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domingo, dezembro 15, 2024

O tocante e digno testemunho de uma mulher sozinha

 

Passei todo o dia num virote. 

Os meninos não dão tréguas. Em especial, ela que que é toda líder, toda voluntarista e determinada, logo que chegou anunciou que vinha tratar das decorações de Natal, dentro e fora de casa. Foi ela para a cave e foi de lá trazendo caixas e baús. 

E foi buscar o escadote e depois, claro, precisou de ajudantes.

E desencantou pais-natais de que se lembrava de, quando era pequena, ver na nossa outra casa, bonecada de que eu já nem me lembrava. 

Mas ela estava feliz pois o rever estes enfeites despertou nela uma certa nostalgia. 

E contou a toda a gente, inclusivamente por telefonema, que tinha descoberto os pais-natais da outra casa, e adorou também encontrar as bolas grandes que ultimamente não tinham saído à cena.

E agora há bolas numa árvore, fitas noutras, uma coroa natalícia num portão e um laço no outro. E há de tudo um pouco e a casa está alegre e festiva, com luzinhas que são uma graça.

E para o jantar anunciou que ia fazer cebola caramelizada para pôr por cima dos hambúrgueres e, sozinha, cortou cebola, muniu-se de ingredientes e fez o que eu não sabia que se fazia assim: com manteiga, açúcar mascavado, vinagre balsâmico. E ficou espetacular. E ajudou a rechear os hambúrgueres feitos à mão com queijo da ilha ralado. Isto com o cão a chatear e a ter que ser posto fora da cozinha.

E depois de ter tomado banho, pediu para lhe secar o cabelo, coisa que faço de gosto e que sempre acorda em mim o gosto de ser cabeleireira.

Os rapazes estiveram mais sossegados, a guardarem-se para atacar à hora das refeições.

Agora já dormem pois amanhã dois deles têm programa bem cedo. E ao almoço já cá estão de volta, desta vez também com os pais. 

E se agora conto isto é porque esta é a minha realidade, diametralmente oposta à de Jenny Jackson. 

Esta mulher já apareceu noutros vídeos desta série e sempre me espanto com a sua franqueza, com a sua incrível humildade e, ao mesmo tempo, orgulho e dignidade. Vive sozinha. Habitou-se a viver sozinha. Gosta de viver assim. Sente-se independente. Mas, ao ficar com muitas dores nas costas, agora que a idade já avançou um pouco mais, sentiu que precisava de ajuda. A forma como ela fala disso, tão sincera, tão espontânea, é tocante.

O vídeo é, em minha opinião um testemunho fantástico, e talvez nos ajude a perceber como podemos ajudar os que estão sozinhos e têm receio de perder a sua independência (ou a sua dignidade) caso peçam ajuda.

Está legendado de origem em português pelo que se vê (e ouve) lindamente.

I OWE you my LIFE

There comes a moment in every life when the weight we carry feels too great to bear alone. In these moments, a choice appears: to keep struggling in silence or to open ourselves to the strength and kindness of others.

This story is about that choice — a journey of discovering the beauty in being vulnerable, and in finding that this simple act can transform not just ourselves but those who stand ready to help.

It’s not easy to let go of the walls we build to protect our independence, but when we do, something remarkable happens. Bonds, delicate yet enduring, can be forged; a quiet, gentle exchange of giving and receiving becomes a shared act of humanity, binding us ever closer to one another and reminding us that we are not alone.

Featuring Jenny Jackson.

Filmed in Hermanus, South Africa.


This is the fifth film that we have made together with Jenny.  If you've missed the others, you can see them here:

domingo, novembro 17, 2024

A felicidade dos bons momentos

 

Hoje vou ser bem minimalista. Saí de casa cedo e cheguei tarde. Antes de sair, aperaltei-me cuidadosamente pelo que, como é bom de ver, tive que me levantar com tempo para tal. Agora estou um pouco exausta, embora bem feliz.

Tive um dia muito bom, fantástico, cheio de abraços e beijinhos, cheio de sorrisos, ternura e alegria. 

Já comecei a receber fotografias e é engraçado ver como todos estão felizes. Ao longo de horas, o que se vê é gente a conversar e a sorrir. 

Agora, não sei se foi de alguma coisa que comi no belo repasto ou se é de outra coisa qualquer, estou com uma afta, dói-me a língua aqui de lado. Além disso, e vocês desculpem-me a falta de maneiras, não faço outra coisa senão bocejar...

Mas como me custa que aqui tenham vindo e saiam de mãos a abanar, sem nada que se aproveite, partilho o vídeo novo da série Reflections of Life, de que gosto muito. Sou sincera: apenas o fiz salteadamente. Amanhã vejo o resto. Como acredito que deve ser interessante (embora, pelo que leio no texto de apresentação, fale de momentos menos bons), aqui está:

Beauty in the ordinary

Trigger Warning - This film contains reference to suicide, which may be triggering for some viewers.  If you have been affected by a similar issue and you need someone to talk to, please reach out to an organisation or individual near you for help.  Take care.

Even in life’s most challenging moments, beauty quietly waits to offer us comfort. In times of pain or loss, noticing the small things around us — the warmth of sunlight, the comfort of a friend — can remind us of life’s gentle grace. These seemingly ordinary experiences, so easily overlooked, become subtle guides back toward hope and healing.

Resilience doesn’t mean ignoring hardship; it means facing it with courage, allowing ourselves time to process and grow. Gratitude can be a lifeline, a way to hold onto the blessings that remain, no matter how difficult things may seem. Though the journey may be marked by grief, embracing the beauty in each day can help us move forward. In this way, the smallest moments of light can offer strength when darkness surrounds us.

Featuring Doreen Gail Hemp.


Desejo-vos um bom dia de domingo

domingo, setembro 22, 2024

Quais as diferenças entre António Mexia e Theo du Plessis?
Certamente mais do que os cerca de seis milhões que o primeiro terá 'escondido' em off shores... diria mesmo que todo um mundo...

 

Largar tudo e optar por uma vida minimalista em que todos os pertences pesam cerca de nove quilos e cabem numa mochila, trabalhar em regime de voluntariado em jardins em troca de um lugar para dormir, não é para qualquer um. É o próprio Theo que reconhece que, se tivesse filhos, certamente não teria enveredado por uma vida assim, desligada da posse de bens materiais, vivendo em comunhão com a natureza.

Fala de forma tranquila, parece em paz consigo próprio e com a vida que leva e com o que o rodeia.

Quem passa por uma situação como tenho passado recentemente, tendo que me desfazer do que os meus pais laboriosamente juntaram durante toda a vida, os meus filhos pouco querendo, eu não tendo onde guardar mais coisas, e, forçosamente, tendo que dar tudo (ou quase tudo) a quem quisesse e precisasse, percebe que o júbilo que vem da posse é efémero e, na verdade, destituído de sentido. 

No meu caso, poderia ter optado por vender tudo o que não tinha destino dentro da família. Meio mundo me recomendou. Mas não quis fazê-lo. Preferi dar. Muitas pessoas pobres foram lá e escolheram o que quiseram. Ficaram felizes como se lhes tivesse saído a sorte grande. Mobílias, louças, roupas, bibelots. Pessoas que dormiam em camas articuladas metálicas e, de repente, têm uma mobília de quarto, bons lençóis, bons cobertores, boas colchas. Outras saíram felizes com tachos de inox de boa qualidade. Jarras e molduras. Tantas coisas. Claro que se me parte o coração. Claro. Claro. Custa-me muito. Mas, não tendo nós onde colocar as coisas, penso que dar a quem precisa é a solução mais digna. Penso que as pessoas devem sentir-se orgulhosas por terem coisas tão boas e imagino-as a dizerem que são coisas da casa da Professora, coisas que a filha resolveu dar.

Mesmo aquilo que trouxe aqui para casa, por serem coisas especiais, com significado muito específico, por não ter onde colocar, acabei por deixar na garagem. E refiro-me a dois cadeirões, uma escrivaniha, um louceiro, um móvel pequeno. Já antes tinha trazido colchas e toalhas de renda e coisas assim. 

Agora foi tudo o resto. 

Claro que me custa que coisas boas, de que eles tanto gostavam, acabem na minha garagem, sendo que, de certeza, não vou dar-lhes uso. A esperança que tenho é que, daqui por uns anos, quando os meus netos tiverem as suas casas, venham cá abastecer-se. Mas quererão eles móveis deste género? O meu marido diz que não e aborrece-se comigo, diz que trazer esta meia dúzia de coisas é apenas aumentar o problema que estamos a deixar para os nossos filhos um dia que tenham que ser eles a dar destino às nossas coisas.

Compreendo. Mas toda a nossa vida foi formatada para 'termos' coisas. Mas, pensando bem, na realidade, parece inteligente ter o mínimo de coisas, não deixar tralha e encargos para os nossos descendentes.

Não sei se António Mexia, sempre tão blasé, sempre tão cheio de si próprio (embora fingindo que não), é mais feliz que Theo du Plessis. Tenho muitas dúvidas.

Partilho o vídeo no qual este último mostra como é a sua vida. Penso que é um vídeo muito sereno, muito agradável de ver. Está traduzido.

Freedom of Less: One Man's Minimalist Journey

Choosing a different path in life, one that breaks away from the norm, can often feel lonely. The pressure to conform is constant, with those around you eager to pull you back to the familiar and the comfortable. So to walk the path that is truly your own, you must first connect with who you are at the deepest level — your emotions, your desires, and what truly drives you. This journey requires stepping away from what society says you should be, and instead discovering your truth for yourself.  In the end, life is about making deliberate choices, setting your own pace, and defining your own purpose with each step forward. This film is a reflection on the courage it takes to follow that unique, authentic path, even when the world encourages you to turn back.

Back in 2021 we shared a story featuring Theo, called "Being Simply Beautiful".  It has received almost 2 million views to date, and comments continue to pour in, sharing appreciation for this man and his journey.  We've also received many questions about his personal situation and how he sustains his chosen lifestyle.

We recently heard that Theo was building a food garden on a farm near where we live. So we decided to use the opportunity to revisit with him to bring you this follow up film, answering some of the many questions that we have received. 


Protagonista:  Theo du Plessis. 
Filmado em Swellendam, South Africa.

domingo, julho 28, 2024

A beleza da rendição

 

Por estes dias, por estas bandas. têm havido muitas festas ou encontros. As ruas enchem-se de carros e vemos os donos das casas virem à porta cumprimentar os que chegam. Hoje, numa das casas aqui em frente, todos os que chegavam vinham carregados. Não sei se seria picnic, daqueles em que cada visitante traz comida, o que é muito prático. Vi isto pois, quando ainda estávamos só nós dois em casa e eu a ler no cadeirão junto à janela, o cãobeludo estava num desatino, só a ladrar. Espreitei para ver que irritação era a dele. Quando vê movimento aqui na rua, em especial perto de nós, fica logo em modo de alerta. 

Hoje soube de um caso em que, porque se juntaram cerca de oitenta pessoas numa casa aqui perto, foi pedido a cada família que trouxesse mesa e cadeiras, daquelas desmontáveis de jardim, e uma toalha branca. Não tinha pensado nisso mas, na realidade, é ter sentido prático.

Também soube que contratam sempre serviços de catering, e que entregam tudo 'quentinho'. Um amigo meu também só funciona assim e, no caso deles, não apenas contrata o fornecimento de comida como contrata louça, talheres, mesas de apoio e cadeiras. E fica lá pessoal para ir recolhendo a louça e, no fim, levam tudo e ele fica com a casa arrumada. E sem trabalho nenhum.

Eu não consigo. Neste capítulo ainda sou completamente old school que é como quem diz, bota-de-elástico. Faço tudo (com alguma ajuda do meu marido). Ainda hoje comprei quilos de carne no talho e viemos do supermercado carregados com três grandes sacos. Como este domingo vai ser casa cheia e duplo festejo, já aqui estou a programar-me para, mal me levantar, pôr logo isto ao lume e mais aquilo e mais o outro e começar a preparar as saladas e mais a de frutas e arranjar a carne e trinta por uma linha. 

Há pouco, quando voltámos a ficar só os dois, saímos para fazermos uma caminhada nocturna com o nosso cão de guarda. Por aqui, há muito mais vida nas casas no período de férias ou de fim de semanas. 

Por exemplo, a casa de um conhecido actor hoje estava particularmente animada. Dezenas de carros à frente da casa dele e da dos vizinhos. Só de passar ao lado sentia-se o perfume de gente jovem, bronzeada e bem tratada. E, lá dentro, uma animação. Música, risos, conversa, muitas, muitas vozes, muito movimento. O jardim todo iluminado, muito bonito. Antes das redes sociais, quando ainda havia paparazzis, festas estivais assim deviam ser pitéu a não perder. Agora já não faz sentido pois o mais provável é que muitos dos presentes publiquem fotografias e façam a sua própria divulgação.

Quero ainda falar de outra coisa, uma que não tem nada a ver com isto. Estávamos num sítio a conversar com umas conhecidas. Nisto, vimos o nosso cão, agachado no chão, a olhar fixamente para qualquer coisa mais à sua frente. Eis senão quando uma delas viu que era um passarinho ultra bebé. Claro que foi um castigo para conseguir resgatar o passarinho pois a nossa fera já estava a achar que aquilo era coisa sua.

Mas, então, uma das nossas conhecidas pegou no passarinho com todo o cuidado e pôs-se a ver de onde ele tinha caído. No entanto, na árvore por cima, um chilreio aflito, ansioso. 'É a mãe', disse ela. E, como não se tivesse descoberto o ninho, uma delas foi arranjar uma caixa pequena de cartão e conseguiu prender a caixa entre ramos para que a mãe lá fosse buscá-lo ou alimentá-lo. Fiquei comovida, rendida. As pessoas que têm cuidado e amor aos animais são certamente boas pessoas.

E hoje pouco mais tenho para dizer.

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Mas tenho aqui um vídeo que me diz muito, um tema de que antes fugia a sete pés e sobre o qual agora finalmente começo a perceber que essa atitude é um disparate. Espero que o considerem tão interessante quanto eu o achei.

Beauty of Surrender

The one unifying and undeniable fact of life is that we will all experience loss - the death of loved ones, the end of relationships, the shattering of dreams. In a society that so often tells us to ‘stay positive’ and ‘move on’, it is easy to view grief as something shameful. But what if, instead of a weakness to be avoided or a burden to be carried, embracing grief is actually a sacred invitation to heal, to grow, and to transform? 

When we have the courage to feel our grief, to surrender to its depths, something miraculous happens. We begin to heal. We reconnect with our own soul, with the love and support of those around us. We find meaning in our losses, discovering that our pain is fertile soil for new growth.

So let’s not be afraid of grief. It is a fierce and loving teacher, a guide to our deepest self. Embrace it, learn from it. As the Persian poet Rumi recommends, let it crack our hearts wide open. That’s how the light of love gets in. On the other side lies a life of greater meaning and connection.

Desejo-vos um belo dia de domingo

domingo, março 10, 2024

Dia de não-reflexão... Antes, dia de sentimentos profundos

 

Dia efectivamente mais calmo. E muito bom. Almoçámos juntos num restaurante familiar, muito agradável, com comidinha boa. Comi um prato de que gosto imenso e que já não papava há que tempos: pescadinhas fritas de rabo na boca com arroz de tomate. Que bem me soube. 

Depois fizemos um pequeno passeio a pé que teve que ser encurtado pois desatou  a chover e... imagine-se: tínhamo-nos todos esquecido dos chapéus de chuva no restaurante. Portanto, voltámos lá e seguimos para casa do meu filho.

Os rapazes jogaram futebol na PlayStation e depois futebol a sério no corredor com uma bola mole (sendo que, aqui, já não foram só os rapazes pequenos que se digladiaram com o esférico como pretexto). Entretanto, a minha filha tinha ido comprar cenas com a sobrinha que, quando chegou, vinha radiante: um gloss com sabor a cereja, um gloss que refresca e faz efeito de plump up (ou lá como se chama) nos lábios e, ainda, um rímel transparente. 

E ainda houve lanche: a minha filha tinha levado uns biscoitos e a minha nora fez um delicioso bolo de laranja.

E, da horta, ainda trouxemos couves e brócolos que este domingo já marcharão com bacalhau com batatas. 

Portanto, uma tarde daquelas de que eu estava completamente a precisar. Cheguei a casa muito retemperada, mais leve, a cabeça mais descansada. E a caminhada feita depois, com o dog, ao frio e à chuva, só fez ainda melhor. 

Não reflecti nada a nível de eleições pois a minha decisão está tomada ab initio. Só espero é que a malta vá votar e, já agora, que vote com a cabeça e não com os pés.

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Entretanto, enquanto vejo a votação para o Festival da Canção (em que a Filomena Cautela ou está grávida ou está atrapalhada dos intestinos pois não tira a mão da barriga), vou partilhar um vídeo que vi há pouco e que me agradou bastante. Calma, tranquilidade, amor à natureza.

Feeling deeply

That’s what the world tells us. There's been a movement to watch our thoughts and feelings, making sure that we're positive at all times. We receive messages that we must shift these ‘bad’ feelings and find better ones. But when we do this, we close down and shut off parts of ourselves, suppressing the fullness of our emotions. To feel whole and be whole, we must honour all of it - good and bad.  All emotions are beautiful and create a fullness and wholeness in our experience.  

They are powerful forces that our bodies can use as fuel for action and healing. Our thoughts create reality, not the other way around. So when our reality doesn't look the way we want it to and brings up emotions that are unpleasant to us, that is the message we are being given to start building a bridge between what is and what can be. 

Taking time to be aware of our reactions, thoughts and emotions will bring us into a space of clarity and balance where we can make informed decisions guided and supported by our soul... decisions that will usher in release and healing for ourselves and all of life around us.

Featuring Phoebe Barnard (www.phoebebarnard.com)

Filmed in Mount Vernon, Washington State, USA.

The poem read at the start of this film is called 'The Peace of Wild Things' - by Wendell Berry.


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Um belo dia de domingo

Saúde. Boa sorte. Paz.

terça-feira, janeiro 16, 2024

Love myself

 

Levei na cabeça por ter escrito o que escrevi ontem e não só por isso mas porque eu própria penso que não posso estar sempre a deixar-me afogar em preocupações e tristezas, decidi que hoje ia ser diferente.

Mas a minha cabeça deve mesmo andar perturbada pois por mais que procure parece que dentro dela pouco encontro. Quero arranjar outro assunto mas sinto-me a patinar em seco.

Ao longo do dia vou espreitando as brincadeiras e as piadas que os meus amigos partilham no grupo. Há algum tempo que não participo. Mas, como eu, muitos dos que antes eram muito activos e tinham acesas discussões ou palpitantes conversas parecem ter-se acalmado ou passado para os bastidores. Mas tenho uma certa pena por não participar no próximo encontro, especialmente porque uma grande amiga que não participou no anterior desta vez vai estar lá e gostaria de pôr a conversa com ela em dia. Mas, pronto, não vale a pena lamentar. Não vou porque não quero ir. Sei que não ia ser boa companhia. Irei ao seguinte. 

Curiosamente, parece que agora das três pessoas com quem tenho mais afinidade, com duas delas antes não tinha nenhuma, uma porque nem dava pela sua existência e outro porque, vá lá saber porquê, embirrava à brava com ele. 

Mas agora gostava de estar com aquela que era sólida amiga. O marido correu mundo, dada a sua actividade. Ela, porque a sua profissão a obrigava a estar (é médica), ficava em casa enquanto ele andava por fora. Construíram a sua casa numa zona de campo, embora perto da cidade. E adoram a casa e o lugar. Muito ligado à cultura, com prémios e medalhas de mérito, dir-se-ia que ele vive num mundo que pouco tem a ver com o mundo dela (e vice-versa). E, no entanto, desde que os conheço, são parceiros de vida. Ao telefone, achei graça quando ela me disse: 'sempre tive a vida que quis, sou feliz'. E não tem telemóvel. Se calhar também não vê televisão. A minha mãe via-a sempre que ia ao centro de saúde e falava-lhe de mim como a mim me falava dela. Dizia-me que ela tinha um ar um pouco alternativo. Acredito, nunca foi de modas, nunca quis saber das opiniões alheias. 

Não sei como me veem a mim. Devo ser a única que trabalhou toda a vida em contexto empresarial e isso, do que vejo, desperta alguma curiosidade. As minhas amigas são maioritariamente professoras ou médicas. Dos homens, destacam-se também os médicos, muitos, alguns engenheiros, poucos advogados. Aquele que curiosamente parece ter uma vida mais excitante é aquele que, quando éramos miúdos, era dos mais neutros. Não só tem uma profissão incomum, direi extraordinária e com mérito, que o leva a vários países como consegue conciliá-la com os seus hobbies que são também inacreditáveis. Manda-nos vídeos fantásticos dos lugares mais recônditos do mundo. E talvez seja quem também tem a casa mais extraordinária, uma casa com muita mão dele.

Desejo ter mais disponibilidade mental para voltar mais ao convívio com eles. 

E há pouco a minha filha enviou-me uma imagem do comboio de luxo que vai percorrer a Itália, dizendo que temos que nos organizar para irmos. E eu fiquei com vontade, sim. 

E hoje, ao retirar as etiquetas ao que comprei, fiquei com vontade que venha o bom tempo para poder largar os casacos, para vestir blusas leves e coloridas e enfeitar-me com brincos e colares espaventosos, bem coloridos.

E um dia destes vou pegar numa tela e vou pôr-me a pintar a ver o que sai. Estou curiosa.

E a ver se o tempo melhora. Apetece-me passear, ir ver exposições, laurear. Mas agora, para além de tudo o que se passa e que me deixa apeada e, reconheço, completamente 'mongas', está sempre cinzento, tudo húmido, uma coisa meio deprimente. A chuva faz muita falta mas era bom que houvesse pelo menos um dia de sol. Sinto falta do sol e da alegria que ele traz.

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Como estive para aqui a escrever mas na verdade sem muito para dizer, deixem que partilhe convosco mais um daqueles vídeos que gosto de ver, que me põe bem disposta. Tem legendagem em português.

Love myself

In the quiet corners of our minds, there's a voice that tends to undermine and sow doubt - the inner critic. The negative one. The one who preys on our insecurities. Confirms our self doubts and attacks our confidence.  It might sound like, 'you should', 'why didn’t you?', or 'what’s wrong with you?'

Recognising this internal dialogue is important because it so often shapes our actions and decisions. When we're too hard on ourselves, it messes with our confidence and blocks our creativity. 

It's essential to name it, acknowledge its influence, and most importantly, not let it take the reins of our lives. Instead of allowing self-doubt to dictate our choices, we should strive to foster self-acceptance. By doing so, we empower ourselves to break free from the grip of the inner critic and embrace our authenticity.  

Embracing our imperfections and celebrating our unique qualities empowers us to step into the fullness of who we are meant to be. And it brings with it a profound sense of inner peace, enabling us to navigate life's challenges with confidence and grace.

Filmed in Hermanus, South Africa.

Featuring Catherine Brennon

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Um dia bom

Saúde. Alegria. Paz.

terça-feira, janeiro 09, 2024

A beleza de viver

 


Claro que o dia foi pessimamente escolhido. Chuva e um impossível frio antártico, dentro e fora de casa. 

Mas, nas actuais circunstâncias -- antes, antevendo o que estava por vir, depois, os exames e consultas, depois as idas aos hospital e, em cima disso, sempre temendo que alguma coisa aconteça --, já não íamos ao campo talvez há um mês. Tempo demais.

Como a minha mãe felizmente está francamente melhor e esta segunda-feira a minha filha lá ia, resolvemos tirar, nós os dois, o dia de folga e, depois da visita no domingo, seguimos para o campo.

Chegámos de noite. Não vos digo nem vos conto... Um gelo. Mal abrimos a porta sentimos logo: parecia que estávamos a entrar numa câmara frigorífica. A casa gelada, gelada, gelada. 

Ainda por cima, como há algum tempo, creio que no verão, estiveram a colocar tubagem nova na salamandra, agora, ao acendê-la, desatou a sair uma fumarada. Portanto, noite gelada, tivemos que abrir as portas para limpar o ar. Ou seja, mais frio entrou.

Afinal, hoje, de dia, o meu marido esteve a inspeccionar a situação, voltou a colocar lenha e a deitar-lhe fogo e percebeu o que se passava. Quem lá esteve, instalou um registo no tubo. Pelo menos foi o nome que ele deu a uma coisinha que roda que, se bem percebi, ou deixa ou não sair o fumo. Portanto, rodou aquilo e imediatamente o fumo deixou de sair e a sala ficou quentinha. 

Só que hoje, para além do gelo cá fora, choveu todo o dia. Portanto, não esteve agradável. Se fosse para estarmos mais dias, ao segundo ou terceiro dia já a casa se teria climatizado e já se estaria bem. Além disso parece que esta terça-feira já nem vai chover. Mas querendo vir esta segunda-feira, mal deu para usufruir. Chegámos no domingo à noite e saímos esta segunda, por volta das seis e meia. Não deu para nada. Ou melhor, para quase nada. Quase.

É que, seja como for, vá lá eu saber porquê, tal como sempre acontece quando lá estou, dormi que me fartei. E só isso já é bom. E dormi sem acordar a meio, sem sonhos maus. Dormi que foi um regalo. Acordei descansada.

E ainda consegui dar uma esticadinha pelo campo. De sombrinha aberta, com frio. Mas que se lixem as condições atmosféricas adversas quando se está in heaven.

A terra está verde, atapetada de musgo, há zonas cobertas de etéreos líquenes, o feto que nasce todos os anos de sob uma pedra está viçoso, pujante de vida, um tronco caído de uma pequena árvore, descarnado, parece uma espada esperando o momento de ser garbosamente empunhada, há cogumelos carnudos, húmidos, de um rubro antigo, e encontrei um, imagine-se, lilás, irreal. 

Fascino-me. 

Não preciso afastar-me da minha casa para descobrir maravilhas do outro do mundo.

E depois confirma-se o milagre pelo qual eu tanto esperava: os esquilos voltaram. Sob alguns pinheiros voltaram a aparecer as pinhas roídas. Que alegria. Espero que nunca mais tenhamos que fazer alguma coisa que os assuste e afugente. Gosto de sabê-los por lá, confiantes, livres, como se aquele fosse o seu heaven.


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Agora que tenho estado cara a cara com os mistérios da finitude da vida, com a fragilidade e, ao mesmo tempo, a força dos fios que unem os corpos à vida, gostei imenso de ver o vídeo que abaixo partilho. Também eu me tenho interrogado sobre muitas coisas e me tenho imposto a necessidade de degustar com prazer os pequenos prazeres: olhar o céu, deixar-me estar a ver o voo de um pássaro, encantar-me com a perfeição de uma flor efémera e campestre, contemplar os muitos tons de verde, ouvir uma música de olhos fechados, pensar naqueles que mais amo, sentir e agradecer a paz à minha volta.

The beauty of living

Wrinkles, lines, scars - there are many ways that time leaves its mark on our bodies.  Yet mainstream culture dreads getting older - we are urged to fight the ageing process, and many feel pressure to lie about their age.  But as Betty Friedan famously said: "Ageing is not 'lost youth' but a new stage of opportunity and strength."  

With age can come confidence, and freedom to realize who we really are.  As we age, we grow into a deeper kind of beauty, one which works its way from the inside out. It’s a more authentic beauty because it radiates from within.  So let’s celebrate lives well lived. And feel lucky to wake each morning to appreciate what the new day has to offer.

Filmed in McGregor, South Africa. 

Featuring Annie Norgarb.


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Um dia bom
Saúde. Boa sorte. Paz.

domingo, dezembro 10, 2023

O conforto e o aconchego de ter a família à mesa
(e junto ao coração)

 

Não vou falar do que me preocupa em permanência pois compreendo que não me faz bem nem deve ser agradável de ler. Aliás, já tenho a família inteira a querer despachar-me para ajuda psicoterapêutica. Estão fartos de me aturar e compreendo-os. Mas, pelo menos por enquanto, não creio que já seja caso disso. Tenho é que interiorizar que o que há a fazer extravasa as minhas capacidades, já não está nas minhas mãos. Tenho, sempre, por natureza, vontade de encontrar soluções para todos os problemas. E, neste caso, desde há algum tempo que me sinto completamente impotente. E isso atormenta-me um bocado. Estive a falar com o médico e ele foi muito claro. E, claro, não me deu novidade nenhuma. Aliás, ele fez questão de dizer que não estava a dar-me novidade pois antes de lá entrar já havia os problemas que agora tem. Percebo-o, não quer que haja qualquer hipótese de eu poder dizer que adquiriu aqueles problemas lá. Sei muito bem que não. Aliás, quando, antes de ir, nos perguntou porque é que ela tinha decidido ir para lá, eu esclareci invocando os factos como eles são e com os quais ela concordou. Pede-me ele que eu confie que está a ser feito tudo o que há a fazer, todos os cuidados estão a ser prestados, todos, tudo. Sempre que lá vou e sempre que falo com a equipa clínica constato isso. 

Mas, enfim, disse que não ia falar mais do mesmo e, portanto, mudo de assunto (antes que me apareça aqui em casa a brigada da camisa de forças que, do que hoje lhes ouvi, parece que já faltou mais).

Direi que, à parte essa preocupação que me traz com o coração apertado, o dia foi muito bom. Todos cá em casa, mesa cheia. Todos a conversarem, rindo, comendo. 

Depois uns jogaram paintball no campo aqui perto, outros jogaram badminton, outros ficaram a ver televisão. 

Depois, mudança de cenário e, aí, houve um renhido jogo de basketball, uma hora no duro, com todos os jogadores a acabarem encharcados. 

O mais novo, por sua vez, jogou futebol com um amigo que encontrou no parque. E as meninas mais crescidas e o casal mais idoso ficaram a observar.


Não contei que, pelo meio, o mais novo subiu à árvore e gostou de lá estar, menino mais fofo, e pediu para alguém lá fazer uma casinha.

E apanharam-se cogumelos a ver se o dog não tem a tentação de os provar (e não sabemos se são pacíficos). E eu ainda andei a fotografar os passarinhos que dançam na romãzeira, agora desprovida de folhas.


E, à falta de melhor assunto, vou contar o que fiz para o almoço.

Entrada: salada de salmão

Num tabuleiro grande coloquei alface iceberg aos bocadinhos, cenoura ralada, abacate aos bocadinhos, bolinhas de mozzarela (bastantes), salmão fumado. Temperei com azeite, orégãos e um pouco do caldo da mozzarela.

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Prato principal: arroz de carnes

Numa panelão, alourei duas cebolas (das maiores que encontrei) aos bocadinhos, juntei dentes de alho e louro. Depois juntei carne de vaca aos bocadinhos (daquelas que se vendem para jardineira) e moelas. Juntei uma embalagem de sopa portuguesa (couve lombarda, alho francês, cenoura), um pouco de vinho branco e sal. Passada talvez uma meia hora ou um pouco mais juntei coxas de frango do campo, rojões de porco e entremeada, dois tomates maduros e salsa. Juntei mais vinho branco e um pouco, muito pouco, de pimentão doce. Estufou até as carnes estarem bem macias, tendo juntado, entretanto, mais água.

Depois retirei as carnes, desossei, cortei. 

Num tacho grande coloquei arroz basmati e o dobro da quantidade de arroz em caldo de cozinhar as carnes. Cozinhou até estar apenas com um pouco de líquido.

Liguei o forno para estar bem quente pouco depois.

Num pirex gigante juntei o arroz, misturei as carnes desossadas e cortadas. Por cima, polvilhei com bacon em mini-cubos e enfeitei com rodelas de chouriço de carne. 

Foi ao forno até o arroz ficar mais sequinho e até o bacon e o chouriço estarem tostadinhos e brilhantes.

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Sobremesa: salada de frutas com iogurte e gelatina

Numa grande taça de vidro (aliás, em duas) coloquei maçãs aos cubinhos, dióspiros aos cubinhos, uvas brancas e uvas pretas sem grainha. Misturei em cada taça um iogurte grego de mirtilo e gelatinas (de compra) de morango. Misturei. Por cima coloquei amoras, framboesas e mirtilos.

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E ainda...

No fim, apetecia-lhes qualquer coisa mais doce. Não havia. Por isso, foram ao congelador e acabaram com os gelados. 

(Ainda bem pois, por acaso, estava mesmo a precisar de mais espaço naquela gaveta).

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Entretanto, agora vi este vídeo da Reflections of Life (ex-Green Renaissance

que me trouxe serenidade e paz. 

Aqui está, na esperança de que também gostem.

SHE LET IT ALL BE

Nos cantos silenciosos das nossas mentes, há uma voz que tende a minar e semear dúvidas: o crítico interior. O negativo. Aquele que ataca as nossas inseguranças. Confirma as nossas dúvidas e ataca a nossa confiança. Pode soar como 'você deveria', 'porque não fez isso?' ou 'o que há de errado consigo?'

Reconhecer este diálogo interno é importante porque muitas vezes molda as nossas ações e decisões. Quando somos muito duros conosco mesmos, isso prejudica a nossa confiança e bloqueia a nossa criatividade.

É essencial nomeá-lo, reconhecer a sua influência e, o mais importante, não deixá-lo tomar as rédeas das nossas vidas. Em vez de permitir que a dúvida dite as nossas escolhas, devemos esforçar-nos por promover a auto-aceitação. Ao fazer isso, capacitamos-nos  para nos libertarmos das garras da crítica interior e abraçarmos a nossa autenticidade.

Abraçar as nossas imperfeições e celebrar as nossas qualidades únicas nos capacita a entrar na plenitude de quem devemos ser. E traz consigo uma profunda sensação de paz interior, permitindo-nos enfrentar os desafios da vida com confiança e graça.

Filmado em Hermanus, África do Sul.

Com Catherine Brennon


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Desejo-vos um bom dia de domingo

Saúde. Força. Paz.

domingo, setembro 17, 2023

Simplicidade, tranquilidade

 

As terras que estavam há poucos dias cobertas por ervas e arbustos ressequidos foram todas limpas. Todas. Ficou a terra à vista. No entanto, não completamente: à medida que o mato era cortado, as máquinas trituravam-no e ficava no sítio, sem se dar por ele. 

Os pinheiros foram desbastados até grande altura. Os ramos grossos foram retirados e cortados mas as ramagens e os ramos mais finos foram também despedaçados em pequenos bocados que ficaram também nos locais. Sobre aquela madeira estilhaçada, disse-nos o chefe da brigada desmatadora que, com a chuva, aquilo apodreceria e tornaria a terra mais fértil.

A verdade é que, poucos dias volvidos, após estas primeiras chuvitas, a terra está a cobrir-se de líquenes e de musgos. Em muitos sítios o que se vê, de longe, já é uma mancha suave em verde subtil ou em branco-água.

Alguns troncos, como o da azinheira grande, está em parte coberto de macio musgo bem verde.

A alegria que tudo isto me dá é difícil de descrever.

Tenho estado embrenhada na minha recente actividade mas o meu marido tem trabalhado bastante no exterior. Contudo, este sábado pouco rendeu.

De madrugada trovejou bastante e choveu muito. Até depois de almoço o tempo esteve incerto.

Tentei andar de fato de banho e ir caminhar assim mas tive que voltar a casa para vestir um vestido por cima pois a temperatura estava mais baixa.

A comida tem sido simples. A ver se é desta que me decido a fazer dieta. Não sei se já perdi um ou dois quilos. Digo isto pela aparência. Se conseguisse mais um ou dois, seria bom.

De tarde andámos os dois às uvas. São doces.

No canteirinho ao pé da porta rebentaram duas orquídeas selvagens. Mas não sei se são orquídeas ou se são lírios. São cor de rosa muito clarinho, lindas. Fiz fotografias mas estou com preguiça de ir buscá-las.

Por terem sido dias muitos absorventes, agora tenho estado com muito sono.

Há pouco adormeci muito profundamente. Agora estou um pouco sem muita energia. Antes tinha estado a ver o vídeo abaixo. Gostei bastante. A beleza da simplicidade, as palavras breves e sinceras. 

Está legendada em português.

Seguir em frente, tranquilamente

The real treasures in life are not found in the attic or contained in any physical thing.  Our hearts know that real treasures are simply moments, memories and people. 

Yet our thoughts cloud what our hearts see so clearly. Our mind tells us to hold on so that we don’t lose something or miss out on anything - that if we let it go, we won’t have enough - and that if we don’t have enough, we won’t be enough.

But no matter how much money you make or how much you have, you’ll never be more content, healthy, happy or loved. Nothing you own will bring someone back into your life or make someone in your life love you more.

If you want a joyful life that is filled with love and happiness, align your actions with your heart.  When you finally let go, your heart will embrace your real treasures.

Happiness is letting go of what you think your life is supposed to look like and enjoying it for everything that it is.

Filmed in Cape Town, South Africa.

Featuring Gina Niederhumer - https://www.ginaniederhumer.com

Desejo-vos um belo dia de domingo

Saúde. Coisas boas. Paz.

domingo, setembro 10, 2023

Quando paramos, encontramos a paz

 

Penso no protesto de alguns leitores que, de vez em quando, me escrevem, indignados, dizendo que só gosto de escrever sobre momentos felizes. É um facto. Quem queira ler sobre desgraças ou choradinhos pode ter a sorte de me ter acontecido alguma que me deixe tão arrasada que tenha mesmo que aqui desabafar. Mas o mais aconselhável para quem queira, de certeza, encontrar desgraças e dramas é ir até ao site do Correio da Manhã. Aí é um fartote. Tudo o que de tenebroso e cabeludo acontece no mundo está ali descrito. Não escapa nada. 

Aqui é o que se sabe. Se estou aborrecida, apetece-me espantar o aborrecimento, desanuviar, falar de coisas boas. E, se estou bem disposta, nem pensar em falar de coisas que me entristecem.

Claro que, de vez em quando, tenho que ir a terreiro espadeirar contra os maraus que gostam de poluir o espaço comum, sejam eles escorpiões que picam (ou tentam picar) com o seu veneno aqueles que mais temem, seja jokers apalermados que falam sem saber do que falam, sejam despudorados vendedores de banha da cobra, sejam maledicentes papagaios avençados que não sei como não morrem envenenados todos os dias tanto o veneno que destilam. Mas, conseguindo, fujo deles.

Cada vez mais sinto necessidade de me afastar da toxidade de quem não tem coluna vertebral, honestidade e inteligência e de me deslocar até locais de serenidade e paz.

Nem sempre a solução será a evasão física, total. Quem ainda trabalha e tem responsabilidades a assumir, pode ter que se sujeitar a situações complicadas em que haja sofrimento e dor ou, mesmo, humilhação. Nesses casos, há que ter a resistência para aguentar e a esperança de que seja por pouco tempo. Não há mal que sempre dure.

Mas quem possa ter a liberdade de escolher uma vida de tranquilidade, rodeado de generosidade, de alegria e de paz é, sem dúvida, alguém bafejado pela sorte.

O meu dia hoje foi muito bom. Dia de desporto. Só eu não o pratiquei pois o desporto do dia tem muitas regras. Gosto de bater bolas mas acho que não iria conseguir decorar quem faz o serviço, se é em diagonal, se é este ou aquele, se é assim ou assado. Não dá. Além disso, não me fio muito nos meus joelhos quando sujeitos a tratos de polé.

Depois juntámo-nos aqui e a tarde estava uma maravilha e foi uma alegria. Para mim felicidade é isto. Não sonho com idas às Caraíbas, com carros topo de gama, com restaurantes de luxo, com liftings ou tratamentos ultra rejuvenescedores ou com roupas griffe. Nada disso. A gente que habita o meu coração à volta da mesma mesa, uma conversa boa, sorrisos -- é aquilo de que preciso para me sentir feliz.

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Running from pain - And when we stop, we find peace.

We are adept at the avoidance of pain and suffering - we push it away, we pretend it’s not there.  And we keep ourselves busy so that we don’t have time to sit and reflect - when bored, we surf social media - when we feel down, we go shopping or watch TV.  But running keeps us stuck in spiraling patterns of despair and hopelessness.

And while we may not be responsible for causing the pain, we can be responsible for ending it.  And to admit to that and own up to that is a humbling thing to do. You create an opportunity for growth and expansion in your life by taking accountability. You let go of your ego’s dominance over your actions and decisions, and start listening more carefully to that intuitive voice inside.

To run from pain is to run from life itself.  Because by embracing difficulty and the challenges it presents, is how we grow and improve as humans.  So let’s learn to accept it as a part of life.  It's this that will make us whole again.

Filmed in McGregor, South Africa. 

Featuring Sung-Yee (Sy) Tchao.


Desejo-vos um belo dia de domingo
Saúde. Felicidade, Paz.

domingo, julho 16, 2023

Sobre notícias, jornalistas, esquilos, pinhas -- e jardins como almas

 

Continuo a eremitar e não me peçam para me deixar disto. Estou bem demais. 

Vi, de raspão, algumas notícias mas, logo à primeira que vi, a Ana Lourenço, ao dar a notícia, fez um esgar de desprezo pelo que dizia, como se não acreditasse no que dizia. Quando a Informação chega a este ponto, eu não aguento a agonia e fujo a sete pés. 

Noutro canal, tinham noticiado qualquer coisa pois estavam a dar entrada aos comentadores. Os pseudo jornalistas torpedeiam ou deturpam as notícias que dão e, de seguida, como se fossemos incapazes de processar o que eles ajavardadamente noticiaram, aparece uma chusma de gente que vem mastigar para que os espectadores comam a comida já mastigada por aquela gente.

Claro que não são todos os comentadores que são uns zés-ninguéns, uns palermas encartados ou uns chico-espertos. No meio da avalancha, um ou outro são credíveis. O problema é o que é preciso gramar muita porcaria para chegar aos que interessam. E eu não tenho essa paciência.

Estivemos, isso sim, a ver e ouvir na RTP 2, os concertos Ao Largo. Tirando isso, nada.

Em contrapartida, de tarde, nova aparição. Descia o muro, na maior, até que se deteve sobre um murinho. Não se pôs sobre a azinheira mas sob, mas isso, em minha opinião, não desmerece o sagrado da aparição.

Não percebi o que estava a comer mas, sendo ali, presumo que fosse uma bolota. Aliás, vendo a fotografia, concluo que devia mesmo ser uma bolota pois parece que estava a tirar-lhe o chapelinho. Coisa mais fofa.

O que tinha à mão era o telemóvel. Aproximei-me, fotografei-o.

Olhou para mim e rapidamente abalou azinheira acima e já não consegui vê-lo mais.

Voltei a pôr bocadinhos de amêndoa na pedra que está aqui junto à porta da sala. Fiquei de tocaia. Nada. 

Fui caminhar. Depois de uma ou duas voltas fui espreitar a pedra. As amêndoas tinham desaparecido. Mais esperto que eu.

E já vos contei: há pinhas roídas por todo o lado. Ficam como as espinhas de peixe que eu como, roídas até ao tutano.

Presumo que graças a eles e aos pinhões que devem sobrar das pinhas que roem, agora rebentam pinheiros por todo o lado. Não se dá conta. 

Não sei o que pensarão, vocês que me lêem, talvez pensem que exagero, mas eu, perante estas aparições sinto-me verdadeiramente abençoada. Não se admirem, pois, se me acharem cada vez mais beatificada.

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Não tenho alma de jardineira, falta-me a persistência e a minúcia. O ambiente de floresta, ver como crescem as árvores, ver os musgos e os líquenes, os cogumelos, as florzinhas selvagens, tudo isso atrai-me muito mais. E os cheiros, a aragem fresca e perfumada, os caminhos, os rumores, tudo me enche de alegria.

Talvez por isso, me apeteça hoje partilhar o vídeo seguinte que tem a vantagem de ter legendagem em português.

The Constant Gardener

Os humanos são óptimos a fugir da verdade, mas no jardim ninguém não pode esconder-se. Vida e morte, vitalidade e decadência – tudo acontece diante dos nossos olhos.

O jardim é um espaço definido não pela sua fisicalidade, mas pelas emoções que evoca e pelas ligações que provoca. E o acto de jardinagem pode mudar para melhor a maneira como nos relacionamos com o mundo ao nosso redor, dando-nos perspectiva e ensinando-nos lições sobre a vida.

Escolhemos plantar sementes de medo ou amor? Nós fertilizamos a raiva ou a harmonia? Regamos as conexões que temos ou deixamos que morram de sede?

As nossas almas são jardins. Os nossos corações são flores. Eles precisam de ser regados, cuidados, fertilizados e amados. 

Jardinagem feliz!

Filmado em Riebeek West, África do Sul.

Com Corné Pretorius. 


Desejo-vos um belo dia de domingo
Saúde. Alegrias e boa disposição. Paz.

domingo, julho 09, 2023

Paz, amor e boa comida

 

A questão é que onde estou não há televisão por cabo. E pouco vemos o que há. Por exemplo, temos estado a ver a maravilhosa Symphony of sorrows / Cantata no Festival ao Largo. Hoje ainda não vimos notícias. Só ligámos a televisão para ver isto.

Por isso, pode o Marcelo andar por aí a beber Moscatel quente ou fortimel frio ou a fazer o pino de olhos fechados no meio dos Arctic Monkeys ou pode o Prigozhin estar acampado no jardim do Kremlin ou a animar a festa de anos da prima do Putin ou a de despedida de solteiro do Agostinho Costa que eu não sei de nada. A milhas de tudo.

Cingimo-nos ao que importa.

Por exemplo, hoje conhecemos um novo habitante. Um esquilo fofo com a barriguinha e a parte de baixo da pomposa cauda em branquinho felpudo. Trepou a azinheira e ficou a olhar para mim, com um olhar consciente. A observar-me. Depois subiu ainda mais e espreitou-me. A seguir saltou para o cipreste. E deixei de vê-lo.

Coloquei amêndoas num murinho lá ao pé. Passado um bocado, quando fui espreitar, já lá não estavam. Esperto, ele.

De resto, limpezas por dentro e por fora da casa, cozinhados, telefonemas, conversas com o mais animado grupo à superfície da terra, caminhadas e etc. 

Tenho aqui ao meu lado O Anjo Pornográfico à minha espera mas, por mais estranho que a mim própria me possa parecer, ainda não consegui. De cada vez que pego nele, folheio-o e sinto-lhe tamanha suculência que penso que tenho que me reservar toda para a sua leitura, não pode ser coisa que me empreste apenas de quando em vez. Ocorreu-me escrever a biografia de uma amiga e era bom que aprendesse a técnica. Depois de me sentir confortável com o ritmo a imprimir à coisa, tinha que lhe pedir, a ela, que me contasse a sua vida toda, incluindo aquilo que ela não quer que se saiba. Ideias malucas que me ocorrem. 

Mas, ocupações à parte, hoje ainda consegui estar lá fora (e cá dentro também) durante uns bocados, a descansar, a curtir o dolce far niente. E adorei.

Tenho que aprender a não fazer nada sem sentir que estou a ser preguiçosa ou a baldar-me às minhas obrigações. Pode parecer coisa com que se nasce ensinado, não sei, não digo que não, mas desaprendi a vida toda e agora está a custar-me a voltar a isso.

Tirando isso, tenho aqui um vídeo daqueles bem tranquilões de alguém que diz uma coisa na qual me revejo. Não é preciso andar na redundância, a dizer que amo e adoro, basta cozinhar, dar de comer, sentir o prazer de ver os outros à nossa mesa, a comerem o que a gente preparou. Diz ela e eu concordo. Também tem amor de coração pelos bichos, neste caso por gatos, e sofre quando se vão. E gosta de estar entretida com coisas simples, no caso com a pequena olaria. E sorri. Está de bem com a vida. E, portanto, deve ser uma boa companhia.

E, assim sendo, aqui está. O vídeo tem legendas em português.

Peace, Love and Good Food

Quando falamos de gestos de amor, os mais comuns em que pensamos são abraços, beijos ou simplesmente as palavras “amo-te”. Mas nem todos expressam o amor da mesma maneira. E, muitas vezes, preparar uma boa refeição para alguém é um importante gesto de amor.

Cozinhamos com o coração tanto quanto com as mãos, porque quando cozinhamos para outras pessoas, é para deixá-las felizes e satisfeitas. E possivelmente o maior pagamento que você pode receber por seus esforços é ver as pessoas à mesa, saboreando o que você preparou para elas.

Então, da próxima vez que se sentar à mesa, agradeça não apenas por tudo o que foi preparado para si com tempo e cuidado, mas também por aquela pessoa que te ama, que pensou em você a cada mexida da colher, a cada pitada. de sal, com cada colher de chá de óleo. Devemos dedicar um momento para apreciar tudo o que eles fizeram por nós. Eles merecem isso. E gratidão é uma forma de amor também!

Filmado em Singapura.

Apresentando Ruqxana Vasanwala


Um bom dia de domingo

Saúde. Amor e boa comida. Paz.

domingo, junho 25, 2023

Um dia quente e preenchido. Uma vida simples

 

Mais um dia muito preenchido. Nestas alturas do ano, é sempre assim. Juntamo-nos e, sempre que há muita gente miúda e outros não miúdos mas jovens, é uma festa. Quem é mais velho forçosamente rejuvenesce tamanha a injecção de alegria e de animado convívio.

O que posso dizer é que este sábado, in heaven, de manhã apanhei mais orégãos, reguei, arrumei umas cenas e fiz iscas para o almoço.

Não vi esquilos mas as pinhas roídas não param de aumentar. Com este calor, não sei como fazem para beber água. Por isso, pus a banheira que era dos meninos debaixo das azinheiras do jardim zen e enchi-a até acima. Poderão beber água ou brincar às piscinas caso queiram refrescar-se.

Saímos pouco depois de almoço. 

E daí até há pouco, quando chegámos a casa, já tarde, houve visitas à família e foi uma alegria e uma festa, incluindo um ruidoso pólo aquático que foi mais  wrestling aquático do que outra coisa; e ainda passámos por um arraial.

O pobre do animal, com tanto movimento e tanto calor, ao vir para casa já vinha a arrastar-se. 

Agora, finalmente a descansar, o urso cabeludo dorme todo esticado no chão de pedra e encostado a uma parede, certamente para sentir o fresco.

O meu marido, no regresso, vinha a dizer que estava capaz de ir directamente para a cama. Contudo, ainda aqui está pois estamos a ver as notícias sobre a cegada que se passou (ou passa?) na Rússia. É uma macacada tão absurda que mais parece tudo uma rábula dos Monty Python. Como é que uma cambada tão desqualificada (Putin & Prigozhin) pode ter alguma credibilidade? Impossível. Só mesmo gente descerebrada pode arranjar desculpas, para, no fundo, se pôr ao lado desta corja ridícula.

Com sorte, dentro de algum tempo ainda acabam uns com os outros e resolvem uma série de chatices. De qualquer forma, nada daquilo parece fazer qualquer sentido pelo que não acredito em nada do que ouço. Parece-me apenas um primeiro episódio de uma tragicomédia cujo desfecho ainda está por vir.

Mas hoje não me apetece conspurcar este meu espaço com anormalidades e psicopatias.

Vou antes ver o último vídeo da Green Renaissance. É sempre malta muito cool, muito zen, tudo tranquilo, muito despojamento, muita natureza, malta que sorri enquanto fala. 

To live simply

Simplicity is purity. It is facing the true nature of things and embracing it, instead of filling a hole inside you with chaotic activity or an overabundance of stuff. 

Simple, straightforward, meaningful - these words describe freedom, not limitation - intensity, not distraction - a life fully lived, not a life of lack.  A simple life is a deep life.

Filmed in Singapore.

Featuring Christopher Leow.


Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Serenidade. Paz.

segunda-feira, abril 17, 2023

Um domingo feliz

 

A minha mãe, sabendo que quando a maltinha está junta, é para durar, preferiu ficar a descansar temendo ter que enfrentar muitas horas seguidas de confusão. Mas os que veranearam por terras do White Lotus (segunda temporada) e redondezas regressaram no sábado à noite e a turminha que veraneou por outras bandas também tinha o domingo livre. E nós cá estamos sempre de braços abertos para os recebermos.

Por isso, foi com toda a alegria do mundo que cá os tive hoje em casa e os vi a brincar e a rir, todos desfrutando o calor de uma tarde que parecia de férias e verão.

Há pouco, quando aqui me sentei, vi o vídeo abaixo e fiquei a pensar que deve ser doloroso querer estar radiante com o nascimento de um filho e, estranhamente, sentir tristeza, incapacidade de amar e de estar feliz.

Por sorte, não me aconteceu isso. Talvez tenha a ver com a envolvência. Se uma mãe recente se sentir sozinha, sobrecarregada, cansada, acredito que sinta algum desamparo e abandono e talvez isso impeça a fruição do prazer de ter um filho. 

A mim, o mais perto disto que me aconteceu foi quando nasceu o meu filho. A minha filha ainda não tinha três anos e o meu marido estava a trabalhar há pouco tempo numa multinacional, tendo geralmente projectos com prazos apertados e responsabilidades alargadas. Nem havia licença de parentalidade.

O parto do meu filho, tal como o da minha filha, foi com fórceps. Por isso, eu tinha sido cortada e cosida. O meu filho era muito grande e sempre foi especialmente irrequieto. Mesmo na barriga, dava cambalhotas com tamanha força que me deixava incomodada, como se revolvesse todas as minhas vísceras.

Quando nasceu, mexia-se muito, nunca usou chucha, se eu tentava que se habituasse agoniava-se, e mamava sofregamente, engasgando-se. E, depois, de noite, chorava tanto que não me deixava dormir. Eu dava-lhe de mamar de duas em duas horas e, às tantas, estava tão cansada que não sabia se já lhe tinha dado de mamar ou se era isso que tinha que fazer. Por vezes, para ver se ele se calava, punha-o na minha cama mas tanto se mexia e tanto chorava e esperneava que, por vezes, bolsava-se todo, ficando a cama toda molhada e mal cheirosa. O meu marido, cansado que andava, por vezes chegado do norte às tantas da noite, conseguia dormir. Mas eu quase não dormia.

E de dia tinha que tratar dele e da minha filha que, obviamente, requeria todos os cuidados devidos a uma criança que nem três anos tinha e que, para agravar, era super vagarosa a comer. Eu preocupava-me muito com a comida dela, queria que ela comesse tudo o que era de lei e ela precisava de uma hora para comer devagarinho tudo o que estava no prato. E tinha que lhe dar à boca e distrai-la (coisa que hoje reconheço que era um disparate mas, na altura, eu temia que, se ela não comesse tudo aquilo, ficasse subnutrida). Isto com o outro a gritar por todo o lado, sempre com fome, sempre a querer colo e brincadeira.

Quando cheguei da clínica, os meus pais eram para lá ter ficado a ajudar. Mas a minha avó materna teve um problema qualquer de coração e foi internada, Por isso, a minha mãe entendeu que devia ir para junto da mãe. 

E eu, sem quase conseguir dar passo, quase sem me conseguir sentar, com o leite a subir (que é do pior que há), com o peito a encaroçar-se, quase febril, uma menina pequena a chorar porque queria o porta-bebés para a boneca, um bebé recém-nascido que não parava de chorar e que se agoniava com a chupeta, e vendo os meus pais a dizerem que não podiam ficar a ajudar-me, senti-me seriamente desamparada. Hoje o pai tem dias (ou melhor, tem pelo menos um mês) para ajudar nesta fase crítica. Mas, na altura, isso não existia.

Na altura não tínhamos empregada. E na altura ainda não havia fraldas descartáveis. E poucos supermercados havia. Não sei como conseguia ir às compras com o bebé no carrinho e uma menina pela mão, e eu quase sem me conseguir mexer. 

Mas consegui. Fiz das tripas coração, que remédio.

Uma outra vez de que me lembro pois foi mesmo muito má (e de que aqui já falei) foi quando andava a arranjar uns dentes e, para não perturbar muito a minha rotina de ir buscar um e outro e ir com eles para casa (sem carro), pedi para juntar duas ou três sessões, já não me lembro.

O dentista, familiar, desaconselhou. Mas era-me tão difícil ir do trabalho para a Avenida de Roma, de lá para a minha sogra, da minha sogra, com o bebé ao colo e nos transportes públicos, para a escola da minha filha e de lá, com os dois para casa, que lá me fez a vontade.

Anestesia para além da dose, portanto.

A meio do caminho senti-me meio zonza mas não havia telemóveis e não tinha como, na rua, pedir ajuda ao meu marido. Sobretudo, não podia deixar a minha filha à espera. Portanto, com dificuldade, lá consegui ir buscar um e outro e, com ambos, chegar a casa. Mas já ia feita num oito. Agoniada, uma dor de cabeça que não via nada. Pus o bebé na caminha dele e tentei que a minha filha brincasse. E deitei-me pois não me aguentava de pé. Não a descalcei. Então ela andava com os sapatos em cima da cama e eu sentia a cama a encher-se de areia. E foi para dentro da cama do bebé. Eu via aquilo e não conseguia impedir. E ele chorava como se não houvesse amanhã. E eu impotente, incapaz de cuidar deles. De vez em quando ia à casa de banho vomitar e de lá vinha fazendo um tremendo esforço para não desmaiar.

O meu marido chegou tarde e encontrou aquele panorama.

Mas foi um episódio. Foram fases. Apesar das dificuldades e do cansaço, sempre me senti muito feliz com eles. E arranjava maneira de os fotografar, encantada com eles, sentindo-me bem aventurada, abençoada por ser mãe de duas crianças tão amadas, cantava para eles, arranjava maneira de lhes dar atenção, de brincar com eles. 

São agora adultos, bem resolvidos, bonitos, bem dispostos, mãe e pai de família, com filhos felizes, cada vez mais crescidos. E eu, vendo-os assim, vendo a descendência toda reunida, penso que todos os momentos que vivi desde que os comecei a sentir dentro de mim até aos dias de hoje valeram completamente a pena. Tudo valerá sempre a pena. São momentos sempre abençoados e pelos quais me sentirei sempre infinitamente agradecida.

Mas, por ser assim, mais percebo a angústia de quem sente ou sentiu depressão pós-parto. São sofrimentos que deixam marcas para o resto da vida. Ainda por cima, no caso abaixo, ela não sabia que tinha uma depressão pós parto, pensava apenas que era uma mãe desnaturada, indigna de ser mãe. Sofria porque não conseguia estar feliz e estabelecer uma ligação com a bebé e sofria porque se recriminava por isso.

Não sabíamos

[Com legendas em português]

Jenny Jackson fala da sua experiência e da sua conversa com a sua filha


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Pintura de Berthe Morisot

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Alegria. Paz.