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quinta-feira, setembro 24, 2026

Vejo o principio e o fim abraçados numa espécie de altar



Sobre a futura saída de cena de Guterres o que tenho a dizer é que até pode acontecer que a responsabilidade não seja só dele, sei bem que não é, mas, ainda assim, a minha opinião é que foi irrelevante e contribuíui para acentuar ainda mais a irrelevância das Nações Unidas.

Sendo um homem que todos dizem ser muito inteligente, a mim nunca me impressionou. Sendo como sou mais velha que a sé de braga, lembro-me dele como primeiro-ministro, e, aí, mais uma vez, o achei palavroso mas pouco actuante. Tem boas ideias mas não é homem de chutar à baliza.

O discurso de despedida, o último em funções, foi -- nas partes que ouvi -- muito acertado. Mas irrelevante em termos práticos. Não foi feito para deixar marca. É certo que tirou uma fotografia de fato e gravata e os pés debaixo de água. Muito elogiado por isso. De facto, uma boa fotografia, uma boa mensagem. Mas, em termos objectivos, não passou disso.

Trump salta em cima, pisa, faz o pino num só dedo, tudo em cima dele. É certo que ninguém com dois dedos de testa interpreta politicamente os desmandos de Trump. Tudo o que faz ou diz é fruto de um narcisismo maligno temperado com uma crescente dem~encia. Mas ele sabe com quem se mete. Por isso bate a bolina baixa com ditadores e trogloditas. Agora quando sente mole, está bem está, salta em cima com uma pinta. Fosse outro com mais fibra no lugar de Guterres e a ver se o Trump levantava cabelo como faz agora, ai fazia, fazia.

Do que vi do discurso de Trump, e só vi excertos, o que posso dizer é que foi a pangalhada do costume, parvoíces, contradições, auto-elogio, ameaças, tudo inconsistente, sem ponta por onde se lhe pegue.

Está metido naquela bela alhada do Irão e não sabe como sair dela. Só espero que as eleições de Novembro não venham com molho (pois ele já incitou os magaburros à batota, já ofereceu dinheiro, já os ameaçou com um bilheto de ida para o inferno caso não votassem nos dele -- já fez de tudo) pois seria preciso que os americanos fossem muito mais burros do que já demonstraram ser para que não conseguissem dar uma banhada das valentes aos republicanos e encostar o parvalhão às boxes. Não são só as mortes e os achincalhamentos e as perseguições, é a instabilidade galática que tem gerado.

A quem continuo a tirar o chapéu, e não tenho dúvidas de que ficará para a história, é Zelensky. Um estadista. Corajoso, resiliente, assertivo, determinado. Um homem inteiro. Se há alguém que ilustra na perfeição aquela coisa de que os homens não se medem aos palmos é ele. O que aquele homem tem enfrentado, o discernimento e a coragem e a presciência em cada momento da sua vida, mesmo quando é atacado, humilhado, torpedeado, é digno de louvor. Continuo a achar o que acho desde o início (embora os factos ainda não me tenham dado razão): a guerra acabará quando Putin for ao tapete. E sempre passei que seria a Rússia a atirá-lo ao tapete e a pôr-lhe o pé em cima para que do tapete não se levantasse. Mas como todas as vítimas de violência, os russos pecisam de tempo para processar o que lhes tem estado a acontecer, para afastarem a avergonha de estarem manietados por um ditador e para gahnarem coragem para expulsar o malfeitor. Não sei como será, mas acredito que um dia acordaremos com a notícia de que os russos se livraram do Putin e da sua entourage, talvez o ponham em cativeiro, e vão assinar um acordo de paz sincero e duradouro com a Ucrânia.

Talvez a seguir o entreguem para ser julgado pelos crimes que tem estado a cometer. E eu só espero que isso aconteça rapidamente.

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Mas, enfim, é tarde, não me apetece falar mais disto. Depois logo conto como vão as nossas arrumações na cozinha. Amanhã vou encomendar umas caixas de arrumação de diferentes tamanhos e finalidades. Quando as entregarem é que vai ser, uma reforma a sério. Até lá vai continuar a zaragata pegada entre mim e o meu marido. Eu sou de reformas profundas: tudo cá para fora e vamos pensar com racionalidade. Ele não: mal começa, já quer é despachar. Arranja soluções mirabolantes para tudo. E eu não concordo com elas. E ele passa-se, acha que discordo por discordar. A conjugalidade aqui por casa tem destas coisas: concordamos nos grandes assuntos da humanidade, discordamos sobre como arrumar especiarias.

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E, na despedida, Espécie de altar, Jorge Palma


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Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, setembro 22, 2026

Por favor diz-me quem és tu, de novo?

 

Não sei se é a lei da vida. Se calhar, é. Se calhar há mesmo que aceitar que não há corpos imortais. Se calhar há que reconhecer que muito aguentam alguns corpos, se calhar há que aceitar que há sempre aquele momento em que o corpo esgota a sua capacidade de gerar energia.

Morreu Jorge Palma. 

A notícia fere-me.

Bem sei que, como acontece aos criadores cuja obra se acolhe no coração de muita gente, ficam as suas belas canções e a memória da forma como as interpretava. Bem sei.

Não duvido: ficam, ficarão talvez para sempre. Muita gente as interpretará de novo, muita gente entregará a sua emoção ao lembrar-se dele, ao dizer as suas palavras, ao tocar a sua múvica, e nós relembrá-lo-emos também com emoção, com pena que ele se tenha libertado já da lei da vida. Não duvido.

Na nossa memória, Jorge Palma junta-se a Luís Represas, ao Zé Pedro, ao Bernardo Sassetti, aos nossos melhores. Temos o privilégio de termos partilhado com eles uma parte importante do nosso tempo. Partiram antes de nós. Ficamos com o dever de manter viva a sua memória.

Mas com que saudade. 

Somos feitos de pé da estrelas, todos. A esta hora Jorge Palma já flutua no espaço. Amanhã já habitará o corpo de um pássaro, as pétalas de uma flor, já será o sopro do vento, uma estrela do mar. Já estará a apontar-nos o caminho melhor do que qualquer estrela.

Não duvido.

E, no entanto...

O meu olhar tem razões que o coração não frequenta

Por favor diz-me quem és tu, de novo?

E toda a verdade em ti é coisa incerta e tão vasta
Quem sou eu para negar que a tua presença me arrasta?
Quem és tu, na imensidão do deslumbre?

Quando o tecto se escancara e se confunde com a lua
A apontar-me o caminho melhor do que qualquer estrela
Ninguém me faz duvidar que foste sempre a mais bela

Por favor, diz-me que és alguém, de novo?
Talvez a minha preferida:

Jorge Palma | Quem és tu, de novo?

 (ao vivo com orquestra)


Toda a verdade é coisa incerta e tão vasta

quinta-feira, julho 23, 2026

Da próxima vez

 

No acelerar dos dias, entre toda a espuma da infinita torrente informativa que nos submerge, grande parte do que é importante passa desapercebido. Por experiência própria, agora que tenho conta de instagram, sei que se queremos acompanhar tudo o que o algoritmo tem para nos mostrar, não paramos de escorregar o dedo pelo ecran para ver a notícia seguinte e a outra e a outra e a outra. E tantas vezes, aquilo que não compreendemos bem acaba por se esvair entre tudo o que é sugado pela máquina trituradora do que já foi visto.

No outro dia li uma notícia. E como me tem acontecido com alguma frequência, sempre que é uma aberração, a minha reacção é a de pensar que talvez não seja credível. Faço mal. O inteligente seria ir investigar. Mas continuo a deslizar, penso que depois logo vejo se é mesmo verdade, e o que acontece é que nunca mais me lembro.

E, tal como tem acontecido com todas as aberrações, venho a verificar, depois, que, afinal, era mesmo verdade.

Quando um assunto é nebuloso, fora do nosso controlo, coisa complexa, há quem tenda a não querer saber. Uma reacção do tipo 'entrega para deus'. Só que, neste caso, não é bem a deus que se entrega. É à Open Ai, à Anthropic, à Gemini, sabe-se lá a quem.

Transcrevo: "Modelo de IA da OpenAI age por conta própria e lança ciberataque durante testes de segurança"

"(...) A OpenAI afirmou que o que aconteceu foi um incidente "sem precedentes" e está a conduzir uma investigação em conjunto com a Hugging Face, cujo diretor, Clement Delangue, afirmou numa publicação no X que é "impressionante que tudo isto aconteceu de forma autónoma".

Só que não é apenas impressionante: é a prova provada dos reais riscos que todos corremos com a corrida desenfreada nos domínios da Inteligência Artificial. O mercado bolsista pressiona mais e mais ganhos e as empresas são pressionadas a entregar mais e mais, a chegar mais e mais longe. 

Enquanto houver quem descubra o que vai acontecendo ou enquanto houver quem vá denunciado as linhas vermelhas que, aos poucos, vão sendo pisadas, talvez os riscos vão sendo amortecidos. Mas pode acontecer que um dia algo de muito mau aconteça sem que ninguém vá a tempo de travar.

Não é alarmismo. É a realidade. Os riscos começam a apertar o cerco. Como será da próxima vez?

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Ao acordar e ao dar uma vista de olhos pelas notícias vi o que também não queria ver: Luís Represas saiu de cena. Não devia. A sua voz parecia eterna. A sua voz mobilizava e emocionava multidões. Ficam os vídeos, os discos. É certo. E é também certo que ninguém cá fica. Mas ele foi cedo demais.

Como sempre acontece, quando sei destas notícias, tento compreender. Tento ver nas imagens que agora nos vão aparecendo se já havia indícios. Em Março esteve no concerto e, que se tivesse percebido, parecia bem, não parecia debilitado, cantava, não arfava nem tossia. 

Dois familiares muito próximos morreram com cancro no pulmão. Foram anos de sofrimento com tratamentos horríveis. E tinham tosse, falta de ar, custava-lhes a respirar, tudo lhes doía. Um calvário. Mas, no caso da minha mãe, não foi assim. Não soubémos de nada até que já estava às portas da morte. Será que com o Luís Represas foi também assim? Saberia ele, no concerto de Março, que estava a escassos três ou quatro meses de se despedir deste mundo? Faz-me isso muita impressão. Ao ver agora as suas imagens, penso que estava mal encarado. Aliás, já o tinha achado envelhecido, enrugado. Na altura pensava apenas que a idade não perdoa, que era normal que, quase aos 70, não tivesse a mesma carinha de menino que sempre teve. Mas, agora que sei, penso que, se calhar, era já a morte, inclemente, a galope dentro dele. Se calhar é mórbido eu querer perceber o que talvez não tenha nada que perceber. Mas faz-me isto muita impressão. Ele e o João Gil e os outros ali em palco, todos reunidos. Saberiam que o fim dele estava para breve? Fico triste. Nem todas as perdas são assim, mas esta é. A morte não deveria ter levado já o Luís Represas. 

Não haverá próxima vez.


Desejo-vos um dia feliz

sexta-feira, junho 26, 2026

A mulher fatal subiu ao céu.
E regressou -- e conta como foi e como tem sido a sua vida

 

Do que a gente se apercebe, uma coisa é o que as pessoas são no dia a dia e outra é o que são por dentro. A gente vê pessoas que convivem, que dizem piadas, que riem, que trabalham, que são bem sucedidas, que têm uma vida normal, dir-se-ia que bem-sucedida e feliz, e, depois, quando mergulham dentro de si próprias, começam a desenterrar demónios, memórias angustiantes que, aparentemente, as têm mutilidado toda a sua vida.

Uma vez mais concluo que as pessoas são muito diferentes umas das outras pois as coisas de que muitas pessoas se queixam, passei por elas e não me fizeram mossa. De resto, só me apercebo disso ao ouvir relatar, com mágoa, o que lhes aconteceu. Penso: 'Olha, comigo também aconteceu isto...', porque, na verdade, nem me lembrava, pouca ou nenhuma relevância lhes tinha atribuído.

E, note-se, comparo comigo não porque me considere o fiel de alguma balança ou o alfa e o ómega do pedaço mas porque é o caso que tenho mais à mão e de que posso falar sem estar a cometer nenhuma inconfidencialidade.

Sou fã do Anderson Cooper em tudo o que faz. E o podecast em que conversa com pessoas sobre perda, sobre luto, sobre dar a volta, é muito interessante. Ele não apenas pergunta como ouve, ouve empaticamente, e faz observações sobre si próprio. São sempre momentos de partilha e, dado o tema que é, momentos de uma considerável intensidade.

Aqui fala com Sharon Stone. A bomba sexual de Instinto Fatal, a mulher com o cruzar e descruzar de pernas mais sensual do planeta, tem tido uma vida do caraças. E há que definir 'caraças' pois se há alturas em que ser do caraças é do melhor que há, noutras é o exacto oposto. É o caso.

Desde a hemorragia cerebral que a tirou deste mundo e a fez deslocar-se pela célebre luz branca, até ao complicadíssimo divórcio, à perda da guarda partilhada do filho, os vários abortos, a difícil relação com a mãe.... tudo lhe tem acontecido.

Mas está cá para contá-lo e isso é o mais importante. Com os olhos muito abertos, tentando controlar o choro, com a voz embargada, quase não conseguindo falar, Sharon Stone -- que já não é a mulher jovem e apetecível mas sim uma mulher interessante, pintora, defensora da igualdade de oportunidades entre homes e mulheres --, não contorna os obstáculos: vai de frente, fala, expõe-se, despeja o saco. 

A mãe nunca lhe disse: 'Orgulho-me de ti. Gosto muito de ti'. E ela toda a vida carregou esse não-reconhecimento com uma grande mágoa. A minha mãe também nunca me disse isso. Mas nunca me importei. Provavelmente a diferença é que eu sempre acreditei que não são precisas palavras, e que, apesar de não o verbalizar, era isso que a minha mãe sentia por mim. De resto, há palavras que, a mim, muitas vezes me parecem enfeites desnecessários. Basta-me tomar o pulso à essência, senti-la lá, viva. Basta-me, e basta-me muito bem. Do que se percebe, e certamente por todos os antecedentes, Sharon Stone duvidava que a mãe o sentisse. 

Mas não é só da mãe que ela fala. Carrega outras dores. A que foi uma das mulheres mais desejadas do mundo, que espalhava glamour por onde passava, tem, afinal, carregado muitas provações ao longo da sua vida.

Convido-vos a ver.

O luto complexo de Sharon Stone: "Para mim, está tudo bem sentir-me livre da minha mãe."

Sharon Stone viveu muitas perdas na sua vida, a mais recente das quais a morte da mãe, Dorothy, em 2025. Conta a Anderson Cooper que sentiu alívio após a morte da mãe e se sentiu "livre da minha mãe, livre do trauma dela".

0:00 O luto complexo de Sharon Stone
11:49 Stone fala sobre a sua falecida mãe
18:00 "Queria que ela morresse em paz"
23:59 "É normal ter todos os sentimentos que se tem"


Desejo-vos uma feliz sexta-feira

quarta-feira, junho 17, 2026

Ser-se viúva

 

Toda a vida ouvi a minha avó materna dizer que era viúva. De cada vez que conhecia alguém, dizia que era viúva e há quantos anos o era. Durante muitos anos vestiu-se de preto. Para o meu casamento, quase impus que não se vestisse de preto. Fez-me a vontade. Detestava que ela parecesse achar normal resumir a sua condição à de viúva. Enamorou-se ainda menina, engravidou menina, casou menina. Toda a gente dizia, e ela sempre o afirmou, que tinha uma paixão enorme pelo meu avô. Ela não dizia assim, dizia que sempre tinha gostado muito dele, só dele, de mais ninguém senão dele. Quando ele morreu, num terrível acidente, ela deveria ter quarenta e um ou quarenta e dois anos. Ia morrendo de desgosto. E fez luto a sério, saudade profunda, durante muitos anos. Creio que só quando começaram a nascer-lhe os bisnetos é que recomeçou a viver uma vida normal. Não que tenha sido isso que a fez reacordar, não faço ideia se foi ou não, mas a ideia que tenho é que foi por essa altura.

Lembro-me também de uma amiga que era apaixonadíssima pelo marido. Andavam sempre juntos e não havia conversa em que ela não falasse dele. Não trabalhavam longe um do outro, e todos os dias ele levava-a e apanhava-a no trabalho. Ela não conduzia e, para irem para casa, que não era perto, ou apanhavam vários transportes ou iam de carro. E, portanto, iam de carro. Ele é que geria a casa, os pagamentos, o lado prático das coisas. Tinham uma casa de verão na costa vicentina que tinham reformado e redecorado. Com uma família ligada às artes, tinham obras de arte, artesanato de qualidade. Ele era muito cuidadoso, tratava da manutenção da casa e de todas as coisas. Escrevi que era casa de verão mas, claro, era de verão, de inverno, de fim de semana e de quando para lá fossem. Até que um dia, sem aviso prévio, ele teve um ataque cardíaco fulminante. E não foi só ele que morreu, foi, de facto, parte dela também. Aoa olhos de todos, era visível que era como se ela não tivesse existência própria, sem ele. E não eram só os aspectos práticos (embora tivessem um peso significativo pois, na verdade, de grande parte da vida do dia a dia ela não fizesse nem ideia do que era preciso fazer). E havia também a parte do carro: ela nunca tinha andado de transportes. Tinha carta mas não conduzia. Mas depois havia o ir para a casa da costa vicentina que já não lhe parecia fazer sentido, sozzinha. Ou ir a restaurantes, cinemas, passeios, exposições que antes tanto frequentava. Definhou. Ao fim de pouco tempo deixou de trabalhar, não era capaz de manter sozinha a casa e o trabalho. 

Perder um marido para a morte é pior do que perder para outra mulher.

Aqui onde vivo cruzávamo-nos quase todos os dias com um casal um pouco mais velho que nós. Iam dar um passeio e depois iam para a esplanada, juntar-se a outros casais. E tratavam do jardim. E viamo-los a chegar de carro, vinham das compras. Um casal normalíssimo. Um dia o senhor começou a andar mais lentamente, e passaram a andar de braço dado. Via-se que a senhora, de certa forma, o amparava. Nas últimas vezes, ele já ia mesmo devagar, parecia faltar-lhe algum equilíbrio ou energia. A senhora cumprimentava-nos com a alegria do costume mas ele parecia que já estava um pouco ausente. Ou talvez estivesse apenas concentrado na marcha e não reparasse em nós. O certo é que, desde há algum tempo, nunca mais os vimos. De vez em quando, vemos um homem novo a entrar lá em casa. O meu marido diz que acha que é o filho ou o genro. Não sabemos o que aconteceu, mas a senhora estava bem. Contudo, se calhar não quis ficar a viver sozinha numa casa grande de mais para uma só pessoa. Estou a escrever dela aqui e não sei se, de facto, está viúva. Mas estamos convencidos que, de uma forma ou de outra, o senhor se ausentou. E a senhora, tão alegre e que tratava do jardim e passeava e que se via que gostava a conviver com os amigos na esplanada, também desapareceu.

Siri Ustevedt é uma escritora conhecida, tem uma identidade própria, é uma mulher interessante. Contudo, muitas vezes era vista apenas como a 'mulher de Paul Auster'. No livro, ela conta como se apaixonou por ele e como viveram uma vida de enamoramento por quarenta e três anos. Uma vida inteira. Tiveram uma filha em comum e, ultimamente, um neto. Ele tinha um filho de um casamento anterior, no caso da também escritora Lydia Davis, e esse filho sempre foi problemático. E teve um fim muito trágico, demasiado trágico. Siri e Paul atravessaram esse drama juntos. Ou seja, unidos na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Sendo ambos escritores, pisaram muitas vezes os mesmos palcos, as mesmas feiras e festas e palcos de palestras. Reviam os textos um do outro. Completavam-se. Claro que por vezes aconteceu acharem que ela usava ideias dele, quando era ao contrário. Mas reagiam solidariamente e Paul sempre se referiu a a ela como a intelectual da família. Eram felizes, na mesma medida em que os casais felizes são felizes, com altos e baixos, e muita ternura e compreensão. Até que Paul Auster adoeceu. E morreu. E Siri ficou viúva. E é sobre a sua vida em comum e sobre a perda, e sobre como tem sobrevivido a essa perda que Siri fala no livro Fantasmas. Paul Auster dizia que gostava de regressar como fantasma para ver se Siri estava bem. E ela, de vez em quando, sente o cheiro da cigarrilha de Paul. E gosta. Não é um livro melodramático, longe disso. É um livro muito factual, muito sincero, muito íntimo. Paul Auster, diz ela, morreu bem, soube morrer bem, com dignidade, ajudou a família a aceitar a sua morte. 

Depois de um período em que parecia vogar pela casa sem coordenadas, Siri voltou a ter vida própria. Esteve em Portugal agora, por exemplo. O seu livro é, também, um testemunho dos caminhos que uma viúva percorre até voltar a ser uma mulher inteira.

O livro pode parecer um bocado caótico pois a memória vai e vem em fragmentos. Mas isso é o normal. A vida não segue propriamente um guião.

Li-o de seguida, sem outros livros pelo meio, sem andar a arrastá-lo.

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Aqui Siri descreve o que também descreve no livro, uma sensação que lhe aconteceu logo após a morte do marido:

SIRI HUSTVEDT: 'Nunca me quis livrar daquele homem'

Uma conversa bonita e sincera sobre viver e amar a mesma pessoa durante 43 anos e a dor de a perder. (Para além do sexismo, da misoginia, de ter o seu trabalho creditado ao marido, o habitual!)


Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, maio 25, 2026

Os fenómenos bizarros que a medicina se esforça por explicar -- o poderoso testemunho de um neurocirurgião que recebeu a sentença de apenas mais 6 a 8 meses de vida

 

Desde sempre ouvi dizer que é preciso lutar ou que, se a cabeça quer, o corpo obedece, ou que é preciso ter calma. Mas, leiga que sou, sei lá se há fundamentação científica paa o que mais parecem lugares comuns.

O vídeo que abaixo partilho impressionou-me bastante, pela honestidade e pela vulnerabilidade do testemunho. Talvez também pela humildade. A vida é frágil. E essa é a nossa condição.

Qualquer um de nós estremece perante a possibilidade de uma doença, em especial se vier com veredicto associado, e o veredicto for assustador. Mas, creio eu, para um médico ainda talvez seja pior. Lembro-me de uma grande amiga que, quando jovem, com duas crianças muito pequenas, se viu perante um problema gigante. O marido, médico, hiperactivo, divertidíssimo, sempre cheio de ideias e de genica, um dia, do nada, caiu para o lado. Um aneurisma. Não morreu logo mas ficou sem se mexer, e foi uma coisa mesmo dramática, impensável. E muito triste. Ainda viveu algum tempo, tempos muito difíceis. A minha amiga dizia: Não vale a pena tentarmos animá-lo porque ele sabe o que tem, sabe o que o espera. Fecha os olhos, não quer ouvir, não quer que tentemos consolá-lo. Ele sabe que não vai viver muito mais.

Um neurocientista que tem um cancro raro e agressivo e uma curta expectativa de vida sofre como qualquer pessoa, ou talvez mais porque tem a objectividade da ciência a formatar-lhe as ideias. Mas David Linden diz que a sua atitude sempre foi a de um nerd, a de querer perceber tudo, querer entender a biologia daquelas células que, dentro dele, cresciam descontroladamente. 

Primeiro veio a revolta, depois a gratidão pelo que já tinha vivido e pelo apoio que sentia. Mas, sempre, a vontade de estudar, de compreender.

E uma coisa de que ele fala é como, de facto, cientificamente provado, a mente pode influenciar a sobrevida, e a qualidade da sobrevida. Não morreu ao fim dos seis a oito meses. Já passaram cerca de cinco anos e, pelo que diz e pelo que parece, está bem, o cancro ainda está lá, mas aparentemente controlado. E atribui sobretudo ao amor da mulher por ele e ao apoio dos filhos e dos amigos o prolongamento da sua vida.

Mas não o diz como homem de fé. Não tem fé, diz. Fala numa perspectiva científica. Estudos humanos e ensaios em animais demonstram como o exercício, a tranquilidade, um bom enquadramento social, haver uma rede de afecto, influenciam a sobrevida dos doentes cardiológicos ou com cancro.

Ainda estão a estudar quais as reacções biológicas que se operam para que tal aconteça. E dessa compreensão estão a nascer novos tratamentos que complementam os existentes.

O vídeo é longo e, por vezes, a terminologia é técnica. Mas é muito interessante. Não é só o lado humano, é também a esperança que estes novos caminhos da mente --- a mente como um centro não apenas reactivo mas de elaboração de previsões e de activação de recursos para lidar com essas previsões -- traz a quem enfrenta situações de susto e sofrimento.

[Relembro que dá para activar as legendas automáticas em português (do Brasil ou de Portugal)]

Os fenómenos bizarros que a medicina se esforça por explicar | David Linden: Entrevista completa

O neurocientista David Linden esclarece a biologia por detrás de fenómenos que a medicina há muito luta por explicar, desde as mortes associadas ao vudu e a síndrome do coração partido até ao efeito placebo, e porque é que o luto aparece nos resultados das autópsias. 


Desejo-vos uma boa semana
Saúde. Paz. Alegria.

terça-feira, janeiro 27, 2026

Coisas simples que melhoram a nossa vida

 

Quem por aqui me acompanha saberá que fujo a sete pés de livros ou vídeos ou influencers que vêm com conselhos da treta relativos a lifestyle, a coaching, mindfulness ou a cenas dessas que a mim me parecem tresandar a vacuidade. Não me levem a mal mas tudo isso me parece coisa de gente tonta que aconselha gente ainda mais tonta. Pode não ser mas, confesso, é o que me parece.

Tenho a minha própria sapiência. Já vivi o suficiente para formar algumas opiniões e para perceber o que me faz sentir bem e para saber dar valor aos bons momentos. Também já conheço o suficiente da vida para saber que se é importante termos conhecimentos e vivências não é menos relevante conseguirmos o distanciamento suficiente para deixarmos de lado o que nos incomoda, a espuma dos dias que consome o nosso tempo sem que nada fique em nós.

Vivi uma vida inteira ultra activa, ultra solicitada, em que fui levada a ser responsável por muita coisa quase vinte e quatro horas por dia, com poucas férias, ano após ano. Muita gente me dizia que eu não conseguiria ficar sem trabalhar depois de me reformar e eu sempre disse que estavam enganados, tudo o que eu desejava era interromper essa espiral que me envolvia permanentemente em reuniões, avaliações, definições de objectivos, planos, resolução de problemas de toda a espécie, trânsito e mais trânsito, stress e maçadas para dar e vender. Decidi que sairia antes de atingir a idade oficial da reforma. Ainda assim, por razões de amizade e de responsabilidade, acabei por aceder aos pedidos para ficar até que uma operação se concluísse, acabando por ficar por mais cerca de meio ano para além do que tinha resolvido mas, ainda assim, antes da idade oficial. Na altura diziam-me que, não ia conseguir largar a habituação de décadas e que não tardaria a procurar nova ocupação.

Calhou acontecer que isso coincidiu com o ano horribilis em que a minha mãe iniciou a sua trajectória para a noite escura sem que eu compreendesse o que estava a acontecer pois ela conseguiu baralhar médicos e enfermeiros e ocultar completamente o mal que rapidamente progredia, e que progredia ainda mais rapidamente porque não se tratou, e, sem o confessar mas certamente cheia de medo e dividida entre a fobia que tinha a medicamentos e o medo pelo efeito de não se tratar, não tomou os medicamentos que lhe eram indispensáveis. Portanto, o meu primeiro ano de 'desocupação' foram absorvidos pela ansiedade que o estado da minha mãe me causava, pelas idas ao hospital (pois, nesse período, e antes do prolongado internamento final, esteve duas vezes internada, tendo conseguir desviar a atenção dos médicos do pior dos males), pelas idas ao médico, pelos telefonemas, pelas visitas que eram sistematicamente ocupadas por queixas de saúde de toda a espécie, erráticas, descontextualizadas, mas sempre revestidas de drama, de choro, e sempre concluindo e tentando convencer-me que a causa do seu mal estar eram os medicamentos que tomava (quando eu sabia que tomava muito menos que devia). Foi um ano terrível para a minha mãe, angustiante, direi mesmo apavorante, nem quero pensar, e, para mim, que desconhecia a realidade, desgastante até ao limite. Portanto, nesse ano, não me sobrou tempo nem disposição para pensar em qualquer outra actividade.

Fez a semana passada já dois anos. O tempo passa mesmo a correr, é muito estranho. Tudo ainda tão recente, as imagens e a voz ainda tão presentes.

A seguir foi preciso resolver a questão das coisas lá de casa, coisas infinitas, infinitas, não acabavam. Foram meses, esgotantes meses. Os meus filhos poucas coisas quiseram. Eu já não tinha onde pôr tudo aquilo de que não queria desfazer-me. Período tão difícil também. Não tinha ânimo nem energia nem nada para mais nada. Só para escrever. Para tentar reequilibrar-me, escrevia compulsivamente.

Na verdade, apenas o ano passado aprendi a não fazer nada, a usar o meu tempo. 

E tem sido um tempo bom. Geralmente não tenho horários, não tenho compromissos. Posso fazer aquilo que quero. Posso ler salteado, pular de livro em livro, sentar-me a olhar as árvores, a ouvir os pássaros, posso andar a fotografar flores e frutos, posso andar a perseguir sombras, a encantar-me com o bailado das silhuetas nos muros. 

Coisas simples. 

Como o algoritmo do youtube conhece as minhas entranhas e sabe que ando zen, mostra-me que aquilo que eu procuro e em que me detenho são práticas que os japoneses seguem.

O vídeo de hoje (que pode ser legendado, com legendagem automática) repesca 8 hábitos que fazem melhorar a vida e nos quais me revejo, ou porque os pratico ou porque gostaria de praticar. Sobre alguns deles já aqui falei algumas vezes. Um prazer. Coisas simples, coisas de nada. O primeiro deles era prática muito comum na empresa: uma pequena melhoria de cada vez, uma após outra. Aconselho vivamente.

8 Tiny Japanese Habits That Will Transform Your Life

Se alguma vez se perguntou porque é que o Japão tem uma das maiores expectativas de vida, cidades mais limpas e algumas das pessoas mais calmas e focadas do planeta… não é genética nem sorte.

São pequenos hábitos diários — ações simples que parecem insignificantes, mas que se vão acumulando ao longo dos anos, gerando uma enorme transformação.

Neste vídeo, analisamos os 8 hábitos japoneses cientificamente ligados à longevidade, clareza mental, disciplina, produtividade, resiliência emocional e satisfação com a vida.

Você aprenderá:

🧠 Kaizen — o método de melhoria contínua de 1% utilizado pela Toyota para dominar o mundo

🎯 Ikigai — como encontrar o seu propósito e acordar motivado

🥗 Hara Hachi Bu — a prática alimentar de Okinawa que aumenta a longevidade

🌲 Shinrin-Yoku — banho de floresta e porque é que os médicos o recomendam

🌿 Wabi-Sabi — liberdade do perfeccionismo

💪 Gaman — resiliência mental sem queixas

🤝 Omiyari — disciplina empática que fortalece as comunidades

✨ Kintsugi — transformar a dor e o fracasso em força

Estes hábitos não são atalhos. São princípios para construir uma vida plena, uma pequena ação de cada vez. 


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Dias felizes

segunda-feira, dezembro 15, 2025

Sylvia e Ted nas palavras de Frieda, a filha

 

Em tempos vi um filme chamado Mourir d'aimer. Na altura, pensava que não seria possível morrer de amor. E, com o meu lado racional, ainda penso que o amor será o bode expiatório, não a causa directa. Uma depressão não tratada, talvez. Ou um acidente, alguém que, num acto desesperado, quis chamar a atenção mas a quem a coisa correu mal. Acresce que, com o meu lado racional, tendo sempre a pensar que é absurdo alguém subalternizar-se a ponto de que, se a pessoa amada não retribui o seu amor, achar que não vale a pena viver.

Mas, lá está, já a minha mãe, muito dada a ser levada pelas emoções, por vezes me dizia: "Não sei, parece que és demasiado racional...". Ela tirava conclusões a partir de impressões e eu tentava colocá-la no trilho da razão.

Contudo, se há coisa que tenho vindo a aprender é que as algumas das nossas certezas se vão metamorfoseando. Por isso, não posso dizer de certeza absoluta que Sylvia Plath morreu de baixa auto-estima, ciúme exacerbado, depressão profunda ou apenas por sentir que viver sem o seu bem-amado Ted Hughes não fazia sentido. Tinha dois filhos, uma menina de 3 anos e um menino de 1, mas eles não foram suficientes para a prender à vida. Uma história tristíssima.

Tenho também a ideia de que quem vive muito próximo das palavras mais facilmente encontra narrativas em que a dor de perder um amor é de tal forma romantizada que pode justificar toda a espécie de actos extremos. A poesia gosta de mágoas, de desespero, de paixões fatais.

Mas quem sou eu, o que sei eu para opinar sobre um tema tão complexo?

A filha de Sylvia e de Ted entretanto cresceu. E é ela que aqui está, conversando sobre os seus pais, mostrando as suas cartas e objetos que em tempo foram tão íntimos. 

O Amor Extraordinário de Sylvia Plath e Ted Hughes

Neste episódio de Uma Vida Menos Ordinária, Frieda Hughes convida-nos a ir a sua casa para conversarmos sobre as cartas, o amor e o legado duradouro dos seus pais – os gigantes da literatura Sylvia Plath e Ted Hughes. Frieda oferece-nos um olhar íntimo sobre as cartas que Plath escreveu a Hughes logo após o casamento, enquanto estudava em Cambridge, bem como uma incursão no álbum de fotografias da família. Entre estes itens de grande importância histórica, vislumbramos também as alianças de casamento de Ted e Sylvia, receitas de família e o adorado baralho de tarot de Sylvia. Estes artigos e muitos outros foram oferecidos num leilão da Sotheby's de há uns anos, "A sua própria Sylvia: Cartas de Sylvia Plath para Ted Hughes e outros artigos, propriedade de Frieda Hughes"

Desejo-vos uma boa semana

sábado, novembro 01, 2025

Em noite de Halloween... que entre Hannibal Lecter... Fssss-fsss-fssssss...

 

Se há actor por quem nutro grande admiração, ele é Anthony Hopkins. Há mais, claro, mas é dele que quero aqui falar. Todos os filmes em que o vi me deixaram uma forte impressão. Parece que há qualquer coisa de muito íntimo entre ele e os personagens que desempenha.

Contudo, se há papel em que se transcendeu de forma absoluta e que para sempre lhe ficará associado é o de Hannibal Lecter, o criminoso em série, canibal, sem remorsos, sem consciência. 

A sua voz que modelava a ameaça velada e ciciada através do silêncio, a sua perspicácia cortante, tudo ali assustava. Estar perante alguém tão demoníaco deve ser aterrador e nós, no conforto da sala de silêncio, sentíamos o medo que aquele coração gelado e aquela mente perversa destilava.

Colbert apresenta uma entrevista que lhe fez, e é um prazer vê-los à conversa. 

Anthony Hopkins revela como a sua intuição, o seu conhecimento intrínseco dos meandros mais primitivos da mente (os mecanismos do medo, por exemplo) e algumas fontes de inspiração serviram para compor o personagem. E é um prazer assistir a isso.

Sir Anthony Hopkins, As Hannibal Lecter, Can Make Any Classic Movie Line Sound Terrifying

O vencedor de um Óscar, Sir Anthony Hopkins, revela que personagens de filmes influenciaram a sua interpretação de Hannibal Lecter em "O Silêncio dos Inocentes" e aceita o desafio de Stephen de ler algumas frases famosas do filme como o célebre assassino em série fictício.

Não vou aqui partilhar todos os vídeos dessa entrevista mas não posso deixar de aqui colocar o seguinte. O tema não é apenas o do 'grande segredo' mas essa parte, o da finitude, é muito interessante. Diz ele que já viveu muito, nunca esperou chegar até aqui, que está tudo bem, já não tem medo. E ninguém escapa. Por isso, quando o momento chegar, que chegue. Tema complexo para toda a gente mas é agradável ver alguém a falar disso a rir, sem drama.

"One Day I Will Learn The Big Secret" - Sir Anthony Hopkins Says He's Too Old To Fear Death

A entrevista de Stephen Colbert à lenda de Hollywood, Sir Anthony Hopkins, dividida em quatro partes, termina com uma conversa sobre ser o ator mais velho a ganhar um Óscar e porque é que, aos 88 anos, superou qualquer medo da morte. As suas memórias, "We Did OK, Kid", estão disponíveis.

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E estamos em Novembro. O tempo corre. Os dias estão mais pequenos. 
E as lojas já mostram os enfeites de Natal. 
Vita Brevis. Tempus fugit.

Dias felizes

domingo, outubro 12, 2025

Friends & Co.

 

Como naqueles filmes, assim eu na vida real. Ao fim de muitos anos, aos poucos vamo-nos reencontrando. Algumas vezes todos, outras vezes em grupos mais reduzidos. Hoje foi assim: envoltos em sol, como se o tempo não tivesse passado, um grupo de amigos encontra-se. 

Em volta da mesa, conversamos como se sempre tivéssemos mantido o contacto assíduo. As expressões são as mesmas, os risos os mesmos. Os truculentos continuam truculentos, as serenas continuam serenas, as rebeldes e fora da caixa continuam assim só que, como dizem, agora sem filtro. E vai risada. E a nossa artista continua artista, mas agora com obra feita, cotada. E, aliás, de uma maneira ou de outra, todos temos obra feita nem que com obra feita estejamos a referir-nos, sobretudo, à família que constituímos.

Há novos personagens, claro: o marido de uma, a mulher de outro, a namorada de um outro. E todos conversam e riem. Recordamos episódios, muitas vezes esquecidos ou nem apercebidos por alguns. 

Contam coisas de mim ao meu marido. 'Não nos ligava nenhuma', confessam os rapazes. (Não lhe contam que não ligava a eles mas havia um e depois outro a quem ligava). E falam-lhe dos meus feitos académicos e, nesse capítulo, como sempre, não consigo dizer nada. É como se dissessem: 'Tinha o nariz grande.'. Que poderia dizer? Nada. A ser verdade, não teria feito nada por isso. Tento mudar o rumo da conversa. 

Falamos das eleições. Há interpretações distintas, visões diferenciadas sobre o trabalho realizado. Há quem invoque situações pessoais, há quem se insurja porque tem que se pensar na cidade e não na sua situação pessoal. Os ânimos ficam acalorados. A política, ainda por cima em véspera de eleições, ainda incendeia. Uns desentendem-se e a mulher de um dos assanhados põe água na fervura: 'Isto é só uma tertúlia', ou seja, não um combate de box. Mas o sangue na guelra dos intervenientes mantém-se vivo. Passado um bocado, os dois amigos atiram-se num mergulho e põem-se a nadar, amigos somo sempre.

Fazemos um brinde, dois brindes. Desejamos todos que nos mantenhamos assim, de boa saúde, amigos, com vontade de partilhar o dia, a companhia uns dos outros.

Nunca tinha estado naquele lugar. Dir-se-ia um lugar quase no fim do nada. E, no entanto, uma maravilha. Muito verde, muito amplo, muito iluminado. E com peças de arte, umas adquiridas, outras feitas, que acrescentam beleza àquele espaço.

Chegámos a casa já noite. Fomos passear o cão que, coitado, tinha ficado em casa sozinho. Mas ficou no jardim e isso mantém-no sempre atento e ocupado, sempre em guarda do território.

Por isso não vimos notícias nem sabemos de novidades. Ou seja, nem eu nem o meu marido temos alguma coisa a dizer. Acresce que a noite passada praticamente não dormi, tossi, tossi, tossi, toda a santa noite até às sete e tal da manhã, uma daquelas tosses que resultam de uma comichão na garganta que não passa. Depois ainda dormi um pouco mas, claro, pouco demais. Agora estou melhor mas carregada de sono. Só que, entretanto, peguei ao meu marido, agora está ele. Pôs avamys no nariz e tomou paracetamol e foi enfiar-se na cama. Não arriscou na ceterizina pois viu como eu fiquei (passaram-me os espirros e o pingo mas no dia seguinte fiquei completamente KO).

Concluindo: o dia foi muito bom, adorei, mas se, enquanto lá estive, estive razoável, agora, aqui chegada, estou capaz é de ir para a cama.

Mas, antes de ir, uma nota: ao ligar o computador e espreitar as notícias, vi que morreu a Diane Keaton e isso deixou-me em choque. 

Diane Keaton, by Pablo Lobato

Há pessoas assim, que, saberemos lá dizer exactamente porquê, nos tocam de uma maneira especial, parece que queremos tê-las a partilhar o nosso tempo, enquanto o nosso tempo existir. 

Mais uma estrelinha que foi brilhar para mais longe.

Contudo, a vida continua, a vida sempre continua. E que seja boa para os que cá estão.

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Desejo-vos um belo dia de domingo

E não se esqueçam de votar pois votar é mais do que um dever, é uma obrigação, é mesmo, ok?

quinta-feira, outubro 02, 2025

Oh... Jane...

 

Uma notícia triste. Quando comecei a ver, por todo o lado, a  fotografia com a data de nascimento de Jane Goodall e a data de hoje, entristeci-me. 

Jane Goodall at Budapest Zoo in 2004 with a newly adopted chimpanzee called Pola.
Photograph: Bela Szandelszky/Rex Features

No Guardian (Jane Goodall, world-renowned primatologist, dies aged 91)

É certo que ninguém cá fica e é também certo que, à medida que a vida se prolonga, mais curto fica o pavio. Mas ela era daquelas pessoas que eu admirava verdadeiramente. Gostaria muito de a ter conhecido pessoalmente. Sei que adoraria estar perto dela, ouvi-la, fazer-lhe perguntas, sentir a doçura do seu olhar e do seu sorriso. E não há muitas pessoas de quem eu consiga dizer isto.

Ainda não há muito, eu tinha partilhado, num outro fórum, um vídeo dela louvando a sua permanente abertura de espírito e a sua serenidade. Era daquelas pessoas que a gente se habitua à ideia de que são eternas.

Mas, enfim, tinha 91 anos e um dia haveria de ser.

Eu própria dou por mim a fazer contas de cabeça. Penso em quantos mais anos 'úteis' ainda me restarão, em que estarei independente, motivada, sem maleitas a travar-me a energia e a mobilidade, com vontade de fazer tachadas de comida e desejando ter a mesa cheia de gente. Faço a minha estimativa e, por vezes, penso que estou a ser optimista. É que não vale a pena pensar que só acontece aos outros. Neste caso, ninguém escapa. Ou seja, nem faz sentido desejar que a morte não nos leve. Claro que levará. O mais que faz sentido querer é que seja como a gente deseja que sejam os partos: uma hora pequenina. Que seja rápido e pouco doloroso. E que seja quando a gente pensar que já viveu tudo o que haveria para viver, que já está bem assim, que já chega.

de André Carrilho

Mas, no caso de Jane Goodall, sempre tão bem, sempre tão jovem, cabeça tão arejada, tão escorreita e bem disposta, sempre tão profundamente honesta, tão bondosa, penso que era legítimo pensar que seria daquelas que chegaria a velhinha, aos cem ou mais que isso, a ainda a sorrir e a mostrar ao mundo que a boa onda e o bom humor são verdadeiras pílulas da longevidade. Afinal, partiu antes do que eu imaginaria. Ainda não a via como 'velhinha'. Como pessoa de alguma idade, sim, mas não daquelas velhinhas que já não dão uma para a caixa.

Segundo leio, ainda a semana passada participou no evento Forbes Sustainability Leaders Summit (partilho o vídeo com a sua intervenção) e num podcast creio que do Washington Post, e ia falar em público depois de amanhã e, para a semana, participaria noutro evento. Ou seja, esteve activa até mesmo ao fim. Acho extraordinário. Provavelmente, algo dentro dela estaria já bastante frágil mas, num daqueles mistérios, talvez insondáveis, em que os mecanismos da vida e da morte são férteis, a sua cabeça, a sua vontade, o seu ânimo estavam ainda bem vivos. 

Não vou agora pôr-me para aqui a desejar que repouse em paz ou outras banalidades do género. Desejo, isso sim, que o seu exemplo perdure, que o amor e compreensão pelos animais seja cada vez mais forte, que o respeito e a veneração pela natureza estejam sempre presentes entre nós.

Li que, naquelas medidas estúpidas e cruéis de Trump, tinha sido cordado financiamento a projectos seus. Imagino como se deve ter sentido revoltada e impotente. Mas estou em crer que terá tentado dar a volta, sem derrotismos. E é o que todos temos que fazer quando a vida nos troca as voltas: resistir, encontrar alternativas, acreditar, seguir em frente.

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Jane Goodall Has Died At 91—Here Is Her Forbes Interview From Last Week

Legendary zoologist Jane Goodall has died at 91; last week, she spoke to Forbes' Maggie McGrath at the Forbes Sustainability Leaders Summit.

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Votos de um dia feliz

sábado, setembro 13, 2025

‘Uma escapadela secreta onde o verão perdura’: as viagens favoritas dos leitores do Guardian, em setembro, na Europa

 

Ao ver o título da notícia do Guardian (acima, no título), patriota como sou, fui logo ver se aparecia algum destino português. E sim, aparece. Fiquei contente. Mas fiquei admirada. Évora é uma cidade linda (e onde se come bem) mas, ainda assim, estava à espera de um lugar mais pitoresco ou mais desconhecido ou com uma oferta mais diversificada. No entanto, reconheço, é disparate meu, na volta até demonstro algum provincianismo ou alguma miopia.

O Alentejo banha-se em luz dourada até finais de Setembro e Outubro. A região estende-se desde florestas de sobreiros a praias selvagens do Atlântico, com temperaturas diurnas ainda a rondar os 20°C. Na cidade caiada de Évora, ruínas romanas e praças tranquilas convidam a um passeio tranquilo. Mais a oeste, a costa perto de Vila Nova de Milfontes oferece ondas quentes e areias quase desertas. O Alentejo é lânguido e soalheiro, um refúgio secreto onde o verão se prolonga e o tempo parece parar.
Autor do texto: Matthew Healy.
Autor da fotografia:  Praça do Giraldo, Évora. Fotógrafo: Philip Scalia/Alamy

Numa altura em que alguns dos meus amigos andam no laré por locais longínquos e enviam fotografias maravilhosas, eu sinto-me cada vez melhor no nosso país, e, em particular, em casa, seja na da cidade, por acaso perto do mar, seja na do campo, no meio do nada, rodeada de serras e de silêncio. 

No outro dia o meu marido estava a sugerir uma viagem e eu, que antes estava sempre numa de ir e que adorava planear, escolher hotéis, ir à aventura, agora penso sobretudo na maçada de fazer malas, na falta de conforto que representa a ausência dos nossos sítios tão bons, ou penso no déjà vu que já tudo me parece, quase como se já nada é verdadeiramente novidade. E quando, no meio deste comodismo, abro uma excepção e penso em ir visitar algum lugar, o que me ocorre é sair de manhã, irmos de carro, levarmos o nosso querido cãobeludo mais fofo, e regressarmos ao fim do dia. Quem me viu e quem me vê.

Mas depois, quando tento situar, no tempo, o momento em que comecei a desinteressar-me por ir viajar, localizo facilmente. Primeiro foi o meu sogro com uma doença grave que nos enchia de preocupação, que ia fazer tratamentos, que era preciso acompanhar, visitar, que nos fazia ter receio de nos ausentarmos. Depois, durante esse mesmo período, foi a minha sogra, também muito mal, internada durante bastante tempo, depois em casa, acamada, a precisar de cuidados permanentes. O que esse período nos trouxe a nível emocional e logístico não tem explicação. A seguir, durante esse mesmo período, foi o tremendo avc do meu pai. Aí a nossa vida complicou-se severamente. Eu e o meu marido cheios de trabalho, com responsabilidades que não podiam ser compatibilizadas com a ocupação que nos era requerida, e as preocupações a sucederem-se, umas atrás de outras. As férias passaram a ser apenas no país e fora de casa não mais que uma semana de seguida. E, ainda assim, íamos sempre com o credo na boca. Entretanto, morreu o meu sogro, algum tempo depois a minha sogra. Depois veio a covid, o confinamento, a morte do meu pai, e, quando já apenas sobrevivia a minha mãe, vieram os horríveis problemas com ela, que me iam levando a uma tremenda depressão tal a situação complexa que ela atravessou. Impossível afastar-me. Já lá vai um ano e picos que se foi, já poderia ter recuperado os meus velhos hábitos de nos pormos na alheta, de irmos passear e descobrir outras terras. Talvez um dia. Mas não sei.

Em retrospectiva, lembro-me de quando trabalhava, saindo de manhã e regressando ao fim do dia, os fins de semana sempre tão cheios de visitas e de mil compromissos, sempre sem tempo para usufruir tranquilamente da nossa casa. Agora consigo fazê-lo. Olho para as árvores, sento-me a ouvir os pássaros, rego, ocupo-me da casa, o meu marido ocupa-se com o jardim, lemos, cozinhamos, caminhamos. Tempos muito tranquilos. 


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Desejo-vos um bom sábado

terça-feira, setembro 02, 2025

Estas contradições que alimentam os nossos dias

 



Hoje não estou inspirada. De tarde, quando estava num outro comprimento de onda, por sinal até animada e já com ideias para uma outra coisa, recebi um telefonema: 'Não tenho boas notícias...'. E, pronto, uma bomba. Uma inesperada bomba. E aquilo que eu achava que estava encarrilado e a caminhar para uma boa solução voltou à estava zero. 

Fiquei ali um bocado a digerir. Uma desilusão que não vem nada a calhar. 

Mas depois respirei fundo. Nestas situações, respiro fundo. Penso no que se segue. É coisa minha: para estes contratempos, tenho um mantra: há mais marés que marinheiros. E tenho outros, todos igualmente banais. Mas é nas grandes banalidades que se escondem as grandes verdades.

Portanto, bola para a frente.

Claro que tinha pensado regar a parte da frente da casa, e, com isto, passou-me a vontade. Não me apeteceu, fiquei com pouca energia.

Gostava que caísse uma pinga de água. Mas nem uma. Detesto quando vejo a terra seca, só me apetece que caia não uma pinga mas uma chuvada das valentes. Mas nada, nem sinal de água. Amanhã talvez regue. 

Depois fui para a cozinha e fiz uma bela bacalhauzada. Bacalhau com todos é sempre uma coisa boa, aquece a alma. 

O passeio que fizemos à noite foi diferente: foi feito já bem de noite e debaixo de frio. Os dias encurtam a um ritmo desconcertante. E arrefeceu bastante. Levava calções relativamente curtos mas, por cima da tshirt, levava um casaco já um pouco quente. Soube-me bem. De início senti frio nas pernas mas, com o andamento, ficou até agradável. Cheguei a casa arrebitada, a pensar que amanhã é um novo dia. Todos os dias são um novo dia.

E todos os dias vão chegando notícias: alguém que faz anos, um menino que foi convocado e a quem o jogo correu bem, um menino que compõe um rap a gozar com os primos, uma menina que monta e edita um vídeo para o mano, outro menino que vai passar uns dias com a namorada, outro que começa um novo desporto, e depois chega uma notícia triste, alguém que morreu, alguém que nos faz pensar aquilo que tantas vezes piedosamente pensamos, que mais vale que morra do que sofra, e até nos esquecemos que ninguém devia sofrer assim nem assistir à vinda da morte de dentro do próprio corpo, e depois já é uma amiga que vai viajar e todos lhe desejamos uma boa viagem... e a vida vai andando, um dia depois do outro, e depois outro, e depois outro, todos os dias muitas coisas, coisas díspares, umas que nos fazem felizes, outras que nos entristecem, mas não param, a seguir a uma vem outra e outra e outra e outra.

E ainda bem que é assim. Só assim, porque temos termo de comparação, sabemos dar valor às coisas boas, só assim nos obrigamos a viver com vagar e apreço os momentos bons. 

E pronto, vou-me, não posso ficar por aqui senão não paro de dizer lugares comuns. 

Tenham um belo dia, ok?

domingo, agosto 24, 2025

A graça dos inocentes

 

Não quero parecer tonta e insensível como o Montenegro, a banhos ou todo contente no Pontal enquanto o país arde e as populações gritam, entregues à sua sorte com o fogo a lamber-lhes e a devorar-lhes as terras. Mas, em minha defesa tenho o facto de que, ao contrário de Montenegro, eu não sou responsável por tomar medidas que previnam estas desgraças ou que, na presença delas, as ataquem. Ele é. E parece que anda às aranhas, sem saber o que fazer. Depois de tanto ter pregado contra António Costa e ter prometido resolver tudo e mais alguma coisa em três tempos, agora não apenas está tudo pior como não conseguimos ter confiança nos artolas que nos aparecem da parte do Governo. Maria Lúcia Amaral pode ser uma boa pessoa, uma boa professora e ter algumas coisas razoáveis no cv mas, caraças, não salta a olho nu que jamais poderia ser pessoa capaz para este ministério? Que experiência tem a senhora para lidar com catástrofes, que experiência tem em coordenar equipas distintas, para lidar com problemas complexos, no terreno? Não sei mas presumo que zero. Estamos entregues a isto. 

Por isso, enquanto as televisões mostram Pedrógão de novo debaixo de fogo e outros céus rubros das labaredas e do fumo ardente, eu aqui estou a pensar nos meus amores e amorzinhos, tão queridos, tão alegres, todos boas pessoas. Cá estiveram e, como sempre, é aquela animação e aquele bom apetite que dá gosto. Os caranguejos gostam de alimentar os outros. Eu sou assim, o meu filho é assim, o meu pai era assim. 

Entre parêntesis, confesso uma coisa de que não me orgulho, uma coisa que talvez indicie que a minha cabeça começa a desandar... Fiz uma empada de galinha, uma empada grande, familiar. Deu-me algum trabalho, claro. Quando pronta, não a retirei do forno para se manter quentinha. Depois preparei o resto, o meu filho veio para a cozinha e assumiu o comando, cozinhou escalopes e febras, preparou bifanas, e pitas, tudo saborosíssimo, juntei a isso, na mesa, o cheese naan, chamuças, etc, e é sempre aquele reboliço de se ajeitarem na mesa, de se servirem, de conversarem e rirem. E depois veio a fruta e o bolo e tudo certo, cantoria, fotografias. De repente lembrei-me: a empada! Ainda morninha, no forno... caraças... 

No fim, quando saíram, lá a dividimos entre famílias, sempre a provam em casa, mas, bolas, como fui esquecer-me de uma coisa destas? Que absurdo... Enfim. Cabeça de alho cada vez mais chocho...

Mas, enfim, todos os males fossem esses. O que importa é que a convivência é sempre leve, bem disposta. E eu fico feliz por eles, por serem amigos, por gostarem uns dos outros, e por gostarem de estar cá em casa.

Ainda não contei mas no outro dia, estávamos in heaven, pergunta o mais novo, e já nem me lembro bem das exatas palavras mas foi qualquer coisa do género: 'Para quem fica isto quando vocês já não puderem tomar conta?' e depois, mais palavra menos palavra, disse que podia ficar para ele. Achei um piadão. Disse-lhe que já era o terceiro a candidatar-se. O mano dele depois dissertou dizendo que se calhar daqui por uns vinte anos eu e o avô já não poderíamos tomar conta, que ele poderia ocupar-se disso. São inteligentes, percebem que uma coisa assim tem que ter quem se ocupe dela, dá muito trabalho, e, de facto, eu e o avô já não vamos para novos, chegará a altura em que não daremos conta do recado. Fico contente por sentir neles este amor a este bocado de terra, enche-me de felicidade, talvez continue a ser um lugar no coração deles e de vindouros que nem conhecerei mas que, de alguma forma, ainda transportarão algum do meu sangue, um lugar de paz que os animais também procuram, em que nasce tudo em todo o lado, em que o ar transporta a liberdade dos grandes espaços. 

Felizmente não somos eternos e, quando chegar a minha vez de sair da passadeira rolante que é a vida, já cá não estarei no day after para lamentar isto ou aquilo. Mas, apesar disso, alegra-me pensar que talvez entre eles se organizem para continuarem a usufruir de um espaço tão rural, tão selvagem mas, ao mesmo tempo, tão acolhedor.

E estava eu aqui a ver as fotografias de hoje, a pensar nisto, a pensar nos meus cinco pimentinhas, agora já tão grandes e sempre tão queridos, resolvi espreitar o youtube.

E pimbas, apareceu-me este vídeo que aqui partilho. Uma delícia, uma fofura, a graça da descoberta, a graça da inocência.

O elefante bebé Chaba pela primeira vez numa banheira


Desejo-vos um feliz dia de domingo!

quinta-feira, agosto 07, 2025

Momento grande: Adélia conversa com Bial
-- Uma entrevista rigorosamente a não perder --

 

Desde que a descobri passou a ser companhia sempre presente na minha vida. Adélia Prado é daquelas pessoas luminosas de quem se pode dizer que é 'do bem'. Sorrindo, fala coisas sensatas, sábias, simples. Não é daquelas que se 'acha', não enrola a conversa em prosa armada. É daquelas pessoas com quem se aprende, com quem se ganham anos de vida, com quem apetece estar.

E o Bial é outro que tal. Todo ele cativa: sabe ouvir, sabe falar, sabe olhar. As entrevistas conduzidas por ele são conversas sempre gostosas.

Por isso, uma conversa entre os dois é maravilha pura. Conversam de tudo com aquela leveza, aquelas gargalhadas, aquele desassossego que alegra e rejuvenesce. Pode a conversa fluir em torno da morte, da vida, de sexo, de religião que as palavras não fogem nem se espantam. Adélia fala e Bial, embevecido, deixa-se ficar a ouvir. De vez em quando, parece que gostaria de ficar em silêncio, a pensar no que ela diz. Mas a entrevista tem que prosseguir e, então, lá vem mais uma questão. Outras vezes leem poesia e o prazer é redobrado: ambos parecem submersos nas palavras.

Esquecemo-nos da idade de Adélia, os seus 90 anos não pesam, não desgastam, não cansam: aqueles tantos anos luzem com graça e inocência, como as luzinhas do cenário em que se encontram.

Adélia Prado em "Conversa com Bial"

Adélia Prado, maior poetisa viva do Brasil e recém ganhadora dupla dos prêmios Camões e Machado de Assis, maiores honrarias prestadas a escritores de língua portuguesa pelo conjunto de sua obra, concedeu entrevista ao Pedro Bial, no programa "Conversa com Bial".

Prestes a completar 90 anos, a autora aclamada que publicou o primeiro livro aos 40 fala de suas experiências, de sua voz poética, de diferentes momentos da vida.




Dias felizes

sexta-feira, julho 18, 2025

Conversa em torno do abismo do não-ser

 

Fisicamente, Eduardo Giannetti é praticamente igual a um colega meu. Divertidíssimo, diziam-no pouco amigo de trabalhar mas, embora não o achasse um excepcional proactivo, dele nunca tive razões de queixa. Tinha como hobbies a fotografia e o cinema, participava em concursos e, em dias de evento, já sabíamos que podíamos contar com ele para registar o momento. E, ao pé dele, era forçoso que estivéssemos sempre todos muito bem dispostos. 

Não conheci a sua primeira mulher, por quem era apaixonadíssimo, sua comparsa nas fotografias e filmagens. Não tendo filhos, a disponibilidade de ambos para passeios e aventuras era permanente.

Até que um dia ela adoeceu. Para ele, foi um sofrimento terrível. Acompanhou-a incansavelmente.

Quando ela morreu, teve um grande desgosto. 

Fui ao velório. Como já contei, tenho pavor de mortos, é uma fobia que vem de quando era pequena. Nem entro na capela se a urna estiver aberta. 

Mas tendo feito centenas de quilómetros para lhe dar um abraço e estar com ele, seria estúpido não entrar. Só que a urna estava aberta. Portanto, não entrei mesmo. Saiu ele. E foi chamar a mãe para me apresentar, muito simpáticos. E começaram a contar-me os últimos dias dela, tudo envolto em ternura e tristeza. E, então, diz-me ele assim: 'Não quer ir ali vê-la? Está tão bonita. Está muito serena. E o cabelo... tão bonito...'. Quase me senti desfalecer. Pedi desculpa, disse que não conseguia, que me fazia muita impressão. Mas vi que ele ficou com pena que eu não fosse ver a defunta. 

Pouco tempo depois fui ter uma reunião com ele. Estava outro. Rejuvenescido, risonho, outra vez muito brincalhão. Tinham-me dito: 'Não me pergunte como é possível, mas é: o nosso colega já anda de namoro, todo in love.'. Fiquei estupefacta. Perguntei se era alguém conhecido. Não, nada. É que, se fosse colega, ainda me pareceria possível que, tão pouco tempo depois, já ele estivesse de namoro. Agora, em tão pouco tempo, desencantar uma desconhecida... Mas, então, fui ter ao gabinete dele. Em cima da secretária, numa moldura, uma fotografia de uma senhora toda desportiva, toda sorridente. Perguntei: 'Já soube da novidade e, pelo que ouvi dizer e pelo que aqui vejo, a coisa vai de vento em popa, já aqui tem a fotografia da namorada...'. Ele riu: 'Pois, não a quis ver lá na capela, não a conheceu... Esta não é a namorada, esta é a falecida...'. Fiquei sem saber o que dizer.

Mas isto só vem ao caso pois, ao ver o convidado do Bial, parecia mesmo estar a ver aquele meu colega bacano. Todo ele: o rosto, o cabelo, o corpo, os óculos, a forma como se veste. Iguais. Como é possível?

Mas vejam a entrevista, é outra daquelas conversas que nos deixam a pensar. Interessantes perspectivas.

É possível se tornar IMORTAL? Com Eduardo Giannetti | Conversa Com Bial | GNT

O economista e professor Eduardo Giannetti - e também autor do livro "Imortalidades" - vai ao #ConversaComBial para falar dos tipos de imortalidades sobre as quais escreveu. Aborda a pequenez dos seres humanos diante do desconhecido e como a crença na vida após a morte vai muito além da ciência, das tecnologias e da religião. 


Uma sexta-feira feliz

terça-feira, julho 08, 2025

Quando formos para melhor

 

No fim de semana, parte da família esteve a banhos no sudoeste e, da outra parte, um dos meninos esteve numa festa de anos, numa destas festas que também são happenings, desta vez incluindo equitação. Fui recebendo fotografias de uns e de outros, uns a mergulharem, outras a cantarem, um a andar a cavalo. 

Portanto, a casa não esteve tão cheia como quando estão todos, mas foi igualmente bom. Se sei que estão todos bem também estou bem. 

O bem estar e a felicidade são estados de geometria variável.

No outro dia recebi uma fotografia de uma das minhas primas com o seu neto mais novo, o que conheci no dia do velório e que voltei a ver no dia da cremação da minha tia. Na fotografia estava também o meu tio que, como sempre, estava impecável. Por tanto que tem passado e mantém-se inalterável, sempre muito bem arranjado, sempre com boa cara, mesmo muito bem. Está quase igual ao meu avô, seu pai.

O tempo passa a correr, é o que é. Penso que o nome deste meu tio, o petit nom pelo qual era chamado, foi a segunda palavra que disse (a primeira foi cão). Embora pouco efusivo -- nada a ver com o meu outro dia que falava alto, que ria, que conversava e contava histórias --, sempre admirei a contenção e os modos reservados deste meu tio. Levava-me a andar na sua bela mota, com cromados reluzentes. Os meus pais não queriam, mas ele transgredia. Eu sentia o cabelo ao vento em especial quando ele curvava. Ninguém usava capacete. Depois arranjou uma namorada bonita, com uns grandes olhos verdes e uma voz com um timbre distinto. Levou-me algumas vezes com ele quando ia namorar. Aquela namorada despertava-me curiosidade. Devia ter uns quatro anos, eu, e achava que ela parecia uma artista de cinema. Algum tempo depois fui a menina das alianças e levei um vestido todo feito de renda branca e o cabelo apanhado em cima, com uma fita de rendas em volta.

Agora ele já tem uma bisneta que é igual, igualzinha, à minha prima. Até na forma como se riem, gargalhando de forma franca, aberta. Agora a minha prima já não ri assim, está muito parecida com o pai, nos modos contidos. Mas, quando era pequenina, a minha prima ria muito. Eu também. Por vezes tínhamos ataques de riso e partíamo-nos a rir. A minha mãe diz que ficava com vontade de rir só de ver como nos ríamos. 

E, para além da bisneta que é igual à filha, quando era pequenina, o meu tio agora tem este bisneto bebé, também muito fofo.

É aquilo que digo. A nossa vida humana dura enquanto nos aguentamos na passadeira rolante. De vez em quando há um que sai. Um ano depois da minha mãe, foi a minha tia que saiu. Mas, entretanto, pouco antes tinha entrado um novo bebé.

As famílias recompõem-se. É um fenómeno fractal. Também os nosso corpos vão libertando células velhas e novas vão aparecendo. Pouco somos daquilo que um dia fomos.

Contei, num vídeo que publiquei agora no Instagram, como, no outro dia, um dos meus meninos me perguntou para quem ficaria este espaço a que, entre nós, damos um outro nome mas a que aqui, no blog, chamo heaven: 'Olha lá, quando tu e o avô forem para melhor, o 'heaven' fica para mim ou para o pai?'. Num primeiro momento não percebi. Depois percebi que ele queria dizer 'quando forem desta para melhor'. Não me fez impressão a pergunta. Pelo contrário, fico contente que gostem tanto deste lugar. Já há uns anos, um outro menino, com mais hesitação, me tinha perguntado o que aconteceria a isto quando nós morrêssemos. 

O que me preocupa e o que me custa, isso sim, é pensar como pode ser difícil a sua vida quando forem adultos, quando tiverem os seus próprios filhos. Gostava que se mantivessem juntos, amigos uns dos outros, que vivessem numa terra verdejante, amena, pacífica, em que todos se estimassem e amparassem, em que o futuro fosse promissor e aguardado com optimismo e alegria. Isso era mesmo o que eu queria. 

Mas receio tanto... Hoje esteve outro dia de calor difícil de suportar. As temperaturas sobem, sobem. E, muito sinceramente, não vejo que em Portugal estejam a ser tomadas medidas estratégicas, de longo prazo, para combater, na medida das nossas possibilidades, as alterações climáticas. E devia haver um toque a rebate, medidas globais, que tocassem a toda a gente.

Vejo que na Suíça o Estado está a financiar o arranque do betão dos pavimentos para o substituir por jardins. Junto às casas, nos parques públicos, em todo o lado em que tal faça sentido, é um movimento que está a começar. Pretende-se que os solos consigam absorver as águas para que os rios não transbordem, pretende-se devolver à natureza o que à natureza nunca deveria ter sido retirado.

Vejo que na Dinamarca há incentivos estatais para que, a nível geral, a alimentação usual comece a ser substituída por alimentação sobretudo baseada em vegetais. A poluição resultante das explorações intensivas, nomeadamente de animais, é muito relevante. Tudo o que se possa fazer para a reduzir, sem prejuízo para a saúde humana, é de louvar.

Seria interessante que houvesse, por cá, uma chamada de atenção para a necessidade de se fazer alguma coisa -- e um plano de acções para fazer o que há a fazer.

Partilho os vídeos. Dá para activar a auto-tradução que, já se sabe, não é famosa mas que pode ser uma ajuda para quem não esteja à vontade com a língua inglesa.

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"Recuperar o espaço do betão: Como as cidades suíças estão a ficar mais verdes" - Focus on Europe

O betão está a abrir caminho para o solo, enquanto os ativistas suíços trabalham para recuperar o espaço urbano para a natureza. Como o solo absorve muito melhor a chuva, a iniciativa promete reduzir a carga sobre os sistemas de esgotos urbanos.

O ambicioso plano da Dinamarca para impulsionar os alimentos de origem vegetal | FT Rethink

Os alimentos de origem vegetal são essenciais para a transição verde da Dinamarca e deverão proporcionar benefícios económicos e de saúde significativos. A pequena nação escandinava é agora líder mundial neste sector. Então, como é que a Dinamarca fez isso? Será que esta estratégia poderia funcionar noutros locais?

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Dias felizes

sexta-feira, julho 04, 2025

Em dia de notícia triste, socorro-me do facto de estarmos na silly season e faço a agulha para uma coisa de nada.
Eu ficava doida com as canções dela enquanto alguns amigos (no masculino) ficavam doidos com a beleza da outra

 

Estamos na silly season e, portanto, temos legitimidade para esparvoar, para falar sobre coisa nenhuma e para atirar um dia numa direcção e, no outro, numa completamente diferente.

Mas acontece que hoje, de manhã, ao olhar para o telemóvel, vi uma mensagem da menina que estava no estrangeiro, na sua viagem de finalistas. Num primeiro pensamento imaginei que fosse uma fotografia sua com amigos mas, logo depois, vi que estava a enviar a notícia da morte do Diogo Jota e do irmão, André Silva. Nada percebo de futebol e não conhecia os rapazes mas, apesar de o nome dele não me ser estranho, só o facto de morrerem dois jovens assim de repente deixou-me congelada. Mas, de imediato, pensei na mãe, a perder dois filhos. Dor inimaginável, dor existencial. Depois li que o Diogo se tinha casado dias antes, que os filhos, três crianças, tinham assistido ao casamento. Tragédia dolorosa demais. E este peso acompanhou-me todo o dia.

Não quis falar nisto pois dores imensas, em meu entender, requerem contenção, silêncio. Agora à noite, ao ligar a televisão, vejo o expectável: uma overdose, uma exploração ad nausean de uma desgraça tamanha que se abateu sobre uma família.

Por isso, não vou aqui fazer declarações sobre um tema que me deixa transida de pena, de aflição.

Espero que não levem a mal mas vou divergir, vou disfarçar.

E, para isso, trago a Janis Joplin que eu adorava ouvir, cujo LP 'Pearl' ouvi carradas de vezes, ao som de quem dancei mil vezes.

E trago a Raquel Welch que os rapazes achavam uma 'brasa', uma 'bomba', um 'avião'. 

When Janis Joplin met Raquel Welch on the Dick Cavett Show (1970)


Uma boa sexta-feira

quinta-feira, junho 26, 2025

Isto é o que realmente interessa

 

Vi o vídeo que aqui partilho com particular agrado. Revejo-me em muito do que Annie Norgarb ali diz. Não na parte em que diz que passou grande parte da vida a fazer e a ser como os outros esperavam, esforçando-se por não desagradar, mas na parte em que diz que gosta cada vez mais de estar em contacto com a natureza, na parte em que diz que a vida é como remar até chegar ao outro lado, e isto em todos os sentidos, e na parte em que diz que gostaria de passar para o outro lado com calma, na boa. 

Não posso dizer que nunca fiz coisas contrariada. Fiz. Por exemplo, quando os meus sogros ou os meus cunhados combinavam almoços ou jantares em restaurantes que, segundo eles, eram muito conhecidos e muito bons, eu ia para não ser desmancha-prazeres, mas ia antevendo que era um dia que ia às malvas. Fazia um esforço para parecer bem disposta mas, por dentro, ia mais do que contrariada. Geralmente os restaurantes estavam a deitar por fora. Primeiro que fossemos atendidos era um castigo. Os meus filhos ficavam cheios de fome, impacientes. Chegávamos a um ponto em que as crianças já se portavam mal por todo o lado, os meus sobrinhos mais pequenos choravam, já todos embirravam uns com os outros.

Alguns, começavam a pedir bebidas antes de começarmos a ser atendidos e, portanto, parece que nem davam pelo incómodo das crianças. O tempo passava e a comida não vinha. Depois, quando vinha, como éramos muitos, era uma confusão. Uma confusão a pedir, uma confusão à mesa com meio mundo a querer provar o que os outros tinham pedido, a trocarem coisas uns com os outros. Depois uns eram especialmente vagarosos, e estavam ali numa de degustar. Era quatro e tal da tarde e ainda estávamos à mesa. Quando parecia que tínhamos acabado, havia quem passasse aos digestivos e aí iniciava-se uma nova e demorada fase. Depois, ao fim de muito tempo, finalmente lá vinha a conta, sempre uma verba astronómica mas que era impossível de conferir pois, pelo meio, toda a gente tinha pedido mais um pouco de cada coisa, no conjunto parcelas que não acabavam. Podia ser aquilo ou metade daquilo. Pagava-se e pronto. Mas eu gosto de coisas rigorosas. Por isso, ficava azul de largar uma nota preta sem fazer a mínima ideia se estava correcto. Saíamos de lá tardíssimo. E, não raras vezes, a cena dava-se em lugares que não eram propriamente à beira de casa. Lembro-me, por exemplo, de uma ida à Sopa da Pedra em Almeirim, aí incluindo também primos, uma confusão indescritível, ou a um cozido em broa em Sintra num restaurante numa aldeia em que só começámos a almoçar depois das quatro da tarde. Intimamente sentia-me desvairada e estafada pois perder um sábado ou um domingo daquela maneira não era o que eu mais desejasse, mas aguentava de boa cara, fazia um esforço sobre-humano para não espumar, para não invectivar ninguém, para parecer que aquela também era a minha praia. Tudo porque não era capaz de dizer que não contassem comigo. Mas, enfim, a vida também é feita de alguns fretes.

A nível profissional também fiz alguns. O pior eram reuniões, não conduzidas por mim mas por alguém que gostava de fazer render e que deixava que se arrastassem por infindáveis horas sem que nada se resolvesse. Horas e horas a mastigar, sem engolir. Eu a ver as horas a passar, a querer ir para casa, e aquilo sem acabar. Por vezes mostrava alguma impaciência mas era obrigada a acatar o ritmo de quem conduzia a reunião. Lembro-me, em especial da ansiedade em que ficava quando os meus filhos ainda eram pequenos ou adolescentes e eu queria ir buscá-los à escola, estar com eles, queria fazer o jantar a horas... e nada, aquilo não atava nem desatava. Se calhar, não podia mesmo levantar-me e dizer que me recusava a dar mais para aquele peditório. Acho que não podia mesmo fazer isso. Mas foi tempo de vida que queimei a aturar pessoas que não sabiam conduzir reuniões ou tomar decisões. Não foi para agradar, foi apenas porque seria impensável desacatar a hierarquia, seria algo que irremediavelmente teria consequências, e não seriam boas.

Mas, tirando coisas assim, não tenho ideia de ter contrariado a minha natureza para agradar aos outros.

Mas, tirando esse aspecto, coincido muito no que a Annie Norgarb diz, no gosto das coisas simples, no prazer no contacto da natureza, na compreensão de que não vale a pena complicar e na vontade de que, quando o fim se aproximar, ir na boa, sem me agarrar a uma vida que irremediavelmente um dia se extinguirá.

Do que mais me custou nos últimos tempos da vida da minha mãe foi na sua total negação, na sua recusa em aceitar que o fim estava para breve, na forma desesperada como se agarrava à vida. Não aceitou que estava doente, escondeu-o, não quis tratar-se, teve medo dos tratamentos, e, sobretudo, não quis aceitar que o fim da linha estava prestes a ser cruzado. Estava numa angústia terrível e nunca permitiu que o tema fosse abordado. Gostava de ter podido dizer-lhe que partisse em paz, que nós ficaríamos bem e que ela iria descansar. Gostava de ter podido serená-la. Mas não foi possível. Ela queria viver e, sobretudo, queria viver com a qualidade de vida que teve até tarde. Eu gostava de, quando chegar a minha vez, encarar esses momentos com maior racionalidade, com tranquilidade, com aceitação. A forma como Annie Norgarb fala disso, sorrindo, agrada-me.

Mas não é só disso que ela fala. Fala de despojamento, fala de simplicidade. E alimenta os passarinhos, os patos, o pavão, os seus três cães. Passeia, acarinha as flores, desfruta da paz de existir.

É um vídeo muito bonito. (Dá para pôr legendas em português).

It took me 80 Years - Life Lessons I Wish I Knew Earlier - HERE'S WHAT MATTERS

Time, when approached with gentleness, doesn’t have to be something we resist. It can become a steady companion, offering a quieter kind of beauty — one that isn’t about appearance or achievement, but about depth and authenticity. As we grow older, our priorities shift, our understanding deepens, and there’s often a greater sense of ease in simply being who we are.

The passing years don’t take away who we are, they often bring us closer to it. Rather than chasing youth or regretting its passing, there is value in settling into ourselves more fully. When we stop measuring life by what we should be or do, we begin to recognise the richness of where we already are.

Featuring Annie Norgarb.

Filmed in McGregor, South Africa. 


Desejo-vos dias felizes