Mostrar mensagens com a etiqueta Árias e Duetos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Árias e Duetos. Mostrar todas as mensagens

domingo, abril 05, 2026

Renascimento

 

Dias de labuta, apetece-me dizer. Mas não digo, não gosto de exagerar. Nem gosto de apresentar como obra feita o que é, sobretudo, um desejo. Para onde olhe, vejo coisas que precisam de ser feitas.

Longe vão os tempos em que, ao contrário da maioria das pessoas e, em particular, a minha família, eu estava bem era com obras. Adorava idealizar, ter cá o senhor das obras, mostrar-lhe as minhas ideias, os meus desenhos que ele não percebia e fazia-os ele, à sua maneira, com um bocado de tijolo riscando o cimento ou um pau riscando a terra. E depois ver a evolução, montes de areia e brita, sacos de cimento, pilhas de tijolos. Era a minha praia.

E chegávamos ao fim de semana, depois de uma intensa semana de trabalho, e depois de um bocado a dormir (a bateria descarregava, ia abaixo, mas dormia um par de horas a mais e, num instante estava recarregada), varrer, lavar, sacudir tapetes e cobertas e colchas, e, à noite, pintar ou fazer de arraiolos até ser quase de manhã. 

Agora está bem, está... Olho para o muito que há para fazer e penso que não tenho energia nem para um décimo. É que, ainda por cima, dantes a natureza ainda estava a desenvolver-se, era vê-la a crescer. Agora desenvolveu-se, avança, cresce, e há que arranjar, abrir espaço, cortar, limpar. Tudo muito mais que antes. Ou seja, é um misto disso e da minha genica que já não é a mesma que antes.

Fomos almoçar fora. Descobrimos uma tasquinha simpática numa aldeia não muito longe. Come-se bem. Para começar, havia uma tacinha de azeitonas temperadas e uma cesta de pão variado. Num ápice voou tudo. Adoro pão com azeitonas. Depois pedimos uma entrada de ovos com farinheira. Óptima. Ovos macios, cremosos, pouca farinheira, salsa picadinha. A seguir mandámos vir bochechas assadas, uma dose para cada. Mas, nessa altura já apenas consegui comer duas, e eram pequenas, com salada, um arroz soltinho e umas batatas estaladiças. O meu marido, salvo erro, ficou-se por três. Pedi que pusessem o remanescente numa caixinha. Ainda dá uma refeição para um, nas calmas. Depois um petit gateau de chocolate do Dubai, quentinho, com gelado de pistaccio. Bem bom. 

Resultado: ao jantar apenas comi um pouco de iogurte grego natural, a que misturei sementes e um kiwi com um pouco de burrata. Mas, ainda assim, sinto que engordei cinco quilos. No mínimo.

Quando chegámos do almoço, fomos estender a roupa que eu tinha deixado a lavar.

A seguir, deitei-me debaixo da meia sombra da figueira e quase adormeci. Um dos lençóis estava estendido na corda que vai de um ramo da figueira até a um gancho no telheiro e, por isso, a aragem trazia-me o perfume bom do lençol lavado.

Mas foi sol de pouca dura pois sabia que havia muito trabalhinho à minha espera. Não apenas estava só a ouvir chegar mensagens como não queria deixar passar a tarde.

Varri, varri, varri. Bolotas secas, folhinhas secas de azinheira, caruma, pinhas roídas e secas. Mais a terra que se junta. Não sei quantos carrinhos de mão enchi e transportei e despejei. 

Parei já era quase de noite, e parei não porque já estivesse tudo feito mas porque receei que amanhã não conseguisse mexer-me.

Mas olho e vejo árvores que precisam de ser desbastadas, arbustos que rebentam demais, caminhos a precisarem de ser limpos. E dentro de casa há rodapés que, em algumas zonas, deveriam ser retocados. Sei lá. Sempre coisas para fazer. 

Ontem, quando se ligou a luz da cozinha, disparou o quadro elétrico. Percebemos, depois, que a lâmpada do candeeiro que está sobre a mesa, se tinha fundido. Mas pior, o casquilho parece que derreteu e não se conseguia tirar de lá. De cada vez que se ligava, o disjuntor disparava. Eu com uma lanterna e o meu marido em cima de uma cadeira a ver se conseguia sacar aquilo. Não conseguiu. Teve que tirar o candeeiro do tecto. Provavelmente com as humidades dos dias de muita chuva aconteceu alguma coisa. Agora, à noite, estamos à meia luz. Teremos que ir ver se encontramos uma peça que sirva de casquilho e se adapte àquele candeeiro. Ou seja, insignificâncias -- mas o pior é que, insignificâncias ou não, há sempre qualquer coisa mais para fazer.

E este domingo, logo de manhã, vem cá um senhor para dar um orçamento para tirar os cedros gigantes que tombaram ou caíram ou estão em vias disso e mais os pinheiros e mais roçar o tojo e etc. Não dá muito jeito, na manhã de domingo de páscoa, mas parece que é quando lhe dá jeito; por isso, muito bem, que venha. 

Nem quero pensar que me vou despedir de árvores que plantei, mínimas, e que agora têm muitos metros de altura e que não têm salvação possível. Uma dor de alma. 

E não sei se o excesso de água não continua a fazer estrago pois há mais um cedro e dois pinheiros completamente secos. Imagine-se: água como nunca se viu e as árvores secas. E mesmo um eucalipto gigante está com ar stressado, meio ressequido. A natureza tem coisas... Há que compreender e respeitar, bem sei. Mas o problema é que há coisas que custam a compreender. 

De qualquer forma, talvez para me consolar, penso que outras árvores crescerão, que a vida continuará como sempre continua, renascendo todos os dias.

E, enfim, é o que é. Os pássaros estão em festa, cantam, cantam. Esquilos é que nem sinais deles. Sempre gostava de saber onde é que, de vez em quando, se metem.

E eu chego a esta hora com sono. Mais uma vez não vou agradecer os comentários, um a um. Agradeço aqui colectivamente. É uma e tal da manhã e amanhã tenho que pôr a carne no forno cedo, para assar de vagar. E estar pronta quando vier o senhor. E o que me custa já levantar-me cedo...

O meu marido, há bocado, esteve a falar-me de umas coisas interessantes da Arte da Guerra, de Sun Tsu. Perguntou-me se eu sabia há quantos anos foi escrita. Respondi que talvez para aí há uns mil e tal anos. Não, foi escrita há mais de 2500 anos. Estava a fazer um paralelismo, por contraste, com os idiotas que agora não sabem causar outra coisa senão destruição e morte. Perguntei-lhe se não queria escrever um post sobre isso pois parecia-me bastante interessante (e eu, confesso, estava com preguiça de escrever, apetecia-me continuar a reler o Louvor da Terra de Byung-Chul Han). 

Mas ele também teve preguiça, também estava com sono, já foi dormir... E, por isso, aqui estou eu. Não tenho nada de interessante a reportar, só isto mesmo, mas a vida no campo também é um bocado isto, as pequenas coisas que vão surgindo todos os dias ou as pequenas conversas que se vão tendo.

_________________________________

Desejo-vos um belo domingo

Que renasça a esperança em melhores dias, que renasça a paz onde hoje há guerra

Que a vida nos sorria a todos

quinta-feira, março 07, 2024

E a luta continua...

 




Hoje a labuta em casa da minha mãe foi muito produtiva. Apesar de ter estado pouco tempo pois foi lá ter connosco numa corrida junto à hora de almoço, a minha filha deu uma ajuda considerável. Grande parte das gavetas e das prateleiras dos armários já está com muito pouco ou nada.

Ainda há conjuntos de copos que lá permanecem: os meus filhos não querem, eu já não tenho onde pôr e o meu marido recusa-se a transportar. 

E a cozinha está ainda com tudo. E a despensa continua com muita coisa. E nos roupeiros e cómodas ainda há roupas de vestir, de cama, de banho. O roupeiro que está no pequeno hall junto à casa de banho está ainda compacto de coisas até acima (e o roupeiro vai até ao tecto): cobertores, turcos, lençóis. 

A solução para tudo isso será a mesma que encontrarmos para os móveis. Tenho muita pena dos móveis, alguns muito bonitos, mas não há qualquer possibilidade de os aproveitarmos, são muito grandes e não cabem em lado nenhum.

Já deitámos fora muitas dezenas de sacos de lixo. Muitos papéis, muitos, muitos, e muitas revistas, muitas (de decoração, de tricot, de crochet, de saúde e nutricionismo, etc) e muitos exames médicos. Isso deitamos nós directamente para o lixo. 

E a senhora que cuidou do meu pai e que continuou a ir ver a minha mãe e que continuo a contratar para zelar pela casa tem sido incansável. De cada vez que lá vou, deixo as camas cheias com pilhas de coisas que penso que são boas e mal empregadas para deitar fora. A primeira escolha é dela e terá já, certamente, aproveitado muitas coisas. Para aquilo que ela não quer, chama uma senhora amiga dela que lá vai ajudá-la a fazer uma segunda triagem, levando a seguir para uma senhora que, segundo me dizem, leva para a família ou para conhecidos carenciados que vivem no Alentejo.

Tínhamos lá um bico de obra que era o cadeirão com motor eléctrico que se reclinava até ficar quase como cama e que se punha para cima para ajudar no levante. Tínhamos comprado para o meu pai a seguir ao AVC que o usou durante vários anos até que, um dia, ao cair no corredor, partiu uma perna e nunca mais conseguiu recuperar, ficando acamado desde aí. O motor estava óptimo mas, ao contrário do que pensávamos, o cadeirão não era de pele mas sim de um material sintético que, de início, a imitava muito bem. O pior foi o que aconteceu com o desgaste, ficou em mau estado, todo estalado e feio. A minha mãe tinha posto uma coberta em cima e, não se vendo, parecia bem. Mas não estava. Era nesse cadeirão que, sendo muito confortável e não tendo como ser facilmente removido, a minha mãe passou a sentar-se para ler ou para fazer tricot ou crochet. 

Mas sabíamos que, por baixo da coberta, estava feio. Só que era tão pesado, tão pesado, que não se via como movimentá-lo. Tinha entrado pela janela e tinha sido uma odisseia para o conseguirem levar até lá. Pois bem: hoje o meu marido desmanchou-o todo. Todo. E, portanto, assim desmanchado, foi levado até junto dos contentores, onde a Câmara o levará para os monos. Mas, pouco depois de o meu marido lá o ter posto, quando levou mais uma série de sacos para o lixo, disse que tudo o que era ferro já tinha voado.

E a minha filha levou mais algumas coisas, mas poucas. Não tem onde pôr e não quer encher a casa com coisas que ou não ficam lá bem ou não cabem. Faz bem. 

E nós trouxemos mais uns quantos sacos grandes. Mais sacos que tenho que esvaziar, arrumando tudo o que lá está dentro. Um exercício de criatividade e logística (e paciência). 

E trouxemos um espelho muito grande que veio no carro da minha filha pois não cabia no nosso. Já tenho a casa cheia de espelhos mas o que está sobre o sofá desta sala é ligeiramente mais pequeno do que devia (135 x 80). Este tem 150 por 90 cm e uma moldura mais larga. Acho que vai ficar muito bem. E este que está agora aqui irá ser posto na vertical no hall da suite.


E trouxe um outro que fez com que o meu marido quase se passasse (aliás, ele anda já totalmente passado com esta labuta que parece que não tem fim...). Era o espelho que estava no que era o meu quarto em solteira, espelho em que, na adolescência, muito me olhei. E é o espelho que aparece naquelas fotografias do dia do casamento. Apesar do fotógrafo ser um colega da faculdade, lembro-me de dizermos: 'Espera lá, é costume a noiva ver-se ao espelho...'. E ali estou eu, em duplicado, eu e a minha imagem, com o espelho de permeio. A minha filha também achou que o espelho era icónico, que era pena não ser aproveitado. Portanto, veio. É recortado, tem um feitio bonito. Mas é de madeira escura. Se calhar, vou pintá-lo e pô-lo numa parede da sala in heaven onde já tenho quatro de diferentes feitios e tamanhos.

E encontrámos mais algumas pequenas preciosidades. Entre elas, uma redacção que fiz com 12 anos. Quatro páginas de redacção. Lembro-me de me darem o mote e eu, instantaneamente, desatar a escrever, a escrever, a escrever quase até tocar a campainha e ter que acabar. Lembro-me que, enquanto isso, alguns dos meus colegas olhavam para o tecto ou em volta sem saber o que escrever. São coisas que nascem com a gente. Em contrapartida, íamos para o laboratório de electricidade e uns montavam circuitos, inventavam aparelhómetros e sei lá que mais e eu nem pó, olhava para eles sem perceber como sabiam mexer tão agilmente em tudo aquilo.

E encontrámos mais uma folha escrita, creio que deve ser mais uma daquelas cartas do início do século passado dos primos algarvios dirigida à minha bisavó, quiçá do primo presidente, nunca se sabe. Como eram cartas entre primos ou não assinavam ou escreviam apenas as iniciais (mas como era escrito a caneta de aparo, numa letra muito desenhada, em papel fininho, mais de metade eu não consigo perceber. Digo que as cartas são deles pois, quando a minha avó morreu, a minha mãe achou a caixa com aquelas cartas e lembrou-se que a mãe dizia que era correspondência entre a mãe e os primos, creio que os da Mexilhoeira Grande.

Bem. A nível de pertences pessoais de algum valor, material ou, sobretudo, estimativo, creio que já veio tudo ou quase tudo.

A menos que no sótão surjam novidades. O meu marido só lá foi espreitar e nem quis aventurar-se. Diz que está cheio. Diz que deve haver móveis pois está muita coisa coberta. Não faço ideia do que seja, há muito tempo que não ponho lá os pés. A escada é um bocado íngreme demais para a minha sensível alma que padece de vertigens.

À noite, saturados, fomos esticar as pernas até à praia. Estava um ventinho gelado. Mas, apesar de tudo, soube bem. Fotografei uma árvore pois as árvores, ainda mais se nuas, são muito bonitas à noite. E fotografei uma bandeira de Portugal que, não sei porquê, alguém ali pôs. Não percebi mas achei bonito.

Só vi um pouco de televisão: Maryland. Muito bom, na RTP 2. A ver se amanhã e depois não me esqueço de ver. Depois também vi o comentário do Luís Paixão Martins, hoje não tão interessante como ontem. Devia ter mais tempo para melhor nos surpreender com a sua argúcia e descontração natural. O pobre Calafate bem quer ombrear com ele mas ainda terá que dar muito ao pedal e comer muito pão com azeitonas para conseguir chegar aos calcanhares do LPM. Mas, enfim, é o que é.

 E, portanto, dito isto, está tudo dito por hoje.

________________________________________________

Um dia feliz

Saúde. Boa disposição. Paz.

segunda-feira, outubro 16, 2023

O que éramos, o que somos. Os que deixaram de ser.
E o mundo que não compreendo.

 


A minha mãe encontrou uma carteirinha de fotografias pequenas daquelas a que, há milénios, se chamava 'tipo passe' com algumas fotografias de colegas de liceu. Nem todas têm o nome atrás. Naquela altura devíamos pensar que não fazia falta escrevê-lo. Agora olho para algumas dessas, lembro-me das pessoas que elas representam mas não tenho ideia do nome.

Partilhei com outros colegas dessa altura. Duas dessas foram identificadas. Outras não. Desapareceram nos meandros da memória de toda a gente.

De uma disseram que não está bem da cabeça, ausente, desinteressada do mundo. Fez-me muita impressão, isso.

Claro que, de tudo, o que me faz impressão são os vários que já morreram. Parece-me uma coisa muito contra natura. Já falei disso e estou a repetir-me. Mas a sério que isso me incomoda muito.

Não sei se também falei no seguinte: dou por mim a olhar para as fotografias em que estão os que já morreram. Tento perceber se, neles, naquela altura, já alguma coisa poderia fazer prenunciar o que iria acontecer. De uma delas já não me recordava. Ao ver as fotografias, reparo que estava sempre um pouco isolada, parecia um pouco distante. Ou triste. Um outro era muito divertido, gordinho, muito simpático. Vejo-o nas fotografias. Qualquer coisa nele me parece agora assimétrico. Uma outra era muito carismática quer na maneira de ser quer na maneira de se vestir. Vejo-o nas fotografias. Parecia quase nossa mãe, muito mais desenvolvida, rosto já um bocado marcado. Uma outra, médica, disse-me agora que foi terrível, que era a médica dela. Como me viu muito perturbada, disse-me que naquela família todos têm morrido de cancro. Ela disse-me isso como para me dizer que eu não estivesse impressionada pois ela já estaria 'fadada' à morte por aquela doença. Mas eu fiquei a pensar que os filhos e netos dessa que morreu devem estar bem apreensivos com essa triste sina.

De uma outra de quem fui muito próxima e a quem depois perdi completamente o rasto, disse-me a minha mãe que, tendo ela engravidado ainda miúda, foi afastada, levada para uma quinta que tinham no campo.

Mas agora soube que está bem, que se reformou agora, que também tem uma mão cheia de netos. Vejo a fotografia dela. Tão bonita e alegre que era. Já aqui falei delas algumas vezes. Gostava de voltar a vê-la. 

Uma coisa que, olhando para aquelas fotografias, também reparo é que antes, alguns de nós, quando éramos pequenos parecíamos mais velhos. Por exemplo, uma que, deveria ter uns catorze ou quinze anos, já parecia ter uns vinte e tal ou trinta. Não dá para perceber. Mas mesmo as que tinham ar de miúdas, frequentemente se mostravam circunspectas. 

Poder-se-ia pensar que o mundo hoje é mais leve para as crianças.

E, contudo, sabemos como isso pode não ser verdade em algumas partes do mundo. A televisão mostra crianças a sofrerem horrores pelos quais nem os adultos deveriam passar. Vejo-as a falarem, cheias de medo, a chorarem e o meu coração quase me dói. Não falo por falar, não é uma metáfora. É mesmo dor. E é sobretudo uma grande incompreensão.

Por vezes penso que se um dia um grande meteorito ou uma qualquer outra coisa chocar com a Terra e der cabo de grande parte dela, se calhar até fará algum sentido já que parece que grande parte dos humanos têm uma pulsão brutal pela autodestruição, não só de si próprios e dos outros, como do seu habitat. 

Tirando isso, vou falar de quê?

_________________________________________________________________

Só se, por exemplo, partilhar um vídeo. Um qualquer. Talvez este aqui abaixo.

President Joe Biden: The 2023 60 Minutes Interview

President Biden answers questions on Israel, efforts to locate American hostages in Gaza, the state of the war in Ukraine and more during a wide-ranging conversation with Scott Pelley.

______________________________________________________

Lá em cima, Jakub Józef Orliński interpreta "Amarilli, mia bella" (Giulio Caccini)

A fotografia lá em cima é da autoria de Ali Jadallah/Anadolu Agency/Getty Images e outras poderão ser vistas no Guardian

____________________________________________________________

Desejo, a todos, uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Força. Paz.

Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. 

segunda-feira, setembro 11, 2023

Pena tiranna

 

Coloco-me objectivos impossíveis. Tinha-me atribuído uma pausa, tinha pensado que ia aproveitar o hiato para organizar coisas. Mas odeio compilações, arquivos, listas. Sou mais dada a criar do que a arrumar.

Portanto, andava a autoconvencer-me que estava a fazer uma coisa muito útil mas a minha natureza estava danadinha para me tirar o tapete. Temo isto. Sei que ela fica de tocaia, à espera que alguém lhe dê o pretexto. Posso até ser eu, incauta.

E foi o que aconteceu. 

Lembrei-me de ir ver: deixa cá ver se há por aí alguma coisa... 

Já antes tinha visto e, toda eu racionalidade, tinha desvalorizado. Coisa para pardais. Not for me.

Mas está bem, está. O milho ficou a germinar dentro de mim. 

Até que no outro dia, às minhas escondidas, fui conferir. Fui só por ir (faço de conta que me estou a deixar enganar). E, ao lá chegar e ver, voltei a pensar: não faz sentido e, além disso, já não há tempo.

Mas, quando a coisa assume contornos de missão impossível, o meu lado amalucado entra em acção. Felizmente nunca me deu para ser moça-forcada. Pego-os de frente, pelos cornos mas só de forem metaforizados. Sou maluca mas não sou parva...

E então atirei-me ao bicho. Mas uma coisa é querer, outra, bem diferente, é ser capaz de. 

Andei uns dias a capinar sentada. Dei no duro mas não acontecia nada. Mas é aquela coisa: não desistir, estar a postos para quando a coisa se der. 

E deu. 

Só que, se já era apertado, agora ainda mais. Ou seja, neste momento não sei se vou conseguir. Não sou uma máquina em que se possa carregar um botão e as palavras desatem a aparecer. Precisava de mais tempo para que a maturação pudesse acontecer nos seus tempos naturais. Mas, por algum motivo que alguém -- que não eu -- talvez consiga esclarecer, parece que gosto de funcionar sob pressão, estando até às vésperas sem saber se vou ser capaz. Mas confiante de que, querendo muito ser capaz, haverei de sê-lo.

Se calhar não percebem de que é que estou a falar. Mas não posso dizer. Ou melhor, não quero. Não sou supersticiosa mas não gosto de falar nas coisas antes de as coisas serem.

Portanto, deixemo-nos de flaflus e deslizemos para lugares brancos em que o talento é inquestionável.

Jakub Józef Orliński – Händel: "Pena tiranna" (Amadigi di Gaula)

__________________________________________________

Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Boas vibes. Paz.

quarta-feira, abril 19, 2023

Pie Jesu

 


Por vezes tenho vontade de não escrever pois sinto que as minhas palavras podem poluir um ambiente que se quer puro, imaculado.

[Vou apenas abrir um parêntesis para dar uma explicação. Num dia em que várias coisas deixaram de funcionar, uma delas foi o computador. Fiquei com ele avariado, inacessível, com todos os transtornos e perdas que, como é fácil imaginar, daí advieram. 

Algumas coisas estavam salvaguardadas mas as mais recentes, talvez do último mês, não. É imperdoável e uma insensatez da minha parte, bem sei. Num dos dias, quando saí, deixei uma cópia a fazer e, quando cheguei, à noite, vi que tinha havido um problema qualquer mas, nas minhas múltiplas e por vezes sobrepostas actividades e com a canseira com que tenho andado, pensei que tinha que ver, depois, o que se tinha passado... e nunca mais de tal me lembrei. Mas, na minha cabeça, a coisa ficou como se tivesse feito a cópia.

Portanto, creio que há algum trabalho de escrita que pode ter ido à vida. Ainda vou ver se há salvação mas, se houver, só o saberei daqui por algum tempo.

Isso causou-me uma alteração substancial de planos.

Mas não dramatizo. No esforço de recuperação que tenho andado a fazer, descobri coisas que julgava perdidas e outras que nem me lembrava de ter feito. Geralmente há em tudo um lado positivo e pode muito bem ter acontecido que este tenha sido um mal que veio por bem. E já fiz a agulha e já estou a reorganizar-me dentro desta nova realidade.

Claro que tive que comprar um novo e começar a ajustá-lo a mim, passo a passo. Não será a mesma coisa que desbastar um cavalo, bem sei. Mas quase.

Até há muito pouco tempo não tinha que me preocupar com nada disto, havia sempre alguém que se ocupava do assunto. Agora, embora pudesse recorrer a ajudas, não quero. Tenho que me tornar autónoma em muitas coisas e esta é uma delas.

De qualquer forma, tenho perdido tempo e tempo e tempo. 

Enfim, coisas que acontecem. E bola para a frente]

Mas, dizia eu, que há situações em que devemos abster-nos de palavras, de palmas, quase até de respirar. Tudo em nome de respeitar o silêncio para nos podermos genuinamente encantar com o que nos é dado ver ou ouvir. A voz de Malakai Bayoh, de 13 anos, é de outro mundo. Belíssima, belíssima. Claro que recebeu um Golden Buzzer. Mas mais do que a chuva de papelinhos dourados é a expressão emocionada e são as lágrimas de quem o escuta que melhor definem o momento de excepção a que ali se assiste.

Malakai Bayoh interpreta de forma superlativa e muito comovente  'Pie Jesu'


_____________________________

Quanto à belíssima fotografia lá em cima, vencedora do prémio Sony, saberão certamente que não é uma fotografia. Nem as duas mulheres são duas mulheres. Tudo não passa de fruto da Inteligência Artificial. Por isso, Boris Eldagsen, seu presumível autor não aceitou o prémio e lançou o tema para a discussão. Quais os limites? Ou não existem limites? 

________________________________________

Desejo-vos um dia bom
Saúde. Lucidez. Harmonia. Paz.

quarta-feira, abril 12, 2023

Manuel Beja, o pobre chairman, versus Mariana Mortágua, a inquisidora, e mais uns quantos -- para quê estas secas que não se aguentam?
Passo

 




Dia tranquilo e produtivo. Começo a pôr em marcha o que espero que venha a ser, em parte, a minha segunda vida. Estas fases em que começo a pôr-me em campo, a aquecer os motores e a estudar as pistas são muito motivantes para ti. Vibro agora como vibrava aos dez, aos vinte, aos trinta anos. Ainda sou aquela que gosta de avançar destemidamente em territórios desconhecidos.

Outro momento especial aconteceu quando, a meio do dia, calhou estar com uma pessoa que esteve a contar-me a sua vida. Aquele fenómeno que tanto me acontece, de uma pessoa que não me conhece e que chega ao pé de mim e começa a contar-me a sua vida -- os momentos mais marcantes, a descida aos labirintos mais profundos do desgosto e do medo --, voltou a acontecer. Fico sempre muito impressionada. E fiquei também muito impressionada com a capacidade de superação e com a forma inteligente e positiva como encara a vida.

Do que se tem passado por cá, no burgo, na política nacional, lamento dizer: nada me inspira. 

Vi há pouco um pobre homem a ser interrogado há mais de cinco ou seis horas numa comissão de inquérito. E parece que ainda dura. Uma aberração. 

O meu marido contou que viu a Mortágua a inquirir o senhor em moldes que lhe pareceram pidescos (com quem ele falou, o que disseram, etc), irrelevâncias que não se percebe em que contribuem para alguma coisa. 

Eu já não consigo. 

Aliás já nem percebo o que é que andam para ali a fazer, a fazer perder tempo a uns e outros. Alguma vez são precisos estes show-offs para se perceber que o Pedro Nuno Santos levava aquilo tudo pela rama, whatsapp e o escambau, delegando coisas importantes num esdrúxulo como o Huguinho? Precisa-se disto para se saber que na TAP sempre se viveu à tripa-forra, à grande e à francesa? Acho que não. Mesmo com a malta a ter que lá meter carcanhol para a empresa se aguentar, continuaram a tratar-se como nababos (grandes ordenados, grandes prémios, grandes indemnizações, grandes compras). Qual a novidade disto? Com verdinhos que têm como experiência profissional serem gente aparelhística ou académicos ingénuos, como querem que os que têm rabo pelado mudem um milímetro nas suas práticas? Como querem que estes verdinhos tenham competência para enquadrar gente experiente ou sabida ou para tratarem de assuntos complexos?

Impossível.

Por isso, que carnaval é este destas comissões de inquérito? Serve para quê? Só se for para épater les bourgeois ou, mais portuguesmente falando, para entreter o pagode.

Não tenho pachorra. 


Só me apetece é deslocar-me para a minha nova actividade que tanto anda a absorver-me e que tanto prazer me dá. 

Isso e, ao fim da tarde, ir regar. O urso cabeludo arrancou (e escavou em volta) vários aspersores da rega automática. Por isso, pego na mangueira e rego eu as zonas que não levam água da rega. Adoro andar ali, quase ao pôr do sol, a regar, a ouvir e a ver os pássaros. 

A pessoa de quem acima falei esteve a contar-me sobre as suas múltiplas actividades e sobre os seus passeios. Um dia destes vai para Barcelona para assistir a um evento e, quando se aproximar o verão, larga amarras e vai fazer praia para a beira do Mediterrâneo ao longo de um ou dois meses. Sente que está na hora de gozar a vida, livre de peias e obrigações. Contei-lhe que, desde que deixei de trabalhar, tive um joelho inflamado, covid, a minha mãe internada, e que, agora, tenho que acompanhá-la em médicos e exames. Por isso, a única coisa que me apetece é estar sossegada, desfrutar a casa, os momentos de quietude, de tranquilidade, coisas simples. Lá virá o tempo em que voltarei a ter vontade de sair por aí, de viagem. Agora fico feliz com o que houver de mais simples.
_______________________________________________

Lá em cima, Maxwell Thorpes tem uma incrível actuação no Britain's Got Talent

As pinturas são, respectivamente, de Anna Ancher, Sunlight in the blue room, Summer evening at Skagen de Peder Severin Krøyer Waterlilies Morning with Weeping Willows de Claude Monet
_________________________________________

Um dia bom
Saúde. Serenidade. Paz.

domingo, abril 09, 2023

A pura fruição do corpo

 

Hoje estou outra vez um bocado cansada mas, desta vez, acho que tenho justificação. Varri a casa toda por dentro, lavei uma colcha, lavei um tapete, estendi-os ao sol, varri cá fora, reguei, apanhei ervas. Há bocado, quando me levantei, estava toda dorida. Notoriamente falta de hábito. Face a toda as circunstâncias, há já algum tempo que não metia mãos à obra para uma faxina a preceito. O meu marido bem me avisou que amanhã, dia de páscoa, não me conseguiria mexer. Mas o tempo estava bom, a casa precisada e eu com vontade de trabalhos físicos que me pusessem o corpo a mexer.

Também fiz uma caminhada enquanto exercitava os braços (e a mente).

E falo na mente porque, enquanto andava ia a pensar que o corpo é mesmo um animal amestrado que, quando deixa de ser exercitado, se esquece das habilidades que antes fazia com uma perna às costas. 

No outro dia, cá em casa, quis mostrar à minha neta as dificuldades que tenho quando, na hidroginástica, tenho que fazer uns movimentos com as pernas e outros, não equivalentes, com os braços. Quis mostrar-lhe a concentração que é precisa. Mas, ao querer mostrar-lhe, parece que o meu corpo não queria elevar-se no ar. Saltar à tesoura para os lados ou com uma perna para a frente e outra para trás, só por si, é coisa que faço nas calmas dentro de água. Elevo-me bastante bem, obrigada. Mas fora de água...?

E o que eu saltava, senhores. Gostava de saltar em comprimento e em altura, gostava de trepar, de correr. Em miúda, quer as minhas avós, em casa de quem eu ficava por vezes, moravam num sítio muito mais elevado em relação à escola, quer a minha casa era numa zona alta, bem mais do que o liceu. E o que eu adorava, mas adorava mesmo, largar a correr, correr tão velozmente como se voasse. Ganhava embalagem nas descidas e quase parecia que não conseguia parar.

Agora quis saltar, elevar-me no ar enquanto abria e a fechava as pernas, e tive que me concentrar e convencer-me que era capaz. Caraças.

Tenho que me mexer, exercitar, voltar a ter domínio sobre o meu corpo. 

Esta pasmaceira e espapaçamento em que tenho estado desde que tive covid faz com que até varrer, limpar a casa ou arrancar ervas me custe como se tivesse estado a cavar batatas de sol a sol. Não pode ser.

Por isso, ver estes fantásticos vídeos aqui abaixo soube-me como uma bênção. E não é apenas pela dança alegre, é também pela voz capaz de cantar. Há tanto tempo que não canto que, se quiser cantar, acho que não me sai nada. Caraças. A gente enferruja se não praticar. Não pode ser.

Não sei se será a coisa mais apropriada para aqui ter na Páscoa mas fruir o corpo é uma coisa boa para todos os dias, Natal, Páscoa, 25 de Abril ou 1º de Maio.

Veja o que acontece quando um dançarinos de Boogie Woogie e um de West Coast Swing improvisam
Sondre Olsen-Bye e Ardena Gojani dançam pela primeira vez


O contratenor e dançarino de break Jakub Józef Orliński | Retrato do multi-talentoso cantor de ópera

Ele parece um anjo e pode cantar também como um. O contratenor Jakub Józef Orliński encanta o público com sua voz aguda e simultaneamente sonora. Mas Orliński não se destaca apenas no palco da ópera. Para contrabalançar o seu trabalho operático, faz breakdance a um nível que também vale a pena ver. No caso de Orliński, a alta cultura encontra o estilo de rua. Acrescente-se a isso sua aparência extraordinária e charme incrível, e não é de admirar que o jovem polaco pareça não ter problemas para atrair até mesmo um público jovem para a ópera. Antes de uma apresentação no Théâtre des Champs-Élysées em Paris no outono de 2022, Orliński falou sobre os vários aspectos de sua vida. O resultado é o retrato de um jovem cantor excepcionalmente talentoso que olha para o futuro com curiosidade.

_____________________________________

Um belo dia de domingo
Saúde. Tudo a mexer. Paz.

domingo, dezembro 18, 2022

Um belo sábado pré-natal com almoço internacional, futebol e gelado à mistura
[E ainda os 10 melhores locais portugueses para os nómadas digitais]

 


Este sábado foi dia de almoço de pré Natal. Depois de gripes, viroses, covides, vómitos, diarreias e tudo o que esta saison tem trazido a novos e velhos, eis que todos parecem estar bem. Claro que ainda há rescaldos (tosses, narizes para assoar, etc) mas já todos se declaram bem. 

E uns tinham dito que estavam com vontade de sushi e outros de comida indiana e, portanto, hoje a mesa foi posta com take aways

De manhã fomos, de novo, caminhar para a praia e às onze e meia estava a encomendar comida aqui e ali. Depois foi buscar e desandar rapidamente para casa, entrar a correr e acender luzinhas all over e eis que já estava toda a gente a chegar.

A mesa foi montada com os comes na sala de jantar mas ficou como bancada de self service pois refeiçoámos na rua, no terraço. 

E estava um sol tão branco que o toldo teve que ser aberto e o chapéu de sol teve que ser montado. E uma temperatura amena. 

A seguir jogaram ao stop online e divertiram-se, e dali seguiram para acompanhar e assistir a um dos meninos que tinha jogo de futebol. Também lá fomos ter mas mais tarde pois ficámos a arrumar a casa. 

Tive vontade de gritar por ele mas os outros meninos aconselharam-me a manter-me calada pois, segundo eles, seria um pouco constrangedor para o futebolista ter a avozinha a gritar da bancada. Acatei. 

A seguir foram todos para casa do futebolista excepto nós dois que fomos passear com o cão para o parque; e de lá viemos para onde estamos agora: in heaven

Mas, como sou gulosa, antes ainda nos fomos meter no meio do trânsito lisboeta, em pleno último fim de semana antes do natal, para comer um geladão à maneira. Adoro um bom gelado em qualquer altura do ano mas tenho que admitir que, não sei porquê, prefiro o inverno. Não sei se é uma questão de contraste de temperaturas se é uma questão de mística. Estou é cada vez mais exigente. Há agora imensas geladarias mainstream que têm gelados amarelos, azuis turquesa, rosa pink e toda a espécie de artificialidades e banalidades. Não consigo. No outro dia estava completamente de desejos por um. Entrei em três geladarias perto da praia e não consegui escolher um sabor. Tudo aquilo se adivinhava excessivamente doce, excessivamente mole, excessivamente banal. Outro dia, estávamos a passear com a minha mãe na baixa e aconteceu o mesmo. Os gelados pareciam iguais aos outros. Fui ver duas e saí assim como entrei. 

Aqui, in heaven, ainda não circulámos no exterior pois chegámos já de noite. Mas, pelo menos, não entrou água dentro de casa. Temos sempre receio que, com a força da chuva ou do vento, alguma telha se desalinhe e seja para a desgraça. Felizmente não.

Curiosamente a casa não estava muito fria. O termos mudado as portas e as janelas revelou-se uma decisão muito acertada. O isolamento térmico agora é outra coisa. Dantes, quando chegávamos, estava um gelo, o ar estava irrespirável de frio e húmido. Agora é tranquilo. E agora está o ar condicionado ligado aqui nesta sala e também é outra loiça. E o aparelho está ali num cantinho, não chateia nada. Bati-me contra isto durante umas duas décadas. Achava que iam ferir de morte a estética da casa. Nada. Um conforto incrível e a gente quase não dá por eles. Está este aqui, está outro mais potente na sala de jantar e estar e outro na cozinha. Deixámos de ter frio dentro de casa. Às vezes reconheço que o meu fundamentalismo estético prejudica o conforto e, quando finalmente cedo, constato que afinal a estética não saiu tão beliscada quanto eu temia.

Este domingo veremos como estão as coisas lá fora. Se calhar há cogumelos do tamanho de árvores, há esquilos às dúzias e raposas sedutoras refasteladas em sumptuosos mantos de musgo aveludado. Logo vos conto.

_______________________________________________________

Entretanto, partilho um vídeo curioso. Uma jovem fala de como Portugal é um país bom para expatriados e nómadas digitais poderem viver. Mostra alguns dos melhores locais que, segundo ela, são bons e em conta. 

Best Places to Live in Portugal for Expats and Digital Nomads

Portugal is one of the best places to live in the world for expats and digital nomads, but which city should you choose? Find out in this video about the Top 10 Best Places to Live in Portugal. 


01:34 #10 - Coimbra
02:25 #9 - Setúbal
03:08 #8 - Braga
03:55 #7 - Nazaré
04:54 #6 - Ponta Delgada (Azores)
06:01 #5 - Algarve (Faro, Albufeira, Portimão)
07:31 #4 - Porto
07:59 #3 - Madeira Islands
09:35 #2 - Lisbon Neighborhoods (Principe Real, Alfama, Alcantara, Belem)
11:42 - Cascais
11:50 - Sintra
12:51 - Almada
13:01 #1 - Ericeira

______________________________________________________________________________

Pinturas de Fujishima Takeji na companhia de La Camerata Chromatica que interpretam Moribondo mio pianto - Michelangelo Rossi
_____________________________________________

Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Boa sorte. Alegria. Paz.

sábado, dezembro 17, 2022

Uma sexta-feira com pouco de friday

 


Chegar a uma sexta-feira e ter que madrugar é uma coisa pouco simpática. Diria mesmo: pouco civilizada.

Se há coisa que almejo é poder acordar às horas que acordar, não ter que me levantar cedo e andar em contra-relógio,  cronometrar o que faço, a contar os minutos, a ter que me aperaltar à hora em que deveria estar a entrar no segundo sono. E tudo à justa. Engolir o pequeno almoço à pressa, lavar os dentes, mal ter tempo para olhar para o espelho e... mal dou por mim já estou sentada e pronta para a primeira reunião do dia.

E, aí chegada, eis que, estando já todos, constatamos que todos menos o 'artista convidado'. Passa um minuto e nada. Passam dois minutos e nada. Fico impaciente. Alguém contacta o retardatário. Entra pouco depois, que não tinha reparado nas horas. Não consigo dizer que não faz mal. Faz. Cada vez estou menos tolerante a atrasos. Frequentemente começo as reuniões antes de estarem todos. Quem não está, estivesse. Não suporto que alguém disponha do tempo dos outros, forçando-os à inactividade indesejada. Quando chegam, está a reunião em andamento. Geralmente não voltam a atrasar-se.

Outra coisa que também me custa cada vez mais são as pessoas que falam pelos cotovelos e que, quando se apanham com direito de antena, o usam e abusam sem respeito pela paciência dos outros. Para dizer uma coisa que se diz em menos de um minuto, dão voltas e voltas ao bilhar grande e a gente tem que aguentar ´para perceber a que propósito vem tudo aquilo e até que resolvam chutar à baliza. E, então, acontece-me interromper, dizer que já percebi e que digam onde querem chegar. Outras vezes faço ainda pior: interrompo e digo eu, em três tempos, o que o outro para ali anda a rabear. 

Penso que, quem é interrompido, deve achar que sou mal educada. Se calhar, sou. 

Mas, sinceramente, que se lixe: também eu acho que são mal educados os que, sem respeito, abusam da paciência dos outros. Mas, enfim, esforço-me por me controlar. A verdade é que reuniões que poderiam duram meia hora acabam por demorar três e quatro horas.

À hora de almoço fui para junto da natureza. 

Desesperada por não ter que aturar gente faladora, procurei a companhia das árvores, dos pássaros, da aragem. 

Sol de pouca dura.

Uma sucessão de telefonemas e de maçadas forçaram-me a almoçar já passava das três. E à primeira garfada na boca chegou uma chamada pela qual esperava com uma certa expectativa.

Por isso, acabei de almoçar tarde e as restantes horas foram igualmente preenchidas. E, com isto, já ia a chegar a casa da minha mãe quando me lembrei que me tinha esquecido de uma chamada crítica na qual era suposto tratar de um assunto que me preocupava há tempo. Como foi possível? Como fui esquecer-me? Fiquei a pensar: desinteresse, cansaço? Alguma vez, antes, eu ia esquecer-me de fazer uma chamada daquelas...?

Depois, já em casa da minha mãe, e ainda estava com chamadas. Uma sexta-feira com muito pouco de happy friday. Um saco.

Sorte que, vinda de lá, tarde e más horas, fomos passear para a beira da praia. Noite. Quase sem vivalma. Frio, o ar húmido. Gosto do ar assim. O frio percorre-me e eu sinto que é uma injecção de saúde. Acelerei. Apetecia-me andar depressa. O mar imenso, majestoso, um som quase discreto. O cão feliz da vida, a correr, a andar apressadamente, o rabinho a dar a dar, a farejar as pedras, a aspirar a maresia.

Voltámos para casa tarde, o pobre do cão já deserto por dormir sossegado. Dorme agora, enroscado. E eu vou fazer o mesmo.

____________________________________________________

Mas, antes, deixem que partilhe convosco um belo, belíssimo, jardim e, a seguir, um loft, estúdio de artista

Visitando os jardins murados isolados em Petworth House 

The World of Interiors apresenta o Livro de Visitantes com Caroline Egremont na Petworth House. Como atual guardiã da Petworth House, Caroline recebe-nos nos jardins privados murados, localizados na paróquia de Petworth, West Sussex.

À medida que percorremos a paisagem pitoresca, desenvolvemos uma compreensão de como e por que Caroline guiou o fluxo dentro do espaço por meio do uso de pérgulas e passagens habilmente definidas: “Existem três arcos alinhados, ao longo do jardim de seis acres. E a razão para os arcos estarem alinhados é porque os cavalos e as carruagens costumavam descer para pegar os produtos da horta para levar para casa. 


Esta casa é o sonho de todo o artista - ele mora num loft industrial tipo armazém gigante
Ele sonhava desde criança em morar num loft todo aberto, estilo industrial, armazém com pé direito alto, espaços amplos. Morar e trabalhar no mesmo lugar...

O artista plástico Sandro Akel recebeu-nos na sua casa incrível para mostrar o estilo de vida descomplicado e muito inspirador!
_______________________________________

As fotografias são algumas das belíssimas que fazem parte da série 50 Times People Snapped A Picture And It Turned Out To Be An ‘Accidental Renaissance’ e vêm na companhia de Iestyn Davies que interpreta Handel: Saul, HWV 53, Act I: "Oh Lord, Whose Mercies Numberless"

___________________________________________

Desejo-vos um bom sábado
Saúde. Boa onda. Paz

segunda-feira, dezembro 12, 2022

Paula Rego recordada por Lila Nunes

 



Conheci a Paula Rego em 1985 – vim de Portugal como au pair para ajudar o marido dela [o artista Victor Willing] que tinha esclerose múltipla. Os seus filhos estavam crescidos pelo que eu não precisava de cuidar deles. Foi um ótimo tempo. Dei-me bem com a Paula desde o início. Vi-a pela primeira vez quando ela estava prestes a sair para o teatro - ela era muito glamorosa. Ela disse "Olá" brevemente e acrescentou que sentia muito por se ir embora e disse-me que me veria mais tarde naquela noite ou no dia seguinte. Saí e, quando voltei, a Paula estava a tomar uma taça de champanhe com uma de suas filhas, a Vicky, e convidaram-me para tomar uma – claro, tomei várias – e foi uma ótima noite.

A Paula tinha o dom de deixar as pessoas à vontade. Era uma boa ouvinte, interessada no que dizíamos, dedicava tempo às pessoas, não fazia julgamentos. Falávamos sempre em português. Não sei se ela sentia saudades de Portugal, mas conversávamos muito sobre isso: o comportamento dos portugueses, a política, a culpa e a vergonha associadas ao catolicismo, e falávamos sobre ser mulher.

As minhas funções eram ajudar o Vic com as suas pinturas e transferi-lo de sua cama para uma cadeira de rodas. Paula mostrou-me como esticar uma tela. Não falávamos sobre como esse momento era difícil para ela – ela seguia em frente. Ela preparava o café da manhã para o Vic, partia para o estúdio e, na maioria dos dias, voltava a tempo de preparar o jantar dele. Tenho a certeza que foi por eu fazer parte do cenário doméstico que Paula e eu nos aproximámos tanto. As nossas conversas eram principalmente sobre trabalho porque era através do trabalho dela que tudo acontecia. Quando o Vic era vivo, ela trazia trabalho para casa, pendurava-o na parede e ele comentava, dava conselhos. Depois de ele ter morrido, ela dizia sempre que sentia falta dele e que era muito difícil sem ele. Ela teve que fazer tudo sozinha e isso foi muito difícil.

Pensando bem, acredito que ela estava a lidar com uma depressão há muito tempo. Aprendeu que a maneira de lidar com isso era continuar a trabalhar. Num domingo, ela disse: “Posso fazer um desenho seu?” Eu nunca tinha servido de modelo antes. Não pensei nisso, só estava a tentar ajudar – simplesmente aconteceu. Lembro da Vicky a dizer: “Não podia acreditar, fui lá em casa e lá estava você, como a coisa mais natural, posando para a Paula...”

Paula e eu mantivemos contato e, em 1994, ela ligou para perguntar:
Poderia ir ao estúdio? Então, no meu dia de folga – eu trabalhava como enfermeira – eu vim e foi aí que [o quadro] Mulher Cão começou. Às vezes, Paula contava-me a história em que estava a pensar. Noutras ocasiões, ela tentava uma pose para mostrar o que estava a procurar. Assim que eu me posicionava, ela dizia: “Muda esse braço, muda o pescoço”. Outras vezes dizia: “Sim! É isso." Ela fazia muitos desenhos para encontrar o que procurava… Uma das poses mais difíceis foi em 1995 – a pintura de uma mulher onde não fica claro se ela está a puxar as cuecas para cima ou para baixo. Todo o meu corpo tinha que estar rígido. Foi muito difícil – os meus joelhos dobravam-se – tive que ficar parada por horas.

A Paula gostava de rotina. Trabalhávamos das 10h às 19h. A primeira coisa, tomávamos café e conversávamos, e isso podia durar 10 minutos ou duas horas, dependendo de como fosse a conversa. Eu dizia: “Escute, estamos a conversar, a conversar – temos que trabalhar”. E ela dizia: “Tudo isso faz parte do trabalho”. Desenvolvi um modo zen, distanciei-me da pose. Eu não iria olhar para o que ela estava a fazer. Ouvíamos ópera pela manhã – bem alto. A Paula tinha um sentido de humor maravilhoso. A estranheza de outras pessoas fazia-a rir, como as pessoas reagiam – a comédia da linguagem corporal. Costumávamos chamá-lo de “aquela coisa”.

A Paula uma vez disse sobre mim: “Ela é realmente eu mesma”, e o que ela quis dizer, eu acho, é que ela podia ver através de mim e revelar o que quer que estivesse na sua mente. Não é a mim que me vejo nas pinturas, é principalmente a ela – à sua vida interior – e às vezes não é nenhuma de nós. Nunca penso: aquela ali sou eu. Penso: lembro-me daquela pose, como era difícil.

A saúde da Paula começou a piorar por volta de 2009 e ela disse: por que não passa a trabalha para mim a tempo inteiro? E assim fiz. Ela continuou a trabalhar todos os dias até quase ao fim. E quando ela estava muito doente para ir ao atelier, ia eu a casa dela e passávamos o dia a desenhar com pastéis. Ela continuou, não desistiu.

Mesmo agora depois da sua morte – pensarei sempre nela e verei coisas que seriam boas para o seu estúdio. Eu costumava comprar os adereços. Sempre que eu saía para fora, voltava com coisas: bonecas brasileiras, roupas de criança, um sombrero de Monterey. Certa vez, a Paula pediu-me para encontrar um papagaio de cerâmica numa viagem a Brighton. “Precisamos de um papagaio”, disse ela. Não consegui ver muitos papagaios em Brighton, mas encontrei um.

A sua morte deixou uma lacuna na minha vida. Agora encontro-me num limbo. Sem saber o que fazer. Sinto muita falta dela. Ela era muito generosa, mas a sua confiança em si mesma era facilmente derrubada: uma crítica negativa poderia fazer isso. Ela trabalhava e trabalhava, mas precisava de alguém que lhe dissesse que o trabalho era bom. Quando começámos aqui, quase ninguém vinha ver o trabalho até que estivesse pronto. Ela não atendia o telefone, as pessoas deixavam mensagens. Talvez a dúvida fosse necessária para o trabalho. Lembro-me dela a dizer: “Não, não, não…” antes de fazer uma qualquer mudança numa pintura. Eu pensava: “Ai meu Deus... mas estava tão bom...” Só depois de  ela fazer a alteração é que eu percebia.

Não sei se, mesmo no final da vida, ela sabia o quanto era amada e respeitada como artista. “Lila, imagine, a Tate vai fazer uma retrospectiva”, disse-me. E eu disse: “Pelo amor de Deus, já deveria ter sido feita há muito tempo.” A visibilidade do ano passado deu-lhe um impulso maravilhoso – ela foi à abertura e foi fantástico. Quando fui, senti... vi o fim.

__________________________________________ 

Cometi a ousadia de aqui ter o artigo na íntegra uma vez que o jornal é de leitura aberta (embora apele à generosidade dos Leitores). A tradução foi feita a meias entre mim e o tradutor da Google a partir do artigo Paula Rego remembered by Lila Nunes no The Guardian integrado na série The Observer's obituaries of 2022

A fotografia lá em cima mostra Paula Rego no seu estúdio em 2018 e é da autoria de Phil Fisk/The Observer. A segunda, propriedade de Lila Nunes, mostra-a com Paula Rego em 2018.

A pintura é Dog Woman, 1994, de Paula Rego (com Lila Nunes como modelo). Fotografia: Copyright Paula Rego, Cortesia Marlborough Fine Art’

A música, "Un bel dì vedremo (Madama Butterfly)" de Puccini por Renata Tebaldi, é uma escolha minha

____________________________________________________________________________

Paula Rego viveu entre 26 de janeiro de 1935 e 8 de junho de 2022

_________________________________________________________________

Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Compreensão. Paz.

segunda-feira, dezembro 05, 2022

Um ouriço-cacheiro, um ninho na roseira, uma avenida com árvores que têm pombas brancas suspensas, duas pessoas iguais. E etc.

 

Este meu fim de semana foi muito atípico, com alguns imprevistos francamente dispensáveis. Pelo que intuo, as coisas poderão não ser o que parecem e todos os transtornos poderão ter sido (e estar a ser) em vão. Mas, enfim, se eu tiver razão, menos mal. 

Por seu lado, os meninos finalmente parece que estão em fase de recuperação depois de se terem ido contagiando uns aos outros e depois de se estarem a livrar de todas as sequelas destas mal arraçadas gripes A (se é que tem sido isso que tem andado de uns para outros). Mas este fim de semana apenas os vimos por fotografias e vídeos. Apesar de se dizerem bem, estão fanhosos, ranhosos e com tosse. Mas já não há nenhum com febre ou com diarreias e, por isso, já se sentem bem. Espero que a partir de agora estejam bem e que a minha vida também se simplifique (e, claro, que a minha mãe fique bem) para que possamos estar outra vez todos juntos.

Apesar de tudo, antes de irmos para os nossos afazeres de ir buscar isto e aquilo, levar isto e aquilo, estar, voltar a ir levar isto e aquilo, conseguimos ir num saltinho até à Avenida da Liberdade, para um passeio com flavour natalício. Uma coisa é passar de carro e outra, bem diferente, é andar a pé a ver as montras, a ouvir as diferentes línguas de quem passa (muitos italianos!). As árvores estão lindas com pombas brancas suspensas. Muito bonito, simbólico. 

As grandes marcas estão lá todas a preços galácticos (ou seja, com preços à altura da carteira do Ronaldo e da sua Georgina do rabo alçado, mas muito aquém das carteiras dos vulgares mortais). Acho que, mesmo que me saísse o euromilhões, não quereria dar mil euros por uns pirosos ténis de plástico dourado ou dois mil por um vestidinho da treta, curto e de alças. Não gosto de gastar dinheiro mal gasto. Claro que poderia abrir uma ou outra pequena excepção como, por exemplo, num casacão largo de veludo muito fino em profundo azul marinho, quiçá Armani. Mas, enfim, preços à parte, há montras bem apelativas e é engraçado olhar lá para dentro, para os clientes. Como o zoom da minha máquina fotográfica não funciona, não tenho motivação para fazer as minhas habituais reportagens. Tenho que ver se arranjo tempo para ir ver se tem reparação.

Tive vontade de ficar por lá numa esplanada mas não apenas o nosso urso (antes felpudo e agora um fininho dog quase skinhead) estava connosco e costuma fazer má vizinhança pois, quando assentamos arraiais, seja onde for, acha que tem que nos guardar e em cada pessoa vê um possível agressor, como estava chuviscoso, pouco convidativo para esplanar (não confundir com explanar). Além de mais, o nosso programa de festas para depois de almoço estava carregadinho. Por isso, fomos comprar uma pizza e viemos despachá-la a casa antes de nos pormos a caminho.

Por tudo isto e porque quase nenhum tempo tive para mim, pouco tenho a dizer. 

Só me ocorre contar que, no outro dia, quando passeávamos à noite, o nosso amigo deu uma corrida sobressaltada em direcção a um muro. Lá chegado, estacou a ladrar, posto assim naquela posição de quem descobriu coisa, de quem está à espera que lhe deem pretexto para saltar em cima (quando aprender a falar, em ocasiões destas, certamente dirá 'make my day'). Olhei espantada e não vi nada. E, aqui chegada, repito em minha defesa: era de noite. Além disso, sou míope e não uso óculos. O meu marido ao princípio também não percebeu. Depois disse: é um ouriço. Aproximei-me. Há montinhos de caruma nos passeios e era isso que me tinha parecido. Mas, vendo bem, era mesmo: um ouriço! Usei o telemóvel e dei-lhe uma flashada a ver se o apanhava. E apanhei. Aqui o têm, abaixo. Até parece que era de dia, tal a luz que lhe foi despejada em cima. Ali estava encostadinho, certamente assustado com o ladrar e os saltos da fera, com a nossa presença.

No dia seguinte passei lá de dia e nem sinal dele. Aquilo que podemos observar, de dia, é uma pálida parte da animação que é a vida nocturna.


Também posso referir que no outro dia tive uma agradável surpresa. No meio dos ramos da roseira trepadeira junto à nossa entrada, um ninho. Um ninho relativamente pequeno mas, reparem abaixo, uma graça. Penso que deve ter sido feito relativamente depressa pois não tenho ideia de o ter visto antes. Ainda não tinha ovinhos lá dentro. Fiquei encantada. Os pássaros confiam no nosso pacifismo e isso deixa-me feliz. Costumo ver os ninhos nas árvores, em cima, e aqui também temos dois encostados à parede da casa, perto do telhado. Devem ser feitos com lamas e ramos pois parece que estão mesmo colados à casa. Este aqui não, este está pouco mais que à altura da minha cabeça, à altura das nossas mãos.


Também posso contar que hoje, quando íamos a passar na Avenida, vi um amigo nosso sentado numa esplanada. Ri-me, tirei os óculos escuros para me aproximar e cumprimentar. Espantei-me por ele ter ficado impassível e até surpreendido a olhar para mim. Em situações normais, ter-se-ia levantado e vindo a rir para nos cumprimentar. Foi nessa altura, quando estava mais próxima, que percebi que era uns palmos mais alto do que o nosso amigo. Disfarcei, segui, e disse ao meu marido: 'Viste? Não é igual, igualzinho ao Zé?'. O meu marido limitou-se a dizer: 'O dobro do Zé'. Rebati: 'Igual, igual. Só que é mais alto que o Zé. Só percebi isso quando me aproximei'. O meu marido acabou por me dar razão: 'Ao princípio também pensava que era ele'. 

Mas fiquei impressionada. Como é que é possível? Duas pessoas com caras iguais. Iguais. Que coisa tão estranha, tão estranha.

A mim já me aconteceu confundirem-me com outra pessoa e jurarem a pés juntos que era igual e que até a voz era igual. Uma coisa nos limites da improbabilidade. 

Enfim. 

E não me ocorre mais nada para contar.

___________________     ______________________     ___________________

A música com que me despeço não tem propriamente a ver com o que escrevi. Mas agrada-me e quero ficar com ela aqui a acompanhar-me.

Lea Desandre interpreta Handel: 

The Triumph of Time and Truth, HWV 71: "Guardian Angels, Oh, Protect me"


___________________     ______________________     ___________________

Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira
Saúde. Confiança. Boa sorte. Paz.