Nestes dias quase não vejo televisão e, se vejo, é tarde e más horas. Noticiários só de raspão. Hoje apanhei uma notícia que me deixou cheia de estranheza e incómodo. Já vão em setenta os trabalhadores da Sonae em Azambuja com teste positivo. Covid-19. E se isso, já de si, é estranho mais ainda o é quando ouvi dizer que são jovens e, se bem percebi, muitos deles vivem em conjunto. Tentei ouvir noutros canais para confirmar mas não consegui.
Ainda não há muito tinham sido para aí uns outros cem a ficar contagiados numa outra empresa de produtos alimentares naquela zona, a Avipronto.
Li também que só por ali a Sonae tem milhares de pessoas a trabalhar.
Que pessoas são estas?
Vivem em habitações partilhadas? Porquê? São imigrantes? Pessoas sem família? Quanto ganharão? Que condições de trabalho terão? Que tipo de contrato têm? A Soane acautelou as suas condições de segurança? O distanciamento físico? A desinfecção de condutas de ar condicionado e de superfícies? Obrigou-os a usarem máscara? Deu-lhes formação sobre os cuidados a ter?
São estas pessoas que têm garantido que as cadeias de abastecimento de bens essenciais não falhem. Se temos ido ao Continente ou ao Modelo e nada nos falta tem sido muito graças a estas pessoas, bem como foram eles ou outros como eles que provavelmente garantiram que as compras nos sejam entregues em casa, a tempo e horas.
E que compensação recebem? Como são tratadas estas pessoas?
Gostava que os jornalistas investigassem isto bem como julgo que seria interessante que a ACT visitasse aquelas instalações e percebesse o que se passa ali. E isto já para não falar nos locais onde vivem. Que locais são esses? Quartos alugados? Pensões (agora chamadas hostels)? Várias pessoa por quarto? Beliches? Em que condições de segurança dormem face a estes tempos de pandemia?
E não falo nas condições sanitárias do trabalho ou da higienização das embalagens em que tocam e que vão para os supermercados e para casa das pessoas, tendo estado a ser manuseadas por pessoas infectadas. E não falo pois provavelmente o vírus não se aguentam activo durante as horas que medeiam o manuseio por parte de trabalhadores infectados e o manuseio por parte dos clientes. Mas...
Nisto tudo suspeito da muito provável exploração de mão de obra barata e precária por parte das grandes cadeias de abastecimento. Como consumidores queremos tudo barato e fechamos os olhos às condições em que trabalham aqueles que mantêm a máquina em movimento, para que sejamos servidos sem falhas.
O meu coração bate à esquerda mas, sendo, como toda a gente, fruto das minhas circunstâncias, a verdade é que me esqueço mais frequentemente do que devia daquilo que é invisível. Daquilo e daqueles. Os exércitos invisíveis que trabalham na sombra, nos bastidores, num mundo em que mal se pensa e que afinal são os verdadeiramente imprescindíveis são, também, os que vivem mais miseravelmente. E isso deveria fazer-nos pensar.
É, na realidade, todo um modelo de funcionamento da sociedade que nos deveria fazer pensar.
E, portanto, uma vez mais, daqui lanço um desafio a Marcelo e a António Costa e a Ferro Rodrigues e talvez a organismos como a Gulbenkian ou a redes de universidades ou sei lá a quem mais: desencadeie-se o debate, repense-se a forma como temos vivido, lancem-se desafios para se pensar em como viver uma vida mais justa e equilibrada, apontem-se caminhos, testem-se novas soluções. E que sempre esteja presente a necessidade de mais respeito pelas pessoas, por todas as pessoas, mais respeito pelo planeta, mais respeito pelo futuro.
Temos a sorte de não termos à frente do nosso pequeno país alimárias como o Bolsonaro ou o Trump. Pelo contrário, temos a sorte de termos democratas, homens cultos, humanistas, inteligentes, com visão. Seria bom que de Portugal saísse o exemplo. Seria bom que soubéssemos dar um pontapé no modelo de desenvolvimento que assentou na venda dos nossos principais activos ao estrangeiro, na compra de bens essenciais ao estrangeiro, na exploração de mão de obra barata e, provavelmente sem direitos, em viajar como doidos para fora do país, em trabalharmos feitos baratas tontas, todos os dias para trás e para a frente, poluindo o ambiente, dando cabo das nossas vidas.
Temos a sorte de não termos à frente do nosso pequeno país alimárias como o Bolsonaro ou o Trump. Pelo contrário, temos a sorte de termos democratas, homens cultos, humanistas, inteligentes, com visão. Seria bom que de Portugal saísse o exemplo. Seria bom que soubéssemos dar um pontapé no modelo de desenvolvimento que assentou na venda dos nossos principais activos ao estrangeiro, na compra de bens essenciais ao estrangeiro, na exploração de mão de obra barata e, provavelmente sem direitos, em viajar como doidos para fora do país, em trabalharmos feitos baratas tontas, todos os dias para trás e para a frente, poluindo o ambiente, dando cabo das nossas vidas.
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As fotografias provêm do The Comedy Wildlife Photography Awards 2020 e obviamente nada têm a ver com isto.
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Uma boa e happy friday a todos. Enjoy.









