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domingo, agosto 02, 2026

Querida Maria João

 

É sempre um prazer ouvir Maria João Pires, seja a tocar, seja a conversar. Aos 82 anos continua a ser uma menina: espontânea, franca, inocente, pura.

Não há nela uma ponta de egocentrismo, vestígios de vaidade, preocupação com imagem. É uma pessoa extraordinária. Perto dela, mesmo que apenas através de uma entrevista, sinto-me bem. Há nela uma leveza, uma bondade, uma simplicidade que ilumina.

E fiquei a saber que tenho uma coisa em comum com ela: não gosto de festejar os meus aniversários. Estar com os meus chega-me. Se quiserem cantar-me os parabéns, tudo bem, canto também, apago as velas. Mais do que isso já seria, para mim, uma violência. Há quem aprecie festanças, muitos convidados, altas produções. Abominaria. 

No entanto, gosto de ser convidada para aniversário alheios, gosto de festejar os sucessos e mais um ano de vida dos outros. Gosto mesmo. Mas sem aparatos, só alegria e afecto. Os aparatos são artifícios, futilidades, ilusões efémeras e desnecessários.

No outro dia, quando a minha filha perguntou se eu não gostasse convidar amigos de longa data ou primos e primas para os meus anos, respondi que quando fizer 100 anos reconhecerei que talvez haja motivo para festejar. Digo mais: até me parecerá caso para atirar foguetes --  "olhem para ela, com 100 anos e ainda por cá anda'. Aí, sim. Até lá, é só mais um dia que veio a seguir a outro. 

Mas o tema não tem a ver comigo, tem a ver com a menina Maria João, deusa de Belgais. Deixemo-nos ficar na sua companhia.

Prova Oral - Fernando Alvim conversa com Maria João Pires

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Nota

Não sei se repararam mas tenho andado a escrever pouco. O meu marido tem sido uma preciosa ajuda. A razão é simples: estou com o meu computador em reparação. Por isso, estou a usar um antiquíssimo que já só funciona com teclado virtual, o que me impede de escrever rapidamente e, sem escrever a mil, a minha cabeça bloqueia. A minha cabeça não funciona bem com travões. Também uso o telemóvel mas não é a mesma coisa e, para editar textos dentro do editor do blogger usando telemóvel, também é uma maçada. Por isso, ou passo a palavra ao meu marido (que escreve no telemóvel e me manda por mail e eu só tenho que ajeitar dentro do editor do blogger) ou escrevo coisas curtas. E responder a comentários só mesmo em casos extremos.

Vamos ver se isto se resolve porque, sem computador, sinto-me diminuída.

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Desejo-vos um belo dia de domingo 

segunda-feira, julho 20, 2026

Mário Centeno, português de gema -- em entrevista com Miguel Nabinho

 

Gosto de Mário Centeno. Parece-me uma pessoa de bem. Com ele, eu aprendo sempre qualquer coisa. E confio nele.

Penso muitas vezes como Portugal poderia estar muito melhor se Marcelo Rebelo de Sousa não tivesse cometido o erro disparatado e imperdoável de não o aceitar como Primeiro-Ministro. 

Mas não vou falar, vou partilhar a interessante conversa dele com Miguel Nabinho, que me tem surpreendido com entrevistas muito boas.

QUE PAÍS É ESTE - Entrevista a MÁRIO CENTENO conduzida por Miguel Nabinho


Desejo-vos uma boa semana

quarta-feira, julho 01, 2026

As confissões de Alexandra Lencastre no Leite Show
(Já entrei na silly season, só pode)

 

Fui picada no braço, tenho para aqui uma série de picadelas que estão a ficar bem eriçadas. Dão-me uma comichão dos diabos. Já desinfectei e pus pomada mas não acalma. Face a isso, não consigo concentrar-me. Devíamos pôr rede mosquiteira nas janelas. Com este calor, parece que, volta e meia, aparece por aqui uma bicheza miúda que só falta comer-nos vivos.

Sobre o dia, nada de mais a dizer. Continuo sob o compasso de espera que o contratempo de sábado impôs e isso parece abrir um hiato em que as hipóteses permanecem indefinidas. Nada de transcendente mas que é um transtorno, é.

Apesar disso, o dia não foi mau. Muito calor, é certo, mas, ainda assim razoável.

À noite, por aqui, a música de fundo é futebol, e este último jogo parece que foi dos bons. O meu marido disse: 'A França joga bem' e isso significa que gostou. Eu, se não é Portugal a jogar, então é que não consigo, não aguento nem dez segundos.

Contudo, ontem intervalámos e vi um programa que geralmente gosto de ver. Não vou dizer qual é porque o problema foi nosso e não do programa. 

Há uma coisa que já aprendi: as coisas não são o que são, são, sim, o que a gente quer que elas sejam. Ou melhor, como a gente as vê. Se eu olhar com prévia admiração e com total condescendência, vou gostar do que vejo. Há quase uma incondicionalidade quando a gente se predispõe a gostar. É como quando se está apaixonado: só se veem virtudes, o/a outro/a é o/a maior, a melhor coisinha à superfície da terra, a última batata frita do pacote. Quem não esteja apaixonado, olha e vê um/a tipo/abanal, com algumas virtudes mas outros tantos defeitos, um beco sem saída, uma xaropada. É assim. E ainda bem que é, senão, se todos se apaixonassem por todos, havia de ser o bom e o bonito: um bacanal que acabava em zaragata ao fim de poucos minutos.

Foi mais ou menos o que aconteceu com este programa a que me refiro. Ontem, tirando um que me causa frenicoques, sempre causou, tira-me do sério de uma maneira que me torna inconveniente, com os outros tudo bem. E estiveram os cinco ali à conversa, depois houve um momento em que apareceram outras duas, mas coisa rápida, depois, no fim, juntou-se uma jovem que, geralmente, traz um saco cheio de assuntos misturados e mal mastigados, e, por fim, despediram-se mostrando coisas. O modelo é sempre este. Mas, portanto, estavam eles ali todos numa animação, previsões apocalípticas para aqui, salvações para acolá, e um dizia uma coisa, e outro dizia outra, e eu a ouvir. E vai o meu marido e atira: 'Diz-me lá uma coisa: dali qual é que achas que é o mais maluco.'. Desatei-me a rir. E percebi o ponto dele. E, olhando sob essa perspectiva, achei a pergunta perfeitamente legítima.

E agora, depois de ter adormecido durante o futebol, vejo este vídeo que aqui partilho (e, confesso, andei aos pulinhos, fui saltando, não vi tudo), e pensei: 'Vou ver isto sob que perspectiva: a de que só posso estar maluca para estar a ver isto'? Ou sob a lente antropológica de 'deixa cá ver o que é que estes dois malucos para aqui estão a dizer'?

Não cheguei a nenhuma conclusão. Quando o tema é maluquice, vejo malucos em todo o lado. É o que se costuma dizer quando se tem um martelo na mão: veem-se pregos em todo o lado. 

Só me ocorreu que talvez a Alexandra Lencastre não tenha muitas rugas, mas parece-me que insuflou os lábios um bocadinho demais pois parece que não apenas ficaram assimétricos como já não encaixam lá muito bem. Mas, enfim, isso é lá com ela. Se isso não a incomoda, o que é que eu tenho a ver com isso?

Seja como for, o calor e a silly season e o escambau dão nisto: em vez de me deter em coisas eruditas ou científicas ou, vá lá, em coisas em que se aprenda alguma coisa, agora estou com isto.

Ou então é da comichão no braço. Tenho que ir carregar no fenistil.

E venha lá, então, esse vídeo.

Entrevista com Alexandra Lencastre no The Leite Show // Flávio Furtado

O estúdio do The Leite Show foi pequeno para receber uma das maiores atrizes portuguesas: Alexandra Lencastre. Numa das conversas mais surpreendentes de sempre, a atriz chega sem filtros nem receios e abre o jogo sobre episódios da sua vida pessoal e profissional que nunca tinha contado desta forma.

Alexandra revela que já fez amor no local de trabalho, que já se envolveu com colegas de profissão e que uma dessas relações acabou em casamento e traição. Fala ainda dos beijos técnicos que deixaram de ser apenas representação e conta tudo, porque aos 60 anos sente que já pode dizer o que lhe apetece.

Entre as muitas revelações, fala sem rodeios sobre um meio que conhece como poucos. Confessa que a sua área é um meio de muita inveja pelas razões erradas e partilha histórias que mostram os bastidores de um mundo nem sempre tão glamoroso quanto parece.

Pelo meio, recorda uma adolescência marcada por inseguranças, revela que era chamada feia pela própria família e revisita memórias que a acompanharam durante toda a vida.

Há ainda espaço para histórias inéditas dos tempos da Rua Sésamo, para revelar quem foi o pior ator com quem já contracenou e para explicar a verdadeira razão que a levou a trocar a TVI pela SIC.

Mas é quando fala do pai e da falta que ele lhe faz que surge um dos momentos mais emocionantes da conversa.

Entre revelações inesperadas, gargalhadas, emoções fortes e um momento tão improvável que acaba num beijo ao apresentador, Alexandra Lencastre mostra-se como raramente o público a viu.

Uma entrevista sem máscaras. Sem tabus. E impossível de perder.


Desejo-vos uma boa quarta-feira

segunda-feira, junho 29, 2026

Louco, excessivo e indomável

 

Não há muito, estava numa situação profissional daquelas que eram preparadas ao milímetro e que costumava, a seguir ao jantar, fechar com festança. 

E, naquela vez, abriram-se uns grandes cortinados e, para espanto de todos, eis que aparece alguém completamente inesperado naquele contexto: José Cid. A exclamação foi colectiva. 

E arrancou a música. E, para minha absoluta surpresa, ao fim de um bocado, desbloqueada a surpresa de todos, constatei que quase toda a gente conhecia as letras e cantava com ele a plenos pulmões. Foi uma noite de cantoria e de dança. Uma festa de boa disposição. Ele cantou, cantou, cantou. Canta bem. Tem musicalidade na voz, a voz progride sem esforço e alegria. Contagia. 

Tem agora 84 anos e não dá para acreditar na vitalidade deste homem.

Nunca tive nenhum disco dele e, se me pedirem para elencar os meus cantores preferidos, tenho a certeza que me esqueço dele. E, no entanto, reconheço o seu valor e reconheço que há canções suas que toda a gente conhece.

E agora esta entrevista mostra o que ele é: um homem livre, bem disposto, com muita energia, um romântico (já vai em quatro casamentos). O tempo voa enquanto o ouvimos a conversar.

Quando vejo pessoas com esta idade e ainda tão joviais fico encantada. Era bom que toda a gente envelhecesse assim. E escrevo isto e forço-me a corrigir pois, olhando-o e ouvindo a sua conversa fluida, ágil, alegre, não consigo pensar que ele é um velho.

Não sei se posso dizer que é um homem do povo. Mas podia ser Visconde de Lagos e não quis, a sua praia não é essa.

Convido-vos a ver pois é uma graça. E Luís Osório conduz bem as entrevistas, a conversa prende. Espero que gostem.

"Vencidos" com José Cid | RTP Antena 1

É louco, excessivo e indomável. Compôs canções que tornou imortais, incompatibilizou-se com meio mundo, mas é um homem livre que, tendo 84 anos, parece jovem. José Cid conversa com Luís Osório e não ficará pedra sobre pedra.

Desejo-vos uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira

quarta-feira, maio 20, 2026

Em terra de Más Influências, ya, tipo, tás a ver, viro as costas às famosas Bruna Magalhães e Mia Fernandes e junto-me aos cotas Luís Osório e Violante Saramago Matos que falam devagar e usam um vocabulário tão decente que talvez haja quem já o considere vintage

 

Aqui no campo, podemos ver todos os canais através da internet, mas, por preguiça, por vezes deixamo-nos estar nos básicos. Eu estava com o computador a ver a conversa que mais abaixo partilho e, na televisão, numa daquelas viagens rápidas em zapping, o meu parido parou no 5 para a Meia Noite no momento em que duas jovens convidadas conversavam com uma outra que nos pareceu residente. As duas, que nunca tínhamos visto nem ouvido falar, foram apresentadas como tendo um Podcast muito famoso. Até já foram ao programa (ou ao podcast?) da Júlia Pinheiro, disseram como sendo a inegável coroa de glória... e, por toda a conversa, parecia que meio mundo corre para não perder o que elas dizem. Isto tudo no meio de risos, conversas sobrepostas, tontices. O meu marido virou-se para mim: 'Já tinhas ouvido falar nelas?'. Nunca. Ele pediu: 'Procura lá aí, para ver se se percebe'. Fui ao youtube e procurei. Abri um vídeo e, ao fim de um minuto, o meu marido sentenciou: 'Pronto. Já chega.' e acrescentou: 'Porra.'

Se eu quiser reproduzir o que elas disseram naquele minuto não sou capaz. Não estou com défice de memória pelo que admito que não consigo porque elas, simplesmente, não disseram nada. Só me ficou que, em cada três palavras, aparece a palavra 'tipo' pelo menos quatro vezes. Pelo meio, 'ya'. Tipo, ya, tipo, ya, tás a ver, tipo.

Riem, interrompem-se, comem -- e não dizem nada.

Para ter a certeza de que não estou a ser injusta, voltei agora a ver mais um pouco e nem um minuto voltei a aguentar. Palavrão da pesada, mas ponham da pesada nisso. Uma vulgaridade, asneiras a granel misturadas com tipo e com ya e com tás a ver. E não passa disso, uma cansativa indigência. A todos os títulos, uma miséria.

E, uma vez mais, parece que há muita gente a consumir uma porcaria sem ponta por onde se pegue. Sinceramente, não sei que retrocesso civilizacional é este. 

Elas são a Bruna Magalhães e a Mia Fernandes e o podcast chama-se Más Influências -- uma coisa que, se vivêssemos tempos normais, ao fim do primeiro episódio, por falta de audiência, deixaria de ver a luz do dia. Agora não. Nestes tempos em que reina a estupidez, estas duas criaturas têm audiência e são convidadas para programas de televisão como se fossem pessoas com alguma coisa para dizer. E não têm. 

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Felizmente, há o reverso. Foi de gosto que vi e ouvi a conversa entre o Luís Osório e a Violante Saramago Matos, a filha de José Saramago. Ele faz uma pergunta e deixa-a falar, dá-lhe espaço e tempo, ela escuta-o, pensa -- e nós podemos respirar, escutá-los, olhá-los. Há todo um tempo, uma história, um vocabulário, memórias intelectuais e emocionais, um saber pensar, um saber falar.

Claro que, ao olhá-la, me ocorre o lugar comum de que 'o tempo passa a correr'. Aqui está a filha de Saramago já com 78 anos, já com mais 2 anos do que o pai tinha quando recebeu o Nobel... Ainda o tenho presente, as suas palavras, e aqui está a sua filha já a pensar que o fim se aproxima. Inclemente, o tempo. 

Falam no Ensaio sobre a Cegueira, livro que ela tem na cabeceira. Para mim também um livro fundamental, daqueles momentos em que se cava um buraco sob os nossos pés para que a literatura desenhe uma nova fundação.

Não é daquelas conversas que se ouça em dois ou três minutos -- não, é para se ouvir com tempo. Falam de muita coisa, incluindo da demagogia do Durão Barroso, para mim uma alforreca com que nunca pude, e da sua mulher, muito melhor que ele e que por ele se apagou, a Margarida Uva por quem sempre tive muita simpatia.

"Vencidos" com Violante Saramago Matos | Antena 1 /  Luís Osório

José Saramago só tem uma filha e dois netos. A filha chama-se Violante e é uma mulher extraordinária e discreta. À conversa com Luís Osório. Saramago como nunca o ouviu.


Desejo-vos um bom dia

segunda-feira, março 23, 2026

Ouço uma conversa assim, pessoal, íntima, entre um homem e uma mulher, e penso que seria provável que acabassem apaixonados

 

O meu dia foi, tal como o anterior, muito bom e muito tranquilo. Fomos lanchar/jantar a casa do meu filho, e estivemos na casinha de vidro que têm no jardim, que é um lugar muito agradável. Como o dia esteve primaveril, o ambiente fica ainda mais acolhedor. Os lugares em que estou com os meus é sempre um lugar de felicidade. 

Antes de irmos para lá, estive ao sol que não estava muito quente mas que, apesar de tudo, me aqueceu levemente a pele. Ouvia os pássaros e os sinos e pensei o que penso muitas vezes: mesmo que fosse só por um momento assim já valeu a pena. 

Já aqui contei mas, como penso nisso muitas vezes, vou repetir. A primeira vez que me encontrei com um colega depois do confinamento, contei-lhe que tinha mudado de casa. Descrevi-a, disse onde era, e ele ficou pensativo e disse que, quando sabe que algum amigo mora numa casa assim, pensa sempre: 'e quando um dos dois morrer, a casa não fica grande demais só para um?'. Já não me lembro se me ri e lhe disse que estava mórbido demais para o meu gosto ou se fiquei contagiada, melancólica. Só sei que lhe disse que não tínhamos pensado nisso mas que, quando isso acontecer, logo se verá, mas que, até lá, valerá sempre a pena. E tem valido. No verão fará seis anos que aqui vivemos. E cada dia vale a pena. Mas penso no que ele me disse. A lei das probabilidades não esconde que talvez um dia um de nós dois vá antes do outro. Espero que seja daqui por muitos e bons anos. Mas, quando acontecer, será um problema, claro, em especial se, nessa altura, já for, como desejo que seja, bem velhinho. Um velhinho ou velhinha numa casa grande, sozinho/a, longe do centro da cidade, será sempre complicado. Mas os problemas existem para serem resolvidos e, em princípio, a sua resolução requer sempre uma avaliação concreta das circunstâncias. Portanto, como não se sabe quais as circunstâncias desse dia futuro, não vale a pena estar agora a pré-ocupar-me com isso. 

O que vale a pena é pensar: estou aqui, agora, estou bem, gosto de aqui estar, tenho a sorte e a felicidade de aqui viver e de poder sentir o sol, ouvir os pássaros e a música dos sinos, ver as árvores e as flores, andar descalça, pôr as mãos na terra, estender roupa ao sol.

Mas, portanto, ponho-me ali nestas divagações e nem me apetece pegar num livro, estou simplesmente ali, a existir. Também poderia pegar no computador, ver as notícias, circular pelo youtube, não deixar tudo para as tantas da noite. Mas não. Há isto de que já falei um milhão de vezes: tenho que viver o lado funcional durante o dia, cozinhar, jardinar, fazer compras, arrumar coisas, etc, e depois aproveitar um bocado para estar sem fazer nada, a pensar, a dormitar, a olhar em volta. Não quero deixar que esse tempo seja invadido pelo silêncio de que preciso à noite. 

Por isso aqui estou agora. Comecei por me informar sobre esta guerra perigosa -- mas hoje não estou com disposição para me deixar atormentar. Por isso, desviei-me, escolhi outra rota: estive a ouvir a lenta, gostosa, conversa entre a Bella Freud, designer de moda e filha e neta de dois ilustres Freud, Lucian e Sigmund,  e o escritor Karl Ove Knausgaard.

Já no outro dia aqui partilhei um vídeo de uma outra destas conversas. Há vagar, há espaço, não há interrupções nem confrontações. Ouve-se, partilha-se, está-se disponível. É bom de ouvir, são momentos de calma.

Desta vez o convidado é improvável. Mas o engraçado é que a coisa funcionou muito bem. Há uma empatia entre eles, talvez até mais que isso. Gostam de ouvir o que o outro diz, entregam-se à escuta do outro. A conversa vai para áreas sensíveis. Não que ele já não tenha escrito sobre isso: o alcoolismo do pai, o sofrimento que isso lhe causou, o impacto que teve na sua vida. Mas escrever, no silêncio, é uma coisa: não há ninguém a ver, não há ninguém a ouvir, não há ninguém a questionar. Outra, muito diferente, é falar sobre assuntos íntimos e difíceis com alguém. Mas, aqui, a conversa flui.

E sente-se que, um momento assim, tão íntimo, tão exposto, tão sincero, pode dar lugar a um belo romance de amor. Não sei como foi quando ele se levantou do sofá, podem apenas ter-se despedido, gostei muito, thanks e até um dia destes -- mas a mim parecer-me-ia natural que se abraçassem, e, quando falo em abraço, falo em abraço a sério, apertado, demorado. Parecer-me-ia também natural que, depois do abraço, se olhassem nos olhos. E um olhar prolongado nos olhos um do outro, um deep dive, já se sabe ao que leva. Ou seja, parecer-me-ia natural que se beijassem. E, já que o sofá está ali à mão de semear e já que não são umas crianças e que, naturalmente, não têm muito tempo a perder, que testassem logo ali mesmo ver se os corpos também se entendiam entre si.

Mas isto sou eu a ficcionar. Gosto de histórias de amor.

Karl Ove Knausgaard sobre o Poder dos Pais | Podcast Fashion Neurosis com Bella Freud | Vídeo

Karl Ove Knausgaard é um escritor norueguês. O seu romance autobiográfico "A Minha Luta", lançado em seis volumes, foi aclamado como uma obra-prima em todo o mundo. Exerce um grande fascínio tanto sobre os intelectuais como sobre os jovens que refletem sobre o propósito existencial da vida.

O autor Karl Ove Knausgård junta-se a Bella Freud para uma conversa intimista que explora o poder dos pais e as complexidades da identidade. A discussão aprofunda as experiências pessoais com a vergonha e o significado inesperado das escolhas de vestuário. Prepare-se para reflexões perspicazes sobre relacionamentos, arte e a busca universal do eu. 


Desejo-vos um dia feliz

quinta-feira, março 19, 2026

Conversar, ouvir

 

Quando estou com alguma das minhas amigas mais antigas, mal nos vemos desatamos a conversar como se não tivesse havido tempo de permeio. Aquelas com quem mais gostava de estar em miúda continuam a ser aquelas de quem ainda mais gosto. Não são iguais a mim. Cada uma delas tem coisas que vão quase em sentido oposto ao que eu sigo. Mas, ainda assim, nas nossas diferenças, entendemo-nos. Gostamos de ouvir as opiniões umas das outras. Para quem não tem problemas de maior, conversar assim deve ser tão bom e tão válido como fazer terapia. Tudo o que alguma de nós diz não encontra espanto ou censura nas outras, encontra aceitação, vontade de compreender. Não há vergonha nem inibição.

Nunca fiz terapia, nunca senti necessidade. Pelo contrário, gosto é de ouvir as outras pessoas. Já contei muitas vezes este fenómeno: sem que me conheçam, as pessoas desatam a falar-me da sua vida. Sempre assim foi. Mesmo agora no ginásio isso acontece. Uma companheira, digamos assim, com quem lá me cruzo com alguma frequência, quando estamos as duas ao lado uma da outra, conta-me tudo e mais alguma coisa sobre a sua vida. No fim, já despachado, o meu marido fica à minha espera no sofá, a ver televisão, pois a conversa costuma demorar. Nem sei o nome dela nem ela o meu, e no entanto sei como se chamam o marido e os ex-maridos, sei porque se separou dos ex, sei o que a encanta no actual, sei dos desaires da filha, sei de muita coisa. E a sensação que tenho é que mal abro a boca. O meu marido costuma dizer, ao ver como as pessoas se abeiram de mim e desatam a falar: 'se não desses conversa, a ver se a conversa durava tanto...' Mas a conversa que ele diz que dou não é nenhuma, limito-me a ouvir com atenção, eventualmente faço uma ou outra observação. 

Quando no fim do outono passado almoçámos passámos a tarde com uns amigos, alguns com quem já não estava há bastante tempo, para o fim, um que é muito conversador desatou a contar-me coisas. O meu marido sentou-se num banco, incapaz de acompanhar. Mas um outro que estava também sentado nesse banco, levantou-se e veio mostrar-me umas fotografias, de certa forma interrompendo a conversa do outro. E eram fotografias de uma mulher muito bonita, que ele mostrava embevecido. Eu não a conhecia. Disse-me depois que era a mulher, que tinha morrido há uns dois ou três anos, salvo erro e que eu nunca tinha conhecido. Vi que continuava apaixonado por ela. Ora ele estava lá, naquele dia, com a namorada, namorada essa que, quando me tinha apanhado sozinha, também me tinha estado a contar toda a sua vida e como, agora, com este namorado, continuava a morar cada um em sua casa, tanto mais quanto, em casa dele, havia fotografias da mulher por todo o lado. Então, quando ele estava a mostrar-me as fotografias da mulher, linda, eu estava a modos que meio desconcertada por ver como, se calhar, ele ainda não estava preparado para estar a viver um namoro quando ainda se derretia todo a mostrar fotografias da mulher. Claro que não disse nada, não apenas porque o meu outro amigo, que este tinha interrompido, estava à espera que ele acabasse para retomar a conversa, como o meu marido não parava de me fazer sinais para nos irmos embora.

Quando chegámos ao carro, queixou-se do que se queixa sempre, que me deixo ficar a ouvir as pessoas, que não percebo que, se não as interromper, as pessoas não se calam. E eu, de certa forma, até concordo: as pessoas começam a falar comigo e não param de falar, e, por isso, custa-me desligar-lhes o botão. Pergunta porque é que não faço como ele. Respondo que não faço porque não sou capaz. Ele desliga. Ora como posso fazer isso com as pessoas a confidenciarem-me sobre as suas vidas?

Disse lá em cima que nunca fiz terapia, e é verdade. Mas, quando a minha mãe estava internada, nos Cuidados Paliativos, as médicas disseram à psicóloga que achavam que eu precisava de apoio e, então, ela procurou-me. Falei com ela, não me recordo se duas ou três vezes e foi muito útil, gostei bastante, ajudou-me. E, naquela altura em que eu estava meio perdida, desorientada, quase sem saber interpretar o que estava a acontecer e a querer que tratassem a minha mãe em vez de tentarem convencer-me que já não havia nada a fazer, foi bom ter alguém a fazer-me perguntas, a ouvir-me, a ajudar-me a interpretar. Lembro-me que desatava a chorar e que ela me dizia que era natural que eu estivesse assim, e continuava a falar como se, de facto, a minha reacção fosse normal, dizia que era normal eu estar até quase revoltada por a minha mãe ter escondido tudo e estar, até ao fim, a fazer de conta que não sabia o que tinha, deixando-me sem saber como agir.

Estávamos sentadas ao mesmo nível, ela num sofá, eu num outro, perto uma da outra. 

Não sei se funcionaria se eu estivesse deitada num sofá e ela sentada, num nível mais elevado. Não sei. Não sei se uma pessoa deitada, se abandona, se se expõe mais facilmente. Não sei.

Aqui à noite, sem televisão ligada, vou vendo o que o algoritmo do Youtube tem para me mostrar. E tenho gostado de ver as conversas de algumas pessoas interessantes, deitadas no sofá, com a anfitriã, sentada num outro plano. Com uma câmara apontada ao rosto, sabendo que a conversa está a ser gravada, não sei se conseguiria desinibir-me e conversar sobre tudo. E, mesmo pondo-me no papel de quem ouve o que outra pessoa fala sobre a sua vida, não creio que me sentisse confortável estando o outro ali deitado no sofá. Mas, se calhar, funciona. Pelo menos, aqui, como abaixo poderão constatar, funciona.

Neste caso a conversa é com Helena Bonham Carter, que admiro bastante, é uma excelente diseur e uma excelente actriz. E quem conduz a conversa é Bella Freud, filha do pintor Lucian Freud e bisneta de Sigmund Freud. E divertem-se imenso, a conversa é gostosa. E falam com vagar, o que é muito bom. Conversar requer tempo, disponibilidade.

Helena Bonham Carter fala sobre traseiros proeminentes, androginia e a Princesa Margarida | Fashion Neurosis

Helena Bonham Carter é uma atriz inglesa. Conhecida pelas suas interpretações de mulheres interessantes e singulares, alcançou a fama ao interpretar Lucy Honeychurch em Um Quarto com Vista, em 1985, e a personagem-título em Lady Jane, em 1986. Em 1999, Bonham Carter rompeu com a imagem de "rosa inglesa" ao interpretar a mulher fatal Marla Singer em Fight Club. Interpretou a malévola bruxa Bellatrix Lestrange na franquia Harry Potter e, mais recentemente, a Princesa Margarida em The Crown, papel pelo qual foi nomeada para vários prémios. Helena vai protagonizar uma nova adaptação de Os Sete Relógios, de Agatha Christie, para a Netflix em janeiro de 2026.

Helena Bonham Carter tem dois filhos com o realizador Tim Burton. Conheceram-se em 2001 no set de O Planeta dos Macacos, e o casal colaborou em sete filmes, incluindo A Noiva Cadáver e Alice no País das Maravilhas, até à separação em 2014.

Conhecida pelo seu amor por calças abalonadas, saias compridas e estilo vitoriano, Bonham Carter lançou a sua linha de moda, The Pantaloonies, em 2006. Protagonizou campanhas para Marc Jacobs e Prada, e citou Vivienne Westwood e Maria Antonieta como as suas inspirações de estilo.

Bonham Carter recebeu um prémio BAFTA, um Critics' Choice Movie Award, um Emmy Internacional e três prémios do Screen Actors Guild, além de ter sido nomeada para dois Óscares, nove Globos de Ouro e cinco Primetime Emmy Awards. Foi nomeada Comandante da Ordem do Império Britânico (CBE) na lista de Honras de Ano Novo de 2012 pelos serviços prestados ao teatro.

Neste episódio de Fashion Neurosis, Bella Freud e Helena Bonham Carter discutem sobre roupas andróginas, rabos proeminentes e a palavra "vagina" como o novo elogio.

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Boas conversas

Dias felizes

domingo, novembro 30, 2025

Sopradores de folhas, clubes de leitura, labubus, inimigos, livros sobrevalorizados e outras coisas do género.
Isto num dia em que não estou na minha melhor forma.

 

Lembro-me bem de ter quarenta e tal nos e de ter ido a casa da senhora que transpunha para papel quadriculado os desenhos de tapetes de Arraiolos dos séculos XVI ou XVII e de, às tantas, lhe ter dito que não ia decidir ali pois gostava de pedir a opinião à minha filha. A senhora olhou para mim, muito admirada, e perguntou que idade tinha a minha filha para me poder dar opiniões sobre umas hipóteses tão específicas. Teria certamente vinte e poucos. A senhora olhou-me ainda mais admirada e perguntou. 'Não me leve a mal... mas qual é a sua idade para já ter uma filha dessa idade...?'. Disse-lhe e ela mostrou-se muito espantada, disse que ninguém diria, que julgava que eu não teria mais que trinta e poucos. Não sei se era ela que não via bem mas a verdade é que toda a gente se admirava comigo, dizendo que eu parecia estar sempre igual, diziam que a idade não passava por mim. E lembro-me de, por essa altura, um conhecido que nos tinha ido visitar ter dito que se alguém nos quarentas dissesse que não tinha, de quando em vez, alguns problemas de saúde ou dores ora aqui ora ali, estava de certeza a mentir. Eu disse que eu não tinha queixas de nada e que não estava a mentir. 

Na realidade, até tarde convenci-me que tinha uma sorte do caraças por nunca ter queixas de nada. Nem cabelos brancos tinha. 

Claro que alguns anos depois a realidade do meu corpo humano veio bater-me à porta. Ou por genética ou por durante anos não praticar qualquer exercício físico, a verdade é que comecei a ter queixas nos joelhos. Descobri mais tarde, aliás já muito recentemente, qual a condição que me provoca, de vez em quando, algumas inflamações nas articulações. A mesma coisa que o meu pai teve e que a minha avó materna também. 

No intervalo dessas 'crises' fico bem, como se não tivesse nada e faço uma vida absolutamente normal.

Desde há dois dias que tenho estado meio empanada. Na sexta-feira fui na mesma ao supermercado, este sábado fomos almoçar fora. De tarde limpei a casa. Ou seja, não fico inválida nem pouco mais ou menos nem tenho paciência para me ver como uma velhinha meia coxa. Ou seja, fico apenas meio condicionada. Claro que, se tudo correr bem, um dia chegarei a velha. Mas tem tempo... não preciso de começar já a ensaiar para isso, não é'

E já tenho alguns cabelos brancos... Não muitos mas tenho, sobretudo nas frontes. Nisso também saí ao meu pai que manteve o cabelo da sua cor natural até tarde. Depois começou a ficar levemente grisalho, mas já bem tarde. Portanto, até nesse aspecto, aquela coisa de assumir os brancos também tem tempo. Deixa-os vir, um a um, devagarinho. Quando os tiver na cabeça toda e com fartura logo vejo se viro uma velhinha platinada. Talvez tivesse piada, se calhar aproveitava e fazia um corte à maneira, bem curtinho, à rapazinho. Mas ainda deve faltar um bom par de anos, não vale a pena estar a antecipar.

Isto para dizer que, ao contrário do que é costume, não andei a apanhar cogumelos, não andei a caminhar por entre as árvores a fotografar ou a fazer vídeos. Dei uma leve voltinha mas não tive disposição para me deixar encantar.  Só uma ou outra fotografiazita mas agora também é tarde, não me apetece passar do telemóvel para aqui. 

O que me vale é que sei que, quando isto me passar, e acho que já está a passar, até à próxima, estarei bem, na maior. Faço parte do grupo de malucos que vêm o copo sempre quase cheio.

Este algoritmo do instagram já me topou e agora aparece-me com vídeos com exercícios e sei lá que mais para prevenir inflamações deste tipo. Mas o que despertou mais a minha atenção foi a acupunctura. Só não sei é que parte do corpo haveria de espetar pois a cena dá-se onde calha, ora num joelho, ora num pé, ora num pulso - onde calha. Mas qualquer dia ainda vou ver o que um tipo desses me diz. E capaz de ser até bom, já estou a imaginar-me deitada numa marquesa, toda picadinha e a dormir o sono dos justos. Essas coisas dão-me um sono... Quando ia fazer fisioterapia, adorava. Quem lá andava queixava-se à brava, diziam que só queriam ver-se livres daquilo. Eu era ao contrário, adorava. A chatice era que me debatia para não adormecer. Uma tentação danada, quase irreprimível de me deixar embalar nos aconchegantes braços de Morfeu. Aliás, não sei se isso não aconteceu uma ou outra vez.

Enfim. 

Vi o debate entre o Jorge Pinto e o Marques Mendes. Não me aqueceu nem me arrefeceu mas voltei a achar piada ao Jorge Pinto, acho que o País precisa de malta assim. Já disse que ainda não o acho maduro para a função pelo que não votarei nele. Mas também não voto no Marques Mendes. Era o que faltava. Bolas.

Seja como for, não tenho pachorra para agora falar neles.

Vou é transcrever parte de uma entrevista a Fran Lebowitz, no Guardian. Fazer caminhadas é a coisa mais estúpida que eu poderia imaginar

Achei graça pois identifico-me um bocado com ela, não nisto das caminhadas, que gosto bastante de fazer, mas em muito do resto. Ou melhor, para ser mais precisa: gostava de ser tão desabrida e desbocada como ela. E há uma diferença de fundo entre nós: já não fumo, coisa de que me orgulho imenso pois estupidamente fumei durante tempo demais, Mas, por exemplo, estou com ela no horror aos sopradores de folhas, à barulheira que fazem. Gosto é de as varrer. Sobretudo, gosto de ver o chão coberto por elas. É como os clubes de leitura: nunca consegui inscrever-me nisso. Tinha duas colegas que os organizavam e dinamizavam. Tentaram mil vezes levar-me. Nunca fui. Não me imaginava a dissertar sobre o que tinha lido e muito menos me imaginava com paciência para opiniões parvas, até porque, à partida, tenho para mim que tudo o que se diga sobre um livro num clube desses tem alta probabilidade de ser parvo. 

Mas vá, aqui fica um excerto. Para o lerem na íntegra, podem clicar aqui.

Gostaria de saber a sua opinião sobre cinco coisas. Primeiro, os sopradores de folhas.

Uma invenção horrível, horrível. Eu nem sabia da existência deles até há cerca de 20 anos, quando aluguei uma casa no campo. Fiquei chocada! Vivo na cidade de Nova Iorque, não temos problemas com folhas. Temos todo o tipo de problemas. Quando eu era criança, tínhamos de varrer as folhas. O que é silencioso. Os sopradores de folhas são a coisa mais estúpida que já vi. Primeiro, são incrivelmente barulhentos. E segundo, 10 minutos depois de o usar, aquele soprador gigante no céu atira todas as folhas de volta. É uma invenção muito estúpida.

Jantares.

Gosto de jantares em casa de outras pessoas. Não sou eu que o dou. Acho que o mundo se divide entre convidado e anfitrião. Sou convidada. E sou velha, por isso normalmente não me prendo a jantares de que já não gosto, porque sou uma ótima juíza de jantares antes de ir a um.

Clubes de leitura.

Acho giro que as pessoas o façam, mas, sinceramente, não consigo pensar numa atividade mais solitária do que ler — e essa é uma das razões pelas quais adoro ler. Não tenho nada contra a ideia, mas certamente não me atrai.

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Labubus.

Eu sei o que são, infelizmente. Já houve muitas modas de bonecas, mas estas bonecas em particular parecem-me muito desagradáveis. O que é diferente agora é que os adultos o fazem. Antes, isso era coisa de crianças. Mas os adultos têm estas coisas presas às suas bolsas e cintos. Francamente, parecem ridículas.

Qual a coisa mais estranha que já fez por amor?

Aos 75 anos, o romance não é a sua principal preocupação, pode ter a certeza. Quem diz que é, está a mentir. Portanto, não sei. Sei que as pessoas me acham invulgar, mas não sou estranha. Também não sou de fazer grandes gestos.

Poderia ser algo estranho para os seus padrões — como praticar um desporto radical.

Ah, não, não, eu nunca faria isso. Nunca fui tão jovem ao ponto de dizer: "Uau, escalar montanhas parece divertido". Não, não me parece divertido. Se quer escalar montanhas, divirta-se. Não percebo porque alguém faz estas coisas. Fazer trilhos é a coisa mais estúpida que consigo imaginar. Já vi pessoas a jogar ténis, porque isso aconteceu mesmo no início do meu amor. Duas semanas depois? Já não estou lá.

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Tem algum inimigo?

Ah, tenho a certeza que tenho mais do que um. Tenho a certeza que são dezenas. Felizmente, não costumo prestar muita atenção às outras pessoas. Sei que não sou a menina dos olhos da América. Mas mesmo que soubesse exatamente o nome da pessoa, não te diria.

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Qual acha que é o livro mais sobrevalorizado?

Não creio que me consiga limitar a um só. Existem muitos escritores sobrevalorizados. Quero muito que os romances contemporâneos sejam bons, mas percebo que não gosto da maioria deles. Muitas vezes as pessoas dizem: "É uma questão de geração, Fran, este escritor tem 20 anos". E a minha resposta é: "Bem, não é bom, porque isso não deveria ter importância". Sei quantos anos tinha Tchekhov quando escreveu as suas histórias? Não sei. Não importa. É simplesmente uma grande história.

Durante a maior parte da minha vida adulta, fiquei muito irritada com a lenda de F. Scott Fitzgerald. Por isso, de cinco em cinco anos, releio O Grande Gatsby, esperando que não seja assim tão bom – mas infelizmente é.

Qual é o objeto mais antigo que possui e porque ainda o possui?

Tenho muitas coisas antigas no meu apartamento. A maioria dos meus móveis é do século XIX. Tenho muitos livros antigos. Ainda tenho o trenó da minha infância, de quando era muito pequeno. Eu devia ter uns seis anos, no máximo. Tem uma corda amarrada para o puxar colina acima – lembro-me de ver o meu pai a amarrar a corda. Também tenho o meu carrinho de mão original da infância. E, como tudo neste apartamento, tem livros em cima.

...

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Desejo-vos um feliz dia de domingo 

sexta-feira, novembro 07, 2025

José Luís Carneiro - temos homem
(E uma breve nota sobre a ministra dos tarefeiros)
-- A palavra ao meu marido --

 

Vi ontem a entrevista do José Gomes Ferreira, personagem de que não sou fã, ao José Luís Carneiro. 

Sabe-se da muito pouca simpatia que o Ferreira tem por tudo que lhe cheire a PS, da antipatia que revela quando entrevista essa malta e das ideias muito liberais que defende relativamente à economia. Curiosamente, na entrevista de ontem começou com o ataque habitual, mais ou menos disfarçado, de quando lhe aparece alguém de esquerda à frente e, aos poucos, foi suavizando a atitude acabando, digo eu, por mostrar alguma simpatia pelo José Luís Carneiro. 

Após dizer que a entrevista tinha sido muito interessante, convidou-o para nova entrevista para abordarem assuntos que não tinham tido tempo para tratar. 

De facto, o José Luís Carneiro foi firme, de bom trato, respondeu claramente às questões que lhe foram colocadas, demonstrou não apenas um conhecimento profundo e pormenorizado dos vários sectores como também saber discutir e analisar aspetos bastante técnicos como quando o Zé Gomes tentou entalá-lo relativamente ao orçamento. Foi sucinto, justificou as opções que toma e também os objetivos de algumas políticas do anterior governo PS. Foi coerente e será seguramente uma pessoa honesta que gosta de servir a coisa pública e não servir-se da coisa pública em proveito próprio. 

Gostei bastante da forma como respondeu e da solidez dos argumentos, tal como já tinha gostado da forma como esteve na entrevista deu ao Vítor Gonçalves. 

O José Luís Carneiro já foi presidente de uma autarquia e membro de vários governos, o que dá uma tarimba que o Montenegro, que não passou de deputado, não tem. Já chega de gajos de extrema direita a berrarem na televisão contra os mais frágeis e a mentirem com quantos dentes têm, como Ventura. Também já basta de pantomineiros a prometerem isto e aquilo e não cumprirem com o prometido como o Montenegro. Sendo certo que o eleitorado hoje o que quer é promessas e estilos "reguilas", não sei se apreciará a forma calma, segura, conhecedora e honesta como o José Luís Carneiro está na política. 

Espero bem que sim! 

Veremos.

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Nota: 

A ministra da Saúde, seguramente seguindo orientações do PM, andou a dar dinheiro aos médicos como se não houvesse amanhã tentando, assim, tapar o sol com uma peneira. Quando o governo percebeu que era impossível continuar a gastar á tripa forra armou-se em forte e decretou que os valores tinham que baixar. Os senhores doutores tarefeiros não gostaram. Entende-se, ninguém gosta que lhe paguem menos pelo mesmo trabalho. A ministra, seguindo a política do governo, que é da responsabilidade do Montenegro, não tomou uma única medida que tenha contribuído para melhorar o SNS. No entanto, admito que tenha cumprido o seu objetivo principal e do PM, dar cabo do SNS. Foram tão radicais que, com os aumentos e condições que deram aos médicos, arriscam-se também a constipar os privados.

quarta-feira, novembro 05, 2025

A humildade da grande Patti Smith

 

Conheci-a tarde demais e, ainda assim, não foi logo que reconheci o seu valor. A primeira vez que soube da sua existência foi através das extraordinárias fotografias de Robert Mapplethorpe de quem sempre fui devota. Na altura, nem sabia que ela era a  Patti  Smith. 

Pensava apenas que era uma criatura um bocado atípica, meio andrógina, algo alternativa, que encaixava bem no mundo meio louco do excelente e controverso miúdo

Reconheço em mim, não sei se fruto de uma diferente disponibilidade ou de uma maior maturidade, uma evolução do meu gosto. Agora gosto muito de Patti  Smith e não apenas a nível musical. Por exemplo, gostei bastante de ler o seu autobiográfico 'Apenas miúdos'. E gosto de ouvir e ver as suas  entrevistas, parece que há nela não apenas uma grande sinceridade como uma grande candura.

A caminho dos 80, o rosto vivido de quem já atravessou muitas vidas, tendo também já pisado todos os palcos do mundo, tendo sido entrevistada por tutti quanti, eis que continua a expor-se como a mulher simples que aparentemente sempre foi.

Patti Smith faz uma descoberta pessoal enquanto escreva um novo livro de memórias

Patti Smith está em digressão para celebrar os 50 anos do seu álbum de estreia, "Horses". Ela fala sobre a sua carreira e a descoberta surpreendente que fez enquanto escrevia o seu novo livro de memórias.

sábado, novembro 01, 2025

Em noite de Halloween... que entre Hannibal Lecter... Fssss-fsss-fssssss...

 

Se há actor por quem nutro grande admiração, ele é Anthony Hopkins. Há mais, claro, mas é dele que quero aqui falar. Todos os filmes em que o vi me deixaram uma forte impressão. Parece que há qualquer coisa de muito íntimo entre ele e os personagens que desempenha.

Contudo, se há papel em que se transcendeu de forma absoluta e que para sempre lhe ficará associado é o de Hannibal Lecter, o criminoso em série, canibal, sem remorsos, sem consciência. 

A sua voz que modelava a ameaça velada e ciciada através do silêncio, a sua perspicácia cortante, tudo ali assustava. Estar perante alguém tão demoníaco deve ser aterrador e nós, no conforto da sala de silêncio, sentíamos o medo que aquele coração gelado e aquela mente perversa destilava.

Colbert apresenta uma entrevista que lhe fez, e é um prazer vê-los à conversa. 

Anthony Hopkins revela como a sua intuição, o seu conhecimento intrínseco dos meandros mais primitivos da mente (os mecanismos do medo, por exemplo) e algumas fontes de inspiração serviram para compor o personagem. E é um prazer assistir a isso.

Sir Anthony Hopkins, As Hannibal Lecter, Can Make Any Classic Movie Line Sound Terrifying

O vencedor de um Óscar, Sir Anthony Hopkins, revela que personagens de filmes influenciaram a sua interpretação de Hannibal Lecter em "O Silêncio dos Inocentes" e aceita o desafio de Stephen de ler algumas frases famosas do filme como o célebre assassino em série fictício.

Não vou aqui partilhar todos os vídeos dessa entrevista mas não posso deixar de aqui colocar o seguinte. O tema não é apenas o do 'grande segredo' mas essa parte, o da finitude, é muito interessante. Diz ele que já viveu muito, nunca esperou chegar até aqui, que está tudo bem, já não tem medo. E ninguém escapa. Por isso, quando o momento chegar, que chegue. Tema complexo para toda a gente mas é agradável ver alguém a falar disso a rir, sem drama.

"One Day I Will Learn The Big Secret" - Sir Anthony Hopkins Says He's Too Old To Fear Death

A entrevista de Stephen Colbert à lenda de Hollywood, Sir Anthony Hopkins, dividida em quatro partes, termina com uma conversa sobre ser o ator mais velho a ganhar um Óscar e porque é que, aos 88 anos, superou qualquer medo da morte. As suas memórias, "We Did OK, Kid", estão disponíveis.

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E estamos em Novembro. O tempo corre. Os dias estão mais pequenos. 
E as lojas já mostram os enfeites de Natal. 
Vita Brevis. Tempus fugit.

Dias felizes

terça-feira, outubro 28, 2025

O que uma professora pode fazer pela vida de uma pessoa
(Professora ou professor, bem entendido)
Veja-se o caso de Rita Blanco

 

Já aqui devo ter contado como, quando falo com algum dos meus amigos, a conversa flui com naturalidade, como se nos falássemos diariamente, sem hiatos. As pessoas com quem sentia mais afinidades quando era miúda são ainda pessoas com quem me sinto em casa. Rimos das mesmas coisas, compreendemos as reacções umas das outras. 

Estou a escrever e a lembrar-me de uma amiga que andava sempre connosco. Éramos um grupo animado de rapazes e raparigas e ela talvez fosse a mais calada, parecia que pouco tinha a dizer. Era muito doce mas nunca lhe conheci uma iniciativa, uma sugestão de irmos aqui ou ali ou fazermos isto ou aquilo. Não sei se era timidez ou se era apenas assim, observadora passiva das maluquices que os outros diziam ou faziam.

Ao ouvir a Rita Blanco -- na conversa que abaixo partilho, com a Sofia Cerveira -- dizer que, quando era miúda era tímida, retímida, sempre calada, sempre a sofrer por achar que não encaixava ali, pensei nessa minha amiga. Será que sofria? Aqui há dias ela disse: 'Quando leio o que vocês escrevem [no grupo de whatsapp] fico com vontade de dizer alguma coisa. Mas não sei o quê... Depois passa a oportunidade... Por isso nunca digo nada'. Ou seja, continua igual. Fiquei com pena pois percebi que ela gostaria de participar, simplesmente continua a não ser capaz. 

Há quem seja espontaneamente extrovertido. Eu acho que sou assim. Não que seja muito palradora ou que seja 'a alegria da festa', não sou, mas exprimo facilmente a minha opinião, digo, sem pensar muito, o que penso. Mas há quem não seja assim. E pode não ser fácil para os próprios, se calhar gostariam de se exprimir com a mesma facilidade que observam nos outros.

Rita Blanco era assim. Diz que não se achava boa em nada. Mas, conta ela,  houve uma professora que a viu. E, diz ela, o facto dessa professora a 'ver' mudou a sua vida. 

Se hoje Rita Blanco é das nossas mais conceituadas atrizes, mulher inteira, mulher de opiniões, de causas, mulher que enche qualquer plateau, a essa professora, que viu com olhos de ver aquela menina que se escondia atrás do cabelo e que sofria por não se achar boa em nada nem capaz de nada, o deve.

Por vezes esquecemo-nos da importância que alguns professores têm em nós. Na minha vida não consigo identificar nenhum professor que tivesse sido decisivo na minha vida mas identifico muitos que foram marcantes. Por exemplo, recordo a maravilhosa Joana Meira que, creio que numa aula circum-escolar, quando estava bom tempo nos levava para o terreno ao lado do campo de futebol e, sentados na terra, líamos a poesia de Sebastião da Gama e livros como Platero e Eu ou o Velho e o Mar que transportavam a ternura, a leveza e a sabedoria de mundos longínquos através do poder das palavras. Nessa altura já eu lia muito, mas lia com sofreguidão, sem aquela pausa e silêncio que é necessário para que as ideias do escritor se instalem nas nossas cabeças. Querida Professora Joana Meira. A sua marca em mim perdura.

Quanto à minha condição de professora, creio que já o contei aqui mas vou voltar a contar. Uma vez, estava eu a andar perto da minha casa, cruzei-me com uma elegante mulher. Era inverno. Tinha um casaco comprido justo, encarnado, muito fashion, uns saltos altos, uma pasta na mão. Parou, cumprimentou-me pelo meu nome precedido por Stôra e identificou-se. Devo ter ficado com a boca aberta. Recuei uns anos. Tinha sido uma aluna muito problemática, com problemas de droga. Faltava, quase dormia nas aulas, dizia e fazia disparates. Fiz com ela o que fiz com outros. Quando não aparecia, pedia a algum dos colegas que a fossem buscar. Por vezes mal conseguia andar, dizia que não ia estar ali a fazer nada, que era escusado. Eu dizia-lhe: 'Não vou desistir de ti. Tenta manter-te acordada. Tenta prestar atenção'. Mas ela deixava cair a cabeça. Os outros riam-se. Eu dizia: 'Se eu vir alguém a rir dela, vai para a rua, com falta'. Era uma luta. Muitas vezes temi desistir. Uma vez, estando ela numa lástima, mandei-a ir ao quadro. Não queria. Dizia que não conseguia, que podia cair, que não sabia nada. Mantive: 'Vem ao quadro. E ai de quem se ria.' Os outros ficaram nervosos, temiam que ela caísse. Ajudei-a. Disse que se apoiasse no quadro. Fiz-lhe perguntas. Mal conseguia ouvir o que eu dizia, mal conseguia falar. Na prática, respondi por ela. Mandei-a fazer alguns exercícios muito simples. Esforçou-se. Fez uma parte, completei-os eu. Quando a mandei sentar, vi que ela estava contente, tinha superado aquela provação, tinha conseguido não cair, tinha conseguido que ninguém se risse.

Ao longo do ano fui-lhe pedindo encarecidamente que tentasse ter positivas. Com muita dificuldade, consegui que se aguentasse. À tangente, com muito boa vontade. Pedi aos colegas para a ajudarem. Nas reuniões de turma, bati-me para que ela não chumbasse. Se ficasse para trás, perderia os seus amigos, seria pior. Nessa altura eu devia ter apenas mais quatro anos que ela.

Nesse dia, muitos anos depois, em que nos encontrámos, disse-me: 'Sabe, Stôra? Sou economista. O que sou, a si o devo. Nunca me vou esquecer do que fez por mim'. Estava muito emocionada. E eu também fiquei. E ainda me emociono quando me lembro dela, adolescente magra, despenteada, desengonçada, cambaleante, e, depois, uma mulher bonita, bem vestida, bem arranjada, segura de si.

A vida da gente guarda segredos, dificuldades, momentos de viragem. 

Ninguém deve desistir de ninguém.

A entrevista da Rita Blanco é, toda ela, bastante interessante. Ela e a Sofia Cerveira parecem duas amigas à conversa. E nós, ouvindo-as, parece que estamos a juntar-nos à conversa. Mérito da entrevistada e da empática entrevistadora, certamente. 

Rita Blanco: É mais fácil viver a vida de outras pessoas
My Red Carpet… com Sofia Cerveira

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Desejo-vos um belo dia

segunda-feira, outubro 27, 2025

Pedro Paixão, o outro

 

Como vejo cada vez menos televisão deixei passar a entrevista a Pedro Paixão, feita, se bem percebi, a propósito do lançamento do seu último livro. Felizmente, o algoritmo do youtube, que, como se sabe, me topa à légua, agora serviu-ma de bandeja. 

Sempre gostei imenso de o ouvir. É daquelas pessoas que tem um grão daquela loucura que, quando vem com mansidão e com inteligência, se torna sedutora. 

Li vários dos seus livros, alguns com alguma perplexidade, outros com curiosidade, outros com admiração. Outros nem tanto -- mas isso não tem mal pois não é suposto que alguém agrade sempre a outra pessoa.

Pedro Paixão, pelos seus excessos e pela forma articulada e, ao mesmo tempo, despojada, é uma daquelas personagens contraditórias a que pessoas como eu acham piada. Pessoas mais recticulares, menos dadas a apreciar os desvios à norma, não acham graça nenhuma, dizem que 'o tipo é maluco' e viram-se para outro lado.

Desta vez, Pedro Paixão está diferente. Ele próprio o diz: mais sensato. De facto, achei-o outro. Mas, ainda, interessante. E ainda dado a excessos. 

Conta que, porque a mulher se ofereceu duas telas, uns pincéis e uns tubos de tinta, começou a pintar e já pintou para cima de 250 telas. Identifico-me muito com ele. Quando o meu filho me fez idêntica oferta aconteceu-me esse mesmo entusiasmo, uma loucura, ficava a pintar até às tantas da manhã, não conseguia parar de inventar formas, misturar cores, descobrir ousadias. Parei por já não ter onde guardar tantas, tantas, tantas telas. Tenho telas pintadas guardadas em todos os buracos que consegui descobrir. Tive que parar, claro. Mas só eu sei a vontade que volta e meia sinto, quase um formigueiro nas mãos.

Fiquei curiosa com o livro. Sendo o tema que é, um tema que nos rasga as entranhas, imagino que seja da pesada. Literalmente, até  -- tem mais de 800 páginas. Mas diz ele que são anotações que não precisam de ser lidas em sequência e, portanto, assim sendo, sinto-me desobrigada de ler como 'deve ser' podendo fazê-lo apenas salteadamente, e isso é bom pois cada vez mais sou praticante dessa forma de leitura. 

Nunca fui a Auschwitz nem nunca irei. E posso afirmá-lo com certeza absoluta. Não seria capaz. Nem nesta nem numa qualquer futura encarnação. Jamais. 

Houve uma altura em que lia muitos livros sobre o assunto e, de cada vez que os lia, ficava transtornadíssima. Depois deixei de conseguir ler. Há em mim uma parte que parece não ser capaz de assimilar a maldade extrema, a alienação doentia, a cegueira, a estupidez qualificada. O que se passou nesses anos é, para mim, algo que o meu entendimento não atinge. E essa falta de entendimento perturba-me. Como foi uma coisa assim possível? Como?! Como é possível haver pessoas tão doentiamente más que levaram a cabo tal desumanidade? Como é possível que tanta gente tenha pactuado? Como foi possível a tanta gente ignorar? Como foi possível a tanta gente viver depois do que aconteceu? Como não ficaram esmagadas pelo peso da consciência? Não encontro resposta para nenhuma destas perguntas. 

É quase a mesma perplexidade que sinto quando vejo que há tanta gente que não se indigna -- mas com uma indignação profunda, inequívoca, aquela indignação que vem das entranhas -- com o que se passa nos países em que há guerra e em que alguém decide invadir um país ou matar a sua população, destruir as suas casas, as suas vidas, os seus sonhos, o seu futuro. Ou quando vejo que há quem encare o que se passa nos Estados Unidos com bonomia, como se fosse apenas uma palhaçada, parecendo ignorar os perigos.

Diz o Pedro Paixão que depois de ter visitado Auschwitz deixou de conseguir ler ficção. Compreendo-o muito bem. Perante situações extremas, a cabeça reformata-se.

Ele foi corajoso: visitou o lugar e durante anos investigou o assunto, nomeadamente o papel da Igreja Católica em todo o processo. Deve ter-se sentido arrepiado muitas vezes. Diz que deu o livro por encerrado quando se encontrou sem forças para mais. Imagino. Anos mergulhado no horror devem deixar qualquer um esgotado.

Correndo o risco de estar a partilhar imagens que V. já conhecem, pois poderão ter visto a entrevista no dia em que foi emitida no Now, coloco o vídeo na mesma, nem que seja para aqui ficar como um pro memoria pessoal.

Da minha pequena janela vejo o mundo -  Pedro Paixão no Guerra e Paz, no NOW

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Dias felizes. Saúde, alegria, ânimo.
Paz.

quinta-feira, outubro 16, 2025

Fazer graça com qualquer coisa

 

Tenho um amigo que está sempre a enviar-nos piadas, vídeos engraçados, anedotas de toda a espécie. Toda a gente o acha o maior dos pândegos. Ao vivo, sempre que a ocasião se proporciona, sai-se com uma. Na maior parte das vezes, rio-me não da piada em si mas do despropósito, da inconveniência, da inoportunidade. Vejo que ele fica contente quando nos vê a rir e não acredito que se aperceba de que é que nos estamos a rir. Mas estou a falar no plural e devia falar só em mim pois eu sei porque é que rio mas não sei porque o fazem os outros. Se calhar, riem-se da piada em si.

Acresce que aquela sua falta de sentido de oportunidade vale para tudo, para o humor ou para o drama. Há tempos, num jantar, a mesa cheia, eu de um lado da mesa e ele lá ao fundo, chama-me para me perguntar se me lembro de fulano de tal. Digo-lhe que sim, claro. Então, inopinadamente começa a falar-me dele, do seu feitio que foi ficando cada vez mais difícil, que volta e meia tinha coisas que deixavam os outros de cara à banda, tal o excesso, coisa à beira da histeria. Numa dessas vezes, ao ver-se no meio daquelas reacções furibundas, ocorreu perguntar-lhe se já alguém o tinha mandado fazer um tac à cabeça. O outro, muito espantado com o despropósito da pergunta, até esfriou o assomo em que estava. E ele, ali mesmo, lho prescreveu. Pois, imagina tu, contou-me ele lá da ponta da mesa -- uns estupefactos com a conversa, outros nem se apercebendo e continuando na deles -- que tinha mesmo um tumor. Eu de boca aberta, nem sei se pelo diagnóstico se pelo despropósito daquilo. Indiferente à minha reacção e à dos que estavam a prestar atenção, continuou descrevendo a localização do tumor, inoperável, estás a ver, ali não dá para mexer, e o que aquilo era, oh pá, um tamanho..., continuou ele. Eu sem saber se era suposto manifestar o meu desgosto pela pouca sorte da localização do tumor do outro nosso amigo, se o meu espanto por aquilo estar a vir à conversa, ali, naquele momento, a meio de um jantar, sem vir a propósito de nada. Mas ele continuou com a minúcia de quem ficou também transtornado com a pouca sorte do amigo: e espalhado, espalhado. E continuou com pormenores mais precisos. E acrescentou: nem sei porque me lembrei de lhe perguntar aquilo do tac, mas lembrei-me, estás a ver? Quase parecia arrependido de ter tido aquela ideia que, até a ele, lhe parecia quase peregrina. Só consegui abrir a boca para dizer: pois, coitado, eu sabia que ele tinha morrido mas não sabia desses pormenores... E fiquei aflita sem saber como continuar. Não ia continuar no mesmo registo, mantendo aquela interrupção dramática no meio de um jantar que decorria leve, divertido, todos bem dispostos. Mas, ao mesmo tempo, depois daquele drama, ia chutar para canto e desviar para um tema levezinho e sorridente? Fiquei naquele impasse até que alguém resolveu a coisa por mim, puxando um tema que não tinha nada a ver e fazendo de conta que aquela conversa não tinha tido lugar. Ele próprio pareceu agradecido por ter sido desviado do tema escuro em que nos tinha mergulhado. Mas, pouco tempo depois, já estava outra vez a dizer piadolas, algumas mais próprias de um adolescente com as hormonas aos saltos do que um homem feito e com a descendência espalhada pelo mundo.

Isto tem a ver com a maneira de ser de cada um. 

A convidada do Bial, Tata Werneck, que já conhecia vagamente de uma novela e a quem tinha achado piada, parece ser dessas pessoas que tanto entra num registo pesado, cheia de medos, carregando traumas e fobias, como, logo de seguida, passa para um registo divertido. Talvez não seja inoportuna ou inconveniente como o meu amigo mas também ainda é jovem, não se sabe como será quando tiver a idade do meu amigo e tiver passado aquilo por que ele já passou.

E o que eu vejo é que o Bial se ri a bom rir com o que ela diz. E eu gostei de ver e ouvir.

Pedro Bial entrevista Tata Werneck | Conversa com Bial

No Conversa com Bial, Pedro Bial recebe a atriz, apresentadora e humorista Tata Werneck para uma entrevista divertida, emocionante e cheia de boas histórias. Tata fala sobre carreira, maternidade, vida pessoal e os desafios de equilibrar humor e emoção em sua trajetória


Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, setembro 10, 2025

Ro Ro, ou a graça das mulheres-meninas

 

Confesso a minha ignorância: nunca tinha ouvido falar em Angela Ro Ro. Mas devota do Bial como sou, se ele a leva às suas gostosas conversas, eu estou lá. Portanto, pus-me a ouvir.

E, à medida que a ouvia, risonha, provocadora e engraçada como uma adolescente, mostrando continuar sequiosa de vida e diversão, pronta para os amores, ia-me lembrando de uma amiga que é assim. Muito, muito assim (apenas com a diferença de que Angela Ro Ro é gay e a minha amiga é hetero).

Tal como vejo, pela entrevista, que Angela Ro Ro tinha a fama de ser uma malandreca, também a minha amiga, quando entrou a sério na adolescência, virou uma bela safadinha. Tinha fama de alta namoradeira ou mais que isso, fazia coisas que, por vezes, me deixavam um bocado perplexa, sobretudo por achar que ela caía com demasiada facilidade nos braços errados. Mas ela não me ouvia. Não ouvia ninguém. Parecia tomada por uma urgência de experimentar tudo, de quebrar todos os tabus.

Mas, à posteriori, vim a verificar que, afinal, era muita parra e pouca uva. Muitas aventuras, muitos empolgamentos, e, depois, muitas decepções, muitos desgostos. Conta que foi várias vezes traída. No fundo acreditava demais em quem, se via à légua, que não merecia qualquer crédito. Mas ela não via o mesmo que os outros. Olhares racionais e objectivos não eram com ela, toda emoção, toda inocência.

Talvez por isso ou talvez porque a vida, por vezes, prega partidas a quem não o merece, amores verdadeiros, grandes, intensos, duradouros, que não a fizessem sofrer, não os teve.  

Mas não ficou ressentida nem desanimada. De facto, ainda agora continua a ser tal como se descobriu quando, adolescente, resolveu abraçar a vida sem reservas: alegre, brincalhona, sedutora, irreverente, com uma tremenda vontade de amar e de ser amada, a mesma adorável adolescente. E... continua a dar com os burrinhos na água pois continua a atirar-se, sem reservas, para os braços de quem não tem condições de retribuir a paixão. No entanto, continua, sorridentemente a acreditar que o melhor ainda está para vir, a correr atrás da sorte, do amor, da paixão. E eu, do mais fundo do meu coração, desejo que um dia encontre alguém que a ame como ela, desde sempre, desejou ser amada.

A voz INESQUECÍVEL de Angela Ro Ro | Conversa com Bial | GNT

No #ConversaComBial , uma homenagem especial à icônica Angela Ro Ro, cantora e compositora que marcou a MPB com sua voz potente e canções inesquecíveis.

Com uma carreira iniciada nos anos 70, Angela deixou clássicos como Amor, Meu Grande Amor e Compasso, tornando-se referência de autenticidade e emoção na música brasileira.



quinta-feira, agosto 07, 2025

Momento grande: Adélia conversa com Bial
-- Uma entrevista rigorosamente a não perder --

 

Desde que a descobri passou a ser companhia sempre presente na minha vida. Adélia Prado é daquelas pessoas luminosas de quem se pode dizer que é 'do bem'. Sorrindo, fala coisas sensatas, sábias, simples. Não é daquelas que se 'acha', não enrola a conversa em prosa armada. É daquelas pessoas com quem se aprende, com quem se ganham anos de vida, com quem apetece estar.

E o Bial é outro que tal. Todo ele cativa: sabe ouvir, sabe falar, sabe olhar. As entrevistas conduzidas por ele são conversas sempre gostosas.

Por isso, uma conversa entre os dois é maravilha pura. Conversam de tudo com aquela leveza, aquelas gargalhadas, aquele desassossego que alegra e rejuvenesce. Pode a conversa fluir em torno da morte, da vida, de sexo, de religião que as palavras não fogem nem se espantam. Adélia fala e Bial, embevecido, deixa-se ficar a ouvir. De vez em quando, parece que gostaria de ficar em silêncio, a pensar no que ela diz. Mas a entrevista tem que prosseguir e, então, lá vem mais uma questão. Outras vezes leem poesia e o prazer é redobrado: ambos parecem submersos nas palavras.

Esquecemo-nos da idade de Adélia, os seus 90 anos não pesam, não desgastam, não cansam: aqueles tantos anos luzem com graça e inocência, como as luzinhas do cenário em que se encontram.

Adélia Prado em "Conversa com Bial"

Adélia Prado, maior poetisa viva do Brasil e recém ganhadora dupla dos prêmios Camões e Machado de Assis, maiores honrarias prestadas a escritores de língua portuguesa pelo conjunto de sua obra, concedeu entrevista ao Pedro Bial, no programa "Conversa com Bial".

Prestes a completar 90 anos, a autora aclamada que publicou o primeiro livro aos 40 fala de suas experiências, de sua voz poética, de diferentes momentos da vida.




Dias felizes

quarta-feira, maio 28, 2025

Tudo conspira, e muito, contra a inocência

 

Imagino a invejinha que quem ainda trabalha sente quando me lê a relatar o meu dolce fare niente. Espero é que seja daquela invejinha boa, inocente, não daquela que vem sob a forma de olho gordo. 

Lembro-me bem daquela ex-colega de quem toda a gente dizia que apenas se realizava através do trabalho e que um dia, uns meses depois de ter saído da empresa, apareceu lá a visitar-nos. Vinha remoçada, muito bem vestida e penteada. Quando lhe perguntámos como estava a adaptar-se à condição de 'desocupada', riu de gosto e disse: 'Penso muitas vezes que se as pessoas soubessem como não trabalhar é tão bom, ninguém queria trabalhar...'

E é mesmo. Não percebo como é que há tanta gente que faz de tudo para se manter a trabalhar até estar quase a cair da tripeça. Mas, enfim, cada um é como cada qual.

E o que eu ia dizer é que estava numa espreguiçadeira, à semi-sombra, completamente em paz comigo e com o mundo, a ler e a ouvir os passarinhos, e pensando que devia ter ali um lápis para ir assinalando algumas frases com piada. Nisto, reparei que o cãobeludo estava freneticamente a espreitar para uns vasos que estão num nível abaixo e que estão separados daquela zona por uma pequena rede. Entre a rede e os vasos costuma juntar-se farta caruma. E era para ali que ele olhava, saltava, agitado como se tivesse descoberto coisa. Tremo quando isso acontece pois antecipo que o passo seguinte seja o cometimento de um crime.

Chamei o meu marido. 

Nessa altura já ele (ele, o cão) tinha ido para essa zona rebaixada e já andava agitadamente em volta dos vasos. O meu marido pegou numa cadeira dobrada e colocou, na parte de baixo, junto aos vasos, tentando impedir que ele lá chegasse.

Em sobressalto, fui buscar a mangueira e abri a água para tentar evitar que o predador se atirasse ao que quer que fosse que ali estava. Então, do monte de caruma que ali estava, monte que mais parece um ninho, saiu um pássaro espavorido, a correr. Parecia um pássaro ainda criança, que ainda não sabia voar, mas de um porte grande, digamos que do tamanho de uma palma de mão aberta. Desatei a chamar o meu marido para impedir que houvesse um desastre e, ao mesmo tempo, a dar mangueiradas de água para afastar o cãomaluco. 

O aflito passarito foi a correr, ladeira abaixo, indo encostar-se a um canto do portão da garagem. 

O meu marido foi então com uma pá para tentar que ele se pusesse lá em cima para o pôr a salvo. Mas foi o bom e o bonito pois, apesar de estar a levar mangueiradas de água, o cão queria, à viva força, ir atirar-se ao frágil serzinho. E o meu marido gritava com ele para ele se ir embora. Só que, com tal reboliço, o passarito abalou a correr ladeira acima, atravessou o jardim e foi refugiar-se junto à sebe. Só que o cão foi mais rápido que o meu marido e que eu com a mangueira. Em menos de um segundo saltou, implacável. 

Quando o meu marido lá chegou, já o passarinho estava deitado de lado, sem se mexer. O meu marido deu um grito ao cão e eu apontei-lhe a mangueira. Mas, aí, ele deve ter percebido que tinha feito um mal irreparável pois afastou-se e ficou como se paralisado, sentado, a olhar para o pobre defunto. 

O meu marido foi resgatar a vítima. O cão-marado afastou-se, pesaroso.

Fiquei atordoada com tudo aquilo. E francamente arreliada por não termos conseguido evitar tão infeliz desfecho. 

Mas a vida na natureza tem destas coisas. 

Depois fui apanhar nêsperas e, como sempre, foram quase tantas as que comi, in loco, como as que coloquei na taça. É congénito: não desfazendo... mas estou mais para Rubens do que para Giacometti.

E agora estou aqui sossegadamente a ganhar coragem para ir à procura de algumas frases de que gostei.

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E, depois de ter feito uma rápida pesca à linha, aqui estão algumas frases transcritas do gostoso 'Uma última pergunta - Entrevistas com Mário Cesariny'

- Tudo conspira, e muito, contra a inocência, contra a linguagem verdadeira.

- O que eu sinto é que a partir dos 50, por exemplo, uma pessoa sabe demais, não era preciso saber tanto. E muito do que se aprende é triste.

Como define a poesia?  - A técnica mais proibida da mágica mais procurada 

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Imagens geradas pelo Sora (IA)

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Dias felizes

quarta-feira, outubro 09, 2024

O próprio Montenegro o disse: "Ter uma entrevistadora como a Maria João ajuda..."

 

Porque será que Montenegro escolheu a SIC e, dentro da SIC, porque é que a escolhida como entrevistadora foi a (correligionária?) Madame Avillez (que, ouvi hoje, parece que nem carteira de jornalista tem) e não um entrevistador que exercesse algum contraditório ou que colocasse questões mais delicadas para a retórica del Montenegro? Pourquoi?

Lulu Montenegro, o grande guru da comunicação, que até diz como é que quer os jornalistas à sua frente, sabe do que faz, lá isso. Assim, está em casa, a conversar com uma amiga.

Gostava era de saber se o super comunicador Marcel, que tem as suas raízes profundas na SIC, deixou de ir nas visitas oficiais para ajudar nesta entrevista. Não é por nada, só mesmo por curiosidade.

domingo, outubro 06, 2024

Eu não sou Marina Abramović

 


Quando é que foi mais feliz?

- Quando nasceram os meus filhos e, talvez ainda mais, quando nasceram os meus netos.

Qual é o seu maior medo?

- Que aconteça alguma coisa de mal a algum dos meus filhos ou netos ou ao meu marido (ou a mim)

Qual a pessoa viva que mais admira e porquê?

- Qualquer cientista (motivado e, de preferência ousado e persistente). Também admiro as pessoas que amam a liberdade e a democracia e que, mesmo sob ameaça, continuam a defender aquilo em que acreditam e que conseguem transformar as suas convicções em palavras e actos. Todas as pessoas que arriscam a vida em busca de uma vida melhor, mesmo arriscando a vida, nomeadamente as que vêm em barcos frágeis, apinhados, em busca de um sonho, tantas vezes improvável. Todas as pessoas que vivem em contexto de guerra e que, mesmo assim, continuam a fazer uma vida normal, conservando a capacidade de sorrir. Todas as pessoas que atravessam períodos em que a vida ameaça fugir-lhes, como as que recebem a notícia de cancro ou de doenças degenerativas, e arranjam energia para enfrentar os tratamentos e para continuar a acreditar na recuperação. Mais ainda se isto se passar com os filhos. Também admiro muitas as pessoas que trabalham muitas horas ou em condições difíceis, em particular as mulheres com filhos, que têm que se levantar muito cedo e deixar os filhos por vezes sabe-se lá com quem e andar em vários transportes públicos, e que chegam tarde a casa, cansadas, muitas vezes num país que não é o seu, com hábitos que não são os seus. Os imigrantes. Enfim. Admiro muitas pessoas.

Qual a sua característica de que menos gosta?

- Não ter apetência pela prática de desporto (ou exercício físico a sério). E não ter boa voz.

Qual o seu momento mais embaraçoso?

- Quando, num dia de verão, em que tinha uma saia branca, de tecido fino, e, depois de ter estado horas numa reunião, quando me levantei, ir um colega atrás de mim, ruborizado, dizendo-me que tinha uma coisa um bocado íntima para me dizer e, a custo, muito aflito, dizer-me que eu tinha a saia manchada. E eu, ao espreitar, ver uma mancha enorme, enorme, de sangue. Escusado será dizer que nunca mais usei saia ou calças brancas quando estava ou temia vir a estar com o período.

Não incluindo a casa, qual a coisa mais valiosa que comprou?

- Os meus livros

Qual o seu pertence mais apreciado?

- Talvez mesmo os meus livros

Qual a sua principal conquista?

- Ter conseguido ter uma vida profissional motivante e bem sucedida sem nunca ter sacrificado a minha disponibilidade para a família, em especial para os meus filhos

Descreva-se em três palavras

- Normal, tranquila, bem disposta

De que gosta menos na sua aparência?

- Nada em particular, não ligo muito a isso pois sou como sou e não equaciono modificar-me. Portanto, o que não tem remédio, remediado está.

Quem é que gostaria que interpretasse o seu papel num filme sobre a sua vida?

- A nível internacional, Cate Blanchett. A nível nacional, talvez a Margarida Vila-Nova.

Qual o seu hábito mais desagradável?

- Deitar-me, todos os dias, tarde de mais.

O que a assusta na velhice?

- Poder vir a sofrer de limitações severas ou ver o tempo a esgotar-se numa altura em que ainda me apeteça muito viver

O que queria ser quando crescesse?

- Comecei por desejar ser cabeleireira. Mais crescida, queria trabalhar numa empresa, ou melhor, em ambiente empresarial. Uma ideia um bocado vaga. Mas era isso.

Escolheria fama ou anonimato?

- Anonimato, claro.

Qual a última mentira que disse?

- Disse a uma pessoa que achei que estava velha e acabada que estava muito bem

Qual o seu prazer mais culpado?

- Ver a telenovela A Promessa (não vejo uma única telenovela portuguesa desde que me lembre pois, se calha passar por lá de raspão, acho uma chachada que não se aguenta, não as suporto nem um minuto; e, no entanto, gosto de ver A Promessa)

A quem gostaria de pedir desculpa e porquê?

- Às pessoas que gostavam muito de mim e a quem, por falta de tempo ou falta de capacidade para manter o contacto com muitas pessoas, acabei por deixar para trás, sabendo eu que as pessoas ficaram sentidas e com saudades.

O quê ou quem é o amor da sua vida?

- Os meus filhos e os meus netos e, claro, quem esteve, comigo, na origem de tudo, o meu marido.

A que é que sabe o amor?

- A felicidade, a tranquilidade, a harmonia, à razão primeira e última para tudo.

Já alguma vez disse 'amo-te' sem o sentir?

- Não tenho por hábito dizer 'amo-te'. Não me soa bem, são sons mudos demais. Prefiro dizer 'gosto de ti'. Sempre que o digo é sentido. Mas também não sou muito de andar a verbalizar, sou mais de demonstrar.

Com que frequência pratica sexo?

- Apesar de não querer ser maria-vai-com-as-outras em relação à Marina Abramović, respondo como ela: frequentemente

Quando é que esteve mais perto da morte?

- Quando o meu carro, numa descida acentuada a caminho de uma rotunda movimentada, ficou sem travões e percebi que ia, inevitavelmente, ter um acidente que poderia ser muito grave, e que, por isso, poderia estar a viver os meus últimos segundos de vida. O carro ficou de tal forma que o seguro declarou a sua perda total. Eu, felizmente, não sei como mas escapei incólume.

O que melhoraria a sua qualidade de vida?

- Ter uma piscina onde fazer ginástica em suspensão do outro lado da rua. Haver, também, um supermercado na minha rua, para não ter que ir de carro de cada vez que tenho que comprar qualquer banalidade para casa

O que preferia ter mais: sexo, dinheiro ou fama?

- Sexo e dinheiro acho que tenho que chegue e fama não quero. Mas agora que penso nisso... talvez gostasse de ser uma escritora conhecida, com qualidade reconhecida. Talvez a isso se chame fama.

O que acontece quando morremos?

- Descansamos de forma radical. Desaparecemos. 

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  • As questões a que respondi são as da entrevista feita por Rosanna Greenstreet a Marina Abramović. 
Marina Abramović
Fotografia de Linda Nylind/The Guardian


Uma vez que as respostas interessantes são as dela e não as minhas, sugiro que cliquem aqui:

Marina Abramović: ‘Describe myself? Long hair, big nose, large ass’ de Rosanna Greenstreet

  • A fotografia do hibisco foi feita hoje no meu jardim

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Desejo-vos um belo dia de domingo