Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, outubro 11, 2015

Se não te faz o medo da tormenta arriscar a costa traiçoeira


No post abaixo falei dessa verdadeira tragédia nacional que é a saída da Shirley Temple do PS, vulgo Sérgio Sousa Pinto, da direcção do PS. A esta hora deve estar o José Gomes Ferreira, o Marques Mendes e, quiçá, até o apóstolo Marcelo, a oferecerem a sua sincera solidariedade. E imagino como o António Costa deve estar preocupado com esta perda tão dramática.

Mas, enfim, sobre esta desgraça para o futuro do País, falo no post a seguir.

Aqui, agora, vou divagar, andar pela beira do rio. À chuva.






Pela beira do rio, nestes dias de cinza e névoa, não há gente. Está frio, húmido, há um desolamento triste no ar. As águas revoltas atiram-se contra os paredões do cais, elevam-se nos ares, o estreito caminho todo molhado, uma pessoa que por ali vai, à chuva, encolhe-se na sua irrelevância, os sons da natureza são fortes, as águas tornam-se ruidosas, batendo agrestes contra as paredes.




Nestes dias, em que o meu rosto fica molhado e em que o ar que respiro é neblina e maresia, eu poderia chorar que nem eu mesma daria por isso. O tempo cinzento torna-me mais sensível, parece que também fico triste, vou andando rente às paredes em ruínas e alguns pensamentos mais lacrimosos chegam até mim: o que eu faço sem gostar de fazer, o que eu gostaria de fazer e não faço, o que eu gostaria de dizer e não digo, os medos, os medos que uma pessoa sempre sente. Vou andando, molhada, o cabelo molhado, o rio parecendo um mar insubmisso e eu pensando que deveria ter coragem, dar um primeiro passo, arriscar. Não consigo sequenciar os riscos, sopesar as consequências. Apenas me rejo pela intuição. Ouço vozes mas as vozes estão fechadas no meu peito, um remoinho, as mesmas palavras, uma e outra vez, voando às voltas dentro de mim: o que eu poderia dizer, o que eu me arriscaria a ouvir, o que eu poderia responder, as aproximações, os recuos. os medos.

E, então, chegam as gaivotas. Fazem círculos no ar, gritam, cruzam o espaço, sobem, fingem que vão mergulhar, e gritam, gritam loucamente. Fica no ar o peso da sua ansiedade, da sua incontida aflição.




Detenho-me a olhá-las. Estão tão inquietas hoje. Os seus gritos perturbam-me. Ando devagar, presa aos meus pensamentos, sentindo os gritos das gaivotas como gritos meus, gritos que ninguém ouve.

O que se passa dentro de mim é como se não existisse. Penso, talvez para tentar sossegar-me: se ninguém ouve, se ninguém sabe, então é porque não existe.

Pode sê-lo de si mesma e tornar-se
vazia. O que dela é nosso
veio a ser a sua perda? 


Nem o rio opaco e mau, nem as paredes velhas e gastas, nem as gaivotas loucas, nem eu que aqui vou com passos nus, coração errante, olhar molhado, nem eu sei o que se passa dentro de mim. Como poderia outro alguém sabê-lo? Adivinhar-me? Compreender os meus pensamentos perdidos? Como poderia? Como?




Caminho e poderia caminhar até onde as pontes se afundam nas águas escuras, até onde os cabos e as cordas se afogam, até onde alguém poderia deixar-se morrer a ver ao longe o mar para onde corre este rio de chumbo, de um escuro tão pesado. Poderia deixar-me cair, mergulhar devagar, sentir o frio a entrar nas minhas veias. As águas devem estar frias, opacas. Nestas águas não há estrelas do mar, nestas águas não há luas, não há céus, não há azul.

As gaivotas hoje não vêm ter comigo, não olham para mim, não me reconhecem. Eu não me reconheço. 

Penso. Falo dentro de mim e é dentro de mim que sinto o bater de coração alheio, os medos alheios, as hesitações, os medos, as ameaças. Olho as gaivotas, continuam inquietas. Agora voam em silêncio. Já não gritam. Já não vêm delas a palavra que me recuso a pronunciar.

Ninguém
a pronuncia. Sabemos que só existe
numa página agora branca, quase
transparente.


Os meus passos levam-me, conhecem o caminho. O ar está pesado, molhado, respiro as lágrimas das gaivotas, as minhas.




Depois desaparecem. Uma única permanece, quase invisível. O céu está muito escuro, o rio escuro também. A gaivota afasta-se, sobe, de vez em quando parece querer voltar mas depois torna a subir, a afastar-se. Depois, como se se despenhasse no vazio, regressa. É como se o medo se corporizasse nessa gaivota inquieta. E grita, recomeçam os gritos.

Encosto-me às paredes. Chove mais. Recolho-me sob o tecto de uma casa abandonada, sem janelas, sem telhado, toda ela uma ferida aberta.

Penso: vou ouvir uma voz trazendo-me uma toada, um poema esvaindo-se de uma parede esventrada, sangue e saudades escorrendo das paredes que o tempo maltrata.

Recebe o sentido
do que se não exprime seque, e fica
assim: para lhe pertencerem
todas as palavras.


Penso: do fim do mundo, vai vir até mim alguém que me trará poemas que atravessam os tempos. Do fim do mundo. Do fim do mundo. Talvez um marinheiro perdido no tempo, talvez um ser anfíbio saído das águas. Encosto-me mais à parede. Mas não ouço nem um murmúrio. A parede está fria, molhada, silenciosa. 

Saio. Recomeço. Vou até onde os amantes se sentam a olhar a bela e luminosa cidade. Mas, hoje, ninguém. O amor rarefez-se, a cidade escondeu-se, a luz apagou-se.




As vozes tristes que se escondem no meu coração começam a silenciar-se. A chuva acalma-se, o rio começa a retomar as suas cores de azul. O meu coração aquieta-se. Não quero pensar, não quero esta chuva desanimada dentro do meu peito. 

Só o peso do chão
do negro chão da espera
se estende espesso a meu lado como mundo
e metáfora.

......

Fiz as fotografias, este sábado, no Ginjal.

Natalie Merchant interpreta Nursery Rhyme of Innocence and Experience
(...) 
All round her wake 
The seabirds cried 
And flew in and out 
Of the hole in her side 
(...)

A itálico, repartido em três pedaços, o poema é Metáfora de Fernando Guimarães.

O quarto pedaço é a parte final de Manhã, um poema de Armando Silva Carvalho. 

O título deste post foi retirado do poema Variações sobre Horácio, Odes, 2.10 de Carlos André

Os três poemas referidos integram o livro 'a vista desarmada, o tempo largo', uma antologia de Poetas em homenagem a Vasco Graça Moura

....

Permito-me relembrar que, no post a seguir, poderão saber a minha opinião sobre a saída de Sérgio Sousa Pinto da direcção do PS e o que penso da histeria reinante sobre as conversas de António Costa com o PCP e com o BE.

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domingo, julho 19, 2015

Uma névoa transparente pousada sobre o mar


De manhã fui à praia. Geralmente ao fim de semana, nestes dias de verão, vou à praia. A praia, quando vamos só os dois, é sinónimo de caminhada pela beira de água. 






Gosto de andar, gosto mesmo muito. Caminhar, caminhar. E poder caminhar a olhar o mar, sentindo a água fresca, aspirando a maresia, caminhar e o caminho não acabar. Sempre mais e mais mar, é tudo o que posso esperar quando me ponho a caminhar.
Posso transportar mil cansaços, mil preocupações, posso ver-me no meio de mil caminhos e de mil solicitações, pode o corpo pedir tréguas, férias, descanso, pode a cabeça pedir-me tranquilidade e nada mais do que boas leituras, pode o coração pedir-me que me deixe sossegar embalada em sorrisos e abraços, mas a verdade é que, se me ponho a caminho pela beira da água, os pés entre conchas e espumas limpas, é a esse caminhar que me entrego, sem pesos, sem laços, sem limites.

Gosto de um mar bravo, gosto de um mar atrevido, gosto de um mar azul, gosto de um mar verde, gosto de um mar negro como o de sexta-feira à noite -- mas gosto também de um mar suave, verde claro, quase acinzentado, quase branco, como o deste sábado. Havia uma névoa densa que envolvia as águas, que iludia as distâncias, que ocultava as pessoas.

Nos sítios onde caminhamos quase não há vivalma: um ou outro nudista, um ou outro casal apaixonado, um ou outro prazer clandestino que se procura nas dunas. Mas, este sábado, o silêncio era total. O mar estava brando, o horizonte estava escondido, a maresia era suave e boa, e a transparência branca da neblina parecia esconder sonhos, segredos, promessas, palavras murmuradas com amor, nostalgias.




Sobre as águas, alguns seres caminhavam também e também em silêncio.

E eu, caminhando, leve, pela beira da água, ia pensando em tudo o que de bom se debruça sobre mim. Os sorrisos tão bons, as mãos tão amigas, os dizeres de um profeta que me é trazido pela manhã, a proximidade calorosa dos que me amam, as palavras que envolvem atraentes estranhezas, memórias doces, um presente afável, espelhos nos espelhos, oferendas e poemas, tudo tão estranho, tão bom.

E vou pensando na emoção perante a natureza. E perante a arte. Tantas vezes me emociono, e tanto que gosto de falar da emoção perante a arte, a que não precisa de explicações, e na emoção que as palavras me trazem, e os olhos húmidos, os meus, ao ler, pela manhã. inesperadas palavras que me falam do desapego pela vida que protege a vida. Espelho no espelho no espelho.

A vida é bela e, no silêncio de uma praia envolta num manto transparente, dentro do mar, eu sinto-me agradecida, tão agradecida. E esqueço-me de todos os meus problemas, de todos os meus laços, de todos os meus limites,



(...)
Devagar vou beijando esta água que esplandece nas veias arqueadas,
pontas de fogo nas mãos,
relevos de outros luxos vulcânicos,
hoje regatos de pedra, testamentos, no silencioso acordar
da casa adormecida.

Estou só entre estas mãos, a água e o meu passado.
Gostava que a idade fosse o espelho
(...)

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A música é outra vez, sempre, sempre, "Spiegel im Spiegel' de Arvo Part 

O excerto de poema pertence a 'A água' de Armando Silva Carvalho da Assírio & Alvim

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E agora, para ver o acto amoroso de fazer jóias belíssimas, desçam por favor até ao post seguinte.

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quinta-feira, julho 16, 2015

A incandescência de tudo na sombra do mar


É que a pintura tem em si uma força inteiramente divina que não somente, como se diz da amizade, lhe permite tornar presentes os ausentes, mas ainda faz surgir após muitos séculos os mortos aos olhos dos vivos, de tal modo que são reconhecidos para grande prazer daqueles que olham com a maior admiração pelo artista.

Leon Battista Alberti, De pictura, II







A montanha Sainte-Victoire é o emblema da destituição do objecto. Eis um maciço que oferece, simultaneamente, a solidez de um corpo (que se mantém uno) e a realidade do tempo (que fluidifica tudo). Sainte-Victoire desaparece como objecto para reaparecer como corpo irradiante. A montanha pintada presentifica o tempo, a passagem que não se fixa a nenhuma posição, e a tela é o lugar da trepidação interna a cada forma (e a cada instante).

A tela abre -- dilata e planifica -- o instante pictural. Ela é a pele dos corpos ressurrectos, o exacto reverso de La peau de chagrin (esse outro extraordinário livro do Balzac sobre o desejo -- e que Cézanne tanto admirava). Ali, na vida, a pele não cessa de minguar na proporção inversa dos desejos realizados; aqui, na tela, a pele dos corpos excresce -- e a vida -- a vida desejante -- vai sempre além de si mesma. Na tela, uma outra vida eclode do corpo mortal.




Os devaneios da pintura,
os anelados cabelos do poema, o jorrar da música,
e também o respirar negríssimo
do medo e do desejo.

Tudo

baixo e liso como a terra e o verme,
a moleza da carne,
as ramagens que se esvaem na transparência dos rios.

Tudo

o que nos dá a ver este evangelho vivo
que reduz o homem à sua segunda natureza,
cega, insultuosa,
feita humilhação, pavor sem nome.



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As pinturas de Cézanne representam a montanha Sainte-Victoire

Os textos (em prosa) são excertos de Incandescência [Cézanne e a pintura] de Tomás Maia

O poema é Tudo de Armando Silva Carvalho in 'A sombra do mar'

Lá em cima, Angela Gheorghiu interpreta a ária "Vissi d'arte" na ópera de Puccini 'Tosca'

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No post abaixo poderão ver uma anedota sobre um alentejano.

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