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segunda-feira, janeiro 14, 2019

Lisboa tem música.
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 6 de 8]




A fotografia ali em cima mostra uma das várias montras da fantástica loja Hermès. As montras Hermès são sempre montras invulgares e com um toque de graça. Desta vez, não sei porquê, estão cheia de engraçados ratinhos brancos e orelhudos, verdadeiros topo gigios, Escolhi esta por ter a ver com música.

Anda-se por esta zona de Lisboa e há música everywhere. No Chiado há música e dançam, no Cais do Sodré é jazz, há guitarra portuguesa há trio cantante. Até na areia vi um jovem deitado ao sol abraçado à sua guitarra. O sol ameno, a luz límpida, o rio, as pessoas e a música. Muito bom passear em Lisboa.


Aquilo que me levava a ter vontade de ir para fora porque não encontrava por cá -- este ambiente descontraído, este hábito de estar na rua ao invés de fechados em casa como era até há uns tempos em que as nossas ruas estavam quase desertas e em que quase não havia gente nos parques ou à beira rio ou nas esplanadas, esta coisa boa de termos música enquanto passeamos -- já não existe.

O nosso país começa a saber desfrutar das cidades e, talvez pelo contágio com quem e«vem de fora, o ambiente que agora se vive em Lisboa é bom. Dá gosto passear. Um maná para quem, como eu, gosta de fotografar.

Muito talentoso, este jovem. Tomara que vá longe. Muito boa (e muito bem tocada) a música que toca.
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E queiram continuar a descer, quer para verem três homens com pinta, quer para verem os pontos cardeais de Lisboa, a magnífica cidade.

quarta-feira, abril 22, 2015

Livros novos cá em casa


É mais forte que eu e, agora que li a opinião de Umberto Eco, ainda mais legitimada me sinto para me atirar para fora de pé: é uma tentação, enfiar-me nas livrarias. Tivesse eu à mão um museu e se calhar também me ia lá enfiar à hora de almoço mas, como não tenho, servem as livrarias mesmo. 

Percorro a livraria, fujo dos best sellers, poupo a vista não encarando os que têm capas radiosas, não me detenho nos romances históricos, nos policiais, nos de suspense, de vampiros ou de códigos religiosos, nos de auto-ajuda, nos de mandamentos de economia e de sucesso à pressão, nem nos de dietas nem nos de banda desenhada - sou preconceituosa, eu sei - e procuro o que me parece ser mais marginal, mais próximo da minha própria realidade (sendo que a minha própria realidade é qualquer coisa em construção e que ando a tentar descobrir).







A carta de Lorde Chandos, Hugo von Hofmannsthal, introdução de Hermann Broch, Relógio D'Água


É bondade sua, muito estimado amigo, ignorar este meu silêncio de dois anos e escrever-me como me escreve. É mais do que bondade dar à sua solicitude para comigo, à sua perplexidade pela letargia espiritual em que lhe pareço ter caído, esse tom de ligeireza e ironia que é próprio apenas dos grandes homens marcados pelas atribulações da vida, mas que nem por isso se deixam desanimar.

Atelier, Diogo Freitas da Costa, Fundação Francisco Manuel dos Santos


Capítulo 1 - Ana Vidigal, A casa redonda
Ando há 30 anos a cortar e a colar coisas
Ao abrir a porta do atelier, Ana Vidigal estava ao mesmo tempo a abrir-me a porta da sua casa. Vive e trabalha numa típica rua de um bairro popular lisboeta: uma via estreita, ladeando uma encosta que se ergue frente ao rio. É um lugar com muita 'vida de bairro', como se costuma dizer, onde se sente que o quotidiano é feito da permanente fusão entre a vida doméstica e a vida social.

À porta do farol faz escuro, Simone Weil, Apostolado da Oração


O mais puro amor


Tudo o que em nós
é vil e medíocre
se revolta contra a pureza
e necessita,
para salvar a vida,
de sujar essa pureza.

Sujar é modificar,
é tocar.
O belo é aquilo
que não se pode querer mudar.
Exercer domínio sobre,
é sujar.
Possuir é sujar.

Amar puramente
é consentir na distância,
é adorar a distância
entre cada um
e aquilo que se ama.

Éter, António Cabrita, abysmo


Ainda não me saíram da pele os teus quatro tiros de caçadeira. É uma maneira de dizer que o seu eco ainda me perfura os tímpanos, devolvendo-me ao momento em que entrei no táxi e a rádio vomitou, Liquidou a tiro a mulher, o filho (que adoravas) e o gato, antes de virar o cano para si, deixando a boca descaída num esgar contido, bruto. Ainda não me saíram da pele.


How to design a Light, Design Museum


A light is a physical object, just as a chair is a physical object, the specifics of its design shaped variously by aesthetics, technology, materilas, engeneering anf function. But a light is not simply a three-dimensional form: it both occupies space and existis as a means of revealing and describing space. A light makes light, and light is a presence that can't be touched, although it is profoundly felt in an emotional sence.


Walden ou a vida nos bosques, Henry David Thoreau, Antígona (... este acho que já cá anda por casa...)


Quando escrevi as páginas que se seguem, ou melhor, a maioria delas, vivia sozinho, a mais de quilómetro e meio de qualquer vizinhança, numa casa que eu mesmo construíra à margem do lago Walden, em Concord, no Massachussets, e ganhava a vida apenas com o trabalho das minhas mãos. Aí vivi dois anos e dois meses. Actualmente regressei à civilização.

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A música é de Pedro Jóia que a toca com Ney Matogrosso - "Porta do silêncio"


...

segunda-feira, junho 11, 2012

In heaven: uma terra abençoada que dá pedras, flores e frutos numa exuberância quase escandalosa; e ainda uma grevílea que ressuscitou, videiras que renasceram macias e vigorosas, pássaros que nos deixam viver no seu território.


Música, por favor

Pedro Jóia interpreta Verdes Anos (Carlos Paredes)


. 1 .

Em Novembro de 2010, num dia de ventania, para meu grande desgosto, partiu-se uma árvore in heaven. A árvore já era muito alta, talvez uns 3 metros, embora o tronco fosse relativamente fino. Tinha sido uma árvore plantada por nós vários anos atrás, uma grevílea robusta.

Durante muito tempo quis esperar, não quis que se cortasse o tronco, tinha esperança que voltasse a rebentar. Mas a imagem de uma árvore destruída é triste de ver e acabei por ceder. O tronco foi cortado curto, quis que se guardasse a sua memória.

Para minha surpresa e alegria, cerca de um ano depois, começou a despontar, ao lado, uma folhinha que me parecia ser a bela folha rendilhada da grevílea. E assim foi. À medida que o tempo passava fui vendo embevecida como é generosa a natureza. Renasceu a minha querida grevílea. Ao fim de um ano e meio já deitou corpo e já iniciou o seu percurso a caminho de voltar a ser uma árvore crescida.



A minha grevílea, qual fénix renascida, menina ainda, tão cheia de graça, brilhando ao sol

(Ao lado, rochas saídas da terra)


. 2 . 

Falei-vos já muitas vezes desta minha nesga de terra aqui, in heaven. Quando resolvemos comprá-la, o meu pai olhava desconsolado para aquela terra inóspita, só pedra, e tentava dissuadir-nos: 'nunca aqui vão conseguir ter uma horta'. Só pedra e mato rasteiro. Nada crescia, apenas o tojo em que nos picávamos constantemente. Só pedras, pedras, pedras. Uma vez um senhor da terra a quem pedimos para ir lá cortar o mato e que, ao cavar, só lhe saíam pedras, lamentou-se: 'Ah terra ingrata...'. Custou-me muito ouvir isto. Apesar de tudo, nunca achei que aquela minha terra fosse ingrata. Desistimos de a tentar domesticar e agora somos nós dois que, sozinhos, fazemos o que entendemos que deve ser feito o que, diga-se, é muito pouco.

Mas muita persistência, total ausência de resignação, levaram a que esta terra se transformasse. Ao princípio, os meus filhos não percebiam a minha teimosia, achavam que era à toa que, no meio das pedras, plantasse tantas árvores minúsculas. Sempre lhes disse que um dia iam admirar-se por ver ali um bosque.

Em alguns recantos já o é quase e eu só não me ajoelho para beijar esta tão amada terra porque não sou muito dada a essas 'cenas'.

Talvez muitas pessoas olhem para aquilo e digam que é mato, ainda apenas mato. Mas não é. É o meu bocado de céu.



Se repararem o solo é, todo ele, pedregoso.
Mas amaciou-se e cobre-se de um suave e perfumado colorido - talvez não dê para horta mas o rosmaninho  é lindo


Não sei se foi pelo meu muito forte amor, o que sei é que aquela terra que, à vista, ainda é seca - uma fina camada de terra seca sobre um corpo de pedra - permite agora que o que lá nasce se torne exuberante. 

Claro que há espécies que não vingam, pelo menos em alguns bocados de terra. Há sítios onde já plantámos e replantámos uma meia dúzia de vezes e, sei lá porquê, não dá. Mas, onde nasce, é um excesso de vida e cor que me deixa feliz como nem imaginam.

Tudo me enternece. Vocês podem achar que o excesso está é em mim, por achar extraordinárias coisas que são banais. Mas é que não são banais. Podem, a alguns, parecer banais mas, para mim, são maravilhosas.

Vejam.


. 3 . 

Hoje reparei na parte de baixo de um cedro que está já enorme. Por cima está verde, cheiroso, frondoso. Mas por baixo é um tal aparato de rendas, de fios, atilhos, laços...!



Parte de baixo do cedro

Melhor: a lingerie, rendada, emplumada, do meu grande cedro


Mas isto é por baixo. Porque ou o cedro é um nome masculino só para disfarçar e, de facto, esta árvore é feminina ou, então, o meu cedro é dado a vestir-se de mulher. 

Quanto ao underware, já estamos falados. Mas,  por cima, é o mesmo aparato: a ramagem verde virtuosa toda se enfeita, uma profusão de enfeites, uma garridice faustosa. 


Jóias chamativas e lustrosas, carnudas, cheias de sementes

É o meu cedro que gosta de ser assim: uma chamativa mulher perfumada e frondosa


Fiz uma ginástica para conseguir ângulo para vos mostrar estas viçosas bolas verdes que agora enfeitam todas as ramagens. Toda a árvore está assim, cheirosa, ramalhuda, enfeitada. Uma fertilidade absoluta.


. 4 .

No final de Fevereiro, os meus pés de videira estavam ressequidos, pareciam mortos, ramos retorcidos e secos. Eis que tenho, então, notícia de que um Poeta tinha podado as suas. Leiga, informei-me, é agora a altura? Há técnica específica? Respondeu-me que se guiava pela intuição e pelo carinho, e que corria bem.

No fim de semana seguinte fiz-me ao labor. Com o podão na mão e seguindo as instruções - intuição e muito carinho - peguei nos ramos velhos e, com toda a delicadeza, podei-as generosamente, com gosto,  rente, com a convicção de que o milagre haveria de acontecer (lá bem no fundo, talvez algum receio de que as tivesse ferido de morte, mas apenas lá muito no fundo...).

Pois bem, o milagre aconteceu mesmo.



Videiras verdes, macias, e, de novo, um rendilhado: desta vez, cachos de uvas que despontam com inesperada exuberância

(Atrás, azulejos com uma reprodução de Max Ernst)


Viçosas, frondosas, verdejantes, carregadinhas de cachos lindos, miudinhos que virão, certamente, a ser uns belos cachos de uvas escuras, carnudas, sumarentas. E eu olho estes rebentos com o desvelo com que olharia filhos que eu tivesse ajudado a nascer. 

Correu bem aquela cirurgia a que as sujeitei em Fevereiro. Os Poetas são, como é sabido, pessoas em quem se pode confiar.


[A posteriori, volto aqui para vos convidar a ler o poema que o Poeta fez inspirado nesta notícia sobre o bom resultado que o seu conselho propiciou: poderão lê-lo quer nos comentários aqui abaixo, quer no seu Traçados sobre Nós]

*

Música, de novo, por favor

Carlos Parede e Luísa Amaro - Canto do Amanhecer


. 5 .

E isto acontece por todo o lado. Da terra, as árvores dão frutos saborosos e misturam-se com arbustos carregados de flores, uma desordem colorida, em que ninguém tenta impor qualquer ordem.



Macieira carregada de pequenas maças ainda verdes, misturando-se com um loendro cheiroso e cor de rosa

(Atrás passeiam os cavalos azuis sonhados por Marc Franz)



Poderia continuar aqui o resto da noite a falar-vos de outras proezas assim. Mas não quero maçar-vos mais. 


. 6 .

No entanto, deixem que vos peça ainda um pouco mais da vossa paciência para vos falar ainda destes meus dois loendros. Mediam escassos centímetros e estavam afastados um do outro. Pareciam iguais. À frente, entre os dois, uma das muitas pedras que saíram do solo e a que eu tirei a terra dos orifícios como se limpasse um animalzinho que me tivesse aparecido à porta. Na altura a pedra parecia grandinha junto dos pequenos loendros.



Os meus dois loendros, entrelaçados: não duros mas macios; no entanto, ainda assim, cheirosos
tal como a eles se referiu Natália Correia


Pois bem. Desataram a crescer, ao despique, era ver qual se fazia maior. E o bicho de pedra ia perdendo escala. Agora os dois loendros entrelaçam-se, enormes, todos floridos, e acolhem, à sua sombra, o bichinho de pedra. Um dá flores de um rosa clarinho, aveludado; o outro, flores de um rosa mais garrido, umas flores mais miudinhas. Ambos cheirosos.

Mas, mais à frente, espontaneamente, no meio da vegetação natural - rosmaninho, orégãos, esteva, funcho - eis que nasceu uma haste isolada com umas flores lindas, de um belo veludo grenat (deveria escrever à portuguesa, grená, mas parece que estaria a abastardar uma palavra tão bonita...).

O que eu andei de volta dela, fotografando-a. Um luxo. Está cercada de funcho, que é uma planta de um verde macio e rendilhado. Que cores, meus amigos, que cores.



Não sei como se chama esta flor que nasceu no meio das plantas do campo
mas é linda.
Apeteceu-me limpá-la antes de a fotografar mas presumo que é pólen e respeitei a natureza


Apenas lamento não poder, por esta via, partilhar convosco o perfume doce, macio, florido, quente como a terra, que aqui respiro. O perfume e a música. É que os pássaros fizeram deste bocado de céu a sua casa. Canta, cantam, voam, recolhem-se às árvores, saem dos arbustos, por aqui andam, brincando em total liberdade, trauteando. Aqui, in heaven, os pássaros, as flores, as árvores, as pedras e eu vivemos em absoluta liberdade. Talvez a felicidade seja mais ou menos isto.


***

E é isto, meus Caros Leitores. Permitam ainda que abuse da vossa boa vontade: gostaria muito de vos ter lá pelo meu Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras fogem ao tempo e voam em volta de um belo poema de Natália Correia. As Valquírias envolvem-nos com o seu canto. É a semana que dedico a Wagner que começa.

***

Tenham, meus Caros, uma bela semana. Que esta segunda feira seja uma maravilha.