Música, por favor
Fausto - Uns vão bem e outros mal
Hoje, quando bebia o meu café matinal, ao meu lado um cliente dizia ao gerente do pequeno estabelecimento que, na véspera, quando tinha estado no Pingo Doce, não tinha havido distúrbios de maior, que as pessoas é que não sabiam comportar-se.
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| À saída de um Pingo Doce |
Contava, com ar de quem tinha ido à guerra e saído vitorioso, que tinha compensado. Que tinha comprado 10 garrafas de litro de azeite, que agora tinha azeite para 2 anos e olhava sorridente à volta, orgulhoso pelo feito. O gerente dizia que também tinha comprado muito azeite mas que tinha optado por garrafões de plástico, vários, que também lhe iam dar para 2 anos, pelo menos, que o prazo de validade é grande. Quando eu saí ainda eles comparavam o volume de compras que tinham feito.
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| À saída de um Pingo Doce |
Claro que, vivendo com dificuldades, as pessoas não pensam duas vezes e disparam, por vezes sem racionalidade, quando lhes acenam com metade das compras à borla. Claro que, para isso, teriam que efectuar compras no valor de 100 euros, coisa que, já de si, não é pouco mas nem devem ter avaliado o impacto no seu orçamento doméstico de compras da ordem dos cento e tal ou duzentos euros num único dia (numa reportagem de televisão vi um senhor orgulhoso dos 400 euros que tinha gasto, em vez dos 800 que seriam).
Questões de vária ordem poderiam ser analisadas sobre este facto mas quero apenas referir que este é, na sua maioria, o povo votante deste país, o povo que decide o sentido de voto. Pessoas que procuram uma instantânea melhoria nas suas condições de vida, sem se deterem a analisar o porquê, o como, o até quando, etc., pessoas que agem por impulso, sem fazerem cálculos ou sem se deterem em considerações de carácter filosófico.
Foi assim - porque gostaram da cara de quem lhes prometia uma política de verdade, que lhes dizia que não era admissível que se aumentasse mais os impostos ou que se sonhasse sequer em mexer nos subsídios de natal - que deram a vitória nas eleições a uma pessoa como Pedro Passos Coelho, colocando-o a ele e ao Relvas, ao Gaspar e a outros neófitos, ex-jotas e aprendizes à frente da governação deste país.
É fácil, muito fácil, manipular pessoas que, de alguma forma, se encontram fragilizadas (ou porque se sentem inseguras, ou carentes, ou revoltadas, ou doentes, ou desempregadas ou o que for).
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| Parábola dos Cegos - Pieter Brueghel, 1568 |
Estavam muito perto do supermercado, em algum destes sítios se deixou ela cair, a chorar, naquele dia em que se viu perdida, grotescamente ajoujada ao peso dos sacos de plástico cheios, valeu-lhe um cão para a consolar do desnorte e angústia, este mesmo que aqui vai rosnando às matilhas que se chegam demasiado.
(...)
A claridade do dia iluminava até ao fundo o amplo espaço do supermercado. Quase todos os escaparates estavam tombados, não havia mais do que lixo, vidros partidos, embalagens vazias.
(...)
O cão das lágrimas ganiu baixinho. Tinha outra vez o pêlo eriçado. Disse a mulher do médico, Há aqui um cheiro, Sempre cheira mal, disse o marido. Não é isso, é outro cheiro, o da putrefacção, Algum cadáver que estará por aí, Não vejo nenhum, Então será impressão tua. O cão tornou a gemer.
(...)
Atravessaram o supermercado até à porta que dava acesso ao corredor por onde se chegaria ao armazém da cave. O cão das lágrimas seguiu-os, mas de vez em quando parava, gania a chamá-los, depois o dever obrigava-o a continuar. Quando a mulher do médico abriu a porta, o cheiro tornou-se mais intenso.
[Excertos de uma das cenas pungentes de Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago, cena em que os cegos tinham invadido o supermercado e depois se tinham precipitado, escada abaixo, caindo uns sobre os outros... e mais não digo porque o que vos aconselho a ler é o livro todo, um dos livros que mais me impressionou desde que me tenho por gente. Digo-vos apenas que é um documento impressionante sobre as baixezas mais torpes e vis de que as pessoas são capazes em situações limite - e que, ao ler, sentimos que nós próprios - bem falantes, bem pensantes - também o faríamos se nos víssemos naquelas circunstâncias]
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| Imagem do filme Ensaio sobre a cegueira (Julianne Moore como a mulher do médico, um dos muitos cegos) |
Hoje soube-se que o emprego continua a subir. Já vai em 15,3% (e em mais de 36,1% nos jovens) e estes são os números oficiais que são inferiores aos números reais.
Pois ia eu no carro à hora de almoço quando ouço, perplexa, o Secretário de Estado do Orçamento, Luís Morais Sarmento a mostrar-se muito admirado com estes números inesperados (inesperados dizia ele, claro)...!
E concluía a "inteligente" criatura que o que era preciso para resolver isto era liberalizar o mercado de trabalho, flexibilizar ainda mais.
Fiquei de boca aberta. É que, meus Amigos, o problema maior não é só estarmos a ser governados por quem não sabe o que faz: o problema maior é que nem sabem tirar conclusões face às consequências do que fizeram...! Então se o problema é o desemprego estar a aumentar a um ritmo que nem eles percebem, o remédio que lhes ocorre é, justamente... facilitar ainda mais os despedimentos...?!
Ou isto não é nabice da mais pura que há mas, sim, coisa deliberada? Maldade pura?! Defesa de interesses inconfessáveis?! Já nem sei que diga, perante coisas destas.
Quanto ao Álvaro ou a alguém do Ministério das Falências e do Desemprego, nada: estão noutra. Economia e Emprego é coisa que não lhes assiste.
Portugal é o 3º país ex-aequo com o maior desemprego num conjunto de 29 países ditos desenvolvidos, li num artigo do FMI.
O autor, o chinês Min Zhu, questiona-se: ‘desenvolvidos na miséria?’ pois é nestes países que o desemprego mais se acentua e, de entre eles, para nossa vergonha e sofrimento, Portugal, só é antecedido (na desgraça) pela Espanha e pela Grécia (e igual à Irlanda).
Logo no início do artigo, Min Zhu parafraseia uma frase de Frank Sinatra - em que este diz, referindo-se ao casamento e ao amor, que não existem um sem o outro - dizendo que é a mesma coisa em relação ao crescimento económico e ao emprego. Não há emprego sem crescimento, nem crescimento sem emprego.
E mais uma vez recomenda moderação na aplicação de ajustamentos e, também, garantia de liquidez no sistema financeiro. Injecções de liquidez, políticas de desenvolvimento, abrandamento nas políticas de austeridade – só assim se evitará o suicídio.
Mas, claro, nem Passos Coelho nem nenhum do seu grupo lêem este género de artigos. E, mesmo que lessem, duvido que percebessem.
No dia 1 de maio, com ar ligeiro de quem pronuncia uma banalidade irrelevante, Passos Coelho disse que os portugueses se deveriam preparar para mais uns anos de desemprego alto. Ainda não percebeu o buraco em que está a enfiar Portugal nem a miséria para que está a atirar os portugueses.
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Não me apetece falar mais disto que fico indisposta.
Por isso, com vossa licença, para terminar, um bocado mais de Ensaio sobre a Cegueira para que saibam, meus Caros Leitores, que há cegueiras de que se recupera e que há histórias que acabam bem (e, se há lágrimas no final deste excerto, não se admirem, elas são de compreensível emoção de descompressão).
Eu acredito nisso.
Então o médico disse o que todos estavam a pensar, mas que não ousavam pronunciar em voz alta, É possível que esta cegueira tenha chegado ao fim, é possível que comecemos todos a recuperar a vista, a estas palavras a mulher do médico começou a chorar, deveria estar contente e chorava, que singulares reacções têm as pessoas, claro que estava contente, meu Deus, se é tão fácil de compreender, chorava porque se lhe tinha esgotado de golpe toda a resistência mental, era como uma criancinha que tivesse acabado de nascer e este choro fosse o primeiro e ainda insconsciente vagido. O cão das lágrimas veio para ela, este sempre sabe quando o necessitam, por isso a mulher do médico se agarrou a ele, não é que não continuasse a amar o marido, não é que não quisesse bem a todos quantos se encontravam ali, mas naquele momento foi tão intensa a sua impressão de solidão, tão insuportável, que lhe pareceu que só poderia ser mitigada na estranha sede com que o cão lhe bebia as lágrimas.
A tradução destas legendas é pavorosa mas, enfim, foi o que arranjei...
O filme é uma adaptação da obra de José Saramago, e foi realizado pelo brasileiro Fernando Meirelles
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Bom. Caso ainda tenham paciência, não quererão os meus Amigos ir dar uma espreitadela lá ao meu
Ginjal e Lisboa? Hoje as minhas palavras voam em volta de um poema de que gosto muito de Maria Sousa. Acompanha com Puccini, La Bohème... mas oh que encenação!... Só mesmo visto. A sério.
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E, claro está, desejo-vos uma bela quinta feira, de olhos bem abertos...
(para verem as coisas boas desta vida!)