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quinta-feira, julho 17, 2014

Atenção às opiniões facilitistas em relação ao BES e ao papel do Estado neste processo. Há coisas com as quais convém não brincar e esta é uma delas. O risco sistémico no sistema bancário de um País pode ser sinónimo de falências em cadeia e de pobreza súbita para muita gente.


No post abaixo, dou conta de mais um acontecimento que merece que se faça silêncio em sua volta: um novo vídeo do Cine Povero e, desta vez, as palavras desenham árvores que vêm com pássaros dentro.

A seguir, e já que a noite está de luxo, há Chanel em várias vertentes mas o requinte, a simplicidade e a beleza são as de sempre. Pena é o preço - mas a gente fecha os olhos e pensa que isso não é problema. Ou vemos no computador e imaginamos que estamos a ver ao vivo, que estamos lá mesmo, a escolher uma sumptuosa peça de roupa, a colocar um esguinchinho de Jersey (um de Les Exclusifs, justamento aquele que tem um pouco de heaven lá dentro).

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. E é, outra vez, das chatas, daquelas em que o luxo virou esgoto.


Distant Gardens 

(Mesmo distantes, mais vale pensarmos em jardins do quem atoleiros)





Vamos, pois, falar de BES. De GES. De Rioforte. E de outras embrulhadas.


Bolas para isto, digo-vos eu. O meu marido bem que me quis impedir mas, ainda assim consegui ouvir um bocado. Os papagaios do costume. Se calhar razão tem ele, que já não consegue ouvir aquela gente.

De um lado uma mulher horrorosa falava da natalidade com o seu habitual ar enjoado e sabichão e, estúpida, dava a entender que as mulheres não têm filhos porque não querem ter a maçada de acordar de noite, quando eles são bebés. E o troca tintas que fala de arrastão e que parece que está em todo o lado, lá estava, dizendo todas as parvoíces que lhe vêm à cabeça, sem querer saber de coerência, consistência ou decência dos argumentos. Todos lhe servem para defender as coisas parvas que gosta de defender. Devia ser proibido levar gente tão idiota à televisão. Mas, enfim, sobre natalidade a ver se falo amanhã já que hoje já não me parece que vá dar (é tardíssimo e ainda estou no princípio deste post).

Do outro, outra papagaiada capitaneada pelo José Gomes Ferreira, desta vez a falarem do BES. Que Passos Coelho fez muito bem em não se meter, que não poderia ter feito outra coisa, que isto, aquilo e o outro. E um diz uma coisa e lá vão todos atrás, como caniches atrás de um osso. Apenas a senhora do Público (de que não fixei o nome: seria Luísa?) parece conseguir pensar pela própria cabeça, benza-a Deus. Que gente leviana, que fala-baratos, senhores.


Pois, sobre se o Governo deve fazer ou não alguma coisa nisto do BES, eu não sei. Não digo já que sim mas não sou capaz, peremptoriamente, de dizer que não. Só gente que tem boca de trapos é que fala de coisas tão melindrosas como se estivesse a falar de um assunto menor e, portanto, como se pudesse falar de cor, sem conhecer os números, as consequências, as envolventes.

Não pode.

Neste momento ninguém sabe a verdadeira dimensão do problema pelo que ninguém, em plena consciência, pode dizer com certezas absolutas tem que se fazer isto ou não se pode fazer aquilo. Que é um escândalo financeiro, disso ninguém tem dúvida. Que depois disto, talvez muita coisa mude, talvez. Mas pouco mais se sabe, em concreto.

Contam-me que vai um grande nervosismo no Banco de Portugal: ninguém sabe exactamente o que se está a passar, nem a dimensão, extensão e implicações dos rombos.


Não sabe agora. Porque até há uns dias toda a gente louvava a maravilha que era o Carlos Costa e companhia: eram os maiores, tinham feito um trabalho maravilhoso, tinham blindado o BES, o BES era robusto, à prova de bala.

Vê-se.

Começam, aos poucos a saber-se os casos concretos da desgraça. Desde logo, a PT que aplicou os 800 milhões em papel comercial da Rioforte, um papel que, pelo que agora se sabe, vale o mesmo que uma folha riscada, amarrotada, boa para o lixo. 

Para quem não está muito por dentro, em traços largos e simplistas, papel comercial é como que uns títulos de dívida de quem os emite a favor de quem os toma. Uma empresa (neste caso a Rioforte) precisava de se financiar e, então, para equilibrar a sua tesouraria, pede dinheiro emprestado. Por outro lado, alguém tem dinheiro de lado e quer aplicá-lo. Poderia fazer um depósito. Mas os depósitos remuneram mal. Quem está a precisar de se financiar paga melhor. Ou seja, é uma aplicação interessante. 

O BES, tal como todos os bancos, vende papel comercial, títulos de dívida, o que se queira. Têm algum risco mas dão mais do que os depósitos. São operações normais e comprar ou vender papel comercial não tem mal nenhum, é o dia a dia da gestão financeira das organizações.

Não tem mal se as empresas sobre as quais se está a titular a dívida forem solventes e puderem restituir os montantes aplicados na data acordada. Caso contrário, estará a vender-se gato por lebre, lixo tóxico. Ou seja, o que esteve na base da crise financeira mundial de há meia dúzia de anos. Ou seja, comercializar papel comercial respeitante a empresas insolventes é uma fraude




Acontece que as pessoas (sejam particulares, sejam empresas) olhavam para o BES como um banco respeitável, sólido. Nunca imaginando uma desgraça destas, milhares de particulares aplicaram as suas economias nestes produtos, em dívida de sociedades do GES; e muitas empresas aplicaram igualmente o seu dinheiro aí.

Quando, como agora se está a ver, a Rioforte e outras dessas empresas do GES que estão falidas, deixam de ter como pagar o que pediram emprestado aos clientes, o BES, que comercializava esses produtos, fica com o menino nas mãos.

Mas não foi só a PT que se ferrou, claro que não. Nem foram só os milhares de pessoas particulares que ficam com zero onde julgavam que tinham um bom pé de meia (as poupanças evaporadas do retalho, a não ser isto estancado, serão, certamente, uma grande dor de cabeça para a nova gestão do BES).

É também Américo Amorim que aplicou parte da sua fortuna pessoal em lixarada dessa. E, lendo isto, muita gente pensará: Que se lixe o Amorim. Tem muito. Mesmo que perca muitos milhões, tem outros noutros sítios. Talvez, não faço ideia.


Mas também a Porto Editora, a empresa, está a braços com o mesmo problema. E a CGD. E o BANIF. E a EDP. E muitas, muitas, muitas outras, tantas que nem vai fazer sentido enumerar uma a uma.


Ora, se ficam sem o dinheiro que aplicaram nessa lixarada, como fica a exploração dessas empresas? Pode ser que algumas possam encaixar perdas de milhões. Pode ser. Mas poucas. Mas muitas outras não podem. E não podem porque deixam de ter dinheiro para pagar aos fornecedores, para pagar as matérias primas de que necessitam para laborar, para pagar ordenados.

Foi o Ricardo Salgado e toda essa gente que padecia de rapacidade crónica e que o cercava que fez toda esta borrada ao longo de anos para benefício próprio e para benefício daqueles junto de quem sempre quis estar bem. É certo que não vai agora o Zé Povinho pagar pelos desmandos dessa fina flor do entulho. Certo.

É também certo que as instituições que deveriam prever, prevenir, monitorizar e, em última análise evitar coisas destas não funcionaram e que, portanto, deveriam igualmente merecer o nosso repúdio.

Mas, calma. Não nos precipitemos.

E se o BES deixar de honrar os seus compromissos junto dos clientes? Há o fundo de garantia para depósitos até 100.000/depositante. Mas e quanto tempo irá durar o processo até que todos fossem ressarcidos? E os happy few que julgavam que tinham um bom pecúlio para a velhice e para deixar aos filhos e que, ficariam sem o que quer que fosse além dos 100.000? E os que, confiantes, compraram produtos de risco julgando que eram inócuos e que agora ficam sem nada, porque esses não estão sujeitos a qualquer garantia? E os outros bancos que ficam entalados porque igualmente investiram nesses produtos e ficam sem nada disso? E os clientes desses bancos?


E as empresas que ficam sem dinheiro no banco? Fecham? Declaram também falência?

E depois é o simétrico disto: as dívidas das empresas ao BES. Muitas e muitas e muitas empresas e autarquias (e outras organizações, incluinde os clubes de futebol) estão endividados até à medula. Se forem obrigados a pagar porque não têm outras garantias que dêem ao BES e porque o BES precisa de dinheiro como de pão para a boca, não têm como. Grande parte destas empresas, se tiverem agora que amortizar empréstimos, deixam de ter dinheiro para pagar ordenados, matérias primas e fazer face a outras despesas.

A economia portuguesa é débil, as empresas estão endividadas para além do normal (a dívida privada - leia-se: sobretudo das empresas - é brutal), e não aguentarão um súbito corte no financiamento. Por isso, por muito que Vítor Bento gostasse de ir buscar o dinheiro que tem por fora, tem que ter calma. Se o vai buscar à pressa, mata os clientes.

Já no outro dia o disse aqui: isto é o risco sistémico e é isto que se tem que evitar antes que comece a haver quedas em cadeia. O País não iria sobreviver a uma situação assim.

Não sei de que forma as instituições oficiais podem e devem intervir porque não conheço as contas desta teia imensa de dívidas cruzadas (tal como ninguém as conhece). O que sei é que tem que haver prudência, sangue frio, sentido de responsabilidade, inteligência, visão abrangente - e não ter medo da opinião pública porque, muito provavelmente, a opinião pública não faz ideia das consequências brutais (que envolverá certamente muitos e muitos dramas pessoais) se este processo não for travado a tempo.

Carlos Costa na terça feira, voz trémula, todo ele trémulo, lá veio dar a garantia de que toda a gente andava ansiosamente à espera: que há interessados em reforçar o capital do banco e que, mesmo que isso falhe, há outros mecanismos. Mas Carlos Costa, depois de se ter constatado a tibieza como tem gerido este processo, está fragilizado. Contudo, é melhor que nada.

É que, parecendo que não, ainda que apenas momentaneamente, parece que isso chegou para restaurar alguma confiança, não muita mas alguma, já que, em vez das quebras assustadores no valor das acções dos últimos dias, a tendência inverteu e na quarta feira já fechou no positivo. 

Estas são matérias em que a confiança é vital. 

Se há accionistas a quererem entrar que entrem. Se não entrarem, que avance o Governo com uma injecção de capital (recorrendo à verba cativa para tal). Mas que isto seja rápido antes que comece a haver corrida aos balcões que isso seria, então, mesmo o fim da picada.

O normal seria que a nova equipa de gestão só começasse a bulir quando tivesse a fotografia exacta do ponto de partida. Mas estes tempos não são tempos normais. Ou seja, aqui não vai ter tempo para isso. É gerir on the move, tomando decisões em cima da incerteza, usando o bom senso, o equilíbrio.

E, por favor, que alguém tire os papagaios do costume da televisão porque só servem para baralhar a opinião pública. Não apenas nunca acertam uma como dizem os maiores disparates com o ar mais sapiente do mundo. Mais vale que ponham o Ricardo Araújo Pereira, Bruno Nogueira, Eduardo Madeira ou Manuel Marques que esses são inteligentes, bem intencionados e fazem-nos rir.



[NB: Muita coisa se vai escrevendo e dizendo por aí, muita palha, muita vacuidade. Mas há intervenções que valem a pena ouvir. Como esta  AQUI.]

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Fundo do mar nas grutas em Sagres, por Ricardo Nobre


Para isto não acabar com assuntos que nos enchem de ansiedade, deixem que vos convide, meus Caros Leitores, a mergulhar na Serenidade.



Raul de Carvalho (1920-1984)
"Serenidade és minha" in «Mesa de solidão» (1955)
Mário Viegas (1948-1996)

Vídeo, uma vez mais, de CINE POVERO


MÚSICAS: Jan Garbarek, "Soria Maria" (1980). Pat Metheny, "Waiting for an answer" (1983). Sufjan Stevens, "Oh God, where are you now?" (2003)


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Relembro: por aí abaixo há mais dois posts. E neles não falo de coisas chatas, podem descer à vontade.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta feira.

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quarta-feira, julho 17, 2013

O Um Jeito Manso fez 3 anos e ultrapassou as 300.000 visitas. Como é isto possível é o que me interrogo mas, seja como for, a todos quantos aqui gostam de vir, os meus sinceros agradecimentos. A vossa presença aí desse lado é, para mim, uma companhia muito real


Poderia dizer-vos que me movo entre jardins distantes, que sou uma sombra transparente feita de palavras que voam, perdidas pelo espaço, que sou uma presença imaterial, um sorriso invisível, uma mão distante que chega até vós. Poderia dizer-vos que vos sinto aí desse lado, sorrindo também, a vossa mão sobre o computador, deslocando estas minhas palavras, como se pegasse a minha mão que escreve para vocês. 

Mas não digo: não sei se me acreditariam.


Música por favor: Distant Gardens
(de Mazgani)





A vida possível entre sonhos, bosques, jardins distantes, seduções, máscaras, ficções
(apesar de este ser um tempo infestado por coelhos e outras pragas)

[- pintura de bela Silva -]


Não me lembro exactamente do dia mas sei que foi por meados de Julho que, há três anos, experimentei fazer um blogue. Não sabia nada deste mundo nem das técnicas, nem dos hábitos, nada. Mas fui fazendo - e fui gostando. 

Sem divulgar junto de quem quer que seja, excepto do meu marido e dos meus filhos, sem usar nenhum meio para tornar o blogue conhecido, o Um Jeito Manso foi dando os seus pequenos passos. Não tinha ambições ou, sequer, expectativas. Era pura descoberta, graça, uma pequena e inocente aventura.

Desde o início, resolvi que o blogue seria anónimo. Exerço funções de responsabilidade num Grupo empresarial e não quero que as minhas posições aqui livremente expressas causem constrangimentos aos meus colegas ou colaboradores, nem quero que quem me lê confunda as minhas posições que aqui são sempre absolutamente pessoais com posições conotadas com o meu vínculo profissional.

Poderia ter arranjado um pseudónimo como tanta gente, nestas circunstâncias, o faz. Poderia ser, por exemplo, Luís Santiago. Mas eu sou tão mulher que me daria muito trabalho escrever como se fosse um homem. Poderia, então, por exemplo, ser Maria Luísa Santiago. Toda a gente acharia normal, ninguém diria que, assinando assim, o blogue seria anónimo. Mas eu gosto tanto do meu nome que me pareceria uma traição usar outro nome que não o meu. Prefiro não ser nome nenhum ou ser UJM. Tanto faz. Aqui sou apenas alguém que escreve. Um vulto transparente. 

Eu, sempre eu, mas incógnita no meio de uma vasta multidão de pontos de luz que atravessa o espaço.

No entanto, apesar do anonimato, tenho falado tanto de mim que, quem me siga, já me conhece muito bem. Ou não. Nem eu sei. Não sei dizer se sou mais eu quando me dirijo diariamente para o meu trabalho, executiva, objectiva, exigente, ou se, pelo contrário, sou mais eu quando desbasto árvores, corto cabelos, invento histórias ou abraço os meus meninos. Ou se sou mais eu quando aqui escrevo diariamente com disciplina, como se não pudesse desiludir os meus leitores que gostam de vir espreitar as minhas palavras, mesmo quando, perdida de sono, me forço a vir aqui dizer olá e pouco mais, ou quando me atiro com raiva aos ignorantes que destroem o meu país. Acho que sou sempre eu. Acho - mas não garanto pois sei pouco de mim. Sei pouco de tudo.

Sendo um blogue anónimo e não divulgado, os primeiros meses do Um Jeito Manso eram meses em que escrevia sem esperança que algum desconhecido me lesse. Acho que já o contei: se me acontecia ter mais de dez leitores por dia já eu ficava intrigada, tantos... E os meus filhos perguntavam-me quantas visitas tinha tido e também se interrogavam, quem será? Se eu via alguma visita do Brasil ficava entusiasmada como se tivesse recebido a visita de um extraterrestre, fazíamos uma festa. E dos Estados Unidos...? Como, quem?Como terão chegado até a Um Jeito Manso? Mistério... 

Mas os leitores foram aparecendo. Um a um foram chegando. Amigos que foram ficando. Uma alegria muito grande. Se agora conto, ontem tive seiscentas e tal visitas..., os meus filhos, o meu marido e eu ficamos admirados, ainda não nos habituámos. Continuo a não contar a ninguém, nem aos amigos, nem à família, só a eles. Está bem assim. Sinto-me mais livre. 

Sei que este número de visitas não é nada de extraordinário quando comparado com outros blogues mas também não preciso de ter falsas modéstias: o UJM não é um blogue colectivo, nem eu sou uma figura conhecida, nem gozo da divulgação que geralmente está associada a um dos factores anteriores (ou à conjugação dos dois). E, por isso, fico contente quando olho para as estatísticas e vejo estes números. 

Interrogo-me sempre sobre como cheguei até aqui. Por um lado penso muitas vezes que é natural que um dia me sinta esgotada, sem assunto, ou cansada, com vontade de me virar para outra actividade. Escrever tanto aqui rouba-me tempo de leitura, por exemplo. Mas que, no entanto, tenha chegado aos 3 anos ininterruptos de escrita aqui é para mim um motivo de espanto (e já nem falo do meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa). Mas que tenha atingido um número tão extraordinário de visitas ainda é para mim um espanto maior.

E a todos agradeço. Já muitas vezes aqui vos agradeci. Não pensem que são agradecimentos de circunstância porque o não são: são sinceros e sentidos. Acho que as vossas visitas são uma simpatia a que dificilmente conseguirei corresponder e só espero não vos desiludir. Sou um bocado imprevisível e, por vezes, destemperada. Talvez, por vezes, vos choque. Mas é assim que sou. Só tenho que vos pedir que me aceitem como sou. Não é por mal, nunca é por mal.

Deixei de responder aos comentários porque me punha a escrever e era como se conversasse com cada um, e o tempo passava e eu ali na conversa. Quando começava a escrever os textos do dia já era muito tarde. Mal dormia.

No entanto, tenho continuado a deitar-me tarde, ponho-me a escrever e não páro. Gosto de escrever, é o que é. Por isso, nem sei bem que faça, se volte a responder aos comentários ou se, pelo contrário, tente impor-me alguma disciplina.

E, por falar nisso, por aqui me fico. Temo que amanhã a alvorada seja cedo e eu que, em férias, gostaria da mais absoluta indisciplina e ausência de horários, vejo-me obrigada a algumas cedências. 





Ainda não descansei mas não me queixo. O tempo está uma maravilha e a água do mar está uma beleza. Mergulhos, nadar, que saudades eu tinha... E já consegui ler a última Ler. Amanhã a ver se leio o último JL. E vim carregada de livros, como sempre. A ver se os consigo ler (até para não ter que ouvir os remoques do meu marido que acha que vem carregado desnecessariamente pois geralmente não chego a ler metade dos que trago).



Pelo tom de pele esta quase podia ser eu
- como sempre, acho que sou a mais branca da praia -
mas não sou: eu não uso bóia.

Mas eu estava mesmo aqui, junto a esta água maravilhosa


*

Só me resta desejar-vos, meus queridos Leitores, uma quarta feira muito feliz. E, uma vez mais, o meu muitíssimo obrigada. Bem hajam.

domingo, abril 14, 2013

"A fé das árvores", "Não posso ver uma árvore sem espanto", "Felicidade é ter um quintal com árvores enormes", "Os grandes anjos cujas asas contêm todo o vento dos espaços", "Distant gardens" - José Tolentino Mendonça, Raul Brandão, Sophia, Mazgani e os meus Leitores tão amigos, aqui comigo in heaven


Este sábado, quando abri o correio, tinha mails de leitores com fotografias de árvores e músicas de primavera, palavras simpáticas e, também, esta bela imagem da mulher abraçada à árvore que tem tanto a ver comigo.

Abrir o correio e ter estes belos presentes é como abrir a porta e descobrir que os amigos lá deixaram vasos com flores ou que um coro de crianças está ali para nos cantar canções felizes, matinais.

Como vos poderei, alguma vez, agradecer?



Felicidade é ter um quintal com árvores enormes

E é mesmo. 

Estou in heaven. A Primavera chegou, perfumada, florida, doce. O grande portão de ferro já está florido. Onde há pouco havia troncos nus, retorcidos, estão agora flores, cachos de flores. As glicínias aparecem por esta altura, lilases, lindas. 




De tarde, o sol estava quente, dourado, e, nas zonas de sombra, do chão vinha um cheiro morno, íntimo, um cheiro orgânico, a terra ainda húmida das chuvas recentes. 

À porta de casa, onde no outro dia havia um lírio tombado sob o peso da chuva, há agora uma boa dúzia deles. Belos demais. Delicados, requintados. Nesta terra agreste, pedregosa, onde agora, com tanta água, o mato cresce de forma impetuosa, aparecem estas flores que parecem jóias muito raras, inventadas.




E eu ando em volta destas flores que nascem espontaneamente, debruço-me, ajoelho para escolher o melhor ângulo (ou para as adorar?) e penso que é sábia a natureza que me surpreende com belezas imprevistas, quase excessivas, e depois as leva e, quando as julgo perdidas para sempre, as traz de volta, uma e outra vez, mas já são outras, igualmente belas, ou talvez mais ainda porque os meus olhos as vêem com cada vez maior devoção e espanto.

Lá em baixo, o rosmaninho floresce também em toda a sua doçura. Fica muito bonito assim, o campo, todo ele lilás envolto em luz dourada. 




As pequenas folhas macias e as flores são perfumadas. Aqui o rosmaninho mistura-se com o alecrim e com a sálvia, variando entre o azul suave, o lilás e o rosa, tudo perfumado, delicado, efémero.

O sol quando se põe deixa a sua luz muito dourada sobre as árvores, a luz fica coada, suave. Veludo, rendas, perfumes. Por estas alturas, a natureza é muito feminina.




A jovem grevílea que nasceu do tronco daquela outra que se partiu, com o vento, há uns dois anos, continua saudável e tem uma folhagem rendilhada.

Com o sol do fim de tarde fica assim, como a vêem, uma filigrana dourada.

Tenho muita dificuldade em vir para casa em momentos assim. A luz do sol, que aos poucos se vai escondendo nas montanhas ao longe, vai descendo, aparece quase rente ao chão, intensa na hora da despedida.

Fui quase a correr para ver uma última vez o sol. Desaparecia lá ao fundo mas ainda consegui apanhar esse instante através do jovem pinheiro manso que há em frente à casa e de onde gosto de ver o sol a pôr-se atrás da serra ao longe.




Antes tinha estado calor, um calor muito educado, leve, e eu descobri-me para que a minha pele toda o recebesse. Afinal aqui sou uma mulher in heaven, tudo me é permitido.

Deitei-me na espreguiçadeira ao sol e peguei na Revista do Expresso.

E, com surpresa, como se os meus pensamentos tivessem voado de mim para a página que estava a ver, li:

Hoje encontrei na rua o encenador Jorge Silva Melo, que apontou para um carreiro de árvores flagrantemente primaveris e me disse, meio a sorrir: 'Elas acreditam'. Olhei para aquele alinhamento rubro, de entoações e alturas diferentes, e também a mim me pareceu um uníssono rumor. 'Elas acreditam'

(...)

Uma vez, em Paris, assisti a uma cena que me deixou sem palavras. (...) A dada altura, junto da torre de Saint-Jacques, Cesariny sai do carro e corre a abraçar uma árvore. Eu poderia escrever 'corre a abraçar-se a uma árvore', mas creio que não faria justiça ao que me foi dado ver. Era mesmo um abraçar. O mundo fez um silêncio que eu desconhecia. 

Existem, no hebraico biblíco, duas formas alternativas para designar uma árvore: ets e ilan. A primeira forma é a mais persistente na narrativa bíblica, mas a segunda também se pode encontrar, e é aquela que, por exemplo, os cabalistas trabalharam mais intensamente. A Cabala rabínica aplica-se a explorar as dimensões simbólicas e espirituais escondidas nas palavras e nos números. (...) O valor numérico do termo ilan (árvore) é 91. Outra palavra da categoria 91é malakh (anjo).

Ao dizer árvore é, então, como se nos avizinhássemos daquilo que dizemos quando dizemos anjo.

(...)

A vida é um espanto partilhado. Por isso, não pode permanecer indiferente a esta nossa primavera incerta a mensagem do vegetal sobressalto, do arborescente e inequívoco desejo de durar.

Nas memórias de Raul Brandão, encontramos este arranque prodigioso, que pode, quem sabe, servir-nos de mapa:

'Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões... Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído. Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto... Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra.


Era a crónica de José Tolentino Mendonça, 'A Fé das Árvores' inserida na sua sua rubrica semanal a que deu o belo nome 'que coisa são as nuvens'.

Belíssima crónica (como são todas as crónicas do Padre-Poeta), belíssimas palavras. Os meus pensamentos em forma de letra.




Talvez por tudo isto, eu tenho mandado serigrafar nuns azulejos que estão no meio das árvores, aqui, in heaven, este poema de Sophia:


Há sempre um deus fantástico nas Casas
Em que eu vivo, e em volta dos meus passos
Eu sinto os grandes anjos cujas asas
Contêm todo o vento dos espaços.


E talvez seja também por isso que eu abraço árvores como se me sentisse abraçada por anjos.

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Distant Gardens
Mazgani



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Convido-vos ainda a virem comigo até ao meu Ginjal e Lisboa. Hoje temos poesia dita: Mário Viegas diz a Tabacaria de Álvaro de Campos.

A música é igualmente maravilhosa. Anne Akiko Meyers interpreta Arvo Pärt - 'Spiegel im Spiegel' (Mirror in Mirror).

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Despeço-me não sem antes de vos desejar, meus queridos Leitores, um belo, perfumado, florido e feliz  domingo.