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quinta-feira, maio 05, 2016

E o que eu gosto de poemas que me divertem, meio loucos, meio quase não-poemas?
E fotografias malucas?


Bom. Depois de ter estado a trocar ideias para um negócio e já a alinhar um business case com uma possível sócia, a ver se agora penso noutra coisa senão amanhã, quando estiver numa reunião, em vez de estar focada como convém a uma executiva muito alinhada, estou é a pensar em casos práticos para leccionar no curso de Sedução para Desajeitados.

É que não consigo deixar de pensar: acho que poderíamos seguir o método da AESE que é o Método do Caso. 

Por exemplo, casos concretos: 
  • Como é que uma tímida pode conquistar um engatatão. 
  • Como é que uma medrosa pode conquistar um convencido. 
  • Como é que um homem que tende a ser destravado pode conquistar uma beata. 
  • Como é que um mulher insegura pode conquistar um homem ainda mais inseguro. 
  • ...
Bom... matéria não falta, acho que é curso para três anos. Licenciatura à moda de Bolonha. 

Pronto. Adiante.

Tenho que desligar do tema, senão acabo a noite já a vender inscrições. Sinto-me como se tivesse visto A Luz. 


Mudar para poesia, por exemplo. Poesia, resulta sempre. Mas hoje estou com vontade de coisa soft. Tem dias em que ainda suporto as profundidades, profundidades relativas, claro, profundidades disfarçadas de ligeireza. Mas hoje não, hoje tem que ser na base da leviandade, coisa que me leve para a farra, que me faça sentar em volta do poeta, eu e mais uns quantos desatinados como eu, e vá de rir a noite toda. Coisa que a gente olhe uns para os outros e pergunte: Mas isto é poema ou anedota? e logo alguém diga: 'Que é que isso interessa? Toca mas é a rir!'

Vamos lá.


Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
— Respire.

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.


Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…

— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.


Agora um poema sério. Vá lá. 


Difícil ser Funcionário

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar…
Fazer seu nojo meu…

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O Pneumotórax e o Porquinho-da-Índia são de Manuel Bandeira. 
O Difícil ser Funcionário é de João Cabral de Melo Neto.

As fotografias são da autoria do espanhol Chema Madoz
______




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E, se estiverem para aí virados, desçam, por favor, que serão muito bem vindos em Cuba, com Karl & Tony, by Chanel

...

E ainda queria alinhavar dois dedos de prosa a propósito da crítica do António Guerreiro a O Meças de J. Rentes de Carvalho. Ou isso ou qualquer coisa à volta disso. A ver se ainda dá ou se fica para amanhã.


quinta-feira, março 22, 2012

Mulheres que gostam de poesia são perigosas


Música por favor
Berenika Glixman - Bach, Partita Nº4


Podia ter chamado um taxi ou podia ter combinado com alguém que a apanhasse mas apeteceu-lhe ir sozinha, a conduzir. 


À saída de casa pegou numa das clutches Alexander Mcqueen, uma discreta, guardou o baton Allure Coquette, o telemóvel, uma pequena bolsinha com os documentos, os cartões e uma nota de 20 euros, verificou que tinha o espelho, um pente, uns ganchinhos (não fosse, às tantas, querer apanhar o cabelo), lenços. Voltou ainda atrás para dar uma última mirada no grande espelho do hall, ajeitou o cabelo, à última hora ainda pensou que podia estar frio, voltou à grande gaveta das écharpes, escolheu uma finíssima, transparente, de uma leve renda belga, sempre agasalharia alguma coisa se fosse necessário.

Quando lá chegou todo o local estava vedado, seguranças, o costume. Soube-lhe bem estar sozinha, gostava de sentir a admiração quando se debruçavam para pedir a autenticação e a viam sozinha. Deixou o carro para o estacionarem, dirigiu-se ao palácio onde a recepção decorria. Novas barreiras de segurança, tudo muito eficiente, o mestre de cerimónias e as meninas vestidas de preto e auriculares para ajudarem a encaminhar e ela, aparentemente segura, iniciou, então, o seu exercício de cat walking (mas se, por um acaso, alguém lhe medisse a pulsação, verificaria uma ligeira aceleração; ou talvez não, é sempre tão baixa que, mesmo um pouco acelerada, continua a ser baixa, pulsação de corredora de fundo). A menina perguntou se queria deixar o casaquinho mas não quis, teve medo de ter frio.

A escadaria é larga, de mármore, toda de mármore, e desce em suave curva, da esquerda e da direita, confluindo, em baixo, num vasto salão que dá para uma larga varanda que, por sua vez, se debruça sobre frondoso jardim. E há grandes carpetes de Arraiolos, e há enormes candelabros e estátuas de pedra e todo o ambiente era, naquela noite, de festa.

Já lá estava tout le monde e a discrição que estas situações exigem não nos vai permitir referir aqui nomes, cargos. Mas poderemos confirmar a presença de vários empresários portugueses e de um outro país de língua portuguesa, investidores e vários governantes de cá e de lá. E embaixadores e gente das câmaras de comércio e assessores e advogados que fazem a ponte, e alguns que são apenas influentes.

A mulher de olhos cor de esmeralda entrou, então, e pareceu ignorar os olhares que para si se dirigiam. Nestas circunstâncias, para manter as boas graças das outras mulheres, finge não reparar nos olhares dos maridos. De facto, está habituada a lidar com estas situações. Várias figuras avançam na sua direcção, cumprimentos, beija mão, sorrisos, simpatias e ela a todos cumprimenta com um sorriso, ar vagamente superior ou talvez não.

Num rápido tour d'horizon, a mulher avaliou os vestidos das restantes mulheres ali presentes. Algumas riquissimamente vestidas mas, elas próprias, nada de especial, outras com indumentárias vulgares, ou excessivas ou ridículas. Contudo, como um íman, o seu olhar foi logo atraído para uma outra mulher elegante que estava de costas, com um belo vestido de um veludo azul escuro que se lhe colava, sinuoso, às curvas do corpo. Que belo vestido. Ficou ligeiramente aborrecida, ver mulheres assim deixam-na tendencialmente insegura (mas, felizmente, a insegurança dura sempre pouco). Era uma conhecida figura da televisão portuguesa.

De uma das extremidades do vasto salão, nascia a música que embelezava ainda mais todo o ambiente. A mulher, como se não prestasse atenção, pensou que era a Partita nº 4 de Bach - e, interiormente, pensou que a noite só podia vir a ser fantástica. Mas ninguém diria que enquanto era cumprimentada e, depois, levada até ao seu lugar, estava a pensar em Bach.

Ficou em frente de um dos mais influentes governantes do momento e tendo ao lado, à esquerda, um investidor do outro país e, à direita, um outro que lhe foi apresentado como um príncipe árabe há muito radicado no outro país. O registo da mulher era de profissional simpatia, a afabilidade indiferente das recepções de negócios, conversa polida de circunstância, troca de informações desclassificadas, alusões a hipóteses de investimento, rácios ditos como que por acaso, mas tudo com elegante displicência (até porque é feio falar de dinheiro em sociedade) - ninguém diria que, enquanto isso, a mulher pensava que o príncipe era um homem e tanto, parecia feito de bronze, uma pele que parecia macia, um sorriso atento, uns olhos acutilantes. Elegeu-o, logo ali, como o homem da noite. Contudo, dir-se-ia que ainda nem tinha reparado nele.

O governante desfazia-se em sorrisos, em simpatias, uma coisa excessiva. Tinha duas senhoras simpáticas, uma de cada lado, a quem tentava agradar de forma insistente. Enquanto ele estava nisso, e até quase parecia falar com o sotaque delas, a mulher das esmeraldas olhava-o com indisfarçada agonia. Mas, noblesse oblige, sorria-lhe ao de leve quando os olhares se cruzavam. Ele queria também agradar-lhe e o interesse foi subindo à medida que ia vendo o interesse que os dois investidores iam manifestando na mulher. A conversa entre os três, a mulher e os dois investidores, estava animadíssima e o governante queria integrar-se.

Acabou por tirar o casaquinho e, ao fazê-lo, sentiu que os três cavalheiros pararam de conversar, quase pararam, até, de respirar. Ela sentiu que uma das alças descaía muito ligeiramente mas fingiu não reparar. Era um descaiamento muito ao de leve, apenas daria uma suave graça. Pareceria que, a qualquer momento, poderia cair a sério sobre o braço, deixando, nessa altura, talvez, entrever grande parte do seio. Fez de conta que, animada que estava com a conversa, nem tinha dado por isso.

Para que a conversa se mantivesse animada e descontraída a mulher ia levando a conversa para o seu térroir de eleição, o território em que poesia, política, negócios, vinhos, perfumes, música, se uniam num harmonioso bouquet. 

Enquanto isso, quando bebia vinho, pegava gentilmente no pé do cálice, rodava o vinho com gentileza, aspirava discretamente o aroma, degustava-o, depois, com vagar, deixava que o líquido encorpado, frutado, corresse com cuidado ao longo das várias secções gustativas da língua. Era uma apreciadora e via como as mulheres a olhavam com secreta admiração e via, também, o efeito que isso produzia nos cavalheiros. Contudo, por comodidade, fazia de conta que não o percebia.

Referiu então que era dia de poesia, falaram de poetas, curiosamente ambos os investidores gostavam de poesia. Então pediu a um, ao da esquerda, que dissesse um poema e ele, tímido mas querendo agradar, disse um poema de João Cabral de Melo Neto.

  
Morte e Vida Severina, dito por João Cabral de Melo Neto


A mulher ficou admirada, ouviu enternecida.

E então, sorriso insinuante, virou-se para o príncipe de ébano:  'Não me vai dizer que também sabe um poema de cor?'. Ele sorriu, o olhar preso no dela: 'Vários. Tem preferência?'

O olhar firme e suave do príncipe e aquela resposta fizeram a mulher sentir-se estupidamente enrubescida e resolveu quebrar-lhe a atrevida confiança. 'Tenho. Herberto Helder', pensando agora vais ver, vais ter que dizer 'esse não' uma meia dúzia de vezes até te deixar escolher uns versinhos da treta.

Ele riu, triunfante - ah os homens acham-se uns heróis por tão pouca coisa, pensou ela - e, então, surpreendentemente, disse, 'Então veja se gosta deste' e, fixando-a nos olhos durante todo o poema, disse-o com alma, com emoção. E com que voz. O sotaque, o timbre, as pausas, tudo e, ainda mais, o olhar.

'Havia um homem que corria pelo orvalho dentro' dito por Herberto Helder


Ela sentia-se arrepiada, tocada (a poesia dita produzia, nela, este efeito) mas, claro, não o iria demonstrar.

Então, virando-se para o governante, atirou-lhe: 'Então e você, meu caro, vai brindar-nos com o quê?'. Ele engoliu em seco, sorriso forçado: 'Ah eu não sou dado a poesias, eu agora é mais ...' e ela, sem esperar,sem o deixar completar: 'É mais austeridade, mais desemprego, certo?'.

O governante tentou aparar o golpe sem acusar o toque e, com ar complacente, tentou sorrir, disfarçar, e, falando com ar paternalista: ' Também não gosto, não gosto nada, acredite, custa-me, acredite, mas tem que ser; mas já estamos a meio da ponte como disse o meu colega..' .

Ela sorrindo e sentindo o divertimento nos investidores-poetas, continuou, sorrindo, vitoriosa: 'Será? E o que é que está no lado de lá da ponte? O vazio...? E não será que a ponte é daquelas que vai abaixo...? Com o desemprego a disparar, com as últimas contas a mostrarem o descalabro que se avizinha, com as despesas a aumentarem e as receitas a diminuírem, não me parece nada que se esteja no bom caminho. E, meu Caro, não ouviu o que o seu amigo Poul Thomsen disse, que a política aplicada na Grécia foi um erro, que a austeridade destruíu a economia...?'

O governante já estava a ficar seriamente atrapalhado, desenhava-se ali um incidente, já dava mostras de incómodo, o verniz quase a saltar. Mas, político experiente que é, conteve-se  e optou por continuar com o tom paternalista: 'Pois, não sabe bem do que fala mas não se preocupe que isso acontece a muito boa gente; é que não é bem assim, nós não somos a Grécia.'

A mulher soltou uma gargalhada, a cabeça inclinada para trás, 'Pois não, meu Caro, mas olhe, eu também não sou loura.' Os outros riram de gosto.


Mas o governante, que não é dado a subtilezas, não percebeu. Ela fez de conta que explicava:  'debaixo desta cor, esconde-se a minha cor verdadeira'. Ele continuava sem perceber. Ela sorria, falando com ele como se ele fosse um burro encartado. '....Sou ruiva'.

O príncipe estava deliciado. Ela também. O governante continuava sem perceber que ela lhe estava apenas dizer que não era burra. 

O príncipe perguntou-lhe baixinho: 'É verdade?'. Ela fingiu que lhe dizia um segredo: 'O que lhe parece?'. Ele sorria, encantado, 'Uma ruiva de olhos verdes... faz sentido...'

Quando, no fim, saíu, o príncipe ajudou-a a colocar a écharpe. Estava frio. (Mas as mãos do príncipe, que , sem querer, roçaram ao de leve os seus ombros, estavam quentes.)

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Convido-vos, também, meus Caros a lerem o que me aconteceu ao seguir o Guia dos conceitos básicos de Nuno Júdice, ao som de Ravel, lá no meu Ginjal.

E tenham, meus Caros, uma bela quinta feira!

quarta-feira, setembro 22, 2010

Sempre que no telefone me falavas



Sempre que no telefone
me falavas, eu diria
que falavas de uma sala
toda de luz invadida,

sala que pelas janelas,
duzentas, se oferecia
a alguma manhã de praia,
mais manhã porque marinha,
(…)
pois, assim, no telefone
tua voz me parecia
como se de tal manhã
estivesses envolvida,

fresca e clara, como se
telefonasses despida,
ou, se vestida, somente
de roupa de banho, mínima,

e que por mínima, pouco
de tua luz própria tira,
e até mais, quando falavas
no telefone, eu diria

que estavas toda nua,
só de teu banho vestida,
que é quando tu estás mais clara
pois a água nada embacia,

sim, como o sol sobre a cal
de muros cuja luz ilumina,
a água clara não te acende:
libera a luz que já tinhas.

(Parte de Paisagem pelo Telefone, João Cabral de Melo Neto, enorme, imortal poeta brasileiro [1920-1999])
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