quarta-feira, julho 15, 2026

[Em actualização: São os professores resistentes que estão a dar cabo disto tudo?]
O caos nos Exames Nacionais -- não foi a pressa, foi a INCOMPETÊNCIA

 

Adiaram outra vez. Ontem, o Ministério da Educação anunciou que a classificação dos exames que ainda faltavam prosseguiria até quarta-feira, mais um dia além do prazo que já tinha sido alargado duas vezes antes. Às 19h de segunda-feira estavam corrigidas 98% das respostas. Os 2% em falta explicam, sozinhos, o essencial do processo: são folhas mal digitalizadas ou nunca digitalizadas, provas que as escolas não chegaram sequer a entregar às forças de segurança, itens que têm de ser reclassificados porque a folha certa só apareceu depois. O Ministério garante que a afixação das pautas se mantém para sexta-feira, dia 17. Garantiu o mesmo, antes, para o dia 14, e antes disso para o dia 10.

Pedi ao ChatGPT uma imagem que ilustrasse o que se passa com
a avaliação dos Exames Nacionais e esta foi o que ele me devolveu

Vale a pena olhar para a dimensão do que falhou, porque os números, sozinhos, já dizem muito. Mais de 166 mil alunos do 11.º e 12.º anos inscritos na 1.ª fase. Mais de 300 mil provas realizadas. Segundo o próprio presidente do EduQA, um exame de Matemática tem várias folhas; multiplicado pelas 300 mil provas, isso dá cerca de quatro milhões de páginas digitalizadas num único armazém em Mem Martins, por cerca de 40 pessoas, sete dias por semana, entre as 8h e as 22h, desde 16 de Junho. Para isso foram compradas mais de 70 máquinas de digitalização a 3.000 euros cada, financiadas pelo PRR. O processo de digitalização, sozinho, já tinha custado mais de sete milhões de euros em três anos, antes mesmo desta época de exames.

O problema nunca foi a falta de equipamento. Foi tudo o resto.

Vamos por partes:


Um projecto lançado sem os fundamentos de um projecto

Qualquer pessoa que já tenha implementado um sistema de informação crítico, seja num banco, numa seguradora, numa grande empresa, num hospital, sabe que a tecnologia é a parte fácil. O que decide se um projecto desta escala funciona é o que se faz antes de o pôr em marcha: testes de carga que simulem o volume real, testes de integração entre todos os sistemas envolvidos, um grupo de key users que valide o processo do princípio ao fim em condições reais, formação adequada e atempada de quem vai usar o sistema todos os dias, manuais completos e disponíveis com antecedência, e um plano B testado para quando, não se, alguma coisa falhar.

Nada disto é visível neste processo. O único manual encontrado publicamente, o "Manual do Professor Avaliador 2026", foi actualizado a 16 de Junho, o mesmo dia em que arrancou o calendário de exames. Ou seja, a documentação de apoio a quem ia usar o sistema ficou pronta, na melhor das hipóteses, em cima da hora. Não há registo público de nenhuma bateria de testes de carga anterior ao arranque, o que é indispensável quando se sabe, à partida, que o sistema vai ter de processar mais de quatro milhões de páginas e servir milhares de professores em simultâneo. Não há registo de testes de integração entre a plataforma de digitalização (interna, do EduQA) e a plataforma de classificação (da Blat), duas peças de fornecedores diferentes que, como se veio a confirmar, comunicavam mal entre si: foi precisamente aí, na costura entre os dois sistemas, que surgiram os itens cortados a meio e as folhas de continuação em falta. E não há sinal de formação alargada aos milhares de classificadores antes do arranque, que se viram a aprender o sistema em tempo real, muitos deles convocados de um dia para o outro, alguns ao fim de semana, alguns por telefone.

Quanto ao plano B, o que existiu foi improviso disfarçado de plano. A norma do Júri Nacional de Exames dizia que o calendário tinha sido definido "de modo a acomodar eventuais contingências". Na prática, essa "contingência" resumiu-se a adiar o prazo sempre que a realidade obrigava: de 6 para 10 de Julho, depois para 14, depois para 17, e agora, no meio disso, mais um dia de correcção. Um plano de contingência genuíno define, antes de o problema acontecer, o que se faz se a plataforma cair, se faltarem folhas, se os prazos não puderem ser cumpridos, incluindo a hipótese de recuar para o modelo em papel nas disciplinas mais críticas. O que tivemos foi uma sucessão de comunicados de sexta-feira a explicar o que já tinha corrido mal.

A isto soma-se um factor que raramente é dito com esta clareza: a equipa que devia garantir tudo isto foi desmantelada a meio do processo. Em Setembro de 2025, o Governo extinguiu o IAVE, fundindo-o com mais três organismos (a Direcção-Geral da Educação, a Estrutura de Missão do Plano Nacional de Leitura e o Gabinete Coordenador da Rede de Bibliotecas Escolares) num novo instituto, o EduQA, reduzindo dezoito entidades do ministério a sete. Nessa reforma, centenas de professores que trabalhavam nestes serviços regressaram às escolas, muitos deles a meio do ano lectivo. Ou seja, a instituição que tinha de planear, testar e executar a maior operação de digitalização de exames de sempre viu parte da sua memória técnica e dos seus quadros especializados dispensados nos meses imediatamente anteriores ao arranque. Não é preciso mais nada para perceber por que motivo faltaram testes, formação e um plano B: faltou, literalmente, quem os fizesse.


Setenta scanners não é uma estratégia

Fica bem, num comunicado, dizer que se compraram "mais de 70 máquinas de digitalização de grande capacidade". Mas convém perguntar: capacidade para quê, organizadas como? A operação real, tal como foi descrita pelo próprio EduQA na visita de imprensa a Mem Martins, é uma operação artesanal: exames guardados em envelopes, arrumados em prateleiras por zona do país, com equipas a retirar agrafos à mão antes de os fazer passar pelas máquinas, e sempre que um erro é detectado, alguém tem de localizar fisicamente o envelope certo, entre milhares, para repetir o processo. Isto é o oposto de uma linha de produção industrial dimensionada para milhões de páginas.

Havia duas soluções sensatas, e nenhuma delas foi escolhida. Uma: descentralizar a digitalização pelas escolas ou pelos centros regionais de exame, logo a seguir à prova, sem custo adicional relevante, uma vez que grande parte das escolas já dispõe de equipamento de digitalização básico e de pessoal administrativo habituado a processos deste tipo. É este, aliás, o modelo seguido por sistemas de exames de grande escala noutros países: digitaliza-se junto da fonte, reduz-se o transporte físico, reduz-se o risco de um único ponto central de falha. Outra: se a opção fosse mesmo centralizar tudo num único local, então a decisão correcta seria investir em duas ou três linhas de digitalização verdadeiramente industriais, com capacidade e redundância reais, geridas por uma equipa técnica dedicada e testada, em vez de setenta máquinas de gama alta mas ainda assim manuais, dependentes de gente debruçada sobre pilhas de papel, turno após turno.

O que ficou não foi nem uma coisa nem outra. Foi uma central única, fisicamente vulnerável e logisticamente frágil, montada à pressa num armazém que, até ao ano passado, ainda imprimia os próprios exames.


A vulnerabilidade que ninguém quer explicar até ao fim

A 6 de Julho, a plataforma de classificação esteve suspensa durante mais de dezoito horas por causa de uma "fragilidade de segurança". O ministro garantiu que não houve ciberataque nem intrusão. Mas admitiu, ele próprio, que a segurança informática das plataformas era "o maior risco" de todo o processo de correcção digital. Ou seja: o Governo sabia, à partida, qual era o ponto mais perigoso do sistema, e deixou-o entrar em funcionamento a tratar os dados pessoais de mais de 166 mil alunos, a maioria deles menores, até que uma consultora chamada de urgência, já com o processo a decorrer, descobriu a falha.

Ficam por responder perguntas que deviam ter resposta pública, categórica, e não vaga. Houve ou não acesso indevido aos dados dos alunos durante essa janela de vulnerabilidade? O Bloco de Esquerda colocou exactamente esta questão ao Ministério, sublinhando que uma falha numa plataforma que associa provas de exame à identificação de alunos menores é, em si mesma, potencialmente uma violação de protecção de dados com obrigações legais próprias, independentemente de ter havido ou não exploração efectiva da falha. Até hoje, não há uma resposta pública e detalhada, apenas a garantia genérica de que "os dados estão seguros". E há ainda um episódio paralelo, nunca oficialmente confirmado nem desmentido com provas, de uma alegada fuga de informação da própria Blat, em Maio de 2026, que teria exposto dados de dirigentes do PSD e mais de um milhão de linhas de comunicações internas da empresa com os seus clientes. Não há registo de que esse incidente tenha sido notificado à Comissão Nacional de Protecção de Dados, como o RGPD exige em caso de violação de dados pessoais. Não é preciso provar que os dois episódios estão ligados para perceber que ambos apontam na mesma direcção: uma cultura de segurança informática desadequada à criticidade da informação que esta gente tinha em mãos.

E aqui há uma obrigação legal que não pode ficar por cumprir por simples conveniência política. Quando existe uma vulnerabilidade confirmada numa plataforma que trata dados pessoais de menores, incluindo dados relativos à sua avaliação escolar, a Comissão Nacional de Protecção de Dados tem de apurar, com poderes que o Ministério não tem sobre si próprio, se houve ou não acesso indevido, e a que dados exactamente. Isto não pode ficar resolvido com a garantia genérica do próprio visado, o Ministério a dizer que os dados do Ministério estão seguros. Se a CNPD concluir que houve violação, mesmo que parcial, mesmo que sem exploração maliciosa comprovada, existe o dever legal de notificar os titulares dos dados, ou, tratando-se de menores, os seus encarregados de educação, dentro dos prazos que o RGPD define. Até hoje, não há notícia pública de que a CNPD tenha aberto um processo, nem de que qualquer família tenha sido notificada de fosse o que fosse. Este silêncio é, em si mesmo, uma lacuna a apurar: ou a CNPD já investigou e concluiu que não houve violação, e isso devia ser dito publicamente e com clareza, ou ainda não investigou, e devia.

E depois há a pergunta mais simples de todas, a que qualquer auditor faria em cinco minutos: quem teve acesso físico às provas? Sabe-se que, para tentar cumprir os prazos, foram chamados a corrigir e a mexer no processo técnicos do EduQA e elementos do gabinete do secretário de Estado que não pertencem ao Júri Nacional de Exames, o que os próprios críticos do processo apontam como um risco directo para o princípio do anonimato: quantas mais mãos, fora do circuito formal, tiveram acesso às provas, mais difícil se torna garantir que não houve troca, adulteração ou erro de correspondência entre a prova física e a nota atribuída. O Ministério assegura que o anonimato "só pode ser quebrado nas escolas". É uma garantia de procedimento, não uma garantia de facto verificável por quem está de fora. Num processo tão disperso, com tanta gente diferente a circular por armazéns, plataformas e envelopes, a única resposta séria a "quem garante que a nota que sair é mesmo a do aluno" seria uma auditoria externa e independente, publicada, e não apenas a palavra do ministro.


"Faz parte da transformação digital." Não, não faz!

Perante tudo isto, o discurso do Governo tem sido notavelmente consistente: isto é normal, é o preço de qualquer "transformação digital", faz parte de "processos de mudança" exigentes. O primeiro-ministro disse-o quase nestes termos, garantindo que, depois deste "primeiro grande teste", o sistema será "um avanço" para a educação portuguesa, e queixando-se de que há quem tente "exacerbar e quase exagerar" os problemas. O ministro da Educação repete, semana após semana, que "o processo não começou bem", mas mantém o rumo.

Isto não é verdade, e vale a pena dizê-lo sem rodeios. Transformação digital feita a sério não produz este tipo de caos, produz frustração pontual e curvas de aprendizagem, coisa bem diferente de convocatórias erradas, professores reformados chamados a corrigir provas, provas sem folhas de continuação, itens que desaparecem depois de corrigidos, plataformas suspensas sem aviso, e um calendário que se vai reescrevendo a cada semana. Isso não é o preço da mudança. É o resultado previsível de lançar, em produção, sobre dados sensíveis de 166 mil menores, um sistema sem testes de carga documentados, sem testes de integração entre plataformas de fornecedores diferentes, sem formação prévia adequada, sem plano de contingência real, e gerido por uma teia de pequenas empresas contratadas por ajuste directo, uma delas com catorze pessoas e sem contrato em vigor conhecido nos últimos anos. Chamar a isto "normal" é, no melhor dos casos, ingenuidade; no pior, é a forma mais eficaz de branquear responsabilidades antes de a auditoria (se alguma vez houver uma auditoria pública e completa) chegar a alguma conclusão.


E o que ainda não sabemos

Falta ainda perceber como será feita a integração destas notas, obtidas por um processo com este historial, com a classificação interna final que cada aluno já tem na escola, e que pesa directamente no acesso ao ensino superior. Foi esta integração testada com o mesmo rigor com que se deveria ter testado tudo o resto? Não há, até hoje, qualquer informação pública sobre isso. Depois de um mês de falhas na parte mais simples do processo (digitalizar e distribuir ficheiros), não é razoável dar como garantido que o cruzamento final de dados, decisivo para o futuro de cada aluno, foi salvaguardado com mais cuidado do que tudo o resto.

O que sabemos, com certeza, é isto: um projecto desta natureza e desta escala tinha de ter sido testado antes, não corrigido ao vivo, à custa dos alunos, das famílias e dos professores. Não foi.


Pressa ou incompetência?

Fica a pergunta que tudo isto convoca: é o preço da pressa, ou é o preço da incompetência? A distinção interessa, porque não são a mesma coisa e não merecem o mesmo perdão.

Se fosse só pressa, o padrão seria outro: um sistema bem desenhado na sua concepção, mas comprimido no tempo, com qualidade degradada, atrasos, sim, mas dentro de uma lógica reconhecível. Pressa explica cortar testes de aceitação à última hora. Não explica não ter testes de carga nenhuns. Pressa explica formação apressada. Não explica não haver formação. Pressa explica um manual publicado tarde. Não explica um manual publicado no próprio dia do arranque do calendário de exames.

Há três factos, em concreto, que não se explicam pelo tempo disponível, explicam-se pela qualidade das decisões tomadas. Primeiro, o piloto já tinha falhado, e da mesma forma: o exame de Filosofia, em 2025, com 20 mil alunos, teve exactamente os mesmos problemas de plataforma e de distribuição de itens que agora se repetiram à escala de 300 mil provas. Um piloto serve para aprender antes de escalar. Não faltou tempo para ler essa lição, faltou vontade ou capacidade de a ler. Segundo, a escolha do fornecedor da peça mais crítica do sistema não foi feita sob pressão do calendário de 2026, foi feita, e mal, ao longo de uma década, por sucessivos governos: entregar a plataforma que trata dados de 166 mil menores a uma agência de catorze pessoas, por ajuste directo, sem contrato em vigor conhecido nos últimos três anos, é uma falha de contratação pública estrutural, não um efeito colateral de um Verão apertado. Terceiro, a extinção do IAVE e a dispensa de quadros técnicos especializados a meio do processo, descrita acima, não foi imposta por prazo de exame nenhum. Foi uma opção do próprio Governo, tomada a sabendo que a maior operação de digitalização de sempre estava a poucos meses de arrancar.

A pressa existiu, e agravou tudo, a decisão política de generalizar a 300 mil provas sem corrigir primeiro o que o piloto já tinha exposto é, em si, um sintoma de pressa. Mas mesmo essa pressa é, no fundo, um sintoma de incompetência de planeamento: um projecto bem gerido reserva tempo para testes e formação antes de fixar a data de arranque, não fixa primeiro a data e depois tenta encaixar lá dentro testes que nunca chegam a acontecer.

Por isso, a resposta parece-me clara. A causa matricial não é a pressa. É a incompetência, estrutural e institucional, não de uma pessoa isolada, mas de um sistema de decisão que dispensou as disciplinas mínimas de gestão de um projecto desta escala (testes de carga, testes de integração, formação, manuais, plano de contingência, fornecedor único e responsável), que ignorou o seu próprio piloto do ano anterior, e que ainda por cima se reestruturou a si próprio, dispensando quem sabia fazer o trabalho, no pior momento possível para o fazer. A pressa foi o veículo. A incompetência foi o motor. E é por isso que ninguém, até hoje, respondeu com factos concretos à pergunta mais simples de todas: quem garante alguma coisa neste processo?

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O texto acima foi elaborado com recurso a IA para obtenção e sistematização de informação junto de diversas fontes, com vista a cobrir alguns aspectos que me parecem relevantes. Como já referi, não têm conta os processos de transformação em que participei, incluindo a digitalização de processos em âmbitos diversificados, vários deles de âmbito nacional e outros para além disso. Se há temas em que sei do que falo, este é seguramente um deles. E o que posso dizer é que nunca, NUNCA, vi tamanha incompetência, tamanho amadorismo, tamanha irresponsabilidade. Um ex-colega que me ligou ontem dizia que não tem conseguido deixar de jogar as mãos à cabeça perante o que está a passar-se. Dizia ele: 'Esta gente nunca trabalhou.... esta gente não sabe como é que as coisas se fazem...'.  Um outro dizia-nos no ginásio: 'Se a Madeira quisesse invadir o Continente e tomar conta disto, com a gente deste Governo, era limpinho, num dia a Madeira estava a mandar em Portugal inteiro'. 

Face ao que está a passar-se, não era só o Ministro da Educação que deveria rapidamente ser posto borda fora: também o Montenegro, qu eé o responsável pelo Governo, deveria levar um valente apertão. Isto não se faz.

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Fontes consultadas:

Comunicados do Ministério da Educação, Ciência e Inovação e do EduQA; reportagens de Público, Observador, ECO, RTP, Renascença, JN, CNN Portugal, DN, esquerda.net e Executive Digest, entre 3 e 15 de Julho de 2026.

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Actualização

A "resistência dos professores": gerir a mudança também é gerir o projecto

Nas jornadas do PSD em Palmela, na véspera do debate do Estado da Nação, Luís Montenegro admitiu, pela primeira vez com esta formulação, que pode ter havido "alguma falha dos responsáveis políticos e dos serviços". Mas não deixou a frase respirar sozinha: a seguir, atribuiu parte da perturbação do processo a "resistência à mudança" por parte de "alguns" professores, ressalvando que "a grande maioria está com este passo". Garantiu ainda que a digitalização "é para continuar" e apelou aos colegas de Governo para "não terem receio de enfrentar as resistências" dentro dos seus serviços.

Há aqui uma inversão que vale a pena desmontar, porque é, ela própria, mais um sintoma do problema de fundo.

Gerir a resistência das pessoas à mudança não é um imprevisto externo ao projecto, é uma das componentes normais de qualquer projecto de transformação, com nome próprio na disciplina de gestão de projectos: change management. Um projecto bem desenhado antecipa que nem todos vão aderir ao mesmo ritmo, e por isso investe, antes do arranque, em comunicação, em formação, em canais de suporte e num período de transição com acompanhamento reforçado, precisamente para reduzir essa resistência antes de ela se tornar um problema operacional. Quando um primeiro-ministro invoca a "resistência" dos utilizadores de um sistema para explicar o caos desse sistema, está a descrever, sem se dar conta, uma falha de gestão da mudança, e essa gestão também é da responsabilidade de quem concebeu o projecto, não de quem o teve de usar sem preparação.

E há uma segunda inversão, mais grave. Antes de se falar em "resistência", o próprio ministro da Educação já tinha sugerido, em audição parlamentar, que boa parte dos testemunhos de professores sobre falhas concretas "é falsa". A plataforma MetaPROF respondeu publicamente que cada relato que divulga é revisto e pode incluir prova documental anexa, convocatórias, capturas de ecrã, comunicações oficiais, e acusou o ministério de tentar "inverter as responsabilidades". Entretanto, factos concretos foram confirmados pelo próprio ministério em audição: houve, por exemplo, uma professora já falecida que chegou a ser convocada para classificar provas. Isto não é resistência à mudança. É gente a apontar defeitos reais, verificáveis, nalguns casos grotescos, num sistema que não funcionava. Chamar-lhe "resistência" é, no melhor dos casos, uma imprecisão de linguagem; no pior, é transferir para a classe docente uma responsabilidade que é do desenho e da gestão do projecto.

E as novidades das últimas horas

O caso continua a ramificar-se. O Ministério alargou por dois dias o prazo de matrícula do 10.º e do 12.º anos (agora entre 15 e 24 de Julho), precisamente por causa do adiamento das pautas. Confirmou-se também que os problemas não se ficaram pelo secundário: as provas finais de Matemática do 9.º ano tiveram os mesmos constrangimentos no processo de classificação digital. E, num sinal de que a crise já mexe com nomeações dentro da máquina do ministério, demitiu-se a vice-presidente do conselho directivo da AGSE (a agência que gere pessoal e estabelecimentos escolares), Salomé Augusto Branco, a seu pedido, a 8 de Julho; o ministério nega qualquer ligação aos exames, mas a coincidência de datas, a meio da maior crise do sector em anos, não passou despercebida.

Por fim, o calendário político aperta: o debate do Estado da Nação decorre esta quinta-feira, dia 16, já sob pressão da oposição (a Iniciativa Liberal chegou a pedir o adiamento), e o ministro Fernando Alexandre é ouvido no Parlamento já esta sexta-feira, dia 17, precisamente no dia em que, segundo o Governo, as pautas serão finalmente afixadas.

Tudo isto reforça, e não contraria, a conclusão a que já tínhamos chegado: perante um projecto mal gerido do início ao fim, a resposta política tem sido, sistematicamente, apontar para fora, para os professores, para quem denuncia, tudo menos para o próprio desenho do projecto. É a mesma incompetência estrutural, agora também na forma como se fala dela.

terça-feira, julho 14, 2026

Está esclarecido, os ministros estão no governo para arranjar problemas
-- Mais uma vez, a palavra ao meu marido --

 

Hoje o nosso Primeiro fez mais uma intervenção no seu estilo, confirmando que ou tem um baixo nível intelectual ou pensa que a malta é burra. Eu apostaria que no meio é que está a virtude. Tenho para mim que quem é burro acha sempre que os outros ainda são mais burros. Após a intervenção do Luís, percebeu-se finalmente qual o grande objetivo dos ministros. O objetivo número um dos ministros é criarem o maior número de problemas possível para depois, como fez hoje o Luís relativamente ao ministro da educação e fez anteriormente, por exemplo com a ministra da saúde, vem a público afirmar que estão de pedra e cal no governo e que os nomeou para resolverem os problemas (deveria ter acrescentado: 'os problemas que criaram enquanto ministros' -- mas isso já seria pedir demais). 

Quem duvida que esta é uma prática muito salutar para organizar um governo impróprio para governar? Não há dúvida. E os exemplos são muitos e variados. 

O que tem feito a Ana Paula Martins senão criar miríades de problemas na saúde sem conseguir resolver nenhum? Missão cumprida! 

O que tem feito o ministro da educação senão criar problemas desnecessários e que  deixam as famílias dos alunos em alvoroço? Missão cumprida! 

O que fizeram as ex-ministras da administração interna e o atual ministro senão criarem problemas que se foram agravando durante o tempo que estiveram no governo? Missão cumprida! 

O que fez a ministra da segurança social senão criar um problema enorme com a lei da reforma laboral (que, por sinal, até originou um desgaste muito significativo no governo)? Missão cumprida! 

E o que fez a ministra "pepsodente" com as medidas para os jovens, nomeadamente tudo o que tem a ver com a habitação, e o ministro da coesão quando agem ou botam faladura? Criam problemas. Missão cumprida! 

Até o Bugalhito, putativo ministro, criou ontem um problema com a intervenção que fez sobre o pagamento das horas extra aos professores. Missão cumprida! 

E o que faz o Luís com as políticas de insensibilidade social e privilégio dos mais ricos? Cria problemas que não sabe resolver e que agravam a situação dos portueses. Missão cumprida! 

Tudo isto seria cómico, senão fosse trágico, revelando um amadorismo e uma falta de conhecimento e bom senso absolutamente confrangedoras.

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Para terminar. Vi na televisão umas pessoas a entrarem pela calada da noite aparentemente no armazém onde estão os exames para procurarem folhas em falta. Serão técnicos do EduQA. E, pelos vistos, também por lá andaram repórteres. Fiquei pasmado. Tendo um neto que fez exames, fico de pé atrás porque quem nos garante que estas pessoas não põem ou tiram folhas onde lhes convém, podendo, assim, prejudicar ou beneficiar alunos? A dúvida está instalada. Missão cumprida! 

O ministro é tão desprovido que origina imagens que só criam problemas ao governo e revelam a falta de rigor e de segurança que há em todo o processo. Missão duplamente cumprida!!

segunda-feira, julho 13, 2026

A bronca dos exames é o expoente máximo da extraordinária incompetência do governo? Não, há muito mais!
-- De novo, a palavra ao meu marido --

 

Então não é extraordinário ver o Bugalhito, com ar de quem acabou de se levantar e de se aperaltar, anunciar o pagamento de horas extraordinárias aos professores? Em que condição? Idiota útil? Futuro PM? Futuro ministro da educação? Ou parvinho do costume que quis encantar o ministro e tentar salvar o PSD? E não é também extraordinário anunciar que o governo vai pagar horas extras a quem faz trabalho extraordinário e tem o direito a receber o valor correspondente conforme consagrado na lei? Neste caso talvez não seja tão extraordinário, reflete apenas o espírito e a forma de tentativa de reforma trabalhista do governo que pretendia sonegar o pagamento de trabalho extra a quem trabalhavasse fora de horas. E não é extraordinário que o Luís fale sobre o problema com as avaliações dos exames no Alive em frente ao cartaz da Solverde? É o que resulta de termos um eterno bimbo sem sentido de estado e sem qualquer empatia pelos problemas das pessoas como PM. E, mesmo que involuntariamente, ainda fez publicidade aos antigos patrões, o que por si só já é bastante extraordinário. E não devemos considerar extraordinário que o ministro da educação ponha professores a digitalizar exames em máquinas 'piquininas' e, ainda por cima, quando foram a serem utilizados 40 disse que roubaram 70? O tipo fazia um programa na RTP 2 onde disse que não percebeua de educação. O tipo não percebe é nada de nada e ainda por cima desperdiçado o erário público comprando, aparentemente, muito mais equipamentos do que os necessários para garantir o funcionamento normal do processo e pondo profissionais a fazer trabalho de auxiliar da forma menos eficiente possível. 

E também me parece extraordinário que a ministra da saúde (é difícil pensar que ainda conseguirá fazer pior, mas ela consegue sempre) para diminuir a lista de esperas para cirurgias tenha anunciado uma aplicação que não contabiliza todas as cirurgias e, assim, diminuir artificialmente o número de cirurgias em espera. Que falta extraordinária de ética e de rigor! Mas, nada me surpreende quando analisamos a falta de rigor e de ética de Ana Paula. 

E não será extraordinário que o Luís consiga duplicar o valor dos gastos com o combate a incêndios? Neste caso é até muito comum. O que o Luís sabe fazer é por dinheiro em cima dos problemas. Eficiência e racionalidade não entram com ele. São coisas tão extraordinárias para ele que possivelmente nunca acontecerão enquanto for PM.

domingo, julho 12, 2026

Bugalho, o empertigado porta-voz do Luís, apareceu a tentar lavar a porcaria feita pelo Fanã Alex com uma tirada que causa vergonha alheia a qualquer um

 

Depois de, nos últimos tempos, ter andado a comer toda a espécie de petiscos e a furar metodicamente toda a dieta, com a balança já a hastear bandeiras de alerta, este sábado resolvi voltar minimamente ao meu regime. Nada de cogumelos assados ao pequeno-almoço, nada de ovas de choco ou de croquetes de alheira, nada de toda a espécie de gulodices.

Acontece que, a seguir ao almoço, adormeci. Não sei se por isso, a verdade é que acordei indisposta. 

Ouvi há tempos alguém a dizer que há pessoas que têm um aparelho digestivo tão todo-o-terreno que, mesmo que comam pedras, tudo é processado sem problemas. E pensei que, felizmente, encaixo nessa categoria. Mas este sábado isso não aconteceu.

Tendo comido uma refeição simples, surpreendentemente senti o estômago duro, inchado, dorido. E senti-me agoniada.

Para me tratar, bebi duas águas das pedras, bebi uma infusão de hortelã-pimenta. E não comi mais nada.

E, com isto, estive para aqui a ver se me passava. E não passava. 

Agora, tarde e más horas, parece que já estou normal. E normal até na fome. Estou esfomeada. Mas acho que vou resistir. Vou apenas beber água. Não me arrisco a retroceder. 

Por isso, faltou-me a disposição para agir a tempo e horas. E agora, já não com indisposição mas com fome, continuo incapaz de me atirar, com unhas e dentes, aos incapazes que conseguiram ensarilhar o que sempre tinha corrido bem: a classificação dos exames,

Quanto mais vou sabendo do que está a passar-se mais vómito vou sentindo. Em qualquer das empresas em que trabalhei, director que avançasse com uma tal barracada e que causasse tamanho granel, era encostado em três tempos. Aqui não. Ministros que façam porcaria são conservados em formol, contra tudo e contra todos. A estupidez que é isto tudo, a ignorância, a incompetência, a irresponsabilidade que tudo isto demonstra é de bradar aos céus. Poderia percorrer aqui, uma a uma, as calinadas, as abestalhadices, as cavaladas cometidas que a comunicação social vai divulgando (já para não falar no absurdo de dinheiro gasto) -- mas não estou fisicamente na melhor forma.  

Por isso, cinjo-me ao que este sábado mais me convulsionou. Penso que foi quando o meu marido ligou a televisão para ver o futebol que me apareceu o menino-velho, de fato e gravata, tentando aparentar uma gravitas que só existe na cabeça dele: Bugalho feito porta-voz do Governo e, com aquele ar de bimbo desfasado da realidade, a querer aparentar que estava a oferecer uma colher de chá aos professores, oferecendo-lhes o pagamento de horas extraordinárias aos que estão a trabalhar ao sábado.

Perante casos destes, sinto que a minha convicta costela pacifista é severamente posta à prova. Muito sinceramente confesso: perante um enfatuado destes, só penso que, se estivesse em frente dele, teria qu eme controlar fortemente para não lhe despejar um copo de água em cima 8e isto, volto a confessar, sou eu na versão soft). Então um ignorante daqueles queria que os professores, que são, para todos os efeitos, trabalhadores, trabalhassem à borla ao fim de semana? Acha que está a oferecer-lhes um presente? Pagar o trabalho feito ao fim de semana é alguma oferenda?

Devo dizer o seguinte: não têm conta as vezes que trabalhei ao fim de semana, à noite, nas férias e, sempre, sem ser remunerada por isso. Mas fiz porque queria, porque era a responsável, porque queria acompanhar as pessoas das minhas equipas (e eles, sim, eram remunerados ou recompensados quando isso acontecia). Agora os professores poderiam ser compensados de outra forma? Poderiam tirar dias de férias adicionais? Poderiam receber prémios que compensassem o trabalho não remunerado? Não poderiam, pois não? Então que raio de benesse é esta que o chico-esperto do Bugalho veio anunciar como se os professores fossem parvos a ponto de aceitar ser tratados como escravos que recebam com venerado agradecimento o pagamento que lhes é devido?

Eu, que não sou professora, senti que aquela parvoíce do Bugalho era um insulto, um insulto dos grandes. Uma pouca-vergonha.

Depois, quando questionado, fez aquele ar sonso e a disse que não é porta-voz do Governo mas, sim, do PSD. Dupla palermice: primeiro armou-se em porta-voz do governo, a seguir veio confirmar o que se sabia, que não é -- só que, se não é, porque se armou nisso?

O ridículo não tem tamanho? Não têm um espelho em casa? Não têm noção? 

Mas o responsável mor é o Montenegro. É ele. 

Este Luís está a revelar-se ainda mais nódoa do que se pensava. Perante uma barracada desta dimensão (e vamos ver como é que isto vai acabar), em vez de se portar como um homem, e exigir que o Fanã Alex se chegue à frente e explique ao País exactamente o que se passa e o que está a fazer para garantir que não vai haver danos, directos ou colaterais, ou em vez de vir ele próprio assegurar que as coisas vão acabar bem sem que um único aluno seja prejudicado, não senhor, atira com um Bugalho ainda mal acabado para a frente das televisões. 

Cambada de incompetentes, de irresponsáveis.

sábado, julho 11, 2026

A menina bonita foi ao fundo... e voltou à superfície

 

Era lourinha, lourinha, olhos tão claros que pareciam cor de um mar muito transparente. Muito bonita, muito elegante. Um rosto diferente, bom para ser fotografado.

Depois rapou o cabelo e mostrou-se rebelde e andrógina.

Depois assumiu a homossexualidade e mostrou-a de forma por vezes provocadora.

Depois o cabelo aclarou ainda mais enquanto as sobrancelhas se destacavam pela espessura e escuridão.

Modelo requisitadíssima, versátil, um perfume a modernidade, o pé fora da banalidade, a atitude a ilustrar bem l'air du temps. A moda, a publicidade, as câmaras não a largavam. Compreende-se: a sua presença magnetizante atraía.

Duas irmãs e um irmão, todos bonitos. Já algumas vezes falei dela aqui, creio que, uma das vezes, para mostrar a casa que partilha(va) com uma das irmãs.  A casa como ela: fora da caixa.

Até que confessou que as nuvens andavam a cercá-la. Começou a falar da sua depressão, das suas crises de ansiedade, de problemas que vinham desde os tempos da infância, da mãe tão perturbada. Falava disso sem rebuço, sem se vitimizar, e, ao mesmo tempo, sem meias palavras e com uma certa candura. 

E depois as drogas. De mal a pior. Foi fotografada no aeroporto descalça, despenteada, errática, perdida de todo. Tempos de descida aos infernos. A moda e as câmaras talvez tenham sugado a sua alma até às últimas gotas de resistência.

E, durante algum tempo, desapareceu de cena.

Reapareceu morena, mais tranquila, bem encarada, rosadinha e dedicada à música.

Cara Delevingne tem agora 33 anos e já mil vidas vividas. Na entrevista que aqui partilho conduzida pelo icónico Louis Theroux, ela não rodeia, não evita. E ele, com os seus silêncios e as suas subtis interjeições, leva-a pela mão. Uma entrevista que mostra bem como as coisas são quando se vive o pesadelo da dependência, como tudo foge ao controlo, como se causa dor naqueles que se amam e como, por fim, subsiste uma vergonha que parece não ter limite. 

Cara Delevingne: “Eu sabia que precisava de ficar sóbria” | The Louis Theroux Podcast

Para a nossa mais recente coleção de alta-costura sonora, apresentamos a atriz, cantora, música, musa e modelo Cara Delevingne — a desfilar na nossa passerelle virtual para falar sobre a vida sob os holofotes, amigos famosos, traumas familiares, o lado negro da moda, Karl Lagerfeld, vício, recuperação e como transformou a sua jornada de sobriedade em arte musical… Mesmo que não consiga diferenciar a alta-costura do farelo de aveia (desculpem, piada velha)… prêt-à-porter de prêt-à-manger… Coco Chanel de cereais de chocolate… Estou a ficar sem fôlego…


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E se o que escrevi vos aparecer aos soluços ou todo gralhetado, por favor relevem. Estou a escrever e a adormecer. Acordei cedo demais, os banhos de mar têm sido bons e demorados, finalmente um mar bom para se lhe nadar dentro, as caminhadas à beira de água também têm sido boas, e, enfim, tudo junto e, na volta, acrescido de uma pitada de PDI para dar condimento, a verdade é que estou totalmente perdida de sono. Nada de mais, bem sei, isto é vira o disco e toca o mesmo. Mas há dias piores -- e hoje é um deles.
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Desejo-vos um bom sábado

sexta-feira, julho 10, 2026

Ver estrelas... ou obrigadinha mas não...

 

Dantes tinha um hábito que, nos últimos anos, fruto das circunstâncias, se perdeu. Consistia no seguinte: sempre que estava de férias, marcava massagem no hotel. Quase que recordava os hotéis pela qualidade das massagens. 

Por exemplo, não me lembro nada de como era um certo hotel na Costa Vicentina mas jamais me esquecerei da épica massagem dada por um massagista homem, indostânico, que vimos a chegar numa motoreta, e que, quando cheguei à salinha, me mandou despir com ele presente, eu sem saber se haveria de fugir, se aguentar firmemente. Aguentei. Despi-me de costas para ele, temendo virar-me não fosse ele estar a olhar par amim. Um filme. Mas estava com um lençol ao alto, cobrindo-se a ele próprio até que depôs o lençol em cima de mim. Não me esqueço da minha inquietação. As massagens, até então, sempre tinham sido dadas por mulheres, tudo segundo um protocolo de reserva e privacidade que nada tinha a ver com este massagista. Pensei que era chato desistir pois podia estar a descriminar o homem só por ser homem, só por vir de uma outra cultura. E não me arrependi, foi uma bela massagem, decente, eficiente. Mas não repetiria pois, do que me recordo, acho que não consegui estar devidamente descontraída.

Pôr o corpo nas mãos de alguém é sempre, de certa forma, um tiro no escuro. Uma de que me lembro bem foi com uma jovem. Segundo me disse depois, era a primeira semana que fazia massagens. A massagem era para ter durado cinquenta minutos e levou quase duas horas. O vagar com que se aplicava, o vagar com que punha o óleo, tudo muito lentamente, quase milímetro a milímetro de pele. Eu estava na boa mas só pensava que, ao ritmo a que ela estava, nunca mais de lá eu saía. Finalmente, uma vez que a massagem incluía massagem na cabeça, fez a linda proeza de também me pôr óleo na cabeça. Escusado será dizer que saí de lá com o cabelo todo oleoso, a precisar de ser urgentemente lavado. Mas não me queixei, provavelmente até a elogiei. Não quis assustá-la ou desmotivá-la. Quando cheguei ao quarto, o meu marido já estava apreensivo pois eu nunca mais aparecia e não lhe parecia possível que eu estivesse aquele tempo todo a levar uma massagem.

Mas, peripécias à parte, lembro-me com saudade de quando escolhia as massagens, se eram de pedras quentes, se eram de relax, se eram de vitalidade, se eram sei lá do quê -- e só ver a descrição de cada uma já era parte do prazer de as levar.

Agora onde temos ficado nos últimos tempos, o hotel é bom mas é um hotel de charme, mais pequeno, sem algumas dessas mordomias que eu gostava de desfrutar. Portanto, massagens em férias não tem havido. 

No entanto, apesar de experimentar diferentes tipos de massagens: azeite, chocolate, pedras, etc, sou conservadora: só as levo em lugares 'normais', asseados, em que há garantias mínimas de que serei atendida por uma mulher, boa profissional. Por muito afamadas que possam ser algumas outras massagens, jamais eu ousaria tentá-las. Há aquilo de se dizer 'nunca digas nunca' mas, neste caso, tenho a certeza que o mais longe que a minha temeridade me permite é o que já permitiu e não voltará a permitir: a massagem dada por aquele homem, segundo protocolos atípicos. Não correu mal, foi uma boa massagem. Mas podia ter sido desconfortável. E isso eu não quero. 

Têm fama as massagens dadas por indianos na cabeça de homens. Vejo e imagino que seja até hipnótico, se calhar agradável. Mas eu não meteria a minha indefesa cabeça nas mãos de um tipo daqueles. Vejo o que eles fazem: massageiam, sim, mas também esfreguem, batem, rebatem, viram, reviram. E, quando mete barba, só falta arrancarem a cabeça, tantas as tropelias que lhe fazem. E depois sabe-se lá que óleos são aqueles, que águas são aquelas, que intenções são aquelas. Por muito bem que possa saber, eu não deporia a minha vulnerável cabecinha nas mãos de uma enérgica criatura como esta que aqui abaixo vemos.

A massagem indiana cósmica na cabeça faz-me ver estrelas


Desejo-vos uma boa sexta-feira

quinta-feira, julho 09, 2026

Ainda o caos nos exames e o Fernando Alexandre, e, desta vez, também a FENPROF
-- a palavra ao meu marido

 

Esta nova trapalhada do governo com a classificação dos exames é apenas mais um episódio da falta de capacidade técnica e política e da incompetência gritante que este governo tem demonstrado em todos os assuntos em que se mete de uma forma mais profunda. É assim na Saúde (depois da reorganização das maternidades feita pelo governo, hoje a notícia é que o hospital de Almada está a recusar receber grávidas). É assim na Habitação com o aumento de preços a subir sem parar. É ou foi assim na Administração Interna com os enormes problemas no combate aos fogos. É assim no apoio às populações afetadas pelas tragédias que têm assolado o País. Agora chegou a vez da Educação onde a jóia da coroa, the one and only Fernando Alexandre, meteu mais uma vez a pata, desta vez, numa poça sem fundo. O ímpeto """reformista""" (e ponham as aspas que quiserem) não olha a nada. Testar as aplicações antes de começarem a funcionar, nem pensar! Não vale a pena! É preciso é fé no programador e força no teclado. Se a coisa der para o torto culpa-se tudo e todos menos o responsável e realça-se o ímpeto reformista do governo que de facto não tem qualquer capacidade para fazer as mudanças que o País precisa. Com sorte ainda conseguem descobrir que a programação foi feita pela malta do Industão e arranja-se mais um argumento para o Leitão Amaro falar na imigração descontrolada,  encontra-se  um bode expiatório e desvia-se a atenção da populaça. Lata e descaramento para propagarem uma mentira destas não falta a este pessoal (por acaso, no lugar onde estou, uma coisa é certa: sem imigrantes, não comia e o hotel não funcionava. É por estas e por outras que não compreendo os argumentos estúpidos contra a vinda dos imigrantes). 

Nada me surpreende na incompetência do governo, mas há outras coisas que me suscitam alguma surpresa. Uma delas é: onde tem estado a FENPROF? Então essa rapaziada, sempre pronta para ir para a rua manifestar-se e ocupar a comunicação social com anúncios de greves e chorrilhos de notícias, agora tem estado praticamente muda e queda? Só agora começou a dar um leve arzinho da sua graça. O que se passa? Anteciparam as férias? Renegaram a herança do Nogueira? 

Quando analisava a questão ,surgiu-me uma ideia peregrina, provavelmente, inverossímil. Será que a  FENPROF foi comprada pelo Alexandre com todo o dinheiro que atirou para cima da mesa para calar os  professores (por acaso este aumento de custos não resultou em nenhuma melhoria efetiva no ensino público). Mas devo estar enganado. A FENPROF supostamente desfilava para melhorar a qualidade do ensino e defender os alunos menos favorecidos, não desfilava apenas porque queriam ganhar mais dinheiro e  um tratamento de favor em termos de carreiras. No entanto, o que se constata é que, desde que conseguiram o que queriam em termos salariais e de carreiras, borrifaram para a qualidade do ensino e para a defesa dos alunos menos favorecidos. Parece-me que é esta a realidade. A FENPROF só se preocupa com reinvindicações salariais e, como tem um ministro que faz o que a central sindical quer, não o afronta. Mal vai a principal central sindical dos professores quando, numa situação como a atual, apenas fala de fininho. Assim se confirma qual eram as reais reinvindicações dos profs.

Parece que o Montenegro no seu objetivo de cavalgar a onda foi ver o jogo de Portugal e obrigou o Falcón da Força Aérea a fazer mais umas quantas horas de voo. Teve azar. Não conseguiu tirar dividendos da viagem. E já chega de populismo bacoco nos elogios sem sentido à Seleção nacional que fez um mundial para esquecer. Resta-me uma dúvida: quem aprova este tipo de viagens? Como se justifica que o PM passe a vida a ver a Seleção mesmo quando manifestamente nada o justifica? Se fossem outros governos e outros PM, a rapaziada da AD não se calava, agora até elogia esta falta de ética (... e lá me lembrei outra vez da Spinumviva). 

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Nota minha: como dá para perceber, o meu marido não leu o que eu escrevi ontem. Por isso, se o texto vos parecer um pouco redundante, confirmo: é mesmo. Mas a liberdade por estas bandas é total e, portanto, se ele se lembrou de escrever isto (enquanto eu cochilava de tarde), não ia fazer a desfeita de lhe dizer que não publicava porque ontem já tinha abordado estes temas. De qualquer forma, não falei na Fenprof. E ele tem uma forma talvez mais acutilante do que a minha. Seja como for, é o que é. Está dada a explicação.

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Desejo-vos uma feliz quinta-feira

quarta-feira, julho 08, 2026

Nos Estados Unidos, o rei vai nu, de fralda e de medalha de pechisbeque ao pescoço.
Por cá, o que tenho a dizer é que o Luís deu azar à Selecção e que os seus ministros dão azar aos assuntos em que mexem

 

Tenho falado nesta big barracada dos exames e pensava que apenas afectava o meu neto do 12º. Afinal afecta também o do 9º. Julgava que não, que esse tinha escapado a esta malapata das avaliações. 

Só visto. 

Há mil anos, numa outra vida, eu vigiava exames e no dia ou nos dias seguintes recebia uma molhada de exames para corrigir. Levava para casa, via tudo no prazo, lançava as notas. Não me lembrro de alguma vez ter havido qualquer crise, qualquer drama. Tudo decorria com previsibilidade.

Mas é natural que se introduzam mudanças, se digitalizem processos.

Numa outra vida, não a da docência mas a das empresas, não têm conta as brutais transformações que se operaram nos processos. Sendo um grande grupo com muitas empresas, geograficamente dispersas e não apenas em Portugal, de cada vez que se avançava para uma grande transformação, o planeamento, o acompanhamento, os testes, eram vistos ao milímetro. Não havia hipótese de falhar alguma coisa pois já tudo tinha sido exaustivamente ensaiado e validado por todos os utilizadores chave. E, ainda assim, havia planos de contingência. Em processos vitais, se no dia do arranque do novo processo houvesse algum problema e não se conseguisse sanar ao fim do tempo máximo convencionado (1 hora, por exemplo, ou meio dia, em casos menos críticos), o plano B entrava em acção.

Isto a que assisto neste processo deixa-me doida. A única coisa que me ocorre é que é gente muito incompetente, muito impreparada, incapaz de assumir funções deste nível de responsabilidades.

Percorram-se os ministros um a um e acho que os que não são flagrantes candidatos a irem borda fora são os que andam na moita, sonsos, calados, sem fazer nenhum a ver se a gente não dá por eles.

Mas, claro, tudo responsabilidade do habilidoso-mor, o Luís, que os escolheu e que, tendo-se comprovado os eros, não os corrige. 

Acresce que andou de rabo alçado a caminho do futebol, com conversas pirosas, motivacionais, e já se viu no que deu. Tivesse ele estado calado e quieto e talvez agora não ficasse tão colado à derrota da rapaziada da selecção. Podem vir dizer que a culpa é do treinador ou do Ronaldo que já deu o que tinha a dar ou do que quiserem, e certamente têm razão. Mas quem se colou, à cara podre, a eles foi o Luís. Por isso, o Luís é um dos derrotados -- e que o discurso de que deveríamos todos ser como o Ronaldo lhe faça bom proveito. E se ninguém ainda lhe disse, digo eu: tão importante como ter boa forma física ou um talento enorme para o futebol é saber perder, é sair dignamente, seja do campo, quando é substituído, seja da actividade, quando as mais valias já não são aquilo que deveriam ser.

E termino referindo o palhaço-mor, o abestalhado demente Donald, que parece que entrou em acelerada derrapagem mental. Voltou à carga com a Gronelândia, quer largar a Nato, quer lançar a confusão total, para consolo de Putin. E a cambada Maga mais os cobardes e, em alguns casos, burros chapados dos republicanos, no Congresso e no Senado, não são capazes de lhe tirar o tapete. A única, mas mesmo a única, coisa que atenua a minha estupefacção e irritação perante a alarvidade de tudo o que vem daquele estupor é pensar que talvez sirva de vacina. Mas mesmo nisso não estou muito optimista. Cada vez mais me convenço que uma parte significativa da população (provavelmente em torno dos 25%) é mesmo constituída por uma mescla variável de gente burra, estúpida, ignorante, passiva-agressiva, psicopata, invejosa, ressabiada, parva -- gente que se revê em líderes como Trump.

E fico-me por aqui. Não me apetece perder mais tempo com gente desta.

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Desejo-vos um bom dia

terça-feira, julho 07, 2026

Ex-mundial com o rabo entre as pernas, futuro ex-ministro dos exames nacionais com o rabo e a cabeça entre as pernas.
E, para fugir ao faduncho, mulheres de outro mundo

 

Estava com parte da família a ver o futebol, mas estava tudo morno. O meu marido, durante parte da segunda parte, foi dar uma volta. Os rapazes estiveram, a maior parte do tempo, em silêncio. Eu ia falando com a minha filha enquanto íamos olhando o ecrã mas parece que não se passava nada. Uma coisa quase sepulcral. Como não consegui prestar atenção, só posso dizer o que me parecia de cada vez que me focava no jogo: era como se houvesse uma suspensão, quase uma slow motion, quase como se toda a gente antecipasse que o caminho estava traçado. No início ainda imaginei que pudesse haver um bom desfecho. Mas, logo que me apercebi da marcha fúnebre, deixei de alvitrar. 

Mal o jogo acabou, os rapazes levantaram-se em silêncio e retiraram-se. O meu marido insultou uns quantos e disse que por ele até é melhor: assim já pode ver o resto do mundial sem se enervar. 

Tive pena mas tive muito mais pena ainda quando Cabo Verde foi eliminado. Os rapazes cabo-verdianos, esses sim, entregaram-se com uma alegria, uma genica, uma capacidade de luta e umas ganas de irem atrás de um sonho que foi tão contagiante que me agarraram e me puseram a vibrar com eles.

Quanto às notícias, o que tenho a dizer é que a cegada da avaliação dos exames é uma coisa sinistra. Como é possível que se lance um novo sistema, uma nova metodologia, sem tudo ser testado sob todos os pontos de vista: do ponto de vista técnico, funcional, de formação de quem vai usar (os professores) e de carga (todos ao mesmo tempo). Uma coisa tão transversal e com tamanho impacto só poderia ser lançada  depois de resistir à lei da bala, não falhando um único ensaio. Aquilo a que se assiste é de um tal amadorismo, de uma tal inexperiência, de uma tal impreparação que até dói.

Tenho um neto à espera dos resultados para saber o que vai ser a sua vida. Ele e todos os outros nas mesmas condições, depois de tanto estudarem e de de saberem que estão num momento charneira das suas vidas, encontram-se neste limbo: 

  • no caso do meu: por um lado a selecção portuguesa -- segue ou não segue? (e, já se viu: não seguiu) 
  • e, por outro, a espera pelas notas: chegam ou não chegam para entrar onde se quer? Os exames vão ser avaliados ou não? E, se não conseguirem levar adiante a avaliação, em tempo útil, o que acontecerá?
E as explicações que se ouvem e o ar espaçado do ministro são de uma tal indigência a todos os níveis que a gente já nem estranha que o dito ministro nos apareça com ar de quem nem tomou banho, o cabelo com ar de estar sujo e mal cheiroso.

Mas não me apetece continuar a escaranfunchar nestes assuntos senão começo também a pensar no body guard do Luís, o trauliteiro que dá pelo nome de Hugo Soares, e isso seria, da minha parte, bater no fundo. E não me apetece.

Vou antes derivar para outras paragens. Mulheres que se situam à margem das marés, que não encaixam no mainstream, que não querem nem saber das últimas modas. Poder-se-ia pensar que as duas de que aqui trago notícia estão nos antípodas. Em termos práticos e objectivos, estão. Subindo um pouco mais, vendo de mais longe, são parecidas. Fascinantes.

A artista que vive na floresta

Há muito tempo que queríamos conhecer Maria, uma artista sueca que vive numa pequena casa de madeira perdida nas florestas da Suécia com o seu companheiro, Johannes.
Juntos, recriaram um mundo mágico, fora da realidade e da lógica, onde vivem e trabalham. Maria recolhe a madeira que a floresta lhe oferece para a transformar em obras de arte, e vive desta atividade há mais de 30 anos.

No entanto, o que pode parecer uma vida de conto de fadas esconde, na verdade, a fragilidade de uma floresta que precisa de ser defendida. Maria e Johannes optaram, à sua maneira, por lutar para a proteger.

Fran Lebowitz não tem smartphone, portátil ou filtro

A nova-iorquina Fran Lebowitz construiu uma carreira satirizando a vida moderna. Numa conversa acutilante e divertida com Benjamin Law, reflete sobre um mundo em turbulência, abordando temas que vão desde Trump às esposas tradicionais.

Desde os seus livros best-sellers a participações em talk shows noturnos e ao filme Pretend It’s a City, de Martin Scorsese, tornou-se uma das vozes mais singulares dos Estados Unidos.

Agora, em 2026, enquanto a democracia estremece e o caos político aumenta, Benjamin Law conversa com Lebowitz para lhe perguntar: como é que ela interpreta o que estamos a testemunhar em tempo real?

Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, julho 06, 2026

Sirenes, moscas e moscardos, aspersores e mangueiras

 

Não sei se já alguma vez falei nisto mas o meu marido, que é zeloso, de noite costuma activar um dos alarmes parciais que o nosso sistema de segurança tem, para cobrir algumas partes da casa que não estão propriamente à vista, como, por exemplo, a garagem, o sótão e outros pontos que o técnico de segurança identificou. Tudo bem, não tem qualquer problema.

O que acontece é que ontem esteve todo o mundo a ver futebol, a França - Paraguai, até às tantas. A seguir foi aquela dinâmica do vai tu, já vou, vai tu primeiro, etc. Depois é a cena das lavagens de dentes e ida à casa de banho. Finalmente, o mais pequeno disse-me que só me dava um beijinho se eu lhe contasse uma história a preceito. Conclusão, a operação 'cama' não acabou cedo e só depois peguei nisto. Ou seja, deitei-me tarde. E já sabia que a alvorada seria cedo. Mas não tão cedo. É que às sete, ou se calhar antes, desata a sirene do alarme a tocar. E, quando isso acontece, todos os cães das redondezas desatam a uivar. Um sobressalto. Acto contínuo, o telefone da central de segurança. Tinha sido qualquer coisa no piso de cima. O meu marido foi ver. E não era nada. Quando os quartos, que são cá em baixo, estão todos ocupados, o cão é isolado para não ir chatear ninguém, e geralmente vai para o piso de cima. Deve ter dado um salto do sítio onde dorme para o chão ou coisa do género, o que, em condições normais, não acontece. Resultado: com o susto, espertei. Portanto, passei o dia todo perdida de sono. À tarde, já só nós os dois, mal me encostei adormeci. Mas, como é certo e sabido que, se durmo de tarde, tenho insónio de noite, o meu marido não teve cuidado para não fazer barulho perto de mim e acabei por apenas dar uma cochilada.

Há bocado fomos fazer o nosso passeio nocturno e, quando saímos, o alarme fica sempre ligado. Mal tínhamos andado um bocado, outra vez aquele chinfrim que se ouve em todo o lado e arredores. Desta vez assinalou que era na sala. Voltámos atrás. Mais uma vez nada. Aliás, as imagens mostravam que nada. Mas, mal entrei, ouvi um zzzz. Provalmente, uma mosca ou moscardo a passar em frente ao vídeo-sensor.  Felizmente estamos cá, deu para validar no local. 

Mas já apanhámos, uma vez, um susto às três da manhã, quando estávamos no campo, com uma chamada da central de segurança. Os vídeos não mostravam presença humana, mas não ficámos descansados. A polícia que lá foi também confirmou que não havia problema. Mas apanhamos sustos. E tenho ideia que nesta época de calor é pior, deve haver insectos nocturnos que se passeiam onde não devem. São os chamados falsos-positivos. 

E estou a falar nisto pois estou a escrever e a ouvir um zumbido. E é enervante. Zzzzzzz.... Não tarda estou toda picada. Acho que temos mesmo que tratar das redes mosquiteiras. Ontem, perdida de sono quando cheguei à cama, também a ouvir zzzzz e a pensar que deveríamos acender a luz e ir à caça. Mas com o sono com que estávamos. Tanto mosquito ou melga ou lá o que é.... O meu filho falou numas fitas para pendurar no exterior, acho que também temos que tratar disso. Que castigo que está ser este ano...

Também aconteceu outra contrariedade. Habitualmente a rega funciona de noite. Mas agoras temos painéis solares para autoconsumo e, portanto, regulámos a rega para a parte da manhã. E vimos que, num ponto, um aspersor está fora e, portanto, sai a água toda e não rega nada, fazendo com que nos aspersosres seguintes a água saia com menos força. Fomos tentar encaixar e não encaixa nem por mai suma, não enrosca, não se percebe. E, numa das partes principais do jardim, pura e simplesmente não há rega. Andámos à procura e vimos que há uma rotura por detrás de umas treliças. O espaço é apertado e tem trepadeiras. Por isso não foi fácil lá chegar. E vi uma imensa poça de água e não percebi de onde vinha a água. O que sei é que não chega depois aos aspersores que se seguem. E agora arranjar alguém que se ocupe disto...?

É certo que são males menores, coisas de nada, irrelevâncias. Mas eu prezo muito o meu jardim. Andei de mangueira a regar à mão mas não dá, é complicado. E a mangueira que ali temos é fraca, retorce-se, engalfinha-se nela própria, trinca, e a água não sai. Tenho que estar sempre a voltar atrás, uma perda de tempo.

Nestas coisas o meu marido chuta para canto, se não regar, não regou, não quer saber. Anda sempre de maquinaria em punho, a desbastar a sebe, a desbastar as buganvílias, a cortar as glicínias que trepam para o telhado. Somos o oposto: preocupo-me é com a rega e, de resto, gosto é que tudo cresça à vontade e à vontadinha.

E é isto. Por uns motivos ou por outros há sempre coisas e coisecas. Se, quando eu estava a trabalhar, me viessem com estas conversas eu fartava-me de rir: frioleiras, preocupações de gente desocupada. E não considerava que fossem problemas. Eram simples ocorrências que se resolveriam, se calhar até por si. Mas é o que é. Mudam as circunstâncias, mudam as perspectivas. 

E mais não digo. Vou pirar-me daqui que já não aguento o estupor da mosca só a zumbir e a vir pousar-me ora na perna ora no braço, já estou cheia de comichões só de a ouvir. Caneco.

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Só mais uma coisa antes de ir: já viram a cor da buganvília lá em cima? Não é tão linda? É a tender para o alaranjado, acho-a mesmo alegre e bonita.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira 

domingo, julho 05, 2026

Nomeio-te, logo existes

 

Com a família cá, ditosos são sempre esses dias. Mesmo com o calor tropical, a leveza envolve-nos. Houve quem viesse para o almoço, houve quem viesse para o lanche e houve quem ficasse para o jantar e houve até um que veio depois de jantar.

E agora, depois de se ver o futebol, três deles já dormem. Desta vez não houve disputa sobre quem ficava na cama grande: aceitaram pacificamente que a mana, grande como já está, é justa dignatária do privilégio. 

E eu já estou cheia de sono. E já sei que acordarei cedo, chilreiam que é um gosto, e talvez com uma visita ao quarto. Por isso, vou ser breve.

Antes do jantar, enquanto os meninos estavam nos banhos, sentei-me um pouco e reparei que a grinalda de bolas coloridas, que se acendem a partir da luz solar, finalmente se acenderam. Era um botãozinho que tinha que ser mudado. Ficou tão bonito. Gosto imenso de luzinhas, acho que dão um ambiente muito feliz. Só não encho tudo de luzinhas porque sou impedida.

E ainda fiz uma ou outra fotografia. Gosto imenso de fotografar. Mas, antes de fotografar, gosto de ver. Gosto de estar entre o verde, entre as sombras que mudam, junto à luz que vagueia embelezando tudo, trazendo o requinte do dourado aos espaços, gosto de sentir que sou parte integrante do lugar e do tempo, estou ali como uma árvore ou uma flor está, como um bicho, sou o pó das estrelas que um dia voltará às estrelas.

Já várias vezes aqui trouxe os hábitos japoneses com que tanto me identifico. Volto ao assunto. Sigo esses hábitos sem saber que podem não ser apenas excentricidades minhas, que há palavras para nomear esses momentos de pura felicidade. Partilho-os.

6 palavras japonesas que vão mudar a sua visão da natureza

Há momentos na natureza que muitas vezes ignoramos.

A forma como a luz solar se filtra pelas folhas. A beleza silenciosa da chuva. A mudança das estações. 

Em japonês, muitos destes momentos têm palavras próprias. Algumas descrevem o que vemos, enquanto outras oferecem uma forma diferente de ver.

Neste vídeo, exploramos seis conceitos japoneses:

• Shinrin-yoku (Banho de Floresta)

• Komorebi (Luz do Sol Através das Folhas)

• Suiu (Chuva Verde)

• Fukinsei (A Beleza da Irregularidade)

• Kachō Fūgetsu (Aprender Através da Natureza)

• Mono no Aware (A Beleza da Impermanência)

Espero que estas ideias o incentivem a abrandar, a observar mais e a apreciar a beleza silenciosa que sempre esteve à nossa volta. 


Desejo-vos um feliz dia de domingo

sábado, julho 04, 2026

Estou a torcer por Cabo Verde, claro que estou.

 

Há bocado estava entretida com as minhas coisas, enquanto o meu marido estava a ver o jogo. Estava a Argentina a ganhar, por 1 a 0, golo do Messi, acho. Como sempre, dormi, acordei, li, e, naturalmente, sem conseguir prestar atenção. Como estava de calor, resolvi levantar-me e ir lá dentro pulverizar.me com a água termal da Avène. Mas, antes de sair da sala, informei: 'Cabo Verde vai meter um golo'. O meu marido nem aí, não ligou pedide. Quando estava a refrescar-me ouvi um chinfrim. Vim perguntar se tinha sido golo. O meu marido confirmou: 'Cabo Verde'. Para ver se ele aprende a dar-me atenção, não deixei passar: 'Não te disse?'.

Entretanto, agora estou a ver. Fiquei curiosa. E, na realidade, é extraordinário. Os pobres argentinos já com os bofes de fora, estafados, o Messi a destilar. E o Vozinha pimba, pimba, a apanhá-las todas.

Perguntei ao meu marido se a Argentina é só o Messi ou se há outros bons. O meu marido respondeu: 'Pois, acho que é isso, parece que é só o Messi'.

Entretanto, estamos no prolongamento e a Argentina marcou outro.

Seja qual for o resultado, Cabo Verde já mostrou o que é a motivação. Favas contadas nem a Rússia a invadir a Ucrânia ou os Estados Unidos a atacar o Irão. Os grandes e poderosos tropeçam nos pequenos, e custam a levantar-se.

Mas vá, agora vou parar de escrever para torcer por Cabo Verde.

O meu marido prefere que eu não preste atenção. Não gosta de falar enquanto vê futebol e eu tenho sempre muitas dúvidas. Gosto de perceber.

Mas, pronto, calo-me já, metaforicamente falando, e vou fazer o meu canto de incentivo: 'Cabo-Verde, Cabo-Verde!'

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Update

Voltei a virar-me para o meu marido e comuniquei: 'Vão marcar outro golo'. Nem um minuto depois, golo. Até eu, que não percebo nada, reconheço que foi um golaço. Estão empatados, 2 a 2.

Força Cabo-Verde. Sou eu e o CR7 a torcermos por Cabo Verde.

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Conclusão

A conclusão é que aqueles putos são extraordinários. Não perderam: ganharam a admiração do mundo.

sexta-feira, julho 03, 2026

Enquanto Portugal tenta sobreviver, eu entretenho-me a festejar os 100 anos de Mel Brooks
-- Portugal, salvo seja, calma aí: a Selecção Portuguesa... --

 

Para já, chama-me a atenção o equipamento, muito fofo. Gosto. Mas, assim de repente, olhei para lá e pensei que estavam a dar algum outro jogo, não reconheci aquela roupa. Depois é que vi o Cristiano Ronaldo e percebi que são eles. Mas não percebo porquê porque o equipamento dos outros é azul, não se confundiria com o nosso, o tradicional. Mas é um pormenor, este equipamento também é bonito.

Tirando isso, não digo nada. Às vezes tenho premonições e acontece que, enquanto dura aquela excitação, eu digo: 'Não há crise, vão ganhar', mas, desta vez, talvez porque a coisa ainda não encarnou em mim, não tenho nenhuma previsão.

O que posso dizer é que este calor me derete. De dia, esteve horrível. O cão deita-se ao comprido no chão de pedra e eu deveria ter feito o mesmo.

Mas, ainda assim, tratei de uma data de coisas chatas e, quando consigo chegar a bom porto em tarefas que metem registos em portais do estado, em que nada é explícito, em que do call center ninguém atende, mas, ainda assim, consigo chegar ao fim, fico contente. O meu marido, então, não tem pachorra. Diz que delega isso tudo em mim porque eu gosto de fazer estas coisas. Não é verdade. Não gosto. Tenho é uma persistência que faz com que não largue até chegar ao fim, por mil obstáculos que me surjam.

À noite, depois de ver as notícias e ao querer distrair-me, apareceu-me a notícia de que Mel Brooks fez 100 anos. Inacreditável. 100 anos de boa disposição, de bom humor. Gosto muito dele, sempre gostei, sempre gostei de pessoas que, sendo boas pessoas, pessoas decentes, são, contudo, inofensivamente mal-comportadas, dos que pisam sistematicamente todas as linhas vermelhas, dos que são mais ireverentes do que o normal bom senso recomendaria. Faz falta termos mais pândegos assim. Agora, ao mesmo nível de maluqueira só mesmo o Trump. Falha é naquilo de ser boa pessoa, de ser decente.

Mas, enfim, enquanto a rapaziada por ali anda afincadamente a correr atrás da bola, eu atiro foguetes pelo Mel Brooks.

Aos 100 anos Mel Brooks não tem planos para se reformar

À nossa equipa desejo que siga adiante

e

a todos

um dia feliz

______________________________

E seguiu

Força, malta!

quinta-feira, julho 02, 2026

O Leitão, o Ventura, a Ramalho e o Alexandre ou a "liga dos sem vergonha", sem esquecer, bem entendido, a Dona Ana Paula e o chefe deles todos, o Luís
-- E, finalmente, eis que o senhor meu marido se dignou, de novo, a dizer de sua justiça --

 

Ouvir um tipo que é jurista e deputado dizer que o governo não deve cumprir uma ordem do tribunal é assustador e chocante. Assustador porque percebemos que a extrema direita se sente com poder suficiente para fazer este tipo de afirmações, chocante porque apesar desta e de outras afirmações semelhantes ou piores, muita gente vota neles. O Ventura é o Trump cá do burgo. Populista, demagogo, xenófobo e autocrata -- e podem ver pelo que tem acontecido no EUA e no Mundo o desastre que é eleger um tipo com esta natureza. Devia servir de vacina e ninguém votar num tipo sem um pingo de vergonha! 

Mas neste cantinho à beira-mar plantado temos outras aberrações semelhantes. 

As afirmações que o "Lentão" Amaro fez recentemente sobre a imigração confirmam que a xenofobia e a direita mais populista ocupam lugares de relevo no governo. Ter um ministro que, das duas uma, ou não tem um mínimo de conhecimento da realidade ou mente descaradamente é uma vergonha para quem os elegeu, para quem o escolheu e naturalmente para o próprio. 

Outro elemento do elenco governativo que se pauta por uma enorme falta de vergonha, basta relembrar as mentiras que foi dizendo para suportar as suas tentativas legislativas discriminatorias e com cheiro a direita saudosista é a Palma Ramalho. É preciso não ter vergonha para fazer o que tem feito mas, é preciso ser verdadeiramente desavergonhada para manter a reforma da lei laboral na agenda após 12 meses de negociação e namoro ao Ventura que no final redundaram no colossal fracasso que conhecemos. Como é possível tanta falta de razoabilidade e de vergonha!

Não procurando ser exaustivo sobre os membros do governo que fazem parte da "liga dos sem vergonha" e sendo óbvio que o PM e a ministra da saúde são sócios desde a primeira hora (como é possível a ministra ter gasto mais 21% na saúde, termos atingido o caos atual e não ser corrida?) tenho que referir mais um que está de corpo e alma na liga: é o rapaz da Educação. O Alexandre depois de torrar dinheiro em tudo o que dava chatice decidiu tentar fazer umas coisitas que não correram nada bem. Desde os números sem fundamento relativos ao número de alunos sem aulas, referidos pelo ministro até à vergonha que é o atual processo de correção dos exames, existem bastas razões para incluir este ministro em lugar de destaque na "liga dos sem vergonha".

Mas tenho que voltar à da Saúde. Com estes calores extremos, o que ouvimos à que nunca mais é ex é que alerta para o aumento da mortalidade. Mas alguém morre porque quer? O que é isto de alertar para a o aumento de mortes? Não passa pela cabeça da Ana Paula Martins que o que ela tem que fazer é dar conselhos práticos, é informar sobre medidas concretas, é fazer com que haja meios para minimizar insolações ou para acudir rapidamente a quem se sinta mal? O que mais esta senhora tem que fazer de mal para que o Luís perceba que mantê-la é caso quase de alarme social?

E é destas vergonhas que se vai fazendo uma parte da politica em Portugal. Que vergonha!

quarta-feira, julho 01, 2026

As confissões de Alexandra Lencastre no Leite Show
(Já entrei na silly season, só pode)

 

Fui picada no braço, tenho para aqui uma série de picadelas que estão a ficar bem eriçadas. Dão-me uma comichão dos diabos. Já desinfectei e pus pomada mas não acalma. Face a isso, não consigo concentrar-me. Devíamos pôr rede mosquiteira nas janelas. Com este calor, parece que, volta e meia, aparece por aqui uma bicheza miúda que só falta comer-nos vivos.

Sobre o dia, nada de mais a dizer. Continuo sob o compasso de espera que o contratempo de sábado impôs e isso parece abrir um hiato em que as hipóteses permanecem indefinidas. Nada de transcendente mas que é um transtorno, é.

Apesar disso, o dia não foi mau. Muito calor, é certo, mas, ainda assim razoável.

À noite, por aqui, a música de fundo é futebol, e este último jogo parece que foi dos bons. O meu marido disse: 'A França joga bem' e isso significa que gostou. Eu, se não é Portugal a jogar, então é que não consigo, não aguento nem dez segundos.

Contudo, ontem intervalámos e vi um programa que geralmente gosto de ver. Não vou dizer qual é porque o problema foi nosso e não do programa. 

Há uma coisa que já aprendi: as coisas não são o que são, são, sim, o que a gente quer que elas sejam. Ou melhor, como a gente as vê. Se eu olhar com prévia admiração e com total condescendência, vou gostar do que vejo. Há quase uma incondicionalidade quando a gente se predispõe a gostar. É como quando se está apaixonado: só se veem virtudes, o/a outro/a é o/a maior, a melhor coisinha à superfície da terra, a última batata frita do pacote. Quem não esteja apaixonado, olha e vê um/a tipo/abanal, com algumas virtudes mas outros tantos defeitos, um beco sem saída, uma xaropada. É assim. E ainda bem que é, senão, se todos se apaixonassem por todos, havia de ser o bom e o bonito: um bacanal que acabava em zaragata ao fim de poucos minutos.

Foi mais ou menos o que aconteceu com este programa a que me refiro. Ontem, tirando um que me causa frenicoques, sempre causou, tira-me do sério de uma maneira que me torna inconveniente, com os outros tudo bem. E estiveram os cinco ali à conversa, depois houve um momento em que apareceram outras duas, mas coisa rápida, depois, no fim, juntou-se uma jovem que, geralmente, traz um saco cheio de assuntos misturados e mal mastigados, e, por fim, despediram-se mostrando coisas. O modelo é sempre este. Mas, portanto, estavam eles ali todos numa animação, previsões apocalípticas para aqui, salvações para acolá, e um dizia uma coisa, e outro dizia outra, e eu a ouvir. E vai o meu marido e atira: 'Diz-me lá uma coisa: dali qual é que achas que é o mais maluco.'. Desatei-me a rir. E percebi o ponto dele. E, olhando sob essa perspectiva, achei a pergunta perfeitamente legítima.

E agora, depois de ter adormecido durante o futebol, vejo este vídeo que aqui partilho (e, confesso, andei aos pulinhos, fui saltando, não vi tudo), e pensei: 'Vou ver isto sob que perspectiva: a de que só posso estar maluca para estar a ver isto'? Ou sob a lente antropológica de 'deixa cá ver o que é que estes dois malucos para aqui estão a dizer'?

Não cheguei a nenhuma conclusão. Quando o tema é maluquice, vejo malucos em todo o lado. É o que se costuma dizer quando se tem um martelo na mão: veem-se pregos em todo o lado. 

Só me ocorreu que talvez a Alexandra Lencastre não tenha muitas rugas, mas parece-me que insuflou os lábios um bocadinho demais pois parece que não apenas ficaram assimétricos como já não encaixam lá muito bem. Mas, enfim, isso é lá com ela. Se isso não a incomoda, o que é que eu tenho a ver com isso?

Seja como for, o calor e a silly season e o escambau dão nisto: em vez de me deter em coisas eruditas ou científicas ou, vá lá, em coisas em que se aprenda alguma coisa, agora estou com isto.

Ou então é da comichão no braço. Tenho que ir carregar no fenistil.

E venha lá, então, esse vídeo.

Entrevista com Alexandra Lencastre no The Leite Show // Flávio Furtado

O estúdio do The Leite Show foi pequeno para receber uma das maiores atrizes portuguesas: Alexandra Lencastre. Numa das conversas mais surpreendentes de sempre, a atriz chega sem filtros nem receios e abre o jogo sobre episódios da sua vida pessoal e profissional que nunca tinha contado desta forma.

Alexandra revela que já fez amor no local de trabalho, que já se envolveu com colegas de profissão e que uma dessas relações acabou em casamento e traição. Fala ainda dos beijos técnicos que deixaram de ser apenas representação e conta tudo, porque aos 60 anos sente que já pode dizer o que lhe apetece.

Entre as muitas revelações, fala sem rodeios sobre um meio que conhece como poucos. Confessa que a sua área é um meio de muita inveja pelas razões erradas e partilha histórias que mostram os bastidores de um mundo nem sempre tão glamoroso quanto parece.

Pelo meio, recorda uma adolescência marcada por inseguranças, revela que era chamada feia pela própria família e revisita memórias que a acompanharam durante toda a vida.

Há ainda espaço para histórias inéditas dos tempos da Rua Sésamo, para revelar quem foi o pior ator com quem já contracenou e para explicar a verdadeira razão que a levou a trocar a TVI pela SIC.

Mas é quando fala do pai e da falta que ele lhe faz que surge um dos momentos mais emocionantes da conversa.

Entre revelações inesperadas, gargalhadas, emoções fortes e um momento tão improvável que acaba num beijo ao apresentador, Alexandra Lencastre mostra-se como raramente o público a viu.

Uma entrevista sem máscaras. Sem tabus. E impossível de perder.


Desejo-vos uma boa quarta-feira

terça-feira, junho 30, 2026

Madonna mostrou os objectos maravilhosos que tem em casa mas aquele em que eu mais reparei foi no seu novo rosto

 

Aqui há uns tempos, a propósito de coisas de nada, umas três ou quatro pessoas disseram-me: 'Não julgo o livro pela capa mas...' e continuaram, dizendo mal de alguém. Como em todos esses casos se tratava de pessoas que consomem mais Insta do que literatura, admito que tivesse sido expressão que tivesse estado viralizada durante essa altura.

Mas agora, ao ver esta menina aqui abaixo, no lindo estado em que agora se metamorfoseou, foi só o que me ocorreu. Parece mesmo que está a pedir que a gente diga: 'Não julgo o livro pela capa, mas benza-o deus, a menina mais parece um boneco de plástico... e que objectos maravilhosos é que um boneco de plástico pode ter...?'. 

Ou seja, sinceramente, tomada pelo preconceito, fiquei até com medo da bugigangaria que, na volta, invadiria a sua casa. Objectos especiais? Nem imaginava, vendo o que ela fez a ela própria.

Afinal tem uns Frida Kahlo que, caraças, não me importava nada de ter também. Não sei se não se perdem ali, mas, enfim, cada um albarda a casa à sua vontade.

Mas, tirando essas pinturas, em especial a primeira, e talvez a colcha que uma das filhas fez para lhe oferecer, acho que não houve assim nada que me desse vontade de também ter. As esculturas de pénis não me parecem nada de especial. Muito déjà-vu, nas Caldas é o que não falta. 

Tirando isso, nem sei que mais, digno de relato, lá vi. Mas, na volta, não vi porque estive foi a tentar decifrar o que é que ela fez a ela própria. Ruga, nem uma. Mas também não mexe. Os olhos parecem ter sido ali colocados, meios enviesados. O nariz parece um objecto externo. A boca também mal abre. E depois a toilette e o cabelo... Não sei que diga.

Era uma pessoa tão irreverente, tendencialmente autêntica, e agora parece sei lá o quê. O que é que passa pela cabeça destas pessoas para se deformarem a este ponto? Perdem a noção? E a sério que não estou a dizer isto numa de crítica destrutiva, é mesmo uma dúvida que tenho. Será que embarcam numa de se esticar dê por onde der e perdem a noção de que estão é a ficar uma caricatura de si próprias?

Ou sou eu que vivo num outro planeta e já estou orgulhosamente só no grupo em via de extinção das dinossauras que não se esticam, não se insuflam, não se injectam, não se liftam nem se peelam (peelam de fazerem peeling, tal como liftam de fazerem lifting)? Pois não sei.

Mas vejam se gostam. 

Na casa de Madonna em Londres, repleta de objetos maravilhosos | Vogue

A lendária artista e estrela da capa da Vogue Itália, Madonna, abre as portas da sua casa em Londres para a Vogue mostrar alguns dos seus objetos mais preciosos. Começando com um autorretrato de Frida Kahlo, Madonna conta uma história incrível sobre a sua primeira chegada a Nova Iorque e o sonho de possuir esta obra de arte. Exibe também um terço de madeira que pertenceu à sua mãe, uma escultura desenhada pelo seu filho, uma manta de croché feita pela sua filha e um polvo de peluche com um profundo significado pessoal.


Desejo-vos uma boa terça-feira

segunda-feira, junho 29, 2026

Louco, excessivo e indomável

 

Não há muito, estava numa situação profissional daquelas que eram preparadas ao milímetro e que costumava, a seguir ao jantar, fechar com festança. 

E, naquela vez, abriram-se uns grandes cortinados e, para espanto de todos, eis que aparece alguém completamente inesperado naquele contexto: José Cid. A exclamação foi colectiva. 

E arrancou a música. E, para minha absoluta surpresa, ao fim de um bocado, desbloqueada a surpresa de todos, constatei que quase toda a gente conhecia as letras e cantava com ele a plenos pulmões. Foi uma noite de cantoria e de dança. Uma festa de boa disposição. Ele cantou, cantou, cantou. Canta bem. Tem musicalidade na voz, a voz progride sem esforço e alegria. Contagia. 

Tem agora 84 anos e não dá para acreditar na vitalidade deste homem.

Nunca tive nenhum disco dele e, se me pedirem para elencar os meus cantores preferidos, tenho a certeza que me esqueço dele. E, no entanto, reconheço o seu valor e reconheço que há canções suas que toda a gente conhece.

E agora esta entrevista mostra o que ele é: um homem livre, bem disposto, com muita energia, um romântico (já vai em quatro casamentos). O tempo voa enquanto o ouvimos a conversar.

Quando vejo pessoas com esta idade e ainda tão joviais fico encantada. Era bom que toda a gente envelhecesse assim. E escrevo isto e forço-me a corrigir pois, olhando-o e ouvindo a sua conversa fluida, ágil, alegre, não consigo pensar que ele é um velho.

Não sei se posso dizer que é um homem do povo. Mas podia ser Visconde de Lagos e não quis, a sua praia não é essa.

Convido-vos a ver pois é uma graça. E Luís Osório conduz bem as entrevistas, a conversa prende. Espero que gostem.

"Vencidos" com José Cid | RTP Antena 1

É louco, excessivo e indomável. Compôs canções que tornou imortais, incompatibilizou-se com meio mundo, mas é um homem livre que, tendo 84 anos, parece jovem. José Cid conversa com Luís Osório e não ficará pedra sobre pedra.

Desejo-vos uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira

domingo, junho 28, 2026

Quem é a loura que deixa bilhetinhos de amor a Trump e que é conhecida por 'impressora humana'?
E outras coisas minhas, sem relevância nacional... :)

 

O meu dia foi complicado, com um contratempo muito grande, um transtorno inesperado, implicando total mudança de planos. Mas, se é verdade que fiquei bastante aborrecida, a verdade é que, no meio das chatices, me ocorreram, várias vezes, pensamentos do tipo: 'ainda foi sorte ter acontecido ali', ou 'poderia ter sido pior'. Provavelmente isto confirma mesmo que sou uma pessoa optimista. Tenho ideia que, perante uma chatice das grandes, dantes havia quem dissesse: 'se tivesses partido uma perna teria sido pior'. Se calhar sou dessas. 

E apesar de ainda não conseguir ter o panorama completo das consequências, o que me apraz dizer é que, apesar de tudo, ou melhor, descontando o que de chato aconteceu, o dia acabou bem, estive bem acompanhada, o saldo foi positivo. E, no fim de contas, não é isso que interessa?

Posso ainda contar que, quando estava, em carro alheio, de volta a casa, ouvi que estavam a chegar várias mensagens. Espreitei o telemóvel e era o mais velho a enviar um vídeo para a família, mostrando que tinha cumprido a promessa resultante da aposta. Quando foi a Taça e o Sporting ia jogar com o Torreense (acho que foi o Torreense, não foi?), um dos primos benfiquistas lançou o desafio aos primos sportinguistas: se confiavam que o Sporting ia ganhar, podiam apostar rapar o cabelo, caso perdesse. E apostaram. Têm ambos belos caracóis que, segundo eles, as meninas adoram. E eles, que fizeram cortes elaborados com nomes fantásticos (cortes creio que inspirados nos jogadores de futebol), têm também grande orgulho no efeito que causam no sector feminino. Pois bem, no vídeo, mostrava-se rapado, rapado, rapado. Lindo. Parece outro. Um homem.

Noutro vídeo o primo benfiquista elogiava-o, dizia-lhe que ele tinha sido um homem, tinha cumprido a promessa. Num outro vídeo, já dizia que também ele raparia o seu. E a tia e a mãe diziam que o garboso 'rapado' estava muito bonito.  E está. 

Vamos ver se o mano mais novo também rapa o seu. Fez quinze anos e faz um sucesso entre as meninas que nos surpreende e dá vontade de rir. A minha filha conta peripécias que nos deixam divertidas e desconcertadas. E eu já testemunhei. Estávamos com ele numa loja e vimos uns rapazes e raparigas a olharem para ele, as miúdas com ar embevecido. Diziam o nome dele e falavam que ele jogava no clube onde joga. O meu marido até disse que pareciam que lhe iam pedir autógrafo. A semana passada, ao ver uma fotografia de grupo, os rapazes de fato e gravata, as meninas de vestido comprido, e ao perguntar qual o par dele no baile de finalistas (do 9º ano...), fartei-me de rir com as observações dele. Fiquei a perceber que há várias que gostam dele. Meio desconjuntado, de poucas palavras, todo mais para a acção do que para a conversa, parece, no entanto, que tem mel. No outro dia vi-o a ensinar o primo como é que se fazia para proporcionar a ocasião para beijar uma rapariga. Fartei-me de rir. De facto, leva jeito. Tem o seu quê de descarado. Como é bem educado e muito divertido, fica ali um mix interessante, cai no goto delas. Mas, no que se refere à aposta, diz que elas gostam de lhe mexer nos caracóis e, portanto, não os quer cortar.

Enfim.

Adiante que se faz tarde. 

Enquanto escrevo, Portugal ainda não conseguiu marcar nenhum golo e isso deve deixar decepcionados os milhares de adeptos que se juntaram um pouco por todo o lado. Não consigo prestar atenção, distraio-me. Mais para a frente, aqui estarei a torcer. Agora é apenas música de fundo.

E, entretanto, estive a ver o vídeo que abaixo partilho que é todo ele um desfiar de tesourinhos deprimentes. O mundo de Trump é um mundo doido, tresloucado, distópico, habitado por personagens que nem sei se são sinistras, se são de comédia, se é tudo um ninho de malucos, se é isso tudo ao mesmo tempo.

Os casos, as peripécias, as contradições, os disparates, os escândalos -- tudo se sucede a um ritmo desvairado. 

Desta vez, no meio de mil maluquices, fiquei a saber exactamente porque se fala tanto de uma tal Natalie Harp. E é do além. Nem sei que diga, nem sei que pense. É de loucos. 

Uma fulana, ex apresentadora da Fox, uma loura quase igual a todas as outras louras que por ali andam, com um poder incrível, que lhe leva notícias (só as boas), que lhe prepara informação (favorável), que lhe imprime as coisas porque ele gosta de ler em papel (o pouco que lê, claro, porque, na verdade, não lê nada), que lhe deixa bilhetinhos de amor, que mostra uma adoração patológica por ele, que frequenta os seus espaços mais privados, que tem acesso a informação confidencial, que vai com ele para todo o lado. Diz Michael Wolff que tudo o que ela lhe deixa escrito é para lhe mostrar que quer ir com ele para a cama. E isto diz muito da saúde mental dela. 

Ah, é verdade, suspeita-se que terá sido Natalie Harp que fez o vídeo dos Obamas como macacos ou o de Trump como Jesus. E, volto a dizer, se foi, o que dizer da sua saúde mental...?

Poderia ser uma série televisiva, cheia de personagens exageradas demais, destrambelhadas demais. Mas é a realidade. A que ponto o mundo chegou. Não dá para acreditar.

No outro dia vi um vídeo em que a neta de Trump, uma adolescente, andava pela Casa Branca com uma amiga, a filmar as salas, a sentar-se na cadeira do avô, a mostrar os telefones e os botões encarnados, a rir, toda eufórica de por ali andar, como se andasse na sua própria casa.

Tudo doido.

Mas nada como Joanna Coles e Michael Wolff para passarem a pente fino as mais recentes maluquices de Trump.

Porque é que o círculo íntimo de Trump teme a sua companheira loira de 34 anos | Dentro da cabeça de Trump

Michael Wolff e Joanna Coles analisam mais uma semana extraordinária na presidência de Donald Trump, desde uma importante vitória no Supremo Tribunal que pode expandir drasticamente o poder presidencial até à linha cada vez mais ténue entre a Igreja e o Estado, as consequências políticas do frágil cessar-fogo com o Irão e porque é que Trump pode, mais uma vez, escapar às consequências de um revés na política externa. Investigam também o mistério em torno de Natalie Harp, a dedicada "impressora humana" de Trump, à medida que novas reportagens corroboram as revelações inicialmente exploradas por Wolff; examinam por que razão o New York Times só agora está a aceitar a ideia de que Trump governa por obsessão em vez de estratégia; debatem a mais recente fixação de Trump com o espelho de água do Lincoln Memorial; e revelam os estranhos cálculos políticos por detrás das comparações de J.D. Vance com Nixon.

Desejo-vos um belo dia de domingo