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terça-feira, abril 15, 2025

Se calhar, deveria saber extrair uma moral para a história...
Mas não consigo...

 

Quando fui para o ginásio, por cima da tshirt, vesti apenas uma blusinha leve de manga comprida. O meu marido levou uma parka. Quando me viu, perguntou-me se eu achava que ia bem assim. Pergunta retórica, claro. Se me tinha vestido assim é porque achava que ia bem. Referiu que o céu estava cinzento e que a meteorologia anunciava chuva. Não me pareceu. Antes tinham caído uma pingas e admiti que fosse a isso que os meteorologistas se referissem.

Quando estávamos lá, já na recta final das máquinas, o meu marido perguntou se eu já tinha olhado lá para fora. Não tinha. Sou muito focada: se estou a puxar roldanas ou a remar para exercitar os músculos superiores ou a abrir e fechar pernas para exercitar os músculos de dentro e de os fora, é nisso que estou concentrada. Mas, porque ele disse isso, olhei. E engoli em seco. O dilúvio. Quase me apetece acrescentar: 'literalmente' o dilúvio. Uma carga de água... mas uma senhora carga.

Não me desmanchei. Pensei que, assim como assim, quando chegasse a casa, ia tomar banho. Chegar molhada seria apenas evitar uma fase, podia passar logo para a aplicação do gel de banho.

Mas, cavalheiro como é, quando saiu do balneário, tinha um casaco de capuz que levava por baixo da parka para me dar. Não queria aceitar a gentileza. Mas, tanta a insistência, aceitei.

Apesar de ter abrandado um pouco quando saímos, a verdade é que cheguei toda molhada.

E felizmente não tinha deixado roupa estendida. O que isto tem de bom é que desde há alguns meses, se calhar desde novembro, não sei bem, não é preciso ligar a rega. E está tudo verdinho que é um gosto. De vez em quando, com regador, rego os vasos que estão debaixo de telheiros e é só. 

As rosinhas já começaram a despontar e a nespereira está carregada. A chatice é que é uma árvore tão grande que os ramos estão todos muito altos, custa a chegar à fruta. Mas já apanhei umas quantas. Ainda não estão dulcíssimas mas, para mim que sou de boa boca, já estão boas.

Há ainda uma coisa que é um bocado triste e que até estou a hesitar trazer aqui. Trazer para quê, não é? Não gosto nada de trazer para aqui coisas que podem puxar ao sentimento. Mas, por outro lado, antes de começar a escrever, era nisto que estava a pensar. Falei na molha que apanhei para ver se me distraía e não falava no que estava a pensar.  Mas, aqui chegada, estou outra vez com esta em mente. Por isso, se calhar, mais vale falar e pronto. Aquela amiga que perdeu o marido a semana passada está muito abalada e muito triste e tanto mais, segundo ela, quando foi uma coisa quase inesperada. Faz-me muita impressão. Custam-me as palavras dela a dizer que está a viver tempos muito duros e que não consegue encontrar palavras para a dor que sente. Compreendo-a e imagino o vazio enorme que agora deve estar a invadir a vida dela. Uma pessoa que vive a vida inteira com outra, em que as vivências, tudo, resulta de uma convergência de hábitos, deve ficar a sentir-se completamente desamparada. Deve ser quase como se tivesse que reaprender a viver por si, alguém a quem se tiram as muletas, o andarilho, o oxigénio, a sonda, tudo, e que, sem sentir motivação para tal, tem que aprender a ser autónoma. Sozinha, cheia de saudades e tristeza, e por sua conta como quando nasceu e teve que aprender a virar-se. Depois fiquei a pensar: ela diz que lhe custa ainda mais por ter sido uma coisa quase inesperada mas, se ele tivesse sofrido, se tivesse sido uma daquelas mortes lentas em que a pessoa assiste ao seu próprio declínio, em que a pessoa vai perdendo autonomia, dignidade, não teria sido mais doloroso?

Pergunto isto e sei que a pergunta é estúpida. Dor é dor.

E agora lembrei-me de há uns meses, ao encontrar uma amiga de longa data que não via há séculos, pergunta-me ela se eu me lembrava de um que tinha sido nosso colega. Assim de repente, não me lembrava, mas ela mostrou-me a fotografia dele. Ah, perfeitamente, lembrava-me. Diz ela: 'Casámos, não sabias?'. Não, não sabia. Mas antes que eu me pusesse a festejar, ela atalhou: 'Morreu o ano passado.'. E aí fiquei sem jeito. Fiquei também sem palavras. A sorte é que ela depois mudou de assunto.

Mas, enfim, são situações que parece que tiram o chão às pessoas. O que vale é que, na maioria das vezes, não é o chão, é o tapete. E as pessoas reaprendem a andar porque o chão, mal ou bem, continua lá.

E com isto não concluo nada. Para dizer a verdade nem sei como acabar este post. 

Partilho, antes, um vídeo que, se calhar, até já tinha partilhado antes. Acho que não tem a ver com nada do que acima fui escrevendo. Mas é um vídeo curioso. Um bocado terrível. A mim, que padeço de vertigens, faz-me muita impressão. Até parece que sou eu que estou ali, à beira do abismo, a escorregar, os outros a empurrarem, e eu a tentar aguentar-me... depois a tentar ganhar coragem... e, depois, olha, lá vai disto, seja o que deus quiser...

Emperor penguin chicks jump off a 50-foot cliff in Antarctica NEVER-BEFORE-FILMED FOR TV | Nat Geo

National Geographic and BAFTA Award-winning cinematographer Bertie Gregory release unprecedented footage of Emperor penguin chicks leaping 50 feet off an Antarctic cliff. The never-before-filmed behavior was for the 2025 installment of National Geographic’s Emmy award-winning SECRETS OF franchise, SECRETS OF THE PENGUINS, premiering Earth Day 2025 on Nat Geo.


segunda-feira, setembro 04, 2023

Vidas simples, zonas azuis

 

Ontem cheguei à noite com uma certa dor no colo do fémur. Na cama, não foi fácil encontrar uma posição inócua. Felizmente não me impediu de dormir. Mas, de quando em quando, tinha que me reposicionar.

Ao queixar-me, o meu marido zangou-se, diz que parece que não aprendo.

A questão é que, de dia, tinha andado a apanhar caruma, pinhas roídas, folhas secas, terra. Puxo com ancinho ou varro, faço montes e depois, se o local de destino está perto, apanho à mão e ponho lá. Se não, coloco dentro de um cilindro de ráfia e transporto-o até onde o possa despejar. 

Como sempre acontece, não me custa, não me canso, não me dói nada. O meu marido avisa-me que tenha cuidado. Ele andava a fazer o mesmo e a cortar ramos de carrasco e de aroeira. Pensei que estava a ser cautelosa, que não estava a fazer nada de extraordinariamente pesado. Mas o meu corpo, depois de tanto que trabalhou, parece que se tomou de melindres e, agora, a cada trabalho mais árduo, ressente-se. A idade tem isto, creio que desgasta um bocado as articulações. Não sei.

[Não sei se já contei que há uns meses fiz uma osteodensiometria. Numa outra, feita algum tempo antes, tinha sido assinalado que tinha baixa densidade óssea, não osteoporose mas a caminho disso.  Então, ao ver o relatório e ao ver que lá estava escrito que havia uma significativa alteração, fiquei assarapantada, julgando que tinha piorado. Afinal, foi ao contrário, estava bem melhor. Caminhadas, ar livre e sol produziram bons resultados.]

Felizmente, acordei melhor. O sono tem um poderoso efeito reparador.

Ontem tinha ido visitar a minha mãe e depois fomos ficar com uns dos meninos até os pais chegarem. 

Este domingo foi tranquilo. Estava na dúvida sobre a minha capacidade para fazer uma caminhada mas fui. Fizemos um belo passeio por um agradável pinhal. Estava muito mais fresco do que nos dias anteriores, a prometer chuva, mas, afinal, o que veio pouco mais foi que uns envergonhados pingos. 

Para o almoço fiz maruca cozida com batata normal, batata doce, feijão verde, cebola e ovo. De sobremesa, uvas das nossas.

Ao fim do dia, novo passeio. 

Não será por falta de me mexer que emperrarei, nem será por comer comida pouco saudável que me entupirei. 

(A minha filha diz que, nisto da comida, o meu problema são as quantidades, diz que deveria comer menos. Não digo que não. Mas tenho sempre apetite. Gosto de comer.)

Entretanto, hoje estive também na conversa com amigos reencontrados e com outros com quem, em tempos, partilhei os mesmos espaços sem o saber. A vida é uma coisa extraordinária. Surpreendo-me a cada dia que passa. Penso que as pessoas que se fecham sobre si próprias acabam por não colher das surpresas da vida nem a metade.

Agora, à noite, estive a ouvir música e a ver mais um daqueles vídeos sobre as Blue Zones, aquelas zonas do planeta em que as pessoas vivem, saudáveis, até mais tarde. 

É o que se sabe: vida activa, ar livre, trabalhar, caminhar, comida simples (vegetais, frutos secos, feijão...). Partilho convosco pois pode ser-vos útil.

The secret to longer life may be in where you live, not exercise or supplements

ABC News’ Phil Lipof spoke with Dan Buettner, National Geographic Explorer and author of “Blue Zones: Secrets for Living Longer,” about how certain lifestyles can be reverse engineered for long life.


Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Harmonia. Paz.

quinta-feira, abril 08, 2021

O admirável novo normal: mais natureza, mais robots, mais duros golpes

 

Um dia que acabou sombrio apesar do sol da tarde. Tento racionalizar: é apenas mais um. Mas sei que não é. Ninguém é.

A manhã foi complexa. Penso muitas vezes naquilo: é melhor ser amado ou ser temido? Apesar de não ser uma princesa, tento relembrar as observações ou conselhos. Aconselhei: guarde alguma distância, tem que conseguir ter amplitude de movimentos para decisões difíceis, não queira ser popular. No ecrã do computador vejo, em grande plano, o rosto daquele a quem exprimo o meu desagrado. Em ponto pequeno, em baixo, poderia ver o meu rosto. Mas não olhei. Por um lado, estava concentrada no que dizia e em ouvir e dirimir nos argumentos do outro lado e, por outro, não sei se é essa a minha face que mais gosto de ver. Talvez me assustasse, se me visse. Sei que o meu semblante não esconde o que sinto.

Aquele que durante anos foi o meu melhor amigo (e que apenas já não o é porque as circunstâncias profissionais e da vida nos afastaram geograficamente tanto que aquele contacto quotidiano se foi esbatendo) dizia, meio a brincar meio muito a sério, que eu, como adversária, era temível. E davam-lhe razão. Eu ouvia, divertida mas sem contestar. E lembro-me de um dia, em casa de amigos comuns, já há uns anos, um outro me ter perguntado de quem eu, na altura, dependia. Quando respondi, ele, o meu amigo, soltou uma gargalhada. Os outros voltaram-se para ele, tendo ele esclarecido a propósito do meu chefe de então: 'Ele pensa que manda nela. Mas mais ninguém acha isso, toda a gente acha que ela é que manda nele. Aliás, acho que ele próprio tem consciência disso.'. O meu marido ainda hoje, de vez em quando, me lembra isso como testemunho de que não acato ordens ou sigo orientações. Não é verdade. Acato, sigo. Mas apenas quando acho que fazem sentido. Mas, reconheço, tenho em mim uma natural tendência para ser eu a ditá-las. Não serei autoritária mas sei que, se vejo um caminho, não penso duas vezes antes de apontá-lo e, se alguma coisa não me parece bem, não consigo escondê-lo nem consigo enrolar a conversa ou dourar a pílula. Muitas vezes penso: 'bruta como as casas'. Mas, nessas situações, não sei ser de outra maneira.

Mas isso foi até à hora de almoço. Nessa altura, fizemos a nossa caminhada e, depois, almoçámos. A meio da tarde, num little break, fui plantar, no canteiro do pequeno varandim, umas plantinhas que tinha comprado no outro dia. Sardinheiras e umas outras que descaem e de que não fixei o nome. E outra coisa: naquela acção da distribuição de árvores, calharam-me não romãzeiras ou medronheiros mas três ciprestes e uma azinheira. Parece que nunca viram tanta procura de medronheiros. Trouxe, pois, quatro projectos de arvorezinhas. Pequeninas, um ou dois palminhos. Alertada para o irritado comentário do Leitor que, no outro dia, aqui dizia que nunca tinha visto tamanha ignorância, que plantar árvores nesta altura seria condená-las à morte, validei: 'E podem plantar-se agora? Têm que ser regadas, não...?'. O senhor esclareceu: 'Não plante na terra. Coloque-as num vaso e vá cuidando. No Outono, lá mais para Outubro, quando começarem as chuvas, muda-as para a terra'. E, portanto, assim fiz. O que eu gosto de fazer mudas de plantas, de mexer na terra, de regar, de observar o seu crescimento, de me deslumbrar com a sua beleza. Depois voltei ao trabalho. Uma tarde cheia de surpresas e quase todas negativas. Irritações, telefonemas. Até que, estando ao telefone com a minha filha, soube da notícia. À noite, na televisão, os testemunhos foram-se sucedendo. Emocionados, tomados pela surpresa e pela comoção. Estes tempos vão assim, inclementes, tantas vidas sendo ceifadas, tantos desgostos para quem fica.

Depois ainda outro telefonema. Estava a fazer o jantar. Queria saber como tinha sido. Escandalizado com o que contei. Que tínhamos que averiguar, ir até às últimas consequências. Por fim, já nos ríamos os dois a bom rir. Há coisas tão estupidamente escabrosas e parvas que, começando por nos chocar e irritar, acabam por nos dar uma irresistível vontade de rir. E foi ainda a rir que ajeitei o tacho com a janta.


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E, por falar em flores, as pinturas são de Georgia O'Keeffe. Lá em cima não posso dizer que o vídeo esteja pela música. Como é bom de ver, está pelas imagens do National Geographic: Time-Lapse: Watch Flowers Bloom Before Your Eyes

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E agora aquilo com que, para espairecer, me entretenho enquanto vejo o House: o maravilhoso e assustador mundo dos contrastes: natureza versus robots. Contudo, nem sempre, no fim, me sinta muito espairecida. O mundo vai divergindo e não sei como vai ser.

Growing a Greener World Episode 1111: Creating Paradise Through a Shared Passion for Gardening



Robots of the future at Boston Dynamics



Uma bela quinta-feira
Saúde. Sorte. Alegria. Afecto.

sábado, maio 11, 2019

Dizem que o azul quase não existe





Ouço que não há animais azuis. Como se isso fosse possível. Se calhar também pensam que não há flores azuis. Ou, sei lá, a ignorância é tanta, que não há corações azuis. Pensam, talvez, que o azul é uma cor rara, uma quimera.

E, no entanto, são azuis as palavras que me chegam de longe, envoltas em enigmas, em mistério, em saudade, palavras que descrevem uma geometria impossível, palavras sem sombra, sem mácula, azuis na sua mais íntima essência. Fecho os meus olhos e vejo uns outros olhos que, ao longe, as deixam cair, lágrimas límpidas, azuis,  que calam o que a boca está proibida de dizer. 


E, no entanto, são azuis os pássaros que voam das árvores à minha passagem, deixando um rasto de luz pelo céu, também ele azul. E cantam gritos de amor, de amor louco, azul, infinito, gritos que atravessam o espaço e vêm depositar-se, devagarinho, na concha macia da minha mão. Cantares azuis de pássaros azuis, transportando sonhos sem rumo, memórias esquivas que se escondem de ti e de mim e nos desafiam. Como se os abismos pudessem ser também azuis, tentadoramente azuis.


E são azuis as borboletas que rasgam o silêncio das árvores que sobem pelo infinito afora, azuis, muito azuis, azuis de veludo, borboletas que dançam magias pela noite adentro. Voam, caprichosas, enquanto cortejam o movimento das suas asas, efémeras, belas demais para poderem ter uma vida longa. E voam como um sopro azul, um sopro carregado de sublimes segredos que a noite me traz.

E, no entanto, são também azuis os recônditos esconderijos onde o meu coração bate, bate pelo teu, um coração tão azul como o meu, um coração de tigre azul, invisível, imaterial mas sempre presente junto a mim.


E, no entanto, é azul o lobo triste cujos longínquos uivos me chegam, um lobo que desliza pela noite em toda a sua magnífica solidão, um lobo que sinto e pressinto escondido por entre as paredes em que o meu corpo se enleia, chamando na noite pelo teu. Um lobo azul, fugidio, um lobo que espera por mim por entre os labirintos da noite, que me deixa palavras para sempre perdidas, uivos lancinantes, de um negrume quase azul.


E, no entanto, são também azuis as pétalas de rosa que encondro, de manhã, dispostas em volta do meu corpo regressado da noite. Azuis, macias, de um veludo azul e perfumado, pétalas que espalhas durante os sonhos em que o meu corpo anseia pelo calor prometido do teu abraço, apertado, longo, azul, tão, tão azul.


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Os animais não podem ser azuis -- dizem


(mas eu não acredito)

segunda-feira, abril 08, 2019

Shinrin-Yoku





Só por pretensiosismo é que eu, falando em público e a sério, poderia referir-me ao pedaço de terra a que chamo heaven como floresta. Mas, para mim, é como se fosse: é a minha floresta, é o meu bosque tão querido. 


Choveu todo o dia. Nada de mais mas o suficiente para a terra estar molhada, a vegetação estar lavada, enfeitada com gotas, a quietude ainda mais limpa, os pássaros ainda mais felizes.

Pus-me a filmar para aqui mostrar e fiz três vídeos. Mas porque estava a chover e eu a segurar no chapéu de chuva com uma mão e a máquina com a outra, a coisa ficou mais do que imperfeita. Além disso, esqueci-me que não posso movimentar a máquina depressa demais. Por vezes, ficou a parecer um carrocel. Portanto, não os vou aproveitar. Tentarei, para a próxima, que fiquem melhores. E depois a vozinha. Baixinha, rouca, pouco mais que um sussurro. Não me dá jeito andar por ali a falar alto, sozinha. Então, a falar baixo e com o som da chuva a bater na sombrinha, fica impraticável. O meu marido quis ver e até estava a ver com atenção mas volta e meia, porque não ouvia, pedia para eu pôr mais alto. Só que, de facto, não dá para pôr mais alto: é um sussurrar que quase se confunde com o sopro do vento nas ramagens.


Tenho que aprender a transmitir o bem que me sabe e o bem que sinto que me faz andar por ali, respirando um ar tão sereno, tão cheio de paz, sem radiações, sem ruído, sem intrigas ou pressas, um ar perfumado e atravessado pelo canto dos pássaros. Ao aspirá-lo penso que parte daquele maravilhoso ambiente está a entrar dentro de mim, a percorrer as minhas artérias, a irrigar a minha mente, a minha consciência, a minha alma.

Se me analisassem o sangue ou o batimento do coração, não sei se seria visível o bem que isso me faz. Ando devagar, os pés pisando a caruma sobre a terra macia, passando a mão pelo alecrim, pelo rosmaninho, espreitando a madressilva a quer despontar, deslumbrando-me com as ervinhas que crescem por entre o musgo, as pedrinhas cobertas de bocadinhos de tempo. Absorvo tudo através de todos os sentidos, fico melhor pessoa, fico ainda mais tranquila e feliz, sinto-me agradecida.

Se calhar estou a praticar Shinrin-Yoku, o banho de floresta, isso que os orientais acreditam que é uma forma de curar o corpo e a alma. Consiste em simplesmente estar na floresta.
Shinrin-Yoku is the practice of spending time in nature for the purpose of enhancing health, wellness, and happiness. It is a Japanese term that translates into “forest bathing” - taking in the forest atmosphere.

Não sou dada a medicinas alternativas -- sou a favor de rigor e de coisas que se podem comprovar. Não sou dada a religiões, não sou dada a crenças, a metafísicas, não frequento clubes ou seitas, não alimento correntes, não me ponho como seguidora seja do que for, não tenho grupos nem sequer do WhatsApp, não tenho gurus, não tenho rituais, não alimento superstições. Nada. Cultivo orgulhosamente a minha natureza de bicho.

Mas acredito na tranquilidade que vem da natureza, acredito no poder infinito que emana da terra, acredito na beleza, na imensa beleza das árvores, das flores, das pedras, dos animais, do sorriso no olhar daqueles que amamos, na beleza imaterial das palavras boas que transportam a harmonia e a música que atravessa os céus, acredito na paz que pode crescer dentro de nós -- acredito na tocante generosidade da natureza, acredito na felicidade que ela nos traz.


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Fotografias feitas in heaven este domingo

segunda-feira, fevereiro 04, 2019

Sem rede


Já contei muitas vezes: padeço de vertigens. Ter vertigens não é opção, acontece -- queira-se ou não. É como uma orientação sexual. Por mais que queira não consigo deixar de ser hetero. Nem de ter vertigens. Só de pensar já as sinto a assomarem-me à sola dos pés, a darem-me aquela sensação de que corro sérios riscos de me despenhar.

Estava a podar árvores e a serrar troncos e ramos, atirando lá para baixo as ramagens que o meu marido haverá de queimar num dia em que não chova, não faça vento nem demasiado calor. E, de cada vez que me aproximava da barreira, pensava que bastava um tropeção ou um pé mal colocado para lá ir cair abaixo. Por vezes, ao atirar um ramo, em vez de ir para lá abaixo, ficava preso à beira do precipício. Bem que eu tentava debruçar-me para o soltar. Mas qual quê? Incapaz. Sempre com a sensação de que, mais um passo, e voava sem asas. 

Pois bem. Numa destas coisas que não se explicam, resolvi ir espreitar as novidades ao National Geographic. Logo que vi, pensei: caraças, para que é que vim?

É que não é apenas corajoso. É mais do que isso: é de loucos. Parece-me, até, suicida. Imagino a aflição dos pais. A aflição da namorada vêmo-la nós. Coitada. Coitados os que t~em um doido destes na família. Mas, bolas, ao mesmo tempo que valentia, que superação...!

Não é a primeira vez que aqui trago Alex Honnold. Era mais miúdo e já subia às alturas. Agora vêmo-lo mais adulto, a subir mais alto, mas ainda com aquela assombrosa leveza e força. Sem rede. Sem plano B.

Não sei que pulsão é esta que leva alguém a pôr a vontade de arriscar acima da vontade de viver mas não temos que saber as motivações alheias para admirar alguém. 

Partilho convosco.

Free Solo - Trailer | National Geographic


From award-winning documentary filmmaker E. Chai Vasarhelyi and world-renowned photographer and mountaineer Jimmy Chin, comes FREE SOLO, a stunning, intimate and unflinching portrait of free soloist climber Alex Honnold, as he prepares to achieve his lifelong dream: climbing the face of the world’s most famous rock... the 3,200ft El Capitan in Yosemite National Park… without a rope.
(Apertem os cintos...)



Também bastante interessante. A palavra a quem registou a concretização do sonho. E da loucura.

How They Filmed the First El Capitan Climb With No Ropes in "Free Solo" | Vanity Fair


Elizabeth Chai Vasarhelyi and Jimmy Chin, the directors of the documentary “Free Solo,” discuss how they captured rock climber Alex Honnold’s free solo climb (without any ropes, harnesses or protective equipment) of Yosemite’s El Capitan in June 2017. The film crew was challenged to record his incredible achievement without affecting Honnold’s climb.

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E atenção: ainda não recebi palpites para a adivinha dos patos que não gostam de outros patos.

E bons sonhos, sem pesadelos, sem inexplicáveis alpinismos, sem formigueiros nos pés.

Só altos voos, só planagens felizes.

sexta-feira, janeiro 12, 2018

Se a coisa se pega e, com o aquecimento global, para além das tartarugas que é tudo só fêmeas, passa a acontecer o mesmo com os humanos, mudo-me já para os Himalaias e vou ver se descubro três irmãos bem jeitosos.
Avisei.




Agora está frio. Até tenho o aquecimento ligado para estar aqui quentinha no meu ninho enquanto escrevinho. Mas sei que isto não é nada. Estou bem lembrada da canícula que nos abrasou durante os longos meses de verão. Posso não ser uma mente brilhante mas burra como o Trump acho que não sou. Galhofeiro como os mentecaptos gostam de se mostrar, até se arma em engraçado, mandando vir algum aquecimento lá dos sítios onde o há para ajudar a combater os frios extremos lá nos States. Brincalhão. Mas do Donald todas as patacoadas se esperam pelo que mais vale nem o trazer à colação.


A questão é que isto do aquecimento global já se faz notar às escâncaras. Não é só a seca, a vegetação ressequida, as barragens vazias, os animais a definharem, a água a ter que ir em carros cisternas para terras à míngua de uma gota -- são também as mostras de um degelo que já é mais do episódico, são os corais a morrerem aos cachos... E, agora, outra. Com as águas mais quentes, parece que desaparecem as tartarugas-machos. Só nascem meninas. Uma comunidade de tartarugas fêmeas. E isto, caneco, faz questionar o que aí virá.


Não é só que lugares onde apenas há mulheres sejam lugares insuportáveis -- discussões, invejas, puxões de cabelo, tareias na lama. É sabido que sim. Mas o pior nem é isso. O pior é que a coisa, depois, tende à extinção. Os machos podem não servir para muita coisa, so many tough women say -- assediadores de meia tigela e pouco mais, queixam-se elas -- mas, enfim, para plantarem sementinha onde ela faz falta, para isso ainda alguns servem. Agora se o rácio se agudiza e, às tantas, já só há um para noventa e nove fêmeas (e todas à beira de um ataque de nervos), imagine-se a desgraceira.

Se, com a calorama, a moda das tartarugas se pega à espécie humana nem quero pensar. Juro. Não dá. Não iria aguentar viver só rodeada de mulheres. É que nem pensava duas vezes: ia direitinha aos Himalaias. E ia logo, antes que os hábitos se alterassem, antes que a malta lá comece a ir muito à escola, a ver muita televisão, a ficar moralista


Ali, lá bem no cocuruto, naquela aldeia em que uma mulher tem, no mínimo, três maridos é que eu estava bem. Ajudam na casa, com as crianças, nos trabalhos em geral. E aceitam bem as escalas, não são de arranjar problemas com ciumeiras bobas. Na maior parte das vezes, são irmãos. Mas eu nisso não seria esquisita: irmãos, primos, tanto me daria. Agradeceria era se um deles fosse jeitoso com as mãos para me dar umas belas massagens, isso sim.

Portanto, já sabem. Se a temperatura subir demais e se começar a haver tartarugas-meninas a mais, já sabem onde me poderão encontrar que eu não vou ficar cá para ver, que não me arrisco a ficar no meio de mulherame, todas a embirrarem umas com as outras e nada de amor com sabor a testosterona. Mas, nesse caso, se perceberem que me pirei para as montanhas, não levem a mal mas dispenso visitas femininas para não irem para lá desestabilizar o rácio que está tão bem como está, uma mulher para um mínimo de três cavalheiros.

E disse.

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E não, não pensem que estou para aqui a fantasiar. Não estou. Os riscos são mesmo verdadeiros. 
E aquele pedacinho de paraíso lá nas terras frias das montanhas também é bem real. 
Ora vejam os vídeos abaixo.





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E é isto. Caso queiram ainda saber qual a minha sugestão para não fazer sofrer as lagostas, as amêijoas e os caracóis, é só descerem até ao post seguinte.


sábado, dezembro 16, 2017

fatima lopes maminhas amota



Ele há coisas... Tais os dias que parece que se combinam para me darem conta do juízo, a verdade é que continuo sem conseguir ler notícias, aprender inteligiências com comentadores, ver televisão ou frequentar outros lugares de cultivo intelectual. A zeros. Face a esta constatação, embora tomada pela indolência que me assola quando a noite já vai alta, fui tentar suprir a grave lacuna cultural de que venho padecendo, espreitando a galeria lateral de blogs aí ao lado. Fui andando, andando, até que me ocorreu, vá lá saber porquê, ir ver as estatísticas do blog. E eis senão quando, de entre as palavras ou expressões que alguém colocou num motor de busca e a que o respectivo algoritmo considerou que este humilde blog poderia dar a resposta, dei com estas:

fatima lopes maminhas amota

Fiquei a olhar algo admirada. Discorri que a ideia deveria ser "maminhas à mostra" mas que talvez a pressa tenha levado a suprimir um r, um espaço e um acento grave. Até aí tudo bem. Parece-me normal que se vá ao google procurar as maminhas à mostra da Fátima Lopes. 
Só não sei é qual a Fátima Lopes de que essa pessoa queria ver as mamocas popotas. Mas também não é grave. Têm ambas umas bombocas todas larocas.

E estranho também não é. Eu própria, volta e meia, vou ao google procurar partes pudibundas geralmente ocultas mas que quero ver ao léu, por exemplo do Bruno Alves*. Por exemplo. Mas já me parece bizarro que o google ache que eu, Sta. UJM,  estou munida de armas para satisfazer curiosidades relativas a coisas amotas.

Mas, enfim, insondáveis são os caminhos dos algortitmos que governam a nossa vida e este hoje deve ter pensado que se non è vero, è ben trovato 'e deixa cá ver se ela se esmera para dar boa resposta a todos aqueles que para ela são encaminhados'.

Pois bem. Sou bem agradecida, sim senhor. E, assim sendo, e admitindo que, quem até agora tiver vindo, viria debalde -- pois não tenho ideia de antes cá ter as maminhas da Fátima Lopes e, muito menos, amota -- aqui estou para, numa próxima ocasião, ter com que satisfazer a curiosidade do meu Leitor ou da minha Leitora.

E se não for nenhuma destas a Fátima Lopes pretendida, aqui deixo mais umas quantas senhoras (cujo nome desconheço) mas que também têm as mamocas quase amota.





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Foi pena ninguém ter escrito: 'o ganda melão do láparo' para eu aqui poder mostrar qualquer coisa como isto aqui abaixo:

E agora, ó Láparo, que até a Fitch melhorou em dois níveis a apreciação da dívida portuguesa, 

não vais às lágrimas com esta notícia? Não desatas, de novo, a rir na cara de Mário Centeno?



E agora... o que é que dizes, ó Láparo?

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Mas pronto, é o que é. Não vale a pena bater mais no ceguinho. Já era. Parece que agora que anda feito sleeping partner, é que se lhe subiu a popularidade. O pessoal gosta dele é caladinho, feito morto. Vamos ver a grande diferença que vai fazer quando for sucedido por um dos dois vintage que saíram à cena, duas criaturas que pouco podem trazer de novo a menos de uma certa nostalgia pelo passado.

Da parte que me toca, o que tenho a dizer -- a estes ou a quaisquer outros ursos -- é que o que eu quero é que se f...


Estes levaram a sério a minha recomendação e foram f....-se no sentido biblico. 
E fizeram eles muito bem.

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* Aquilo do Bruno Alves é mentirinha, atenção, Claro que não vou à procura dos interiores do rapaz. Ainda se fosse do Hugo Soares... Ah, esse sim. Ou o puto charila Leitão. 

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Tirando estes temas mais prementes, por agora mais nada. Mas vou ler os onlines e, se der conta de algum feito, virei partilhar convosco.

sexta-feira, dezembro 15, 2017

Querer eu queria. O pior é que não consigo.








O computador está a pedal. Mexo e ele demora a reagir. Depois, quando reage, nunca mais pára de reagir. Um arrastamento estúpido que me põe a dormir. E, se não for isso, tudo é. De novo na fisioterapia, de novo por duas vezes a dormir, uma coisa na base do 'me agride que eu gosto'. 

E, portanto, hoje, tal como ontem e, de facto, nos últimos dias, adormeço no intervalo das boas ideias que me ocorrerm e, quando acordo, já as boas ideias voaram para outras paisagens. E isto do computador estar assim também não ajuda. Devia desligar e voltar a ligar. Mas ao ritmo a que o pobre hoje está, se o desligo vai estar tanto tempo a desligar que me vai passar a vontade de voltar a ligar. Portanto, já somos dois: eu e o computador. Precisamos de um reset mas nem energia já temos para o fazer.

Das notícias, agora é tudo ao moche em cima das raríssimas e eu tenho alguma dificuldade em aderir em movimentos desse tipo. 


Fala-se muito, demais, tudo na base do fogacho, sem ir ao fundo das questões, é tudo na base do mata e esfola e eu gosto mais de alguma ponderação e estudo cuidado das coisas. Também podia falar num outro lado: estas coisas voltam a mostrar que há cargos que deveriam ser levados mais a sério em vez de serem vistos como figuras protocolares ou de estilo. Presidente de assembleia geral. Quem é que, estando ali numa de coiso e tal, vai armar-se em picuinhas, pôr-se a escarafunchar nas contas e dizer que, assim como estão, não assina? Até agora apenas um ou outro cromo. Mas com isto de volta e meia haver um ou outro apanhado na curva, talvez leve alguns incautos a repensarem se não será melhor largarem o título uma vez que não estão para exercerem a função.

No entanto, incapaz de aprofundar agora aqui o tema, calo-me para não ser mais uma a dizer generalidades que, espremidas, não deitam qualquer sumo. É que eu, não sei se estão a ver, gosto de me achar sumarenta (presunção e água benta, patati, patatá, cada um toma a que quer -- certo?). Ou seja, se é para pouco dizer, mais vale nada dizer. E, portanto, entre presidentes disto e daquilo, raras e frequentes, ex-primeiras damas a darem à costa e coisas afins, eu não consigo agarrar uma.


E assim sendo, vou deixar o computador a pensar na vida dele e eu vou fazer o mesmo. Estes meus dias não me têm dado tréguas. Umas atás de outras e o meu pobre corpo chega aqui e impõe que eu repouse pois, mesmo sem eu querer, vou dar por mim a dormir sem mais nem ontem. E sei que a prosa está a sair sem fluência ou elegância mas os dedos andam às arrecuas, querendo ir juntar-se aos neurónios que já estão aqui a um canto a chonarem que não é brinquedo.

Por isso, aceitem as minhas desculpas mas hoje as forças do universo convergem no sentido do apagamento e, assim sendo, entre o computador e myself, vamos deixar que as luzes se apaguem e que o novo dia nos traga mais energia e eficiência.


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Deveria identificar isto e aquilo, namely a autoria das fotografias mas nem isso eu consigo. Só para verem. E mails de Leitores a que não consigo responder nem se fala. Sorry so much -- a bem dizer. E imagino o estado de desalinho mental da escrita e a pontaria das vírgulas... Sorry again. Imaginem que a Ana e o Bruno passaram por aqui com rajadas de não sei quanto por hora e deixaram isto nesta figura. Não sei quantas palavras derrubadas e telhas e acentos gráficos pelos ares. Fruto dos tempos.

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Um dia feliz a todos os que têm paciência para aqui virem ver-me a bocejar, arrastando-me no teclado e sem força para me arrastar até à cama.

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sexta-feira, dezembro 01, 2017

Croniqueta de um dia do capeta




Ando para fazer um post sério desde aquela cena das perguntas ao Governo, a propósito das alarvidades que a Cristas e um qualquer outro triste do PSD disseram sobre o assunto. Recebi informação muito interessante da parte de um Leitor que é investigador e que participou no trabalho e pedi-lhe autorização para transcrever parte do que me disse. Já a tenho. Não tenho é tido a disponibilidade mental para o fazer.

Esta semana não tem sido especialmente tranquila. Felizmente é das curtas. Mas a verdade é que não apenas, durante o dia, não tenho conseguido saber a quantas ando como, ao chegar aqui à noite, disposta a informar-me, invariavelmente me dá o sono e é com considerável esforço que me aguento acordada para dar um arzinho da minha gracinha. E ponham zinho e cinha nisso.

Por isso, sendo certo que guardado está o bocado para quem o há-de comer, ainda não será hoje.

Tive um dia de cão. Mas de cão rafeiro. Com o caneco, que dia. 

Conto.

Passo por cima dos pormenores que preencheram o dia e que, de cabo a raso, perturbaram a minha beleza, para me reportar apenas à recta final.


Tinha um compromisso às seis. Saí cedo do escritório para chegar a horas. Pois, sim. Trânsito parado, um acidente. Tentei ligar para avisar que ia chegar atrasada. Não consegui. Trânsito, stress, trânsito. Depois, lá, dificuldade em arranjar lugar para o carro. Longe. Mais um percurso a pé, de permeio. Cheguei com meia hora de atraso. Desagradável. Odeio chegar atrasada, causar transtornos a outros. 

Despachei-me por volta das oito. Lá fui a pé até ao carro, noite, a rua deserta. Depois trânsito, trânsito. Nisto, sinto o pneu bater em qualquer coisa. Não liguei. Já estava ao telefone com a minha mãe. Reparo, então, numa mensagem no visor: pneu sem ar, parar, verificar. Lindo. Começo a sentir o carro a descair, um barulho. Tento interromper a minha mãe, dizendo o que estava a passar-se. Pior. Logo ela preocupada: rebentou-te o pneu? cuidado, é perigoso... e agora?. Lá a sosseguei e lá consegui desligar o telefone. Liguei os piscas. Fiquei sem saber o que fazer, ali não dava para parar, ir com o carro assim até a casa estava fora de questão. Liguei ao meu marido. Nestas alturas, sinto mesmo a falta dele. Disse-me para ir devagar e levar o carro para um sítio ali perto, perto de uma estação de comboio, junto às paragens de autocarro. A custo lá cheguei. Liguei para a assistência em viagem. Disseram que iam mandar um reboque. O meu marido avisou-me: veste o colete. Nunca me teria lembrado de tal. Lá andei à procura e lá o encontrei. 


Estava eu a vesti-lo, aproxima-se uma criatura alta, com ar curioso mas não mau aspecto. Não percebi se era um homem parecido com uma mulher, se o oposto. Alto/a, de calças, colete inflado, gorro, óculos redondos. Voz fina demais para homem, grossa demais para mulher. 
Sorrindo, disse-me: 'Quer que eu a ajude?'.
Meio surpreendida, respondi: 'Não, obrigada'.
A criatura insistiu: 'Posso ajudá-la'.
Respondi: 'Deixe, obrigada, não preciso'.
Ele/a insistiu, sorrindo: 'Não precisa...? Eu ajudo-a... A sério...'.
Eu, tentando pôr fim à conversa: 'É preciso mudar o pneu. Já pedi ajuda, obrigada'.
A criatura insistiu: 'Isso já eu vi. Mas eu sei mudar o pneu. Ajudo-a'.
Já um bocado desconfortável e, até, meio assustada, fui definitiva: 'Não quero, obrigada. Deve estar a chegar quem eu chamei'.
Encolheu os ombros, sorrindo. Depois afastou-se. 

Pouco depois, chegou o reboque. O senhor lá procurou o pneu de reserva, um daqueles pequenos e provisórios. 


Estava ele a elevar o carro e eu na berma, aproxima-se um homem de uns cinquenta anos, magro, de óculos, e diz-me, mostrando-me o telemóvel: 'Tenho telemóvel, é novo, comprei-o há dois dias mas já está bloqueado. Bloqueado. Fiquei de me encontrar aqui com uma pessoa mas nunca mais chega e eu não consigo ligar. Empresta-me o seu telemóvel?'. 

Pensei: Mas o que é isto? No espaço de poucos minutos, duas criaturas desconhecidas a maçarem-me desta maneira...? Será isto normal? E se pega no telemóvel e abala a correr?
Mesmo ao meu lado, de mão esticada a pedir-me o telemóvel.
Pensei: Estando aqui no chão o do reboque, não ia roubar-me... Então, disse-lhe: 'Diga-me o número que eu faço a chamada'. (E não me perguntem porque é que pensei que, marcando eu o número, estava mais defendida. No fundo, deve ter sido apenas para o ter comigo mais tempo...)
Deu-me um papel com um número. Mal o marquei, estendeu a mão para agarrar o meu telemóvel. Pensei: Vai fugir. Mas não.
Falou: 'Então, onde é que estás?' Quando desligou, disse: 'Diz que está ao pé da bomba'.
O do reboque disse: 'Eh pá, isso é do outro lado, não vai ser fácil virar para vir para aqui'.
Então o outro: 'Então dê-me outra vez o telemóvel para eu avisar que vou para o lado de lá, atravesso a estrada'.
O do reboque: 'Eh pá, não, não faça isso, não consegue'.
Mas já ele ia a correr para atravessar a estrada, esquecendo-se do segundo telefonema.
O do reboque: 'Eh pá, é maluco, ainda fica debaixo de algum'.
Passado um bocado, apareceu o outro: 'Não deu, ainda ficava debaixo de algum, mas vou ali para aquela ponta' e lá seguiu, quase a correr, não sei para onde.
Uma pessoa andando sempre enfiada no carro nem se apercebe destas situações e destes personagens da vida real. Fiquei a pensar: o primeiro/a apenas simpático/a, o segundo apenas a querer fazer um telefonema e eu, assustadiça, com medos a toa... Frioleiras de dondoca que nunca sai com o pé à rua de verdade. 


No fim, o senhor do reboque disse: 'O pneu furado é maior do que o buraco onde estava o outro. O melhor é tirar as coisas que ali tem e, se tiver uma mantinha, ponha para o pneu não sujar tudo'. Então tirei de lá a cadeirinha e pu-la no banco de trás ao pé dos outros dois banquinhos, tirei o poncho de renda, a capa de lã, um casaquinho branco que lá estava esquecido, arrumei os dossiers num canto, o chapéu de chuva, o saco com os ténis das caminhadas e mais umas quantas coisas. O senhor esperou pacientemente. Felizmente tinha lá uma colcha que tinha levado para o último pic-nic. Pôs o pneu em cima.

Com isto tudo já deviam ser nove da noite ou mais, nem sei. Eu a pensar que ia chegar cedo a casa e que ainda poderíamos dar um passeio na praia... e toda esta sucessão de maçadas. Pensei: Vou ligar a ver se ainda dava para repescar o programinha.



E, então, ouvi a notícia do Zé Pedro. Fiquei como que em choque.

A minha filha tinha ido ao concerto do Coliseu e tinha-me contado que ele estava magro, magro, muito debilitado, que lhe tinha feito muita impressão. O meu marido atendeu. Já sabia. Também estava triste. Depois ligou-me a minha filha. Estava impressionada, triste.

Fomos passear, ainda. Tarde. A noite fria. Não falámos mais no assunto. Dizer o quê?

Agora, enquanto escrevia isto, estava a dar uma reportagem na televisão. Lá estava ele com o seu sorriso e a sua fala tranquila, lá estava ele e a sua guitarra.

Vão desaparecendo. Aos poucos, as pessoas que, de alguma forma, fizeram parte da nossa história vão saindo de cena, vão integrando o vasto espaço da nossa memória. Sendo uma coisa normal não deixa de ser triste.


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Fotografias do National Geographic

Lá em cima Dmitiri Hvorostovsky -- que, soube-o pelo Fernando, também partiu por estes dias -- interpreta Cortigiani, vil razza dannata de Verdi. Foi em Maio, de surpresa, na Metropolitan Opera Gala.

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terça-feira, outubro 03, 2017

Ver sempre o lado maluco da vida





Estava aqui a contar da minha vida a uma pessoa, para exemplificar que podem chover facas e canivetes que eu, sei lá como, consigo arranjar maneira de preservar na minha vida um espaço de normalidade e alegria. Mesmo quando o espaço é exíguo, mesmo quando o tempo para isso é limitado.

E, ao escrever sobre isto, estava a pensar que podia contar ainda mais. Porque não sou só eu que consigo sobrevoar a infelicidade sem que esta me puxe para o fosso de agruras que, por vezes, parece querer abrir-se sob os meus pés. A minha mãe, por exemplo, é como eu. E a senhora que a ajuda com o meu pai, ainda mais.

Estava com vontade de contar. Mas depois hesitei. Se o meu marido, ele que está tão habituado, volta e meia fica espantado com a minha capacidade de alienação... fará quem não me conhece de perto. A minha e a da minha mãe. Volta e meia, deparando-se com momentos complicados, ele fica quase chocado como, num instante, eu e a minha mãe fazemos a agulha e, se for preciso, nos desatamos a rir com uma parvoíce qualquer.

Vou dar um exemplo. Vou arriscar. Não fiquem chocados porque somos malucas mas somos pacíficas.


Aqui há pouco tempo, vendo-me lá chegar no meio de uma sucessão de crises cruzadas, diz-me a senhora que ajuda a minha mãe e que será talvez uma meia dúzia de anos mais velha que eu: 'Então isso é que estão a ser umas férias, hein...? A velhada até faz fila para ver quem é que vai à frente...' A minha mãe, a rir, e a bater três vezes na cama do meu pai: 'Ai, credo, não diga isso, vire essa boca para lá...' E rimo-nos as três. Mas ela não estava a ser incluída pois, apesar de oitenta e picos, não parece nada uma velha. Acontece que o marido da dita cuidadora também estava doente, tinha sido operado, andava debilitado. Então ela acrescentou com a maior das naturalidades: 'E o meu também não sei se dura muito. Um dia destes dá o peido mestre e vai desta para melhor'. Desatei-me a rir com a expressão. E ela e a minha mãe, vendo-me a rir, desataram também a rir. E ali estávamos as três, na galhofa, como se a situação fosse para rir.

Acontece que um dia destes, vinha ele de um tratamento, na ambulância, sentiu-se mal e, coitado, foi mesmo desta para melhor. Contava-me a minha mãe: 'Um caso sério. Como morreu na ambulância, meteu tribunal, uma chatice'. E eu admirada: 'Mas, então, tribunal porquê?''. A minha mãe não sabe explicar: 'Não sei. Coitado do homem da ambulância' E continuando a falar das circunstâncias da morte do marido da sua ajudante: 'Ele sentiu-se mal, caíu para cima de uma mulher que vinha também lá dentro, também de um tratamento. E a mulher desmaiou'. E eu: 'Credo. Mas desmaiou porquê? Quase morria de medo, com um morto a cair-lhe em cima, não?'. E a minha mãe já se ria: 'Sabes lá, ainda nos rimos aqui todas com ela a contar isto, o pobre do homem da ambulância todo enervado com aquele par de jarras ali, tombados, ele sem saber se tinham morrido os dois'. 

E eu a rir e a ouvir a minha mãe a rir, a contar como ela, as vizinhas e a viúva também se tinham rido... e a pensar: mas será que não batemos bem da cabeça ou será que é normal encontrar motivo de risota mesmo no meio da maior desgraceira?


O que sei é que o meu marido, a quem ainda não contei esta, de certeza que vai encolher os ombros, descoroçoado, talvez mesmo agastado. 'Malucas. O homem morto e elas a rirem como se a coisa tivesse alguma graça. Malucas.'. Penso que não é capaz de visualizar a cena, coisa de filme cómico, senão também se ria. Penso que ele acharia normal que se falasse nisto com consternação. Ou melhor, que nem se falasse nisto. 

E esta minha conversa, agora, a que propósito? 

Bem. Quando sei que alguém está um bocado em baixo ou se sente triste ou desmotivado, eu tenho vontade de dizer que não vale a pena, que é um desperdício, que bom, bom mesmo, é termos vontade de rir, é não ligar muito às coisas más, bom, bom mesmo, é vermos o lado bom da vida. Há sempre um lado bom. Ou um lado maluco que dá vontade de rir.


Olhar sempre para o lado luminoso da vida



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E é isto.

As fotografias provêm do National Geographic.

Antonio Meneses interpreta Bach : Cello Suite No.1 "Sarabande"

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E, para quem não seja dado a estas conversas, pois então que faça o favor de descer caso queira saber o que acho dos resultados mais estrondosos do PCP -- estrondosos no bom (Setúbal) e no mau sentido (Almada).

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domingo, outubro 01, 2017

Profissões boas




Quando tinha catorze anos tive que decidir para que lado queria eu balançar a minha vida. Apesar de gostar tanto da língua portuguesa e de tudo o que com ela se relaciona, achei que devia pender para o lado das ciências exactas.

Depois, aos dezasseis, tive que decidir que profissão queria ter para resolver em que curso me deveria enfiar.

Sem saber o suficiente de cursos -- na verdade, bastante ignorante a esse respeito -- sem conhecer nem uma ínfima parte das profissões possíveis e, para dizer a verdade, também pouco preocupada com isso, acabei por fazer uma escolha que ainda hoje acho surpreendente e que não sei se foi a acertada.


O primeiro ano do curso foi horrível, o segundo só não foi tenebroso porque andava com o coração apaixonado, dividido e em permanente sobressalto, o terceiro quase nem dei por ele porque, a nível amoroso, me tinha decidido e, portanto já em regime de exclusividade, vivia nas nuvens, o quarto já foi uma peninha pois, casada, a trabalhar, e, tendo enveredado por um ramo do curso bastante estimulante, tudo parecia ter-se encaixado de forma harmoniosa e o quinto já foi feito com alguma descontração pois já começava a antever o que poderia vir a ser a minha profissional, a matéria sobre a qual resolvi fazer o trabalho de fim de curso era ultra-nova, ultra-interessante e, a nível pessoal vivia a mil entre as aulas que tinha, as aulas que dava, a vida de casa e os permanentes programas com amigos.

Se nos primeiros anos, em especial no medonho primeiro, cheguei a temer não conseguir suportar aquele pesadelo, a partir daí a coisa seguiu o seu rumo natural, sem dúvidas existenciais.

Contudo, volta e meia, ao ter conhecimento de algumas vidas, penso que há profissões maravilhosas e que, tivesse eu pensado nelas, poderia ter uma vida bem mais feliz.

A profissão da pessoa a que se refere o vídeo abaixo é daquelas que eu exerceria em permanente estado de encantamento. A vida ao ar livre, o contacto com a natureza, tudo tão bom. Que diferença para a minha, sempre entre gabinetes, tantas vezes a aturar gente complicada, a ter que enfrentar situações stressantes e sempre desperdiçando tempos infinitos no trânsito.


O marido de uma das duas melhores amigas de adolescência fez engenharia. O pai era dono de uma empresa. Quando ele acabou o curso, foi para a empresa e, naturalmente, seria o natural sucessor do pai. A minha amiga é médica e ele tinha, pois, também uma profissão segura. De hobby tinham ambos gostar muito de cinema, iam sempre aos festivais, acompanhavam tudo o que se fazia com qualidade; além disso, ele gostava de fotografar. Quando lá íamos, eu via com admiração as suas belas fotografias, geralmente a preto e branco. Eis senão quando, sem que nós o pudéssemos supor, largou o emprego, deu um desgosto aos pais e passou a dedicar-se exclusivamente à fotografia. Quando soube isso, fiquei perplexa. Nem percebia que profissão era essa. Por essa altura, passou a fazer expedições pelo Portugal profundo, por montes e vales, aldeias de montanha e de beira de água. Dias fora de casa. Semanas fora de casa. A minha amiga encarava o assunto com alguma expectativa (e, contando, que, se a coisa desse para o torto, haveria sempre a rectaguarda da empresa do sogro). De facto, ele começou a vender o seu trabalho ao Turismo, aos Municípios. Hoje tem vários livros publicados, já participou em numerosas exposições, tem fotografias nas mais prestigiadas bases de dados, é conceituado -- e continua com o mesmo semblante sereno e feliz. Estive agora mesmo a ver o seu site e a ver a sua fotografia. E vejo o percurso que fez desde os tempos em que se aventurou por um caminho tão arriscado.


O vídeo que aqui partilho trata de um biólogo que se tornou fotógrafo e que é muito feliz na sua profissão. Transcrevo:
Jeff Kerby is a National Geographic explorer, photographer, biologist, and conservationist. Kerby is part of a decade-long gelada research project founded and run by Peter Fashing and Nga Nguyen, anthropologists at California State University, Fullerton. In this video, he shares some of his favorite moments from studying gelada monkeys. 
São de Jeff Kerby as fotografias que aqui mostro, nas quais se pode ver uma macaca a dar à luz. Maravilhoso. 

Surrounded By Monkeys: What This Photographer Loves About His Job | National Geographic



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