por detrás da foto de 1932 | 100 fotos | TIME

Não sabemos os seus nomes, nem o fotógrafo que os imortalizou, mas estes homens a almoçar a 240 metros de altura mostram o espírito audaz por detrás da expansão vertical de Manhattan..

quarta-feira, julho 16, 2025

Sobre a demolição de barracas

 

Vi, estarrecida, imagens horríveis de barracas a serem destruídas sem que qualquer solução fosse apresentada aos seus habitantes e destruído ficou o meu coração ao pensar na aflição daquelas pessoas. 

Fotografia de José Fonseca Fernandes

Hoje disse aos meus netos que se me saísse muito dinheiro no euromilhões, pegaria em parte do dinheiro e estudaria em conjunto com algumas das autarquias em que o drama é maior qual a forma mais expedita de dar casas com conforto e dignidade às pessoas que vivem em condições miseráveis.

Custa-me conceber que, por exemplo, se arranje dinheiro a rodos para a Defesa ou dinheiro para jorrar sobre os médicos do SNS (médicos ditos 'tarefeiros' num daqueles expedientes para fugirem ao fisco e a todo o tipo de controlo -- enquanto estupidamente se continua sem se perceber que o tema da Saúde tem que ser 'agarrado' a sério por gente competente) ou dinheiro aos montes para fazer cartazes que poluem as estradas e as rotundas de cada vez que há eleições ou, nas autarquias, dinheiro a perder de vista com assessores e parasitas partidários e, depois, não há dinheiro para encontrar uma solução para estes pobres coitados que não conseguem um tecto seguro e legal para se acolherem.

Não há muito vi fotografias de um parque de campismo gigantesco na Costa da Caparica. Não parecem tendas, parecem casinhas, ou tendas de campanha, não sei bem, todas iguais. Disseram-me que muitas pessoas vivem ali todo o ano. Perguntei se não poderia ser uma solução para instalar com um mínimo de conforto e dignidade as pessoas que hoje vivem em bairros clandestinos. Responderam que o problema destas soluções é que, em vez de provisórias, soluções assim tendem a ser definitivas. Claro que não sei qual a melhor solução mas parece-me que qualquer solução é melhor do que a indiferença perante a aflição de quem não tem onde viver, de quem não tem uma morada, de quem não tem onde se lavar ou de quem não tem um mínimo de condições decentes para ter filhos.

Não sei se o PRR previu verbas para alojar as muitas pessoas que, tantas vezes vindas de longe, tantas vezes completamente desenraizadas, desaculturadas, vulneráveis, e, ainda assim, trabalhadoras, não têm outra solução senão juntas chapas, cartões e o que encontram para fazer um abrigo mais do que frágil, mais do que impróprio para um ser humano. Se previu, previu pouco e virá tarde de mais. Se não previu, os irresponsáveis que não pensaram nisso deveriam ser corridos.

Há tempos vi uma reportagem com prédios devolutos que pertencem ás Forças Armadas. De que se está à espera para lá instalar pessoas? E quem diz isso diz muitas outras casas do Estado. Ou da Igreja. 

Marcelo, que tanto falava dos sem-abrigo, já se esqueceu? Ou só se lembra quando as televisões o filmam a distribuir a sopa dos pobres? Quanta hipocrisia.

E já nem falo no cagalhoças do Moedas, essa anedota que para aí anda a armar-se em bom. Mete-me nervos de cada vez que o vejo: um saquito cheio de nada, um daqueles sacos pequenos para apanhar o cocó de cão. Obra feita, zero. Real sensibilidade e capacidade de acção para o que é preciso, zero. Só conversa fiada, só, só.

E o de Loures, com aquela vereadora, insensível, empedernida, gente desalmada, que nervos que também me dão. Caraças.

Enfim. Fico-me por aqui. Sinto-me verdadeiramente impotente perante a desgraça desta pobre gente que precisa urgentemente de habitação social. Estão a trabalhar para nós. Não podemos ignorá-los nem deixar que vivam como animais. Neste caso o tema não é o arrendamento acessível nem sem ser acessível pois estamos a falar de pessoas que primeiro precisam de se organizar, de se estabelecerem decentemente, só depois se pensa em como poderão pagar alguma coisa -- neste caso o tema é mesmo alojamento social, urgente, dar tecto e meios de higiene, dar uma morada e uma ajuda àquelas pessoas, permitir que sejam cidadãos de pleno direito.

sábado, julho 05, 2025

Um mau governo
-- A palavra ao meu marido --

 

O Montenegro foi a primeira vez para o governo porque prometeu resolver os principais problemas do país e saiu reforçado na segunda eleição porque os portugueses terão ficado minimamente contentes com o que fez, muito provavelmente porque não eram fãs do Pedro Nuno Santos e porque a acefalia ainda não era um mal generalizado que pudesse dar o primeiro lugar ao Ventura. 

Os principais problemas do país apontados pelo Montenegro, bandeiras da campanha eleitoral e sobre os quais zurzia o PS, eram a saúde, a habitação, a educação, os incêndios. Para seguir a agenda do Ventura também levantou os pseudo problemas nacionais da segurança e da imigração. 

Ao fim de um ano e tal de governo, conseguiu o governo Montenegro resolver minimamente estes problemas? 

Não, não conseguiram! 

Senão, vejamos. 

O que está a passar-se na saúde -- cujos problemas Montenegro anunciou, antes de formar o seu primeiro governo, que seriam resolvidos em 60 dias --, é uma tragédia, a situação piora todos os dias e os resultados da política deste governo são assustadores em todos os aspectos. Com as tragédias que tem acontecido, como é possível que a ministra e o Montenegro não tenham um pingo de vergonha e a ministra não se demita ou não seja demitida? 

E, para variar, o Marcelo, sempre tão interventivo noutras ocasiões, agora mantem-se de bico calado. Que vergonha. A incapacidade do ministério chega ao ridículo de contratarem para o INEM uma empresa para fazer o transporte de doentes de helicóptero que não tem helicópteros nem pilotos. Inimaginável. Ninguém se demite nem é demitido? Pior é impossível. 

Depois de tudo o que aconteceu na saúde no último ano, a ministra continua. Diz que não se demite porque quer resolver os problemas, mas de facto só os agravou. Não se demite porque, como parece e muita gente o afirma, o objetivo não é resolver os problemas da saúde: é privatizar a saúde e o resto é paisagem. Como é  possível que os interesses dos lobbies da saúde se oponham aos interesses dos portugueses?

Relativamente à habitação, o governo conseguiu, com as medidas que tomou, aumentar de forma absolutamente insuportável o preço das casas. É certo que os jovens ricos, ou os pais por eles, compraram mais casas à conta das medidas do governo. Mas resolver o problema da habitação não é ajudar os que têm mais dinheiro. É exatamente o contrário. É criar condições para que quem tem menos rendimentos consiga ter uma habitação condigna. Exatamente o contrário do que foi feito pelo governo. 

Na educação iam resolver o problema de haver alunos que não tinham professores pelo menos a uma disciplina. O brilhante resultado foi haver 1,4 milhões de estudantes que não tiveram professores pelo menos a uma disciplina. Mais um "sucesso" do governo. 

Relativamente aos fogos, a área ardida triplicou. Obviamente mais um problema que não foi resolvido.

Relativamente à segurança, como era um pseudoproblema, nada foi feito e daí não veio mal ao país. 

A política do Governo não tem nada a ver com os reais problemas da imigração (a sua integração, terem habitação, educação para os filhos, saúde, etc). O objetivo é ultrapassar o Chega, se possível pela direita, e ganhar votos. Lamentável. 

Para atirar poeira para os olhos da malta e os jornais não falarem naquilo que não interessa ao governo lembraram-se de propor uma nova lei da nacionalidade que ainda por cima parece que é inconstitucional e que não era sequer tema. Aprenderam com o Trump. 

Em resumo, não resolveram nenhum dos problemas importantes que se propunham resolver. Mandaram a ética e os valores para as urtigas e criaram novos problemas e clivagens na sociedade. Infelizmente, parece ser disto que a maltinha gosta. A esperança em melhores dias já não é grande. O populismo através das redes sociais está a criar uma massa amorfa que não questiona e que não pensa, apostando no perceptível e esquecendo o essencial. 

É o que temos.

terça-feira, junho 17, 2025

3 postais

 

Postal 1

Quando, à tarde, fazemos caminhadas alargadas, por vezes cruzamo-nos com jovens que vêm de algumas obras e vão apanhar um autocarro lá mais ao fundo. Todos negros, pele absolutamente negra, 

Fico sempre agradada com o seu perfume. Cheiram a banho fresco, a cuidados com o corpo e com o rosto. 

Fico a pensar que devem dormir em bairros clandestinos, se calhar sem casa de banho, em casas frágeis e temporárias, ou em quartos, se calhar vários colchões no chão. Nas obras devem ter possibilidade de tomar banho e de se arranjar. Vêm bonitos, bem arranjados.

Devemos muito a estas pessoas que fazem as nossas casas e arranjam as nossas estradas e jardins e que vivem tão precariamente. Pessoas como nós.


Postal 2

Íamos a caminhar à beira da praia, sempre linda e ainda mais ao entardecer. 

À nossa frente ia um jovem alto e robusto, encorpado, aspecto de jogador de rugby. Vinte e muitos, trintas e poucos anos, pernas grossas, peludas, todo ele robusto e musculado, mas sem ser daquele género de ginásio, mais o género desportista de desporto de equipa. Cabelo curto um pouco despenteado, barba. Vestido casualmente, risonho, bem disposto. 

Ao lado dele, um outro jovem em tudo o oposto. Mal chegava ao ombro do calmeirão, perninhas fininhas, todo ele magrinho, um cabelo fino, algo esvoaçante, óculos brancos, graduados. Para acompanhar a passada firme e larga do grandão, o magrinho parecia uma frágil libelinha quase saltitando em volta. Ao ir atrás deles, pareceu-me reparar que, de vez em quando, as mãos quase se tocavam. Conversavam, riam, de vez em quando abrandavam ligeiramente, parecia-me que o grande lenhador percebia que o outro estava com dificuldade em acompanhar a sua passada ampla. 

Perguntei ao meu marido: 'Não é um casal, pois não?'. O meu marido ia focado no nosso cão e noutros pois há sempre quem deixe os seus sem trela e há que evitar encontros destes, pois facilmente tendem para o confronto. Olhou de relance e foi categórico: 'Não!'. 

Mas, nessa altura, pararam ambos, o mais baixo agarrou a cara do grandalhão, pôs-se em bicos de pés e deu-lhe um beijo na boca. O outro correspondeu. Deve ter sido o primeiro beijo pois desataram a rir como se tivessem dado um grande passo, depois abraçaram-se. Depois, prosseguiram de mão dada, o magrito quase esvoaçava de alegria. O grandão sorria também mas de forma contida, quase como quem não quer a coisa. 

Tomara que não seja apenas um namoro de verão, que seja um amor para a vida.


Postal 3

Passou por nós um homem gordo a andar de bicicleta. Ia de calções e tshirt mas, pela forma como ia sentado e pela sua forma avantajada, ia com o rabo meio de fora. Ao lado dele, correndo, preso por uma trela, um cão. 

Quando me cruzei com ele pensei que estava com ar de ir com os copos. 

Passado um bocado, já mais adiante, um estrondo, um grito. Olhámos. O homem estava no chão, a bicicleta caída, e o cão, solto, muito admirado a olhar para ele. O homem deu outro grito pelo cão, mas o cão estava imóvel., notoriamente assustado com a queda do dono. 

Parámos para vermos se era precisa ajuda. O homem, a custo, tentava levantar-se. Mais uma vez fiquei com a sensação que não estava especialmente sóbrio. O cão aproximou-se, arrastando a trela. Finalmente, o homem conseguiu montar-se outra vez na bicicleta, o rabo ainda mais de fora. E lá prosseguiu, meio aos esses. O cão ao lado, a levar o dono à trela.

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Dias felizes

Be happy

sábado, dezembro 21, 2024

Alô, alô Presidente Marcelo Rebelo de Sousa! Vai permitir que o Mentenegro e tutti quanti do mesmo calibre continuem a envergonhar os portugueses, a semear um clima de desconfiança e a enlamear a boa imagem de Portugal?

 

Ontem, pelo que devem ter percebido, não vi televisão nem li notícias. 

Pois bem, eis que hoje, ao conectar-me ao mundo, sou surpreendida com uma imagem infame: não sei quantas pessoas, uma rua inteira, de mãos contra a parede. 

Nojo.

Inaceitável.

Uma vergonha.

Acho bem que a polícia ande na rua a impedir o tráfico e o consumo de droga a céu aberto. Acho que isso deveria ser constante. Constante, repito. Mas de forma discreta. E a par com a garantia de que há lugares para que os consumidores de drogas pesadas possam ser encaminhados para salas de chuto e, desejavelmente, tratados e acompanhados.

De resto, todo o policiamento, seja pelo tráfico de droga, seja pelo furto ou ou por outras práticas indevidas deve ser proporcional às necessidades, discreto, digno, humano. 

O que as imagens demonstram é o oposto de tudo isso. O que as imagens mostram é inaceitável, é uma violência, é um ultraje.

Por ter autorizado e defendido o que se passou, Montenegro devia ser demitido de imediato. É um perigo para o País. Nas mãos desta criatura -- que parece ser excessivamente propensa a fazer coisas estúpidas, socialmente não aceites e humanamente intoleráveis --, este não é o Portugal bom, ameno, feliz, tolerante, inclusivo que conhecemos e amamos. 

Presidente Marcelo, ponho cobro a isto de imediato. 

domingo, novembro 10, 2024

O cúmulo do ridículo

 

A falta de noção do Governo Mentenegro seria de gargalhada se não fosse trágica. E isto verifica-se a todos os níveis. Só não se vê no caso dos ministérios em que não têm sequer capacidade para mexer um dedo (Economia, Cultura, etc). 

Mas, nos casos em que fazem mais alguma coisa do que respirar e receber o ordenado, acumulam-se os disparates, as mentiras, os dislates e, no caso da Saúde, tem sido a desgraça que se sabe, alegadamente já com várias mortes no cadastro.

No caso da Coisinha Fiasco do MAI, o desempenho está abaixo das rábulas do Herman. 

Por exemplo, o que as televisões nos mostraram no outro dia, com um exército armado até aos dentes a entrar ppelas lojinhas do Martim Moniz adentro é de um ridículo que até dói.

Daqui

Leio que a dita mega operação contou com a intervenção simultânea de (pasmem):

  • PSP que incluiu:
    • Divisão de Investigação Criminal, 
    • Divisão de Segurança a Transportes Públicos, 
    • Divisão de Trânsito, 
    • Núcleo Segurança Privada, 
    • Núcleo de Estrangeiros e Controlo Fronteiriço, 
    • Equipas de Intervenção Rápida, 
    • Equipas de Prevenção e Reação Imediata,
    • bem como a Unidade Especial de Polícia.
  • Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), 
  • Autoridade Tributária e Aduaneira (AT), 
  • Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) 
  • Segurança Social
Admira-me que não tivessem também chamado os Comandos, os Fuzileiros, os Para-Quedistas e a GNR a cavalo.

Daqui


Note-se que todo aquele aparato foi para varrer as lojas do Martim Moniz, na sua grande maioria geridas por pessoas cumpridoras, ordeiras. Um batalhão de Darth Vaders, com coletes anti-bala, capacetes, viseiras, a avançar pelos passeios e a intimidar os passantes. 

Note-se, não havia desacatos, não havia tareia nas ruas, não havia problemas. Tudo para que um dos ministros mais totós deste Governo, aquele a quem Ricardo Araújo Pereira designou por Lentão Amaro, pudesse estar na Assembleia armado em macho-alfa, mostrando o seu alinhamento com os destemperos do Chega e do Trump contra os pobres imigrantes.

No meio disto, segundo o comunicado e a notícia do Expresso: foram fiscalizados perto de uma centena de cidadãos com vista à verificação da sua legalidade em território nacional", sendo que apenas um não tinha os documentos necessários para residir no país.

Transcrevo ainda: foram detidas 38 pessoas, a maioria pela existência de mandados de detenção (14); cinco por condução com excesso de álcool, seis por falta de habilitação legal, duas por tráfico de droga, uma por violência doméstica e uma por situação irregular em território nacional.

Os custos da mobilização de todo aquele aparato devem ter sido imensos. E, enquanto estiveram dentro daquela ramboiada, não estiveram onde certamente faziam mais falta.

Note-se que não digo que não se façam operações regulares para 'apanhar' traficantes de droga, portadores de armas não autorizadas, bêbados ao volante ou agressores em geral. O que digo é que uma coisa é trabalhar normalmente, de forma responsável e eficaz. Outra, muito diferente, é realizar mega-açcões desta natureza, só show off, manobras de intimidação contra cidadãos que na sua maioria são pacíficos, trabalhadores, pessoas que pagam impostos e descontam para a Segurança Social, acções para impressionar os pategos, concentrando recursos que devem estar onde fazem falta e não onde estão as câmaras de televisão a captar o arraial.

Se isto foi engendrado pela Coisinha Fiasco à revelia do Mentenegro ou se foi concertado entre ambos não sei. O que sei é que isto é um desbaratar de recursos, um disparate, uma coisa para além de ridícula.

segunda-feira, novembro 04, 2024

A estupidez, a incrível, incrível estupidez de tanta gente

 

Hoje vi na televisão uma reportagem nos Estados Unidos onde um imigrante se queixava que está há dois anos à espera de autorização para a mulher se lhe juntar e, por isso, vai votar... em Trump. Em Trump! No mesmo Trump que apregoa que, se ganhar, vai deportar imigrantes em barda, que diz que quer fazer uma limpeza, que acusa os imigrantes de roubarem os empregos aos americanos, que lhes chama assassinos, que, segundo ele, é gente que anda armada, a roubar os americanos, a fazer mal às mulheres... 

É de loucos.

Quando seria normal que, como um grito de revolta contra a boçalidade, a maldade e estupidez de Trump, nenhum imigrante votasse nele, nenhum, nenhum, o que se vê é que há muitos que, sabe-se lá porquê, vão votar nele.

Se isto não é de uma pessoa ficar com os cabelos em pé, de boca aberta, sem perceber como funciona a cabeça de gente como a que vota no alarve do Trump, então não sei o que seja.

terça-feira, julho 23, 2024

A relatividade dos pesadelos

 

Tinha a ideia antiga de visitar a Tailândia, adentrar-me por florestas, descobrir antigos monumentos quase devorados pela natureza, maravilhar-me com tudo o que encontrasse por lá. 

Combinei com um grupo de amigos. O meu marido não estava receptivo. Países com culturas muito diferentes da nossa e em que os tipos de exigências que, para nós são essenciais mas que para os locais pouca relevância têm, não lhe dão confiança. 

Contudo, os nossos amigos ajudaram-me a convencê-lo. Lá fomos.

Os amigos, habituados a viajar por destinos longínquos, marcaram tudo e, por isso, nem nos ocorreu pedir detalhes. Confiámos.

Contudo, quando lá chegámos, constatei que os quartos não tinham casa de banho privativa. Ora, para mim, isso é uma definitiva bandeira encarnada. Por isso, fiquei incomodada e com vontade de arrepiar caminho. Mas, claro, tarde demais.

À noite, aflita, não houve remédio: tive que me pôr na fila para as casas de banho junto à entrada do hotel. Uma fila enorme. As pessoas que, entretanto, saíam da casa de banho vinham com ar enojado, a dizerem que aquelas instalações não estavam em condições. Mas não aparecia ninguém a limpar. Eu não conseguia conceber ir usar uma casa de banho suja mas não estava a ver alternativa. Uma terrível sensação de nojo.

Mais tarde, fui até à praia. O meu marido não quis ir, disse que aquelas praias não prestavam para nada, e ficou a ler no quarto. Fui na mesma. Quando lá estava com alguns dos amigos, vimos pessoas a chegar à beira de água como se viessem a nadar de longe, vestidas. Perguntei aos que estavam comigo se seriam migrantes. Disseram-me que sim, que era normal, que não me afligisse, que apareceria alguém a ajudar. Fui a correr, parecia que aquelas pessoas precisavam de ajuda e não consegui ignorá-lo. E uma senhora, em particular, pareceu-me muito mal e tive a maior dificuldade em puxá-la, ajudá-la.

E foi isto que contei aos meus netos, ao almoço, enquanto estávamos, por mero acaso, a comer comida tailandesa. Um deles está quase a fazer anos e, antes, tínhamos ido com ele para escolher roupa a seu gosto. Depois, para o almoço, foi ele que sugeriu que trouxéssemos comida tailandesa para casa, para todos.

Ora, ao acordar, eu tinha contado ao meu marido o pesadelo que tinha tido, que me tinha feito acordar algumas vezes. Então, ao almoço, a propósito da coincidência de estarmos a comer comida tailandesa, ele disse-me: 'Conta-lhes o teu pesadelo desta noite.'

Contei. Quando acabei, todos a comermos noodles com carne ou com camarões, eu com tofu, etc, olharam para mim e perguntaram: 'Mais nada...? Foi só isso?'

'Foi. Não foi horrível?'. Eles olhavam-me com alguma condescendência: 'Não...' 

E cada um disse: 'Os meus pesadelos são muito piores...', ou  'Eu sonho que tenho um monstro debaixo da minha cama, pronto para me atacar'. Outro: 'Também, sonho que vou ser atacado...' O meu marido disse: 'Isso é dos jogos e das séries que veem'. Concordaram mas isso não tirava a intensidade do susto que apanhavam.

E eu que estava ainda incomodada com o meu horrível pesadelo pensei -- uma vez mais, pensei -- que é tudo relativo. 

Tive muita vontade de lhes dizer que deixassem a parte das casas de banho, que tanto me tinha incomodado, mas que pensassem como é horrível os migrantes que vão em procura de uma vida melhor, arriscando a própria vida, e como é horrível isso já ser tão normal que já ninguém presta atenção. Mas os miúdos, contentes a comerem os seus noodles com ingredientes e molhos à escolha e para quem os pesadelos piores são os dos monstros que temem que se escondam nos seus quartos, estariam receptivos a um tema destes? 

Por não me parecer ser o momento adequado, passei adiante. Mas fiquei na dúvida.

Aliás, tenho cada vez mais dúvidas. O mundo é um daqueles espaços topológicos sem forma, sem contornos, em que as leis que os regem são voláteis. Um espaço assim é apelativo em termos ficcionais mas um pesadelo em termos reais.

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Entretanto, agora estou a ver televisão enquanto escrevo. Kamala Harris está em campo (e que diferença faz a sua genica...) e, por todos os motivos, desejo, muito sinceramente, que seja a próxima presidente dos Estados Unidos. Acredito que será. Há muitos americanos que são broncos até à quinta casa. Mas há muitos mais que o não são.

terça-feira, março 05, 2024

Em dia de ida a dois médicos, algumas conclusões
(e, a despropósito, pessoas que não existem e outras cenas de AI que são de um outro mundo)

 


Devido àquela bizarra situação que fez com que activassem o protocolo dos enfartes, chamassem o INEM, me enfiassem numa ambulância que me levou para as Urgências, lá chegada me tivessem levado, de cadeira de rodas, para a Reanimação e me tivessem feito lá estar até ao princípio da tarde do dia seguinte, agora uma vez por ano tenho que ir ao Cardiologista.

Era para ser no fim do ano passado. No fim do verão liguei para marcar a consulta (num hospital privado). Como afinal a escassez de médicos parece ser geral e não apenas no SNS, só consegui consulta para hoje. 

Entretanto, estando reformados e querendo começar a ir ao médico de família, depois de uma primeira consulta creio que no fim do verão e tendo ele mandado fazer alguns exames, tentámos marcar consulta para o fim do ano. Debalde. Fomos tentando. Debalde. Até que, finalmente, lá nos ligaram a propr uma data. Ora bem. Qual data? Pois. Justamente, também hoje. Com duas horas de intervalo e vários quilómetros e muito trânsito de permeio. 

Ou seja, cheguei a uma das consultas à tangente. Aliás, um pouco atrasada.

Primeira conclusão

Na sala de espera do Centro de Saúde, no espaço da Saúde Infantil, todas as crianças que vi, todas, eram filhas de imigrantes. Várias. 

Uma alegria. Já que os portugueses de gema não se reproduzem, ainda bem que os imigrantes o fazem. Só desejo que sejam felizes por cá, que por cá fiquem, que por cá trabalhem, que por cá efectuem os seus descontos. 

Portugal só tem a ganhar com esta situação.

Segunda conclusão

O carro tinha ficado estacionado no parque de uma superfície comercial. Quando lá fomos buscá-lo assistimos a uma grande confusão, muitos gritos, muito barulho, grande correria. Um rapaz tinha sido agarrado pelos Seguranças, gritava como um capado, e, ao correr tinha derrubado várias pessoas e várias coisas. O rapaz era português. Ou seja, se houve aqui um episódio que deixa as pessoas inseguras, ele não causado por nenhum migrante.

Terceira conclusão

O trânsito das cidades continua intenso e para quem, como eu, vive geralmente afastada da confusão, isto já fere, e muito, a minha qualidade de vida. A sociedade, no seu conjunto, deveria zelar por retirar stress ao movimento nas cidades. Mais transportes públicos, muito mais teletrabalho, horários mais desencontrados, quiçá horários mais leves... Muito deve ser feito para retirar trânsito e confusão das ruas. Ainda por cima, apanhei um grande acidente, muitos carros completamente espatifados, polícias. E, noutro ponto, muito trânsito resultante de um outro acidente. É o resultado do stress, tantos acidentes. 

E não continuo com as conclusões porque ou paro já ou continuo até amanhã de manhã

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E, para além disso, continuo às voltas com os temas burocráticos em torno de cenas que deveriam ser simples mas que, para mim, são chinês em estado puro. Volta e meia concedo-me uma pausa nestas coisas pois parece que fico bloqueada. Mas vou ter que voltar a tratar disto. 

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E aqui chegada acho que devo partilhar um vídeo do Guardian que me põe doida, que me faz apetecer hibernar, que me dá volta ao miolo.

How AI creators cement outdated beauty standards

Images created by AI are getting exponentially better, to the point where many people are unable to separate them from the real thing.

As this technology continues to develop, challenges to our perception of what is real are immense, and our trust in what we are seeing is eroded. These fake people are already changing industries such as modelling and marketing, but can they offer a more diverse reflection of humanity than has historically been available - or are they destined to reflect the narrow standards of beauty these industries have long been drawn to?


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Sobre a fotografia lá acima, em minha opinião, muitto linda, retirada do GuardianA photograph by Melbourne artist Atong Atem, ‘Adut and Bigoa, 2015’ which will show at the NGV as part of a local component of Africa Fashion, an exhibit travelling to Australia from London’s V&A. Photograph: Courtesy Mars Gallery, Melbourne

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Um dia feliz

Saúde. Leveza. Paz.