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terça-feira, novembro 30, 2021

Dizem que é uma celebração do amor.
Mas, cá para mim, isto das joalharias faz-me é lembrar aquela história do Cesariny...

 


Que o vídeo é uma alegria e uma explosão de movimento envolta no mais luminoso rubro lá isso é verdade. Mas o que é que isso tem a ver com a celebração do amor não sei. 

Se calhar, para os cavalheiros que vão à Place Vendôme escolher uma jóia para a sua bem amada, isso é um sinal de amor. Não digo que não. Claro que é para quem pode mas, enfim, não é por poder que tem menos sentimentos. E, nestas coisas, cada um é como cada qual. 

Agora uma coisa eu sei: se eu não fosse eu mas alguém estupidamente apaixonado por mim e, ao mesmo tempo, estupidamente rico não sei se, para celebrar o amor, a primeira coisa que me ocorreria seria gastar uma fortuna numa gargantilha cravada a diamantes. 

Gosto de jóias. Sim, gosto. Mas o meu gosto tem mudado. Se alturas houve em que me deslumbrava com um clássico ornado com umas belas esmeraldas, safiras, rubis ou, mesmo, diamantes, mais tarde evoluí para a simplicidade, mas uma simplicidade com arrojo. Peças modernas com um design elegante mas algo inesperado. 

Ultimamente já era a simplicidade em absoluto. 

Mais até do que simplicidade: peças com alguma piada a nível estético mas baratas. Por exemplo, algumas peças da Parfois fazem maravilhas numa toilette.

E, como já tenho que chegue para esta vida e para a outra, evoluí para o estadio limite: zero aquisições. Nem jóias nem social-jóias, nem Parfois nem coisa nenhuma. 

Tinha uma pulseira de ouro com um belo design urbano. Pesada, muito bonita, um fecho muito original. Gostava imenso de senti-la no pulso. Era uma peça e tanto. Até que um dia à noite, ao chegar a casa, não a tinha. Fiquei para morrer. Não era apenas o prejuízo mas a pena por ter perdido uma joia tão especial. Voltei atrás e, à noite, percorri a pé o último percurso. Andei dias a perguntar se alguém a tinha visto. Deixei o meu contacto em todas as lojas possíveis e imaginárias. Nada, claro. 

Serviu-me de emenda: usar peças assim no dia a dia nunca mais. 

O que uso -- e uso sempre, fazem parte de mim -- são dois fiozinhos muito fininhos. Tenho-os, como integrantes da minha pele, há décadas.

Quando, no verão, fiquei no hospital em observação de um dia para o outro, tive que os tirar. Coloquei-os na carteira. Quando a minha filha lá conseguiu entrar, pedi-lhe que a entregasse ao meu marido. Tinha ideia que os tinha posto de lado, numa bolsa sem fecho. Quando a dei, esqueci-me de avisar que ele não virasse a carteira. No dia seguinte,  pedi ao meu marido para ver se lá estavam. Não estavam. Ia-me dando uma coisinha má (em cima da que tinha tido). Perguntei se tinha tido cuidado. Enervado, sabia lá ele como é que tinha pegado na carteira. 

Em cima da preocupação pelo estado do meu coração, ainda mais o desgosto por ter ficado sem os meus inseparáveis fiozinhos. 

Quando nesse dia tive alta e cheguei a casa, com a pressão arterial altíssima e sem saber se devia voltar para o hospital, arranjei disponibilidade mental para fazer um break para ir vasculhar a carteira na esperança que o meu marido, pura e simplesmente, não os tivesse visto. Nada. Então, de súbito tive um lampejo e lembrei-me que, na véspera, no hospital, ao tirá-los e guardá-los tinha pensado que tinha que os pôr a bom recato, num separador com fecho, na carteira. Salve.

Quanto a jóias, recordo também sempre o primeiro desgosto que o meu marido me deu, revelando a sua maneira de ser. Tínhamos casado há poucos meses e eu tinha visto numa montra na Rua Augusta um anel de ouro muito fininho com dois pequenos corações em que um se sobrepunha ligeiramente ao outro. Eram de marfim com um aro fininho também de outro. Super discreto, mimoso. Descrevi-o com pormenor. Quando recebi o presente, nem queria acreditar. Um anel em ouro branco e com um lustroso rubi. Um anel descarado. De facto, lindo mas que não passava despercebido. Nada do que eu queria. Tinha vinte anos, vestia-me como as adolescentes se vestiam naquela altura. Não podia imaginar-me com anel tão exuberante. Perguntei porque me tinha oferecido aquele se eu lhe tinha dito tão claramente qual o anel que gostava de ter. Pouco ligou, disse que simplesmente tinha visto aquele anel e tinha achado que me ia ficar bem.

Depois disso fez muitas mais do género, geralmente deixando-me sempre perplexa com o que recebia e que era tão diametralmente oposto em relação ao que lhe tinha sugerido. 

Depois deixei de sugerir o que quer que fosse. Agora, quando quero uma coisa, não peço. Compro. Deixei de esperar o que quer que seja. O que vier está bem. Aliás, estou numa fase em que se não receber nada está também muito bem.

Mas não vou terminar este post natalício sem relembrar uma história, já aqui referida, do Cesariny. Contou ele que estava num alfarrabista ali ao Chiado quando entrou uma madama muito madama, muito sofisticada e cheia de nove horas, e lhe perguntou: Cavalheiro, desculpe-me, isto aqui é uma joalharia? Perante o insólito da pergunta e o ar cagão da baronesa, Cesariny não resistiu e disse: É sim, minha senhora, já aqui fiz muitos broches de joelhos.


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E, conversa à parte, que se entoe o Love is all e que venham as donzelas adornadas a rigor para dançar e celebrar o dito amor e, en passant, para honrar as jóias da Cartier: Monica Bellucci, Khatia Buniatishvili, Lily Collins, Golshifteh Farahani, Willow Smith e outros. Uma festa. E se quem me vê não pode com p pois que não perca tempo nas lastimações. Junte-lhe um h que vai ver que a festa ainda vai ser melhor. 

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E que venha daí um belo smile
Um dia muito bom para todos os que aí, desse lado, fazem o favor de me aturar

quarta-feira, março 06, 2019

Potpourri com a cataplana do Costa na casa da Cristina Ferreira, com bochechas e queixadas à mistura e com a saltitona Katelyn Ohashi a mostrar o que é a alegria absoluta





Gostava de contar todas as minudências do meu dia mas acredito que seja fastidioso para quem me lê.  Tudo muito mais do mesmo e, como sempre, nada de relevante.


Conto apenas por alto que desbastei uma árvore grande que está num dos lados do caminho que vem do portão grande. Não sei que árvore é aquela, não é azinheira nem é aroeira. É uma árvore muito linda e tem uma madeira amarela que, quando cortada, cheira muito bem. No fim, estava no chão um mega monte de ramos que arrastei com esforço lá para baixo. Quem veja e não saiba, nem vai perceber o grau de desrame que a árvore sofreu: continua armada e sombrejante como se não tivesse passado por toda aquela amputação. Também continuei com ancinho e vassoura a apanhar bolotas, folhas, terra, musgos e restinhos de cenas que, tudo junto, voltou a dar mais um montão de carrinhos de mão. Também varri, lavei e limpei a casa por dentro. E, para além de peixe cozido para o almoço, cozinhei queixadas de porco no forno com orégãos, alecrim e mel e bochechas, também de porco, estufadas. Para acompanhar, arroz de cenoura feito com o caldo do estufado. E isto trouxe para jantarmos em casa da minha filha. Rever os meus amores, estar na conversa, é das coisas boas da minha vida. Estão grandes os meninos, brincalhões, felizes da vida. Viemos de lá relativamente cedo porque o meu marido anda com dores no pescoço e, às tantas, fica impaciente e, além do mais, tínhamos coisas para arrumar e, segundo decretou, 'estamos a precisar de descansar'.


E é verdade. Foram uns belos dias in heaven mas em que trabalhámos de sol a sol. Intercalei apenas por volta do meio dia para ver o António Costa com a mulher, os filhos e a nora no programa da Cristina Ferreira. Muito bem todos, uma família simpatiquíssima, tudo gente boa onda. Todos bem... excepto a Cristina Ferreira. E o excepto tem a ver com aquele excesso, aqueles gritos, aquela gargalhada insuportável, aquela maneira histriónica de ser e de se vestir, aquela maneira absurda de se pôr de perna aberta quando está de pé a falar com alguém, aquela parvoíce que aparece a todo o momento como, por exemplo, ao tirar os sapatos e pôr-se de chinelos, supostamente para ir almoçar. Não há dúvida que bate a concorrência aos pontos mas, como nunca vejo televisão de manhã, não consigo estabelecer paralelismos. Provavelmente os outros, nos outros canais, são mais sóbrios e a malta gosta é de chinfrim, de baderna e de fofoca. Do que percebo, a grande aposta da Cristina Ferreira é devassar a vida privada das figuras públicas. Ora isso apela ao voyeurismo de que toda a gente padece um bocadinho. No fundo, no fundo, é a decadência.


Confesso que, na véspera, ao ouvir que o Costa lá ia, temi o pior. Pensei: não me digam que vai sujeitar-se àquelas perguntas que apelam ao sentimentalismo, à lágrima. Se ceder a essa piroseira vai ter-me à perna, ah vai, vai. Mas não senhor, manteve-se no seu registo de boa onda e depois concentrou-se na cataplana, foi respondendo com a leveza típica de quem vai conversando enquanto faz a comida e deixou a Cristina a fazer a festa com o resto da família. Gostei de vê-lo, na boa, com a sua alegre Fernanda, com o filho que é outro simpático e as duas meninas, bonitas e sorridentes. Portanto, por esta passa. E se aquilo chega a casa de um milhão de pessoas pois, muito bem. Manteve a dignidade, não disse nada que envergonhasse aqueles que o apoiam. Portanto, adiante. 


Tirando isso, só sei que daqui a nada estou de volta ao trabalho e que nem tão cedo volta a haver feriados e isso não é ideia especialmente inspiradora. Também sei que tenho alguns assuntos de que gostava de falar aqui (e um foi-me agora enviado pelo P, a quem muito agradeço) mas requerem alguma concentração e, a esta hora, não tenho neurónios acordados em número suficiente. Também sei que, neste momento chove que deus a dá, sopra o vento com intensidade, atirando fortes bátegas de água contra a janela -- e esse som é outro que me agrada. 


Como sempre faço, abro o Youtube, preguiçosa de ir à procura, passiva, curiosa de ver o que o safado do algoritmo resolveu escolher para me mostrar. E, uma vez mais, ele acertou. Tinha, logo em primeiro lugar, mais um extraordinário desempenho da mocinha reboludinha, pequeninha, elástica, risonha: Katelyn Ohashi. É humana, mulher e, no entanto, parece uma boneca saltitona, um pássaro maroto, alguém muito diferente dos outros humanos. Vê-se e pasma-se. Como é possível?



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Como continuo tomada pela indolência, em vez de ir escolher fotografias feitas por mim e para fazer jus ao potpourri do título, fui buscar a companhia de uma malta dada ao surrealismo, a saber, respectivamente, Roberto Matta, Wolfgang Lettl, Paul Klee, Salvador Dali, Wolfgang Lettl e Jindřich Štyrský. Para companhia musical: Malena de Ennio Morricone. Tá-se bem.

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E agora já ia desejar uma boa semana a começar por ... quando dei por mim a acordar a tempo de ver que onde é que já lá vai a segunda-feira. Thanks god já é quarta-feira. Mas que seja tudo bom na mesma, ora essa.

sexta-feira, julho 06, 2018

Aquelas belas italianas





Quando eu era menina e moça, jovem púbere, no liceu tínhamos que usar bata. Uma bata branca de um feitio pré-definido. Uma coisa que hoje me parece estranhíssima. Mas era assim. Os rapazes não, só as raparigas. À distância, tudo naquela altura me parece aberrante. E, tirando nós mesmos, tudo era mesmo aberrante. 

Por essa altura, eu andava perdida de amores por um colega que também se perdia de amores por mim. Mas, como todos os grandes amores entre gente pequena, a coisa, ao princípio, não era completamente explícita.


Eu tinha uma grande amiga que eu achava muito bonita, de quem gostava muito e de quem era inseparável. Mas, de vez em quando, tinha ciúmes dela. Parecia-e quase impossível que ele não se sentisse atrído por ela. Aparentemente não tinha mas eu, se calhava vê-los juntos, logo sentia aquela pontada (que, diga-se em abono da verdade, foi o máximo que, desde que me conheço, consegui a nível de ciúme). Uma vez zanguei-me com ele (o que acontecia frequentemente) e ele em vez de sair do liceu comigo, saíu com ela. Fiquei roída. Uma afronta sem perdão. No entanto, não deixei de gostar menos dela porque sempre achei que ela não tinha culpa de ser tão bonita. A minha fúria era com ele. No dia seguinte vinguei-me dele, fiz-lhe toda a espécie de ciúmes. Para ele não ser parvo. Mas, à tarde, já eu estava arrependida de ser eu tão parva porque na véspera a culpada tinha sido eu e nada justificava que persistisse, agora fazendo-lhe ciúmes escusados. Então, toda humilide, arranjei maneira de lhe dizer que, gira como ela era, compreendia que ele se interessasse por ela. Olhou para mim admirado como se tal coisa nunca lhe tivesse passado pela cabeça. Disse-me que a ela lhe faltava qualquer coisa, que andava com os braços colados ao corpo, que não levantava a cabeça, que parecia que lhe faltava vida. Fiquei espantada com isso. Nunca tinha reparado em tal coisa. Achava que uma cara bonita e um corpo bem feito bastavam para que um rapaz achasse piada a uma rapariga. Mas ele disse-me, com sentimento, que gostava era de mim. E eu perdoei-lhe tudo, mesmo aquilo que ele não tinha feito. 

Por essa altura, o meu corpo já estava a ganhar formas. Eu não estava segura de que o meu corpo fosse bonito. Pelo contrário, achava o corpo dessa minha amiga muito mais elegante que o meu. Toda ela era mais longilínea e isso parecia-me a perfeição. Isso e o cabelo. O cabelo dela era fininho, liso, esvoaçava quando lhe dava o vendo, parecia seda. O meu era uma juba revolta. A minha mãe dizia que não fosse parva, que tomara ela ter o cabeço farto e forte que eu tinha mas isso não me convencia nem fazia diminuir a admiração que eu tinha por aquele cabelo sempre penteado, sempre com ar elegante. Mas o corpo. Os meus seios cresciam, as minhas ancas arredondavam-se. A minha bata ficava justa. Uma vez eu queixava-me, que a bata estava a ficar-me apertada, que parece que ficava melhor às outras do que a mim, que detestava ver-me de bata. E, então, ele disse uma coisa surpreendente: 'Eu gosto. És tipo viola'. Fiquei sem perceber mas não pareceu grande elogio. 'Tipo viola? O que é isso?'. E ele, jovenzinho adolescente, fez um ar meio tímido e com as mãos fez aquele movimento de um homem a contornar as curvas de uma mulher. Foi a primeira vez que vi aquele gesto. Não percebi bem a lógica e a beleza da coisa mas passei a aceitar melhor as minhas curvas e intuí que ele estava a ficar um homem.


Entretanto, comecei a prestar mais atenção à forma como o meu pai, os meus tios e amigos falavam das estrelas italianas da altura. Uma vez mais, eu olhava as fotografias delas nas revistas e não achava pingo de piada. Pareciam-me matrafonas, formas exuberantes demais, feições marcadas demais, maquilhagem a mais, tudo exagerado. Lembro-me de achar a Sofia Loren horrível, uma boca que não acabava. À Monica Vitti achava-a eu horrível, uma cara estranha. Achava a Claudia Cardinale bonitinha mas vulgar. A Gina Lollobrigida parecia-me uma mulherzinha baixinha, corpinho ridículo de tanta curva e contra-curva, com os seios estupidamente espevitados. Sobre a Alida Valli ouvia eu sempre falar com uma admiração especial, como se fosse alguém num patamar à parte. Eu olhava e não percebia qual a diferença entre ela e qualquer outra mulher bonita que se visse na rua.


Só já bem mais tarde, eu já mulher feita, vendo a Monica Belucci, comecei a perceber o conceito. Sobretudo é a sensualidade que transpira das mulheres italianas, cheias de curvas, vibrantes, de bem com o seu corpo e com Eros.


Mas, naquela minha tenra idade, para mim beleza era a Françoise Hardy, a Brigitte Bardot, essas que, a meus olhos tinham um ar moderno, natural, descarado, pouco convencional. Nada como aquelas outras italianas, muito mulherzinhas, todas anquinhas, todas muito penteadinhas.


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Moral da história

O que se passa é que o que a gente vê é função dos olhos com que a gente vê. E e capacidade de visão dos nossos olhos varia com a idade, com o ambiente, com tudo. Hoje olho aquelas belas italianas e acho-as fenomenais. E custa-me até a perceber como até não há muito tempo eu não via isso. Mas é a vida. Acho que vamos percebendo melhor as coisas.

E esta conversa toda só porque estava, na preguiça, aqui a passar os olhos pela Vogue francesa e dei com um espaço dedicado às Les plus belles actrices italiennes de tous les temps. E, vendo-as, lembrei-me do que vos acabo de contar.

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E, para terminar, um striptease: aquela tal que eu achava horrível despe-se para um encabulado Mastroianni


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E, agora, para os que calhem estar interessados no meu umbigo, um convite: queiram descer um pouco mais. Fica aqui um pouco mais abaixo.

domingo, fevereiro 25, 2018

O mundo em guerra e nós continuamos a dançar


Não é que goste especialmente da Lana Del Rey ou que ache as canções que ela canta umas obras de arte. Mas acho que os as montagens a partir de filmes estão bem feitas e que a sua conjugação com as canções está interessante. Eu, pelo menos, agora que estou aqui a descansar depois de mais uma tarde de árdua labuta campestre, estou a gostar de ver. O fogo na salamandra dá um calorzinho bom, vesti uma roupa também quentinha e, enquanto estou nisto, vou deitando uma espreitadela ao noticiário.

E é bem verdade: passam na televisão imagens tenebrosas do que se passa na Síria e eu, aqui, serenamente ouvindo música e vendo vídeos.

O planeta Terra é habitada por esta espécie que é contraditória, pouco solidária, fútil e louca. Mas talvez haja alguma inteligência nisto tudo.

Mas não sei se há se não há nem me parece que este seja tema que deva ser chamado para aqui.
Portanto, ficamos assim.



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quinta-feira, setembro 01, 2016

O cinema e o topless
- ou quando o cinema (e a sociedade) não era moralista e os seios das mulheres não eram maldição a evitar


 Brigitte Bardot e Jane Birkin no filme Don Juan 73 ou si Don Juan était une femme, 1973





Se já soube que havia um Dia do Topless esqueci-me. Pois se nem o dia da mãe eu tenho de memória quando é, fará isto, o dia do topless. Mas parece que há e que já foi.


Leio um artigo e gosto do que leio: por estética, transgressão ou desinibição as mulheres descobrem os seios, em especial no cinema.

Sofia Loren em La Traite des Blanches, 1952
(naõ sei o nome original ou, se passou cá, qual a tradução)

Mas cada vez se vê menos pois as redes sociais parece que vieram para estimular o lado mais populista e primário dos seus aderentes que, sendo aos milhões, se tornam efectivamente numa imensa mole, informe, de moralismo e força de pressão.

Aqui no Algarve, por onde ando, é raro ver alguma mulher em topless, muito menos a fazer nudismo. Circulo por estes dias entre gente que notoriamente não tem nada a ver com os alternativos de Sagres ou o com o de tudo um pouco de Lagos. Aí o topless não é raridade e, em alguns recantos de algumas praias mais solitárias, também se podem ver, com toda a naturalidade, pessoas nuas. Parece-me ser tão normal que uma mulher desnude os seios que aqui me espanto com a sua ausência.

Charlotte Rampling no filme Portier de Nuit, 1974.

Nas televisões - e ainda no outro dia mostrei como a estupidez americana já vai ao ponto de desfocar ou tapar a imagem de seios em obras de arte, mesmo em obras abstractas - já é raro vê-los de forma natural. Por outro lado, por cá - em alguns canais de cabo - passam filmes que são pura pornografia. 

Pois bem, é quase com alívio que, circulando por uma revista online dou com uma homenagem a alguns chamados filmes de culto no qual as mulheres mostraram, orgulhosas, os seus seios.

O dia do topless já foi no dia 28 de Agosto mas penso que os meus Leitores relevarão o meu atraso já que isto das férias me traz alguma indolência suplementar.

Poderão ver toda a escolha aqui mas, para que conste, cá estão cinco magníficas portadoras de cinéfilos seios. A preto e branco, que sempre têm mais patine,

Monica Bellucci no filme Malena, 2000.
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Algum de vocês, meus Caros Leitores, se sente chocado com estas imagens?

Se se sente, lamento (que se sinta).

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sexta-feira, julho 08, 2016

Tem medo de não ter jeitinho nenhum na cama...?
- Muito bem. Tem remédio. Veja o vídeo que aqui tenho sobre o assunto




Gosto de futebol mas sou muito selectiva: só quando joga a nossa selecção. Agora, enquanto se joga a outra meia-final e a França vai garbosamente à frente da Alemanha, ponho-me a cirandar pela net. Não vejo nada de extraordinário. Melhor: nada que me interesse -- porque coisas extraordinárias, aberrantes, impensaveis e estúpidas é o que não falta.

Mas eu aqui, com um céu cor de rosa e um rio em azul alfazema na minha janela, um fio de aragem a percorrer-me a pele, estou mais para estar ao fresco, apoiada no parapeito, do que para armar guerra com láparos mentecaptos ou bafientos comissários ou mostrar a minha preocupação pelo racismo ou pelo fácil uso do gatilho contra indefesos -- ou seja, penalizando-me por isso, não estou com disposição para coisas sérias. Não estou mesmo. Fútil, cabeça vazia, loura burra, o que quiserem chamar-me. Aceito. Há bocado, a falar com a minha filha, vinha eu a dizer que estou a precisar de férias e ela a dizer-me que anda toda a gente assim, já ninguém anda a dar uma para a caixa, tudo a precisar de encostar às boxes. Mesmo.

E, portanto, em dias assim, apesar de ir deitando um coup d'oeil ao futebol (com vontade que o Schäuble esteja a roer os dedos de raiva), ponho-no nas mãos do meu grande amigo, a minha soul mate, o algoritmo da google.

Ou seja, dolentemente deixo-me cair nos braços do youtube. E podia passar a noite a ver o que ele escolhe para me agradar. Espertinho, ele. Agrada-me. E malandreco.

Já estive a ouvir uma música quente e sensual, a ver um belo tango, já estive a aprender sobre June e Júpiter (até com vontade de falar daquela superfície tão bela), já estive a ver imagens e explicações sobre a origem dos tempos -- e, claro, testes aos molhos, testes para ver se sou uma das 50 pessoas que sabe responder a um conjunto de perguntas, se tenho um QI superior a 150, se sou flirty, se isto, aquilo e o outro.

Mas até para fazer testes eu estou com falta de paciência: obriga-me a optar e a anotar as respostas e não aguento tanta trabalheira.

Portanto, o corpo abandonado e a mente em ponto morto, deixo-me estar a ver vídeos.

Este aqui abaixo, um dos recomendados, não me traz nada de novo: sei do que ali se diz desde que nasci. Bem, não literalmente do que ali se diz, mas do conceito.

Por exemplo. Lembro-me agora. Quando fui viver para uma residência universitária feminina, no meio de marronas que até me punham doente, namorava eu que me fartava e, talvez por isso, ou talvez porque, sem querer, dava conselhos amorosos às outras, numa festa qualquer organizada pelas veteranas para praxarem as caloiras, puseram-me a dar uma aula de sedução: Como arranjar um namorado num abrir e esfregar de olhos. Estava toda a gente a ver, incluindo as beatas e ortodoxas da direcção daquilo, umas camelas que passavam a vida a dar-me sermões.

Pois bem. Queriam festa? Tiveram-na. Na irreverência dos meus 17 anos, dei uma aula que faz favor. Ao princípio estavam todas no gozo a achar que me ia atrapalhar. Ia, ia. Se há matéria que me é cara é essa. Claro que nem sempre exerço - ou melhor, contenho-me. (Claro que aqui devia inserir smiles, eheheheh ou lol para ficar claro que há nisto muita ironia - mas não o faço; e não me apetece explicar porquê).

Portanto, sabendo deste meu gosto (académico!) pelo tema, eis que o meu amigo algoritmo diz que acha que eu gosto do vídeo que abaixo vos mostro. E eu, para o caso de ele também ter ouvidinhos, daqui lhe digo: gostei, sim senhor, mas, para apróxima, se faz favor sugira-me qualquer coisa que para mim seja novidade. OK?


De qualquer modo, sabendo que gente pouco praticante, desabituada, atrapalhada, medrosa, com poucas oportunidades, com falta de jeito, timidez a rodos, bronquinha, mal informada, ou etc, tem muitas vezes medo de dar barraquinha ou de não cumprir ou, pior, tem falsas ideias e percebe tudo ao contrário, aqui fica o instrutivo vídeo. 

The Fear of Being Bad in Bed


Being good or bad in bed has nothing to do with physical exertion; it’s all about a state of mind.



Learn. And enjoy.

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sábado, abril 09, 2016

Capas falsas no metro


Se há coisa que eu gostava era de andar de transportes públicos. Eléctrico, então, adorava. Autocarro e metro, práticos mas não bons para ler. O 15, a deitar por fora, não, nem ler nem nada, um horror, mas, quando dava aulas e ia da faculdade para a escola onde dava aulas e ia de barco (e uma parte de autocarro ou a pé), era uma maravilha. Ou ia com aquela minha colega que dizia palavrão que até fervia, alto e bom som, com forte sotaque alentejano, ou ia sozinha, lendo, descansada.

Quando ia com ela, era uma festa. Já aqui falei dela. Agora estou a lembrar-me de que uma vez andava com um problema qualquer nos intestinos -- acho que foi a única vez que a senti preocupada, sem aquele ânimo desconcertante e superlativo -- e, coisa rara nessa altura (pelo menos para nós que éramos pouco mais do que adolescentes a viver na grande cidade, longe da família, sem qualquer conhecimento de doenças), foi fazer uma colonoscopia.

Eu preocupada com ela e desejando que nos encontrássemos no barco para saber se tinha corrido bem. Sentávamo-nos num banco de duas pessoas ou três pessoas de frente para outro banco idêntico.

A todo o momento, eu dizia-lhe que baixasse o tom de voz porque, alta e forte, a voz saía-lhe na mesma proporção.
Lembrei-me agora de procurar no google pelo nome dela, associando-a ao curso e aparece-me no facebook. Só consigo ver o perfil público mas o nome da cidade que lá aparece nos locais é o mesmo, deve ser ela. As fotografias mostram uma mulher magra com uma jovem ao lado, esta cheinha e morena como ela era na altura. Se ela é a mulher que, em jovem, era igual à jovem que ali está digo que não a reconheceria: está metade do que era, magra, e parece um pouco triste. As gordas têm sempre um ar saudável e alegre.

Na altura era divertida, brejeira, atiradiça, desbocada. Namorava à direita e à esquerda, sempre com paixão, como se acreditasse que ia ser para vida mesmo quando o namorado era já casado e apaixonado pela mulher.

Mas, então, nesse dia atirou-se para o banco do barco, largou as pastas e os dossiers das aulas, e diz: Mas sabes lá tu o que me aconteceu... E eu, Mas então está tudo bem?

E ela, Ó pá, está tudo bem, mas sabes lá a vergonha que eu passei.

Presumo que foi sem anestesia ou sedação mas não afianço pois, como disse, sabíamos lá nós que havia essa possibilidade. Mas não tenho ideia de ela me ter falado que a tinham posto a dormir.

Continuou ela: 'Olha, imagina tu: eu nua, com uma bata, estendida em cima da marquesa, e vem uma gaja e enfia-me um tubo pelo cu acima e, é pá, não sei se me enfiaram gás ou o caraças, só sei que depois o gajo veio conversar comigo ...' E eu, 'Qual gajo?'. E ela, com aquele sotaque alentejano cerrado 'Ó pá, devia ser o médico, sei lá. Só sei é que desatei a peidar-me, sem conseguir fazer nada, com o tubo enfiado no cu, uma vergonha e o gajo, imagina tu, a falar comigo como se não estivesse a ouvir'.


Eu já me ria a bom rir com aquela conversa e as pessoas do banco da frente também. E ela, por uma vez, lastimosa. Depois, quando a conversa já era outra, lembrava-se e interrompia 'Porra, que barraca, eu a peidar-me alarvemente enquanto o gajo falava, porra, ca ganda barraca'.

Não tenho grande hábito de falar assim e, na altura, pedia-lhe que não o fizesse em público. Sobretudo, tinha sempre medo que descobrissem que éramos professoras.

Isto não vem a propósito de nada e apenas me ocorreu ao ver o vídeo abaixo. Um jovem foi para o metro fazer de conta que estava a ler um livro mas as capas eram divertidas, disparatadas e, quem as via, mal continha um sorriso. Uma delas tem a ver com a temática acima relatada.

Ler livros com falsas capas no metro

Subways are a great place to catch up on your reading. But how do people react to book covers that are a little embarrassing, and also pretty hilarious? Watch how people react to comedian Scott Rogowsky “reading” some ridiculous books in public.


...

E agora tenho que ir deitar-me, forçosamente, antes que caia para o lado, tanto o cabeceamento e os bocejos. Sorry.

Se calhar durmo dez minutos e fico pronta para outra mas, agora, tanto o sono, já nem sei a  quantas ando. Por isso, vou ali fechar os olhos durante um bocadinho e talvez já cá volte

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Afinal não voltei, adormeci profundamente e só acordei de manhã.
Por isso volto aqui apenas para vos desejar, meus Caros Leitores, um bom sábado!


domingo, janeiro 31, 2016

Uma mulher que ama mulheres, uma faiseuse d’images


No post abaixo falei de uma rapariga diferente. Claro que, quando se diz que alguém é diferente, se deve dizer em relação a que é que ela é diferente. Pois bem, direi que a sua vida é diferente da da maioria das raparigas que conhecemos, que o seu mundo é diferente do mundo que conhecemos. E, no entanto, tão intrinsecamente igual a todos nós, ela. E o mundo em que vive tão perto de nós. 
Que me tenham ocorrido as palavras de um físico que fala como um poeta talvez não seja mera coincidência.
Há coisas que me comovem mesmo. Mais do que um murro no estômago é como se uma mão puxasse por mim. Mas isso é a seguir. 

Aqui, agora, vou falar da fotógrafa de que ontem queria falar. Já outras vezes aqui a tive, de visita a Um Jeito Manso mas é sempre muito bem vinda. Bettina Caroline Germaine Rheims é francesa, nascida de uma família ligada à arte, é casada e fez há cerca de um mês 63 anos.

A sua vida tem sido dedicada à fotografia mas, maioritariamente, à fotografia de mulheres. E, quando não fotografa mulheres, fotografa a ambição de o ser ou o paradoxo dos géneros que se confundem.

Charlotte Rampling, por Bettina Rheims

Mas, para nos acompanhar vamos ao som de uma inesperada aventura: 
a fusão entre a Lacrimosa de Mozart e o Hello de Adele. 


Há gostos que são paixões e paixões que se tornam vícios. A escrita é um deles. A fotografia é outro. Não sendo eu senão uma amadora acidental de qualquer destas artes, não poderei sequer trazer-me para dentro de um texto em que se fala de uma mulher que vive de e para a fotografia, que conhece os meandros do mundo da fotografia, que reinventa a condição feminina a cada fotografia que faz. Mas não estou a trazer-me para me comparar: apenas quero dizer que reconheço nas suas obras o prazer enorme de fotografar. Mais: o prazer da procura do momento perfeito em que tudo parece convergir.

Kristin Scott Thomas playing with a blond wig,
Bettina Rheims

Fotografar alguém não é fácil. O resultado é da responsabilidade de quem fotografa e de quem se deixa fotografar. 

Eu que faço fotografias em quantidades escandalosas e que me deixo encantar por tudo e por nada e que adoro fotografar pessoas, apenas me sinto motivada a fotografá-las quando não sabem que as estou a fotografar ou, então, em ambiente normal, sem poses, sem preparação. Não me dá para pedir às pessoas para rirem, para dizerem cheeeeese, para se virarem para aqui ou para ali. Se alguém está com sol na cara e eu gosto, então é assim mesmo, com o rosto banhado pela luz, que farei a fotografia. Se alguém está com sombras no corpo e eu penso que a sombra parece tatuar-se na sua pele, então é isso que eu a quero captar pelo que jamais me ocorreria dizer, saia daí porque está com sombras. 

É a naturalidade que me atrai nos objectos fotografáveis. Por isso, anulo-me, coso-me contra as paredes, espio de longe -- de modo a que a minha presença em nada perturbe a espontaneidade do que fotografo, sejam pessoas, gatos ou paisagens.

Breakfast with Monica Bellucci, Bettina Rheims

Por isso, admiro as pessoas que conseguem fazer fotografias encenadas e em que a fotografia capta a beleza do momento sem que se sinta que há algo forçado ou artificial. Mais: admiro quem consiga imaginar uma pose ou uma situação em que o que resulta é uma história ou a imagem de uma persona que representa uma cena.

Monica Bellucci, uma mulher sensual, cujo rosto e corpo remetem para o prazer dos sentidos aparece, na fotografia de Bettina, como a pecadora apanhada em falta, toda ela gula, sensorialidade, vontade de mais. 

Kristin Scott Thomas, a versátil artista, que tanto nos aparece frágil ou corajosa, santa ou pecadora, aparece, sob a lente de Bettina, desfazendo-se de uma cabeleira loura, mostrando que, de disfarces, se faz a sua carreira e a sua imagem.

Madonna por Bettina Rheims

Madonna, a provocadora, a que não teme rótulos, anátemas, censuras, aparece na fotografia de Bettina como a irreverente, a pronta a tudo, aquela para quem não há limites nem no vestuário, nem nos comportamentos, nem em nada. Cansada depois de uma noite de excessos, descansando depois de um concerto, não o sabemos, mas até da incompreensão das suas quase excessivas encenações se tem feito a vida de Madonna.

Charlotte Rampling, quando era mais nova, era bem a imagem da sedução sofisticada, do convite à partilha de momentos vividos numa intimidade cheia de mistérios, com algum toque de rebeldia, de elegante desafio. Assim a soube captar Bettina Rheims. 

Catherine Deneuve por Bettina Rheims
Catherine Deneuve, bela, discreta, dela se dizia que era fria, apática. Ou que facilmente se poderia tornar uma mulher submissa. E, no entanto, como Belle de Jour apareceu-nos como uma mulher capaz de procurar os prazeres proibidos durante as tardes de tédio. Bettina trouxe-a misteriosa, bela, sofisticada -- mas sobre uma cama, seios acessíveis.

Todas elas sabiam que Bettina as olhava através da câmara e, apesar disso, não se inibiram. Mostraram-se tal como ela as imaginou e, no entanto, aparecem inteiras, entregando o seu rosto ou o seu corpo à imaginação da fotógrafa e de quem viesse a contemplar a fotografia. Há coragem em quem se deixa assim fotografar tal como há em quem pede a alguém que se vista de uma determinada maneira, que se coloque numa determinada posição ou que olhe para a câmara de uma determinada maneira. Os retratos de Bettina têm isso: a cumplicidade entre a fotógrafa e quem se deixa fotografar é evidente.

Mas Bettina Rheims não fotografa apenas mulheres célebres nem faz apenas fotografias para grandes marcas como a Chanel ou a Lancôme. 



Não. Ela tem feito outras séries. Começou por fotografar mulheres que faziam striptease. ou acrobacia. 


Noutra altura fotografou mulheres que, de alguma forma, aludiam a motivos religiosos, I.N.R.I. e, como seria de esperar, a polémica foi grande.


Outra série dedicou-se à androginia ou à transsexualidade, Modern Lovers e Gender Studies


Em Heroínes, quis trazer a escultura para o terreno feminino. Mas quis vestir as mulheres com modelos originais. usou modelos famosos. E o resultado foi surpreendente.


Noutra, Chambre Close, um livro feito em parceria com um novelista, Bettina dedicou-se a mulheres que se aborrecem em casa e, que, sem saber o que fazer com o tempo vazio, se entretêm com o seu próprio corpo. Pretendia parodiar a pornografia mas o resultado foi uma interessante mostra do erotismo a solo.



E outras. Ou mulheres anónimas. Muitas. Em qualquer das séries, o interesse que o género feminino é evidente: Bettina Rheims não se cansa de olhar as mulheres e de mostrar a sua diversidade, de mostrar as muitas naturezas que podem encarnar ou encenar, de espreitar os mecanismos da sedução ou da solidão. E as mulheres que ela fotografa deixam-se mostrar, deixam que ela as tente desvendar. Bettina é uma mulher que gosta de mulheres - e é uma excelente retratista, uma talentosa fazedora de imagens.

Maison Européenne de la Photographie, um local de culto da fotografia, em Paris, tem desde dia 28 de Janeiro e até 27 de Março uma exposição de Bettina Rheims.

É do texto do site que o anuncia que retiro estas belas e justas palavras

L’œil de Bettina Rheims embrasse les transgressions et abolit les conventions pour révéler l’intimité la plus profonde et la plus universelle. Dès lors, c’est un jeu de miroirs qui s’enclenche…
Bettina Rheims s’est approprié les codes de la photographie de nu pour les détourner et placer la question de la féminité au cœur de sa pratique. Elle met en danger autant qu’elle sublime la beauté de ces modèles. Mises à nu, vacillantes ou triomphantes, elles bousculent et intimident le spectateur.
Portraitiste brillante, Bettina Rheims a su imposer dans l’imaginaire collectif les visages qui peuplent son monde. Bettina Rheims est avant tout une faiseuse d’images, qui défend dans sa pratique une tradition picturale séculaire. La plupart des photographies de Bettina Rheims témoignent de cet héritage, par un travail sur la composition et la narration notamment.
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Por falar em mulheres, permitam que relembre que, já a seguir, tenho uma outra mulher, uma mulher muito jovem, que também gosta de ver o mundo através da lente mas, por todos os motivos,  rapariga diferente. Não deixem de a ver, por favor.

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sábado, novembro 28, 2015

Qual a parte do seu rosto que prefere? - Antes de ler o que se segue, feche os olhos e pense na resposta. Depois confira: é que isso diz muito sobre si.


Digo já que não sou nada narcisista. Muito menos sou convencida. Zero. Uma das coisas que mais odeio, acho que já aqui o disse, é ter reuniões à primeira hora da manhã e ter que ir directamente para a sala de reuniões sem me poder ver antes ao espelho. Sinto-me insegura, não sei se estou bem. Ou se deixo o carro num parque público e vou a pé, ao vento, pela rua, e dali directa para uma sala de reuniões, sem saber se o cabelo está minimamente aceitável ou disparatadamente pelos ares. Além do mais, dormindo pouco e estando muitas vezes ao computador, sinto que, por vezes, tenho os olhos um pouco avermelhados. Se calha dizer que os sinto assim, dizem-me que não se nota mas não sei se não estão apenas a ser simpáticos.

Mas, enfim, fiz o exercício e fui conferir se a resposta revelava mesmo a minha personalidade.

Olhos

A visão    A imagem
a sutura do espelho

Quando se dá a ver 
o rosto ou a alma

Ou então se mostra
a face do desejo
Tentando capturar
a beleza invisível

Tal como surge 
ao ser encarada

Antever     Entrever
verificar o estrago

Que a sedução produz
na memória narrada
A mon seul désir 

Por isso, perante uma pergunta destas ('Qual a parte do seu rosto que prefere?), fico sem saber bem o que responder. Contudo, talvez que o que, no meu rosto, 'faz mais sucesso' sejam os meus olhos. Têm uma cor variável e acho que talvez seja isso que tenha alguma graça. Ou isso ou a forma como olho, não sei. Mas são inconvenientes, os meus olhos: falam o que eu, por vezes, não quero dizer. Mas, às tantas, acontece isso com toda a gente. Não sei.

Ora, respondendo eu que talvez o que prefira mais no meu rosto sejam os olhos, então dizem que sou sobretudo clássica:
  • que, imagine-se, no Natal prefiro o galo capão (e não é que é verdade? Uns dias antes do Natal, vou sempre ao talho encomendar um galo capão!), 
  • que o meu autor fétiche é Shakespeare (e, não sendo eu grande leitora de poesia que não em língua portuguesa, a verdade é que gosto mesmo de Shakespeare -- como se pode ver na consulta às etiquetas aqui ao lado). 
  • E qual o pintor que adoro? Dizem que, provavelmente, Picasso, sobretudo no período azul (e, uma vez mais, verdade! sou maluca por Picasso; não sei, se tivesse que escolher um período, se escolheria o azul mas, sim, gosto muito do período azul). 
Jeune femme en chemise de Picasso, 1904

Ou seja, dizem que os meus gostos (incluindo as minhas cores preferidas) não se distinguem muito do comum dos mortais. E que, mesmo quando invejo os gostos incomuns, reconheço que o classicismo tem um encanto verdadeiro e uma intemporalidade sem igual (aqui tenho algumas dúvidas mas, na realidade, olhando para a forma como me visto ou para a minha casa, um ou outro apontamento mais dissonante não apagam o conjunto que, de facto, é mesmo mais para o clássico).

No entanto, também sou louca, talvez inexplicavelmente louca (e não são as loucuras todas inexplicáveis?) por Rothko e não sei se isso é muito clássico.

Blue, orange and red - Mark Rothko, 1961


Boca


Se eu hesitasse, e hesito (porque não tenho a certeza de nada disto), seria em relação à boca. A minha mãe costumava dizer que a minha boca era bonita mas sempre achei que eram coisas de mãe. Tenho os lábios cheios. Dantes não os pintava em tons rouge porque achava que ficava provocante demais. Agora já não me importo - acho que já tenho idade para me marimbar para isso.

Mas quem preferir mesmo a boca, pode ser classificada como voluptuosa: provavelmente a sua voz é grave, a sua silhueta curvilínea e, claro, os seus lábios devem apelar à volúpia. Provavelmenete dirá que, da vida, prefere o luxo, a calma e a volúpia. Ah, sim, e também deve gostar de poesia.


Nariz


Bem, se prefere o nariz, então a sua inteligência e cultura são ilimitadas. Gosta de livros antigos, de grandes mulheres da História (como a Cleópatra) e até deve gostar que a fotografem de perfil.


Maçãs do rosto

Caso prefira as maçãs do rosto, então deve gostar de estar sossegada, deve desejar que chegue a idade da reforma (ou, se já lá chegou, sente-se muito bem) e gosta de se preocupar unicamente com o quotidiano e com os pequenos prazeres da vida. Quem não tenha ainda cabelos brancos, deve estar desejando de os ter e provavelmnte sente-se bem com o cabelo apanhado atrás (num chignon) e, se calhar, até se perfuma com água de Colónia.


Sobrancelhas


Se gosta, acima de tudo, das suas sobrancelhas (incluindo, até, do tufo entre elas) então é bem capaz de ter um amor destemperado pela moda e pelo seu universo. Você deve ser um fashionista puro e duro!


Testa 



Se, sobretudo, ama a sua testa, então é uma pessoa cerebral.


Queixo

Prefere o seu queixo? Você só pensa em dinheiro, credo...


Orelhas



Se as orelhas são o seu maior trunfo, então saiba que isso significa que pensa demais.

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Já agora: se é certo que gosto muito de Shakespeare, então, aqui vos deixo, uma vez mais com Benedict Cumberbatch que diz  maravilhosamente o 'The Seven Ages of Man'

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Lá em cima, Monica Bellucci dança ao som de Dance me to the end of Love do Leonard Cohen.

Os excertos de poema pertencem a Visão de 'A dama e o Unicórnio' de Maria Teresa Horta.

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Escrevi como se o teste se aplicasse apenas a mulheres mas talvez se aplique também a homens. Não inventei isto, claro -- li [e traduzi (de forma livre)] na Marie Claire francesa: CE QUE VOUS PRÉFÉREZ SUR VOTRE VISAGE EN DIT LONG SUR VOTRE PERSONNALITÉ
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom sábado.
Saúde, alegria, paz de espírito, muito afecto.

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