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terça-feira, agosto 25, 2026

Breves e desnecessárias

 

Hugo Soares, o gémeo siamês do Mentenegro, unha com carne, farinha do mesmo saco, amigos inseparáveis na saúde e na doença, cola Carneiro ao Ventura. Tem graça. E tem ainda mais graça por esta piada ter sido proferida na universidade de verão do psd, universidade esta de onde parece que nunca saiu nenhum doutor

Vi vários vídeos com corridas de humanóides. Correm que se fartam. Parecem meio descojuntados, quase não têm cabeça, nem precisam dela, e, no fim, atiram-se conta uma parede, escaqueiram-se todos, alguns até deitam fumo de tão queimados estão. Nas bancadas, outros descerebrados aplaudem.

Vi que no Porto foi encontrada uma mala com cerca de um milhão e meio de notas falsas. A jornalista disse, com ar normal, que ainda ninguém tinha reivindicado a sua posse. Não seria de pôr alguns destes jornalistas também a fazerem corridas?

Quando foi à veterinária, devido à piodermite no rabo (do cão, não no meu), ela rapou todo o pelo dessa zona do animal pois só assim conseguia ver e tratar a desgraceira de feridas que para ali estavam. Mas, por consideração, deixou um grande tufo na ponta. Parecendo que não, sempre compunha. Acontece que, pelos vistos, tinha feridas também na extremidade. Como eu não conseguia tirar as pequenas crostas que estavam emaranhadas nesse tufo, resolvi que para grandes males, grandes remédios: cortei o tufo. Agora o pobre coitado parece um alien com um funil na cabeça e uma salsicha espetada e depenada em vez de cauda. Está muito surreal, distorci-lhe a aparência. Só espero que não lhe afecte a personalidade.

À noite, quando fomos caminhar, vimos, no outro lado da rua e indo em sentido contrário ao nosso, um grande grupo de pessoas, talvez perto de vinte. Percebemos que eram de várias idades e que iam conversando. Não sei se seriam todas da mesma família ou do mesmo grupo de amigos, ou se algumas pessoas avulsas e desconhecidas se lhes juntaram. Pensei que era uma ideia com piada, as pessoas juntarem-se a quem passa e irem conversando, fosse do que fosse. Mas não dá para me juntar sem saber se faz sentido, não é? Imagina que vai uma família, na boa, e lhes apareço eu feita penetra, armada em espírito livre, estou aqui para partilhar ideias e sentimentos. Quem me garante que não se calam todos, acagaçados, temendo estarem a correr sérios riscos de eu ser uma doida varrida ou uma bandida à caça de rolexes?

Também à noite ouvimos pássaros que nunca antes tínhamos ouvido. Escandalosos, barulhentos. Não eram corujas, que essas são discretas, podem falar alto, mas é uma fala monocórdica, piuuuuuu, piuuuuu. Estes não, uma conversa variada, colorida, coisa de pássaros garridos ou bem bebidos em festas populares. Não faço ideia de qual a sua aparência mas, com aquela cantoria à desgarrada, devem ser passarões de olho encarnado e de garrafa de vodka na asa.

Agora, quando posso, faço uma coisa: depois de almoço, deito-me em cima da minha cama. Estores para cima, vidros basculantes. O quarto cheio de luz, a aragem a fazer ondular os cortinados. Ao fim de poucos instantes estou a dormir. E, ao fim de poucos minutos, chegam mensagens ou telefonemas e interrompem-me a sesta. Uma malapata. Mas, apesar de curta, a sestinha é sempre boa enquanto dura. Quando andava na escola infantil, e andei a partir dos quatro anos, todas as tardes as cortinas da grande sala eram fechadas, uns colchões eram estendidos no chão, no inverno junto com o colchão estava um cobertor, e tínhamos que dormir a sesta. Imposição sem margem para protesto. Nunca consegui. Nunca. Ficava cerca de uma hora a olhar para os outros, a tentar descobrir formigas, a pensar no que iria fazer no recreio, a imaginar quanto tempo faltava para acabar aquela estopada. Agora, nada me sabe tão bem quanto deitar-me à fresca e em plena luz, a dormir a sesta.

segunda-feira, agosto 24, 2026

Breves e desinteressantes

 

Continuo nas breves e a despachar porque são quase duas da manhã e não tenho cabeça para longas e com calma.

1. 

Como não vi televisão e estive a milhas de tudo, agora passei, rapidamente, os olhos pelas notícias e quase me sobressaltei com uma que começa por Governo apalpa. De repente, na minha ligeireza ensonada, pensei que alguém do governo andava a apalpar o que não devia. Pensei: 'Será o Neves?'. Depois de lhe ter aparecido uma piscina num fim de semana, de lhe ter aparecido um orçamento de 155.000 euros para coisas que custam para aí umas dez vezes menos e que não era ele a pagar (ele, leia-se a Judite), de andar aboletado num carro desportivo apreendido numa operação (também da Judite), e já nem falo de ter dado ordem para produtos perigosos andarem a passear do Seixal para Barcelos e de lá ficarem guardados ao deus-dará como se fossem azeitonas, querem lá ver que agora também anda para aí a apalpar qualquer coisa (ou alguém) que não é suposta ser apalpada? Fechei e abri os olhos e afinal verifiquei que não, coitado, não foi ele. O título completo reza assim: "Governo está a apalpar terreno para mexer nas pensões? "Atreva-se, atreva-se para ver o que lhe vai acontecer""

Como já tinha lido que o Seguro diz que as pensões são sagradas, pensei logo: 'É pá, temos homem. Já está a desafiar o apalpador. Atreva-se? Nem parece coisa dele, já a desafiar o Montenegro para um duelo...'. 

Mas, incrédula, fui cobfirmar. Afinal não foi o Seguro, foi o Raimundo já a ensaiar as cordas vocais para a festa do Avante. Assim já percebo.

2.

Hoje decorreu cá em casa mais um almoço de parabéns a você. No espaço de nem chega a mês e meio foi o sexto aniversário. Dia feliz, portanto. O tempo esteve de chuva e, de vez em quando, de trovoada. Como tivémos que refeiçoar dentro de portas, para evitar confusões com o cãobeludo que, nestas circunstâncias e com tanta gente e tanto movimento, fica num excitex, o meu marido, que antes tinha preparado tudo para ele ficar no jardim, teve que alterar os planos e acondicioná-lo na garagem. Com o terror que ele tem de trovoadas (ele, o cão), não iríamos sacrificar o animal. Então, deixou-o na garagem, e a garagem com o portão aberto, e com uns painéis de uma certa altura, talvez uns 70 ou 80 cm, que impediriam a sua saída. Tudo certo. Pois bem, de tarde, apareceu em casa, todo lampeiro. Pensei que tinha sido o meu marido a condoer-se. Não, foi ele mesmo. Fomos ver se tinha conseguido derrubar a barreira. Não, estava no sítio. Portanto, escapista profissional como é, fez salto em altura. Mesmo com o funil na cabeça, conseguiu alçar-se àquela altura, passar por cima e vir ter connosco. 

Nota: está bem melhor, mas agora com muitas crostazinhas soltas emaranhadas no pêlo da cauda, de alto a baixo. Tento puxá-las e não deixa, vai aos arames. Ora, se não as tiro, tentará tirá-las ele com a boca mal o libertemos do funil isabelinho. E o mal de começar a lamber e a puxar com os dentes é que, às tantas, com a pele húmida e lambida e relambida, arranja novo problema. Caraças. Está aqui um problema que não vai ser fácil de resolver. 

Ao fim do dia, quando estávamos só nós e nos dedicámos à faena da limpeza e desinfecção, foi outra vez o bom e o bonito: ladra, rosna, revira-se, contorce-se, tenta pirar-se, ameaça, e só não ataca mesmo porque o meu marido o agarra ferozmente. Portanto, suspendi a caça à crosta. 

Algum tempo depois, o meu marido, que consegue disfarçar melhor que eu, vendo que a fera estava mais mansa, tentou enganá-lo e pôs-se a escová-lo como quem não quer a coisa. Mal lhe tocou com a escova na cauda, deu logo um salto e mostrou aqueles ameaçadores dentinhos que tão bem conhecemos. Desistiu. cão, kikasPortanto, agora é mais esta para ver como se resolve

3.

Não sei se é só por aqui ou se é um mal generalizado: moscas e mais moscas. Nos últimos dias, mal conseguia estar sossegada lá fora, tantas as moscas. Comprámos uma espécie de ventoinhas portáteis próprias para afugentar bicheza esvoaçante e eu, às tantas, já andava com uma na mão. Agora, passaram cá para casa. Como costumamos ter as janelas abertas, entram estupidamente. Por exemplo, estou aqui na sala a escrever e uma filha da mãe não me deixa em paz, aqui anda a zoar-me os ouvidos, a deixar-me doida. Não me apetece pôr-me à caça dela para a esborrachar mas já não aguento, vou-me deitar. Com sorte, a estupora não sabe o caminho para o quarto.

segunda-feira, agosto 17, 2026

Quando é tudo tão perfeitinho que a gente topa logo que é obra da IA
[E uma breve, com fotografia, sobre o estado do meu cãobeludinho mais fofo]

 

Achei graça ao post do Embaixador Seixas da Costa sobre o uso da Inteligência Artificial: "Ai a IA". Começa assim: "Desconfiem de coisas longas, muito certinhas, escritas de forma organizada, sem uma vírgula fora do sítio, com argumentos em crescendo, com uma lógica circular, que quase sempre vai acabar onde começou."

Não posso estar mais de acordo. Há casos gritantes. 

Aconselha o Embaixador: "Quando tiverem dúvidas, quando acharem que aquela pessoa que escrevia assim-assim passou, subitamente, a ser um génio da crónica, o teste é fácil: copiem o texto e visitem um qualquer site de IA, perguntando que probabilidade existe de aquele texto ter sido produzido por Inteligência Artificial.".

Quando a coisa é por escrito nem me dou ao trabalho de fazer essa validação. Já os topo a léguas. Por exemplo, ainda não há muito recebi uns mails em que, a propósito de me fazerem um convite, me brindavam com uma prosa tão redonda e artificial que fiquei de pé atrás. Quando, pelo meio, li um argumento descabido que se aplicaria em geral mas jamais naquele contexto, não tive dúvida de que o autor não apenas se tinha limitado a pedir à IA que escrevesse o mail como nem se dera ao trabalho de verficar se tudo aquilo fazia sentido. Duplamente preguiçoso. Tive muita vontade de dar uma resposta torta, mas mantive-me como se nada fosse. 

Na blogosfera ou no instagram tenho detectado alguns artistas que não consigo perceber com que propósito publicam prosas aparentemente muito artilhadas, muito perfeitas, mas que não passam de coisa da IA. Diria eu que quem se dá ao trabalho de publicar textos o faz porque sente prazer em escrevê-los. Se não é isso, é o quê? 

No entanto, há o reverso da meada. Há tempos li um artigo, creio que no Guardian, que relatava que sobre uma certa pessoa (escritora? jornalista? - não me lembro) se abateu a suspeita de que uma coisa publicada por ela tinha sido elaborada por uma IA. Ela jurou a pés juntos que não, que tinha sido mesmo ela a escrever -- mas ficou no ar a dúvida, e uma dúvida destas fica agarrada à pele, como a de plágio. Imagino como deve ser horrível uma pessoa ser acusada injustamente de uma coisa destas e não ter como provar que não é verdade. 

Por isso, prefiro não apontar o dedo. Tal o Embaixador, limito-me a afastar-me. Discretamente mas afasto-me.

Mas há outra área em que, quando vejo tudo muito irrepreensível, me ponho logo com os dois pés atrás: vídeos que aparecem no Youtube ou no Instagram. Podem ser doutas autoridades que falam sobre história, sobre filosofia, sobre cuidados de saúde, sobre o que calhar. Pessoas impecavelmente arranjadas, que falam com naturalidade, uns em ambientes acolhedores, como se estivessem no conforto da sua casa, outros num palco a conferenciar, ou monges num mosteiro. Topo-as a milhas. Alguns têm a amabilidade de avisar quem os vê que se trata de personagens que não existem, criação de IA de cabo a raso: imagem, texto, vídeo - tudo; mas outros não, parecem coisa a sério e não há uma palavra de alerta, apenas uma pesquisa lateral nos permitirá confirmar a nossa intuição. 

Dou três exemplos que têm que se lhe diga. Ouçam-nos, vejam-nos. Pensem no que eles dizem. Pensem, ao mesmo tempo, que estão a ver e ouvir pessoas que não existem, que estão a dizer coisas que não foram pensadas ou escritas por um humano.

Nota: Deve haver um tema de sincronização no Youtube pois no Instagram não se detecta delay entre a fala e o movimento dos lábios. Aqui parece que se nota. Mas relevem pois não tarda tudo estará mais perfeito do que se estivesse uma pessoa, ao vivo, à vossa frente.

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Provavelmente Estamos Sozinhos — Professor Edmund Whitmore

Bem-vindos ao The Ancient Dog. Nesta fantástica palestra, o Professor Edmund Whitmore, gerado pela IA, sobe ao palco para apresentar um argumento que a maioria dos cientistas não diria em voz alta: que estamos provavelmente sozinhos no universo. Não "ainda não encontrámos ninguém". Estamos realmente sozinhos. Somos a única civilização tecnológica que existe, ou já existiu, a qualquer distância relevante.

Começa com uma distinção que muda tudo: a vida microbiana pode ser comum, mas a cadeia que liga uma rocha húmida a uma civilização capaz de construir rádios exige uma série de acontecimentos improváveis ​​e aparentemente únicos. Descreve a única fusão celular excecional, ocorrida há dois mil milhões de anos, que deu origem a todos os seres vivos complexos da Terra — e que aparentemente nunca se repetiu. Mostra porque é que três quartos das estrelas da galáxia estão provavelmente completamente descartadas para a vida complexa. Apresenta o argumento contraintuitivo de que encontrar vida em Marte amanhã seria, nas palavras de Nick Bostrom, a pior notícia alguma vez estampada na capa de um jornal. E conclui abordando o abismo temporal — a galáxia pode ter estado repleta de civilizações que surgiram e desapareceram ainda antes de o nosso Sol se acender, e é quase certo que estamos sozinhos agora, nesta galáxia, nesta era.

Esta não é uma visão geral dos dois lados da questão. É um argumento, com provas, e uma conclusão.

Ora, o Professor Edmund Whitmore existe mesmo? Não. 🤖✨ É uma personagem gerada por IA, criada com ferramentas generativas para o guiar através de ideias que são muito reais. O professor é uma invenção, mas tudo o que ensina vem diretamente dos cientistas e dos artigos que fundamentam o argumento.


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Porque é que os deuses gregos eram melhores do que os nossos —  Professora Helen Vaitkus

Bem-vindos ao The Ancient Dog. Nesta fantástica palestra, a professora Helen Vaitkus, gerada pela inteligência artificial, sobe ao palco para apresentar um argumento que perturbará crentes e não crentes: os deuses gregos eram melhores do que aqueles que os substituíram — não por serem mais poderosos, mas por serem honestos.

Zeus traiu a sua mulher e escondeu o facto. Hera, deusa do próprio casamento, foi consumida pela fúria ciumenta. Ares, deus da guerra, revelou-se um cobarde em batalha. Afrodite, deusa do amor, foi infiel ao próprio marido. E nada disto foi apresentado como escândalo — foi apresentado como a verdade da existência, intrínseca à arquitetura do divino.

A professora Vaitkus explora o que os gregos realmente construíram: uma religião que nunca exigiu que se praticasse uma bondade que não se possuísse. Uma teologia onde os deuses cobiçavam, tramavam, falhavam e sofriam — e onde o maior herói da época chorava abertamente de joelhos quando o seu companheiro morria, sem ser diminuído por isso. Ela defende que os deuses imperfeitos produziram algo que os perfeitos não conseguiram: um reflexo honesto da vida humana.

E conclui com a questão que acompanha todas as civilizações que lhes sucederam: o que acontece quando se constrói uma religião, e depois uma cultura, em torno da procura de uma perfeição que ninguém possui verdadeiramente?

Ora, a Professora Helen Vaitkus é real? Não. 🤖✨ Ela é uma personagem gerada por IA, criada com ferramentas generativas para o guiar através de ideias muito reais. A professora é fictícia, mas tudo o que ensina vem diretamente dos pensadores e das histórias por detrás do argumento.

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Quanto mais tempo se fica em casa, menos vontade se tem de sair, meu amigo.

Nota: O Monge Ming San não existe


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Este é o admirável mundo novo em que já vivemos

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Hoje, no passeio nocturno.
Não sei se dá para perceber mas tem a cauda toda rapada, só sobrou um tufinho na ponta. Teve que ser para se conseguir tratar. Aliás, com pêlo, nem se viam as feridas.
E estava com feridas toda à volta, de alto a baixo. A pior é uma ferida na lateral, mais abaixo, tem mesmo aí uma depressão.
Como podem ver, foi tosquiado há pouco tempo pois, apesar de ser escovado todos os dias, já estava a ficar com nós


Nota sobre o amicão, o fofo cãobeludo: está melhor, já todo reguila, já sai disparado de casa para correr ao longo do muro e fazer piruetas no ar a provocar o cão do lado, já quer atirar-se aos inimigos de estimação dos outros jardins quando vai a passeio, já dorme normalmente. 

E hoje, de novo em cima do banco do jardim -- depois do escândalo e do pânico do costume em que quer virar-se, e rosna e mostra os dentes (e, caraças, que dentinhos...), tudo antes de o meu marido lhe dar um puxão assertivo na trela e se agarrar com força e eu começar a tratá-lo -- fica sossegado e deixa-me desinfectar as feridas da cauda, mesmo aquela mais profunda. Continua com o antibiótico, pois são 10 dias ao todo, e, obviamente, continua com o big funil. 

Muito obrigada pelo vosso cuidado.

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Desejo-vos uma boa semana 

domingo, agosto 16, 2026

Mais um dia sem carro, sem computador e com um cão-fera que tem que ser tratado

 

Continuo naquela marezinha. O computador, que levou séculos a arranjar, veio de lá entre o deficiente e o telhudo. Eternidades para despertar. Da oficina, a quem já reportei, disseram que o levasse lá. Expliquei: em onda de azarinhos, não podia faltar o carro empanado (nota: continua à espera que lhe peguem). Como acabava por se ligar, eu dava o desconto e ia aguentando. Mas este sábado deu bote: não arrancou. Estou outra vez no telemóvel o que me desmoraliza: coisinha pequenina não é para conversa longa. Depois, quando concluir o que estou a escrever, vou ao outro computador, o esclorosado e idoso, o do teclado virtual, e formato minimamente o texto. Aliás estou a ser injusta, o idoso estava nos trinques até que apanhou água. E da oficina dizem que, dada a idade, se calhar não vale a pena. Mas, na volta, um dia destes avanço mesmo para um pedido de orçamento. Quem sabe não é o drama que pintam.

Sem carro, sem o meu computador, sinto-me limitada. Tínhamos pensado que se não nos dessem o carro na sexta-feira, requesitaríamos um de substituição. Mas vacilámos. Receamos seriamente que o animal dê cabo do carro. A maior necessidade era irmos com ele aos tratamentos. 

Mas hoje resolvemos que haveríamos de dar conta do recado. As feridas estão mais secas. Apenas uma está ainda num estado um bocado estranho. Achamos mesmo que ele arrancou um bocado. Depois há umas duas ainda assim-assim. Mas as outras estão no bom caminho. Portanto, suportaria melhor a desinfecção. 

Se não estivesse aqui a escrever numa coisinha na palma da mão, contaria o festival que foi até que, já quase a entregar os pontos, lhe fiz mil festinhas. Estava mesmo com pena dele, mais do que mau feitio, o que ele tem é medo de ser magoado. Aí acalmou-se. Nessa altura o meu marido deu-lhe um apertão sem hipótese, agarrou-o sem margem para se virar e deu-me um grito a mim: 'Pega-lhe no rabo e trata-o!' e eu obedeci e, nem sei como, o canito, fofo, nem estrebuchou. É que, na volta, eu sou parte do problema. Tenho medo de magoar, não consigo, nem quero pensar que vou fazer doer e, por isso, deixo passar todas as oportunidades e ele, que é esperto, mete a cauda toda entre as pernas, senta-se em cima e eu fico sem acesso. Já para não falar que rosna, salta, tenta virar-se, mostra os dentes. E, ao mesmo tempo, o meu marido quase faz o mesmo em direcção a mim porque está a agarrá-lo e a arriscar-se e eu ali feita maricas, sem me mexer. Mas, pronto, acabou por correr bem. Desinfectei, limpei com gaze, devagarinho, e ele deixou, sem estrebuchar. No fim quisemos recompensá-lo com um biscoitinho mas fechou a boca, virou a cara, disse que o comessemos nós.

De qualquer maneira, agora está a pôr o sono em dia. Dorme, dorme. E, ao vê-lo já a deitar-se, tranquilizo-me, significa que o incómodo que o impedia de ter sossego já está a passar. Coitadinho do meu bichinho.


Mas o dia foi bom. Jardinagens, regas, limpezas, leituras, passeios a pé. Gosto dos dias assim. Não sei porquê mas até me parece que estou ainda mais de férias. Só me faz falta o computador para escrever umas coisas mas, enfim, há coisas piores. 

Continuo a ver pouquíssima televisão. Não me dá jeito ver televisão de dia. Só enquanto almoçamos é que a ligamos, mas saltamos crimes, choradinhos, catástrofes, doenças, conversas religiosas ou pseudo-intelectuais. Por isso, com bastante frequência desligamos de seguida. Depois, só volta a ser ligada depois do passeio nocturno. Mas, ainda assim, nessa altura, aproveito para dar uma espreitadela nas redes sociais. 

De vez em quando há coisas que não se entendem. Ontem publiquei no instagram uma fotografia do cãopeludinho a passear à trela levado pelo meu marido. Hoje apareceu-me uma mensagem a dizer para eu tirar um pouquinho para festejar porque aquela publicação já tinha sido vista mais de 3.600 vezes. Fui verificar e era mesmo verdade. Agora já passou as 4.100. Para a maioria das pessoas se calhar não é nada, se calhar tudo o que seja menos de 100.000 é pouco. Mas para minzinha, desconhecida, sem vender nada, sem patrocínios nem conversas de influencer, publicar uma fotografia simples com meia dúzia de palavras e isso ser visto mais de 4.000 vezes é uma coisa que me espanta.

É como aqui no blog. Apesar de já por aqui andar há tanto tempo, ainda me surpreendo quando constato que agora há sempre cerca de 5 ou 6.000 visualizações todos os dias, quando não mais. Sinto-me agradecida, muito, mas deveras surpreendida. Tantas pessoas aí desse lado a ler o que aqui eu e o meu marido vamos escrevendo...

Bem. Fico-me por aqui. Agora vou para o pico-pico, sarapico, no tecladozinho virtual do computador -- que geralmente teima em pôr-se em cima do que estou a escrever -- para formatar isto.

Às vezes penso que tenho ali o tablet da minha mãe, nestas alturas era capaz de dar jeito. Mas ainda não consigo vencer a barreira, também ela virtual, de usar uma coisa que ela tanto usou. Enfim, lá chegarei. 

Desejo-vos um bom domingo.

sábado, agosto 15, 2026

Férias & fragatas Luís Nuno Montenegro Melo
(E uma breve actualização sobre o estado do nosso cão)
--- A palavra ao meu marido ---

 

A rapaziada do governo continua a julgar que a maralha é ignorante, que pensa pouco e que acredita na primeira patacoada que é posta a correr na comunicação social. 

É provável que assim seja em muitos casos, mas felizmente ainda há quem tenha dois dedos de testa e ainda vai existindo alguma imprensa que lá vai escrutinando minimamente o governo. 

Depois da descarada mentira do Montenegro que não tirava férias e agora ser apanhado dia sim dia sim a descansar de férias, vem a justificação do Nuno Melo sobre o preço das fragatas que tem tudo para ser mais uma efabulação a la Montenegri. Vir dizer que a diferença de 25% no custo das fragatas, comparativamente com as fragatas compradas pela marinha italiana se deve à inflação, a serem destinadas a operar no Atlântico ao contrário das italianas, e aos sistemas que vão ser instalados não é credivel. Primeiro as fragatas portuguesas e as italianas serão entregues nos mesmos anos. A inflação tem que afetar de forma semelhante ambos os fornecimentos e os preços finais devem ser idênticos. Este argumento nada justifica. Não cola  dizerem que as fragatas compradas por Portugal são diferentes das italianas porque estão preparadas para operar no Atlântico e as compradas por Itália vão operar no Mediterrâneo. Qualquer um com um conhecimento médio ou, quiçá, médio baixo sabe que a Itália faz parte da NATO e que, pelo menos, no âmbito da NATO as fragatas italianas têm que operar no Atlântico Norte. Também não é justificação. E vão dois a zero. Resta a história dos sensores serem especiais de corrida. Se tem a ver com a operação no Atlântico não se percebe, se tem a ver com particularidades de actuação da MP ainda se percebe menos. Os requisitos operacionais são fundamentalmente definidos pelas operações de âmbito NATO nas quais ambos os países participam. E diferenças de preço de centenas de milhões não podem ter a ver só com sistemas diferentes nos navios, quando, ainda por cima, os navios são desenhados para operar nos mesmos cenários e no mesmo tipo de operações. Também não é justificação para diferenças de centenas de milhões de euros. Aliás, é curioso comparar este tipo de justificações com o que ministro disse numa entrevista à CNN. Referiu que ainda não estava definido o que estava incluído no fornecimento de cada fragata e, pasme-se, não conseguiu confirmar ou desconfiar se as fragatas traziam helicóptero. Se ainda não está definido o equipamento das fragatas como podem justificar a diferença de preços com este argumento?

Sabemos que este governo é bom a esbanjar dinheiro mas neste caso não é esbanjar, é pornografia. A despesa pública dispara, o ministro da educação tem um devaneio sobre digitalização de exames e gasta milhões ao erário público, a ministra da saúde gasta sem controlo e o serviço piora,... Verdade seja dita que nesta onda de despesismo se salva o Luís (neste caso Neves). O tipo em vez de gastar dinheiro a destruir resíduos, manda-os para Barcelos borrifando para as questões legais e para a saúde e segurança públicas (na verdade, não resolvendo coisa nenhuma -- mas isso os palermas não descortinam, por isso faz de conta que poupou) e consegue comprar herdades, dizem que por metade do preço. Sugiro que numa hipotética remodelação do governo passe para as Finanças. 

Isto é cada cavadela, sua minhoca. Até a ministra do ambiente que tantas vezes veio a público sugerir que as gasolineiras se aproveitam das alterações nos preços dos combustíveis foi hoje desmentida pela entidade reguladora. Pena que ela não bata à porta do colega das Finanças para ele justificar a carga fiscal sobre os combustíveis.

É chato, ninguém se aproveita!

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Nota sobre o nosso cão

Está menos incomodado. Já começa a deitar-se e a dormir durante o dia, coisa que não acontecia há vários dias. Parece estar a voltar à normalidade. As feridas começam a secar, apenas uma está ainda feia. Quando a semana passada arrancou o funil e fomos dar com ele agarrado à cauda e até um tufo de pêlo arrancou, dá ideia que arrancou mais que isso, parece que lhe falta ali qualquer coisa, pelo menos um bom bocado de pele. Essa é que está a custar mais a iniciar o processo de cicatrização. O tratamento hoje foi mais cuidadoso e o desinfectante que hoje começou a usar parece ser menos agressivo e é em spray. 

Hoje já não parece ter dores. Tem razão o João que estranha não ter sido prescrito nenhum analgésico. Também nós. A veterinária que o tratou no primeiro dia e que o torturou disse que era necessário esfregar vigorosamente as feridas para desinfectar em profundidade e que aquilo passava, era apenas um incómodo momentâneo, que só queria que andasse com as feridas ao ar e que tomasse antibiótico. A enfermeira veterinária que o tratou no dia seguinte seguiu as indicações dessa veterinária. 

A veterinária que tratou dele ontem é mais cuidadosa que a primeira. Aparentemente a injecção de anti-inflamatório que ontem levou teria também algum efeito analgésico. Desde ontem que notamos que está mais aliviado. Ainda não deixa tocar, mas é natural, nem que seja por estar traumatizado com o que tem sofrido.

Agradecemos os vossos comentários e a vossa simpatia. 

sexta-feira, agosto 14, 2026

Notícias do cãovalescente

 

Estou menos preocupada mas estou cansada. O bichinho ontem só adormeceu depois das duas e tal da manhã. Na prática, deixou-se cair -- e ali ficou. Tenho que confessar que até fui fazer aquilo que, à socapa, pela calada da noite, fazia com os meus filhos e que ainda faço com os meus netos: fui confirmar que estava a respirar. 

Já contei várias vezes: na minha vida profissional e mesmo na vida normal há quem me ache destituída de medos. Na verdade sou muito de me atirar, sem medo. Quando quero uma coisa, vou, e acredito que acabarei por conseguir. Até por vezes me arreliava, intimamente, por ser tão destemida. À minha volta ficavam passados, achavam que eu não avaliava os riscos, que parece que não via as confusões em que me ia meter, os obstáculos que iria enfrentar. Mas eu avaliava, simplesmente tinha confiança em que eu e os que eu arrastava nas minhas empreitadas haveríamos de conseguir. E conseguíamos. E mesmo a outros níveis: não tenho medo de ir ao dentista, quase adormeço, nos exames médicos mais longos também quase adormeço de tão descontraída que estou, fui fazer artroscopia aos dois joelhos ao mesmo tempo sem consultar segunda opinião e sem medir consequências e, na véspera, estive aqui até às tantas a escrever como se nada se fosse passar. Sou assim. Mas quando a coisa tem a ver com filhos ou netos sou a mais maricas de que há memória. Chicken mais chicken não pode haver. Também me preocupo com o meu marido, claro que sim, mas não é aquela coisa absolutamente visceral que é com a descendência. Com os meus pais também havia aflição, por vezes bem grande, mas acho que era uma aflição misturada com ansiedade, com um temor de outra ordem --  não exactamente a mesma coisa que medo. 

E com o meu cão-bichinho há uma coisa que também não é fácil: quando o vejo aflito. é a sensação de preocupação misturada com responsabilidade e, também, aflição. Ele não sabe explicar-se, eu tenho que adivinhar, e, se interpreto mal e tomo a decisão errada, ele não pode defender-se. Claro que nisto há uma responsabilidade partilhada com o meu marido. 

Dito desta maneira parece que com os demais não há essa responsabilidade partilhada. Talvez haja mas de maneira diferente. Ele confia, ele desliga. Eu não. Quando os meus filhos eram adolescentes e saíam à noite, ele adormecia na boa. Eu não. No caso da minha filha, por vezes ele levantava-se às três ou quatro para ir buscá-la. Mas, antes disso, dormia. Eu não. Mesmo com o meu filho, já adulto, enquanto vivia lá em casa, eu não dormia, via as horas a passarem, numa inquietação, num sobressalto. Tinha que me conter porque se o meu marido se apercebia disto dizia que eu era maluca (e virava-se para o outro lado, a dormir). No entanto, muitas vezes em certos aspectos, era pior que eu. Eu sabia que eles não queriam que eu ligasse e, por isso, continha-me. O meu marido se acordava e via que era mais tarde e que eu estava numa inquietação, queria que eu ligasse. Eu não queria e ele inistia tanto que eu acabava por ligar. O pior era se eles não atendiam. Aí a coisa virava pânico. E, então, voltava a ligar. Quantas vezes eles depois se aborreciam por verem que eu já tinha ligado carradas de vezes... Enfim. Lembro-me do meu filho me dizer que eu tinha que aprender a controlar-me. Aí o meu marido fazia-se de santinho, todo sonso, como se não fosse ele também a picar-me para eu lhes ligar.

Pois bem. O meu cãobeludinho fofo ontem, tarde e más horas, depois de longas horas de calvário, a andar de um lado para o outro todo o santo dia, sem se deitar e, muito menos dormir, acabou por capotar. 

Pus o despertador para ligar para a clínica logo na abertura. A veterinária do outro dia não tinha chegado e ainda bem. Marquei para uma outra que, felizmente, estava de tarde e que é muito mais soft, mais open mind, menos quero-posso-e-mando. De seguida liguei para a jovem que vinha buscá-lo para ele ser tratado. Relembro: continuamos sem carro. 

A oficina ainda não conseguiu pegar nele. Escassez de mão-de-obra por todo o lado. E ainda há gente estúpida que não percebe que mais mão de obra houvesse e mais a economia cresceria.

Felizmente o meu filho conseguiu abrir alas nos seus compromissos da tarde para vir cá buscar-nos, levar-nos lá e depois trazer-nos. E, pelo meio, abusei como já tinha feito com a minha filha: pedi se, enquanto estávamos lá dentro, podia ir ao supermercado. A minha filha está habituada a fazer compras, ir com uma lista de compras não é transcendente. Mas ele não, lá em casa dele só encomendas online. Por isso, vi o sobressalto que se lhe estampou no rosto quando eu lhe pedi isso. Talvez não ponha o pé num supermercado há anos. Mas, pronto, lá foi... De resto, em qualquer dos casos, a minha ideia original era pedir que parassem por uns minutos que eu ia. Mas, no caso dela, ofereceu-se para ir durante a consulta. No caso dele, disse que tinha que ir abastecer de combustível e, portanto, aproveitei essa brecha que ele abriu.

Esta veterinária da tarde esteve a ver no sistema e, quando o observou, até achou que não estava tão mal como esperaria vendo o descritivo que a colega tinha escrito. O bichinho hoje estava mais tranquilo pois resolvemos seguir o conselho da primeira: que antes de ele lá ir, três horas antes, lhe dessemos um ansiolítico. E demos. Por isso, estava menos reactivo, menos apavorado. Quando a vet desinfectou as múltiplas feridas ganiu, saltou, tentou fugir e, se apanhasse alguém, ter-se-ia vingado, mas nada que se parecesse com o pesadelo de quando a outra médica o torturou no primeiro dia. Ou porque estava mais calmo, ou porque esta o desinfectou de forma mais gentil ou porque as feridas já estão melhor, a verdade é que a coisa foi controlada. A veterinária deu-lhe uma injecção de anti-inflamatório pois a inflamação nitidamente estava a incomodá-lo bastante. E usou um produto mais neutro na limpeza das feridas.

Explicou-me que o exsudado, em especial, o purulento, cria uma crosta que, se não for retirada, os tecidos debaixo ficam necrosados e a pele pode não regenerar. Mas que não tem que ser esfregado ou esfolado. E o líquido a usar não vai ser o betadine ou o outro de que não sei o nome mas que também lhe deve arder para caraças mas sim um que lhe vai dar uma sensação de frescura sem ardor.

Vamos ver. Espero que tudo, a partir de agora, corra melhor. 

No entanto, chegou a casa e pôs-se outra vez às voltas pela casa, de vez em quando parado a olhar fixamente para nós. Agora veio pôr-se aqui encostado a nós, de pé, para lhe fazermos festas. Estávamos a ver que ia ser a mesma coisa. Mas não. Por volta talvez da meia noite e tal, perto da uma, creio, eu disse-lhe: 'vá, agora vai beber aguïnha e vai fazer ó-ó'. Se estivesse aqui o meu filho repreender-me-ia: 'não é um bebé... falas com ele como se fosse...'. Mas sai-me assim, que hei de fazer?. Eu disse-lhe aquilo e ele ficou um bom bocado parado a olhar para mim. Depois saiu da sala, ouvimo-lo a beber água e já não voltou, está a dormir. Felizmente. Também já vai no terceiro dia de antibiótico, há de ir melhorando. 

Entretanto, vai abrir um novo espaço veterinário não muito longe daqui e estou tentada a mudar. Estas agora onde vamos são experientes, a clínica está bem equipada, etc. Mas a veterinária chefe, a dona, é linha dura, para ela os animais não são gente. E para mim são. Como no outro dia citei: cão como nós. E acrescentei: e nós somos gente como ele. 

Tenho que agradecer os comentários tão simpáticos que me deixaram e os mails identicamente queridos, com conselhos e dicas. Não respondo individualmente porque estou muito exausta, a modos que esgotada. Muita contrariedade em simultâneo. E o facto de ter andado, há alguns dias, a dormir muito menos do que necessito, retira-me, ainda mais, a energia.

Esta coisa de estarmos sem carro é uma delas: faz-me sentir dependente e isso deixa-me doente. Amanhã o meu marido vai fazer um ponto de situação com a oficina e provavelmente vamos activar o carro de substituição. Mas não sabemos por quanto tempo. Receamos fortemente que ele, o crazy dog --que, quando vai no carro, quer atirar-se aos motoristas, em especial aos de uber ou glovo, e, como não consegue, se desforra mordendo o estofado das portas ou dos bancos --  dê cabo do carro de substituição e nos vejamos metidos em sarilhos. Irei atrás agarrada a ele. Poder-se-ia pensar que, por ter o colar isabelino, não consegue fazer estrago. Mas a verdade é que ele consegue tudo, já aprendeu os ângulos em que consegue chegar onde quer. Felizmente, até ver, não consegue chegar ao próprio corpo e isso é a principal prioridade neste momento porque, se apanha a cauda, nem imagino o estrago que fará.

Mas, portanto, muito obrigada, do fundo do coração, pelas vossas mensagens amigas. Perceber que aí desse lado estão pessoas com um coração grande dá-me muito conforto.

E vou esperar que nos próximos dias as coisas se vão endireitando. O meu optimismo deve ser a última coisa a morrer. Se calhar, quando estiver com os pés para a cova, ainda vou estar a dizer que o mundo é maravilhoso, as flores um encantamento, e que, vão ver, vai tudo correr bem. 

Tenham um dia muito bom, ok?

quinta-feira, agosto 13, 2026

Alguém aí que perceba de veterinária?

 

Não vou escrever muito porque estou chateada. Já não é a primeira vez que não concordo (ou melhor, não percebo, parece-me contraproducente) com o tratamento que na clínica veterinária aplicam ao meu cãobeludo mais fofo. Dizem que têm que arrancar as crostas que se vão formando. Mas, na prática, não deixam cicatrizar. Insistem que é assim, que a cicatrização tem que ser feita de dentro para fora e mais não sei o quê.

O que sei é que o pobre animal hoje foi levado para ser tratado e foi feito o que é recomendado: limpar vigorosamente, retirar qualquer crosta. Ficou outra vez com as feridas em carne viva. Veio de lá aflito.

Ele que dorme que se farta e que, à noite, adormece cedo, não se senta nem se deita nem dorme desde então, de um lado para o outro. Parece uma alma penada a vaguear pela casa.

Já na véspera, quando veio do consultório, veio de lá muito mais incomodado do que tinha ido. Liguei e disseram que era normal, que era comichão, ardor da desinfecção. 

Mas hoje, então, está pior, não pára, fica parado a olhar, depois põe-se a andar. Não consigo ver o animal neste desatino. E duvido que seja comichão ou ardor, deve ser é dor por terem esfregado as feridas do animal. E na cauda que é só pele e osso, coitado.

Não é possível que este seja o tratamento indicado. Está a antibiótico, e isso tranquiliza-me. E eu até perceberia uma limpeza ao de leve com algum desinfectante suave. Mas não: betadine numa gaze e vá de esfregar com força. 

A minha vontade é suspender esta tortura ao pobre animal. O drama é que se eu vou dizer à veterinária que não admito mais tortura, que isto não está a fazer bem ao animal, ela é bem capaz de me mandar arranjar outra veterinária. 

Além disso, tenho receio de que, se paro com estas esfregas com desinfectante, alguma coisa de complicado aconteça. Eu diria que não, que a pele há de regenerar por si. Mas a veterinária diz que não, que tem que se ir arrancando as crostas. Mas, então, quando é que cicatriza? Não percebo nada. 

O que sei é que acho de uma violência incrível sujeitar o bichinho a isto.

Portanto, olhem, não escrevo mais nada. Se alguém souber a sério disto, agadeço conselhos. Não quero palpites leigos pois não quero correr riscos com o meu fofo indefeso, quero é que ele se ponha bom e, de preferência, que o tratamento não seja mais diabólico do que a doença em si, não suporto ver o animal a sofrer.

quarta-feira, agosto 12, 2026

Cão como nós*, gente como ele

 

Dias complicados. Quando a veterinária começou a cortar o pêlo da cauda do nosso bichinho que estava sobre a marquesa, estava o meu marido a fazer um mata-leão nele, depois quase deitado em cima dele a ver se o imoblizava, e ele, com os olhos quase fora das órbitas, gania, rosnava, queria fugir, revoltava-se, revirava-se, tentava morder apesar de estar com o açaime posto. Eu, enervadíssima. Odeio ver sofrimento. À medida que o pêlo ia saindo, as feridas iam aparecendo. Feridas em toda a cauda. Quando ela lhe limpou os ferimentos a casa ia vindo abaixo. Apesar de o meu marido o estar a prender fortemente, quase ia pelos ares com os saltos que ele dava. 

Mais uma vez, piedermite. Começa por lamber ou coçar e, num ápice, a coisa degenera. Com o pêlo todo, não se vê. 

Agora anda agitado, aquilo incomoda-o, não sei se é comichão, ardor ou dor. 

Está a antibiótico, outra vez. Diz a veterinária que pode ter feito alergia a qualquer coisa, erva, resina, ou simplesmente alguma coisa dar-lhe comichão. Coça, lambe, o pêlo fica molhado, a humidade favorece o desenvolvimento do que não deve, começa a desenvolver-se bicheza que, roçando ele a pele com as lambidelas ou coçadelas, vai gerar ferimento que infecta. Já é para aí a terceira ou quarta vez que tem disto. 

Amanhã os ferimentos têm que ser desinfectados mas nós dois não conseguimos imobilizá-lo de forma a limpar as múltiplas feridas. Vamos levá-lo à escola onde as monitoras conseguem dominá-lo. Mas continuamos sem carro. Por isso, não é exactamente irmos levá-lo... vem cá uma das colaboradoras buscá-lo. E devia ser duas vezes por dia mas dadas as circunstâncias só pode ser uma. Mas isto só dura até ao fim de semana pois vão de férias. No fim de semana volta ao consultório. Vamos tentar um uber friendly pois se hoje a minha filha conseguiu vir, no fim de semana não vai dar e o meu filho e família têm um fim de semana fora. A veterinária, entretanto, face à batalha campal de hoje, receitou ansiolíticos. No sábado tomará um comprimido antes de ir. Se corer bem, irá calmo. 

E, para a semana, não sei como vai ser.

Um stress horrível. Custa-me imenso ver o bichinho neste sofrimento e inquietação. Custa-me não conseguirmos, os dois, tratar deles, custa-me elas irem de férias, custa-me não termos o carro. Pedir um de substitução ou alugar um é uma hipótese mas na garagem não sabem quando despacham o nosso, a companhia de seguros quer informação mais concreta. E receamos que ele danifique o carro.

A veterinária diz: os Serra de Aires são cães selvagens. São feitos para andar nos montes, o dia todo a correr atrás das ovelhas, essa é a natureza deles. Não podendo viver de acordo com isso, stressam e, se stressam, ficam com o sistema imunitário mais frágil. Para além disso, não são fáceis quando se sentem atacados ou com dor.

Agora anda por aqui às voltas, não tem sossego. Normalmente a esta hora dorme a sono solto. Não está bem, coitadinho.

E, tirando isto, tudo anda complicado, surgem chatices várias, de diversos quadrantes. O que me anima é pensar que depois da tempestade vem a bonança. E que não há mal que sempre dure. Portanto, daqui por uns dias tudo se começará a recompor, espero.

Ando cansada. Acordei quase de madrugada e não voltei a adormecer. Como vou para a cama sempre tarde, pouco dormi. E este calor também não ajuda.

Vou ver se me deito porque amanhã o dia começa cedo, tenho cá meninos. Vai ser um dia bom. Com a animação deles, a alegria compensa um pouco a aflição de ver o bichinho tão incomodado.

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* Creio que não haverá quem não saiba mas, ainda assim, aqui fica a nota: "Cão como nós" é o título de um livro de Manuel Alegre

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Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, agosto 11, 2026

Um jardim à maneira para ver se me acalma depois de mais um dia do piorio

 

Dias complexos que me deixam exausta e, à noite, com vontade de descansar a cabeça. Aquela de que não há duas sem três deve ser alterada para não há seis sem sete, quiçá nove sem dez. Sempre a somar..

E, para complicar, vimos finalmente o que se passa com a cauda do pobre cãobeludo. Tirou o colar isabelino, não sei como, e dei com ele freneticamente agarrado à cauda. Fui chamar o meu marido pois eu sozinha nem pensar em conseguir agarrá-lo e voltar a pôr-lhe aquele horrível funil. E, então, vimos uma ferida enorme na parte de baixo, na parte interior, digamos assim, a sair de dentro do pelo, uma ferida horrível, assustadora, grande, gorda e rubra como uma grande ameixa em carne viva. Se nos aproximamos e desconfia que lhe vamos tocar lá, vira-se e rosna, nitidamente apavorado. E não fazemos ideia de como arranjou isto. Só espero que não seja outra pragana. Supostamente um cão resistente, do campo, e, afinal, sempre com mazelas do caraças. E, a ajudar, este feitiozinho de cão. A cãzinha, a nossa saudosa boxer, era uma santa. Nunca tivemos quaisquer problemas destes com ela. Nunca.

Um stress do caraças, isto.

E nós sem carro. Fui ver a questão do uber pet friendly mas não são carros com divisórias para animais, são carros normais em que os motoristas consentem que os clientes transportem os seus animais de estimação. Ora é uma situação impossível, o nosso cão não é motorista friendly. Cravei a minha filha para vir buscar-nos à hora de almoço e nos levar à clínica veterniária. Felizmente está de férias por cá, consegue. Mas é um programa com o qual não estava a contar e eu destesto cravar quem quer que seja, mesmo numa emergência como esta. Detesto mesmo. 

E vai ser um pesadelo no veterinário, temo que tenha que ser sedado. E não sabemos como fazer nos dias seguintes. Tem certamente que desinfectar todos os dias e pôr pomada ou sei lá o quê e não deixa, vira-se imediatamente e tenta defender-se como pode, rosnando e ameçando atacar. Já aconteceu antes e levávamo-lo à escola de treino em que as tratadoras o continham enquanto uma enfermeira veterinária o tratava. Mas isto tendo nós carro para andar nisto. Poderíamos alugar um carro mas ele tem outra particularidade: quando passa por nós uma mota ou alguém a pé que não lhe parece de confiança, salta no banco de trás e desforra-se no que pode, temos os bancos e as portas todas espatifadas. Não podemos arriscar que dê cabo de outros carros.

Podem dizer que está mal ensinado. Sim, sim. Já andou em não sei quantas escolas. Obediente e tal e coiso mas, quando lhe parece que deve ser guardião, cão-pastor, é possessivo, territorial e implacável. É sair da sua alçada.

O nosso carro já é um caso perdido... e pior é que não sabemos quando o teremos...

Um stress. Isto causa-me um stress do caraças. 

Pelo meio ainda veio cá um senhor tirar medidas para uns trabalhos em volta da casa e por dentro, o que, obviamente, obrigou o meu marido a andar com a fera de um lado para o outro pois um homem desconhecido a circular pela casa deixa-o ainda mais reactivo do que ele já está e, se o apanhava, a coisa não ia correr bem. Agora imaginem o senhor a fazer perguntas e o cão aos saltos e a ladrar furiosamente e nós quase sem conseguirmos ouvir o senhor.

O meu filho, quando ligou, estava a pensar trazer os meninos amanhã. Mas, com este cenário de termos que ir para o veterinário, não dá. Não sabemos quanto tempo lá demoramos e, de qualquer maneira, mesmo que fosse rápido, não íamos deixá-los cá sozinhos. Que impotência com tudo isto. Não ter carro para nos deslocarmos, em particular quando há a necessidade de levar o cão ao veterinário e quando ele anda incomodadíssimo, quase não come, anda desorientado com o funil na cabeça e com o incómodo que tem e não dá para adiar, é uma sensação de impotência... E só de pensar que os múdos deveriam estar a contar passar cá o dia e que, afinal, não é possível... Que chatice.

E em cima disto mais não sei quantos contratempos. Às tantas já só me apetecia virar costas, desistir. Talvez, até, chorar.

Agora estou aqui na sala, enquanto ele está deitado aqui ao pé de mim. Mas de vez em quando estremece, agita-se. Deve doer-lhe à brava, coitadinho. 

Para ver se me distraio, viro-me para vídeos 'bonitos', tranquilos, com temas que me agradam, que me distraem e descansam a cabeça. É o caso deste que partilho. Espero que também gostem.

Por dentro da restauração do jardim de Coco Chanel na Riviera Francesa | Architectural Digest

A AD acompanha o arquiteto Peter Marino numa exploração da restauração dos lendários jardins de Coco Chanel em La Pausa, a sua icónica villa na Riviera Francesa. Dos arquivos históricos à plantação mediterrânica, a paisagem foi cuidadosamente reimaginada para honrar a visão original de Chanel, celebrando a beleza do sul de França.


Desejo-vos um dia bom

segunda-feira, junho 15, 2026

Depois de um valente susto, um milagre. Talvez, até, dois milagres.
Talvez até por isso, faça coro com as pessoas do vídeo: há que dar valor às coisas boas da vida

 

Este domingo, um dia tão lindo, apanhei um susto enorme: o meu cãobeludo estava com uma bola enorme, no mínimo do tamanho de um ovo, na 'barbela' ou lá como se chama aquela parte da pele do pescoço, ali naquela zona abaixo do queixo, uma bola grande ali pendurada. Sempre fui maricas com os meus e, desde que tivemos a nossa cãzinha, ela, de certa forma, passou a fazer parte dos meus. E este cão, que nos tem dado tantos trabalhos, também o é. À sua maneira, mas é. Claro que fui logo para a IA e recebi possibilidades, umas assim-assim, outras talvez e outras mais perturbadoras. Uma bola tão grande não era forçosamente muito tranquilizante. É que foi tosquiado no fim da semana (para evitar mais sarilhos com a porcaria das praganas, que ainda há três ou quatro dias saiu de uma infecção numa pata por causa de uma) e, portanto, poderia já a ter e não termos visto, debaixo de todo aquele pelo. Nestas alturas a minha energia esvai-se. Não são só as piores perspectivas que me assustam, é todo o processo, o levá-lo ao veterinário que ele odeia, o ter que fazer tratamentos que ele odeia e não permite, transformando tudo numa complicação, e é, sobretudo o receio do que pode seguir-se. Felizmente, lembrei-me de perguntar ao grupo da família, e no sábado tinham cá estado todos, incluindo a fazer-lhe festas, se tinham reparado. A minha filha respondeu logo que não, e mandou fotografias que lhe tinha tirado: zero bola.

Já tinha marcado consulta, mas a certeza de que todo aquele volume se tinha formado em menos de 24 horas assustou-me. Liguei à veterinária que me disse que provavelmente era uma reacção às vacinas que levou no mesmo dia. Que lhe fizesse massagem circular ao de leve. A verdade é que, depois de ter estado o dia todo sem se mexer, sem comer ou beber água -- o que nos deixou ainda mais apreensivos --, de repente, parece que despertou, bebeu, bebeu, bebeu água como se não houvesse amanhã, comeu, correu, correu e saltou e, aos poucos, com o exercício e as massagens, a bolazona foi ficando mais reduzida.

Portanto, ao fim do dia, comecei a respirar de alívio.

Fui, então, para o jardim, respirei, fotografei, agradeci aos deuses, às flores, às árvores, aos pássaros, aos céus e, no meio do encantamento, descobri um botão de magnólia. Um único. Outro fenómeno.

Quando está com os ramos nus, a magnólia rebenta em mil flores. Depois caem as flores e nascem as folhas. Está agora assim, verde, frondosa. E já não nascem mais flores. Portanto, que milagre é este agora eu não sei. Mas adorei. Fotografei-a de vários ângulos. Há que documentar os milagres.

E o passeio que demos ao fim do dia soube-me que nem ginjas. Antes, quando tínhamos ido andar com o pobrezito, arrastava-se, incomodado, aquela bolazona ali a balouçar, pendurada, e, se calhar, todo ele sob efeito de alguma reacção, sei lá, bem não estava. 

Enfim, parece que o susto já passou. Mas amanhã lá vamos outra vez para a clínica veterinária. Ainda há bocado o meu marido dizia que não sabia como fazem as pessoas de menos posses. No espaço de cerca de uma semana, entre tratamento da infecção da pragana, tosquia, vacinas e a ração que encomendei ontem já lá vão para cima de trezentos e tal euros. E, que eu saiba, não há nenhuma versão económica para tratamentos veterinários no caso de donos de menores recursos. 

Mas adiante. 

Agora, ao sentar-me aqui, vi o vídeo que partilho de um rapaz que faz entrevistas interessantes. Aqui entrevista pessoas de maior idade, ao acaso, e, no fundo, leva-as a reflectir sobre o que fizeram de bem ou de mal na sua vida. Gosto de ouvir. Revejo-me em muito do que ouço, revejo-me no gosto de viver a vida com leveza, no bom que é a gente maravilhar-se com as coisas simples da vida.

Perguntar a pessoas de 70 anos sobre os seus maiores arrependimentos na vida

Neste vídeo, perguntamos a pessoas desconhecidas na casa dos 60, 70 e 80 anos, algumas das pessoas mais velhas e experientes do planeta, sobre os seus maiores erros e arrependimentos na vida, conselhos que dariam a si próprias mais jovens e outros conselhos valiosos que gostariam de ter aprendido mais cedo. Vídeo gravado em Montreal, Canadá.


Desejo-vos uma boa semana a começar por esta segunta-feira

domingo, abril 19, 2026

Um dia muito preenchido que até incluiu uma cãoversão

 

São quase duas da manhã e tenho estado a ver se me mantenho acordada para, pelo menos, espreitar as notícias. Mas, de cada vez que começo a ler, desato a dormir. Não muito tempo, escassos minutos, mas o suficiente para, se entrar noutro jornal, as notícias anteriores já estarem desfasadas. Não sei se os acontecimentos desataram a romper os limites da física, furando as equações que regulam o espaço e o tempo, ou se anda tudo de tal forma confuso que já ninguém atina com nada, nem os jornalistas nem os próprios agentes da notícia. Desisto, pois. Se é para ficar baralhada mais vale que o fique de dia não vá a confusão desencadear algum daqueles meus sonhos mais surreais que uma cena a la Dali. 

O dia hoje foi bem preenchido, cheio de imprevisibilidades. Deitei-me ontem a pensar que o sábado ia ser uma coisa, provavelmente tudo mais para o calmo, e, afinal, foi bem o seu oposto, ou melhor, completamente o oposto. Para melhor. 

Mas que ginásticas tive que fazer... Felizmente, sou mulher prevenida e, portanto, quem foi chegando encontrou sempre acolhimento como se a sua vinda tivesse sido planeada, incluindo tendo o que comer. E, bem vistas as coisas, não sei como... mas ainda sobrou. 

Razão tenho eu em não ligar quando me perguntam se não é comida a mais ou se não acho que estou a exagerar. Sempre achei que mais vale sobrar do que faltar.

Ao longo do dia, grandes mudanças de cenários, incluindo ao almoço, que estava a decorrer muito normalmente --  a mesa cheia, conversa animada, sempre várias vozes que se cruzam -- até que, tendo-se recebido a notícia, não sei como, de que um dos meninos que jogava hoje, por sinal, a não muitos quilómetros dali (mas, que portanto, não estava ali connosco), seria titular, de repente, toda a gente, to-da (toda, menos o meu marido que não alinha muito em coisas assim de última hora, ainda para mais a correr), resolveu que era giro lá irmos todos vê-lo e, portanto, que era indispensável acabar o almoço com urgência. Então, foi um ver se te avias, tudo a despachar o resto do almoço à pressão, tudo a meter-se no carro, depois lá tudo a correr para chegar ao campo (literalmente a correr, pois o jogo já tinha começado há um bocado). Claro que ninguém me obrigou, também poderia não ter ido, mas não consigo recusar-me a uma coisas dessas, em especial quando é para ver, mesmo que de longe, um dos meninos. 

E eu gostava que, depois do jogo, ele se nos juntasse mas não pôde, foi na camioneta do clube com o resto da equipa. Protocolo é protocolo.

E se tivesse sido essa a única peripécia não teria sido mau. Mas não, hoje o dia foi todo ele uma coisa assim. E incluiu também uma conversão: o cão feroz, perante quem não conhece, arma sempre um chinfrim dos diabos, ladra, salta e parece que só não trinca se não o deixarem. Mas hoje, em vez de ser isolado para não incomodar o pessoal ou para não dar azo a alguma calamidade, foi levado para terreno neutro, foi travar conhecimento fora de território que considere seu. Não sei se por isso ou se, sobretudo, por não terem mostrado medo, a verdade é que, passado um bocado, talvez uma meia hora, não sei bem, decorridas cautelosas interacções, a fera estava convertida e pode andar a conviver, nos maiores amores, com quem, antes, não conhecia. E assim se manteve até à noite, tranquilo, amistoso.

Claro que, quando chegou a casa vindo do passeio nocturno, desta vez mais tarde do que o habitual, se atirou para o chão e ferrou. Dia agitado, muitas emoções.

E eu agora também vou dormir. Não escrevi nada de jeito, mas tal a lentidão com que estou, se é que não fechei os olhos pelo meio, já são quase duas e meia.

Este domingo de manhã logo tiro a limpo se o Estreito de Ormuz (ou de Vermute, como um dos malucos da Casa Branca no outro disse lhe chamou) afinal está aberto ou fechado. 

domingo, fevereiro 08, 2026

A psicologia das pessoas que têm um forte apego aos seus cães

 

O meu filho repreende-me: 'Não fales com ele como se fosse um bebé. Não é. É um cão.'. Bem sei. Mas é também um serzinho dependente de nós, um serzinho que precisa de atenção e de mimo. Claro que depois também é independente, por vezes barulhento, por vezes desaustinado. Mas também nos divertimos com isso. 

E, se o carteiro deixa qualquer coisa, eu sei logo. E, se vem alguém e não ouço a campainha, ele não se cala até eu perceber que alguém está ao portão. E se vou na rua e me cruzo com alguém que, noutra situação, me atrofiaria um pouco, com ele ao meu lado sinto-me segura. 

E a ternura que sinto quando se senta todo encostado a mim e deita a cabeça na minha perna ou quando faz uma habilidade e se vira a olhar para mim enquanto dá ao rabo e todo ele parece rir, isso não tem explicação.

Por isso, no seguimento do post de ontem, não levem a mal se reincido mas gostava que vissem este vídeo:

A psicologia das pessoas que estão profundamente apegadas aos seus cães vai para além da simples amizade. É uma necessidade biológica. Este vídeo explora a neurociência da ligação humano-cão, explicando porque é que o seu cão não é apenas um animal de estimação, mas um "guardião" do seu sistema nervoso.

Se se sente mais seguro com o seu cão do que com a maioria das pessoas, não está sozinho. Neste ensaio visual, mergulhamos nos conceitos de "Corregulação", "Testemunha Silenciosa" e porque é que os cães são essenciais para a estrutura da saúde mental. Discutimos como os cães ajudam a lidar com a ansiedade, a depressão e a solidão, ancorando-nos no momento presente.

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

E hoje uma coisa completamente diferente

 

Não vou falar das árvores que nos caíram, o que tanto desgosto me dá, não vou falar da preocupação, essa sim baseada em dramas de outra dimensão -- por tantas pessoas terem ficado sem casa, tantas empresas terrivelmente danificadas, tantas pessoas ainda sem eletricidade e sem água canalizada, tantas estradas colapsadas, tantas árvores arrasadas, tantas casas completamente alagadas com prejuízos incalculáveis -- nem vou falar de guerras, de escândalos, da miséria moral de tanta gente que deveria ter um comportamento exemplar e que, afinal, como os ficheiros Epstein tão cruamente revelam, são sórdidos, cruéis. Não vou falar de nada que me perturbe.

Poderia falar das presidenciais já que isso não me perturba. 

Não vou votar com entusiasmo, o Seguro nunca me pareceu um personagem inspirador, não me parece que motive alguém. Mas a alternativa é imprestável pelo que se o Ventura fosse a votos com um calhau eu votaria no calhau, se fosse a votos com um buraco negro eu votaria no buraco negro. Por isso, claro que vou votar no Seguro. É decisão tomada. Na primeira volta votei no Almirante e na segunda, obviamente, voto no Seguro (e, claro, que estou a conter-me para não o tratar por ToZé). Esteja frio, chuva ou ventania, claro que vou sair de casa e vou votar. Portanto, isso nem sequer já é tema.

Mas também não é das presidenciais que vou falar.

Vou falar de uma coisa completamente diferente. 

Vou falar de cães. Quando comecei este blog, estava eu ainda no período de luto pela nossa doce cãzinha, a boxer mais querida e mais amiga do mundo, que nos enchia o coração de amor. Toda a família se derretia com ela.

Tal o desgosto com a sua partida que tinha resolvido, em definitivo, não voltar a ter outro cão. Durante anos mantive-me firme. O meu marido também. Ele que tanto gosta de cães, estava também em luto profundo.

Mas, já aqui nesta casa, com os meninos todos a quererem um cão, de repente senti que o meu coração se abria. Enfrentando ainda a resistência do meu marido, fui abrindo caminho. Depois das peripécias para adoptar um cão abandonado e de termos constatado a maluquice que é aquilo, desistimos.

Até que fomos até a um monte alentejano ver um cão bebé, de um pastor. E foi amor à primeira vista. Peguei logo ao colo aquele pequeno tufo de pelo. E ele aninhou-se em mim. Adoptámo-nos instantaneamente. O meu marido enterneceu-se, rendeu-se.

Tornámo-nos inseparáveis.

É um cão temperamental, teimoso, vigoroso, territorial, possessivo, e excelente guardião. Mas meigo, amigo, muito brincalhão, inteligentíssimo. Não passamos sem ele e ele sem nós. 

E estou a falar nisto pois vi um vídeo que me comoveu. Já tinha visto vídeos com esta forma de adopção, em que são os cães que escolhem os seus futuros donos. Mas este é especial. 

Este cão de abrigo rejeitou todas as famílias... e então fez algo que partiu o coração de todos.

Durante oito meses, Max viu famílias passarem em frente ao seu canil. 

Grande demais. Energético demais. Não tem o tamanho ideal. 

Mas a verdade era mais simples: Max não estava à espera de uma família. Ele estava à espera de uma pessoa. Este vídeo conta a história real de um cão de abrigo que recusou todas as adoções, de um menino que teve que ir embora e da promessa que nenhum dos dois esqueceu. Às vezes, os cães entendem a lealdade melhor do que nós. E às vezes, as melhores coisas da vida valem a pena esperar.

AVISO: O vídeo foi feito com o auxílio de inteligência artificial, mas retrata uma situação que realmente aconteceu de uma forma emocionante.


Desejo-vos um bom sábado

domingo, novembro 23, 2025

Demasiado perto do fogo para sobreviver

 

Está frio e, nesta season, acendemos pela primeira vez a lareira. De manhã fomos comprar lenha. Temos muita, muita mesma, nossa, mas essencialmente pinheiro. Ora o meu marido queixa-se da lenha de pinheiro, que faz muito fumo, que suja muito e mais não sei o quê. Por isso, trouxemos uma carga de azinho e sobro e, creio, alguns ramos de oliveira.

Gosto dos cheiros destes grandes armazéns de lenha. São intensos, telúricos.

E, portanto, jantámos na mesa junto à lareira. Um quentinho mesmo bom. 

A lareira dá para esse lado e dá para o lado oposto, onde estão os sofás. O cão que de desinteligente não tem nada, hoje em vez de dormir no poiso habitual no piso de cima, hoje foi repimpar-se no sofá em frente à lareira. 

Provavelmente os mais puristas dirão que os cães não devem escolher o sítio onde querem dormir mas nós somos assim, liberais. Só não o deixamos ir para a parte da casa onde está o quarto. E quando cá dorme o pessoal também não o deixamos ir para a zona dos quartos que lhes estão destinados. Tirando isso, ele é gente como nós. Claro que temos a certeza que o seu instinto de sobrevivência o manterá afastado o qb para não se queimar ou aquecer de mais. 

No verão estende-se no chão do corredor, que é de pedra, ou, lá em cima, no chão que, embora seja de madeira, é fresco. Quando vem o fresco, sobre para uma almofada de tipo colchão que está num banco entre pilares. Quando vem o frio, procura o conforto dos sofás. Mas isola-se, ou seja, não vem deitar-se ao nosso lado nem tão pouco na sala em que estejamos. É discreto.

Entretanto, imagine-se, não sei se será por ver enfeites de natal, bombons, presentes, bolos, camisolas e pijamas e luzes e luzinhas natalícias por tudo o que é sítio, já começámos a pensar no que poderá ser a ementa de natal. Ando com vontade de, uns dias destes, experimentar fazer duas receitas de bacalhau, que nunca fiz, para avaliar se os esquisitinhos que torcem o nariz ao bacalhau (em especial, os miúdos) aprovarão. Também vi um arroz de forno com borrego ou cabrito desfiado que também me pareceu bem. E devia prendar-me e começar a experimentar fazer sobremesas mas, mal penso nisso, recuo logo. A nível de doces quilo de que eu mais gosto não é consensual e não me apetece fazer coisas  que não acho graça e que, ainda por cima, que podem não ficar bem ou não agradar. 

Ah, e tenho ainda mais uma coisa a dizer. Quando viemos para esta casa, dei roupa e deitei fora muita coisa (deitei for, não, coloquei naqueles contentores da roupa) e, contra a opinião do meu marido, guardei algumas que já não me serviam mas de que eu gostava. Por ele, tudo isso, devia ir de asa sem dó nem compaixão. Eu, como tinha a esperança de voltar a caber dentro dela, guardei. E tive razão: agora que já peso menos de 60 kg, muita coisa voltou a servir-me que é um mimo. Uma alegria para mim. Se ainda conseguir reduzir mais um ou dois quilos, então, seria ouro sobre azul. Mas não sei se consigo. É precisa uma disciplina do caraças. Lambona como sou, sempre com fome, tenho que manter-me determinada em permanência... e isso não é fácil. Mas, então, descobri uma camisola que tricotei e de que gostava bastante. Inventava modelos, dava-me imenso gozo. Deveriam os meus filhos ainda ser pequenos, presumo que pré-Zara ou quando só a havia no Porto e, portanto, não tão à mão. Portanto, há quanto tempo isso foi... Pois está-me praticamente boa. Lá está... se perdesse os tais dois quilitos melhor ainda ficaria. Mas, enfim, já não está mal. Lavei-a, pu-la ao sol, e está quase como nova... Fiquei mesmo contente.

E é isto.

A despropósito, mas a propósito daquilo que escrevi lá em cima, demasiado perto do fogo para sobreviver, partilho um vídeo bastante interessante. Em tempos próximo de Trump, Anthony Scaramucci cedo percebeu que o melhor que tinha a fazer era pôr-se ao fresco e, desde então, não se cansa de alertar para os riscos de estar próximo do doido mais varrido de que há memória (o agora estar completamente in love pelo Mandani é de uma pessoa bater dez vezes com a cabeça na parede a ver se está acordada ou a ter sonhos fantasiosos)

daqui

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Trump Is Too Close To The Fire To Survive | The Daily Beast Podcast Clips

@therealanthonyscaramucci conversa com Joanna Coles sobre o que pode estar nos arquivos de Epstein e o que lhes acontecerá a seguir, incluindo a probabilidade de censuras graves. Além disso, os dois falam sobre as perspetivas para o futuro de Trump e do movimento MAGA, e se JD Vance teria a capacidade de manter o MAGA vivo após a saída de Trump.


Desejo-vos um belo dia de domingo

quinta-feira, novembro 06, 2025

Dias bons a caminho. Acredito nisso.

 

Ontem à noite estava aqui interessadíssima a acompanhar a evolução dos resultados nos Estados Unidos, na feliz expectativa de que os americanos mostrassem que não estão anestesiados e que os democratas não estão de tal forma a navegar na maionese que ainda seriam capazes de mandar o Trump dar uma grande volta. As notícias vinham nesse sentido e, portanto, quando me deitei, fui tranquila e preparada para um belo sono.

As previsões do tempo apontavam para bernarda da grossa mas eram duas da manhã e não ouvia nem vento nem chuva.

Contudo, passado pouco tempo comecei a ouvir raspar na porta do corredor que dá para a zona do quarto. Deixamo-la fechada para que o cão não vá para a nossa cama. É grande e temperamental demais, às tantas tínhamos que lhe pedir licença para termos espaço para nós. Mas ele nunca tenta ir para lá. Quando regressamos do passeio nocturno, retira-se para os seus aposentos e lá fica até de manhã. Excepto quando está com algum problema. E, pelos vistos, era o caso ontem à noite. 

Comecei a ouvir que já gemia, que fazia barulhos estranhos. Pé ante pé, fui espreitar. O tapete da entrada e o do corredor já tinham mudado de sítio, estavam amarfanhados no extremo oposto. Estava inquieto. Não percebi porquê, disse-lhe que estava tudo bem, que fosse dormir.

Contudo, passado algum tempo, o que ele tinha intuído, concretizou-se. O meu marido pesquisou e confirmou que os cães se apercebem da trovoada bem antes de ela ser perceptível para os humanos. E assim foi. Uma ventania, relâmpagos, trovoada, uma chuvada diluviana. Uma tempestade das sérias. E o pobre cão numa aflição.

O meu marido, altruísta, decidiu que, a bem do descanso de todos, se sacrificaria. Vestiu-se e resolveu vir dormir para o sofá. Disse ao pobre e trémulo cão que fosse com ele para a sala. E eu poderia ficar no quentinho da cama a ver se dormia.

Na rua, o barulho acentuava-se. E, estranhamente, o cão não seguiu o meu marido. Manteve-se na choradeira ao pé da porta da zona do quarto, a arranhar a porta, a fazer barulhos, a andar com os tapetes num alvoroço. Isto enquanto a casa quase vinha abaixo com tanto vento, tanta chuva, tanta trovoada.

Fui ter com o cão. Tentou vir para o pé de mim. Chamei o meu marido. Disse-lhe que o melhor era trocarmos. Vesti qualquer coisa e fui ter à sala para me deitar eu no sofá. A alegria do cão foi incrível. Dava ao rabo, andava em minha volta, todo encostado a mim. Tremia como varas verdes, coitado. O meu marido foi para o quarto e eu estendi-me no sofá. No chão, encostado ao sofá, fui fazendo festinhas ao pobre cãobeludo, tentando acalmá-lo. 

De repente, um clarão imenso e, ao mesmo tempo, um estrondo, um ribombar intenso, e, ao mesmo tempo, um outro barulho e, logo a seguir, o aviso sonoro da central de segurança. Experimentei e vi que não havia luz. Fui ver o disjuntor. Estava para baixo. Fiz força mas não consegui. Tive medo de forçar, até porque poderia não ser aquilo. O cão todo encostado a mim, o vento, a chuva, a trovoada sem darem tréguas. Fui chamar o meu marido. No meio daquela tempestade, às escuras, só pensava que, se fosse preciso alguma coisa, às escuras seria pior. Isto sem pensar no frigorífico que poderia começar a descongelar. Chegou lá, pôs aquilo para cima. Refiro-me ao disjuntor, claro. Voltou a luz. E eu voltei para o sofá e o cão, atormentado, todo encostado a mim.

Eram já sete de manhã, o temporal abrandou. O cão acalmou-se, adormeceu. Pé ante pé, voltei para o quarto. Quando estava a adormecer, novo clarão, novo ribombar. E, de novo, o cão a raspar na porta, a chorar, a fazer barulhos de medo e chamamento.

Voltei a vestir-me e a ir para o sofá. E o meu amigo comigo.

Por volta das 9 horas, já tudo tranquilo, o meu marido a pé, fui finalmente para a cama. Dormi entre as 9 e as 11.

A glicínia grande, que estava linda, imensa, caiu toda, despregou-se do telhado, o gradeamento do muro em que estava presa também caiu. Uma tristeza. Não temos força para a levantar. O meu marido diz que terá que a cortar. E eu não vejo alternativa.

Do outro lado, tombou uma buganvília e caiu sobre uma grande suculenta de que se partiu também um bocado.

Tirando isso, está tudo bem. 

Os resultados nos Estados Unidos foram óptimos e estou contente. E o tempo levantou. Portanto, acredito que os tempos de bonança estão a caminho.

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Um grande, grande discurso, grande, grande

“Trump, Turn the Volume Up!” — Zohran Mamdani’s Fiery Victory Speech Rocks NYC

Zohran Mamdani delivers a powerful and historic victory speech after defeating Andrew Cuomo to become New York City’s next mayor. Declaring, “We have toppled a political dynasty,” Mamdani vows to “make New York the light” and calls out President Trump directly — “turn the volume up.” 


Põe-te a pau Andrezito. 
Talvez novos ventos estejam a caminho

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Dias felizes

sexta-feira, agosto 01, 2025

Na ressaca de uma ida às compras, com o corpo habituado ao descanso e ao silêncio

 

Quando estamos no campo, o tempo flui de uma outra maneira. Durmo mais, levanto-me tarde e isso não atrapalha o resto do dia porque tudo corre tranquilamente, quase como se o tempo deslizasse com todo o vagar.

Com o calor que tem estado, só se consegue estar bem dentro de água ou dentro de casa. Só ao fim do dia se consegue andar na rua. E, ao fim do dia, com a doçura do entardecer, tudo é serenidade. O tempo em tardança.

Sou eu e é ele: zen, zen, zen
Ainda hoje, no campo, à sombra, a dormir descansadamente

Portanto, com este ritmo pausado, o meu corpo parece desabituar-se da agitação, do movimento.

Aconteceu-me hoje um banho de imersão num bem animado shopping. Já no outro dia, quando um dos meninos fez anos, fomos às compras com ele (e com o mano). Mas a transição do campo para a cidade não foi como hoje, foi mais rápido e só um dos rapazes estava comprador. 

Hoje, com dois leõzinhos em vias de fazerem anos, de presente quiseram também ir às compras. Só ao fim da tarde porque antes estiveram na praia. 

Ele despachado, muito pragmático. E impaciente. No capítulo das compras, igual ao pai. Antes tinha-nos avisado qual a hora limite pois tinha que estar em casa a tempo de tomar banho e jantar para, quando começasse o jogo, queria estar a postos em frente da televisão.

Ela é outro comprimento de onda. Disponível para avaliar todas as opções, com gosto em experimentar tudo, sem pressa. Neste capítulo, igual à tia. Disse o irmão que, só por saber que ele se queria despachar para não perder pitada do jogo, já ela fazia tudo mais devagar. Ela disse que não mas não sei se, lá no fundinho, ela não se importou nada de não corresponder às pressas dela. Contudo, penso que, nela, é, sobretudo, o prazer de ir às compras e de experimentar toilettes. Compreendo-a. Não posso esconder que sou também assim. Talvez não agora, em que me forço a não ceder ao consumismo, mas, antes, o prazer que sentia em adquirir farpelas novas era grande e sempre renovado.

Portanto, gerir estas duas personalidades e motivações, foi uma coisa um pouco complexa: ele desesperado, farto, irritado, ela nas calmas, nas sete quintas. 

Entretanto, o meu marido resolveu levar o cão, mas, logicamente, ficou lá fora a passeá-lo. Não sei se imaginou que seria rápido mas, se imaginou, imaginou mal. Por isso, também desesperava, telefonando-me volta e meia a pedir-me um ponto de situação, dizendo que já não conseguia andar mais tempo às voltas. Pelo meio, ligou-me também o meu filho a querer saber onde andávamos pois daí a nada começava o jogo, e, perante o ponto de situação, disse-me que eu não estava a gerir bem as prioridades. Talvez, mas perante abordagens contrárias, até conflituantes, que poderia eu fazer?

Segundo ela, foi o irmão que ligou aos pais a queixar-se dela e a mostrar o seu desespero. Não vi mas ele não negou. 

No final, ela já estava bem abastecida, embora ainda com um item em falta, ele ainda quase sem nada.  Vi o caso mal parado. Ele já não queria nada para ele nem queria que a irmã fosse comprar o que lhe faltava. Tive que convencê-lo, iríamos a correr, tudo muito rápido. Não podia ser ficar praticamente sem presentes. Respondeu-me que logo comprava, noutra altura, e depois logo dizia quanto tinha custado. Disse-lhe que isso não tinha jeito nenhum. Uma negociação difícil. Com a promessa de que despacharíamos o assunto em poucos minutos, lá acabei por convencê-lo e lá se resolveu tudo. Mas disse que não volta a ir às compras ao mesmo tempo que a irmã. E, de facto, mais vale tratar do assunto em duas expedições distintas, uma para cada um.

Mas, enfim, entregámo-los em casa resvés campo de ourique, presumo que ainda conseguiu ver o futebol todo (não sei se teve tempo para o banho e se não teve que jantar em frente da televisão...). Os primos, em contrapartida, gentileza do tio que lhes arranjou bilhetes, viram-no ao vivo, no Algarve.

Agora o que acontece é que, desabituada de estar no meio de muita gente, desabituada de algum stress (por irrelevante que seja), desabituada de pressas, chegada a casa, quando acabei de jantar, sentei-me aqui no sofá e foi como se estivesse anestesiada: caí num sono profundo. Não imaginam. Não conseguia acordar. Ferrada, ferrada, ferrada, como se tivesse vindo de correr a maratona.

Não sei se é desábito, se é deste calor ou se é de outra coisa: no outro dia o meu marido disse-me que eu passo meses sem ver a tensão arterial. Muito instada por ele, acabei por ir ver e estava baixíssima: a máxima parece que estava em 10 e picos e a mínima nem chegava aos 5. Na volta, também é isso.

Com esta situação, como poderão imaginar, nem faço ideia do que se passa no mundo nem consigo agradecer e responder os comentários. Vou retirar-me para os meus aposentos.

quinta-feira, julho 03, 2025

Quando vejo um cão assim só penso: 'porque é que o meu cãobeludo maluco não é só um bocadinho assim...?'

 

Quando cá temos animação à mesa, para ele não andar de roda de nós a fazer das dele, o meu marido arranja-lhe umas coisas para ele se entreter. No outro dia arranjou uma orelha -- mas, calma, uma orelha não humana (sei que é de um outro bicho mas não me lembro de qual). Uma orelha seca, creio que, a bem dizer, só a cartilagem.

Não ligou muito mas, por via das dúvidas, foi enterrá-la. 

Hoje desencantou-a. Estava mole, escura, com ar podre. Quando me aproximei para ver que porcaria era aquela que estava, todo lambão, a roer, parou e olhou-me fixamente, nitidamente numa daquelas: 'make my day'. 

Manda quem pode, obedece quem deve. Ou seja, desisti. 

E, de cada vez que eu me aproximava, parava de roer aquela coisa e olhava-me, não sei se com medo que eu fosse roubar aquela iguaria, se a preparar-se para defender o seu tesouro. Quando está assim, possessivo, mais vale não medir forças com ele.

Tivemos que usar o truque de tocar à campainha. Aí salta, vai a correr para o portão, para impedir que qualquer invasor ouse pôr o pé no jardim. Nessa altura, o meu marido foi resgatar aquela coisa, deitando-a fora, para bem longe.

Se fosse um cãozinho fofo, obedientezinho, deixava que lhe tirássemos os seus troféus. Mas não é. Sabemos, sabemos bem, que se atirará a quem o ousar. O professor que o treinou durante meses recomenda que o distraiamos, que não o enfrentemos pois ele é mais rápido que nós e o seu instinto falará sempre mais alto. Portanto, já percebemos: pode alguém ser quem não é? Mesmo que de um cão se trate.

Agora imagine-se como fico invejosa quando vejo um canito obediente como este aqui abaixo. 

Human and Dog Team STEAL THE SHOW | Britain's Got Talent

Witness the incredible bond and acrobatic power of Christian Stoinev & Percy as this dynamic human and dog team takes the Britain's Got Talent stage by storm! Their flawless routine combines amazing feats of agility and strength, leaving the judges in a spin and absolutely mesmerized. This unforgettable performance truly steals the show!


terça-feira, junho 17, 2025

3 postais

 

Postal 1

Quando, à tarde, fazemos caminhadas alargadas, por vezes cruzamo-nos com jovens que vêm de algumas obras e vão apanhar um autocarro lá mais ao fundo. Todos negros, pele absolutamente negra, 

Fico sempre agradada com o seu perfume. Cheiram a banho fresco, a cuidados com o corpo e com o rosto. 

Fico a pensar que devem dormir em bairros clandestinos, se calhar sem casa de banho, em casas frágeis e temporárias, ou em quartos, se calhar vários colchões no chão. Nas obras devem ter possibilidade de tomar banho e de se arranjar. Vêm bonitos, bem arranjados.

Devemos muito a estas pessoas que fazem as nossas casas e arranjam as nossas estradas e jardins e que vivem tão precariamente. Pessoas como nós.


Postal 2

Íamos a caminhar à beira da praia, sempre linda e ainda mais ao entardecer. 

À nossa frente ia um jovem alto e robusto, encorpado, aspecto de jogador de rugby. Vinte e muitos, trintas e poucos anos, pernas grossas, peludas, todo ele robusto e musculado, mas sem ser daquele género de ginásio, mais o género desportista de desporto de equipa. Cabelo curto um pouco despenteado, barba. Vestido casualmente, risonho, bem disposto. 

Ao lado dele, um outro jovem em tudo o oposto. Mal chegava ao ombro do calmeirão, perninhas fininhas, todo ele magrinho, um cabelo fino, algo esvoaçante, óculos brancos, graduados. Para acompanhar a passada firme e larga do grandão, o magrinho parecia uma frágil libelinha quase saltitando em volta. Ao ir atrás deles, pareceu-me reparar que, de vez em quando, as mãos quase se tocavam. Conversavam, riam, de vez em quando abrandavam ligeiramente, parecia-me que o grande lenhador percebia que o outro estava com dificuldade em acompanhar a sua passada ampla. 

Perguntei ao meu marido: 'Não é um casal, pois não?'. O meu marido ia focado no nosso cão e noutros pois há sempre quem deixe os seus sem trela e há que evitar encontros destes, pois facilmente tendem para o confronto. Olhou de relance e foi categórico: 'Não!'. 

Mas, nessa altura, pararam ambos, o mais baixo agarrou a cara do grandalhão, pôs-se em bicos de pés e deu-lhe um beijo na boca. O outro correspondeu. Deve ter sido o primeiro beijo pois desataram a rir como se tivessem dado um grande passo, depois abraçaram-se. Depois, prosseguiram de mão dada, o magrito quase esvoaçava de alegria. O grandão sorria também mas de forma contida, quase como quem não quer a coisa. 

Tomara que não seja apenas um namoro de verão, que seja um amor para a vida.


Postal 3

Passou por nós um homem gordo a andar de bicicleta. Ia de calções e tshirt mas, pela forma como ia sentado e pela sua forma avantajada, ia com o rabo meio de fora. Ao lado dele, correndo, preso por uma trela, um cão. 

Quando me cruzei com ele pensei que estava com ar de ir com os copos. 

Passado um bocado, já mais adiante, um estrondo, um grito. Olhámos. O homem estava no chão, a bicicleta caída, e o cão, solto, muito admirado a olhar para ele. O homem deu outro grito pelo cão, mas o cão estava imóvel., notoriamente assustado com a queda do dono. 

Parámos para vermos se era precisa ajuda. O homem, a custo, tentava levantar-se. Mais uma vez fiquei com a sensação que não estava especialmente sóbrio. O cão aproximou-se, arrastando a trela. Finalmente, o homem conseguiu montar-se outra vez na bicicleta, o rabo ainda mais de fora. E lá prosseguiu, meio aos esses. O cão ao lado, a levar o dono à trela.

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Dias felizes

Be happy